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quarta-feira, 27 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28055: Efemérides (391): Há 57 anos, a 24 de maio de 1969, partiu o T/T Niassa para o CTIG - Parte II: "o cruzeiro das nossas vidas"




Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.
Fontes iconográficas: fotos de Luís Graça, Humberto  Reis 
e Luís Nascimento / Joaquim Bessa, 
Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné


1. Um velho poema meu... Quando fui para a Guiné no navio misto, de carga e passageiros, "Niassa", com pouco mais de 150 metros de comprimento. e 10,7 mil toneladas de arqueação bruta... Levava 1735 homens para a guerra (fora a tripulação, que era de c. 130)... 

Durante anos recusei cruzeiros, aliás só fiz um, à Grécia, antes da pandemia,  para "recordar"... Mas sou "crítico" dos cruzeiros turísticos... Ao primeiro, que fiz, em 24-29 de maio de 1969, no T/T Niassa, chamei-lhe, por ironia,  "o cruzeiro da minha vida"...Já não sou mais o mesmo de há meio século atrás...Nem poderia sê-lo. Mas aqui vai, em jeito de filme do tempo do cinema mudo, com intertítulos, uma evocação "poética" desse cruzeiro, em que "viajaram" também amigos que depois fiz para a vida como o Humberto Reis, o Tony Levezinho,  o António Fernandes Marques, o sargento Piça, o Arlindo T. Roda, o Luciano Severo de Almeida, e tantos outros, alguns dos quais vim aqui a reencontrar no blogue como o Carlos Fortunato, o Eduardo Estrela, o José Nascimento, o Luís Nascimento, etc.

 

Quando o Niassa apitou três vezes

por Luís Graça


Uma estranha maneira de dizer adeus,
um estranho povo este
que vem ajoelhar-se, no cais de partida,
não em oração para aplacar a ira dos deuses, mas vergado,
vergado à toda poderosa razão de Estado.

A tentacular força centrífuga
que, de há séculos, 
te leva os filhos teus, para fora,
paridos e expulsos do ventre da mátria,
para longe, bem para longe, muito para lá do mar.

Uma despedida breve,
com lágrimas salgadas no rosto
e lenços brancos em fundo preto.
Todas as despedidas são breves e tristes:
o momento em que o Niassa apita três vezes
e levanta a âncora,
nunca se poderia eternizar,
diz o capitão de terra, ar, mar e guerra,
lencinho ao pescoço, cheirando a Vat(e) 69, 
ontogenético, fotogénico, cinéfilo,
garboso, charmoso, glamoroso
pronto para a ação
... na mesa do king, do bridge ou da lerpa.

Passado o Bugio,
deixado para trás o velho do Restelo
de que há um pouco em todos nós,
desvanecido o azul da serra de Sintra,
há um briefing às cinco da tarde,
já em velocidade de cruzeiro,
no mar alto que outrora foi português.

O anúncio é do capitão,
muito pouco ou nada miliciano,
que serve de mordomo, pequeno e burguês.
De megafone em punho,
não vá alguém sabotar a instalação sonora do navio.

Vai na segunda comissão, o oficial provinciano,
que nunca ouviu falar da batalha de Dien Bien Phu
nem sabe onde fica a ilha do Como.
Nem o onde nem o como nem o porquê
nem muito menos o até quando.

E o filme da noite é uma comédia, 
do cinema mudo,
acrescenta o nosso primeiro,
que no T/T Niassa faz de porteiro
ao bar Cretcheu, Guiné.
Um gajo bacano, num país de bacanos, fulanos e sicranos,
de soldados rasos, primeiros cabos, furriéis, alguns forcados, 
e segundos sargentos, mangas de alpaca.

Uma tragicomédia, escreverás tu no teu diário.
Cadé os oficiais ?
Cadé a elite da nação ?
Onde estão os filhos-família,
a ínclita geração,
os primeiros, a fina flor, os morgados,
os cavaleiros andantes, os primogénitos,
os palmeirins, os fidalgos, 
a casta, a raça apurada,
o sangue azul, o pedigree, 
os Gamas e os Camões,
os melhores de todos nós ?
... Morreram todos em Alcácer 
Quibir. 

Lisboa revista, revisitada, revistada,
em filme de oito milímetros,
a preto e branco ou a preto e negro, dizes tu, corrosivo,
uma só nação, valente mas ferida mortalmente,
ironiza alguém.
O Niassa colonial na azáfama do seu vai-e-vem
antes de ir parar à sucata,
inglória a sucata da história que tu perdeste
aos dezoitos anos, quando deste o teu nome para as sortes.
Estranha palavra essa, a das sortes,
que rima com desnortes e com mortes e com fortes,
que dos fracos não reza a história.

A despedida breve e triste do Niassa,
o teu primeiro e único cruzeiro da vida,
e ainda mais triste é o filme, sem som,
sem palavras desnecessárias, a preto e branco,
que alguém terá feito no cais das sete partidas,
com a noiva que ia vestida de branco 
e de xaile preto, a louca, por cima dos ombros.
Dizem que levada em ombros, a espernear,
pela polícia militar.

