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sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28357: Notas de leitura (1962): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (6) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 27 de Julho de 2026:

Queridos amigos,
Poder-se-á dizer que este trabalho de investigação de Howard W. French está implicado na defesa de uma causa: retirar o papel do negro africano do nével secundário em que a historiografia o pôs, dando ênfase ao papel que os escravos tiveram nos seis séculos de desenvolvimento mundial, isto a contrariar a historiografia que atribui a criação do mundo moderno ao desempenho europeu, às explorações marítimas e aos avanços científicos e tecnológicos ou mesmo a expansão dos ideiais judaico-cristãos. Sendo verdade que a Europa teve um papel central na criação do mundo moderno, o que Howard French vem contrapor é que se impõe trazer África dos africanos para contar verdadeiramente a história detalhada de seis séculos de desenvolvimento mundial, não deixa de trazer um elemento polémico, tal desenvolvimento construiu-se à custa da desumanização e da exploração da África e dos negros, e este continente e este grupo humano precisam de retomar no quadro histórico o papel primacial que lhes cabe.

Um abraço do
Mário



África, os africanos e a criação do mundo moderno, de meados do século XV à Segunda Guerra Mundial - 6

Mário Beja Santos

Despedimo-nos hoje deste apanhado de notas ao estudo histórico Origem: África, por Howard W. French, Bertrand Editora 2022. Em jeito de recapitulação, recorda-se que o autor inicia a sua investigação pelas primeiras explorações do litoral africano, século XV, segue-se a criação da fortaleza de São Jorge da Mina, ouro e escravos começam a inundar a Europa, nos séculos subsequentes o comércio negreiro tornar-se-á crucial para a agricultura de plantação, primeiro o açúcar, seguir-se-á o tabaco e por último o algodão, este elemento económico determinante na industrialização.

Haverá guerras neste Oceano Atlântico, nos dois continentes, África e América, como o autor observa:
“A transição da era do comércio transatlântico de escravos para o advento das colónias europeias em África foi um processo gradual e prolongado, que se estendeu desde o final do século XVIII até ao final do século XIX. Depois dos Estados Unidos terem conquistado a sua independência da Grã-Bretanha, este país começa, pela primeira vez, a pensar seriamente acerca do império em África. O continente tinha sido vital enquanto fonte de escravos para as suas colónias geradoras de prosperidade nas Caraíbas. No entanto, no final da guerra da independência americana, a França tinha-se tornado, graças à sua colónia de Saint-Domingue, o maior beneficiário europeu do complexo de plantação de escravos da região.”

Também o autor questiona as frágeis fundações económicas e institucionais africanas, partiram milhões de escravos de África, o que não impediu que este continente tenha passado no século XX de cerca de 130 milhões para 1000 milhões de pessoas. Durante séculos, os escravos foram submissos, mas no início do século XIX começaram a dar sinais declarados de rebelião. Em dezembro de 1810, um pequeno grupo de escravos, que trabalhava nas terras agrícolas no vale do Baixo Mississípi, conspirou para levar a cabo a maior revolta de escravos da história dos Estados Unidos. Espalharam-se as contestações, a plantação e colheita do algodão era trabalho brutal, atingia as raias do desumano.

A repressão dos colonos foi igualmente brutal, teve um grande impacto na história política do Luisiana e o autor observa:
“Comunidades de plantadores que em tempos tinham olhado para a ideia de integração dos Estados Unidos com desconfiança e hostilidade mostravam-se agora aberto à ideia do Estado. Isto foi fruto de uma crença partilhada de que as suas milícias jamais voltariam a ser adequadas à tarefa de impor a desigualdade radical.”

Temos depois um extenso curso de eventos sobre a Revolução Haitiana, todo o poder branco que a procurou sufocar, de britânicos a franceses, falhou rotundamente. E a análise que o autor faz a estes acontecimentos leva-nos até Nova Orleãs, à cultura dos blues, ao aparecimento de uma dimensão musical que irá ganhar expressão universal. A historiografia norte americana considera que a criação dos Estados Unidos e a sua expansão para oeste se deveu à componente tecnológica, ao engenho dos homens brancos que partiram da Costa Leste e fizeram nascer o vasto deserto americano que se situa a oeste e a sudoeste das montanhas Apalaches. A componente tecnológica teria sido a invenção de um dispositivo, o descaroçador de algodão, introduzido em 1793. Não querendo contestar o papel deste descaroçador, o autor recorda a componente negra e o aumento maciço da produtividade dos escravos nas plantações depois da Luisiana ter sido vendida pelos franceses aos Estados Unidos.

E o autor enfatiza o papel colonizador da expansão americana com sucessivos massacres de nativos americanos para terras dos territórios ocidentais para além do Mississípi. Não esquecer que muitos dos fundadores americanos eram esclavagistas. Tendo procurado comprovar que foram estes africanos que catapultaram a ascensão económica da Europa e conduziram os EUA ao quadro de uma superpotência, o autor deixa aqui derradeiras reflexões:
“O principal pensamento que gostaria de deixar aos leitores é o da participação crucial do povo negro na sua própria libertação e na preservação da jovem união americana. Este foi o segundo ato extraordinário da diáspora africana no sentido de tornar o Novo Mundo seguro para a democracia, sessenta e um anos após a Revolução Haitiana. Em cada secção deste texto, através de histórias sobre o ouro e escravatura em África e de açúcar e algodão, cada uma mais importante do ponto de vista económico e mais transformadora do que a anterior, esforcei-me não só por colocar os africanos e as pessoas de origem africana no Novo Mundo no centro da história da Modernidade e do seu advento, mas também para retratá-los como impulsionadores fundamentais em todas as fases desta história.

