quarta-feira, 14 de junho de 2017

Guiné 61/74 - P17471: Fotos à procura de...uma legenda (86): um achado macabro em 23 de março de 1970, depois do ataque a Cabuca (Valdemar Queiroz, ex-fur mil, CART 2479 / CART 11, Contuboel, Nova Lamego, Canquelifá, Paunca, Guiro Iero Bocari, 1969/70)



Foto nº 1


Foto nº 2 A 


Foto nº  2

Guiné > Região de Gabu > Cabuca > CART 2479 / CART 11 > 23 de março de 1970 >  Material do PAIGC abandonado (morteiro 82, completo, e granadas) e um morto


Fotos: © Valdemar Queiroz (2017). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Mensagem do Valdemar Queiroz [, ex-fur mil, CART 2479 / CART 11, Contuboel, Nova Lamego, Canquelifá, Paunca, Guiro Iero Bocari, 1969/70] 

Data: 4 de junho de 2017
Assunto: Muito mais que fotos à procura duma legenda ou o macabro acontecimento


Luís Graça:

Ando, desde que entrei para o nosso grande blogue/convívio da rapaziada que esteve na Guiné, para publicar/apresentar estas fotos de quando o meu 4º Pelotão da CART11 foi, de Nova Lamego a Cabuca, em 23 de março de 1970, acudir, ao que tinha sido um grande ataque a Cabuca, no dia, tarde oi noite anterior, não sei ao certo, e levar munições e mantimentos.

Foi o meu 4º Pelotão que saiu muito cedo de Nova Lamego para Cabuca [, a sudeste de Nova Lamego, e a nordeste de Canjadude], já com a estrada picada pela milícia, era sempre assim, para podermos avançar, quem não se lembra destas picagens ?!

Lá fomos estrada/picada fora, nunca dantes vista por nós, deveria ter sido a nossa primeira intervenção, até Cabuca,  levar reforços em munições e mantimentos. Sem problemas chegámos a Cabuca que tinha sido fustigada no dia ou noite anterior.

Não conheço testemunhos descritos no nosso blogue do que aconteceu em Cabuca, no dia 21 ou 22 de março de 1970. [Sobre Cabuca há 3 dezenas de referências no nosso blogue.]

Quando lá chegámos, verificámos que tinha havido um grande ataque à tabanca e instalações da tropa e até a Capela tinha sido destruída com morteirada.

Não percebo, ou melhor eu agora não percebo, como é que foi feito o contra-ataque da tropa de Cabuca para o IN ter sido desbaratado, deixando grande quantidade de material de guerra (foto nº 1) e um morto no terreno (foto nº 2).

O que estas fotos, que remeto em anexo, têm de macabro, é eu a olhar para o homem do IN, morto em combate, atingido por vários tiros ou estilhaços e, também, ter ficado sem um pé (ver caixa metálica, em cima, com o pé dentro) (foto nº 2A).

Valdemar Queiroz



Guiné > Carta da Província (1961) > Escala 1/500 mil > Pormenor: o triângulo Nova Lamego - Canjadude > Cabuca.

Infogravura: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


_________________

Nota do editor:

Último poste da série >  7 de maio de 2017 > Guiné 61/74 - P17326: Fotos à procura de uma... legenda (85): Nossa Senhora de Fátima de Guileje... a propósito do lançamento do livro de Luís Branquinho Crespo, "Guiné: um rio de memórias" (Leiria, Textiverso, 2017)

5 comentários:

Tabanca Grande disse...

macabro | adj. | s. m.

ma·ca·bro
(francês macabre)
adjectivo
1. Que é relativo à morte.
2. Que evoca a morte. = FÚNEBRE
3. Que vai desfilando lugubremente.
substantivo masculino
4. Aquilo que é relativo à morte.

"macabro", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/dlpo/macabro [consultado em 14-06-2017].

Tabanca Grande disse...

Valdemar, houve uma guerra, e nós tivemos lá... Não eram jogos de guerra, era guerra mesmo, suja e dura, com mortos e feridos, corpos mutilados, de um e outro lado...

Macabro ? Todas as guerras o são... Acho que fizeste bem em partilhar estas fotos, depois de vencida a tua relutância inicial... LG

António José Pereira da Costa disse...

Olá Camaradas

Sempre o melhor e o pior reunidos.
Na primeira foto uma fotografia de arte. As armas e as munições marcadas pelas sobras e claridade que se coam através de uma cobertura de verga.
Poderia ser uma fotografia de concurso.
A outra... é uma fotografia de guerra como tantas há.
Esta não vem num filme para impressionar o espectador, mas é real e é das que não nos saem da memória, com máquina ou sem ela.
Só podemos especular acerca do que se terá passado naquele local. Do nosso lado também as há,
É a guerra! E não há nada a fazer.

Um Ab.
António J. P. Costa

Tabanca Grande disse...

Os jovens de hoje que, felizmente, só conhecem a guerra como realidade virtual, devem poder ter acesso a estas e outras fotos da guerra da Guiné. Não temos muitas fotos "macabras" como esta (foto nº 2).

Raramente andávamos com m´+aquinas fotográficas no mato, em operações, e não tínhámos repórteres de guerra, incorporados nas nossas fileiras... Os fotocines, que os havia, esses, erá só para as "operações de propaganda", as visitas ministeriais, as saídas do Governador-Geral, as paradas militares, os salamaleques...Enfim, o lado da pompa e circunstância da guerra...

A guerra surda, suja, de um lado e do outro, a merda, a morte, o horror,,,, essa realidade escondia-se, ingorava-se, escamoteava-se, não aparecia nas salss de cinema, na televisao, nos jornais, que era para não afectar o "moral" da Nação, não impressionar as mães, os pais, os manos mais novos... Enfim, também por razões alegadamente de segurança, "para não dar trunfos ou argumentos ao inimigo"...

O PAIGC fazia o mesmo_ não mostrava os seus desaires, e muitos menos os corpos dos guerrilheiros mortos nos ataques e flagelações aos nossos aquartelamentos, destacamentos, tabancas em autodefesa, colunas logísticas, grupos de combate de no mato, etc...

E este era um homem como nós, guineense, talvez mandinga ou biefada, morto na flor da idade, que tinha pai, tinha mãe, tinha manos e manas como todws nós.. E sonhso como todos nós....

Valdemar, como é que se olha um cadáver de um inimigo, em Cabua, na Ponta do Inglês, em Guidaje ? Com compaixão, como tu soubeste fazer... O teu olhar é de compaixão, e não de simples curiosidade mórbida.

Anónimo disse...

compaixão | s. f.

com·pai·xão
substantivo feminino
1. Sentimento benévolo que nos inspira a infelicidade ou o mal alheio.
2. Dó; lástima; piedade.

"compaixão", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/dlpo/compaix%C3%A3o [consultado em 14-06-2017].

__________________

Creio que, em geral, tratámos os mortos do PAIGC com compaixão. Mutilação de cadáveres, cortes de cabeças e de orelhas, amputação de genitais, etc., não vi no meu tempo. Exceto uma vez, em Bambadinca, em plena parada do quartel, ao tempo do BART 2917... LG