A ponte, ainda reluzente, de Salazar, o velho,
o velho abutre que alisa as suas penas,
dirás tu, Sophia, pitonisa de Delphos,
quase morto mas não enterrado.
Os últimos golfinhos do Tejo,
a última fragata de vela erguida,
a última caravela,
a última nau do cais da Ribeira,
o último império que ficou por haver,
o último marinheiro sem terra,
sinal de tempestade,
o último uísque marado
que ficou por beber, de um trago
numa espelunca do  Cais do Sodré, amargo,
o mudo do Cristo Rei em terra
que outrora foi dos infiéis,
o Terreiro que continua do Paço, não do povo…
Lisboa e o seu casario, branco, sujo,
o filme a preto e branco, riscado,
um gato preto à janela,
sinal de mau agoiro.

Lisboa... e lá longe a Guiné,
a 4 mil km de distância, 
Lisboa, enfim, com as suas ruínas, pré-pombalinas,
o poço dos mouros, o poço dos negros,
o lundum, a umbigada,
a procissão da Nossa Senhora da Saúde,
mais a Santa Inquisição,
zelando pela pureza da raça e do sangue,
zurzindo corpos e almas,
o Cemitério dos Prazeres ao alto,
com os seus altos ciprestes negros,
os mastros dos navios da carreira colonial,
o império por um fio, dental,
a vida, ainda curta, que se recapitula, de fio a pavio,
no último comboio da noite
que veio do campo militar de Santa Margarida.

Ah!, e os jacarandás que, em fins de maio, já choram,
de lágrimas lilases,
e as santas das nossas mães que ficaram em casa,
a acender a vela à santa das santas,
a tecer o lenço de enxugar lágrimas,
um fado que tu ouviste numa tasca do Bairro Alto, 
e que já não era batido nem dançado nem cantado,
um fado apenas gemido, sussurrado.

Ordeiros os soldados,
como os cordeiros da matança da Páscoa,
anhos, dizem no Norte, 
alinhados, no Cais da Rocha Conde de Óbidos,
como os elétricos amarelos
que vão para a Cruz Quebrada,
empilhados, aboletados, requisitados
às mães para servir a Pátria,
o pai-patrão que lhes cobra o dízimo
em sangue, suor e lágrimas.

Mudos, agrilhoados, os básicos,
uns refratários, outros desertores,
cozinheiros, magarefes, corneteiros,
apontadores de dilagrama,
municiadores de metralhadora,
desenfiados, traidores, atiradores,
cangalheiros, sacristães, capelães,
barbeiros-sangradores, 
sapadores, pulhas, coirões,
coveiros, escriturários, bazuqueiros,
safados, bufarinheiros, cavaleiros,
trolhas, cavadores de enxada,
infantes, artilheiros, maqueiros,
heróis de torre e espada…

Coitadas das mães que tais filhos pariram,
diz a letra do ceguinho,
subindo o portaló, o cadafalso,
com um nó na garganta mal disfarçado,
os lenços brancos como em Fátima no 13 de maio.
Algumas bandeiras verdes-rubras,
poucas e loucas, que os tempos não são
de exaltação patriótica.
O hino canta-se em voz de cana rachada,
em disco riscado
por senhoras, poucas e roucas,
do Movimento Nacional Feminino.

A mesma atitude, admirável, de patética resignação
perante o arbítrio dos deuses
que tudo pedem e podem, diz o capelão,
cheio de unto e de virtude,
que este é um povo religioso
porque tem o sentido do pathos,
leia-se: da tragédia inelutável,
acrescenta o bispo de merda…suma.

Senhora Nossa, rogai por nós, pecadores,
protege-nos, das minas e armadilhas,
dos fornilhos e das bailarinas,
das canhoadas e roquetadas,
das morteiradas, dos estilhaços
e dos tiros de "costureirinha",
protege-nos do IN, leia-se inimigo,
dos esquentamentos e das sezões,
da mosca tsé-tsé e do mosquito anapholes,
dos ataques de abelhas e das formigas carnívoras,
mas também do cone de fogo
das nossas bazucas e canhões sem recuo,
das piçadas e dos louvores dos nossos comandantes...
Livrai-nos sobretudo de nós mesmos,
soldados malgré nous, soldados à força,
arrebanhados, arregimentados, requisitados,
condenados, ameaçados, camuflados,
acondicionados no porão como bestas
que vão para o matadouro.
Livrai-nos, Senhora Nossa,
da fome, da peste e da guerra,
e do marechal da nossa terra
que nos manda para tão longe.

Lisboa e as suas sete colinas
perdem-se na linha de água.
Puseste o combate do possível
na tua agenda de expedicionário da Guiné.
Puseste o fio com a medalha de ouro
ao peito, que te deu a tua namorada, coitada.
Não, não usas a cruz, o crucifixo, o amuleto,
não vais para a guerra santa,
não, senhor capelão-mor,
alguém há de rezar por ti, camarada,
para que voltes são e salvo.
Do regulamento é apenas a chapa de zinco,
com o número mecanográfico 13151468,
e o picotado ao meio,
para mais facilmente ser cortada em duas partes
que seguirão caminhos distintos,
tudo isto face ao risco, bem real e concreto,
de tu morreres longe, bem longe
da tua casa, da tua pátria, para lá do mar,
em terra que nunca te viu nascer.