A história da escravatura, das plantações e do trabalho negro que gerou o produto mais importante daquela época, o algodão, é, à luz de qualquer padrão razoável, um elemento central nesta imensa mudança humana. Mas isso não é tudo: a atividade económica relacionada com o algodão também impulsionou a banca e os seguros e promoveu o comércio globalizado em escalas nunca vistas. Reformulou profundamente os mapas políticos dos continentes. Posicionou os Estados Unidos como a maior e mais dinâmica potência económica do mundo já no final do século XIX. E ajudou a propulsionar o novo colosso americano a atingir rapidamente o dobro da dimensão da economia britânica em 1914.”


As grandes revoltas do Sul propulsionaram a migração negra para outras partes do país, Chicago foi uma delas. A ideologia da supremacia branca passou a reclamar a deportação do negro para África, foi uma tentativa fruste de querer apagar o movimento historicamente transformador dos povos que saíram de África, atravessaram o Atlântico e chegaram depois ao que se tornou os Estados Unidos continentais. Vinham acorrentados e aprenderam a lutar pelos seus direitos, espalharam-se depois do êxodo dando ao país líderes municipais negros, grandes escritores como Toni Morrison e James Baldwin.

O autor despede-se a falar de si e a razão que o levou a esta investigação:
“A história dos meus antepassados colocou-me no caminho certo para estudar a história mais alargada do mundo Atlântico contida no interior deste livro. O fim da invisibilidade de África na construção daquilo que todos nós conhecemos e experienciamos como o moderno está no cerne dessa luta.”

Impossível não deixar de ter em conta este livro que reconta a história da expansão marítima colocando o continente africano e os seus povos no centro das atenções, o mesmo é dizer que oferece um novo enquadramento da história mundial.


Professor Howard W. French
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Notas do editor

Vd. poste anterior de 11 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28341: Notas de leitura (1959): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (5) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 17 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28353: Notas de leitura (1961): "Geração Afro: Os Últimos Guerrilheiros do Império (por Recaredo / Angelino Santos Silva, ed. autor, 2026, 455 pp.): "como recordar uma guerra sem apagar os homens que nela combateram nem simplificar as razões que os levaram a combater?", eis a pergunta da IA (ChatGPT)

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28341: Notas de leitura (1959): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (5) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 20 de Julho de 2026:

Queridos amigos,
O comércio negreiro despertou uma grande apetência a um conjunto de países como a Espanha, a França, a Inglaterra e a Holanda. Ver-se-á neste texto como tais países procuraram implantar-se pelas Américas, a importância que irão adquirir Barbados, o sonho holandês de criar a Companhia das Índias Ocidentais para construir um sistema comercial monopolista no hemisfério ocidental, um tanto à imagem do que já tinha conseguido alcançar na Ásia; temos a América britânica que formou a Companhia de Aventureiros Reais em África, o ponto de partida foi encontrar uma forma de se impor no comércio do ouro na África Ocidental, seguiu-se o objetivo de fornecer escravos a Barbados. O autor dá-nos um quadro das lutas entre estas potências e enfatiza o enfraquecimento das posições portuguesas nos tempos da União Ibérica; e seguidamente vamos assistir a novas disputas, já não é só o comércio açucareiro o grande objetivo, surgiram o algodão e os metais preciosos.

Um abraço do
Mário



África, os africanos e a criação do mundo moderno, de meados do século XV à Segunda Guerra Mundial - 5

Mário Beja Santos

Se tentássemos contabilizar a proveniência dos autores que escreveram relatos, fizeram investigações, orientaram ou orientam estudos académicos sobre o continente africano, o número mais expressivo iria recair certamente nos europeus, seguido dos norte-americanos. No seu livro Origem: África, o jornalista, escritor e académico Howard W. French, Bertrand Editora, 2022, releva que os relatos tradicionais têm o seu foco na era dos Descobrimentos europeus do século XV, não escondendo os reais interesses de quem e para quê impulsionava estas viagens e a instalação de feitorias e fortalezas: sonhava-se descobrir mundo, encontrar o lendário rei Preste João, ter acesso ao ouro, levar a crença cristã e sempre que necessário, combater a crença muçulmana, encontrara a ligação entre os rios Níger e o Nilo – e parece que mais nada aconteceu. Já se falou da importância da fortaleza de S. Jorge da Mina, era um posto avançado de onde chegavam muitos quilos de ouro. O tesouro do reino era conhecido nos primeiros tempos como Casa da Guiné, título que foi substituído por Casa da Mina. Como escreve o autor, o comércio com Elmina levou a que as receitas reais portuguesas quase duplicassem nos últimos 20 anos do século XV. Em 1506, Elmina ainda constituía ¼ das receitas da Coroa, traduziram-se num dos sinais da modernidade e de um outro relacionamento entre Portugal e a demais Europa e a multiplicidade de contactos com povos africanos. A importância de Elmina irá desviar-se a favor do tráfico negreiro.

Como escreve Howard French, a escravatura era uma prática antiga embora não tivesse quase nenhuma semelhança com o modelo de escravo-mercadoria que estava prestes a surgir nas plantações de açúcar. Aproveitando os bons contactos, os portugueses encontraram uma ótima recensão do Benim. Um escravo vendido aos portugueses em 1500 teria rendido entre 12 e 15 manilhas; a arte beninense irá projetar a imagem de um português com os seus longos cabelos e barbas e narizes exageradamente pontiagudos. Em Elmina clamava-se por mais escravos, a coroa portuguesa enviou mais navios; mas por volta de 1514, o Benim começou a restringir o comércio de escravos, teve que se fechar aa feitoria e procurar novos circuitos. Escreve o autor:
“Usando uma plataforma de lançamento como Cabo Verde, Portugal percebeu que se poderia operar um comércio lucrativo de escravos nas zonas costeiras próximas do continente. Dentro deste novo circuito, São Tomé ganhou importância na produção de açúcar. Começou-se a olhar para o Congo com outros olhos, os líderes do Congo queriam cooperar politicamente com os portugueses – estava aberta uma nova rota que podia passar por São Tomé, Elmina e Atlântico sul".


