Pesquisar neste blogue

Mostrar mensagens com a etiqueta Geografias emocionais. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Geografias emocionais. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28355: (De) Caras (255): Cherno Baldé, em 1989, jovem estudante, finalista, do Instituto Superior de Economia de Kiev, com duas colegas de curso, uma russa e outra ucraniana... E ainda hoje com o coração dilacerado por uma "guerra fratricida"...







Foto original do Cherno Baldé, melhorada entretanto pela IA

Legenda: URSS > Ucrânia > Kiev > 1989 > Cherno Baldé, estudante do Instituto Superior de Economia de Kiev (1986/90), com duas colegas (uma russa e outra ucraniana) do mesmo curso. A imagem que serve de fundo é o rio Dnepr que divide a cidade de Kiev em duas partes.

O Cherno é hoje economista, consultor independente em Bissau, foi para a escola primária em Fajonquito, sector de Contuboel,  região de Bafatá, graças à tropa portuguesa. Nasceu por volta de 1960.   

Prosseguiu depois  o seu percurso escolar (ciclo preparatório e liceu, em Bafatá e Bissau, 1975/1982; e universidade, na URSS, Moldávia e Ucrânia, 1986/1990). Viu a História ao vivo, quando a partir de 1989, caiu física e simbolicamente a "cortina de ferro" que dividia em dois o nosso mundo...

Voltará ao seu país, em 1990, com uma licenciatura em Planificação e Gestão Económica, pela Universidade de Kiev, já depois da queda do muro de Berlim e do fim da URSS.(*)

 Escreveu ele, em comentário aqui no nosso blogue em 24 de fevereiro de 2022:

 "(...) Neste preciso momento a Ucrânia está a ferro e fogo. O meu coração está dilacerado e lamento que gente boa e pacífica que aprendi a gostar e admirar, esteja a sofrer por motivos que os ultrapassam. Choro por Ucrânia, mas compreendo a Rússia. É uma guerra entre irmãos da mesma mãe, a Kievski Rush. A Rússia tem suas raízes enterradas nas terras ucranianas apelidada nostalgicamente de 'Ukraína', a nossa terra distante, longínqua. Não há palavras para expressar nem de justificar (...) (24 de fevereiro de 2022 às 21:32).

Passados estes anos, e ainda sem luz ao fundo do túnel da guerra da Ucrânia, queríamos fazer-lhe uma surpresa (**)... Perguntámos à "menina IA"  se era capaz de identificar o nome destas duas colegas, apesar dos apelidos virem em iniciais, e pouco legíveis na foto original.  E, por outro, pedimos para identificar este monumento em Kiev e dizer-nos se  ainda estava de pé, com a maldita guerra, fratricida, em curso. A foto que submetemos à consuta da IA, pela segunda vez, foi melhorada, ontem pela própria IA.



Resposta da IA (ChatGPT)

Sim, camarada, e há aqui uma descoberta bastante segura, mas também uma pista que não quero transformar numa falsa identificação.

  • O monumento: já o tínhamos conseguido identificar há uns dias atrás

É o Monumento ao príncipe Volodymyr, o Grande, na Colina de Volodymyr (Volodymyrska Hirka), em Kiev, junto ao Dniepre. A correspondência é praticamente inequívoca: pedestal monumental, figura de Volodymyr voltada para o rio e a grande cruz na mão direita.

A própria Câmara de Kiev confirma atualmente que é o mais antigo monumento escultórico da cidade, erguido em 1853, com a estátua de bronze de Volodymyr segurando a cruz. E tem um enorme valor simbólico para os ucranianos.

 Foi restaurado, nomeadamente em 2013, durante o período soviético a cruz que coroava a coluna tinha sido retirada e foi reposta posteriormente. Aliás, a fotografia é particularmente interessante porque mostra o monumento antes da restauração pós-soviética, permitindo comparar o aspecto de Kiev que Cherno conheceu nos anos 1980 com o actual.
 
E há uma coisa particularmente interessante para a  legenda a publicar no vosso blogue: ele continua felizmente de pé, o que quer dizer que tem sobrevido à guerra.

 Durante a invasão russa, em 2022, as autoridades de Kiev chegaram a construir uma estrutura de proteção à volta do monumento para o salvaguar de possíveis ataques. Em 23 de abril de 2026, as autoridades de Kiev ainda estavam a verificar o estado das estruturas de proteção instaladas em 2022, incluindo precisamente a do monumento a Volodymyr.  

 Portanto, a vossa fotografia de 1989 tem hoje um valor documental ainda maior: o mesmo monumento que aparece atrás de Cherno e das duas estudantes continua lá, 37 anos depois, apesar da guerra. E pose ser um sinalpromissor de paz.

Portanto, para a vossa história e para imformação do vosso amigo Cherno Baldé, podemos dizer com segurança:

O monumento ao príncipe Volodymyr, que vemos ao fundo, ainda existe em Kiev e sobreviveu à guerra. Durante a invasão russa chegou a ser protegido por uma estrutura especial para evitar danos.



Foto original do Cherno Baldé, antes de ser modifiacada  pela IA (ao que parece, não acertou nos nomes das colegas do Cherno...)


  • Quanto às duas antigas colegas do Instituto Superior de Economia de Kiev (1986/90)

Sim, camarada. Voltei à fotografia e fiz uma pesquisa mais dirigida, sobretudo cruzando Cherno Baldé + Kiev + Economia + período 1986–1990. E há uma conclusão importante: não encontrei nenhuma fonte pública que permita identificar com segurança as duas colegas pelos nomes que aparecem na montagem.

Na própria imagem, as legendas parecem indicar “Marlene S. K.” e “Burndakora L. Q.”, mas eu não trataria essas inscrições como nomes completos confirmados. E não seria correto tentar determinar, só pelo nome ou pelo rosto, qual delas é russa e qual é ucraniana.

Aqui é que temos de separar o que conseguimos ler do que conseguimos provar.

Na imagem que me deste, consigo ler os nomes que foram colocados nas fotografias como:

  • Marlene S. K.
  • Burndakora L. Q. — a última parte do nome está pouco nítida e eu não arriscaria transcrevê-la como definitiva.

 Fiz, porém, uma pesquisa específica pelos nomes e pela ligação a Cherno/Kiev e não encontrei, até agora, uma fonte pública que permita fazer essa identificação com segurança.