Descansa, camarada,
alguém fará o teu espólio,
cerrará os teus dentes,
fechará os teus olhos,
engraxará as tuas botas,
comporá os atacadores e a boina,
e porá um moeda na boca
para pagares a viagem ao barqueiro Caronte,
no caso de morreres pela Pátria,
ainda jovem, belo e imberbe,
nas bolanhas, rias ou matas da Guiné

Levarás contigo a pedra-chave
que te liga ao além,
uma chapa de zinco, picotada ao meio,
que outrora era de xisto ou de grés,
entre o teu antepassado
calcolítico, castrejo, romanizado.
Ironia da história: 
também já foste escravisado, colonizado,
e nem a língua dos teus avoengos lusitanos chegou até ti.

Respeitaremos a tua última vontade,
lavrada no cimento fresco do teu abrigo:
Camaradas (que colegas é só nas putas!,
diz o pícaro do sargento Piça):
se eu morrer aqui,
que me enterrem,
numa anta do meu país megalítico!



A bordo do T/T Niassa,
a caminho da Guiné,
24-29 de maio de 1969.

Visto, revisto, aumentado e melhorado,
Reino dos Algarves, Portimão, Praia do Vau, 26  de maio de 2026
 
__________________

Nota do editor LG:

Guiné 61/74 - P28054: Efemérides (390): Há 57 anos, a 24 de maio de 1969, partia o T/T Niassa para o CTIG - Parte I: eram 1735 homens pertencentes às seguintes subunidades: CART 2520, CART 2521, CCAV 2525, CCAÇ 2527, CCAÇ 2529, CCAÇ 2531, CCAÇ 2533, CCCAÇ 2590/CCAÇ 12, CCAÇ 2591 / CCAÇ 13, CCAÇ 2592 / CCAÇ 14 , CMP 2537, além dos Pel Mort 2116, Pel Mort 2117 e Pel Can S/r 2126

 

Lourinhã > Zambujeira e Serra do Calvo > 25 de fevereiro de 2018 > "Homenagem da Zambuejira e Serra do Calvo aos seus combantentes"... Monumento inaugurado em  5 de outubro de 2013 (pormenor). Foi uma bela iniciativa do Clube  Desportivo, Cultural e Recreativo da Zambujeira de Serra Local.

Desconhece-se o autor do painel de azulejos que representa a partida, no T/T Niassa, no Cais da Rocha Conde de Óbidos, em Lisboa, de um contingente militar que parte para África. Ao canto inferior esquerdo a quadra: "Adeus, terras da Metrópole / Que eu vou pró Ultramar /, Não me chorem, mas alegrem [-me], / Que eu hei-de regressar"... No chão, em calçada portuguesa, lê-se: "Em defesa da Pátria". 

Abaixo do panel, há um livro metálico com os nomes de todos  os nossos camaradas, naturais das duas povoações, que combateram no Ultramar.

N/M Niassa > Ficha técnica:

(i) navio misto (carga e passageiros), de 1 hélice; 

(ii) construído em 1955, na Bélgica;

 (iii) registado no porto de Lisboa (e abatido em 1979);

 (iv) com mais de 151 metros de comprimento; 

(v) arqueação bruta de c. 10.700 toneladas;

 (vi) uma potência de 6800 cavalos e uma velocidade normal de 16,2 nós; 

(vii) alojamentos: 22 em primeira classe, e 300 em classe turística, num total de 322 passageiros; 

(viii) número de tripulantes; 132; 

(ix) armador: Companhia Nacional de Navegação (CNN), Lisboa.

Foi neste navio, adaptado a transporte de tropas (T/T), que viajaram (!), de Lisboa para Bissau, diversas companhias independentes, com partida a 24 de maio de 1969, incluindo a CCAÇ 2590 (futura CCAÇ 12), a CCAÇ 2591 (futura CCAÇ 13) ( do Carlos Fortunato), a CCAÇ 2592 (futura CCAÇ 14) ( do Eduardo Estrela), bem como a CCAÇ 2533 (dos nossos camaradas Luís Nascimento e Joaquim Lessa) ou ainda a CART 2520 (do José Nascimento, do Renato Monteiro, etc.) e ainda  a CPM 2537 (a que pertenceu o antigo secretário geral do PCP - Partido Comunista Português, Jerónimo de Sousa). Um pequeno "fait divers" para a história... 

Crédito fotográfico: Navios Mercantes Portugueses (2004) (Foto aqui reproduzida com a devida vénia...) (A página foi descontinuada).




T/T Niassa > Maio de 1969 > Lista das subunidades transportadas para o TO da Guiné: documento gentilmente disponibilizado pelo nosso saudoso camarada 1º  ten RN, 8.º CEORN, 1965/1972,  Manuel Lema Santos (1942-2025).

  • CART 2520, Xime, Enxalé, Mansambo e Quinhamel (73 referèncias) 
  • CART 2521 (Aldeia Formosa, Nhala e Mampatá) (7 referências)
  • CCAV 2525
  • CCAÇ 2533 (Canjambari e Farim) (63 referências ) (referências)
  • CCAÇ 2590  (25 referências( (futura CCAÇ 12) (Contuboel e Bambadinca) (506 referências)
  • Dos Pel Mort 2116, Pel Mort 2117 e Pel Can S/r 2126 e restantes (pessoal de do Regimento de Serviços de Ssaúde e do Depósito Geral de Adidos)... não temos nenhuma referência.
 