Ao nível da produção de açúcar, São Tomé ganhou a liderança da produção, substituindo a ilha da Madeira, tornou-se uma colónia de escravos, depois foi ultrapassada pelo Brasil açucareiro. Nas Caraíbas foi crescendo a agricultura esclavagista, caso de Barbados. A América do Norte recebeu os seus primeiros negros na Carolina do Sul. E o autor dá-nos uma interpretação para o nascimento do crioulo. Esta língua constituiu-se como um compósito do que era falado pelos europeus e africanos, primeiramente nas feitorias onde se negociavam escravos. Formou-se o crioulo em Cabo Verde, tal como no Senegal ou em São Tomé. O crioulo vai também ser a língua veicular inicialmente no Novo Mundo entre os escravos. “Mais do que qualquer outra coisa, foram estes contactos e a consequente fusão, ou mistura, cultural, racial, social, económica, através de deslocações, uniões e trauma, que fizeram das Américas um verdadeiro Novo Mundo.” Obviamente que todos estes acentos se irão diluindo com a hegemonia das línguas predominantes, o inglês e o espanhol.

Todo o novo circuito comercial esclavagista vai ser um poderoso combate entre potências em todo o Atlântico Sul, chegando às Caraíbas, vão entrar em cena ingleses, franceses, holandeses e espanhóis, todos querem plantar cana-de-açúcar, mais tarde algodão, cada Governo estabelece a tua estratégia para se apoderar no território. O autor dá-nos o quadro das lutas entre os portugueses e os holandeses no Brasil e em África; os holandeses sonham em ter um predomínio tanto nas Índias Ocidentais e Orientais. A seguir à Restauração, a Coroa portuguesa deu importância primordial à recuperação de São Tomé e Luanda, era fundamental o escravo angolano para que o Brasil fosse uma potência açucareira.


Há que ter em atenção o que acontecera em termos demográficos no Brasil. Novamente a palavra ao autor: “A chegada dos caçadores de fortunas, soldados, comerciantes e colonos da Península ibérica desencadeou um período de morte maciça entre os povos nativos do Brasil. Para os portugueses, a população indígena tinha inicialmente parecido quase que inesgotável. Contudo, as doenças transmitidas pelos recém-chegados europeus causaram uma rotação espantosamente elevada nas plantações de açúcar devido ao aumento das taxas de mortalidade entre os escravos indígenas e os trabalhadores assalariados.” Foram epidemias devastadoras, uma longa lista de doenças que incluíam varíola, sarampo, tosse convulsa, varicela, peste bubónica, tifo, febre tifoide, difteria, cólera, escarlatina e gripe; até a constipação, recém-chegada à América do Sul abordo dos países europeus, era mortal.

Em suma, registou-se um declínio dramático da população nativa, houve que a substituir por escravos. Esta decisão política foi crucial: Portugal calculou que um Brasil laborado por escravos valia substancialmente mais para o reino do que as suas explorações no Oriente. O período filipino em Portugal (1580-1640), como já foi sublinhado, foi tremendamente ruinoso para o Império Português: Portugal perdeu Elmina e Luanda; no Oriente perdeu Malaca, Colombo, portos essenciais na Índia no comércio das especiarias. Seguir-se-ão com a Restauração tremendas guerras no Brasil e Angola, no Oriente não foi nada parecido, perderam-se irremediavelmente posições outrora estratégicas.

Na continuação, o autor dá-nos o quadro do comércio negreiro em territórios conquistados pela Espanha. “No século XVI aproximadamente 277.000 africanos foram levados acorrentados através do Atlântico, sendo que quase 90 porcento deles foram para os territórios americanos recentemente conquistados por Espanha, liderados por Cartagena, Nova Espanha e Vera Cruz. Ao longo do seu extenso percurso, este tráfico humano traria cerca de 2,07 milhões de pessoas para as Américas Espanholas, quer por embarque direto através do Atlântico, quer através de um comércio interamericano intenso, traficado a partir de lugares como a Curaçau holandesa ou a Jamaica inglesa. Isto fez das Américas Espanholas a segunda zona mais importante de migração africana permanente e forçada, depois do Brasil.”

Vamos dar continuidade ao trabalho de Howard W. French falando da corrida aos escravos.
Professor Howard W. French

(continua)
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Notas do editor

Vd. post anterior de 4 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28320: Notas de leitura (1957): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (4) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 7 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28329: Notas de leitura (1958): “Pai, tiveste medo? A guerra contada é muito diferente da que foi vivida”, por Catarina Gomes; Matéria Prima Edições, 2014 (3) (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28320: Notas de leitura (1957): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (4) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 9 de Julho de 2026:

Queridos amigos,
Não é por especial deferência que Howard French destaca o papel dos portugueses na descoberta de África e no comércio negreiro, como temos vindo a apreciar. A historiografia do Estado Novo, quanto a esta matéria, dava ressonância a uma alegada missão civilizadora, exportação da fé e cristianização de gente que ou trilhava os ideais de Mafoma ou adorava ídolos, e, por simpatia, faziam-se trocas que tornavam a economia portuguesa um tanto respeitável na cena europeia. O primeiro verdadeiro contraponto foi dado pelos importantíssimos trabalhos de Vitorino Magalhães Godinho, ele pôs o foco no que os Descobrimentos portugueses e de outros tinham introduzido na economia mundial. Ora este autor dá mesmo conta de que por razões estratégicas, pelo pesado constrangimento imposto pela União Ibérica e pelo esforço exigido pelas guerras da Restauração e recuperação colonial, o comércio de escravos pesou na pouca defesa que se fez do que restava do império português no oriente. Brasil e Angola eram as jóias da Coroa que urgia fazer luzir, como aconteceu com o ouro, os diamantes, o comércio negreiro e a agricultura de plantação.

