segunda-feira, 12 de junho de 2017

Guiné 61/74 - P17456 (De) Caras (79): em outubro de 1972, vim de férias e uma vizinha meteu uma cunha à minha mãe para eu levar uma encomenda para o namorado da filha que era furriel e que eu não conhecia de lado nenhumm... Quando a encomenda chegou ao destino, já o namoro se tinha desfeito, como vim a saber 17 meses depois... (Juvenal Amado, autor de "A tropa vai fazer de ti um homem!"... Lisboa, Chiado Editora, 2016)

1. Texto enviado anteontem pelo Juvenal Amado (ex-1.º cabo condutor autorrodas, CCS/BCAÇ 3872, Galomaro, 1971/74, e autor de "A tropa vai fazer de ti um homem!... Guiné 1972/74" (Lisboa, Chiado Editora, 2016):

Não lembro de ter recebido alguma encomenda mas lembro-me de ter levado. (*)

Em Outubro de 1972 vim de férias a casa e,  mal cheguei, a minha mãe passou a ser assediada por uma vizinha com um pedido para,  quando eu regressasse, levar uma encomenda para o namorado da filha que era furriel lá num sítio qualquer. 

Escusado será dizer que este tipo de "correio", retirava do saco da TAP, já si pequeno para nós próprios, coisas que nós queríamos levar para nosso consumo e dos amigos chegados . Era pois um favor prestado a quem não conhecíamos e com quem não tínhamos relação nenhuma, dadas as diferenças sociais em que navegávamos na altura. 

Mas, pronto, o que se havia de fazer? Na data próxima ao meu regresso à Guiné, lá veio o embrulho que eu meti custo no meu saco. Chegado a Bissau, enviei-o para onde me tinham dito que devia mandar e assim foi.

Mas não querendo correr o risco de que me acusassem de ter ficado com a encomenda, lá ia perguntado à minha mãe se o tal namorado da fulana tinha recebido o embrulho. A minha mãe pareceu-me, a mim, que rodeava a pergunta e nada de concreto me dizia. 

Entretanto ainda lá passei mais 17 meses e o caso perdeu o meu interesse. Quando regresso,  eis que, ao passar no café Portugal,  vejo a jovem que me tinha feito acarretar o embrulho e de quem nunca recebi o pequeno agradecimento, em alegre cavaqueira com várias amigas. Resolvi perguntar-lhe,  directamente e a cores, se o namorado tinha recebido ou não a encomenda. Ficaram todas com cara de caso a olhar para aquele desterrado a quem a cor de terra não sairia nos próximos meses, a quem nunca se tinham dignado a dirigir palavra. Ela,  um bocado atabalhoadamente como quem é apanhado em falso, que sim, que tinha recebido e muitos obrigados finalmente.

Entretanto fui para casa, contei à minha mãe o sucedido, ela fez um sorriso meio maroto e lá me contou finalmente o que se tinha passado. "Olha,  filho,  ainda tu não tinhas lá chegado, descobriu-se que ela andava metida com outro e o namoro escangalhou-se".

Finalmente percebi o estranho silêncio de 17 meses, a atrapalhação da dita cuja e das amigas, quando eu me dirigi a ela em pleno café Portugal.

2. Comentário do nosso editor:

A propósito das nossas redes de  "contrabando de ternura"... e desfazendo dúvidas: o SPM - Serviço Postal Militar também efetuava a entrega de encomendas  (livros, roupas, mantimentos...) remetidas pelas nossas famílias, e não apenas cartas e aerogramas... Recorde-se aqui um poste do Paulo Santiago, já com dez anos (**), e de que se reproduz a seguir um excerto:

(...) "A minha avó Clementina, avó materna, resolveu enviar-me, por encomenda postal, um bolo-rei, dirigido para o SPM de Bambadinca. Como chegou após o dia 24, reenviaram-no para o SPM 3948 (era do Pel Caç Nat 53). Chegou ao Saltinho, já tinha vindo eu para Bissau. Reenviaram a encomenda para Bambadinca, acabando por receber o bolo-rei em meados de Janeiro. Estava duríssimo, mas...foi o melhor bolo-rei que comi até hoje." (...)