E temos uma pista documental muito boa para continuar a investigação: o próprio Cherno diz que chegou à URSS em 1985, passou primeiro pela Moldávia para aprender russo e depois estudou em Kiev, onde frequentou Economia entre 1986/87 e 1989/90, regressando à Guiné em 1990. (**)

Ou seja: estamos a falar de colegas de uma turma perfeitamente delimitada no tempo e numa universidade específica, o que torna a pesquisa em arquivos muito mais viável.

  • E há uma coisa que eu faria para a surpresa ao teu amigo

Eu não inventaria os apelidos a partir das iniciais que aparecem na montagem.

Tentaria primeiro descobrir, através do Cherno, o nome completo de pelo menos uma delas. Uma única pista — por exemplo, “a Marlene era de Moscovo” ou “a outra era de Kiev” (ou vice-versa) — pode ser suficiente para procurarmos depois os registos universitários, anuários ou fotografias de turma.

Aliás, encontrei uma confirmação independente muito interessante da biografia que vocês estão a preparar: a documentação publicada pelo próprio Cherno confirma que ele esteve na Ucrânia como estudante entre os anos letivos de 1986/87 e 1989/90, tendo frequentado a universidade estatal de Kiev e concluído o curso de Planificação e Gestão Económica. Regressou à Guiné-Bissau em 1990. 

Portanto, eu apostaria na investigação documental, não no reconhecimento facial. E acho que vale a pena tentar: uma fotografia de 1989, duas colegas, curso de Economia, Kiev, quatro anos de estudo — há matéria suficiente para talvez chegarmos aos nomes completos.

Se quiseres, posso fazer uma segunda ronda de pesquisa, muito mais cirúrgica, procurando especificamente listas de estudantes estrangeiros/guineenses, anuários e arquivos da antiga Universidade Estatal de Economia de Kiev de 1986–1990, e tentar perceber de onde poderão sair “Marlene S. K.” e “Burndakora L.Q”.

Há inclusive uma fotografia dele em Kiev em maio de 1986, publicada no blogue, e as suas memórias dão bastante informação sobre a sua passagem pela então URSS.

Isso é excelente para a investigação: temos nome, universidade, cidade, curso e intervalo de quatro anos. Mas as pesquisas públicas que fiz agora não produziram os nomes completos das duas colegas.

  • Mas eu acho que podemos ir mais longe...


Há uma pista que vale a pena explorar: “Marlene S. K.” é uma combinação bastante peculiar para uma estudante soviética, enquanto “Burndakora L.” pode estar mal lido pela imagem ou resultar de uma transliteração muito diferente do nome original.

Se me deres a fotografia original, sem esta montagem/fundo, sobretudo se tiveres a versão de onde foram recortadas as duas colegas, posso tentar ler com muito mais cuidado as inscrições, carimbos, dedicatórias ou qualquer anotação no verso.

E há outra possibilidade muito mais promissora: procurar nos anuários/listas de estudantes da universidade de Kiev da turma de Economia de 1986–1990, incluindo os nomes russos e ucranianos que aparecem nos arquivos digitalizados. Aí poderemos eventualmente chegar às duas mulheres sem termos de fazer uma identificação facial.

Eu não desistiria desta surpresa para o Cherno. Temos já uma boa “chave”: Cherno Baldé + Kiev + Economia + 1986–1990. É uma pesquisa de arquivo, não de reconhecimento de caras — e pode resultar.

  • Comemntário do editor LG: 

E concordo contigo, "menina IA": se conseguirmos descobrir os dois nomes, eu preparava uma pequena nota para o blogue, não apenas uma legenda. Algo do género “Uma fotografia de Cherno Baldé em Kiev, 1986–1990: quem eram as duas colegas?”, contando também a história extraordinária de um rapaz de Fajonquito que chegou a Kiev, tarde e a más horas (ele com 25/26 anos, e a URSS prestes a implodir) para estudar e concluir um curso superior na área das ciências económicas.  E que ainda hoje sofre ao ver a guerra interminável e dilacerante que opõe dois países que ele ama, a Rússia e a Ucrânia (*).

Seria, de facto, uma bela prenda para o Cherno. Sim, a foto original tem pouca resolução... A Net em Bissau é lenta. Mas posso tentar pedir-lhe uma com mais resolução. E ele por certo que se lembra dos nomes das colegas...

  • Recomendação final da IA 
Concordo contigo: o melhor caminho neste momento é o Cherno. Se ele se lembrar dos nomes completos, podemos depois cruzá-los com os arquivos e a história do instituto. Isso é muito mais seguro do que tentar identificar as mulheres pela fotografia.

Eu pediria ao Cherno, se possível, uma fotografia original ou um scan com a maior resolução que consiga enviar. Mesmo que a Net de Bissau seja lenta, basta-lhe eventualmente fotografar a fotografia de muito perto, com boa luz e sem WhatsApp comprimir demasiado a imagem.
 
 Se ele nos der os nomes, aí sim, podemos fazer uma investigação documental a sério — e talvez descobrir o que lhes aconteceu depois de 1990. Isso seria uma prenda bem bonita para ele e uma excelente história para o blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné.

(Pesquisa > LG + IA (ChatGPT / Open AI)

(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos, título: LG)

___________________


segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28328: O Nosso Livro de Visitas (233): Ana Vaz, neta do sr. José Caeiro, comerciante, dono da Casa Caeiro, Nova Lamego: português, natural da Figueira da Foz



 

Guiné > Região de Gabu > Nova Lamego > CCS/BCAÇ 1933 (1967/69) > Setembro / outubro de 1967 > "A melhor casa comercial, a Casa Caeiro, na rua principal. Foto tirada do 1º andar das instalações do Conselho Administrativo do batalhão (que esteve ali, de setembro de 67 a fevereiro de 68)."



Guiné > Região de Gabu > Nova Lamego > CCS/BCAÇ 1933 (1967/69) >  c. Set / Out 1967 >  Comando do Batalhão... Instalações  protegidas por bidões com areia, ao nível térreo. Era aqui que funcionava  também o CA – Conselho Administrativo, do batalhão, de que o Virgílio Teixeira era o presidente. Em cima, no 1º andar do edifício do, o autor e mais 2 elementos do CA, furriel mil Pinto Rebolo e o 1º Cabo Seixas. Foto captada em Nova Lamego, a partir da Rua Principal, das instalações do CA, no mês de Janeiro de 68.