Um abraço do
Mário



África, os africanos e a criação do mundo moderno, de meados do século XV à Segunda Guerra Mundial - 4

Mário Beja Santos

Se tentássemos contabilizar a proveniência dos autores que escreveram relatos, fizeram investigações, orientaram ou orientam estudos académicos sobre o continente africano, o número mais expressivo iria recair certamente nos europeus, seguido dos norte-americanos. No seu livro Origem: África, o jornalista, escritor e académico Howard W. French, Bertrand Editora, 2022, releva que os relatos tradicionais têm o seu foco na era dos Descobrimentos europeus do século XV, não escondendo os reais interesses de quem e para quê impulsionava estas viagens e a instalação de feitorias e fortalezas: sonhava-se descobrir mundo, encontrar o lendário rei Preste João, ter acesso ao ouro, levar a crença cristã e sempre que necessário, combater a crença muçulmana, encontrara a ligação entre os rios Níger e o Nilo – e parece que mais nada aconteceu. Prosseguindo a sua narrativa, dissecará a evolução do comércio negreiro, destacando o papel da fortaleza de São Jorge da Mina, a criação de uma agricultura de plantação onde o escravo teve desempenho fundamental, a riqueza daí adveniente foi contributo decisivo para seis séculos de desenvolvimento mundial.

Estamos agora na corrida a África ou na partilha de África, entraram em cena velhos atores como Portugal, Espanha, França, Inglaterra, Holanda e novos como a Bélgica e a Alemanha. Os velhos andaram em guerras entre si, caso da Grã-Bretanha e da França pelo vale do rio Ohio fazia parte da competição deles nas Caraíbas e no Canadá, tentavam o controlo da América do Norte, a França queria consolidar as Índias Ocidentais francesas, a mesma França que tinha centros de escravatura no Senegal; no século XVIII, os britânicos disputam a primazia francesa, passaram a ser o primeiro comprador de escravos e em 1761 o império britânico seguia atrás da França nas exportações de açúcar, algodão, rum e café.

A industrialização da Grã-Bretanha e a sua ascensão a potência mundial ficaram indissociavelmente ligadas às colónias de plantação de açúcar, ao trabalho escravo. “A ascensão de Liverpool, a prosperidade do Império Britânico, o triunfo da Marinha inglesa, a riqueza das famílias bancárias britânicas e o sucesso dos engenhos de algodão ingleses, tudo dependia do comércio de escravos e das mercadorias produzidas pelos escravos.” É neste contexto que se pode analisar o conflito entre países por causa das pessoas transportadas acorrentadas através do Atlântico como ouro negro, estes escravos farão parte da competição global e a Conferência de Berlim será também o sinal de que os lugares tropicais ganhavam realce como agricultura de plantação e oportunidades comerciais, aqui, os povos cativos, dentro desta lógica, podiam ser utilizados com maior produtividade. Portugal foi um perdedor, sobretudo por estar ligado ao império espanhol durante a União Ibérica. A Holanda derrotou Portugal em 1637, tomou o controlo da Costa do Ouro, já tinham atingido São Jorge da Mina, irão tomar São Paulo de Luanda, lançarão um ataque contra o Brasil português, também tomaram São Tomé, o império português parecia totalmente perdido, irá parcialmente ressuscitar com a Restauração.

O autor irá focar-se na revolução introduzida pelos engenhos de açúcar no Brasil. Tornou-se imperioso trazer escravos, os índios e toda a classe de indígenas começaram a morrer em massa; sabemos hoje que os culpados foram os agentes patogénicos, uma longa lista que incluía varíola, sarampo, tosse convulsa, varicela, peste bubónica, tifo, febre tifoide, difteria, corola, escarlatina e gripe, tudo trazido do Velho Mundo. Sem os africanos o Novo Mundo não teria sido viabilizado nem de perto nem de longe na extensão em que o foi. Sem os africanos jamais os europeus teriam conseguido ocupar e colonizar os vastos territórios do Novo Mundo com a velocidade com que acabaram por conseguir fazer. O enfoque do autor sobre a indústria açucareira no Brasil irá ser um polo de atração para todas as outras potências competidoras. Entretanto Portugal abriu uma nova frente no comércio negreiro, o Congo, estabelecer-se-ão relações cordiais entre as respetivas coroas. Observa o autor que Portugal calculou que o Brasil laborado por escravos valia substancialmente mais para o reino do que as suas explorações no Oriente. Com a Restauração, Portugal atirou-se à reconquista das duas joias gémeas do império: Brasil e Angola.

Howard French disseca ao pormenor a instalação de plantações francesas e britânicas no Novo Mundo, dá o exemplo de Barbados e também da Jamaica; descobriu-se que as exportações para África não podiam incluir lanifícios pesados, a indústria do algodão ganhou velocidade; deslocou-se o açúcar para as Américas, dá-se a explosão da prata espanhola. Atenda-se aa uma nova observação do autor: “Os mercados africanos desempenhariam um papel vital no crescimento da produção inglesa em geral. Isto incluía de tudo, desde armas a navios, e desde cordas a velas. Porém, à medida que o seu recém-criado império nas Caraíbas crescia alimentado por mão de obra africana, os ingleses descobriram novos mercados especialmente importantes para a próxima grande indústria do futuro, os têxteis, sob a forma de vestuário para escravos.”

Deram-se grandes mudanças na Europa com a chegada do açúcar do café e do chá, produtos que irão ter um valor civilizacional e até contributivo para a história das ideias, produtos que se servirão em novos estabelecimentos que oferecem sociabilidade, os cafés, produtos presentes nas reuniões tanto da corte e do salão onde se discute a política, lá longe, onde se produzem e exportam esses produtos está a mão de obra africana.

