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terça-feira, 28 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28222: Humor de caserna (284): 1 de junho de 1965, Alcanena: o dia da minha ida às "sortes" (inspeção militar) (Carlos Pinheiro, ex-1.º cabo trms op msg, Centro de Mensagens, STM/QG/CTIG, Bissau, 1968/70)


















Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto e Imagens: Carlos Pinheiro (2010)
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


A Inspecção Militar 

por Carlos Pinheiro

A Inspecção Militar era um acontecimento local, regional e nacional pois era aí que eram lidas “as sortes” dos rapazes que nesse ano faziam vinte anos, os “mancebos”, já em linguagem militar. A mesma era feita nos primeiros dias de junho no ano em que os “mancebos” completavam 20 anos. 

Não era preciso fazer-se inscrição. Eles não se esqueciam de convocar a malta através de edital e ninguém faltava porque era perigoso.

De qualquer forma, sempre havia um ou outro que antecipadamente, à socapa, dava à sola e ia até França. Era a época da emigração clandestina, "a salto”,  como se dizia, porque, não nos esqueçamos, o país estava em guerra em três frentes – Angola, Guiné e Moçambique.

Mas o acto da Inspecção em si merece ser recordado. Em Alcanena, a malta comparecia no Salão Nobre do Edifício dos Paços do Concelho. Depois de identificados, passado pouco tempo era distribuído um papel para ser apresentado aos médicos militares que estavam no gabinete ao lado, o gabinete do Presidente da Câmara, mandavam despir o pessoal e ali estavam, os mancebos, todos nus com um papel na mão, até à chamada ao gabinete.

Os mancebos eram medidos, pesados, auscultados e lá vinham todos contentes, “apurados” para todo o serviço militar. Logo ali, havia sempre um soldado ou um cabo que vendia uma fita verde e vermelha a significar o apuramento e que a malta, para ser bem referenciada, colocava logo na lapela do casaco do fato que era estreado nesse dia.

Os raros, raríssimos, que ficavam “livres”,  também tinham direito a uma fita, mas neste caso branca, que também era paga e nesse ano, em Alcanena, falando da freguesia, houve dois que ficaram “livres”,  sabe-se lá porquê.

Havia ainda os “esperados”, que passavam para o ano seguinte, porque não tinham peso, porque tinham peso a mais, ou por outro motivo qualquer. 

Depois o dia era de festa por um lado, mas por outro também de alguma preocupação acerca do futuro que já estava marcado,  com a mobilização para Angola, Guiné ou Moçambique.

 Nesse dia havia almoço em casa com a família, mas o jantar era de convívio entre todos e o baile até às tantas estava garantido e era sempre muito concorrido.


Carlos Pinheiro
Alcanena 01.06.1965-

Anexos:


À direita, acima :  Reprodução do Cartaz do Baile da Inspecção de 1965, devidamente selado e assinado por um companheiro que já nos deixou, o Arlindo Abrantes.

À esquerda, acima: mancebos de 1945 - Fotografia do jantar da véspera da Inspecção no Restaurante do “Primo” Necas que nessa noite esteve por nossa conta.

À direita, ao lado: Fotografia do palco do baile da Inspecção de 1965, com dois Conjuntos, no Pátio do lagar de azeite da Viúva de José Bento, junto à Igreja

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos e itálicos: LG)


2. Nota sobre o autor, Carlos Pinheiro (ex-1.º cabo trms op msg, Centro de Mensagens do STM/QG/CTIG, Bissau, 1968/70: 

(i) de seu nome completo, Carlos Manuel Rodrigues Pinheiro

(ii) natural de Alcanena, reside em Torres Novas; 

(iii) assentou praça na EPC em Santarém em 10 de outubro de 1967: 

(iv) chumbou  no CSM, como tantos outros; 

 (v) tirou a especialidade no RTM no Porto;

 (vi) veio para o  BT em Lisboa; 

(viii)  foi colocado no QG da 2.ª RM em Tomar;  

(ix) foi mobilizado para o CTIG pelo RI 15 de Tomar;

Carlos Pinheiro, natural de Alcanena,
a viver em Torres Novas

 (x) embarcou  em 23 de outubro de 1968 em rendição individual destinado ao BCAÇ 1911 (não no T/T Niassa, como  vem acima na BD,  mas no T/T Uíge)

(xi) passou a sua comissão no Centro de Mensagens do STM no Quartel General de Bissau; 

(xii) também trabalhou, nas horas vagas, num das casas comnercais mais conhecidas de Bissau, que pertencia a um parenhte seu, o Costa Pinheiro;

(xiii) é bancário reformado:

(xiv) integra a nossa Tabanca Grande desde 25/10/2010; 

(xv) tem 92 referências no nosso blogue.


3. Comentário do editor LG:

Este testemunho do Carlos Pinheiro é de grande valor etnográfico e histórico. É um dos melhores textos que já aqui publicámos sobre a inspeção militar ou o dia da ida à sortes (*). Temos um vintena de referências no blogue com este descritor. 

O Carlos Pinheiro  não descreve apenas um procedimento administrativo a que todos nós,  mancebos de 20 anos, estávamos sujeitos, ao tempo do serviço militar obrigatório; retrata um verdadeiro rito de passagem da juventude portuguesa durante o Estado Novo.

O cartaz que ele anexou é, por si só, um documento valioso. A sua linguagem gráfica diz muito sobre a época: feito à mão, com letras de diferentes tamanhos e cores, anunciando "O Tradicional Baile da Inspecção", em Alcanena, a 1 de junho de 1965, com os conjuntos "Os Tártaros" e "Os Isolé". Vê-se ainda o selo fiscal e a assinatura exigidos para a licença do espetáculo, lembrando como até um simples baile estava sujeito ao controlo administrativo.

Há, neste texto do Carlos Pinheiro, vários aspetos que merecem ser sublinhados.

Em primeiro lugar, a universalidade da convocação. Não era preciso o "mancebo" inscrever-se. O Estado, através das conservatórias do registo civil, sabia quem eram os jovens que completavam vinte anos e convocava-os por edital, afixado à porta da Càmara Municipal. A ausência podia ser entendida como fuga ao serviço militar, com consequências graves. (Mesmo assim terá havidos mais de duzentos mil faltosos, entre 1961 e 1974).

Depois, o ambiente da inspeção. A descrição dos rapazes nus, à espera da chamada para o gabinete do presidente da Câmara transformado em consultório médico, é muito expressiva. Misturavam-se o embaraço, o pudor, a curiosidade, a ansiedade e até algum humor. Era um momento que quase todos os homens daquela geração recordam, passadas décadas.(Claro que nem todos, como o Alberto Branquinho, na Covilhã, nesse ano,  tiveram direito a uma presença feminina, nessa altura ainda insólita, como era o caso da enfermeira que  coadjuvava  os médicos, em geral dois, sendo um militar).