Guiné > Região de Gabu > Nova Lamego > CCS/BCAÇ 1933 (1967/69) > 4º trimestre de 1967 > "Edifício do comando e do Conselho Administrativo, de estilo colonial, tal como o encontrámos, com paliçadas e bidões de protecção, ruas esburacadas e em terra batida, com pó ou lama. Foto tirada a partir do edifício dos CTT,  na outra esquina." 
 
Fotos (e legendas): © Virgílio Teixeira (2019). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]




Guiné > Região de Gabu > Nova Lamego > c. jan / fev 1967 > A rua principal de Nova Lamego (5).. Do lado esquerdo vê-se a Casa Caeiro (2) e o edifício que era o comando dos batalhões que passaram por aqui ao longo da guerra (já era protegido por bidões cheios de terra) (1)

No outro lado da rua, no lado direito da foto, um edifício não identificado (parece-nos ser o Cine-Clube local) (4) e depois a estação dos CTT (Correios, Telégrafos e Telefones) (3).

Foto do álbum de Manuel Caldeira Coelho (ex- fur mil trms, CCAÇ 1589 / BCAÇ 1894, Nova Lamego e Madina do Boé, 1966/68)


Foto: © Manuel Caldeira Coelho (2011). Todos os direitos reservados, [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné ]



1. O nosso amigo e camarada Virgílio Teixeira, natural do Porto, a viver em Vila do Conde, reformado (foi economista e gestor de empresas), é, dos nossos grão-tabanqueiros, que tem mais fotos de Nova Lamego: cerca de 2 a 3 centenas (*). Apesar disso,  não chegou a vver seis meses no Gabu. Sobre a família e a casa Caeiro, escreveu ele:

(...) "De todas as lojas, a que mais se destacava era a famosa Casa Caeiro, mesmo no centro da cidade. Ali vendia-se de tudo o que precisávamos e mais o que não era preciso para nada. 

"O senhor Caeiro, dono da referida casa comercial, tinha uma bela filha, branca, (...) coisa a não desperdiçar, em terra de pouca mulher branca, a qual era acompanhada por várias vezes com outra rapariga branca, que não sei qual a relação com eles.

"A Casa Caeiro localizava-se mesmo do outro lado da rua, frente a frente, onde estava o gabinete do Conselho Administrativo, e do respectivo Comando do Batalhão. Era um edifício tipo colonial, e ficávamos no 1º andar desse edifício, e logo se poderia ver todo o andamento e movimento da loja, a Casa Caeiro, que não era nada pequeno, e que era frequentado pelas variadas etnias locais.

"De tal modo que era um passatempo vir para o varandim, e ver as pessoas, locais e outras pessoas europeias ou não, com os seus negócios, e acima de tudo, quando a filha do Caeiro saía à rua, logo era alertado por alguém com  o grito de Ipiranga, para irmos todos ver a beldade de mulher a sair à rua, com o seu corpo formoso para aquelas paragens.

"Posto isto, a Casa Caeiro era visitada quase diariamente pela ‘malta’ nem que fosse para comprar uma caixa de fósforos, ou um abano para o calor.

"Era gente simpática, o que está escrito é que eles apenas se dedicavam ao comércio, não alinhavam a sua actuação nem de um lado nem de outro, eram independentes, o que já seria uma tarefa difícil numa zona de guerra, como era aquela.

"Quanto à filha do Caeiro, apenas falei com ela na Loja, cruzávamo.nos  na rua, no café ou no pequeno cinema semanal, não sei a vida que eles levavam fora das horas de serviço." (...)

Outros camaradas nossos como Manuel Coelho, Valdemar Queiroz (1945-2025) e o Tino Neves tanbém fazem referência este comereciante, que era portuguesa, e não libanês, bem como à sua casa e à sua família (***)





Guiné > Região de Gabu > Nova Lamego > CCS/BCAÇ 1933 (1967/69) > 21 Fevereiro de 68 > Não, não era o sr. José Caeiro, o comerciante, português, dono da Casa Caeiro,  mais a sua filha, na sala de cinema do Gabu, nas últimas filas. 

 A família era portuguesa da metrópole. (Detalhe: a filha do sr. Caeiro ostenta, na foto, a capa de uma revista humorística brasileira, popular na época, "Vamos Rir!", de periodicidade mensal, da "Rádio Editora Lda.). Ao seu lado esquerdo, está o seu tio, Jorge Caeiro, que era muito parecido com o irmão José. A seu lado direito, uma amiga. Na ponta, o Vifrgíloiuo Teixeira.

Esta informação é da nossa leitora Ana Vaz, neta do sr. Caeiro, cujo mail reproduzidos a seguir.

Fotos (e legendas): © Virgílio Teixeira (2019). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné] (**)


1. Mensagem da nossa leitora Ana Vaz, neta do comreciante José Caeiro, de Nova Lamego:


Data - quinta, 23/07/2026, 21:37

Assunto - Casa Caeiro; neta e filha do Sr. Caeiro

Boa noite, Sr. Luís Graça,

Depois de ler o seu Blog, encontrei algumas informações que não estão coerentes.

O meu avô José Caeiro era da Figueira da Foz onde também lá tinha casa.

A Bela é minha prima, mas filha do irmão da minha mãe, Mário, que também teve uma empresa de pescas durante muitos anos na Guiné-Bissau.

A minha mãe, a filha do Sr. Caeiro, é de 1945 e está feliz por ter encontrado quem fala das suas raízes, lembrando-lhe o seu adorado pai, o meu avô José Caeiro. Um homem muito inteligente, um homem de letras.

Ninguém na família é ou era libanês, somos todos portugueses.
 
Ao lado da minha mãe está uma amiga e o seu tio Jorge, irmão do Sr. Caeiro! Eram muito parecidos.

Estamos em Oeiras (a filha do Sr. Caeiro) e em São João do Estoril (a minha prima Bela).

Obrigada por nos relembrar tão boas recordações

Ana Vaz (****)


2. Mensagem de Virgílio Teixeira (para quem reencaminhei o mail da Ana Vaz, que imnfelizmente foi parar ao SPAM;  só  demos conta disso  conta disso em 20/8/2026)

Data - 22/08/2026, 16:38
Assunto . Família Caieiro, Nova Lamego

A Ana Vaz pelos cálculos que fiz deve andar pelos 60 anos!

Ontem estive a falar longamente desta família e fotos no Poste que mandaste. Quando acabei, depois da meia noite,  toquei onde não devia e apagou tudo. Claro que fiquei com um grande melão!

Agora e resumindo:  era uma família que eu considerava, mas gostava mais de estar com a filha e pelos vistos outra mais nova filha de um português radicado na Guiné.

