Pesquisar neste blogue

Mostrar mensagens com a etiqueta jangadas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta jangadas. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 2 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27786: Documentos (63): A retirada de Madina do Boé: a jangada - Parte II (Cálculo das dimensões e lotação, com a ajuda das fotos e da IA)


Foto nº 1 > Guiné > Zona leste > Região de Gabu > s/l > s/d > Foto, rara, preciosa, do Eduardo Figueiredo (ou Eduardo M. M. Figueiredo), ex-alf mil op esp / ranger, cmdt, Pel Rec Inf / CCS/BCAÇ 1933 (Nova Lamego e São Domingos, 1967/69). Deve ter sido tirada em Nova Lamego, no início de 1968, quando a CCAÇ 1790 / BCAÇ 1933 passou a assumir a responsabilidade do subsetor de Madina ddo Boé.

Foto alojada em Aveiro e Cultura > Arquivo Digital (e aqui reproduzida com a devida vénia) (*).

Foto: © Eduardo Figueiredo (2019). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Foto nº 2 > Guiné > Zona leste > Região de Gabu > s/l > s/d > Foto tirada possivelmente em Nova Lamego ou em Canjadude. Parte traseira de uma GMC, sem tejadilho (vd. foto nº 1),  que transporta uma das enormes canoas que irá servir para montar a fatídica jangada que estará na origem do desastre de Cheche em 6/2/1969. Foto   do álbum do  José Martins (ex-fur mil trms, CCAÇ 5, Canjadude, 1968/70).  


Foto nº 3 > Guiné > Zona leste > Região de Gabu > Cheche > A jangada que fez a travessia do rio Corubal, na retirada de Madina do Boé, Op Mabecos Bravios > s/d > c. 5 ou 6 de fevereiro de 1969. Foto: Cortesia do AHM

Infografia: Blogue Luís Graça & Canaradas da Guiné (2026)



Foto nº 4 > Guiné > Zona leste > Região de Gabu > Cheche > A jangada que fez a travessia do rio Corubal, na retirada de Madina do Boé, Op Mabecos Bravios > s/d > c. 5 ou 6 de fevereiro de 1969.


Foto nº  5 > 
Guiné > Zona Leste > Rio Corubal > Cheche > 5 ou 6 de Fevereiro de 1969 > Op Mabecos Bravios > Entrada e saída de viaturas, da CCAÇ 1790, a unidade de quadrícula de Madina do Boé, na famigerada jangada que fazia a travessia do rio entre as margens sul e norte... 

A última viagem, na manhã de 6/2/1969,  seria fatal para 46 militares portugueses (das CCAÇ 1790 e 2405) e 1 civil... Foi o maior desastre do género, no TO da Guiné.

Fonte: Fotos nºs 3, 4 e  5 > Imagens do Arquivo Histórico-Ultramarino (AHM).  In: Carlos de Matos Gomes e Aniceto Afonso – Os Anos da Guerra Colonial – Vol 10: 1969 – Acreditar na vitória. Matosinhos: QuidNovi. 2009. pag, 23 ( Com a devida vénia...). (**)
 

1. A jangada que esteve na origem no desastre do Cheche, em 6/2/1969, na travessia do Rio Corubal, era constituída por um estrado de madeira assente em três enormes canoas (troncos de árvores escavados), como as das fotos (nºs 1 e 2) que se acima se reproduz.

Era rebocada por um "sintex" com motor fora de bordo, conduzido por um sargento da marinha (Foto nº 3)... Estamos em plena época seca, o rio não terá mais de 140/150 metros de largura. 

A jangada teria uma capacidade máxima de 10 toneladas, e estava preparada para transportar homens e viaturas (Fotos nºs 4 e 5)... De 5 para 6 de fevereiro, transportou dezenas viaturas e centenas de homens (c. 500)... A última, da parte da manhã, foi fatal. Morreram 47 homens. 

Na última travessia levava 4 grupos de combate (2 da CCAÇ 2405 e 2 da CCAÇ 1790), ou seja, para cima de uma centena de homens equipados. 

Pedimos a três ferramentas de IA (Le Chat Mistral,  ChatGPT e Perplexity) para calcular, com base nas imagens (fotos nºs 1, 2, e 3): 

(i) as dimensões da janagada (comprimento, largura e altura);

 e (ii) o número de militares poderia levar em condições normais de segurança, na travessia daquele troço do rio Corubal, na manhã de 6/2/1969


A. Estimativa da IA / Le Chat Mistral

Luís, as imagem que partilhaste  (fotos nºs 1, 2, e 3) mostram um sistema de jangada militar usado para transporte de viaturas e tropas, semelhante ao descrito no desastre do Cheche. Para responder às tuas questões, vou basear-me em estimativas técnicas e históricas, tendo em conta a capacidade de carga e as dimensões típicas de jangadas deste tipo.

(i) Cálculo do comprimento e largura da Jangada

Assunções:

  • a jangada era constituída por três canoas gigantes, cada uma com capacidade para suportar parte do peso total;
  • a capacidade máxima da jangada era de 10 toneladas;
  • cada canoa teria, em média, um comprimento entre 10 a 15 metros e uma largura entre 1 a 1.5 metros (dimensões típicas para canoas grandes usadas em rios).

Estrutura da jangada:

  • as três canoas seriam colocadas lado a lado, com um estrado de madeira por cima para distribuir o peso;
  • comprimento da jangada: seria aproximadamente igual ao comprimento das canoas (12 a 15. inferido pela necessidade de suportar três canoas de comprimento igual à jangada e pela capacidade de carga de um camião Mercedes da época);
  • largura total da jangada:  seria a soma das larguras das três canoas, mais algum espaço entre elas para estabilidade (entre 4 a 5 metros, para acomodar três canoas lado a lado e permitir estabilidade com 100-120 homens ou 10 toneladas de carga);
  • altura: cerca de 0.8 a 1.2 metros (incluindo o parapeito lateral com postes e cordas para segurança).
Superfície: Entre 48 a 75 metros quadrados (comprimento × largura).

Capacidade e normas de segurança_
  • carga máxima: 10 toneladas ou 100-120 homens (considerando o peso médio de um homem equipado na época, cerca de 80-100 kg).
  • norma de segurança: 50-60 homens (para garantir estabilidade e evitar sobrecarga).

Notas adicionais: a estrutura da jangada, assente em três canoas, sugere uma distribuição equilibrada de peso e uma construção robusta para suportar cargas pesadas. O parapeito lateral (com postes e cordas) era essencial para evitar quedas, especialmente em águas agitadas.

Observações (fotos nºs 1 e 2): Luís, pela imagem e pela tua descrição, é claro que a canoa transportada na GMC era significativamente mais longa do que a própria viatura. 

Sobre o transporte na GMC sem tejadilho: o facto de a GMC ir sem tejadilho facilitava o transporte de cargas longas, como esta canoa, que claramente excedia o comprimento da viatura.

Equilíbrio e segurança: o transporte de uma canoa deste tamanho numa GMC exigiria precauções adicionais para evitar desequilíbrios, como amarração cuidadosa e possivelmente apoio na parte central da canoa.

Contexto prático: este tipo de transporte era comum em operações logísticas militares, especialmente em zonas onde não existiam infraestruturas adequadas para movimentar embarcações de grande porte.

A canoa, com este comprimento, seria ideal para servir de base a uma jangada como a que mencionaste anteriormente, garantindo estabilidade e capacidade de carga.

B. Estimativa da IA / ChatGPT

Pela foto nº 1, vê-se duas das três canoas gigantes que suportavam o estrado da jangada. 

Podemos fazer uma estimativa dimensional usando como referência os camiões militares (do tipo GMC CCKW 2½-ton),  muito usados pelo Exército Português na Guiné.