 A subunidade que tem mais representantes  (e referências) no nosso blogue é a CCAÇ 2590 / CCAÇ 12: Luís Graça, Humberto Reis, Tony Levezinho, Adélio Monteiro,  António Manuel Martins Branquinho (1947-2013),  António Manuel Carlão (1947-2018),  José Manuel P. Quadrado (1947-2016),  José Marques Alves (1947-2013), José Martins l Rosado Piça (1933-2021), Fernando Sousa, António F. Marques,  José F. Almeida, João Carreiro Martins, Joaquim Fernandes, Abel Maria Rodrigues, Gabriel Gonçalves, António Mateus, José Luís Vieira de Sousa... entre outros (estou a citar de cor).

T/T Niassa > 24 de maio de 1969 > Uma imagem repetida "as nauseam" ao longo da guerra colonial: o transporte de tropas era feito em cargueiros, mistos, adaptados... As condições a bordo eram inaceitáveis para seres humanos ... Neste caso foram transportadas 13 companhias independentes. num total de 1735 homens. As praças eram "acomodadas" em beliche, nos porões, como animais levados para o matadouro. Com capacidade para 3 centenas de passageiros, além de cerca de 130 tripulantes, o T/T Niassa,  a caminho do TO da Guiné aumentava a "carga humana" cinco ou seis vezes mais... Não consta que algum dia  tenha havido alguma revolta a bordo: os oficiais iam em 1a. classe, os sargentos em classe turística, as praças na... 3a. classe. O poder sempre soube dividir para reinar. De resto, era "a ordem natural das coisas"...

Foto do livro "Histórias da CCAÇ 2533" [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27763: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte X: A desconstrução do padre, que ainda andou nos navios da marinha mercante (T/T Niassa e petroleiros)


Guiné > Legenda: "Recordação do Niassa. Lisboa - Guiné - Lisboa.... Missão Cumprida!... Lisboa, de 1 de maio de 1968 / Bissau, 3 de abril de 1970)... Transportando a CCÇ 2381, além de outras unidades. Cortesia de José Teixeira (1.º cabo aux enf, CCAÇ 2381, Buba, Quebo, Mampatá, Empada, 1968/70), nosso colaborador permanente. O padre frei Horácio Fernandes também aqui foi capelão, depois de terminar a sua comissão de serviço como capelão militar, no CTIG, em finais de 1969.

Foto (e legenda): © José Teixeira (2006). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Estamos a reproduzir excertos da dissertação de mestrado em ciências da educação, pela Faculdade de Psicologia e Ciências das Educação da Universidade do Porto (1995), da autoria do nosso grão -tabanqueiro Horácio Fernandes, que foi nosso camarada como capelão militar no CTIG (BART 1913, Catió,  1967/69), e que faleceu, ainda recentemente, em novembro de 2025, com 90 anos completos.



Horácio Fernandes
(1935-2025)
No capº IV daquele trabalho académico, ele narra e comenta a história de vida de Francisco Caboz, seu "alter ego". Trata-se, pois, de uma autobiografia, que em 30 páginas, a duas colunas, cobre a sua infância, adolescência, juventude e idade adulta até 1972, o ano em que, prestes a fazer 37 anos, regressa ao estado laical e constitui família, passando a viver no Porto.

Nos nove  postes anteriores já publicados (*), ele fala-nos, sucintamente, de:

(i) a sua terra natal, "Arribas do Mar" [leia-se Ribamar, da Lourinhã], bem como as 3 figuras da família que o marcaram: 
o pai (José Fernandes Nazaré), a mãe (Elvira Neto) e o avô materno (nascido provavvelmemnte na década de  1880), o sacristão da freguesia, o Ti João das Velas de Santa Bárbara;

(ii) como foi criando raízes a ideia de ser padre: o avô materno, sacristão, e a professora primária acabaram por ser as pessoas que mais pesaram nessa decisão;

(iii) a entrada no Colégio Angélico (leia-se, Seráfico, na altura Montariol, em Braga, a mais de 300 km de distância da sua terra, Ribamar, Lourinhã), e os "quatro cenários" onde se vai desenrolar a sua vida de "angélico" (ou seja, até ao 5º ano, correspondente hoje ao 9º ano de escolaridade): a camarata, o refeitório, a sala de aulas, o salão de estudo, e onde vigorava o panoptismo;

(iv) os mecanismos de vigilância dos internos e os rituais de punição por parte dos prefeitos;

(v) o 6.º ano, quando passa a ser noviço (Convento do Varatojo, Torres Vedras);

(vi) segue-se o Coristado de Filosofia (em Leiria, no seminário de São Francisco / convento da Portela) e depois de Teologia (no Seminário da Luz, Carnide, Lisboa), até à ordenação sacerdotal (em agosto de 1959).

(vii) no início do 2º semestere de 1967, é chamada para fazer, na Academia Militar, o 1º curso de capelães militares;

(viii) é mobilizado para a Guiné, em rendição individual, como capelão militar, sendo colocado em Catió no BART 1913;

(ix) a sua vocação sacerdotal é abalada com a sua passagem pelo sul da Guiné.

Terminada a comissão, em finais de 1967, andou ainda na marinha mercante (transporte de tropas e navios petroleiros), como capelão, até deixar o sacerdócio em 1972, antes de completar os 37 anos.