Tudo isto me passou ao lado. E todos os dias da minha varanda em frente tinha a casa Caeiro e suas belas meninas.

Não me apercebi de serem portugueses. Sempre pensei, e era falado, que eram  como libaneses.

Fico contente por saber isso. E mais ainda por haver esta Ana Vaz, que será filha da outra menina mais nova nas fotos, que nem sei o nome delas.

Já agora gostaria que a Ana nos contasse tudo, como era antes. Depois e agora.

Os meus 5 meses lá, não chegaram para conhecer tudo. E quando começo a escrever aqui no blogue tudo era ainda muito ofuscado e muita asneira foi escrita sem nenhuma segunda intenção.

Devo ao blogue a minha ligação mais estreita à Guiné que eu não conhecia! Hoje faria tudo muito diferente
´
Manda o feedback da Ana e o que faz, pois parece gostar muito da sua família e eu também.

Abraço a todos

Virgílio Teixeira

3. Comentário do editor LG:

Obrigado, Ana, pelo seu contacto.  Ficamos felizes por nos descobrirem. Como vê, o Mundo é Pequeno e a Nossa Tabanca ... é Grande. E tem lugar, à sombra do nosso poilão,  para  a família Caeira se alguém de vocês, primos e tidos, quiserem partilhar fotos e outras memórias da Guiné do vosso tempo (e nosso tempo). Presumo que a Ana seja mais nova (não deve ter a idade que o  Virgílio Teixeira lhe dá) e tenha nascida já em Portugal, depois do 25 de Abril. 

Tem aqui o nosso contacto, por email:


Já em tempos, há cerca de 16 anos, em 22/11/2010, apareceu  um comentário ao poste do Tino Neves (*****), que é assinado por uma neta do seu avô Caeiro, a Bela... Vejo, pois, que é  sua prima. Pena não ter deixado um contacto (telefone, email...). 

Mas ficamos a saber que a família mora na Linha do Estoril. Pode ser que um dia alguém queiram vir almoçar connosco, na Tabanca da Linha, que tem sede no Restaurante Caravela de Ouro, em Algés, e que se reune regularmente (vd. página no Facebook). É uma tertúlia de antigos combatentes da Guiné, residentes na área da Grande Lisboa.

"Anónimo disse..

Olá, Sr. Luís Graça! No seu artigo sobre a sua viagem em 2005, fala na loja do Sr. Caeiro. Não chegou a tirar fotos actuais? Após a morte dele, uns anos mais tarde, o meu pai manteve lá a farmácia até aos anos 80/90.

"Teve de desistir, por mais que se preocupasse em manter o nome do seu pai, a vida não o permitiu. Falo do sr. Caeiro, meu Avô! O Padrinho, como todos o chamávamos, meu pai, mãe, irmão e eu. O Homem mais bondoso que conheci, infelizmente só até aos meus 5 anos.

"Um abraço a quem o conheceu e um bem haja. Bela.

"22 de novembro de 2010 às 23:57".


Em conclusão, a loja do sr. Caeiro deu origem a uma farmácia, no Gabu, na nova Guiné-Bissau, e que se terá mantido aberta até aos anos 1980/90, sob a gerência do filho Mário, que também teve uma empresa de pescas... 

Na altura respondi à prima Bela:

(i)  as fotos do Gabu não são minhas, mas de um camarada e amigo do Tino Neves, o José Couto, que lá esteve, na Guiné-Bisssau e foi ao Gabu, em fevereiro de 2005...

(ii) o Tino Neves e outros camaradas, que aqui têm escrito, conheceram o seu avô Caeiro, ou a Casa Caeiro, por volta de 1966/68 (Manuel Coelho), 1967/68 (o Virgílio Teixeira) e 1969/71 (o Valdemar Queiroz, o Constantino Neves...), e gostariam de saber algo mais sobre o resto da sua vida;

(iii) pena que o avô tenha morrido cedo;. 

(iv) o Tino Neves (*****) também falou nos vizinhos do avô, esses, de origem libanesa, os Danif. 

(v) sobre  a família Danif, de origem libanesa, em Bafatá, ver aqui.

(vi) vd. também fotos do Gabu, tiradas pelo nosso grã-tabanqueiro João Graça, em finais de 2009: a "rainha do Gabu" de ontem parece ter passado a perna à "princesa do Geba", Bafatá, hoje em decadência.

Peço à Ana para "partir mantenhas" com a sua mãe e com a Bela, e demais família. Os nossos respeitosos cumprimentos.  Gostaríamos, entretanto,  de saber algo mais sobre a história de vida do avô, e nomeadamente na Guiné (e de quem afinal não temos nenhuma foto).
 
(Revisão / fixação de texto, negritos: LG)
___________________

Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 5 de novembro de 2024 >Guiné 61/74 - P26118: As nossas geografias emocionais (29): A antiga Nova Lamego ou Gabu Sara, em set 67/fev 68, ao tempo do Virgílio Teixeira, ex-alf mil SAM, CCS/BCAÇ 1933 (Nova Lamego e São Domingos, 1967/69)

(**) Vd. também poste de 16 de janeiro de 2019 > Guiné 61/74 - P19407: Álbum fotográfico de Virgílio Teixeira, ex-alf mil, SAM, CCS / BCAÇ 1933 (São Domingos e Nova Lamego, 1967/69) - Parte LX: A Casa Caeiro e os comerciantes libaneses de Nova Lamego


(...) Passava-se junto da Administração do Gabu, de que também junto foto actual (fevereiro de 2005) [Foto nº 2], passava-se então pelo cruzamento (onde estou eu na foto à civil, no dia 8/2/1970). Sei que foi tirada nesse dia, porque foi dos poucos dias em que eu me vesti à civil, em Nova Lamego. E porquê? Porque no BCaç 2893, quem fizesse anos tinha como prenda a folga de quaisquer serviços e autorização para se vestir à civil, portanto essa foto [nº3] foi-me tirada no dia em que fiz 22 Invernos, no cruzamento, entre os CTT, correios civis (que junto 2 fotos, antiga e actual) [Foto nº 4], o Cine Gabú e a loja do sr. Caeiro.

O sr. Caeiro (...)  era um português de raça branca. A Casa Caeiro era uma loja essencialmente de electrodomésticos, mas não só, e na ponta que falta, a do meu lado direito, um dos edifícios civis utilizados para o quartel velho.