(i) Referência dimensional

Uma GMC CCKW tem aproximadamente: comprimento: 6,4 m | largura: 2,3 m | altura ao tejadilho: ~2,8 m

As canoas parecem ter sensivelmente o dobro do comprimento do camião, ligeiramente mais (Fotos nºs 1 e 2).

(ii) Comprimento das canoas

Comparando visualmente: cada canoa ≈ 11 a 13 metros de comprimento | Uma estimativa razoável: ≈ 12 metros

(iii) Largura da jangada

A jangada assentava em três canoas paralelas.  Se cada canoa tivesse: 
  • largura útil ~1,2 a 1,5 m; 
  • com espaçamento estrutural entre elas (~0,5 m entre cascos);
então a largura total seria aproximadamente: 1,5 + 0,5 + 1,5 + 0,5 + 1,5 ≈ 5,5 a 6 metros

Largura estimada da jangada: 5 a 6 metros.  

(iv) Dimensões prováveis da jangada: Medida (valor aproximado)
  • Comprimento 11–13 metros
  • Largura 5–6 metros
  • Área útil ~60–70 m²

(v) Número de militares em condições normais de segurança

Assunções: cada militar, com equipamento, pesaria cerca de 100 kg.
  • A capacidade máxima de 10 toneladas (10.000 kg) deve ser dividida pelo peso médio por militar para garantir segurança.

Cálculo:

  • 10.000 kg / 100 kg por militar = 100 militares.

Condições de Segurança:

  • para garantir estabilidade e segurança, é comum não exceder 70-80% da capacidade máxima em jangadas deste tipo;
  • nº seguro de militares: 70 a 80 militares por viagem.
(vi) Observações Finais
  • A jangada que adornou (não afundou) transportava mais de 100 homens, o que excedia claramente o limite de segurança, especialmente se não estivesse a transportar viaturas.
  • A sobrecarga, combinada com possíveis correntes ou instabilidade no rio, terá contribuído para o desastre.
C. Estimativa da IA / Perplexity:

A própria documentação militar indica que a jangada de Cheche, à data da Op Mabecos Bravios, era uma plataforma de madeira assente em três grandes canoas escavadas em troncos, e que se estimava suportar cerca de 10 toneladas, sendo a lotação de segurança fixada em 50–60 homens por travessia (segundo o comandante da operação, cor inf Hélio Felgas).

(i) Dimensões prováveis da jangada

Não há, até hoje, qualquer fonte que dê medidas formais (em metros) da jangada usada no desastre, apenas descrições construtivas e da capacidade em peso. A partir dessas descrições e das fotografias de Cheche (jangada de três canoas com GMC ou Unimog em cima), os veteranos e o comando da operação referem:​

Plataforma “grande, segura e larga”, capaz de levar 1 viatura tática carregada (GMC ≈ 5–7 t) mais homens, ou 2 viaturas ligeiras, sem exceder 10 t de carga total.​

Estrado a cerca de 1 metro acima da linha de água quando descarregado.​

Três canoas do tipo mostrado nas tuas fotos: troncos escavados com cerca de 7–9 m de comprimento e 0,9–1,1 m de boca máxima, que na prática obrigam a um estrado de comprimento semelhante (≈ 7–9 m) e largura da ordem de 3–3,5 m para cobrir as três.

Isto permite, com todas as reservas, uma ordem de grandeza plausível:
  • comprimento útil do estrado: aproximadamente 7–9 metros, para caber uma GMC de combate ou dois Unimog deitados no sentido longitudinal;
  • largura: aproximadamente 3–3,5 metros, suficiente para a via de rodagem de uma viatura (≈ 2,3 m) com guarda‑costas laterais;
  • altura total acima da água, jangada vazia: cerca de 1 metro (estrado) mais 0,5–0,8 m de borda livre das canoas, pelo que o conjunto teria algo como 1,5–1,8 m de “perfil” visto de lado.​
Estas são estimativas compatíveis com o que se vê nas imagens e com a necessidade de transportar viaturas pesadas; não têm, porém, valor de “medida oficial”.

(ii) Capacidade segura em homens

Sobre a lotação, aqui as fontes são claras:
  • o comandante tático ou operacional da travessia (alf mil Diniz) operava com a regra de “no máximo 60 homens (2 pelotões)” por viagem, o que é explicitamente designado como “lotação de segurança”;
  • o  alf mil da CCAÇ 2405, Rui Felício (1944-2026), confirma que essa limitação era respeitada “dezenas de vezes ao longo da noite” e que na última viagem a jangada seguiu com “o dobro da sua capacidade”, porque um oficial de patente superior  ordenou o embarque dos quatro grupos de combate que restavam na margem.​

Outro testemunho (Paulo Raposo, também alf mil da CCAÇ 2405) ) concretiza: na última travessia seguiram 2 grupos da CCAÇ 2405, mais 2 grupos da CCAÇ 1790 (incluindo milícias); ele estima cerca de 120 homens, o que, a 70 kg por homem, corresponde a 10–11 toneladas só em pessoal, sem contar armamento e munições.

Assim, para responder às tuas duas perguntas:
  • dimensões: só podem ser dadas como intervalos plausíveis, da ordem de 7–9 m de comprimento, 3–3,5 m de largura e cerca de 1,5–1,8 m de altura total, estrado incluído, com o piso a cerca de 1 m acima da água quando sem carga;
  • nº de militares em segurança: os próprios responsáveis da época fixaram a lotação segura da jangada entre 50 e 60 homens armados e equipados, valor que foi claramente ultrapassado na travessia de 6/2/1969, quando embarcaram mais de uma centena de militares, facto apontado, de forma praticamente unânime, como causa direta do afundamento.

Em síntese: 
  • a jangada tinha dimensões suficientes para o transporte de viaturas;
  • mas a “engenharia de campo” feita na época fixou prudencialmente o limite em 10 toneladas ou 50–60 homens; 
  • ao embarcar 4 grupos de combate, a carga humana e o armamento ultrapassaram esse limite em cerca do dobro, destruindo a margem de estabilidade que as três canoas  podiam oferecer naquele troço do Corubal.

(Continua)

(Pesquisa: LG + IA | Condensação, revisão / fixação de texto: LG)

___________

Notas do editor LG:

(**)  Vd. poste de 22 de fevereiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5866: Ainda o desastre de Cheche, em 6 de Fevereiro de 1969 (5): uma versão historiográfica (?) (Luis Graça)

Guiné 61/74 - P27785: Documentos (62): A retirada de Madina do Boé: a jangada - Parte I (Eduardo Figueiredo, ex-alf mil op esp, Pel Rec Inf, CCS/BCAÇ 1933, Nova Lamego e São Domingos, 1967/69)


Foto nº 1 > Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Nova Lamego > s/d > A legenda, sucinta, só diz "Eduardo Figueiredo, 19 ??. Guiné - Rio Corubal - Desastre"... A legenda deve ser da responsabilidade do coordenador, Henrique Oliveira. deste projeto comunitário, Aveiro e Cultura > Arquivo Digital, alojado na página do Agrupamento de Escolas José Estêvão (AEJE).   
 
Vejamos a legenda mais detalhada, da responsabilidade do autor da foto, Eduardo Figueiredo:

"A história é bem conhecida, mas esta foto não. Trata-se das duas canoas gigantes sobre as quais se construiu a famigerada jangada que se virou na retirada de Madina do Boé da nossa Companhia de 1790 do meu Batalhão 1933.

Acontece que foi o meu pelotão (Reconhecimento e Informações-Ranger) quem fez a segurança no abate, construção e transporte (aqui na foto), até à margem do Corubal, para se construir a nova jangada para a cambança e seguir para Madina do Boé.