Muito interessante é também a referência às fitas, vendidas no fim por um Cabo RD: fita verde e vermelha para os "apurados"; fita branca para os "livres". Eram afixafas na lapela, do lado esquerdo (do coração). É um apontamento etnográfico deveras curioso, do qual muitos de nós já estávamos esquecidos.

Outro aspeto muito importante é o contraste entre a festa do dia das "sortes" e a compreensível apreensão em relação ao futuro.

De manhã fazia-se a inspeção. Ao almoço reunia-se a família. À noite havia jantar entre amigos e, em muitas terras, como Alcanena,  baile.

Mas todos sabiam que, dentro de um ano, dois ou três, no máximo anos, muitos daqueles jovens estariam já em África. Em 1965, a guerra em Angola decorria desde 1961, na Guiné desde 1963 e em Moçambique desde 1964. O baile era, em certo sentido, a última grande festa da juventude antes da incorporação militar. Parece um baile inocente (e até num sítio insólito: o lagar de azeite da viúva do Zé Bento, a par do jantar no restaurante do "primo Necas")... Só no fim se percebe que aquele jantar e aquele baile eram, para muitos, a despedida de uma juventude que nunca mais voltaria a ser a mesma.
 
Este testemunho merece voltar a ser reproduzido no blogue, agora ilustrado com uma pequena BD.  Completa muito bem outros relatos que temos recolhido sobre a inspeção militar, mostrando que ela não era apenas um exame médico: era um ritual cívico, social e masculino, vivido pela comunidade inteira, marcado por símbolos (as fitas), cerimónias (o jantar e o baile), expectativas e receios. 

Era, afinal, a passagem oficial da adolescência para uma idade adulta que, para muitos, começava com uma farda e terminava, um, dois ou três anos depois, numa comissão em África.

Antes da guerra, "ir às sortes" era uma festa para os rapazes em Portugal...Depois de 1961, com o início da guerra em Angola, deixava de ser "brincadeira", toda a gente era apurada, desde que não fosse... "cego, surdo e mudo", e tivesse "o dedo de dar ao gatilho" (havia quem o cortasse)...Toda a gente, salvo seja... Os filhos das elites tinham todas as condições para se safarem,  se não de ir à tropa, pelo menos de ir parar ao mato...

A imagem dos "cegos, surdos e mudos" é uma metáfora, uma hipérbole mas não longe quanto isso,  da realidade social sentida pela nossa  geração. A mobilização aumentou muito com a guerra, e a margem para dispensas diminuiu drasticamente (mesmo os de "pés-chatos" era apurados para os serviços auxiliares). 

Coexistia, entretanto,  uma outra realidade: a desigualdade social. Nem todos partiam nas mesmas condições. O dinheiro, as cunhas, o estatuto social, a escolariodade, etc., podiam fazer a diferença.

Havia jovens das famílias mais influentes que conseguiam adiar incorporações, obter relatórios médicos favoráveis, prolongar estudos, ingressar em cursos de oficiais milicianos com percursos diferentes ou, em alguns casos, emigrar legal ou clandestinamente, emfim,  permanecer no estrangeiro largos anos, etc. 

Isso não significa que as elites escapassem sempre à guerra (muitos oficiais, médicos, engenheiros e estudantes combateram em África e alguns morreram lá), mas as possibilidades de evitar o teatro de operações eram, em média, muito maiores para quem dispunha de recursos, influência ou redes de contactos.

Seria precisa outra BD para apanhar e dar conta dessa realidade complexa,  sem cair na caricatura nem na demagogia.

Há, de facto, uma mudança dramática de significado entre o antes e o depois de 1961. Até aí, "ir às sortes" era quase um ritual iniciático. Os rapazes estreavam o melhor fato, iam ao fotógrafo, almoçavam com a família, jantavam com os amigos e acabavam a noite no baile. Era uma celebração da entrada na idade adulta.

Depois da guerra, o mesmo ritual passou a ficar  carregado  com a sombra ou o fantasma da guerra. Todos sabíamos que ela ia sobrar para todos nós, os nascidos entre o início dos nos anos 40 e os princípios de 50.  O baile continuava, mas já não era inocente. No meio da música havia um pensamento que ninguém verbalizava em voz alta: "Daqui a um, dois ou três anos posso estar em Angola... ou na Guiné... ou em Moçambique."
 
Esta BD é também uma bonita homenagem ao nosso Carlos Pinheiro, que soube preservar fotografias, cartazes e, sobretudo, a memória de um ritual que desapareceu com o fim do serviço militar obrigatório tal como a nossa geração o conheceu.

Escolhi, com a cumplicidade da menina IA do ChatGPT, a linha clara franco-belga, inspirada em grandes mestres da Banda Desenhada como  Hergé, Jacques Ferrandez e Juillard, com cenários rigorosos, expressões contidas e um +aleta de cores ligeiramente sépia, evocando fotografias da época, ou seja, a memória dos anos 60 que não voltam mais. 

É uma BD onde não está apenas o  Carlos Pinheiro e os seus camaradas que foram às sortes em 1 de junho de 1965, em Alcanena; está lá uma geração inteira que foi "às sortes" a pensar que ia a um passeio, uma jantar de conterrâneos e um baile improvisado e acabou por ir parar à  guerra.

De qualquer modo, queremos surpreender o Carlos Pinheiro, agora "herói de banda desenhada". Achamos  que ele vai sorrir ao reconhecer-se naquele rapaz de vinte anos, de fato domingueiro, com uma fita verde e vermelha na lapela... sem imaginar que, vinte e nove meses depois, em 23 de outubro de 1968,  pisaria o chão verde-rubro da Guiné.

________________

Nota do editpor LG:

Último poste da série : 23 de julho de 2026 Guiné 61/74 - P28206: Humor de caserna (282): Todos com eles no sítio, todos aptos para o serviço militar (Jorge Cabral, 1943-2021)

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28206: Humor de caserna (282): Todos com eles no sítio, todos aptos para o serviço militar (Jorge Cabral, 1943-2021)

 

Prompt e orientação  editorial: Luís Graça
Texto: Jorge Cabral (2009)
Geração gráfica assistida por IA:
Google (2026). Gemini (versão de 22 de julho de 2026) 
[Grande modelo de linguagem].



1. É uma expressão idiomática, muito portuguesa. Diz-se de um homem "com eles no sítio", que é viril, corajoso. ("Cabra-macho" era a expressão equivalente em crioulo, usada pelos guerrilheiros do PAIGC)...

O  Jorge Cabral (1943-2021), o impagável "alfero Cabral", é autor deste microconto. Faz parte das suas "estórias cabralianas" de que ainda publicou em vida  um livro, volume I.  