Casou, passou a viver no Porto. Teve 3 filhos. Estava reformado da Inspeção Geral de Educação onde trabalhou 25 anos na zona norte. Em 2006, aos 70 anos, doutorou-se em ciências da educação pela Universidade de Salamanca, Espanha.

Reencontrámo-nos, por volta de 2015, na Tabanca de Porto Dinheiro, Lourinhã, ao fim de 57 anos de vidas completamente separadas.


2. É uma história de vida que merece ser conhecida dos nossos leitores. Um verdadeiro testemunho de uma época que ainda coincide, em parte, com a nossa.

É um trabalho académico, relevante não só para a história da capelania castrense como também para o conhecimento do ensino confessional ministrado em seminários diocesanos e regulares, onde se formava o clero católico ao tempo da Ditadura Militar e Estado Novo (1926-1974).

Imagem do lado direito: capa do livro do Horácio Fernandes, publicado 14 anos depois da sua dissertação de mestrado (1995): ""Francisco Caboz: a construção e a desconstrução de um padre" [Porto: Papiro Editora, 2009, 185, (7) pp. ISBN 978-989-636-446-5].(O livro está esgotado.)


História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte X:   A desconstrução do padre, que ainda andou nos navios de transporte de tropas e nos petroleiros


por Horácio Fernandes


6.  A desconstrução do habitus. O Trânsfuga.

As férias, de Capelão Militar, duas vezes por ano, eram passadas em casa de meus pais "Arribas do Mar" [leia-se, Ribamar, da Lourinhã],- 

 Celebrava na minha terra e era muito solicitado pelas famílias da redondezas, para saberem notícias dos filhos. Não tinha tempo para ir visitar a instituição [ OFM - Ordem dos Frades Menores em Portugal, também conhecida como Província Portuguesa da Ordem Franciscana].

Aliás, com o meu dinheiro, custeava as despesas dos estudos de minha irmã [mais nova, a maois velha era enfermeira],  frequentava já o Instituto Comercial e consegui, com as economias, liquidar as restantes dívidas de meu pai. 

Vivia, portanto, praticamente à margem da minha instituição. Ainda cheguei a escrever algumas cartas, mas nunca obtive resposta. 

Talvez, por isso, quando acabou a tropa, escrevi aos Superiores a dizer que não estava disposto a voltar imediatamente para o Convento. Responderam-me, acenando-me com um lugar de Superior, numa residência da instituição, recusei e sem saber para onde ir, pedi para ficar mais um ano no serviço militar.

Como me disseram que não havia lugar, fiquei bastante ofendido, pois sabia que outros conseguiram ficar. Frustrada uma ida para Angola, para dar aulas no Liceu de Nova Lisboa [,hoje, Huambo], oferecí-me ao Clube Stella Maris para ir para Capelão do Mar, a ver como as coisas evoluíam, depois achava que não era capaz de voltar para a instituição.

Tinha de tomar uma decisão, mas era muito penoso. A pressão social da minha família e das gentes que em mim tinham confiado continuava a ser um grande obstáculo, cada vez mais difícil de transpor. Preferi, pois, adiar mais algum tempo. Nascia também em mim o Tânsfuga.

O Apostolado da Mar, organização católica que fornecia capelães para os navios da Marinha Mercante, foi a solução provisória encontrada. Ganhava, assim, mais algum tempo, fora da jurisdição da instituição, podia continuar a ajudar a família e entretanto tinha tempo para ponderar melhor a sua decisão.

- 133 - 

Este adiamento nada resolveu. A decisão tinha de ser minha. O clima relacional nos navios da Marinha Mercante, fretados ao exército para transporte de tropas, era duplamente penalizador.  

Após as emoções da partida, os soldados iam, como animais para o matadouro, em camaratas improvisadas nos porões. Alguns enjoavam e outros bebiam demais e nem para as refeições se levantavam. Revoltados, vingavam-se nos colchões de espuma que, no fim da viagem, eram mandados ao mar. 

Por sua vez,  a tripulação do navio, sob a jurisdição do comando militar, vivia num contínuo stress. A tripulação era constituída na sua grande maioria por jovens oficiais, a cumprir deste modo o serviço militar. Afogavam, pois, em garrafas de uísque a sua desdita.

Nos navios petroleiros a situação não era melhor: passavam cerca de 25 dias a sonhar com o porto de Lisboa ou Leixões, mas aí chegados, passadas 48 horas, o navio zarpava novamente.

Eu percorria, durante o dia, todo o navio, quando o mar era calmo, mas só era solicitado para ouvir desabafos. Por isso, sentia-me inútil como padre,  não obstante todos me tratarem com correcção. Sentia-me como uma ave rara, com quem todos, levados pela curiosidade, queriam discutir assuntos de religião. Tirava algumas dúvidas, mas não resolvia as minhas.

Entretanto, ia-me preparando para o exame de admissão à Faculdade de Letras. Esta admissão constava da matéria de História do 5° ao 7° ano e Filosofia do 6º e 7°.

Nas últimas viagens ao Golfo Pérsico, estava mesmo disposto a mudar de profissão, pedindo a redução ao estado laical. O isolamento de cerca de 25 dias de viagens, só com 30 a 40 homens a bordo, tentando esquecer o tempo, bebendo, ou criando situações conflituais, desenraizados socialmente, trouxe-me a noção do meu próprio isolamento. Nada me faltava a bordo. Contudo, achava inútil a minha presença ali.