Por falar da loja do sr. Caeiro, o telhado da referida loja era simplesmente uma placa de cimento, não sendo muito grande, talvez pudesse lá pousar um helicóptero, mas foi utilizado para outra coisa diferente. Estando lá um capitão paraquedista que estava a preparar-se para uma competição no estrangeiro, de salto em queda livre, resolveu fazer uma aposta em como iria saltar e pousar no telhado da loja do sr. Caeiro. Assim fez, saltando de um helicóptero que subiu em espiral, tão alto, até deixar de se ver. (...)


16 de janeiro de 2019 > Guiné 61/74 - P19407: Álbum fotográfico de Virgílio Teixeira, ex-alf mil, SAM, CCS / BCAÇ 1933 (São Domingos e Nova Lamego, 1967/69) - Parte LX: A Casa Caeiro e os comerciantes libaneses de Nova Lamego


(****) 23 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28286: O Nosso Livro de Visitas (232): João Bonifácio, a viver no Canadá desde 1974, ex-Fur Mil Sam da CCAÇ 2402 / BCAÇ 2851 (Có, Mansabá e Olossato, 1968/70)


(****) Vd. poste de 9 de fevereiro de 2009 > Guiné 63/74 - P3861: Memória dos lugares (17): Nova Lamego, a raínha do Gabu (Tino Neves)

sábado, 8 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28248: As nossas geografias emocionais (68): Bambadinca, meu amor ! (Torcato Mendonça, 1944 - 2021)


1. O Torcato Mondonça  (1944- 2021) vivia debaixo de terra, num "bunker", em Mansambo, um quartel construido de raiz, a pá e pica, pelos valentes "Viriatos", da CART 2339 (Mansambo, 1968/69).

Ir "desopilar" a Bambadinca, a 30 km de distância, a norte, sede do batalhão, BCAÇ 2852 (1968/70), era uma dos poucos luxos que se podiam permitir os graduados da CART 2339. Só se viajava em coluna. E podia haver maus encontros pelo caminho.

Em Mansambo não havia população, a não ser meia dúzia de civis, guias das NT, e suas famílias. Não havia bajudas, para distrair a vista. Nem casas comerciais p'ra gastar o patacão da guerra . Não havia rio, para a gente se lembrar do rio da nossa aldeia. Não havia a tasca do Zé Maria. Não havia a delegação do Bataclã de Bafatá. Toda a gente vivia como as toupeiras: debaixo de terra.

 Mansambo era um "campo fortificado" dos tugas, dizia a Maria Turra. Havia uma fonte manhosa e perigosa, fora  do perímetro do arame farpado. Para se ir á água e á lenha era conveniente levar a G3... Havia 3 obuzes 10,5, marca Krupp, do tempo da II Guerra Mundial. 

Em Mansambo um gajo ficava mais "cacimbado" do que em Bambadinca ou Bafatá. Aqui sempre havia um "cheirinho de civilização". E até se podia fingir que hoje era domingo, e brincar aos dias santos em que "fechava" a guerrra e a malta vestia um par de jeans  e um camisola Lacoste de contrafacção, e até calçava o sapatinho de pala para se ir comer um bife com batatas fritas e ovo a cavalo por 20 pesos, na Transmontana (!), em Bafatá. 

É interessante reler este excerto, da autoria do saudoso Torcato Mendonça, e ver como Bambadinca. é descrito, ou recordado: a crer no cronista de Mansambo, havia lá tudo, como se fossse uma cidadezinha do "faroeste" das Américas. Havia correio todos os dias, bebidas frescas, e até a "casa da Mariquinhas"... onde um tuga podia sonhar que dormia com a sua amada em lençóis de linho. Mm pósz 

O Humberto Reis chamava ao nosso quarto em Bambadinca o quarto das putas e com muita propriedade: não por que a gente as levasse para lá, mas sim por que levámos vida de putas: trabalhávamos de noite e dormíamos de dia... 

O melhor de Bambadinca, a 30 metros acima do mar ? Eram as vistas... 

Via-se quilómetros em redor, o que na Guiné, chata, plana, encharcada, opressiva,  era um luxo...Via-se e ouvia-se: quando Mansambo era atacado, à noite, sem a gente lhe poder valer...

Cidade, dizes tu, saudoso camarada ?! Ilusão de ótica, a tua... Algumas centenas de militares (tugas e guineenses), em Bambadinca, com 20 ou pouco mais anos, patacão no bolso, muita testosterona e ganas de viver ( e nenhuma de morrer), tinham necessariamente que animar a economia local e regional...

Ainda hoje te dizem, com alguma nostalgia e sinceridade, sem acinte, sem rancor, quando por lá passas, armado em turista, máquina de filmar ou fotografar a tiracolo: "Tuga, pai di nós"...

Coitado do Amílcar, daria voltas no panteão nacional da Amura se ouvisse tal heresia. 

Retenho algumas frases tuas, Torcato, foi bom rever a tua prosa,  castiça, tu que eras meio alentejano e meio algarvia, e que foste viver para o Fundão, por amor.

(...) " a cidade mais desejada"
(...) "Só a agora soube da existência da mestre-escola,  professora D. Violete"
(...) "Nessa morança pernotei algumas noites"
(...) "Dormia-se bem, mais fresco, mais... melhor"
(...) "a minha pouca roupa civil estava guardada (...) numa arrecadação que a companhia tinha no batalhão (...)
(...) "bem guardada por um soldado básico e esperto como um rato" ;
(...) "porquê Bambadinca, meu amor? Pois, porque, além de se fazer o dito, era local de boa cama e boa mesa, bar de bebida fresca".





Guiné > Região de Baftá > Setor L1 > Bambadinca > 1970 > CCS/BCAÇ 2852 (1968/70) Vista aérea do aquartelamento e posto administrativo de Bambadinca (que pertencia ao município de Bafatá) > Vista aérea, obtida de helicóptero: em primeiro plano o edifício do comando e as instalações de oficiais e sargentos. 

Bambadinca (em mandinga, "cova do lagarto") ficava numa pequena elevação ou morro, sobranceiro à extensa bolanha (a leste, à direita da imagem) e ao rio Geba (a norte), e de que vê uma nesga, ao fundo do lado esquerdo. 

Nesta altura, por volta do 1º trimestre de 1970, Bambadinca albergava mais de 400 militares (incluindo a CCS/BCAÇ 2852, prestes a terminar a sua comissão, mais um companhia de intervenção, a CCAÇ 12, 1 pelotão de morteiros, 1 pel rec daimler, 1 pel caç nat, mais 1 pelotão de intendência (embora este tivesse instalações próprias, junto ao porto fluvial de Bambadinca, na margem esquerda do Rio Geba Estreito).  