Filho de militar, tendo passado  (por pouco tempo) pelo Colégio Militar, era o menos "militar" dos "militares" que eu conheci na Guiné... Em 1969/71, enquanto comandante do Pel Caç Nat 63 (que esteve em Fá Mandinga e em Missirá, no sector L1, Bambadinca),  podia ser considerado o contraponto da "Spinolândia"... 

Spínola, dizia-se, como elogio, que era um general "com eles no sítio"... 

O tema dá "pano para mangas", e será glosado em próximo poste da série "Nomadizações de um marginal-secante". Para já, voltamos a reproduzir a já há muito esquecida estória cabraliana nº 46 (*).


Estórias cabralianas > Todos com eles no sítio...Apurados para todo o serviço militar

por Jorge Cabral

Pois, também eu naquela manhã de Junho me dirigi à Avenida de Berna, ao Quartel do Trem Auto, onde hoje funciona a [Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da] Universidade Nova [de Lisboa].

Éramos mais de cem, altos e baixos, loiros e morenos, alguns mancos, pitosgas muitos, um quase corcunda, três gagos e dois tontos.

Mandaram-nos despir e pôr em fila, numa literal e verdadeira bicha-de-pirilau.

Na mesa, um coronel, um major e um tenente médico, constituíam a Junta Inspectora. Um a um, fomos chamados diante do médico a fim de declarar se sofríamos de alguma maleita.

Após rápido e sumário exame, mesmo para aqueles que se disseram doentes, continuámos todos nus e encostados à parede, esperando o veredicto... que chegou num discurso patriótico do coronel. Falou de Aljubarrota, das picadas africanas, de heróis e da necessidade de homens valentes com “eles no sítio” e, por fim, concluiu:

– Todos aptos para o Serviço Militar.

Claro, pensei na altura, ainda nu e olhando os demais, todos tinham os dois no sítio. Juro que não vi nenhum com eles no pescoço, ou debaixo do braço
.

(Revisão / fixação de texto, negritos, parênteses retos, título: LG)


2. Comentário do editor LG:

O microconto do Jorge Cabral é um retrato irónico e vivo da inspeção militar, onde a expressão "com eles no sítio" ganha um duplo sentido: (i) o literal (todos os mancebos ali presentes tinham, de facto, "eles no sítio", os ditos cujos; e por esse facto passavam a ser "homens"); e (ii) o figurado (a virilidade, a bravura e a coragem que o discurso patriótico do coronel que presidia à junta, tentava evocar, era uma questão de anatomia e testosterona, desde que "certificadas" pelo médico).

É uma crítica subtil, mas acerada, à burocracia e ao ritual vazio da "ida às sortes", por trás daquilo que, em teoria, deveria ser um momento solene e dibno de seleção de homens "valentes", aptos, física, psicológica e socialmente, para a guerra. (**)

É lamentável que na altura, em 2009, esta estória tenha passado despercebida: ou talvez não, teve cerca de 500 visualizações, mas nenhum comentário (*)
___________________


(**) Último poste da série > 22 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28204: Humor de caserna (281): "Exame para ir à guerra", por Alberto Branquinho (excerto do novo livro, "Inventarium Vitae", 2026)

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28204: Humor de caserna (281): "Exame para ir à guerra", por Alberto Branquinho (excerto do novo livro, "Inventarium Vitae", 2026)











Prompt e orientação  editorial: Luís Graça
Texto: Alberto Branquinho (2026)
Geração gráfica assistida por IA:
Google (2026). Gemini (versão de 22 de julho de 2026) [Grande modelo de linguagem].


1.  A IA é uma menina muito púdica. Lida mal (ou não sabe de todo lidar) com a nudez, o corpo humano,  etc. E não adianta citar-lhe o aforismo hipocrático, "Naturalia non sunt turpia" (o que é natural, não envergonha). Foi o cabo dos trabalhos para "fabricar" estas pranchas de BD... Mas cá estão, depois de uma suada e assanhada negociação e de algum trabalho de "corte e costura", ilustrando este microconto (ou pequena crónica) com que o Alberto Branquinho abre o seu último livro, "Inventarium Vitae" (*).

Sim, porque a nossa aventura, antes de sermos chamados para "servir a Pátria", começava, um ou dois anos antes, com a "ida às sortes", ou seja, à "inspeção militar"... Dois dos nossos grandes humoristas, antigos combatentes, membros do nosso blogue, o Jorge Cabral e o Alberto Banquinho, escreveram sobre a "inspeção militar"... Ou mais exatamente sobre a "junta médica militar" de cujo veredicto dependia a sorte ou o azar dos mancebos que o exército queria nas suas fileiras, no tempo em que o serviço militar era obrigatório em Portugal

Temos cerca de duas dezenas de referências ao descritor "inspeção militar". Mas em geral o ângulo de abordagem é o do "dia das sortes", e o que isso representava como "rito de passagem" (do mancebo para o adulto), a sua importância social e cultural no "Portugal profundo" do antigamente... 


Alberto Branquinho
O ato médico em si, de verificação da fisiologia e anatomia dos mancebos, e as cenas mais hilariantes ou mais humilhantes que podia originar, escapa à maior parte dos autores que, "ad hoc", escreveram aqui no blogue sobre o assunto. 

Para o Jorge Cabral, genial humorista, a inspeção médica resumia-se afinal a "tê-los (ou não) no sítio" (sic), uma expressão idiomática bem portuguesa que consagrava o culto do machismo (o "cabra-matcho", da rapaziada do PAIGC). 

Esta, a "Inspeção Militar", do "alfero Cabral",  é uma das histórias de antologia do humor de caserna. Que haveremos de republicar, por estes dias de canícula.  

Outra história, de  fina ironia e clínica observação,  é do Alberto Branquinho, que publicamos hoje, com a devida vénia ao autor e à editora.  É como que um  "aperitivo",  
um convite e uma sugestão para os nossos leitores comprarem e lerem o livro. Reservamos, para outra ocasião, 
e para a série "Nomadizações de um marginal-secante", a análise mais detalhada do texto.

  
A . Exame para ir à guerra

por Alberto Branquinho


Estavam quase todos despidos, embora alguns ainda estivessem com meias e sem sapatos e outros com meias e sapatos calçados.

Uma mulher. de bata vestida, mas não abotoada, com cerca de 50 anos, chegou junto à porta. Acertou os óculos no nariz, olhou os rapazes, levantou uma folha de papel à altura dos olhos e chamou três nomes. Aproximaram-se os três. Ela observou-os Um deles tapava o sexo com ambas as mãos.

 Oh!,  oh!,  que é isso ? Estás com medo que te caiam ao chão ? Venham comigo.

Entraram num salão grande, com chão e paredes em cantaria. Estavam mais dois homens de bata, um com estetoscópio ao pescoço. Fazia frio lá dentro.

Foram pesados, medida a altura e observados os corpos nus, mandando-os rodar, mostrando frente e costas. Quando julgavam necessário, faziam a observação mais cuidada de alguma parte do corpo.