Mas voltemos a um sonho antigo, o ouro, que nunca deixou de ser um grande negócio em paragens africanas. Só que teve de estar eclipsado por outra mercadoria, o comércio transatlântico de escravos. E o autor recorda o papel desempenhado por Portugal:
“Quando o comércio de escravos começou a aumentar na primeira metade do século XVI, o seu volume inicial era maioritariamente proveniente de uma área a que os europeus chamavam Cabo Verde, uma área continental que se estende desde os matagais do Senegal e Gâmbia até À Guiné-Bissau e as florestas tropicais e pântanos da Serra Leoa. Em grande medida, esta escolha refletia conveniência por estar mais próxima das Europas e das Américas e por isso começou a integrar-se no emergente mundo atlântico. (…) À medida que outras nações europeias se lançavam no comércio de escravos africanos, o endurecimento da concorrência levou os portugueses cada vez mais longe na costa africana.”

Vamos agora ver os itinerários destes escravos até chegar ao Novo Mundo.
Professor Howard W. French

(continua)
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Notas do editor

Vd. post de 28 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28303: Notas de leitura (1955): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (3) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 31 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28309: Notas de leitura (1956): “Pai, tiveste medo? A guerra contada é muito diferente da que foi vivida”, por Catarina Gomes; Matéria Prima Edições, 2014 (2) (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28303: Notas de leitura (1955): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (3) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 9 de Julho de 2026:

Queridos amigos,
A laboriosa pesquisa feita por este investigador norte-americano introduz um olhar diferente sobre o papel do continente africano na história detalhada de seis séculos de desenvolvimento mundial. O que Howard French procura consolidar como historicamente demonstrado, mas praticamente ausente ou até mesmo minimizado, é o papel fulcral desempenhado pela mão de obra escravizada nas plantações de açúcar de São Tomé, do Brasil, de toda a agricultura de plantação das Caraíbas e dos estados sulistas do que virá a ser os EUA, pois foi esta mão de obra escravizada que serviu de alavanca para a ascensão económica da Europa, para o seu desenvolvimento político, naturalmente uma trajetória que se inicia com os países ibéricos e que chegará à Revolução Haitiana e pelo adiante à evolução do conceito de Direitos Humanos e às modificações drásticas que tinham sido impostas pelos preconceitos raciais. É um convite para que os historiadores globais revejam as abastadas civilizações da África medieval e como o comércio negreiro configurou o papel do negro na História. Por isso vale a pena continuar a ler este livro com elementar cuidado.

Um abraço
do Mário



África, os africanos e a criação do mundo moderno, de meados do século XV à Segunda Guerra Mundial - 3

Mário Beja Santos

Se tentássemos contabilizar a proveniência dos autores que escreveram relatos, fizeram investigações, orientaram ou orientam estudos académicos sobre o continente africano, o número mais expressivo iria recair certamente nos europeus, seguido dos norte-americanos. No seu livro Origem: África, o jornalista, escritor e académico Howard W. French, Bertrand Editora, 2022, releva que os relatos tradicionais têm o seu foco na era dos Descobrimentos europeus do século XV, não escondendo os reais interesses de quem e para quê impulsionava estas viagens e a instalação de feitorias e fortalezas: sonhava-se descobrir mundo, encontrar o lendário rei Preste João, ter acesso ao ouro, levar a crença cristã e sempre que necessário, combater a crença muçulmana, encontrara a ligação entre os rios Níger e o Nilo – e parece que mais nada aconteceu.

É incontestável que foi este desencravamento do mundo que abriu as portas à modernidade. E Howard W. French sublinha que África foi a pedra-chave da máquina da modernidade:
“Sem os povos africanos traficados desde as suas costas, as Américas teriam contado pouco para a ascensão do Ocidente. O trabalho africano, materializado em escravos, tornou-se o fator providencial que tornou possível o desenvolvimento das Américas. Sem África, os projetos coloniais da Europa no Novo Mundo, tal como os conhecemos, são simplesmente inimagináveis. Através do desenvolvimento da agricultura de plantação – tabaco, café, cacau, anil, arroz e, principalmente, açúcar – os laços profundos e muitas vezes brutais entre a Europa e África conduziram ao desenvolvimento de uma economia capitalista verdadeiramente global.”

Chegou o momento de o autor abordar frontalmente a essência da escravatura. Primeiro, sempre houve escravatura, há testemunhos delas em todas as civilizações. A escravatura que vai partir de África, nomeadamente do século XVI em diante é nela que assentam as raízes do racismo moderno. Mas que escravatura havia em África, antes da chegada dos portugueses e de outros povos? O autor responde:
“A escravatura nesta parte de África (como noutras regiões subsarianas do continente) eram a prática antiga, embora não tivesse quase nenhuma semelhança com o modelo de escravo-mercadoria que estava prestes a surgir nas plantações de açúcar, de mãos dadas com o florescimento do imperialismo ocidental. Para os acãs (importante grupo étnico do Gana e da Costa do Marfim), os escravos eram tradicionalmente adquiridos no decurso de disputas múltiplas, bem como durante as campanhas expansionistas contra grupos externos. Os cativos nestes conflitos eram por vezes expostos a trabalhar na agricultura, na construção de estradas, e até mesmo como soldados, mas, tal como os otomanos, em geral era dada prioridade à sua assimilação na sociedade o mais rapidamente possível.
Os acãs, que controlavam as mais ricas fontes de ouro, tinham recentemente estabelecido laços comerciais lucrativos com os impérios do Sahel ocidental, como o Mali e Songhai, utilizando-os para escoamento dos seus metais preciosos. Vendiam-nos em troca de mercadorias provenientes do Norte de África e até da Europa. O valor na proposta de contacto e a despesa ou incómodo para casa lado, portugueses e acãs, assentava tanto num volume maior como mais regular. Mas até que os cobiçados panos da Índia se tornassem disponíveis, os bens portugueses não eram considerados suficientemente desejáveis para os acãs de modo a justificar o desvio em grande escala da sua própria mão de obra indígena para a produção de ouro.”