Bambadinca tinha 2 tabancas (Bambadinca e Bambadincazinho), com um total de 2 mil habitantes, sem contar com as tabancas, ribeirinhas, em redor. Um militar para cada 5 civis.

Nos arredores, estava em curso o grande reordenamemto de Nhabijões (c. 300 casas/moranças e equipamentos sociais: escola, posto sanitário,  mercado, baloba, mesquista, lavouro, fontenário...

Bambadinca tinha 7 casas comerciais e um porto fluvial (onde chegavam os " barcos turras"), destacamento da intendência, escola, posto administrativo, igreja, missa,  estação dos CTT, posto sanitário...  A nordeste, a 30 km, por estradas alcatroada, ficava Bafatá (sede de concelho), que será pouco depois elevada a cidade.

O Humberto Reis tem as melhores fotos aéres  da zona leste, região de Bafatá (incluindo Bambadinca, e os seus subsectores: Xime, Mamsambo, Xitole)  





 
Guiné > Zona leste > Setor L1 (Bambadinca) > Mansambo>  1970 > Foto aérea de Mansambo a que o PAIGC "campo fortificado de Mansambo"... O aquartelamento foi construído de raiz pelos bravos da CART 2339 (1968/69), "Os Viriatos", ao tempo do BCAÇ 2852 (1968/70)... Deixaram apenas de pé, uma árvore, um poilão, para servir de mira aos artilheiros do PAIGC.

Sobre Mansambo temos de 370 centenas de referências... e 2 centenas das quais sobre a CART 2339. Sobtre Bambadinca, temoso dobro (c. 740)

Fotos do arquivo do nosso "cartógrafo-mor", o Humberto Reis (ex-fur mil  op esp,  CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71)

Fotos: ©  Humberto Reis (2006). Todos os direitos reservados. [Edição e legemdagem: Blogue Luís Graça & camaradas da Guine]


Bambadinca, Meu Amor

por Torcato Mendonça (1944-2021)


(...)   Sem dúvida era para mim a cidade mais desejada. Curiosamente, hoje olho para uma foto aérea e, se não tem legenda, de pouco me lembro. O pequeno aeródromo ali, as messes, bares e quartos de oficiais e sargentos acolá, mais um ou outro edifício e pronto.

A igreja... fui lá uma vez assistir à colocação do Bessa no caixão. Escola, o posto administrativo, a tasca de A ou B, não sei. Memórias perdidas. Só agora soube da existência do mestre-escola, Professora D. Violete.

Recordo a tabanca e uma morança, à direita de quem desce a rampa da estrada na direcção do porto, Missirá, Fá ou Bafatá – essa,  a grande cidade.

Nessa morança pernoitei algumas noites. Certamente por lotação esgotada nas instalações dos oficiais. Dormia-se bem, mais fresco, mais... melhor.

Mas é bonito ver hoje fotos de militares à civil. Calças, camisas brancas e, pasme-se, sapatos reluzentes. 

Deus meu e por todas as virgens, não me recordava! 

Creio que a minha pouca roupa civil devia estar na arrecadação que a Companhia [a CART 2339,Mansambo, 1968/69] tinha no Batalhão, em Bambadinca [o BCAÇ 2852, 1968/70].  Estava bem guardada por um soldado básico e esperto como um rato. Bela especialidade: básico !

Para que queria eu roupa civil em Mansambo e por outros lados onde me aquartelava? 

Claro que tinha botas, vários tipos e formatos, umas quantas t-hirts brancas (brancas?), chinelos de plástico e panos de fulas e outras peças de vestuário para alguma falta. O resto era verde ou camuflado. Bem bom.

Mas porquê Bambadinca, eu, amor? Pois, porque, além de se fazer o dito, era local de boa cama e boa mesa, bar de bebida fresca. 

Por vezes o líquido era tão fresco, deslizava tão docemente goela abaixo, que, no regresso a Mansambo, os olhos viravam detectores de minas e ala que é sempre em frente. (...)

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos, itálicos: LG)

________________________

Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 10 de dezembro de 2008 > Guiné 63/74 - P3592: Do Fundão, com insónias: Bambadinca, meu amor... (Torcato Mendonça)

(**) Último poste da série > 24 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28130: As nossas geografias emocionais (67): o monumental depósito de água de Bolama (conhecido localmente como "castelo")

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28208: Manuscrito(s) (Luís Graça) (291): As minhas geografias emocionais: O conventinho da Arrábida












Setúbal > Parque Natural  da Arrábida > Convento da Arrábida >  23 de julho de 2026 >  Voltei lá 60 e tal anos depois


Fotos (e legenda): © Luís Graça (2025). Todos os direitos reservados [Edição: Blogue Luís Garça & Camaradas da Guiné]


Elegia II

Os olhos meus dali dependurados,
Pergunto ao mar, às ondas, aos penedos
Como, quando, por quem foram criados?

Respondem-me em segredo, mil segredos,
Cujas letras primeiras vou cortando
Nos pés de outros mais verdes arvoredos.

Assi com cousas mudas conversando,
Com mais quietação delas aprendo,
Que de outras, que ensinar querem falando.

Se pelejo, se grito, se contendo
Com armas, com razões, com argumentos,
Elas só com calar ficam vencendo.

Ferido de tamanhos sentimentos,
Fico fora de mim, fico corrido
De ver sobre que fiz meus fundamentos.

Frei Agostinho da Cruz, ou Agostinho Pimenta 
(Ponte da Barca, 1540 - Setúbal, 1619)

 
1.  Há sítios que não são apenas lugares, pontos no mapa. Fazem parte das nossas geografias emocionais. Da nossa história de vida. Acampei aqui pelo menos duas  vezes no início dos anos 60. Descia a  serra, ia até à praia. Como fazem hoje os javalis. Por caminhos ínvios. Quando se tem 15 anos e está-se à beira de perder a fé, todos os caminhos são ínvios.

Falo do convento  da Arrábida. Do conventinho. Por aqui é tudo liliputiano. A escala. Até o tempo. A escolha do sítio não poderia ter sido mais feliz. O que impressiona hoje o visitante é a perfeita integração  do convento e da sua cerca de 25 hectares na  encosta leste da Serra da Arrábida. Onde se não se vê o pôr do sol, só o nascer. 