Continuo adepto da versão do desastre que vivi. A jangada trazia uma GMC carregada ao centro e filas de pessoal de cada lado. Escutaram-se rajadas de metralhadora dum lado. Esta era uma tropa causticada com ataques, em parte devido à proximidade com a fronteira, mas também devido à muito discutível escolha do local para o aquartelamento.

Ao ouvir os tiros, quem estava do lado donde pareciam vir, correu a refugiar-se do outro lado, atrás da GMC. Gerou-se um desequilíbrio na jangada, a GMC deslizou para o lado mais pesado, e a jangada virou-se. Deus tenha na sua paz os meus camaradas que lá morreram (e os que lá ficaram)."

(Esta versão não corresponde à de quem viu e viveu o acontecimento, no Cheche, em 6/2/1969, como o Hilário Peixeiro, o Paulo Raposo, o Rui Felício, ou o José Aparício, testemunhos já anteriormente publicados. O Eduardo Figueiredo não estava lá. LG)



Foto nº 2 > Bissau > 1968 > "Quando o batalhão do Eduardo Figueiredo (E. F.) mudou de Nova Lamego para S. Domingos, houve um ou dois dias de permanência em Bissau. A pedido de E. F., sua mãe deu uma festa no terraço… Da esquerda  para a direita: Eduardo Figueiredo, de pé; à direita, o furriel Assis, primo do Assis Pacheco, que está em Lisboa num Banco; à esquerda, o Barros, hoje Professor de teatro em Almada. Era um pelotão Pel Rec Inf, ou seja, de Rangers de Lamego."


Foto nº 3 > Guiné  > Bissau > 15/10/1968> "Pátio da casa do autor da fotografia, em Bissau"


Foto nº 4 > Guiné > Bissau > 15/10/1968> Bissau > "Ilhéu do Rei, ao fundo"


Foto nº 5> Guiné > Bissau > 15/10/1968 > Bissau > "O porto velho chamado Pjiguiti, que foi o sítio onde ocorreu a 1ª revolta dos estivadores, já relacionada com a agitação que antecedeu a guerra colonial"

Fotos alojadas em Aveiro e Cultura > Arquivo Digital (e aqui reproduzidas com a devida vénia).

Fotos (e legendas): © Eduardo Figueiredo (2019). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. A jangada que esteve na origem do desastre do Cheche, no rio Corubal, na antiga Guiné Portuguesa, em 6/2/1969, era constituída por um estrado assente em "três canoas gigantes"... A anterior era assente só em duas canoas... Possivelmente essas canoas seriam as duas  que a foto mostra.

A foto, rara, preciosa, é do Eduardo Figueiredo (ou Eduardo M. M.  Figueiredo), ex-alf mil op esp / ranger, cmdt, Pel Rec Inf / CCS/BCAÇ 1933 (Nova Lamego e São Domingos, 1967/69), que o nosso camarada Virgílio Teixeira deve ter conhecido, já que ele foi chefe do Conselho Administrativo do Comando daquele batalhão. Portanto, estiveram juntos em Nova Lamego e em São Domingos, ele e o Eduardo.  E terão vindo e regressado juntos, no mesmo navio T/T.

Não temos um exemplar, aqui à mão, da História da Unidade para confirmar o seu nome e o seu posto  mas sabemos que o Eduardo Figueiredo tinha casa em Bissau, e deixou-se fotografar com alguns camaradas do seu Pel Rec Inf, na sua casa, ou casa de sua  mãe em Bissau (Foto nº 2) (pela imagem vê-se que é alferes),

Nessa época, os Pel Rec Inf, que faziam parte das CCS (Companhias de Comando e Serviço) eram estruturas leves, com um alferes miliciano, 2 fur mil, 5 primeiros cabos e 5 soldados (com a especialidade Exploradores e Observadores), num total de 13 elementos.

A data da foto nº 2 deve ser de fevereiro de 1968, quando o BCAÇ 1933 regressou a Bissau, vindo de Nova Lamego, para ir, um mês e tal depois, assumir a responsabilidade do setor de São Domingos, na Zona Oeste.  

As restantes fotos de Bissau (fotos nºs, 3, 4 e 5) têm já data posterior (15/10/1968).

Em conclusão, em 6/2/1969, aquando do desastre do Cheche, tanto o Eduardo Figueiredo como o seu Pel Rec Inf / CSS / BCAÇ 1933 já há estavam em São Domingos há mais de 10 meses. 


2. Sabemos, pela ficha de unidade, que o  BCAÇ 1933 chegou a Bissau no princípio de outubro de 1967  (tendo regressado a casa em agosto de 1969, depois de terminada a comissão de serviço).

(i) após sobreposição com o BCav 1915 assumiu, em 110ut67, a responsabilidade do Sector L3, com sede em Nova Lamego e abrangendo os subsectores de Bajocunda, Buruntuma, Canquelifá, Piche, Pirada, Madina do Boé e Nova Lamego;

(ii) de 230ut67 a 04Dez67, foi criado o subsector temporário de Canjadude, a fim de incrementar o patrulhamento e contacto com as populações daquela área;

(iii) desenvolveu intensa actividade de patrulhamento da fronteira, do controlo dos itinerários, de melhoramento das condições de defesa dos aquartelamentos e de tabancas em autodefesa e de acções ofensivas sobre os grupos inimigos infiltrados na área;

(iv) em 21Fev68, foi rendido no sector pelo BCaç 2835, recolhendo a Bissau, onde se manteve aguardando colocação:

(v) em 02Abr68, rendendo o BCaç 1894, assumiu a responsabilidade do Sector O1-B, a partir de 040ut68, designado Sector O6, com sede em S. Domingos e abrangendo os subsectores de Ingoré, Susana, S. Domingos e Barro, este foi transferido para o COP 3 em 01Set68;

(vi) nesta situação desenvolveu intensa actividade operacional de patrulhamento, emboscada e acções ofensivas sobre as linhas de infiltração inimigas de Campada, Barraca e Canja, executando ainda acções ofensivas com vista a impedir a instalação de bases inimigas, promovendo e coordenando a autodefesa
das populações e da acção psicossocial e garantindo o controlo e segurança dos itinerários;

(vii) em 01Ag069, o batalhão foi rendido no sector pelo BCav 2876, recolhendo a Bissau para  embarque.

3. Entretanto, a CCaç 1790 (comandada pelo cap inf José Ponces de Carvalho Aparício) seguiu imediatamente para Fá Mandinga, onde realizou o treino operacional na região de Xitole, sob orientação do BCaç 1888, sendo-lhe atribuída a missão de força de reserva do Comando-Chefe, de 270ut67 a 16Nov67, tendo actuado em operações nas regiões de Sinchã Jobel e Caresse, em reforço do BCav 1905 e na região de Poidom, em reforço do BCaç 1888. 

Em 16Nov67, passou a força de reserva do CTIG, com sede em Bolama e depois em Bissau, tendo realizado outras operações na região de Poidom, em reforço do BCaç 1888 e na região de Porto Gole, em reforço do BCaç 1912.

Em 08Jan68, assumiu a responsabilidade do subsector de Madina do Boé, com um destacamento em Béli, de 09Fev68 a 15Jun68, inicialmente na dependência do seu batalhão ( o BCAÇ 1933) e depois do BCaç 2835.

Em 06Fev69, após extinção do subsector de Madina do Boé em 04Fev69, com a consequente evacuação do aquartelamento, foi colocada em Nova Lamego, onde substituiu a CCaç 2403 na função de intervenção e reserva do sector do mesmo BCaç 2835, com vista à realização de patrulhamentos, escoltas, acções ofensivas e reforço da guarnição da respectiva zona de acção, após o que
recolheu, transitoriamente, a Bissau, em 20Abri69.