Havia manifestamente relutância em vender os seus semelhantes étnicos ou mesmo os prisioneiros de guerra, uma das principais medidas de riqueza e poder nos reinos africanos era o número de súbitos. Ora esta relutância deixou de se verificar com a proliferação do comércio europeu, eles traziam armas e outros bens que eram preciosos para os africanos, tudo conjugado contribuiu para o surgimento de um novo mercado de escravos. Ainda em termos mitigados, os navios portugueses que exploravam o extremo oriental do delta do rio Níger encontraram em 1486 cinco canais serpenteantes que passaram a ser conhecidos por Rios Escravos. Os portugueses chegaram ao Benim e imediatamente reconheceram o grande potencial comercial de um pimento que se tornou largamente apreciado nos mercados da Flandres. Mas nada se igualava aos escravos, e os portugueses ficaram satisfeitos por descobrir uma oferta de escravos com raízes nas guerras do Benim com os povos vizinhos. A cultura do Benim impressionou os portugueses. Os beninenses queriam negociar manilhas de cobre e bronze, a arte beninense ganhou imediatamente fama.

Howard French muda agora para São Tomé, formalmente decretada como uma colónia em 1485, irá ser muito importante na produção de açúcar, também daqui partiram escravos para o Benim, e havia escravos enviados do Congo via São Tomé para o Novo Mundo. Estamos, pois, a assistir à organização de circuitos do tráfico negreiro. O autor dissecará em profundidade a importância da plantação esclavagista de São Tomé e como o complexo de plantação deu um salto de São Tomé para as Américas. Teremos depois um histórico sobre Barbados. Outra condicionante histórica relevante que o autor destaca é o nascimento do crioulo, a formação de comunidades crioulas em lugares tão diferentes como Cartagena, Havana, Cidade do México e São Salvador, nestas comunidades era frequente encontrar os escravos a falar pidgins e línguas crioulas fortemente ligadas ao português.

Mudando de assunto, o autor vai observar a competição europeia por África, os grandes conflitos que vão envolver a cobiça e os interesses das grandes potências europeias.

Dirá, a título introdutório:
“A história moderna de África como uma massa terrestre geopoliticamente disputada, cheia de parcelas de território que foram cortadas por forasteiros ávidos, começou formalmente na Alemanha em 1884, num famoso evento conhecido como Conferência de Berlim. Na altura, os europeus mal controlavam 10 por cento do continente, na sua maioria nas extremidades norte e sul. Por volta de 1914, em consequência das decisões tomadas em Berlim, monarcas e outros governantes do Velho Continente dominavam mais de 90 por cento de África. As fronteiras que estes líderes europeus estabeleceram entre si continuam a ser as fronteiras em vigor atualmente na maior parte do continente.
À medida que assumiam o controlo do continente, os europeus quase não tinham em conta a história africana, o legado dos impérios indígenas ou os Estados africanos preexistentes. Ignoraram considerações envolvendo o mosaico de línguas que prevaleciam à medida que eles definiam e depois subdividiam regiões. Prestavam pouca atenção aos padrões de identidade local de longa data, ao comércio local ou mesmo às rivalidades e animosidades étnicas. Nem os próprios africanos foram consultados.”


Vamos seguidamente ver mais pormenores sobre esta corrida a África.


Professor Howard W. French

(continua)
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Notas do editor

Vd. post de 21 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28278: Notas de leitura (1951): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (2) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 24 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28288: Notas de leitura (1954): “Pai, tiveste medo? A guerra contada é muito diferente da que foi vivida”, por Catarina Gomes; Matéria Prima Edições, 2014 (1) (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28278: Notas de leitura (1951): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (2) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 6 de Julho de 2026:

Queridos amigos,
Tenho consciência de estar a deglutir uma continuidade de capítulos, pontuando questões que seguramente todos nós já ouvimos falar nos bancos da escola sobre a história da expansão marítima e como África e os seus povos se colocaram no centro das atenções. Há uma efetiva singularidades nas observações deste investigador que é a de querer ver o reverso do espelho, o que para além dos feitos históricos da exploração marítima, dos avanços científicos e tecnológicos com contributos até de muçulmanos e judeus, o que ele põe em relevo é o desempenho dos africanos na ascensão económica da Europa e como o desenvolvimento político e a concretização dos ideais do Iluminismo se construíram à custa do continente negro e de uma mão-de-obra escravizada que foi determinante para mudar o curso da História, como ia acontecer no século XIX com a Revolução Haitiana e a explosão dos direitos humanos.

Um abraço do
Mário



África, os africanos e a criação do mundo moderno, de meados do século XV à Segunda Guerra Mundial - 2

Mário Beja Santos

Se tentássemos contabilizar a proveniência dos autores que escreveram relatos, fizeram investigações, orientaram ou orientam estudos académicos sobre o continente africano, o número mais expressivo iria recair certamente nos europeus, seguido dos norte-americanos. No seu livro "Origem: África", o jornalista, escritor e académico Howard W. French, Bertrand Editora, 2022, releva que os relatos tradicionais têm o seu foco na era dos Descobrimentos europeus do século XV, não escondendo os reais interesses de quem e para quê impulsionava estas viagens e a instalação de feitorias e fortalezas: sonhava-se descobrir mundo, encontrar o lendário rei Preste João, ter acesso ao ouro, levar a crença cristã e sempre que necessário, combater a crença muçulmana, encontrara a ligação entre os rios Níger e o Nilo – e parece que mais nada aconteceu.

É incontestável que foi este desencravamento do mundo que abriu as portas à modernidade. E Howard W. French sublinha que África foi a pedra-chave da máquina da modernidade:
“Sem os povos africanos traficados desde as suas costas, as Américas teriam contado pouco para a ascensão do Ocidente. O trabalho africano, materializado em escravos, tornou-se o fator providencial que tornou possível o desenvolvimento das Américas. Sem África, os projetos coloniais da Europa no Novo Mundo, tal como os conhecemos, são simplesmente inimagináveis. Através do desenvolvimento da agricultura de plantação – tabaco, café, cacau, anil, arroz e, principalmente, açúcar – os laços profundos e muitas vezes brutais entre a Europa e África conduziram ao desenvolvimento de uma economia capitalista verdadeiramente global.”