Na minha indecisão ía-os ouvindpo,  mas também desabafando os meus problemas. 

- 134 - 

Esta situação não lhes passou despercebido e, na hora do desembarque, ofereceram-me um saco confecionado a bordo e uma caneta, num estojo, onde se lia: «para o capelão. Prenda de casamento».

Nesta indecisão, bem dolorosa para mim e toda a minha família, novamente, uma pessoa teve grande influência: o padre da minha freguesia, um belga,  assistente da Universidade de Lovaina em Físico-Químicas, que veio, já vocação tardia, para o Patriarcado  [de Lisboa] Roger Carpentier, já falecido].

Ousadamente, tentou sacudir a religiosidade tradicional do povo da freguesia, preocupando-se, sobretudo, em reconciliar as muitas famílias desavindas, o que para ele era essencial. Deixou de celebrar missa semanal na igeja paroquial, preferindo antes as casas das pessoas. Aí reunia toda a família, e outros que quisessem participar. No meio da refeição normal, constituída por aquilo que cada um levava, lia alguns extratos do Evangelho apropriados. Consagrava, depois, o pão e o vinho e dava a comunhão que era o momento alto da reconciliação das pessoas, umas com as outras, porque, dizia, ninguém pode estar de bem com Deus, sem estar de bem com os outros.

Nos dias de semana trabalhava como camarada de um barco e recebia o seu quinhão de peixe. Disso vivia e das aulas no Instituto dos Invisuais em Lisboa, sem levar dinheiro pelos outros serviços, prestados aos fregueses. 

Toda a gente o estimava e admirava peia sua dedicação e desprendimento que contrastava com a normalidade. Foi incompreendido pelas hierarquias do Patriarcado, acabando por sair e casar com uma professora cega, com mais três irmãos cegos que continuou a amparar.

Foi ele que me orientou. Ia para sua casa e falávamos, demoradamente. Os seus conselhos e a sua corajosa atitude ajudaram a libertar-me da indecisão.

Depois de mais uma vez regressar à Guiné, com tropas [no T/T «Niassa»], ,fiz a última viagem a Cabinda . Desembarquei e fui hospedar-me, como de costume, numa residência da instituição. Pedi a redução ao estado laical e fiquei a aguardar. 

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Embora continuasse a celebrar, recebia a visita de minha irmã, então a trabalhar no Porto e de outras raparigas, entre elas a minha futura mulher.

Esta situação deve ter chegado aos ouvidos dos Superiores Maiores, que se ofereceram para me pagar determinada quantia mensal, para alugar um quarto na cidade, se eu abandonasse, de vez, a residência.

Mal abandonei a residência, esqueceram-se da promessa e fui morar com mais três colegas, num quarto alugado. Para sobreviver, dava explicações e oito horas semanais de aulas. Em contrapartida, leguei aos meus ex-confrades as alfaias litúrgicas do Apostolado do Mar e à Igreja de Arribas do Mar, os cálices que me tinham oferecido na Missa Nova.

Casei na capela românica da Cedofeita, com a assistência apenas dos padrinhos, tal como me impôs o Bispo do Porto, em 1972. Tudo em conformidade com o 'habitus' da obediência e subordinação. A paixão é que foi transferida do simbólico para o real

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Fonte: Excertos da dissertação de mestrado do Horácio Neto Fernandes, "Francisco Caboz: do angélico ao trânsfuga, uma autobiografia". Porto: Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. 1995, pp. 133-136 (A dissertação, orientada pelo Prof Doutor Stephen R. Stoer, já falecido, está aqui disponível em formato pdf).

(Continua)

(Revisão/ fixação de texto, negritos, links, parênteses retos, título: LG)
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Nota do editor LG:

Último poste da série > 18 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27748: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte IX: No BART 1913 (Catió, 1967/69): E "aos costumes disse nada", porque fora educado... na conformação

Restantes postes da série:

3 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27598: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte I: Arribas do Mar (Ribamar, Lourinhã), a família (o pai, a mãe, o avô materno)

5 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27607: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte II: A escola primária e a comunhão solene

8 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 . P27617: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte III: O nº 27, do Colégio Seráfico

17 de janeiro de 2026 Guiné 61/74 - P27642: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte IV: Vigiar e punir

20 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27651: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte V: O noviço

27 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27676: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte VI: Corista de filosofia e teologia e depois padre

quinta-feira, 2 de outubro de 2025

Guiné 61/74 - P27277: Memórias dos últimos soldados do império (6): os "últimos moicanos" - Parte III: a viagem Bissau-Lisboa, a bordo do T/T Uíge, em 15 de outubro de 1974 (Eduardo Magalhães Ribeiro / Luís Graça)

 




Documento nº 1 


Documento nº 1A


Documento nº 1B



Documento nº 2




Documento nº 3



Documento nº 4

T/T Uíge, viagem Bissau - Lisboa, de 15 a 20 de outubro de 1974. Documentação distribuída a bordo.



Fotos (e legendas): © Eduardo Magalhães Ribeiro (2014). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1. Sabemos que esta foi a última viagem do T/T Uíge, de Bissau a Lisboa, ao serviço do Exército. Oficialmente... 