 Aqui parece que há varicocele (#)  — disse a enfermeira, palpando os testículos de um dos rapazes.

O médico, sentado à secretária, olhou por cima dos óculos.

 Abre mais as pernas, rapaz!  — ordenou ela.

Voltou a apalpar, agora com ambas as mãos.

— Não é nada, doutor. Está tudo bem.

A inspecção dos três foi dada por terminada. O médico, ainda sentado, estava a tomar notas. Recebeu os papéis, olhou, arrumou bem as folhas e, depois, olhou na direcção deles:

 — Podem vestir-se. Boa sorte! 

Mais tarde, consultadas as listas afixadas, constataram: "Apurado para todo o serviço militar".

In: Alberto Branquinho - "Inventarium Vitae: Escritos, Memórias e Olvidos". Lisboa: Edições Partenon / Chancela Sítio do Livro, 2026),  pp. 13-14 

(#) LG: Varicocele=dilatação varicosa das veias que drenam os testículos; surge na puberdade;  pode ser causa de infertilidade.

__________________

Nota do editor LG:

(*) Ultimo poste da série > 18 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28192: Humor de caserna ( 280): Treze sextilhas e um refrão para o nosso mano Jaime Silva, agora octogenário (Luís Graça)

segunda-feira, 13 de janeiro de 2025

Guiné 61/74 - P26384: Foi há... (2): 100 anos: A "saloiada" vem às sortes a Lisboa...enquanto bandos de operários, nas ruas, pedem "pão ou trabalho" ("O Domingo Ilustrado", nº 1, 18 de janeiro de 1925)... Estamos já a um ano e pico da instauração da Ditadura Militar.

 

Legenda: "Os Recrutas: Bandos de rapazes dos arredores, com os seus pitorescos trajes invadiram a cidade para a incorporação militar. No meio da monotomnia de Lisboa, o seu ar saudável e a sua indumentária característica aparecem como uma alegre saudação do campo. Oxalá so seus braços aprendam depressa o manejo das armas para as trocarem pela prosaica enxada, de glória humilde mas sagrada". Ilustração: B.B (pág. 1)


Fonte: Capa do semanário "O Domingo Ilustrado",  nº 1, 18 de janeiro de 1925,12 pp. (Custava 1 escudo.). Cortesia de Hemerateca Digital / Câmara Municipal de Lisboa.


Legenda: "A Parada da Fome: Bandos de operários percorreram a cidade pedindo pão com que matassem a fome. É um espetáculo desolador o que oferece uma sociedade que não consegue assegurar a existência dos que produzem. Sem revoltas e sem excessos contraproducentes, todos temos o dever de  arrumar melhor a vida. Por detrás de cada homem está um lar, e se o patriotismo é alguma coisa mais do que uma imagem retórica, façamos lares felizes para que a pátria possa viver". Ilustração: B. B. (pág. 12).

(Seleção, fixação / revisão de texto, reedição de imagens: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné, 2025)

1. Estávamos a um ano e 4 meses do golpe militar do 28 de maio de 1926, que levaria à instauração da Ditadura Militar (1926-1933) e do Estado Novo (1933-1974). (*)

Sobre este novo semnanário, "O Domingo IIustrado" (DI), escreveu Rita Lopes, na ficha histórica disponível em formato pdf, no portal da Hemerateca Digital / Câmara Municipal de Lisboa (**)

(...) Semanário editado regularmente, em Lisboa, entre Janeiro de 1925 e Dezembro de 1927. A sua curta existência coincide com um período de grande perturbação política e social, que muitos autores consideram mesmo de guerra civil latente, e que conduzirá à Ditadura Militar, instaurada pelo golpe militar de 28 de Maio de 1926.

 (...) [Espelha] uma imagem profundamente negativa da política, enquanto jogo protagonizado por partidos, e, consequentemente, da própria democracia, enquanto sistema político. Esta será a mensagem de fundo que trespassará subliminarmente todas as edições até ao golpe de 28 de Maio de 1926. Era então chegada a hora de aclamar sem reservas as forças que, sob o comando do general Gomes da Costa, se sublevaram em Braga e se põem em movimento para Lisboa para confiscar o poder. O DI está ao serviço da sua legitimação e da mobilização da nação: «Este Homem tem poder: Ajudemos este homem a salvar Portugal!» − proclama em primeira página, ilustrada com a bandeira nacional e uma fotografia di militar" (...)

Um dos fundadores e diretor do DI foi o conhecido  Leitão de Barros (1896-1967), professor, realizador de cinema (Nazaré, 1927; Maria do Mar, 1930: A Severa, 1931; As Pupilas do Semhor Reitor, 1935; Ala, Arriba!, 1942; Camões, 1946...), escritor, jornalista, dramaturgo, cenógrafo, pintor, próximo de figuras do poder (António Ferro, Duarte Pacheco, Salazar...) sem contudo ter sido um "salazarista" indefetível (ecompletamente esquecido depois do 25 de Abril).

 (...) "O seu interesse pelas artes gráficas levaram-no a Frankental, na Alemanha, onde fez a aprendizagem da heliogravura. Foi um difusor deste processo em Portugal que fez brilhar no DI e, posteriormente, no Notícias Ilustrado, que também dirigiu, e no Século Ilustrado." (**) 
_____________

Notas do editor:

(**) Vd. Rita Correia (10 de Novembro de 2007). «Ficha histórica: O Domingo Ilustrado (1925-1927)» (pdf). Hemeroteca Municipal de Lisboa. Consultado em 11 de janeiro de 2025.

sábado, 10 de agosto de 2024

Guiné 61/74 - P25829: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (29): Inspeção militar: "Ir às sortes", em Brunhoso, Mogadouro, 1967 (Francisco Baptista, ex-alf mil inf, CCAÇ 2616 / BCAÇ 2892, Buba, 1970/71, e CART 2732, Mansabá, 1971/72)

Capa do livro do Francisco Baptista,  "Brunhoso, Era o Tempo das Segadas - Na Guiné, o Capim Ardia" (Edição de autor,  2019, 388 pp.)


Francisco Baptista 

(i) ex-Alf Mil Inf, CCAÇ 2616 / BCAÇ 2892 (Buba, 1970/71) e CART 2732 (Mansabá, 1971/72); 

(ii) natural de Brunhoso, concelho de Mogadouro, Nordeste Transmontano;

(iii)  é autor do livro "Brunhoso, Era o Tempo das Segadas - Na Guiné, o Capim Ardia" (Edição de autor, 2019, 388 pp.);

(iv) integra a nossa Tabanca Grande desde 19/8/2013;

(v) tem cerca de 160 referências no nosso blogue;

(v) autor das séries: 

  • Memórias da CCAÇ 2616 (Buba, 1970/71); 
  • Brunhoso há 50 anos.

