segunda-feira, 12 de junho de 2017

Guiné 61/74 - P17458: Efemérides (257): A propósito do 10 de Junho, ainda os estranhos e excelentes portugueses no mundo... "Goa, um adeus no entardecer dos dias / e uma lágrima para sempre" (Poema e fotos de António Graça de Abreu)







India > Goa > Volta ao Mundo em 100 dias a bordo do mavio de cruzeiros "Costa  Luminosa" > 19 de novembro de 2016 > Lembrando o 10 de junho, "dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas... Lembrando ainda os portugueses e seus descendentes que ficaram nos antigos territórios portugueses de Goa, Damão e Diu. Nas duas últimas fotos, o autor e a esposa.

Foto: © António Graça de Abreu  (2017). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

De: Antonio Graca de Abreu
Data: 12 de junho de 2017 às 17:02
Assunto: A propósito do 10 de Junho, ainda os estranhos e excelentes portugueses no mundo

Meu caro Luís

Ainda a propósito do 10 de Junho, lembrei-me de te enviar este poema meu,  escrito em Goa, Novembro 2016. Se achas que é de publicar, avança.  Fotos seguem noutro mail.

Abraço,
António Graça de Abreu
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Goa

por António Graça de Abreu




Goa, um pé em Mormugão,
todo o olhar em Vasco da Gama.

Goa, do velho Afonso de Albuquerque,
espadeirando pelas costas do Malabar,
na aventura insana de conquistar o Oriente.

Goa, dos grandes vice-reis e senhores de outrora,
hoje em lápides enegrecidas pelo tempo.

Goa, de Bardez a Salsete, o pó resplandecente da fé,
e sinuosos silêncios.

Goa, de cem mil cruzes diante de cem mil lares,
braços de Cristo abertos para o mundo,
cemitérios de cristãos unindo céu e terra.

Goa, uma Roma Oriental cintilando na basílica do Bom Jesus,
cinco séculos a acastanhar a pedra,
e São Francisco Xavier, benfazejo e amigo,
num túmulo de prata, pedrarias e cristal.

Goa, da velhíssima Sé Catedral,
maior igreja da Ásia, imaculadamente branca,
no altar-mor, dois jovens, mais uns tantos amigos,
todos humildemente descalços,
um casamento em língua portuguesa.

Goa, da igreja de S. Caetano,
semelhante à basílica de S. Pedro,
para enlevar corações, levá-los a Roma
ou talvez ao paraíso.

Goa, da orgulhosa Pangim,
do bairro colonial das Fontaínhas,
onde se baila o corridinho,
e um cônsul português sorri e dança.

Goa, de especiarias e perfumes,
na carregação das naus,
para inebriar os dias e as noites.

Goa, da doce e formosa Manteigui,
nas palavras de Bocage "puta rafada",
cujos "meigos olhos, que a foder ensinam
até nos dedos dos pés tesões acendem".

Goa, dos breves companheiros de jornada,
o André, o Edgar, a Maria, o Reis,
dos Gomes Market, do Faria Heaven, do Santosh Garage,
tantos ramos florescendo da cepa lusitana
entretecidos pelo perpassar dos séculos.

Goa, das últimas famílias indo-portuguesas
entrecruzando sangue e afectos,
laboriosas gentes nas confusões do presente,
com as pedras e o coração do passado, construindo o futuro.

Goa, dos fortes de Tiracol ou da Aguada,
velhos canhões, há séculos disparando pedaços de nada,
para a águas do Mandovi, para o vazio,
e um velho farol, o primeiro iluminando os mares da Ásia.

Goa indiana, pois claro,
com templos hindus para venerar os deuses,
Shiva, Brama, Vishnu, Krishna,
e pequenas divindades descansando no fundo do vale,
no recato sombreado dos palmares.

Goa, das praias de infindáveis areias,
Calangute, Dona Paula, ou Benaulim,
para humedecer o corpo e respirar o sol.

Goa, um adeus no entardecer dos dias,
e uma lágrima, para sempre.

António Graça de Abreu



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Nota do editor:
Último poste da série >  7 de junho de 2017 > Guiné 61/74 - P17440: Efemérides (256): Faz agora 75 anos que foi afundado a oeste da Gronelândia o lugre bacalhoeiro ilhavense "Maria da Glória" por um submarino alemão... Dada o forte simbolismo da data, foi já proposta a Assembleia da República a instituição do dia 5 de junho como "O Dia Nacional do Bacalhau"...

5 comentários:

Anónimo disse...



Belo poema, vibrante, com alma. Alma lusitana.

Francisco Baptista

Tabanca Grande disse...

António, não conheço Goa (nem muito menos os dois colossos asiáticos, a Índia e a China), mas acho que no teu poema está lá tudo, os 450 anos da nossa presença... e os milhares da cultura hindu...

É uma síntese poética magistra, que bem merece antologia!---


Em 2011 o Expresso foi lá "investigar" o que restava da "ocupação portuguesa" (sic), 50 anos depois de uma força brutalmnete desproporcionado do exército, marinha e força aérea indianos ter derrotado uma força de opereta, lusitana, que guarnecia o território, incluindo o meu primo Luís Maçarico, de Ribamar, Lourimhã, e que era um ajudante de cozinheiro!... quem Salazar pediu, melodramático, despudorado, histriónico, tragicocómico, louco, o supremo sacrifício coletivo...

Quando os nossos camaradas regressaram do cativeiro, ignorou-os, pura e sinplesmente, essa sim a suprema humnilhação a que pode estar sujeito um combatente...

O que teria acontecido se, em vez de um líder fraco, cego, surdo e mudo, tivessemos tido um homem à altura da história (e não apenas das circunstâncias), que soubesse negociar, com clarividência, dignidade, inteligência e sentido de Estado o processo de transição pacífica dos territórios do "Estado Português da Índia, começando por reconhecer o direito dos seus povos à autodeterminação ?...

Amigos e camaradas, leitores do nosso blogue, acho que devemos ouvir muitas vezes o discurso de Salarar de 28 de maio de 1936...Está lá tudo sobre o "pensamento totalitário" de Salazar;

"Não discutimos Deus e a virtude. Não discutimos a pátria e a sua história. Não discutimos a autoridade e o seu prestígio. Não discutimos a família e a sua moral. Não discutimos a glória do trabalho e o seu dever."

https://rutube.ru/video/6a06d4765460c350330ae938aae3b325/

Anónimo disse...

E hoje está tudo bem???

Anónimo disse...

Bonito Graça de Abreu.Sensibilidade e conhecimento do novo e velho oriente.Faz-me lembrar as "aulas" "conferencias" "seminários" a que assisti nos anos 90 na av.5 de
Outubro.Não sabendo nem desconfiando que tambám eras um ex-combatente.Manifesto também o meu apreço pela tua lucidez e análises no blogue, sobretudo pela tua defesa e gratidão que fazes da minha antiga "arma#-
Carlos Gaspar ex-FAP-

antonio graça de abreu disse...

Obrigado, Carlos Gaspar.Foram quase catorze anos, comigo, a falar, ano após ano, mês após mês,semana após semana, dos nossos orientes, China, Macau, ali, no espaço mágico do auditório hoje quase moribundo (como é possível?!) da Missão de Macau em Lisboa, depois Delegação Económica e Comercial de Macau.
Alguém continua a lembrar o meu trabalho.

Obrigado, Carlos Gaspar.

Abraço,

António Graça de Abreu