Em 07Mai69, rendendo a CArt 1744, assumiu a responsabilidade do subsector de S. Domingos, integrando-se no dispositivo e manobra do seu batalhão.

Em 01Ag069, foi rendida pela CCav 2539 e recolheu seguidamente a Bissau, a fim de aguardar o embarque de regresso.


4. A data da foto nº 1 só pode ser de inícios de janeiro de 1968 ou do 1.º trimestre desse ano, quando a CCAÇ 1790 / BCAÇ 1933 passou a assumir a responsabilidade do subsetor de Madina do Boé (com um destacamento em Béli). 

Nessa altura, sim, a jangada do Cheche assentava em duas canoas. Seria mandada fazer uma  nova jangada, assente em 3 canoas (semelhantes às da foto nº 1),  para efeitos da retirada de Madina do Boé (Op Mabecos Bravios).  E foi essa jangada que causou   (ou esteve na origem de) o desastre do Cheche em 6/2/1969.

De qualquer modo, a foto nº 1 dá-nos uma ideia do comprimento e largura das canoas usadas para construir as duas jangadas do Cheche. A última, composta por 3 canoas,  com capacidade carga de 10 toneladas, segundo o testemunho do comandante da Op Mabecos Bravios. Vamos submeter a uma ferramenta de IA a foto nº 1  para fazer esses cálculos: 
  • (i) comprimento e largura da última jangada;
  •  e (ii) nº de militares que poderia levar em condições normais de segurança, na travessia daquele troço do rio Corubal que não teria mais de 140/150 metros de largo, no tempo seco (fevereiro de 1969).
(Continua)

(Revisão / fixação de texto, negritos, título: LG)
_______________

Nota do editor LG:

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27741: Documentos (56): A retirada de Madina do Boé (José Jerónimo, ex-cap mil, cmdt, CCAÇ 2405 / BCAÇ 2852, Galomaro e Dulombi, 1968/70)



Guiné > Zona leste > Região de Gabu >  Boé > Madina do Boé > CCAÇ 1589 / BCAÇ 1894, Nova Lamego e Madina do Boé, 1966/68). > A travessia, em jangada, do Cheche (que ficava do outro lado, na margem direita).


Guiné > Zona leste > Região de Gabu  >Boé > Madina do Boé > CCAÇ 1589 / BCAÇ 1894, Nova Lamego e Madina do Boé, 1966/68). > Uma coluna logística: Madina do Boé-Cheche-Canjadude-Nova Lamego 


Guiné > Zona leste > Região de Gabu > Boé > Madina do Boé > CCAÇ 1589 / BCAÇ 1894, Nova Lamego e Madina do Boé, 1966/68). > Uma coluna logística: Madina do Boé-Cheche-Canjadude-Nova Lamego


Guiné > Zona leste > Região de Gabu >  Boé > Madina do Boé > CCAÇ 1589 / BCAÇ 1894, Nova Lamego e Madina do Boé, 1966/68). > Finalmente a rendição !


Guiné > Zona leste > Região de Gabu > Boé > Madina do Boé > CCAÇ 1589 / BCAÇ 1894, Nova Lamego e Madina do Boé, 1966/68). >  O interior do aquartelamento e da tabanca


Guiné > Zona leste > Região de Gabu > Boé > Madina do Boé > CCAÇ 1589 / BCAÇ 1894, Nova Lamego e Madina do Boé, 1966/68). >  Estreada Cheche- Madina do Boé > Um cemitério de viaturas


Guiné > Zona leste > Região de Gabu > Boé > Madina do Boé > CCAÇ 1589 / BCAÇ 1894, Nova Lamego e Madina do Boé, 1966/68). >  Discreta mas orgulhosa, a bandeira nacional.


Guiné > Zona leste > Região de Gabu > Boé > Madina do Boé > CCAÇ 1589 / BCAÇ 1894, Nova Lamego e Madina do Boé, 1966/68). >  A mascote da companhia.


Seleção de algumas das melhores fotos do álbum do Manuel Caldeira Coelho (ex-fur mil trms,  CCAÇ 1589 / BCAÇ 1894, Nova Lamego e Madina do Boé, 1966/68). 

A CCAÇ 1589 foi rendida em Madina do Boé, em 20Jan68 pela CCaç 1790 e em 12Fev68
no destacamento de Béli, tendo ambos os aquartelamentos sofrido fortes flagelações no periodo de Jun a Dez67.

Fotos (e legendas): © Manuel Caldeira Coelho (2011). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. A Op Mabecos Bravios, destinada a cobrir a retirada das forças estacionadas em Madina do Boé, que teve  um desfecho trágico para 46 camaradas nossos, da CCAÇ 2405 (Galomaro) e da CCAÇ 1790 (Madina do Boé), mais um civil guineense.

 Na história da unidade do BCAÇ 2852 (Bambadinca,1968/70) há uma versão do relatório dessa  operação de triste memória, relativa â participação da CCAÇ 2405 (Galomaro e Dulombi, 1968/70) que formava o Destacamento F (Cap II, pp. 36-38).

Vale a pena voltar a divulgar  esse texto, e integrá-lo agora na série "Documentos" (*)

Em fevereiro de 1969, a CCAÇ 2405 / BCAÇ 2852 estava sediada em Galomaro, com um pelotão em Samba Juli, outro em Dulombi e um terceiro em Samba Cumbera.  Na Op Mabecos Bravios foi comandada pelo cap mil inf Novais Jerónimo, tendo como oficiais subalternos os nossos camaradas Jorge Rijo,  Rui Felício e Paulo Raposo.  Julgamos que a autoria do relatório seja do cap mil José Jerónimo


A bordo do T/T Uíge > Final de julho de 1968 > CCAÇ 2405 / BCAÇ 2852 (1968/70) > A caminho de Bissau > O grupo dos futuros "baixinhos de Dulombi...  Da esquerda para a direita, Victor David (1944-2024), Paulo Raposo, oficial da marinha mercante, Jorge Rijo e Rui Felício.  Não temos nenhuma foto do ex-cap mil inf José Jerónimo.

 Foto (e legenda): © Paulo Raposo (2006). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


A retirada de Madina do Boé

por José Jerónimo, ex-cap mil, cmdt, 
CCAÇ 2405 / BCAÇ 2852
 (Galomaro e Dulombi, 1968/70)


Iniciada a Op Mabecos Bravios, em 1 [de Fevereiro de 1969], com a duração de 8 dias, para retirar as nossas tropas de Madina do Boé. 

Entre vários destacamentos, tomou parte no Destacamento F a CCAÇ 2405 [ Comandante: cap mil José Miguel Novais Jerónimo; 1º Gr Comb – Alf mil at inf Jorge Lopes Maia Rijo; 3º Gr Comb  – Alf mil at inf Rui Manuel da Silva Felício; 4º Gr Comb – Alf mil at inf MA Paulo Enes Lage Raposo].

Desenrolar da acção:

Dia D [segunda feira, 2/2/1969].

O Dest F com o efectivo de 112 homens (4 oficiais, 10 sargentos e 98 praças - estão incluídos 1 secção de sapadores e 8 condutores auto), saiu de Galomaro em 1 de fevereiro de 1969, pelas 9.30h, e chegou a Nova Lamego por volta das 13.00h do mesmo dia, sem qualquer novidade.

Aqui fizeram-se os preparativos finais da organização da coluna que partiu às 5.30h do dia 2 [D]. 

Abro [o autor do relatório] um parêntesis para discordar do pormenor da organização da coluna:

Os meus condutores e mecânicos tiveram que conduzir e dar assistência técnica a viaturas que não lhe pertenciam e das quais desconheciam as mazelas. Daqui resultaram perdas de tempo inúteis e uma tremenda confusão resultante do facto de os atiradores terem guardado parte dos seus haveres e utensílios militares em viaturas que supunham pertencer às unidades e que, sem que se saiba porquê, foram trabalhar para unidades diferentes.

