quinta-feira, 15 de junho de 2017

Guiné 61/74 - P17474: O Mundo é Pequeno e a nossa Tabanca ... é Grande (108): Na Lourinhã, fui encontrar o ex-1º cabo at inf Alfredo Ferreira, natural da Murteira, Cadaval, que foi o padeiro da CCAÇ 2382 (Buba, Aldeia Formosa, Mampatá, 1968/70)... e que depois da peluda se tornou um industrial de panificação de sucesso, com a sua empresa na Vermelha (Luís Graça)


Distintivo da CCAÇ 2382 (Buba, Aldeia Formosa, Mampatá, 1968/70).  Cortesia de Manuel Traquina que descreve o distintivo nestes termos:

"Este era o distintivo da Companhia. Continha na parte central, a figura de um militar com aspecto de veterano de guerra, já com o camuflado e botas um pouco danificados, e a sua inseparável G3.
"Na mão direita segura aquilo a que chamávamos a 'pica', que não era mais que uma vareta de aço afiada e que servia como o nome indica para picar o terreno susceptível de ocultar uma mina. Na extremidade da referida 'pica' encontra-se uma pequena caixa que representa uma mina anti-carro.
Sendo a CCaç 2382 uma Companhia Independente, nos quatro ângulos do distintivo encontram-se as iniciais dos comandos a que pertenceu: o primeiro é o Regimento de Infantaria 2,  de Abrantes,  onde a companhia se formou e foi mobilizada; o segundo é o COSAF -  Comando Operacional de Aldeia Formosa; o terceiro, Batalhão de Caçadores 2834,  ao qual a companhia esteva adida e o quarto, o COP4 (Comando Operacional nº4, sedeado em Buba).

"As duas inscrições laterais poderão levantar algumas interrogações: 'Por Estradas Nunca Picadas'. Esta pequena frase diz-nos que a companhia andou por locais até ali ainda não pesquisados; 'Por Picadas Nunca Estradas' aqui pretende-se dizer o que foi uma realidade, que os militares andaram pelo mato por caminhos que nunca foram estradas.

"Mas voltando à figura central, àquele a que chamámos 'o Zé do olho vivo', por ser uma figura mais ou menos engraçada, valeu-nos na Guiné o título da Companhia dos Palhaços. ".Manuel Batista Traquina".



1. Há dias, na Lourinhã, fui visitar uma das minhas irmãs, a do meio (tenho três, mais novas do que eu). A mana Z... tem um filho, o A..., que está num país árabe a tentar a sua sorte como talentoso adjunto de treinador profissional de futebol. A sua conpanheira, I..., é do Cadaval, concelho vizinho.

Manuel Traquina
Os pais da moça foram-me apresentados. Na hora do chá, conversa puxa conversa, verifico que o pai, Alfredo Ferreira, estivera na Guiné na guerra colonial:
- Quando?
- 1968/70.
- Somos contemporâneos, o meu amigo é mais velho um ano do que eu...
- Pois, sou de 46!
- E eu de 47!... E a sua companhia, já agora, ainda se lembra o número ?
- A 2382, Buba, Aldeia Formosa, Mampatá, Contabane... Éramos a companhia do "Zé do Olho Vivo"! Companhia de Caçadores...
- Se me lembro!... Tenho gente dessa companhia no meu blogue, Luís Graça & Camaradas da Guiné... E o camarada foi operacional? Qual era o posto?
- 1º cabo atirador de infantaria... Mas, como era preciso alguém para
Carlos Nery [, o cap mil Araújo]
fazer o pão, fiquei eu, como padeiro.
- E o capitão?
- Carlos Nery Sousa Gomes de Araújo. Era miliciano.
- Incrível, é meu vizinho de Alfragide!... E quem mais, dos alferes e furriéis...?
- Olhe, o furriel mecânico Manuel Traquina que até escreveu o livro com histórias do pessoal da companhia. É de Abrantes.
- Já estive com ele num dos nossos encontros anuais...

... Emociona-se o ex-1º cabo Alberto Ribeiro C. Ferreira ao falar do ataque a Contabane e das colunas a Gadamael... E do ataque a Buba... E do monumento que foi edificado aos combatentes da sua terra, que regressaram todos, graças a Deus... Sessenta e seis!... Estamos a falar de Murteira, freguesia de Lamas, concelho do Cadaval... Ele escreveu (ou ajudou a escrever) as três quadras de homenagem que estão gravadas na pedra. Recita-me as quadras com um brilhozinho nos olhos. Fica exasperado por lhe faltar o primeiro verso da última quadra... Faz apelo à memória da esposa, a seu lado...