No contexto das expedições henriquinas, em dado momento a Coroa passou a ter acesso regular a grandes quantidades de ouro, o que nos remete para a fortaleza da Mina.

Não estávamos sozinhos na busca do ambicionado ouro, também os Reis Católicos encorajavam a esta região chamada Elmina mediante expedições privadas. D. João II, em 1481, ordenou a construção de um forte ao longo da costa do Gana para proteger o crescente fornecimento de ouro a Portugal de rivais e piratas, construção que ficou a cargo de Diogo da Azambuja. A maior parte do comércio de ouro português tinha estado concentrada em redor de Shama, considerada um porto inadequado, daí a escolha ter recaído em Elmina. Correram bem as negociações com as chefaturas locais. Nascia uma experiência nova, a construção de uma guarnição permanente e fortificada nos trópicos africanos. Este acontecimento decorre em simultâneo com o tráfico de escravos no Atlântico. São Jorge da Mina tornou-se no primeiro de cerca de sessenta postos avançados construídos, ao longo da costa do Gana dos tempos modernos.

“São Jorge da Mina tornou-se o primeiro de cerca de sessenta postos avançados construídos ao longo da costa do Gana dos tempos modernos, nos três séculos que se seguiram, por um conjunto diversificado de nações europeias. A primeira vaga de construção de postos avançados tinha como objetivo a obtenção de ouro. Só muito mais tarde, a partir da década de 1640, é que esta região se tornou uma importante fonte de escravos, muito depois de outras regiões como a Alta Guiné, o Congo e Luanda. No século XXI, o Castelo de Elmina, como é hoje chamado o Forte de São Jorge da Mina, é tão sólido e bem construído como parece, visto à distância do cume da colina a que escalei para admirá-lo.
Hoje em dia, multidões de visitantes acorrem ao castelo para visitas guiadas aos andares do topo, que abrigavam o governador e os seus oficiais superiores, às masmorras, situadas mesmo ao lado do pátio, por baixo, e à famosa Porta sem Retorno, por onde os escravos saiam para os barcos em direção às Caraíbas, ao Brasil e, mais tarde, às colónias britânicas na América do Norte. O metal foi o motor da história que conduziu os portugueses até aqui. E assim se desencadearam os eventos que se seguiram, desde as descobertas espanholas do Novo Mundo até ao lançamento das economias de plantação que, quase literalmente, ‘aspiravam’ os africanos cativos para as longínquas costas do Atlântico.”


Portanto o ouro foi o motor. Como observa o autor, desde a conclusão do forte em Elmina até meados do século XVI, a caravela portuguesa vai e vem até à Costa do Ouro, com uma média de 46 a 57kg de metal precioso por mês. O tesouro do reino, anteriormente conhecido como Casa da Guiné, foi renomeado Casa da Mina e transferido para o próprio edifício do Palácio Real. Por si só, o comércio com Elmina levou a que as receitas reais portuguesas quase duplicassem nos últimos vinte anos do século XV.

Em 1506, o ouro da região de Elmina ainda constituía ¼ das receitas da Coroa. A Costa do Ouro gerava cerca de 680Kg de ouro para Portugal ou, estima-se cerca de 1/10 de toda a oferta mundial de ouro naquela época. Esta enxurrada de metal precioso impulsionou uma complexa integração económica baseada no comércio a longa distância. Para adquirir ouro africano ofereciam-se manilhas e armas de fogo. Tendo descoberto que a lã e linho eram pesados impróprios para os trópicos, os portugueses começaram a usar algum do seu ouro de origem africana para comprar algodões indianos.

Esta quantidade de ouro era tão estimada que a alardeada busca de uma rota para a Ásia ficou suspensa, deu-se prioridade a continuar a identificação de outras jazidas de ouro em África. Os portugueses enviaram embaixadas a Tombuctu, tinham a expetativa de monopolizar o mercado de ouro a partir do Sahel. Empreendeu-se uma grande embaixada ao reino no Congo, em 1491, um projeto repleto de padres e artesãos. Portugal durante anos não deu continuidade ao progresso alcançado por Bartolomeu Dias no Oceano índico, o país estava demasiado ocupado em África.

Howard French observa que há uma outra perspetiva completamente distinta sobre o impacto histórico do ouro proveniente da África Ocidental. Este ouro teria contribuído para o financiamento de novas frotas e missões de exploração em várias latitudes, mas primeiro prosseguiu-se a Costa Africana a partir de 1497. Ele diz mesmo que o gigantesco ouro da Mina proporcionou à Coroa o desejo de descobrir ainda mais ouro em África; bem como, tronou possível a Portugal acompanhar o ritmo da Espanha no seu percurso acelerado de exploração oceânica. E recorda o encontro entre Colombo e D. João II. Estava em curso o Tratado de Tordesilhas de 1494, os dois países ibéricos tinham dividido as terras recém-descobertas fora de Portugal. Porventura, depois de conversar com Colombo, o rei português ficara esclarecido que a rota asiática não estava em perigo.

Veremos seguidamente como se instalou o tráfico negreiro e os seus circuitos.