A coluna saiu de Nova Lamego para Canjadude com o pessoal totalmente embarcado e atingiu-se esta povoação por volta das 9.00h sem qualquer problema. 

A partir de Canjadude a coluna progrediu com guardas de flancos tendo o Dest F colaborado na guarda da retaguarda da coluna,  fazendo uma progressão apeada que não estava prevista.

Atingiu-se o Cheche [no rio Corubal, entre Canjadude e Madina do Boé] por volta das 17.00h (sempre com uma cobertura aérea excelente).

 Imediatamente os Dest D [CCAÇ 2403, cmdt, cap inf Hilário Peixeiro] e F fizeram a transposição do [Rio] Corubal e foram ocupar as posições estratégicas previstas.

 Já escurecia e o Dest D levava 1 minuto de avanço sobre o Dest F. Subitamente o 1º Pel [otão] revelou achar estranho algo que se passava à nossa direita, parecendo-lhes ter visto elementos estranhos. Por outro lado,  o guia assegurou tratar-se de turras pelo que a Companhia tomou posições de combate, lançando-se ao solo e imobilizando-se. 

Seguiram-se dois disparos rápidos de morteiro (os clarões foram facilmente visíveis quando as granadas saíram à boca da arma). Foram tiros curtos na direcção sudoeste, e os rebentamentos deram-se próximo do local que o Dest F iria ocupar daí a momentos.

O IN não voltou a manifestar-se mas obrigou-nos a uma vigilância nocturna permanente e a uma mudança de posição por volta das 23.00h.  Às 20.00h ouviram-se na direcção oeste dois tiros que me pareceram de arma nossa, fazendo fogo de reconhecimento.

D + 1   [terça feira, 3/2/1969]
 
Pelas 5.30h [do dia 3, D + 1] mandou-se um pelotão a Cheche buscar um pelotão do Dest E que fazia guarda imediata às viaturas e que eu devia levar até Madina.

Pelas 6.30h dirigi-me à zona do Dest E onde se organizou a coluna com o Dest F à frente e uma guarda de flanco avançada e o Dest D atrás igualmente com guarda de flanco. Iniciei o movimento guiado com carta e bússola porque a marcha foi feita a cerca de 200 metros (mínimo) da estrada. O meu objectivo era surpreender o IN pela rectaguarda tanto mais que os aviões me anunciaram haver possibilidade de sermos emboscados.

Cerca [ das 10.00h ] o Dest F sofreu um violento ataque de abelhas e teve que recuar cerca de um quilómetro para se reorganizar de novo. Um soldado, em consequência, ficou imediatamente fora de acção. Foi pedida a respectiva evacuação bem como a de outro soldado que apresentava sintomas de insolação. [ São nove baixas até aqui. ]  

As evacuações fizeram-se para Nova Lamego dos:

  •  1ºs cabos Carlos G. Machado, Agostinho R. Sousa;
  • e dos soldados José A. M. S. Ferreira, Manuel N. Parracho,  Benjamim D. Lopes,  Fernando A. Tavares,  Cândido F. S. Abreu,  António S. Moreira;
  •  e, para Bissau 1º Cabo Adérito S. Loureiro. [Omitem-se os nºos mecanográficos. L.G.]

 O héli desceu mais tarde para reabastecer o pessoal de água.

 Reiniciada a marcha, sofremos segundo ataque de abelhas que inutilizaram mais uma praça para quem teve de ser pedida nova evacuação.  [Dez baixas, até aqui-]

. Entretanto, eram 14.30h, e mais 2 soldados, esgotada a sua provisão de água, apresentavam sintomas de insolação. Foram evacuados conjuntamente com 2 praças do Dest D que apresentavam sintomas semelhantes (vómitos, intensa palidez, olhos dilatados, respiração frenética).  [14 baixas até aqui.]

O Dest D passou para a frente e reiniciou-se a marcha, sempre fora da estrada até à recta que leva a Madina. Nada mais se passou além do sofrimento intenso das tropas por via do calor. O Det D foi reabastecido de água. 

Atingimos Madina  [do Boé] por volta das 19.00h  [do dia 3] desligados do Dest D que prosseguiu a sua marcha quando F teve que parar para reajustar o dispositivo e tratar os mais debilitados (4 praças e 1 furriel).

Houve descanso em Madina e tomou-se uma refeição quente. 

D + 2   [quarta feira, 4/2/1969]

No dia 4 (D + 2) o Dest F dirigiu-se para [ Felo Quemberá,  ilegível] ocupando a posição 3 que se  atingiu sem dificuldade por volta das 11.00h. 

Alternadamente ocupou-se as posições 3 e 4 de acordo com o plano.


D + 3   [ quinta feira, 5/2/1969]

Em D + 3 [5 de fevereiro de 1969] por volta das 7.30h recebemos ordens do PCV [Posto de Comando Volante] para a abandonar a nossa posição e seguir ao encontro da coluna. 

Uma hora depois atingimos o campo de aviação de Madina onde fomos reabastecidos de água e r/c [rações de combate].

Pelas 9.00h a coluna pôs-se em movimento e meia hora depois 4 carros da rectaguarda tiveram um acidente. Não obstante, a coluna prosseguiu e o pessoal do Dest F mais os mecânicos resolveram a dificuldade.

Entretanto, o final da coluna pôs-se em movimento acelerado para apanhar as viaturas da frente e deixaram a guarda da retaguarda isolada no mato, num momento particularmente difícil em que precisávamos evacuar 2 soldados vencidos pelo esgotamento físico e nervoso (2 noites seguidas sem dormir, ataque de abelhas em D +1, intenso calor).

O Comandante da coluna ordenou que se fizesse a evacuação e o reabastecimento de água. Feitos estes, iniciou-se a marcha e a breve trecho tomámos contacto com a coluna e tudo correu normalmente até ao Cheche. A cobertura aérea pareceu-me impecável.

Próximo de Cheche recebi ordens para ocupar a posição que ocupara que tivera em D / D+1 porque o Exmo. Comandante da Operação [, cor inf Hélio Felgas,] entendeu dever poupar alguns quilómetros ao Dest F e D, bastante atingidos pela dureza dos respectivos percursos. 

Essa foi a razão porque não transpus o [Rio] Corubal em D + 3 [ 5 de Fevereiro] só o vindo a fazer em D + 4 [6 de Fevereiro] por volta das 9.00h.

D + 4   [sexta feira, 6/2/1969]

O IN continua sem se manifestar (ou sem se poder manifestar). 

Durante a transposição do Corubal a jangada em que seguiam 4 Gr Comb [da CCAÇ 2405 e da CCAÇ 1790], respectivos comandos e tripulação afundou-se espectacularmente acerca de um terço da largura do rio, provocando o desaparecimento de 17 militares do Dest F e grandes quantidades de material perdido.

 Por voltas das 10.00h de D+ 4 [6 de Fevereiro] saímos de Cheche para Canjadude que atingimos por volta das 16.30h com o pessoal deste Dest embarcado.


D + 5   [sábado, 7/2/1969]

Descansou-se e em D + 5 [7 de fevereiro] às primeiras horas a coluna pôs-se em movimento para Nova Lamego que foi atingida por volta das 11.00h. 

Às 12.00h as tropas ouviram uma mensagem do Exmo. Comandante-Chefe [, brig António Spínola,]  que se deslocou propositadamente para a fazer.

Permaneci em Nova Lamego para organizar a coluna do dia seguinte. 

D + 6  [domingo, 8/2/1969]

Às primeiras horas de D + 6 [8 de Fevereiro] iniciei o movimento para Galomaro onde cheguei cerca das 10.30h.