O meu cunhado, M...,   estava banzado com a nossa conversa e a familiaridade dos nomes das terras da Guiné, que ambos testemunhávamos, eu e o Alfredo: de Mampatá a Contabane, do Saltinho a Gandembel, de Buba a Quebo,  e ainda de João Landim a Bula, e o dia em que o Alfredo  ia morrendo afogado no rio Mansoa, agarrado a um frágil tronco de palmeira, ele que nem sabia nadar!...

Falei-lhe do blogue e das referências que temos à malta da companhia do "Zé Olho Vivo"... Não é pessoa de navegar na Net, mas vai todos aos anos aos convívios da CCAÇ 2382... Fala, com calor humano, dos tempos da Guiné e dos seus camaradas... Vê-se que a guerra e a camaradagem marcaram-no para sempre.

Fico a saber que, no regresso (ou ainda antes, logo em 1969), se estabeleceu por conta própria como industrial de panificação. Devido à lei do condicionamento industrial, na época,  o Grémio do setor só o deixou estabelecer-se em Alcoentre, no concelho próximo, Azambuja, transferindo-se mais tarde (presumo que depois do 25 de Abril) para a Vermelha, outra sede de freguesia do concelho de Cadaval. 

O negócio do pão prosperou ao ponto de a clientela se ter alargado a boa parte da região Oeste e à Grande Lisboa... Passou a condução dos negócios ao filho, líder hoje da Panificadora Regional da Vermelha, empresa que tem mais de meia centena de colaboradores e uma apreciável frota automóvel para distribuição diária de pão... que chega às nossas mesas através das redes de hipermercados  e supermercados  onde fazemos compras... Vê-se que sente orgulho na obra feita e na continuidade dada pelo filho (que "não quis continuar a estudar" e é hoje um empresário de sucesso)...

O Zé Manel Cancela
Falámos ainda de amigos do concelho do Cadaval, do Joaquim Pinto de Carvalho, hoje advogado, outro camarada da Guiné, natural do Cadaval, que tem um turismo rural em Vila Nova, a "ArtVila"... Falámos do Miguel Luís Evaristo Nobre, do Vilar, e da sua paixão pelos moinhos de vento... Falámos, inevitavelmente, da serra de Montejunto, e das terras ali à volta, como a "pitoresca" Pragança e o Pereiro (onde se cantam e pintam os Reis) ...

Prometemos, enfim, fazer um visita a Murteira, ao monumento local aos combatentes da guerra do Ultramar e, naturalmente, à casa deste camarada que já ficou avisado:
- Para a próxima, passamos a tratar-nos por tu, como camaradas que somos e continuamos a ser... Tratamo-nos por tu, na Tabanca Grande, do general ao soldado...

2. Não me ocorreu o nome do meu amigo e camarada de Penafiel, o Zé Manuel Cancela, ex-soldado apontador de metralhadora pesada, que também pertenceu à CCAÇ 2382... Na altura não tinha o portátil comigo, pelo que não deu para fazer pesquisas sobre a malta desta companhia que faz parte da nossa Tabanca Grande, e onde se incluem os nomes do Manuel Traquina (ex-furriel miliciano) e do Carlos Nery (ex-cap miliciano, por sinal meu vizinho de Alfragide), além do José Manuel Moreira Cancela e do Alberto Sousa e Silva (ex-soldado de transmissões) (e de quem não temos para já uma foto atualizada).

Apesar da máquina fotográfica andar sempre comigo, também não me ocorreu tirar uma foto... com o Alberto Ferreira e a esposa. A filha I... já a conhecia há uns tempos mas não assistiu a esta conversa. Também ela costumava acompanhar os pais nos convívios anuais da companhia. E conhece bem o Manuel Traquina.

De qualquer modo, pode-se dizer,  mais uma vez, e com toda a propriedade, que o Mundo é Pequeno e a nossa Tabanca...é Grande!

5 comentários:

Zé Manel Cancela disse...

Tens razão Luis,quando dizes"O mundo é pequeno e a nossa tabanca é grande"
É claro que conheço,ou conheci,bem o Alfredo Ferreira,eramos do mesmo pelotão.
Na companhia ninguém o conhecia pelo nome.Era o Geada,nao sei porquê mas
era o nome de guerra.Nao é muito assidu-o nos convívios,nos últimos nove anos,vi-o
uma vez,talvez os afazeres o limitem....Um abração caro comandante....

Carlos Nery disse...