1.  Diversos camaradas já abordaram aqui, ao longo dos vinte anos do blogue, o tema da ida às sortes (ou, seja, a inspeção militar) (*)... Todos passámos por essa "experiência", no ano em que perfazíamos os 20 anos. Alguns ainda guardam memórias vivas  desse "rito de passagem" que, naquele tempo, para a nossa geração, representava verdadeiramente a entrada na vida adulta... 

Deixavam de nos chamar mancebos, rapazolas, gaiatos, canalha, meninos e moços, adolescentes, imberbes, etc., e  passávamos a ser adultos, homens de barba rija (... mesmo que a maioridade, legalmente, fosse aos 21 anos... até 1977!).

E tinha outras consequências, não apenas simbólicas, mas mais práticas,  para a grande maioria de todos nós o ser considerado "apto para todo o serviço militar", num tempo em que estava em vigor o SMO (Serviço Militar Obrigatório) e o país estava em guerra a milhares de quilómetros de casa, em Angola, Guiné e Moçambique... Dali a um ano, no máximo, éramos chamados para fazer a recruta, jurar bandeira, tirar uma especialidade, ser "mobilizado para o ultramar", formar uma unidade (batalhão) ou subunidade (companhia), fazer IAO, embarcar, desembarcar, pegar na G3 e ir para o mato, matar, morrer...

Há muita gente com muito talento para  a escrita no nosso blogue. Há textos que tèm direito a ser relidos como este, do Francisco Baptista, perdido na série "Estórias avulsas" (**). Esperemos que seja mais um incentivo para outros mandaram também, por escrito, para a publicação, agora no píncaro do verão, na série "Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços"... as suas lembrança desse dia da  "ida às sortes"! 



Ir às sortes", em Brunhoso, Mogadouro, 1967 

por Franscisco Baptista


Éramos homens, tínhamos força, confiança, tínhamos sonhos, queríamos conquistar as mulheres, queríamos conquistar o mundo, queríamos ser nós a governar a nossa vida.Éramos capazes de transportar sacos de trigo de 80 quilos ou mais, de ceifar três sucos de trigo como os mais velhos, de varejar as oliveiras e cavar tanto as oliveiras como as vinhas.

Sabíamos lavrar com vacas como com bestas, sabíamos semear o trigo e o centeio, plantar as batatas, as abóboras e as hortaliças.

Estávamos confiantes e preparados para entrar na sociedade dos adultos, era o nosso dia e toda a aldeia de Brunhoso iria ter orgulho nos seus filhos que tinham atingido a maioridade.

Tínhamos 20 anos e tinha chegado o dia das sortes.

Pela manhã fomos todos, a pé, até à vila, eram só cinco quilómetros e nós estávamos habituados a calcorrear os carreiros e caminhos do termo da aldeia. No dia anterior tínhamos ido todos, como a tradição mandava, tomar banho ao ribeiro da Lagariça.

Vestimos as nossas melhores roupas porque o dia era solene e de festa. Éramos quatro nascidos em 1947, o Amílcar, o José Luís, o Ernesto e o Chico (sou eu, pronuncia-se quase tchico por lá).

Outros quatro já tinham emigrado, eram eles, o António Borges e o Adelino para o Brasil, o José Maria e o Manuel da Glória para Angola.

Os meninos mortos de 1947, pois morriam tantos nesse tempo, não eram nomeados, nem chorados, pois eram anjos que tinham ido diretamente para o céu. Importa falar dos vivos e de todos, presentes ou ausentes, porque a tradição estabelecia uma irmandade entre todos os nascidos no mesmo ano.

Os da mesma idade eram os praças.
A razão deste tratamento teria a ver com o facto de todos assentarem praça no mesmo ano. O dia das sortes significava naquelas terras o dia da passagem à idade adulta, o dia da emancipação.

A inspeção não foi muito demorada. Numas instalações que a Câmara Municipal punha à disposição das Forças Armadas, despíamo-nos e íamos passando pelos médicos militares que avaliavam a nossa masculinidade e a nossa saúde.

Ficamos os quatro aptos para o serviço militar o que era sempre motivo de contentamento para o grupo, pois ninguém gostava de ser excluído. Era sinal de saúde e de que passávamos a ser cidadãos capazes de defender a nossa terra.

Ficar excluído era um anátema terrível que marcava um homem pela vida fora.

Ainda recordo tal como ele contava, a história da inspeção do "tio João Passarinho" que ouvi várias vezes, pois ele trabalhou muitos anos à jeira na casa do meu pai e já tinha trabalhado antes na casa dos meus avós paternos.

O tio João Passarinho era um homem valente e trabalhador, que sabia fazer todos os trabalhos do campo melhor do que ninguém. Desde cortar a erva nos lameiros à gadanha para feno, a tirar a cortiça dos sobreiros, ele sabia fazer tudo com destreza. Era todavia um homem franzino e baixo, com um metro e cinquenta de altura ou pouco mais. Viveu até aos oitenta ou mais anos e trabalhou sempre enquanto pôde.

Nunca teve férias nem reforma, como a maioria dos trabalhadores do campo desse tempo. Hoje se fosse vivo já teria mais do que 110 anos pois conheço um filho dele, o Joaquim, muito parecido com ele que apesar da idade avançada continua a trabalhar, já com 85 anos.

O tio João talvez nunca conformado por ter ficado isento do serviço militar, nos anos 20 ou 30 do século passado e porque gostava de efabular, contava que quando foi visto pelo médico militar no dia da inspeção ele lhe disse:

- Aqui está um homem bem constituído, alto, forte, espadaúdo. Temos um marinheiro!

Nunca eu o contrariei quando ele fazia estas afirmações e ouvi-as várias vezes. Tinha muito respeito por ele, desde menino fui criado na companhia assídua dele, era um homem respeitável, bondoso e trabalhador.

Sempre soube que dizia uma grande mentira, bastava olhar para ele, mas ele tinha direito a ter os seus defeitos e essa mentira, como outras em que era pródigo, não prejudicava ninguém.

Comprámos quatro foguetes e muitos rebuçados e regressámos à aldeia. Quando estávamos a um quilómetro, numa colina sobranceira, lançámos o primeiro foguete, os outros foram lançados já na aldeia. 

Demos a volta a todas as ruas a distribuir os rebuçados pelas raparigas, sendo naturalmente mais saudados pelas da nossa idade. Éramos amigos, tínhamos crescido perto uns dos outros, tínhamos entrado na escola ao mesmo tempo, tínhamos sobrevivido aos desejos próprios da adolescência com estoicismo e às restrições que uma moral rígida imposta, através da mãe, do pai, do padre, da professora e do falar do povo nos era imposta.