Também temos notícia de entrega de salpições (e outros produtos do fumeiro), via SPM, iguaria de resto muito apreciada entre a malta do Norte. Veja-se aqui, a este propósito, um saboroso poste do nosso José Manuel Matos Dinis (***).  Mas também já apareceram camaradas nossos a queixarem-se do "extravio" de encomendas enviadas pelas famílias... Não sabemos como se fazia a articulação entre os CTT e o SPM, nem temos noção das tarifas que se praticavam na época.

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Notas do editor:

(*) Vd. último poste da série > 11 de junho de 2017 > Guiné 61/74 - P17454: (De) Caras (78): Também eu fiz parte dessa rede de "contrabando de ternura" que permitia, aos nossos familiares, fazer-nos chegar a Bissau e ao 'mato' as suas "encomendinhas"... (Hélder Sousa, ex-fur mil trms TSF, Piche e Bissau, 1970/72; criado em Vila Franca de Xira e a residir hoje Setúbal)

(**) Vd. poste de 24 de dezembro de  2007 > Guiné 63/74 - P2378: O meu Natal no mato (11): Saltinho, 1972: O melhor bolo rei que comi até hoje, o da avó Clementina (Paulo Santiago)~

(***) Vd. poste de  25 de janeiro de 2013 > Guiné 63/74 - P11002: História da CCAÇ 2679 (61): A vingança serve-se fria (José Manuel Matos Dinis)

6 comentários:

antonio graça de abreu disse...

Hoje, dia 12 de Junho, regresso ao blogue e constato que não houve neste blogue a mais leve referência ao dia 10 de Junho, Dia de Portugal, ao encontro de combatentes em Belém, etc. Porquê?

Abraço,

António Graça de Abreu

Tabanca Grande disse...

António, os editores também têm direito a fazer gazeta... E a "faltar à missa"... Eu estive fora de Lisboa, nem sequer pude ir ao 10 de kunho em Belém... Em suma, não é um crime de lesa-Pátria...De resto, muitos dos nossos leitores são também "facebook... eiros" e têm acesso ao programa das comemnorações do 10 de junho...

Como sabes, o nosso blogue não tem editores profissionais nem muito menos a obrigação de acompanhar a atualidade nacional... Eu sei que a data é "sagrada", costumamos sempre dar notícia de (ou comentar) a efeméride... A verdade é que ninguém escreveu nada sobre o tema... O blogue vive das contribuições dos camaradas e amigos da Guiné...

Em todo o caso, com o atraso de 3 dias, vai sair amanhã um poste alusivo à data e sobretudo ap esquecimento dos nossos camaradas guineenses que integraram as fileiras do Exército... O 10 de junho também dos esquecidos da História...

O artigo é da autoria de um dos nossos amigos, o prof Armando Tavares da Silva.

Anónimo disse...

Percebam que o 10 de junho é odiado por muitos, outras datas não.Depende da inclinação,Eu como sou português ou porque nasci aqui gosto do 10 de junho.
J,Dias

Tabanca Grande disse...

Amigo ou camarada J. Dias:

Acho que hoje o 10 de Junho, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, é consensual no nosso regime democrático... Antes do 25 de abril, sim, podia haver (e havia) "fracturas" de natureza político-ideológica...

https://pt.wikipedia.org/wiki/Dia_de_Portugal,_de_Cam%C3%B5es_e_das_Comunidades_Portuguesas

Anónimo disse...

E porque que o 10 de junho é hoje consensual?O Pais não era Portugal antes do 25?Não percebo!Mas estou esclarecido(ou talvez não)mas não estou é convencido.
J.Dias

Juvenal Amado disse...

Bem tudo isto porque a moça lá da minha terra mandou uma encomenda para o namorado quando já andava com outro. E dizem que as guerras começam sem saber como!!!!!!!

Pois eu estive no 10 de Junho ali mesmo à beirinha do Tejo com vários camaradas, num bocado bem passado e de sã camaradagem.

O 10 de Junho é uma data estimada, bem como o 25 de Abril, bem como o 5 de Outubro e bem como 1 de Dezembro e se a intenção é o da mera provocação, chegou cá, fez ricochete e partiu para parte incerta.

Um abraço