Levou os "últimos soldados do império". O nosso amigo e camarada Eduardo Magalhães Ribeiro, coeditor do blogue, foi um dos passageiros da "classe turística", reservada aos sargentos. E guardou, no seu baú, esta documentação preciosa, respeitante a essa viagem histórica.

Ao que se sabe (mas não por esta documentação),  o navio, T/T Uíge, que estava ao largo (houve outro, o T/T Niassa, que também zarpou de Bissau nesse dia),  deixou a zona às 10h00 do dia 15 de outubro.

Não sabemos quantos militares levava (e de que unidades). O T/T Niassa, por exemplo,  transportou pessoal da 2ª Companhia do BCAV 8320/73. 

Boa parte do pessoal que foi no T/T Uíge deviam ser militares do QG/CTIG (Santa Luzia) e do QG/CCFAG (Amura), as últimas instalações das NT a serem entregues ao PAIGC, os "novos senhores da guerra". 

Deduz-de que o T/T Uíge ia a "rebentar pelas costuras". Havia 4 refeições a bordo (para oficiais e sargentos), em horários diferidos:

  • 08h30 | 13h00 | 17h00 | 20h00 (para os oficiais, que eram em menor número)
  • 07h30 | 11h30 | 16h00 | 19h30 (para os sargentos, que eram em maior número)

As praças, que iam no porão, comiam por turnos: havia 4 mesas... Os horários iam das o7h00 (pequeno almoço) (1ª mesa) às 20h15 (jantar) (4ª mesa), com intervalos de 30 m (pequeno-almoço) e 45 m (almoço e jantar)... A 1ª mesa jantava às 18h00, a última às 20h15...

O consumo de água (banhos, lavagens...)  e a barbearia também tinham horários estipulados, de acordo com o documento nº 4. Em suma, logística complicada. 

O capitão de bandeira era o cap-ten Alexandre de Carvalho Wandschneider.

Mas tudo correu bem (serviços a bordo e comportamentos dos militares), a avaliar pelo teor da mensagem de despedida, com data de 20 de outubro de 1974, à chegada a Lisboa, assinada pelo comandante militar de bordo, o cor António A. Marques Lopes (documentos  nº 2 e 3).

Dito por si:
No dia 15, na classe turística sabemos que foi servido ao almoço (documento nº 1): 

(i) sopa de coentros; (ii) peixe: bacalhau à Gomes de Sá; (iii) entrada: fígado com arroz de manteiga | pastelão à portugesa; (iv) queijo, fruta, chá, café, leite... 

Nada mau, para desenjoar da comida da tropa, do rancho, da ração de combate...

A vida a bordo também foi  "animada" nesse dia da partida: no bar da classe turística, às 16h30 havia jogo do loto... E à noite, às 21h30, "cinema ao ar livre"...

O filme em cartaz, "As 4 chaves" (documento nº 1B)... Erro tipográfico:  devia ser o filme brasileiro de 1971, "As Quatro Chaves Mágicas", do realizador Alberto Salvá.  Filme do género aventura & fantasia,  "é uma recriação do conto de fadas João e Maria, dos Irmãos Grimm"...

E assim tudo acabou: a guerra, a Guiné ("verde-rubra"), o Império, o Uíge, o Niassa... E nós, também estamos a acabar, nós, a geração dos últimos soldados do império, os "últimos moicanos"...

2. Comentário do editor LG:

Em 2/2/1974. o N/M Uíge passou a pertencer à CMT - Companhia Portuguesa de Transportes Marítimos SARL, por fusão da CCN - Companhia Colonial de Navegação (criada em 1922) com a Empresa Insulana de Navegação (mais antiga, de 1871).  

Fez 4 viagens às Ilhas em 1974, e ainda em junho de 1975 a única que realizou a Moçambique (fretado pelo Exército, para transporte de tropas). 

Em 23/11/1975 fez também a última viagem a Angola, a  sua ultima também como T/T, ao serviço do Exército. 

Ainda fará 3  viagens a Cabo Verde para repatriamento de cidadãos portugueses, cabo-verdianos, também fretado pelo Exército. 

Ao fim de 2 dezenas de anos (tinha sido lançado ao mar em 1954), tem o destino cruel de todos os navios: em 1976 fica imobilizado no Mar da Palha, no estuário do Tejo...Será desmantelado no Cais Novo de Alhos Vedros, em 1979/80...
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Nota do editor LG:

quarta-feira, 7 de maio de 2025

Guiné 61/74 - P26774: Tabanca Grande (573): António Augusto Arteiro Cardoso, ex-Fur Mil Vagomestre da 2.ª CCAÇ / BCAÇ 4610/73 (Camajabá e Piche, 1974), que se senta à sombra do nosso poilão no lugar 903

1. Mensagem do nosso camarada e novo tertuliano, António Augusto Arteiro Cardoso, ex-Fur Mil Vagomestre da 2.ª CCAÇ / BCAÇ 4610/73 (Camajabá e Piche, 1974), com data de 5 de Outubro de 2025:

Camaradas Carlos Vinhal e Luís Graça.
Grato pelo v/ email e cá estou a dar noticias.

Os dados militares:

Furriel Miliciano com especialidade em Administração Militar (Vagomestre), na Póvoa de Varzim depois de ter feito a recruta no RI5 (Caldas da Rainha).

Fui mobilizado para a Guiné em 1973 incorporado na 2.ª CCaç / BCaç 4610/73.

