Alcídio [José Gonçalves] Marinho (1940-2021), ex-fur mil inf, CCAÇ 412 (Bafatá, 1963/65); membro da nossa Tabanca Grande desde 23/9/2011, vivia no Porto, era de Miragaia; ei-lo aqui em Monte Real, no Palace Hotel, 4 de Junho de 2011, no VI Encontro Nacional da Tabanca Grande, empunhando o estandarte da CCAÇ 412, "Capacetes Verdes"; era um dos nossos "veteraníssimos", conheceu os duros anos do início da guerra no CTIG, foi Prémio Governador da Guiné, em 1964.
Foto: © Manuel Resende (2011). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]
1. Esta história pícara, contada pelo nosso saudoso Alcídio Marinho (1940-2021), merece ser reproduzida (e comentada) aqui na série "Humor de caserna".
É uma dupla homenagem, ao autor e aos nossos capelães no tempo em que alguns deles acompanhavam as NT em operações no mato, com os riscos inerentes, nos primeiros anos da guerra.
Humor de caserna (231) > "Filhos da p*ta, m*rda, car*lho! Quem me acode? Os filhos da p*ta... matam-me!": debaixo de fogo, até um padre diz asneiras: o capelão militar, madeirense, Adelino Apolinário Silva Gouveia
por Alcídio Marinho (1940-1921)
Na lista dos 20 primeiros capelães militares que serviram no CTIG, de 1961 a 1974, está o padre Adelino Apolinário da Silva Gouveia (*), que eu conheci: pertenceu ao BCAÇ 506.
Acompanhou o pessoal da CCAÇ 412 em muitas operações e deslocava-se aos vários destacamentos no mato, para rezar missa e dar apoio religioso e psicológico a todo o pessoal.
Era como um irmão nosso. Tive algumas conversas com ele. Era madeirense. Mais tarde, saiu de padre e casou, morava em Lisboa. [ Foi nomeado, por concurso , assessor principal do INIA - Instituto Nacional de Investigação Agrária, em 2002; conhecio-o pessoalmente, quando a Alice Carneiro trabalhava no Ministério da Agricultura e e Pescas. (LG)]
O episódio mais caricato a que assisti, passado com ele, foi o seguinte:
A 27 de fevereiro de 1964 foi lançada a "Operação Marte" à Ponta de Inglês [, subsetor do Xime], onde a nossa companhia sofreu três emboscadas.
A 27 de fevereiro de 1964 foi lançada a "Operação Marte" à Ponta de Inglês [, subsetor do Xime], onde a nossa companhia sofreu três emboscadas.
Na primeira ficou ferido um soldado da minha secção, com um tiro de pistola, pelas costas. Ele que seguia pelo interior do mato, deu a correr para a estrada [Xime-Ponta do Inglês], apesar de lhe ter recomendado que, em caso de ataque, enfrentasse o mesmo, que eu iria socorrê-lo. Quando olho para o lado, está ele deitado, dizendo:
– Marinho, estou ferido.
Verifiquei onde estava ferido e sosseguei-o, dizendo:
– Ó pá, isso não é nada, tem calma, eu vou chamar o enfermeiro.
Tinha levado um tiro de pistola. Só se via nas costa do seu lado esquerdo, na direcção do baço, uma pequena roseta, por onde tinha entrado o projéctil e veio alojar-se na frente, onde se via uma pequena mancha escura. Nunca foi retirada e ainda, actualmente, se apalpa o projéctil, na sua barriga.
Na segunda emboscada eles atacaram mesmo junto á estrada, e um dos turras viu o capelão Apolinário Gouveia meter-se atrás da roda traseira dum Unimogue e toca de fazer fogo com uma PPSH ("costureirinha").
Então só se ouvia uma voz que gritava:
– Filhos da pu...ta, mer...da, cara..lho! Quem me acode? Os filhos da puta... matam-me!
Começamos a atacar o local donde vinha o fogo, afastando o perigo do Unimogue. Eis, quando vimos sair, debaixo do Unimogue, o Padre Apolinário Gouveia, branco como a cal da parede, com a pistola Walther na mão, tremendo todo como varas verdes. Começámo-nos todos a rir.
Diz ele:
– Se alguém disser o que ouviu e viu, eu juro, a pés juntos, que é tudo calúnias e participo do engraçadinho.
