1.1. Vejamos os pontos de "similitude" entre os dois programas:
PIFAS: criado ainda em 1967 mas popularizado no tempo de Spínola, visava melhorar a imagem de Portugal junto das populações locais, transmitindo música, notícias e mensagens em línguas africanas, além de crioulo e português; era uma ferramenta de "ação psicológica" (sic) para ganhar corações e mentes, num contexto de guerra (colonial, ta,bém dita "subversiva").
"Good Morning, Vietnam!" (com o DJ interpretado por Robin Williams): também tinha como objetivo levantar o moral das tropas americanas no Vietname, mas acabava por chegar de igual modo à população local alguma da qual se esforçava por aprender inglês (aliás, o Adrian Cronauer também era professor de inglês, no filme); usava música popular americana, humor e um tom irreverente e descontraído, contrastando com a dureza da guerra. Mas o propósito principal era mesmo animar os soldados no terreno.
Ambos usavam música popular (rock, pop, música local) como forma de comunicação e aproximação. A discografia, do lado português, era necessariamente muito mais limitada, para não dizer "indigente"... A grande maioria das NT não estava ainda sensibilizada para a música anglossaxónica predominante já na época. Dos discos mais pedidos pelo soldado na mato era... o do Conjunto Maria Albertina, já muito popular na diáspora lusófona!
(iii) A linguagem era adaptada ao público
(iv) Contexto de guerra e propaganda
Os dois programas surgiram em contextos de guerra, prolongada, difícil, com forte componente psicológica. E crescentemente impopular na retaguarda (com manifestações nos EUA, o que em Portugal era ainda impensável) e cada vez mais contestada no plano internacional (levando, no caso português, a um boicote no fornecimento de material bélico e ao isolamento diplomático).
O PIFAS era parte de uma estratégia de "pacificação" e "sedução" de Spínola (e do seu estado-maior, de resto brilhante), enquanto o programa de Cronauer era sobretudo uma forma de "escape" para os soldados americanos (a par do elevado consumo de álco0ol e de substâncias: marijuana, LSD, cogumelos alucinógenos, metanfetaminas, heroína...).
(v) Impacto cultural e memória
O "Good Morning, Vietnam!" tornou-se icónico, especialmente depois do filme de 1987 com Robin Williams, que imortalizou a figura de Cronauer.
O PIFAS não era de todo conhecido internacionalmente, é hoje apenas lembrado por quem trabalhou na Rep ACAP - A Repartição de Assuntos Civis e Ação Psicológica como uma inovação na guerra psicológica portuguesa, embora com resultados limitados face à realidade do conflito (e que, de resto, nunca chegaram a ser estudadas de todo).
1.2. Vejamos algumas diferenças importantes:
PIFAS: era uma ferramenta de propaganda política e militar, dirigida sobretudo aos militares e às populações locais, com um tom mais institucional, com meios humanos e técnicos limitados (três emissões diárias, de 1 hora cada, difundidas pelo Emissor Regional da Guiné, localizado em Nhacra). Era da responsabilidade da Rep ACAP.
"Good Morning, Vietnam!": era um programa de entretenimento para tropas, com um tom mais informal e irreverente, sem uma agenda política explícita.
O grau de liberdade era muito diferente: o DJ do filme (baseado na figura de Adrian Cronauer) é marcado pela irreverência, crítica mordaz e até choque com a hierarquia militar. Terá havido, no terreno, mais liberdade para a contestação interna, liberdade também possível pela enorme popularidade do programa "in loco".
O PIFAS era, pelo contrário, um instrumento mais institucional, enquadrado na estratégia político-militar portuguesa e na política spinolista "Por Uma Guiné Melhor". Portanto, mais conservador e ponderado, nos seus conteúdos, na sua "playlist", etc.. mais alinhado com a política oficial do regime, enquadrado por oficiais do quadro como Otelo e depois Ramalho Eanes.
Há, de facto, similitudes no uso da rádio como ferramenta de comunicação, influência e propaganda em contextos de guerra, mas com objetivos e públicos distintos. Ambos refletem a importância da comunicação de massa em conflitos modernos e a necessidade de manter em alta o moral dos combatentes.










