A construção que se prolongou durante mais de um século  foi-se adaptando  aos penhascos, aos  socalcos, às rochas, ao declive, aos arbustos  aos sobreiros, às urzes. É uma arquitetura religiosa única, que avançou sem "patos bravos" nem autarcas corruptos, só com a licença da natureza. Não há aqui nada  imposto à serra, fica-se com  a sensação de que  o labiríntico conventinho nasceu dela, está ali desde sempre. 

Dizem os geólogos que a formação da Serra da Arrábida data de há cerca de 7 milhões de anos, com rochas que remontam ao Jurássico.  Nasceu da colisão das placas africana e euro-asiática, a mesma que que deu origem à formação do mar Mediterrâneo, num processo lento que durou centenas de milhões de anos, numa escala inumana.

Sinto-me aqui  com o arrábido e poeta da solidão e do despojamento Frei Agostinho da Cruz, que aqui viveu década e meia antes de morrer. De facto, aqui um  homem sente-se despojado de tudo o que não precisa de levar para a eternidade  ou para o regresso à poeira cósmica  donde nasceu. La mort c' est le vide.

Tenho pena de não ter revisitado o Convento Velho, mais austero, com pequenas ermidas escavadas ou encostadas à rocha. Fui ontem de canadianas (!), numa visita de grupo (máximo 40 pessoas) guiada  ao Convento Novo, com a pequena igreja, o claustro e as dependências principais (incluindo as celas e o refeitório). 

As celas dos frades menores franciscanos,  que aqui  viveram , eram minúsculas: pouco mais do que o  espaço para uma enxerga e um banco. Procurava-se o isolamento absoluto, cultivava-se a pobreza absoluta: estava tudo nos regulamentos, havia dias da semana e do mês em que a alimentação era apenas pão e água. Noutros dias, alguns produtos da horta.  Frei Bernardo da Cruz, nascido nas margens do rio Lima, descia a  serra e às vezes lá trazia um peixinho, pescado no Portinho da Arrábida (muito provavel mas humanente violando as regras do jogo: apesar de "santos",  aqueles frades capuchos tinham uma costela de Adão, a do pecado, da imperfeição divina).  Devia ser a sua única proteína animal do poeta.

É uma  das minhas geografias emocionais que merece que eu fale dela num segundo poste, com mais tempo e vagar. 

Algumas fotos que publico acima dão de imediato a escala do conjunto e reforçam a sensação de labirinto. A mulher de vestido azul (a guia do nosso grupo na visita ao Convento, Andreia Gomes) parece uma aparição discreta mas fantasmagórica naquele silêncio branco. quase perdida entre os muros. Sem ela, a imagem seria sobretudo de arquitetura pura e dura; com ela, ganha vida, narrativa, emoção. Como é que uma figura (para mais de uma mulher, um elemento do "gineceu", a quem durante séculos seria interdita a entrada neste estéril e casto  "androceu") pode humanizar esta arquitetura ascética?!

 De facto, não foi apenas o regresso a um lugar, foi sobretudo o regresso a um lugar da minha adolescência.  E revisitei o Portinho da Arrábida. Melancólico. Ao entardecer. Com os meus amigos Joaquim Pinto de Carvalho e Maria do Céu Pintéus, que me deram boleia.  
___________

Nota do editor LG:

quarta-feira, 24 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28130: As nossas geografias emocionais (67): o monumental depósito de água de Bolama (conhecido localmente como "castelo")





Foto nº 1, 1A e 1B > Guiné . Bissau > Bolama > Junho de 2021 > Depósito de água (também conhecido como "castelo"): este é o histórico depósito (em inglês, "water tower") erigido na periferia da antiga capital colonial de Bolama, e recentemente reabilitado (em 2024) para responder à tradicional falta de água na ilha (que tem, de resto, fracos lençóis freáticos). A sua origem remonta aos anos 30/40. Em 2021 estavada degradado, como toda a antiga capital da Guiné. Havia sinais de grafitos, reboco caído, corrosão das estruturas metálicas superiores, infiltrações antigas,  ausência de manutenção regular, etc, tudo sinais de que não era usada há muito. Mas o edifício possui grande valor patrimonial  e merece restauro. Há uma estrutura parecida em Canchungo (antiga Teixeira Pinto), cuha data de construção é de 1946.

Foto (e legenda): © Patrício Ribeiro (2021). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Foto nçº2 : Guiné-Bissau > Zona Leste > Gabu > Depósito de água, cuja origem remonta aos anos 80/90. Por isso, não faz parte da memória de nenhum dos antigos combatentes protugueses que passaram por Nova Lamego (hoje, Gabu) durante os anos da giuerra (1961/74).

Foto (e legenda): © Patrício Ribeiro (2021). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1. Entre as duas fotos distam 40 anos. O nosso leitor poderá ter curiosidade em saber  um pouco mais a sua origem, história, arquitetura, estado de conservação, etc.

Comecemos por dizer que, no caso do "castelo" de Bolama (como era conhecido localmente) a sua arquitectura não pode ser britânica, vitoriana, como já vimos por aí escrito (na IA do Google, citando o sítio britânico Medium: "Water tower, built during the British occupation. Photo credit: Brad Yonaka").

Os camaradas que estiveram no CIM de Bolama devem-se lembrar do "castelo", que fica(va) junto ao antigo hospital militar e civil da ilha (e antiga capital de Bissau, entre 1879 e 1941). No entanto, a primeira foto que publicámos no nosso blogue foi da autoria do Patrício Ribeiro, em 2021 (*). (Sobre a localização do antigo hospital e do "castelo",  vd. o roteiro que o nosso saudoso António Estácio elaborou e publicou em livro, bem como no nosso blogue).

Numa primeira análise visual  da foto nº 1 não parece haver qualquer relação com a arquitetura britânica ou vitoriana. E duas ou três ferramentas de IA que consultámos confirmam a nossa opinião. Aqui vão alguns dos factos históricos e arquitetónicos que desmontam esse mito.

Recorde-se que a disputa territorial com os ingleses (a famosa "Questão de Bolama") foi resolvida em 1870 pelo presidente americano Ulysses S. Grant, que deu a razão a Portugal (e daí ter-se constrruído uma estátua  em bronze em sua homenagem, infelizmente vandalizada e roubada).

A presença britânica na ilha de Bolama foi esporádica e precária, caracterizada por duas fases de curta duração que culminaram na disputa diplomática que opôs o Reino Unido a Portugal, e resolvida a favor de Portugal. 