Por elas, vá lá e pelas outras, tínhamo-nos batido, em dias de festa ou de baile, com os rapazes duma terra vizinha. Muitas vezes os escorraçámos à pedrada, porque elas eram nossas e eles não se podiam atrever a conquistá-las ou a dançar com elas se algum dos nossos não gostasse. Toda a aldeia nos saudava com agrado, éramos os heróis do ano.

Fomos todos almoçar a casa dos meus pais, pois a minha santa mãe quis convidar-nos e fez-nos um almoço melhorado, um almoço de dias de festa.

Há dois anos o José Luís falou-me nesse almoço que eu já não recordava. Dos quatro que fomos à inspeção, o Amílcar e o Ernesto foram mobilizados para Angola, eu pra Guiné, o José Luís como foi sempre um bocado despistado, deve ter perdido o barco que o levaria para algum lado e fez a tropa por cá.

Quando acabou a tropa eu emigrei para o Porto os outros três para França. Dos outros, o António Borges, que nunca mais vi desde a adolescência continua no Brasil, o Adelino continua por lá também tendo-o visto nas duas vezes que ele visitou a aldeia. O José Maria e o Manuel da Glória regressaram de Angola com a descolonização, tendo o primeiro infelizmente morrido o ano passado de doença em Lisboa onde se tinha estabelecido com um negócio de padaria-confeitaria.

Ao Manuel da Glória nunca mais o voltei a ver, disseram-me que morará na Beira Alta ou Beira Baixa.

As "raparigas" da nossa idade, que eram dez, somente uma mora na aldeia depois de ter vivido cerca de 30 anos em França.

Só uma delas foi além da quarta classe tal como eu. Pertencia a uma família numerosa, com poucos recursos, mas era uma pessoa muito inteligente e, sendo sobrinha bastarda da professora, que pertencia a uma das três casas grandes da terra, terá sido provavelmente ela que a encaminhou para um convento de freiras. Na maioridade deixou o convento, constituiu família e passou a dar aulas no ensino secundário.

Desloco-me com alguma frequência à aldeia para relaxar no contacto com a natureza e sentir o ar mais puro, quente ou frio, conforme a estação, mas sempre agradável. No inverno chego a sentir saudades do ar frio e seco da minha terra. Da varanda da casa, agora quase sempre vazia, avista-se grande parte do casario da aldeia bem como pinheiros, sobreiros e alguns freixos que fazem parte da área agrícola e florestal da terra, e ao longe a paisagem típica dos montes e vales de Trás-Os-Montes que se estende por muitos quilómetros.

Ouço o silêncio duma terra que foi morrendo, que eu por vezes procuro preencher com memórias de há quarenta ou cinquenta anos, e então ouço o barulho próprio de uma casa onde viviam nove pessoas, o palrar das vizinhas, os gritos das brincadeiras dos garotos, o chiar dos carros de bois, os sons dos diferentes animais domésticos e o pregão da minha vizinha, a tia Clementina, a anunciar a sardinha.

Um caudal de memórias como o do Rio Sabor na primavera, que corre num dos limites da área agrícola da freguesia. Recordo estes rapazes e raparigas, conterrâneos da minha idade, e as vidas duras e difíceis que tiveram na aldeia e depois nos caminhos da diáspora.

Dizer que seriam pobres seria uma ofensa para eles, pois por lá os pobres eram os miseráveis que tal como os ciganos andavam a pedir de porta em porta. Os pais deles teriam uma pequena horta, algum campo para semear trigo e talvez algumas oliveiras. O sustento para a família vinha sobretudo das jeiras diárias, em tempo de colheitas para os lavradores. Sei que muitas vezes só comiam pão, batatas e caldo, mas nunca os ouvi queixar-se a mim que pertencia a uma família que sem ser rica era mais abastada.

Mas falar sobre esse mundo antigo e quase feudal é um assunto que dá pano para mangas. (...)

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos: LG)

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Notas do editor LG:


(*) Excerto de 4 de dezembro de 2013 > Guiné 63/74 - P12388: Estórias avulsas (73): O Dia das Sortes na aldeia de Brunhoso (Francisco Baptista)


Guiné 61/74 - P25828: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (28): Inspeção militar: "Ir às sortes", Sardoal, julho de 1972 (Luís Manuel Gonçalves, 1952-2019) (Excerto)


Sardoal é uma terra ribatejana que merece a nossa visita. 

Tinha c. 7,1 milhar de habitantes em 1950, hoje tem metade (3,5 mil). 

Perdeu seis filhos na guerra do ultramar / guerra colonial  (2 em cada um dos 3 teatros de operações).





"Ir às sortes", Sardoal, julho de 1972 

por Luís Manuel Gonçalves (1952-2019) 
(Excerto)



(...) A Inspecção Militar foi, durante muitos anos, um acontecimento de grande impacto social no concelho de Sardoal, e todos os anos mobilizava largas dezenas de mancebos para um ritual que marcava os mancebos para o futuro, porque cumprir o serviço militar não era uma rotina, especialmente em tempo de guerra, do que a Guerra Colonial é o exemplo mais recente.

Na forma como se descreve para 1839 ou com formas diferentes,  as “sortes” ou inspecções militares realizavam-se, anualmente, na Vila de Sardoal, nos Paços do Concelho (...)

A última inspecção militar que teve lugar no concelho de Sardoal e nos seus Paços do Concelho ocorreu em julho de 1972 e nela participaram os mancebos nascidos em 1952 (nos quais o autor destas linhas se incluía). 

Estava-se no auge da Guerra Colonial que se arrastava desde 1961 e que exigia contingentes militares cada vez mais numerosos. Só os jovens com graves deficiências físicas ou psíquicas ficavam “livres”, o que significava dizer dispensados de cumprir o serviço militar (em 1972, tanto quanto me lembro, foram apenas dois), podendo ficar “esperados”, voltando à inspecção no ano seguinte. 

Nos “apurados”, a maior parte era para todo o serviço, havendo, no entanto, os apurados para o serviço auxiliar, se portadores de uma deficiência física ligeira, de que a mais frequente eram os “pés chatos”. 

No final da inspecção, os inspeccionados iam à “Loja do Tramela”, também conhecida por “Casa do Pombo” comprar fitas, verdes e vermelhas para os “Apurados”, que prendiam à lapela com um alfinete, havendo de outras cores para as situações de “Livre” ou de “Esperado”, mas já não me recordo quais eram essas cores. 

Recordo-me de ninguém querer ficar “livre” porque, segundo se dizia, era um sinal de menor hombridade e virilidade.

Como já referi, o dia da Inspecção Militar era um dia importante na vida dos jovens rapazes e, de certa forma, marcava a passagem da adolescência para a idade adulta. Nas décadas de 40 e 50 do século XX era o dia em que muitos rapazes estreavam o primeiro fato completo, o “fato da inspecção”, só voltando a estrear outro no dia do casamento. (...)
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Observ.:

(*) "Luís Manuel Gonçalves (Entrevinhas, 1952 — Sardoal, 2019) interessou-se pela história do Sardoal enquanto professor do Externato Rainha Santa Isabel de Sardoal (1975-1980), tendo dedicado ao seu estudo uma parte significativa da sua vida.