Embarquei no Niassa no célebre dia em que uma explosão, tentou travar a nossa ida.

"A 9 de Abril de 1974, as Brigadas Revolucionárias realizam a sua última acção, o atentado ao navio Niassa, que ia partir com um contigente de soldados para a Guiné. A bomba tinha sido fabricada em casa de Laurinda Queirós e José Francisco, militantes do PRP/BR que integravam uma célula juntamente com Orlando Lindim Ramos, e prestavam apoio logístico a outros militantes das Brigadas.

A bomba tinha sido colocada num fato que tinha um colete integrado. O plástico cortado em fatias ia dentro do forro do colete que, por sua vez, foi por baixo do blusão do militar que estava encarregado de transportar e colocar a bomba no interior do navio, montando-a aí. A principal preocupação era que a família do soldado percebesse que algo estava errado com o fato, se o abraçassem. A bomba foi colocada no porão adaptado a dormitório dos soldados e estava preparada para explodir às 18 horas. 

Uma hora e quinze minutos antes, as Brigadas telefonaram para o Porto de Lisboa a reivindicar a colocação da bomba e a alertar para o navio ser evacuado, o que permitiu que não houvesse acidentes maiores ou danos mortais. Os danos acabaram por ser apenas materiais e depois de reparado o rombo provocado, o navio partiu para a Guiné. Poucos dias depois dá-se o 25 de Abril."

Acção de sabotagem ao navio Niassa em "Luta Armada em Portugal (1970-1974)", Tese de Doutoramento de Ana Sofia de Matos Ferreira, pág. 300

Após o IAO lá fomos para Piche e a companhia foi deslocada para Camajabá, cujo comandante era Cap Mil Inf José Emídio Barreiros Canova (de Coimbra??).

Regressei em Outubro de 1974 onde fiquei em Lisboa na Comissão Liquidatária em Campolide até fim de Janeiro de 1975.

Aqui seguem fotos de lá e uma atual.

Foto 1 > Cumeré > Durante o IAO
Foto 2 > Xime > Retirada da companhia (aqui fiquei sem a mala com os meus pertences que me foi roubada)
Fotos 3 e 4 > Comemoração da Independência em Bissau (Agosto/Setembro) 1974, em frente ao Palácio do Governador. Ao lado da bandeira do PAIGC, o meu caro amigo Furrirel Miliciano Enfermeiro Manuel Herberto Furtado, entretanto falecido.
Foto 5 > Bissau > Aguardando regresso no UIGE junto ao porto, muito perto do "PELICANO"

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2. Comentário do editor CV:

Caro António Cardoso,

Muito obrigado por te juntares à tertúlia do nosso blogue. Sê bem-vindo. Vais sentar-te no lugar 903 do nosso poilão.

Pertences à geração do fim da guerra, por um lado tiveram azar por irem para a Guiné a tão poucos dias do 25 de Abril de 1974, por outro tiveram sorte porque, se tiveram "guerra", foi por pouco tempo.

Desconhecemos como seria o vosso estado de espírito na altura da mobilização uma vez já havia pronúncios de que algo muito importante estava para acontecer, o regime estava a cair de podre. 

O 25 de Abril foi o fim do conflito, mas talvez não da tensão entre a tropa portuguesa e o inimigo de ontem, porque não haveria total confiança entre as partes beligerantes. Os recalcamentos contra a potência colonial, pelo povo guineense, eram por demais evidentes. Em algumas das fotos aqui publicadas, retrantando o pós 25 de Abril, vemos que a tropa do PAIGC se apresentava nos quartéis, ainda ocupados por nós, armada até aos dentes.

Tu poderás esclarecer-nos já que a maioria de nós esteve no TO da Guiné em plena querra, quando ainda valia tudo, até matar gente desarmada que apenas queria conversar, estou a lembrar-me do assassinato dos três Majores e seus acompanhantes, no chão manjaco, em Abril de 1970.

Estamos receptivo às tuas fotos que documentam os dias finais da nossa ocupação naquele pequeno território, assim como das tuas memórias escritas. Serão muito imortantes para memória futura.

Não te disse, mas és um dos poucos representantes da especialidade de Vagomestre aqui no blogue, a maioria é (foi) operacional, não me referindo só aos atiradores, mas também aos nossos queridos camaradas do serviço de saúde e aos das transmissões, duas especialidades importantes demais quando saíamos para as operações. Não vou esquecer ainda os nossos camaradas condutores, muito sacrificados também pelas minas e nas emboscadas, que não popupavam nada nem ninguém.

Dizes que moras em Esposende. Da nossa tertúlia, tens como vizinhos: o Albino Silva (1968/70), o Fernando Cepa (1967/69) e o Mário Migueis da Silva (1970/72). Se me escapar alguém, não é por desconsideração.

Termino, enviando-te um abraço de boas-vindas em nome da tertúlia e dos editores.
Carlos

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Nota do editor

Último post da série de 30 de abril de 2025 > Guiné 61/74 - P26745: Tabanca Grande (572): Joaquim Galhós, ex-fur mil, de rendição individual, que integrou a CCAV 3420 (Pete, 3 meses), o Pel Caç Nat 57 (Cutia, 12 meses) e o BENG 447 (Brá, 9 meses): é natural do Barreiro, e senta-se à sombra do nosso poilão no lugar nº 902