terça-feira, 13 de junho de 2017

Guiné 61/74 - P17464: (De) Caras (80): Também levei uma encomenda, no regresso de férias em novembro de 1963, a pedido da mãe de um camarada... Era uma lata de salpicões em azeite, para um soldado que estava em Fulacunda e que, infelizmente, morreria entretanto numa emboscada... Acabámos por comer os salpicões em Cantacunda... (Alcídio Marinho, ex-fur mil, CCAÇ 412, Bafatá, 1963/65)

1. Comentário, ao poste P17454 (*),  do Alcídio [José Gonçalves] Marinho, ex-fur mil inf, CCAÇ 412 (Bafatá, 1963/65): 


Quando vim de férias (Prémio Governador da Guiné), em Novembro de 1963, também me foi pedido para levar uma encomenda para um soldado que estava em Fulacunda,

Então, mandei que a mãe do camarada fosse a um latoeiro, mandar fazer uma lata e para colocar na mesma os salpicões, encher de azeite e depois o latoeiro devia soldar a tampa.

Assim a senhora procedeu e no regresso, já com o SPM escrito num papel colado na lata, transportei a encomenda para Bissau. Como cheguei a Bissau e embarquei logo, num barco para Bafatá, não tive tempo para despachar a encomenda para Fulacunda.

No entanto, indaguei com o nosso Furriel de Transmissões, Rui Freitas Pereira (madeirense), da possibilidade de saber se o referido soldado ainda se encontrava em Fulacunda, para ter a certeza que a encomenda chegava ao destino.

Atravês do Rádio, fiquei a saber que, infelizmente, o referido soldado tinha morrido numa emboscada. Logo em seguida, recebi um aerograma de minha mãe, dizendo-me que abrisse a encomenda e comesse o seu conteúdo, como tinha indicado a mãe do referido camarada.

Assim, quando cheguei a Cantacunda, nós, os furriéis e o alferes,  comemos os salpicões, não  sem antes prestarmos um minuto de silêncio em homenagem do camarada falecido. Aproveitamos o azeite nos cozinhados 

Como eram bons os salpicões!

Alcidio Marinho
CCaç 412

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Notas do editor:



(**) Último poste da série > 12 de junho de  2017 >  Guiné 61/74 - P17456 (De) Caras (79): em outubro de 1972, vim de férias e uma vizinha meteu uma cunha à minha mãe para eu levar uma encomenda para o namorado da filha que era furriel e que eu não conhecia de lado nenhumm... Quando a encomenda chegou ao destino, já o namoro se tinha desfeito, como vim a saber 17 meses depois... (Juvenal Amado, autor de "A tropa vai fazer de ti um homem!"... Lisboa, Chiado Editora, 2016)

3 comentários:

Tabanca Grande disse...

Obrigado, Alcídio, foste solidário para com a mãe do nosso camarada, que devia ser tua vizinha... E foste imaginativo, com a tua solução de latoaria...

Deves ter chegado em dezembro de 1963 com a encomenda que, entretanto, levas contigo até Bafatá, na esperança de a poderes despachar para Fulacunda através do SPM... Avisadamente certificas-te se o destinatário ainda lá estava... Afinal, acabava infelizmente de morrer numa emboscada...

E a guerra lá continuou por mais 11 longos anos!!!... E os salpições só podiam ser bons!... Era a maior "guloseima" que a malta nortenha podia receber na Guiné, os salpições "roubados" ao fumeiro das nossas mães... Este "contrabando de ternura" precisa de continua a ser donhecido e divulgado no nosso blogue!... LG

Hélder Valério disse...

Caro Alcídio

Na prática, uma aventura e tanto!
Ressalta a tua vontade de ajudar e a tua honestidade.
Não podias "adivinhar" os desenvolvimentos ocorridos com o destinatário da encomenda mas só usufruíste dela após um escrito com essa autorização.
Exemplar.

Hélder Sousa

Anónimo disse...

Luis
Quero rectificar a data , foi em Novembro de 1964
Alcidio marinho
C.Caç 412