Pois, o Geada! Nós, na C.Caç. 2382 éramos uma espécie de família... E o Geada era aguém que desempenhava um papel importante. O padeiro era alguém que detinha algum poder... Em Bissau o pão era péssimo... Dizia-se que era feito com farinha de arroz... Vendo pelo mesmo preço... O que é certo é que quem chegava a Buba gostava do nosso pão. Os pilotos, sempre que podiam, demoravam-se uma horas... Nadar no Rio grande de Buba, almoçar connosco era coisa apetecida... E o pão, acabado de fazer e barrado com manteiga... um luxo! Mas o Geada tinha também ascendente junto da população feminina da tabanca! Calculem que o tecido dos sacos de farinha era muito apetecido por bajudas e mulheres grandes! E o Geada administrava com muito jeito as suas ofertas... Falta-me só saber qual a utilização dessas dádivas... Tenho vindo a constatar que parte do que acontecia no seio da tal família só hoje me é relatado... O Capitão, em muitas circunstâncias, era o último a saber...

Tabanca Grande disse...

Meus caros camaradas, Zé Manel Cancela e Carlos Nery, grã-tabanqueiros:

Obrigado pelas vossas preciosas achegas!... O Alfredo Ferreira vai adorar saber notícias vossas!... De um lado, um camarada de pelotão, o Cancela e do outro, o seu comandante Araújo!....

Não me disse, na relativamente curta conversa que tivemos, com a esposa ao lado, que era conhecida pela alcunha "Geada", mas falou-me dessa história dos sacos de farinha que eram disputados pelas "beijudas" (sic)...

Será que a alcunha "Geada" tem a ver com o "olho azul" ? Todos tínhamos uma "alcunha" na tropa e na guerra, a começar pelo gen Spínola, o "caco Baldé"...

Por outro lado, ele contou-me como começou a "desenrascar" a malta, melhorando o fabrico do pão... Terá sido logo em Bula ou já em Buba ? Não sei pormenores, mas ele já devia ser padeiro na vida civil... Na vossa companhia, era também apontador (ou municiador) do morteiro (81 ou 60 ?)... Chegou a fazer fogo sem prato: terá sido com o morteiro 60, presumo.

A ideia com que fiquei, em menos de 1 hora de conversa, é que o Alfredo Ribeiro é uma pessoa emotiva, bem disposta, excelente conversador, e que fala de vocês como sendo uma "grande família"... E é um incansável trabalhador: embora reformado, continua a ir todos os dias à panificadora... Deve ser o "almirante" de frota de distribuição do pão... que vai da Vermelha até Lisboa e arredores... Confesso que ainda o não "provei"...

Tenho que lá ir, no verão, fazer a prometida visita: da Lourinhã à Vermelha (e à Murteira, onde ele vive) são menos de 20 km. de distãncia... Prometeu-me mostrar o seu álbum fotográfico da Guiné...

Um alfabravo, Luís

PS - Relendo o livro do Manuel Traquina, percebi que vocês começaram por Bula, devem ter lá feito a IAO, e depois é que foram para Buba, Mampatá, Quebo, Chamarra, Contabane... E eu "ali tão perto": em 1969/70 fiz várias colunas logísticas, de Bambadinca até ao Xitole e ao Saltinho... As primeiras, no tempo das chuvas, foram um pesadelo... Fomos (a CCAÇ 12 e outras forças, ao tempo do BCAÇ 2852) reabrir a estrada Mansambo-Xitole-Saltinho, interdita deste novembro de 1968 (senão erro)...

Tabanca Grande disse...

Manuel Traquina, a tua descrição e explicação do distinto da tua CCAÇ 2382 está perfeita e completa... Só uma pequena nota ou adenda: quando te referes, com toda propriedade à "vareta de aço afiada (...) na"que servia como o nome indica para picar o terreno susceptível de ocultar uma mina", eu lembro que no outro lado do rio Corubal, na margem direitos, os nossos picadores, "em geral", usavam uma vara, sim, mas de madeira... com um prego espetado ao contrário na ponta... Eles lá sabiam porquê. E vários deles morreram heroicamente... Do Xime ao Xitole... LG

Manuel Batista Traquina disse...

Pelo nome de Alfredo Ferreira muitos não o conhecem, O GEADA era o nome como era eainda é conhecido. Acho que ainda mantem a boa disposição que na Guiné o caracterizava. Um abraço para o amigo Geada.
A proposito conto uma peque historia de um amigo que fez a sua comissão em Moçambique.
A companhia não tinha padeiro! Numa formatura o Comandante perguntou se havia alguém com a profissão de padeiro.Ninguém respondeu! Este meu amigo levantou o braço e disse " Não sou padeiro mas lá em casa ajudei muitas vezes a minha mão a fazer pão". O Comendante à boa maneira militar, mandou-o avançar e disse logo "pronto já temos padeiro". Desta maneira o meu amigopassou a comissão a fazer pão! Só que de inicio foi dificil acertar: ou estava mal cozido; ou estava queimado:ou tinha sal a mais ; ou estava ensonso, elá no refeitório lá tinha que ouvir todas as provocações à moda da tropa...