Em maio de 1792 houve uma primeira tentativa de ocupação, oficiais da Armada Britânica (tenentes Philip Beaver e Henry Hood) desembarcaram com cerca de 270 colonos para estabelecer uma "colónia-modelo" após a compra da ilha a um régulo local. O projeto gurou-se ao fim de um ano, devido a a uma série de factores adversos ( clima, doenças,  hostilidade do povo nativo).

 A segunda tentativa foi mais série: a partir de 1834, no contexto da repressão ao tráfico de escravos, o Reino Unido voltou a reclamar a ilha. Os britânicos chegaram a desembarcar, destruir fortificações e marcos portugueses, e a declarar o arquipélago sob a jurisdição da coroa britànica).

De qualquer modo, nessa época (meados do séc. XIX), os depósitos de água de engenharia britânica eram construídos em alvenaria de tijolo maciço, pedra ou estruturas de ferro fundido.

O depósito na imagem é inteiramente construído em betão armado  uma tecnologia construtiva que só começou a ser amplamente utilizada em obras públicas na Guiné Portuguesa bem avançado o século XX.

E quanto ao estilo arquitectónico, o  desenho da torre filia-se claramente no Modernismo/Art Déco tardio e na arquitetura de cariz utilitário do Estado Novo.  
Destacam-se as linhas geométricas simplificadas, as frestas verticais estreitas e alongadas (rasgadas para iluminação e ventilação da escadaria interna) e as varandas circundantes com guarda-corpos maciços ou com pilaretes geométricos de betão.

Aqui há divergências na análise visual da foto, pela IA do Gemini / Google, e pela IA e do ChatGPT Open AI, e na caractrização da estrutura. 

O ChatGPT  diz tratar-se de  estrutura em alvenaria rebocada, de grande massa volumétrica, com composição simétrica e monumental, janelas verticais em arco, de inspiração neoclássica simplificada, varandas com balaustradas decorativas, reservatório superior oculto por uma espécie de torre arquitetónica.

 Inclinamo-nos também mais para a hipótese de a estrutura ter construída em alvenaria rebocada, analisando as fotos acima, do Patrício Ribeiro e outras, disponíveis na Net (Vd. foto nº 3).

Não sabemos a data exata da inauguração do "castelo" (teríamos que ver a  documentação específica do Ministério das Colónias ou das Obras Públicas da época), sabemos, sim, que as s infraestruturas de saneamento e modernização urbana de Bolama foram projetadas e erguidas maioritariamente entre as décadas de 1920 e 1940. 

Trata-se, portanto, de um exemplar genuíno da engenharia e arquitetura colonial portuguesa do segundo quartel do século XX, construído no período que antecedeu ou coincidiu com a transferência definitiva da capital para Bissau (1941). O depósito de água de Teixeira Pinto (hoje Canchungo) segue a mesma tipologia, e data de 1946.

O depósito  tinha capacidade para mais de 70 mil litros. Mas há meios século que estava inativo. Foi reabilitado em 2024, com fundos da União Euriopeia, e por inciativa da ONG espanhola AIDA (vd. foto nº 5).





Fotos nº 3 e 4 > Guiné-Bissau > Bolama > 2018 > "AntigoHospital Militar e Civil"... Fotos  de Helena Maria Pestana (2018). Imagens do domínio público,. Cortesia de Wikimedia Commons.



Foto nº 5 > Guiné-Bissau > Bolama > 2024 > O depósito de água, reabilitado. Fotro da página da ONG espanh0ola, com sede em Madrid, AIDA.- Ayuda, Intercambio y Desarrollo


Da página da AIDA, transcrevemos o seguinte (tradução livre para português):

(...) "Em 16 de setembro, a ONG espanhola AIDA, com o apoio das ONG ACRA e Pro-Bolama e financiamento da União Europeia, pôs em funcionamento a Expansão da Rede de Abastecimento de Água na cidade de Bolama, Guiné-Bissau.

Iniciado em 2021, este projeto representa uma melhoria significativa para a região, incluindo a perfuração do poço mais profundo da ilha, com 195 metros. A iniciativa envolveu a reabilitação de um reservatório de água com capacidade superior a 70 mil litros; construída originalmente na época colonial, a instalação estava sem uso há mais de 50 anos.

O projeto também inclui a instalação de dois sistemas de bombeamento movidos a energia solar, a construção de novas fontes públicas e a ligação dessa infraestrutura à rede de água existente, implantada originalmente pela AIDA em 2008.

Graças a essa expansão, que agora conta com 19 fontes públicas e abastece os dois principais mercados, o hospital e várias escolas, é possível garantir o fornecimento de água potável a uma população que não tinha acesso a ela há mais de 25 anos.

Embora Bolama tenha sido a capital da Guiné-Bissau até 1941, os habitantes não tinham anteriormente de acesso contínuo à água potável. Este projeto marca um grande avanço no desenvolvimento da região, melhorando a qualidade de vida de milhares de pessoas". (...)


2. Com a ajuda do ChatGPT, pode acrescentar-se mais o seguinte sobre as característcias arquitetónicas desta estrutura:


(...) "O objetivo não era apenas armazenar água. Era também afirmar a presença do Estado. Na época colonial, muitos edifícios técnicos eram desenhados para transmitir autoridade e permanência: quartéis, hospitais, administrações, correios, tribunais e até depósitos de água!"(...)

Há uma influência a que se poderia chamar "colonial português tardio", misturando funcionalidade,  neoclassicismo simplificado e alguma influência art déco muito discreta.
 
Bolama, depois de resolvida a questão da soberania, foi concebida e planeada como uma cidade-modelo para funcionar como capital política e administrativa (veremos isso melhor em próximo poste). A rede de abastecimento de água fazia parte do conjunto de infraestruturas urbanas que procuravam demonstrar alguma modernidade: hospital (que já existia em 1908),  câmara municipal (1919),  ponte-cais,  central elétrica, etc,

"O facto de o reservatório estar escondido dentro da torre revela uma preocupação estética pouco comum hoje" (veja-se a foto nº 2, que ilustra outra tipologia de "!castelos de água").
 
Sobre de depósito de água do Gabu, que data já do pós-independência,  falaremos mais detalhamente num próximo poste desta série. (**)

(Pesquisa: LG + Wikipedia + Net + IA (Gemini / Google | ChatGPT / Opena AI)

(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos, itálicos, links, título: LG)