Fonte: Extratos de: História da Unidade: Guiné 68-70. Bambadinca: Batalhão de Caçadores nº 2852. Documento policopiado. 30 de Abril de 1970. c. 200 pp. Classificação: Reservado. Cap. II. 36-38.

[Revisão / fixação de texto parênteses retos, negritos:  LGl

Nota de LG - Sabemos que,  a 10 de fevereiro de 1969, o 2º cmdt do BCAÇ 2852 (1968/70), o maj inf Manuel Domingues Duarte Bispo, deslocou-se de Bambadinca a Galomaro "onde assistiu a missa celebrada pelo capelão do BCAÇ 2856, por intenção dos desaparecidos na Op Mabecos Bravios"  (História da Unidade, Cap II, p. 46).

O nº (e a identificação) dos mortos (17) da CCAÇ 2405 não constam do relatório da Op Mabecos Bravios que acima se transcreve. 

Falta-nos o(s) relatório(s) de outras forças que participaram, na Op Mabecos Bravios: mas já foram publicados anteriormente outros depoimentos: Hélio Felgas, Paulo Raposo, Rui Felício  bem como do José Aparício (ex-cap inf, cmdt da CCAÇ 1790, que sofreu 29 mortos. 

Na realidade, na época esse tipo de baixas (mortos em acidente por afogamento) eram contabilizados sob a categoria do "desaparecidos".

sábado, 14 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27733: Documentos (54): A retirada de Madina do Boé (José Aparício, ex-cap inf, cmdt CCAÇ 1790, Madina do Boé, 1967/68 + CECA, 2014)


Guiné > Zona leste > Região de Gabu > Setor de Boé > Madina do Boé: vista aérea, tirada de DO 27, c. 1967.  As tão faladas colinas do Boé... "O resto era deserto", diz o fotógrafo, Manuel Coelho, um dos bravos de Madina do Boé, ex-fur mil trms, da CCAÇ 1580 (1966/68) (natural de Reguengos de Monsaraz, vive em Paço d'Arcos, Oeiras; tem 47 referências no nosso blogue, ingressou na Tabanca Grande em 12 de julho de 2011).

Foto (e legenda): © Manuel Coelho  (2018). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar:  Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

 
1. Há operações que ficaram na nossa memória, por uma razão ou outra, em geral por más razões... A Op Mabecos Bravios (retirada do aquartelamento de Madina do Boé, sector L3, de 2 a 7 de fevereiro de 1969) é uma daquelas que  marcaram para sempre os combatentes da Guiné, que nela participaram ou que dela tiveram conhecimento, sendo seus contemporâneos. 

Marcou-nos a todos, aos daquele ano de 1969,  pela tragédia que ocorreu no rio Corubal, em Cheche, na derradeira travessia feita pela jangada de serviço. Durante a noite de 5 para 6 e ao longo da madrugada desse dia passaram por ela 55 viaturas, todas carregadas no limite, e algumas  centenas de homens.  À luz de holofotes, em condições precárias de segurança.


Mas faltam aqui ainda outras versões  sobre a retirada de Madinado Boé. Como se sabe, continua ainda haver  controvérsia sobre o  origem, as causas do acidente que provocou 47 vítimas mortais. 

2. Encontrámos esta versão,  que vamos reproduzir a seguir, no livro da CECA (2014), com o valioso testemunho do ex-comandante da infortunada CCAÇ 1790,  o então cap inf José Aparício, hoje cor inf ref, e antigo comandante geral da PSP de Lisboa.

Corrigimos as datas, que não estão corretas. Alterámos o topónimo usada pela CECA (Comissão para Estudo das Campanhas de África), embora na carta de Jábia o topónimo grafado seja Ché Ché. No nosso blogue temos usado a grafia Cheche (que tem mais de 7 dezenas de referências).

Já publicámos o depoimento do comandante da operaqção, o então cor inf Hélio Felgas (1920-2008). Publicámos também nesta série, "Documentos", o testemunho de dois ex-alf mil da CCAÇ 2405, o Paulo Raposo e o Rui Felício, nossos grão-tabanqueiros.

Continuará  a faltar-nos aqui o prometido testemunho do ex-alf mil José Luís Dumas Diniz, da CART 2338, responsável pela segurança da jangada que fazia a travessia do rio Corubal, em Cheche, aquando da retirada de Madina do Boé, e a quem competia cumprir as normas de segurança constantes da Ordem de Operaçáo, redigidas pelo cor inf Hélio Felhas, e superiorimente aprovadas pelo Com-Chefe que, de resto, fez várias visitas de héli, às NT,  ao longo da Op Mabecos Bravios.


Guiné > Região de Gabu > Carta de Jábia (1961) > Escala 1/50 mil > Posição relativa de Ché Ché (grafado também como Cheche), na margem esquerda do Rio Corubal. Pela carta, o rio aqui teria 150 metros de largura.

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)






Guiné-Bissau > Região do Boé > Rio Corubal > 30 de junho de 2018 > Rampa de acesso, na margem direita... Lavadeiras e canoas no rio, Veja-se a cor da água, esverdeada, na época das chuvas. Em 6/2/1969, o destacamento de Cheche ficava do outro lado, na margem sul (ou esquerda). E não havia rampa nenhuma... Segundo a análise técnica destas fotos, com a ajuda de uma ferramenta de IA (ChatGPT), teríamos as seguintes medidas deste troço do rio, em 30/6/2018:

Largura: ~150 metros | Profundidade no centro do canal: ~5 metros | Profundidade junto às margens: 0,5–2 metros

Foto (e legenda): © Patrício Ribeiro (2018) Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


 A retirada de Madina do Boé

José Aparício (cap inf, cmdt, CCAÇ 1790, 
Madina do Boé, 1967/69) +  CECA, 2014)


Op Mabecos Bravios (de 2 a 7 de fevereiro de 1969)

Forças envolvidas:

Estas forças, com APAR [apoio aéreo], efectuaram uma escolta no itinerário Nova Lamego - Canjadude - Cheche - Madina do Boé ,  e regresso a Nova Lamego, pertencente à Zona Leste, Sector L3 [BCAÇ 2835].

Foi accionada mina A/C no cruzamento de Beli, sem consequências; e foram detectadas e destruídas 2 minas A/C entre Cheche e Canjadude. 

Durante a operação, Madina foi flagelada 4 vezes sem consequências.

No regresso, na travessia do rio Corubal, um acidente com a jangada que transportava forças de segurança da retaguarda, provocou a morte de 47 militares das NT (2 sargentos, 43 praças e 2 milicias).


Acidente no rio Corubal em 6 [e não 8] de Fevereiro de 1969 - Dados fornecidos pelo tenente-coronel José Ponces de Carvalho Aparício, à época Cmdt da CCaç 1790,  aquartelada em Madina do Boé.

" Na Guiné-Bissau nos anos 60 a travessia do Rio Corubal para a região do Boé era feita, como hoje, junto à povoação do Cheche  onde durante a guerra se encontrava ali em permanência uma força militar de um pelotão de infantaria, reforçado com uma secção de morteiros de 81 mm.

Esta travessia era então obrigatória para a rendição das forças militares portugueses estacionadas em Madina do Boé e Beli, e ainda para o reabastecimento daquelas forças que na época das chuvas (cerca de 6 meses) ficavam completamente isoladas.

Por isso, durante a época seca realizavam-se normalmente 2 colunas por mês, cada uma escoltada por uma companhia reforçada com um pelotão de autometralhadoras "Fox" ou "Daimler" e com protecção aérea permanente.

Cada coluna era constituída por um elevado número de viaturas, cerca de 20 a 30, carregadas com munições e reabastecimentos.