Foi também associativista, com destaque para a direção do GETAS – Centro Cultural de Sardoal, entre 1986 e 1992. Foi ainda Vereador a Tempo Inteiro da Câmara Municipal de Sardoal entre janeiro de 1994 e outubro de 1999, seguindo como Vice-Presidente até 2009.#

Autor da página Sardoal com Memória.

Email de contacto do editor da página Memórias Sardoalenses: goncalves.m.tiago@gmail.com"


(Seleção, revisão / fixação de texto, título, negritos: LG)
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Nota do editor:

Último poste da série > 10 de agosto de 2024 > Guiné 61/74 - P25826: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (27): A inspeção militar: "Ir à sortes", Sabugal, 1968 (José Corceiro, ex-1º cabo trms, CCAÇ 5, "Gatos Pretos", Canjadude, 1969/71)

Guiné 61/74 - P25826: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (27): A inspeção militar: "Ir à sortes", Sabugal, 1968 (José Corceiro, ex-1º cabo trms, CCAÇ 5, "Gatos Pretos", Canjadude, 1969/71)



Foto nº 1 > Sabugal > 1968 > Briosos mancebos acabados de ser specionados e apurados  para  todo o serviço militar... Aqui a cavlo, com saudosismo do passado. Foto tirada no dia da inspeção, no Sabugal, junto ao antigo edifício camarário onde teve lugar a inspeção. É também visível, àq esquerda,  o edifício da antiga prisão.


Foto nº 2 > Sabugal > s/d (c. 2013) > Largo das Eiras, no centro da aldeia de Vale de Espinho. Nas redondezas não havia outra povoação que tivesse um largo tão grande, embora já tenha sido roubado pelas construções da estrada, escola, lar de idosos, junta de freguesia, etc.








Fotos nº 3, 3A e 3B > Sabugal > 1968 > Tirada em 1968, no Freixial, junto ao rio Côa, durante o assado, onde estão a meia dezena de mancebos que foram nesse dia à inspeção, juntamente com juventude convidada e onde não podia faltar o meu professor da 4.ª classe, Zé André, que está de pé no canto direito da foto, com camisa preta.






Fotos nº 4. 4A e 4B > Castelo Branco > BC 6 > Dezembro de 1968 > O início da Guerra Colonial praticamente acabou com a tradição festiva do dia da inspeção. Provocou uma reviravolta de 180 graus no valor do conceito de apto e inapto para o serviço militar. É surpreendente, que no espaço de dois ou três anos o conceito de opinião que se tinha da seleção de apto, que era considerado o boníssimo, se tenha invertido o valor, e o apto passou a ser o maligno, pois a partir do início da guerra o que se valoriza, no querer dos familiares e mancebos, é que fiquem inaptos para o serviço militar, a condição de inapto passou a ser o ótimo! São os dinamismos sociais da adaptação dos interesses!

Fotos (e legendas): © José Corceiro (2013(). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



José Corceiro (ex-1.º cabo trms, CCaç 5, "Gatos Pretos" , Canjadude, 1969/71): 

(i) natural de Sabugal

(ii) mora em Lisboa; 

(iii) era de rendição individual (maio de 19969/julho de 1971); 

(iv) integra a nossa Tabanca Gradne desde 25/12/2009; 

(v) tem 62 referências no nosso blogue;

(vi) são 36 os nossos camaradas do Sabugal que morreram na guerra do ultramar / guerra colonial (segundo a preciosa informação do Portal UTW -  Dos Veteranos da Guerra do Ultramar);

(vii) o concelho raiano do Sabugal perdeu 3/4 da população em 70 anos (era de 43,5 mil em 1950, é de cerca de 11,3 em 2021)


1. Excerto do poste P7737 (*), sobre o dia de "ir às sortes",no Sabugal, terra do forcão, terra da capeia arraiana, mas também terra de Ribacoa, terra do demo, terra do lince, e  terra dos cinco castelos (incluindo Sortelha).... E diz a quadra popular: “Castelo de cinco quinas /, só há um em Portugal,/ Fica à beira do rio Côa,/ na vila do Sabugal”.

A inspeção militar: "Ir à sortes", Sabugal, 1968

por José Corceiro


(...) Tanto quanto me lembro desde a minha meninice, que na minha aldeia, Vale de Espinho, concelho de  Sabugal, distrito da Guarda, o dia da inspecção militar ou sortes era um dia festivo para toda a povoação, mas com proeminente destaque para os mancebos naturais da aldeia, que completassem nesse ano o 20.º aniversário, pois a festa era deles.

Nos anos 1950 e princípios de 1960, na minha aldeia, o grupo de rapazes que iam anualmente a dar o nome para a tropa ultrapassavam sempre as duas dezenas, ou bem mais, e era raríssimo que quando chegasse o dia das sortes algum deles faltasse.

O dia da inspecção revestia-se dum certo ritual, tradicional. típico, que continha valor e particularidades para um estudo etnográfico.

Os preparativos para o esperado dia iniciavam-se com algum tempo de antecedência, pois era determinante que no dia da festa tudo corresse de feição. Sempre foram perceptíveis ao longo dos anos, explícitos laivos de ciúme, meio encapotado é certo, mas que levava alguns dos ex-inspeccionados a vangloriar-se ao dizer que a festa deles tinha sido a melhor. Ora, este espírito de geração competitiva impulsionava a rapaziada a um apego de brio viril, que os empenhava em melhorar a sua festa em comparação com as dos anos anteriores.

Para muitos dos jovens, o dia da inspeção seria também a primeira vez que iriam estrear um fato novo, composto por calças, casaco e colete (terno), pois até ao presente não tinham tido a possibilidades de comprar o tecido e mandá-lo confeccionar no alfaiate da terra, visto ser escasso o suporte económico da família.

Era também provável que a partir dessa data, o jovem pudesse começar a amealhar um pezinho de meia, fruto de algum trabalho que executasse com direito a remuneração, jornal ou a passar contrabando, pois até esta altura tudo o que tinha ganho reverteu a favor do agregado familiar.

Quando o esperado dia chegava, nada podia falhar. O fato estava à espera de ser vestido…

Os foguetes já tinham sido comprados e entregues ao mestre-de-cerimónias, que os utilizava conforme a mensagem que queria anunciar, lançando-os para estoirar no ar. A primeira mensagem é logo cedinho, às 05h00, a lembrar que é preciso deixar a cama e levantar, para aqueles que nela se deitaram, nessa noite,a porque alguns fizeram direta. Pois têm que se apressar, ainda há um percurso longo de 16 quilómetros que é preciso trilhar, sempre a cavalgar, até chegar ao Sabugal, concelho da freguesia, onde tem lugar a inspeção.