A malta ainda mais se riu. Continuámos a marcha, e sofremos a terceira emboscada. Fomos atacados por enxames de abelhas.
Naquele pedaço de estrada, nas árvores das bermas, tinham colocado, lá no alto, uma espécie de cortiços, pareciam melões, feitos de barro, onde estavam as abelhas.
Quando começou a emboscada, atacaram-nos e, ao mesmo tempo, atiraram aos cortiços, que caíram e partiram, destruindo o habitat das abelhas.
Estas, furiosas, atacavam tudo e todos. Um motorista, o Cândido, caiu e as abelhas atacaram-no e, coitado, acabou por falecer. Tinha em cima dele mais de um palmo de abelhas.
Tirei do meu bornal um volume de tabaco , que distribui pelo pessoal, indicando que metessem nos lábios três ou quatro cigarros e os acendessem e soprassem para fora, fazendo fumo. Também cortámos capim e toca a fazer archotes para fazer fumo e afastar as abelhas, pois elas eram aos milhares.
Fui picado por uma abelha, na orelha direita que, passado pouco tempo, ficou dura como uma tábua e do tamanho duma mão.
Entretanto, na refrega da emboscada, ouvimos e vimos o capitão Braga, descalço, tinha tirado as botas e tentava despir-se, parecia um louco e berrava muito.
Os pés já estavam todos queimados, eram duas horas e meia da tarde, o sol queimava e as areias da estrada torravam, de quentes que estavam (52º, ao sol).
O furriel enfermeiro Silva teve que sedar o capitão. Aí acabou a operação. Toca a voltar para Xime e Bambadinca.
Alcídio Marinho
CCaç 412
[Revisão / fixação de texto: LG]
Estas, furiosas, atacavam tudo e todos. Um motorista, o Cândido, caiu e as abelhas atacaram-no e, coitado, acabou por falecer. Tinha em cima dele mais de um palmo de abelhas.
Tirei do meu bornal um volume de tabaco , que distribui pelo pessoal, indicando que metessem nos lábios três ou quatro cigarros e os acendessem e soprassem para fora, fazendo fumo. Também cortámos capim e toca a fazer archotes para fazer fumo e afastar as abelhas, pois elas eram aos milhares.
Fui picado por uma abelha, na orelha direita que, passado pouco tempo, ficou dura como uma tábua e do tamanho duma mão.
Entretanto, na refrega da emboscada, ouvimos e vimos o capitão Braga, descalço, tinha tirado as botas e tentava despir-se, parecia um louco e berrava muito.
Os pés já estavam todos queimados, eram duas horas e meia da tarde, o sol queimava e as areias da estrada torravam, de quentes que estavam (52º, ao sol).
O furriel enfermeiro Silva teve que sedar o capitão. Aí acabou a operação. Toca a voltar para Xime e Bambadinca.
Alcídio Marinho
CCaç 412
[Revisão / fixação de texto: LG]
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Lista dos capelães militares que serviram no CTIG, de 1961 a 1974 (excerto): são os primeiros vinte nomes da lista (de 1961 a 1966), de um total de 102 (Exército) (a Força Aérea e a Armada tiveram 7 e 4, capelões militares, no CTIG, respetivamente) (*).
Até à realização do 1º Curso de Formação de Capelães Militares (Academia Militar, 21 de agosto - 17 de setembro de 1967), eram todos voluntários, em princípio. E o seu número não ultrapassava a centena e meio. No 1º curso foram formados 58, incluindo os nossos grão-tabanqueiros Horácio Fernandes, Libório Tavares e Mário Oliveira, já falecidos.
Notas do editor LG:
(*) Vd. poste de 25 de outubro de 2016 > Guiné 63/74 - P16636: Os nossos capelães (5): Relação, até à sua independência, dos Capelães Militares que prestaram serviço no Comando Territorial Independente da Guiné desde 1961 até 1974 (Mário Beja Santos)
(**) Último poste da série > 29 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27581: Humor de caserna (230): A justiça do Cherno Rachide: quando roubar um vitela em Aldeia Formosa (Quebo) saía caro (Arménio Santos, ex-fur mil, SIM- Serviço de Informações Militares, 1968/70)