A travessia do rio Corubal era então feita por uma jangada constituída por uma plataforma sobre 2 canoas; um longo cabo ligando 2 pontos fixos instalados em cada margem corria numa roldana instalada na plataforma; a impulsão necessária para mover a jangada era dada pela força braçal dos militares puxando manualmente o cabo. Como segurança do movimento, uma embarcação "Sintex",  com motor fora de bordo, acompanhava lateralmente cada movimento de vaivém, pronta para qualquer emergência.


Em fevereiro de 1969 após a decisão do Comando-Chefe da Guiné de abandonar todo o Boé [Directivas n° 1/68 de 1 jun, 20/68 de 25 jul e 59/68 de 26 dez do Cmdt-Chefe] - sendo que  Beli já tinha sido abandonado meses antes retirando para Madina do Boé todas as forças ali estacionadas - foi desencadeada a Op Mabecos Bravios sob o comando do agrupamento nº 2957 [cmdt: cor inf Hélio Felgas]. 

Uma enorme coluna com cerca de 50 viaturas pesadas escoltadas por 2 Companhias de Caçadores 
 [,CCAÇ 2403 e CCAÇ 2405]  , e dois pelotões de autometralhadoras  [Pel Rec Daimler 1258, reduzido], e com apoio aéreo permanente, chegou a Madina do Boé na tarde de 07 de fevereiro de 1969 [lapso do autor, deve ser 4 e não 7] [, perfazendo cerc de 40 km].

Por decisão do comandante da operação, o número de dias previsto para a sua realização foi reduzido de vários dias, para libertar os meios aéreos empenhados.

Em vez da corda inicial, o movimento da embarcação era garantido pelo "Sintex" com motor fora de bordo amarrado à jangada, do lado de jusante do rio, e operado por um sargento de Marinha requisitado para o efeito. A velha jangada esteve sempre acostada na margem direita.

Nas travessias do rio durante a noite, com as viaturas foram também indo passando secções dos militares empenhados. 

No início da manhã de 6 [e não na tarde de 9]  de Fevereiro de 1969, na última e fatídica viagem, embarcaram a parte que restava dos militares das CCaç 2405 e da CCaç 1790, cerca de 80 a 90 militares  [na realidade, eram 4 Gr Comb, dois de cada subunidade, no máximo 120 homens].

A meio do rio, uma aceleração brusca do motor do "Sintex" fez erguer a frente de bombordo da jangada; tendo sido dada logo ordem para reduzir a velocidade, a jangada fez o movimento pendular inverso, desta vez mergulhando ligeiramente no rio a frente de estibordo, as canoas ficaram cheias de água mas o tabuleiro ficou flutuando, com os militares a bordo com água pelos tornozelos.

Chegados à margem direita, ao proceder-se à contagem constatou-se a falta de 47 militares das duas Companhias.

O Comandante da Operação 
 [cor inf Hélio Felgas] não permitiu que as duas Companhias [CCAÇ 1790 e CCAÇ 2405] permanecessem no Cheche para tentarem recuperar o maior número de corpos possíveis, seguindo por isso logo para Nova Lamego.

O acidente em causa deu origem de imediato a um Auto de Corpo de Delito, e a longas e complexas averiguações, incluindo todos os aspectos da operação, que em 1970 terminaram em julgamento em Lisboa no 3.° Tribunal Militar Territorial.

O julgamento durou várias sessões e que terminou com a absolvição do único réu, o alferes miliciano,  comandante do Destacamento estacionado no Cheche [pertencente à CART 2338, Fá Mandinga, Nova Lamego, Canjadude, Buruntuma, Pirada, 1968/69,  o José Luís Dumas Diniz] ".
__________

Fonte: Excertos de: CECA - Comissão para Estudo das Campanhas de África: Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974) : 6.º Volume - Aspectos da Actividade Operacional: Tomo II - Guiné -  Livro I  (1.ª edição, Lisboa, Estado Maior do Exército, 2014),
pp. 353-355. 
 
(Revisão / fixação de texto, parênteses retos, negritos, itálicos,  título: LG)


2. Não havia nenhum major  (*) no Cmd Agrupamento nº 2957, a quem coube o planeamento e execução da Op Mabecos Bravios.  O Cmd Agr 2957 era uma estrutura leve, com no, topo, um coronel (Hélio Felgas) e um CEM (Chefe de Estado Maior), que na época devia ser o ten cor cav Manuel Xavier Ferreira Coelho

Ficha de unidade:

Comando de Agrupamento n.º 2957
Identificação Cmd Agr 2957
Unidade Mob: RAL I - Lisboa
Cmdt: Cor Inf Hélio Augusto Esteves Felgas | Cor Art José João Neves Cardoso
CEM: TCor Cav Emanuel Xavier Ferreira Coelho | TCor Inf Artur Luís Félix Teixeira da Silva
Divisa: -
Partida: Embarque em 09Nov68; desembarque em 15Nov68 | Regresso: Embarque em 19A9070

Síntese da Actividade Operacional

Em 18Nov68, rendendo o CmdAgr 1980,assumiu a responsabilidade da zona
Leste, com sede em Bafatá, e abrangendo os sectores de Bambadinca, Bafatá e
Nova Lamego e depois os novos sectores, então criados, com a consequente
reformulação dos respectivos limites, em Piche, em 24Nov68 e em Galomaro,
em 07Nov69. 

De 11Mar69 a 11Out69 e de 26Jul69 a 06Nov69, foram ainda constituídos,
transitoriamente, na zona Leste, o COP 5 e COP 7, respectivamente e
criado, em 26Jun70, o COT1.

Desenvolveu a sua actividade de comando e coordenação dos respectivos
batalhões e das forças atribuídas de reforço, planeando, impulsionando e controlando a respectiva actuação que foi, essencialmente, de patrulhamento, reconhecimento e de contacto com as populações e de acções sobre grupos inimigos infiltrados, com destaque para as operações "Lança Afiada", "Baioneta Dourada" e "Nada Consta", entre outras. 

Em 02/07Fev69, planeou e executou a operação"Mabecos Bravios", respeitante à evacuação dos aquartelamentos de Madina do Boé, Béli e Ché-Ché.

Em 01Ag070, já na fase de sobreposição com o Cmd Agr2970, passou a integrar
o CAOP Leste, então organizado por despacho ministerial de 20Jun70, pelo
que foi extinto e o seu pessoal recolheu a Bissau, a fim de aguardar o embarque de
regresso.

Observações - Tem História da Unidade (Caixa nº  121 - 2ª Div/4ª Sec., do AHM).

Fonte: Excertos de Portugal. Estado-Maior do Exército. Comissão para o Estudo das Campanhas de África, 1961-1974 [CECA] - Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974). 7.º volume: Fichas das Unidades. Tomo II: Guiné. Lisboa: 2002, pág. 35.
______________

Nota do editor LG:

(*) Último poste da série > 13 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27730: Documentos (53): A retirada de Madina do Boé (Rui Felício, ex-alf mil at inf, CCAÇ 2405 / BCAÇ 2852, Mansoa, Galomaro e Dulombi, 1968/70) 

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27707: Foi há... (7): 57 anos, o desastre do Cheche, na retirada de Madina do Boé (Op Mabecos Bravios, 6/2/1969)... Só em 19 foi decidido realizar uma operação com fuzileiros especiais e mergulhadores-sapadores da Armada para resgatar os corpos... O brigadeiro António Spínola fez questão de estar presente pessoalmente, com um capelão e coroas de flores com a frase "A Pátria agradecida"






Guiné > Região de Gabu > Cheche > Rio Corubal > "A jangada da morte">  s/d 

© Foto de José Azevedo Oliveira, com a devida vénia / Ediçã0: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné



1. O maior número de vítimas, de uma só vez, no TO da Guiné, aconteceu em 6 de fevereiro de 1969 (*), na sequência da Op Mabecos Bravios. 