O cavalo, adereçado com os seus melhores arreios estava pronto e à espera. Ricamente aparelhado. A sela, a cinta, o cabresto, as rédeas e o freio foram diligentemente limpos e engraxados, as fivelas e os estribos foram polidos até ficarem a brilhar, sem esquecer as patas do equídeo que foram aparadas, limadas e convenientemente ferradas, pois há mais de 30 quilómetros para calcorrear, ida e regresso, com o mancebo sempre montado e a espicaçar, e quiçá poderá surgir algum amigo mais íntimo que o queira apadrinhar e arrisque a boleia no lugar da garupa, e o ritmo tem que ser constantemente a trotear.

O acordeonista foi atempadamente contratado, personagem aglutinadora e imprescindível, que nunca pode faltar esperando-se sempre dele alguma novidade musical, para excitar o bailarico e a festa abrilhantar.

Os vitelos ou cabritos, cuja quantidade depende do número de mancebos e seus convidados, foram antecipadamente encomendados ao açougueiro, e já estão prontos e preparados com algum tempero à espera para se dar início ao apetecido assado, realizado sempre em local aprazível, junto à margem do rio Côa e por tradição no sítio do Freixial.

Por volta do meio-dia o povo aguardava impacientemente, no Largo das Eiras, a chegada do mensageiro, que se antecipava ao regresso dos mancebos. O arauto, açoitando o seu cavalo, incutia-lhe celeridade, para se adiantar e mais rápido chegar para a notícia poder dar, metia-se por atalhos e veredas para o caminho encurtar, e lá chegava ele ofegante à freguesia onde revelava, com voz de pregão, os nomes dos mancebos que ficaram livres e os que foram apurados para o serviço militar.

Quando se ouvia o nome dum mancebo que ficou apurado era sempre um momento de regozijo, algazarra geral, com aplausos, acompanhados de vivas e parabenização à família, contrastando com o comportamento da multidão que, ao ouvir o nome do mancebo que ficou livre, reagia com tristeza e constrangimento, sobretudo os seus parentes.

Mais uma largada de foguetes, anunciavam que a comitiva dos heróis estava prestes a chegar. A multidão eufórica, que não tinha arredado pé do Largo das Eiras, estava curiosa e queria ver ao vivo a chegada dos briosos mancebos. 

Uns ostentavam com orgulho e altivez na lapela do casaco a insígnia, fita verde, que os declarava aptos para o serviço militar. Esta distinção podia ser um trampolim para uma vida melhor, com mais possibilidades para um emprego, quiçá Polícia, Guarda-Fiscal ou Republicana, ou Exército, ou alguma Repartição Estatal.

A fita vermelha era colocada nos inaptos, e notava-se neles um ar de acanhamento, quase vergonha, por suportar na lapela o estigma que os remetia para a exclusão de prestar serviço militar, era como que o apontarem-lhes que eram débeis, ou tinham uma deficiência física, e isso não era tranquilizante para o seu ego.

Depois de dadas as boas-vindas, procedia-se a mais uma largada de foguetes, a convidar toda a povoação para que houvesse união e acompanhassem festivamente os mancebos, que iriam desfilar montados nos seus cavalos, ao som da concertina, pelas ruas da procissão. Findo esse percurso, duma maneira geral, toda a juventude se dirigia para o local onde os esperava o assado, já devidamente confeccionado.

Manjar ansiosamente esperado, a desejada carne grelhada era um pitéu divinal. A carne é seleccionada, excelentemente grelhada com apuro na brasa, bastante condimentada com um molho assaz apimentado, comida acompanhada de batata bem apaladada acabada de tirar da terra e assada na borralheira, tudo regado convenientemente com molho, iguaria que provoca no mais prudente dos mortais anseios que o incitam a deixar-se seduzir, e a exagerar no beber a boa pinga, que inebria qualquer convidado fazendo-o esquecer as amarguras do dia-a-dia, até surgir um comensal mais inspirado, que se encoraja e ousa desafiar a qualquer um para uma salutar desgarrada… e a partir daqui tudo incita a que a folia seja inflamada!

E toda a tarde era passada em farra agitada, sempre regada de boa pinga em ambiente de animado bailarico, onde não era permitido a nenhuma moça recusar dançar com qualquer que fosse o mancebo dos inspeccionados, uma recusa dessas, era interpretada como ofensa familiar.

Com o surgir da guerra nos anos 1961/1962, a juventude da minha terra abandona a aldeia, em massa, e vai a salto para o estrangeiro. O número dos mancebos que anualmente iam a dar o nome para a tropa caiu das duas ou três dezenas que eram habituais, para menos de meia dúzia.

Continuaram-se a comprar vitelos, cabritos e até porcos inteiros, para satisfazer a gula dos falsos profetas que só anunciavam desgraça e tinham bem estudada a arte da mentira, pois aos crédulos muito prometiam, mas nada faziam. Convenciam os inocentes que lhes livravam os filhos da guerra, e alguns caíram na ratoeira, mas cedo se convenceram que nada lhes tinha sido feito. E lá vinham a terreiro os profetas com argumentações abonatórias, utilizando desculpas esfarrapadas… (**)

José Corceiro

PS1: - Significado do termo “sortes” aqui utilizado, que creio estar certo, pela ideia que me ficou segundo aquilo que ouvi noutros tempos:

Antigamente, devido ao grande número de jovens que se apresentavam à inspecção, eram muitos os que ficavam aptos, e para os aptos não havia lugar para todos no serviço militar. Para solucionar o excesso dos já seleccionados, procedia-se a um sorteio aleatório entre os que tinham ficado aptos, para assim se apurar aos que cabia a sorte de cumprir o serviço militar.


PS2 -  Por terem já passado tantos anos, creio que me terei enganado no significado simbólico, que era atribuído às cores das fitas que eram colocadas na lapela do casaco, no dia da inspecção, para distinguir os mancebos que ficaram esperados, livres, ou apurados para o serviço militar.

Falei com um conterrâneo da minha geração, que me lembrou: A fita vermelha que simbolizava apuramento para o serviço militar, fita verde que ficava esperado, ou seja que no ano seguinte tinha que ir novamente à inspecção, e fita branca que ficava livre do serviço militar. Penso que assim estará correcto.

 José Corceiro | 7 de fevereiro de 2011 às 17:57

(Seleçáo, revisão / fixação de texto, negritpos: LG)
 
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(**) Último poste da série > 9 de agosto de 2024 > Guiné 61/74 - P25823: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (26): A inspeção militar: "ir às sortes", em Alcanena, em 1 de junho de 1965 (Carlos Pinheiro, ex-1.º cabo trms op msg, Centro de Mensagens do STM/QG/CTIG, Bissau, 1968/70)