Temos cerca de 4 dezenas referências com este descritor, o desastre de Cheche. Morreram 2 furriéis milicianos, 7 cabos, 37 soldados e 1 civil, pertencentes a duas subunidades, a CCAÇ 1790 e a CCAÇ 2405 (**).

Desastre na Guiné": a  notícia chegou tarde às redações dos jornais. O "Diário de Lisboa", que era vespertino, conotado com a "oposiçáo democrática", deu-a em título de caixa alta só na 2ª edição, dia 8 de fevereiro de 1969, que era um sábado. Fez ainda uma 3ª edição.  E limitou-se a reproduzir a "peça" transmitida pela agência oficiosa L [Lusitânia], com proveniência de Bissau e data  8 de fevereiro... 

(...) "Na passagem do rio Corubal, na estrada para Nova Lamego, afundou-se a jangada que transportava uma força militar, havendo a lamentar, em consequência deste acidente, a morte, por afogamento, de 47 militares.(...) 


2. Já "quase tudo" se disse mas ainda fomos descobrir, nos livro da CECA (2015), mais algumas referências ao "desastre do Cheche", que transcrevemos:


(...) Dispositivo (Zona Sul)

Em 08Jun68 é elaborada a Directiva n° 1/68 com vista à remodelação do dispositivo na região do Boé. 

Determina a transferência do aquartelamento de Madina do Boé para local mais adequado, na região do Ché Che. 

Ordena a recolha imediata a Madina do Boé do Destacamento de Béli, devendo ser destruídas as instalações e material que não fosse recuperável. 

No ponto nº 3 refere:

"O CTIG e o CZACVG procederão imediatamente a um reconhecimento da região do Ché Che, em ordem a escolher o local do novo aquartelamento; deverá satisfazer às seguintes condições:

- Situar-se em "área-chave" da região de Ché Che, que permita o lançamento de acções dinâmicas na região do Boé e na margem norte do rio Corubal, e, se possível, que dê garantias de segurança à passagem deste rio no Ché Che (jangada);

- ter uma boa pista de aterragem para aviões "Dakota";

- oferecer boas condições de defesa do aquartelamento, que deve ser planeada com vista a transformar-se numa grande base operacional. "


 CECA (2015), 
pag. 175


(...) Operação "Mabecos Bravios" - 02 a 07Fev69

Forças da CCaç 1790, CArt 2338 (-), CCaç 2383, 2403, 2405 e 2436, CArt 2440, 1 GComb/CCaç 5, Pel Mil 161, Pel AMetr "Daimler" 1258 (...), Pel Sap do BCaç 2835, com APAR (apoio aéreo), efectuaram uma escolta no itinerário Nova Lamego - Madina do Boé - Nova Lamego, L3.

Accionada min a A/C  no cruzamento de Beli, sem consequências; detectadas e destruídas 2 minas A/C  entre Ché Che e Canjadude. Durante a operação, Madina foi flagelada 4 vezes sem consequências. No regresso, na travessia do rio Corubal, um acidente com a  jangada que transportava forças de segurança da retaguarda provocou a morte de 47 militares das NT (2 sargentos, 43 praças e 2 Milícias).



CECA (2015), pág. 353

(...) Em 19fev69, através de Directiva n.º 16/69, foi entregue ao CDMG e ao CZAGCV a realização da Operação no rio Corubal:

"1. Confirmando a ordem verbal dada em reunião de Comandos, determino a realização de uma operação no rio Corubal, com o fim de recuperar os corpos dos militares mortos no trágico acidente de 6fev69, que se encontram à superfície das águas.

2. A operação deve realizar-se na base do helitransporte de uma vaga de "Fuzileiros Especiais",  fortemente apoiada por meios aéreos.

3. Os corpos devem ser agrupados e enterrados no local, devendo as campas ser assinaladas com cruzes de ferro.

4. Desejo ser helitransportado ao local, conjuntamente com um capelão para assistir à cerimónia fúnebre, e colocar nas campas e lançar ao rio coroas de flores com a legenda "A Pátria agradecida". [...]". (***)

CECA (2015), pag. 317


Fonte: Excertos de: CECA - Comissão para Estudo das Campanhas de África: Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974) : 6.º Volume - Aspectos da Actividade Operacional: Tomo II - Guiné - Livro I (1.ª edição, Lisboa, Estado Maior do Exército, 2014), pp. 175, 317, 353.



2. Falta-nos, entretanto, o  testemunho do ex-alf mil José Luís Dumas Dinis, da CCAÇ 2338, então comandante da força que guarnecia o destacamento de Cheche.


Recorde-se aqui um excerto do testemunho do então cap inf José Aparício, hoje cor inf ref, na altura cmdt da infortunada CCAÇ 1790, que sofreu o maior número de vítimas:

(... ) Chegados à margem direita, ao proceder-se à contagem constatou-se a falta de 47 militares das duas Companhias.

O Comandante da Operação 
[, cor inf Hélio Felgas,] não permitiu que as duas Companhias [, CCAÇ 1790 e CCAÇ 2405, ] permanecessem no Ché Che para tentarem recuperar o maior número de corpos possíveis, seguindo por isso logo para Nova Lamego.

O acidente em causa deu origem de imediato a um Auto de Corpo de Delito, e a longas e complexas averiguações, incluindo todos os aspectos da operação, que em 1970 terminaram em julgamento em Lisboa no 3.° Tribunal Militar Territorial, que durou várias sessões e que terminou com a absolvição do único réu, o alferes miliciano comandante do Destacamento estacionado no Ché Che [pertencente à CART 2338, Fá Mandinga, Nova Lamego, Canjadude, Buruntuma, Pirada, 1968/69] ". (...) (****)


Ainda continua por realizar o prometido encontro, há anos, do nosso editor Luís Graça com o ex-alf mil José Luís Dumas Diniz (da CART 2338), responsável pela segurança da jangada que fazia a travessia do rio Corubal, em Cheche, aquando da retirada de Madina do Boé.

Uma peça fundamental para eventual encontro será ou seria o ex-alf mil trms, Fernando Calado, da CCS/BCAÇ 2852 (Bambadinca, 1968/70), membro da nossa Tabanca Grande, e meu contemporâneo da Guiné (estivemos juntos, em Bambadinca, entre julho de 1969 e maio de 1970), e amigo do Dumas Diniz.

Foi o Fernando Calado que me pôs em contacto com o José Luís Dumas Diniz, que vivia a maior parte do tempo em Coruche. Infelizmente o Fernando morreu o ano passado, em 24 de junho.

Guiné > Região de Gabu > Carta de Jábia (1961) > Escala 1/50 mil > Posição relativa de Ché Ché, na margem esquerda do Rio Corubal.

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2025)

_____________

Notas do editor LG:


(**) Vd. poste de  6 de fevereiro de 2022 > Guiné 61/74 - P22974: In Memoriam (426): Paz para a alma de todos os nossos camaradas que morreram no desastre de Cheche, faz hoje 53 anos...Foram 47 vidas ceifadas na flor da idade... Estupidamente!... (Virgílio Teixeira, ex-alf mil SAM, CCS / BCAÇ 1933, Nova Lamego e São Domingos, 1967/69)(*) 

(***) No dia 20 de fevereiro de 1969, uma equipa de mergulhadores-sapadores da armada, após várias operações de busca, a cerca de 400 m a  jusante do local do acidente,  conseguir resgatar  os restos mortais de 11 militares (irreconhecíveis), seguidamente helitransportados para Bissau e sepultados no cemitério municipal, no talhão dos combatentes. (Informação inexata: os corpos resgatados, irreconhecíveis, foram inumados no local. LG. )

Não sabemos se o comandante-chefe chegou a estar presente, como era sua intenção.