Professor Howard W. French

(continua)
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Notas do editor:

Vd. post da série de 14 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28260: Notas de leitura (1949): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (1) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 17 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28266: Notas de leitura (1950): "Gente Acenando Para Alguém Que Foge", de Paulo Faria; Minotauro, 2020 (2) (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 7 de novembro de 2025

Guiné 61/74 - P27397: Notas de leitura (1860): "Ecos Coloniais", coordenação de Ana Guardião, Miguel Bandeira Jerónimo e Paulo Peixoto; edição Tinta-da-China 2022 (5) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 3 de Novembro de 2025:

Queridos amigos,
A itinerância começa na Praça do Império, espaço onde tem havido controvérsia que não se confina só à toponímia, tem a ver com brasões, não foi por puro acaso que aqui incluí uma entrevista a quem sabe da poda, a professora Isabel Castro Henriques, afinal não se pode viver sem passado, aquela Praça foi urbanizada aquando da Exposição do Mundo Português, guarda aqueles cavalos marinhos colossais de uma escultura que fez parte da época, como há um conjunto de bustos desse evento que podem ser vistos no Jardim Botânico Tropical. É de questionar se o dever de memória não deve estar exposto sem retoques ou disfarces, é duvidoso que este espaço público e outros ainda estimulem o sentimento de nostalgia em relação a um passado glorioso. As novas gerações não guardam nenhum travo amargo de um império que se tornou lusofonia. Indo por aí fora fomos até à Rua do Poço dos Negros, tudo indica que aí houve um influente bairro africano, e sob a expressão Poço dos Negros também há debate dos especialistas. É a penúltima viagem, tudo terminará a falar das Ruas Gilberto Freyre e Viriato da Cruz e do acervo monumental que está guardado na Sociedade de Geografia de Lisboa.

Um abraço do
Mário



Império e colonialismo: reverberações na Lisboa atual - 5

Mário Beja Santos

Ecos Coloniais resulta de um exercício coletivo de investigação sobre o património histórico e cultural, aqui se interrogam instituições, entidades, monumentos, obras de arte, palácios onde se interseccionam a história colonial e imperial portuguesa, do passado ao presente, edição ilustrada com fotografias de Pedro Medeiros e o acervo de textos tem a coordenação de Ana Guardião, Miguel Bandeira Jerónimo e Paulo Peixoto, edição Tinta-da-China 2022. Logo na introdução, os organizadores referem que este levantamento é uma obra consciente e que há muito por investigar e por saber, importa evitar generalidades e simplismos mobilizadores para escapar aos engenheiros e empreendedores da “história” e da “memória”.

A Praça do Império, tal como a conhecemos hoje, foi construída em 1940, para a Exposição do Mundo Português. O projeto do jardim na Praça foi desenhado pelos arquitetos Cottinelli Telmo e Vasco Lacerda Marques, bem como as esculturas de cavalos-marinhos. A escolha deste local não foi arbitrária, fazia parte do projeto de simbiose entre a memória do Estado Novo e a memória dos grandes feitos portugueses, estão ali o Mosteiro dos Jerónimos e a Torre de Belém, bem como o Padrão dos Descobrimentos, construído com materiais perecíveis no tempo da Exposição e reconstruído em 1961.

Quando ocorreu a renovação da Praça do Império no âmbito da reurbanização da zona de Belém estalou a controvérsia, houve quem propusesse um restauro arquitetónico para retornar ao projeto original de 1940, o que impunha a retirada dos brasões florais colocados em 1961; houve igualmente quem defendeu a manutenção dos brasões florais, para a continuidade do conhecimento acerca da história do Império Português. Um ponto curioso deste debate é que nenhuma das posições pôs em discussão a denominação da Praça do Império, atualizada em 2021. Não é despiciendo recordar que na Exposição do Mundo Português, a Praça do Império era um centro articulador do evento que tinha nas proximidades “aldeias indígenas”. Ali estavam 138 “indígenas” provenientes do mundo colonial, Fulas e Bijagós da Guiné, Muchopes e Macondes, de Moçambique, havia mesmo uma aldeia de moleques para que as crianças indígenas pudessem brincar.

Passando à atualidade, os brasões florais da Praça do Império contribuíram para a renovação da imagem do Império. A questão está longe de ser pacífica, e deixamos ao leitor o teor de uma entrevista a Isabel Castro Henriques, uma historiadora que conhece bem a presença africana em Lisboa (https://amensagem.pt/2021/08/11/entrevista-isabel-castro-henriques-historia-colonial-roteiro-lisboa-africana-destruicao-simbolos-coloniais-padrao-descobrimentos/).

Mudamos agora de percurso, da Praça Luís de Camões vamos pelo Loreto até ao Calhariz e descemos a Calçada do Combro, lá em baixo está a Rua do Poço dos Negros que cruza com a Travessa do Poço dos Negros. O autor do artigo referente a este lugar dá-nos informação:
“Em finais do século XIX, descrevendo a cidade de Lisboa que debruçava sobre o rio Tejo, Júlio de Castilho publicou uma carta escrita por D. Manuel I ao Senado de Lisboa, em 13 de novembro de 1515, dedicada explicitamente ao problema da sepultura dos escravizados. Quando faleciam eram atirados em lugares próximos do centro da cidade. Eles não eram bem soterrados, os cães podiam comê-los; e que a maior parte destes escravos se lança no alto que está junto da Cruz de Pau, localizada no caminho que vai da porta de Santa Catarina para Santos. E que posto que nisso tenham previsto penas, e promulgado tudo o possível, não se remediou como deve.”

Assim sendo o Rei decidiu que o melhor remédio seria fazer um poço no qual se lançariam os ditos cadáveres; para acelerar o processo da decomposição decretou que se deitasse de quando em quando uma certa quantidade de cal virgem. Júlio de Castilho reconhecia, na descrição topográfica do documento quinhentista, as encostas de Santa Catarina, que atualmente coincidem com o trajeto do Elevador da Bica com o Miradouro do Adamastor e interrogava-se se estaria nisto a origem do Poço dos Negros. Isabel Castro Henriques e José Sarmento de Matos chegaram a duas conclusões divergentes. Ela reforçou a hipótese proposta por Júlio de Castilho. Fora das portas de Santa Catarina, localizadas no atual largo do Chiado, estendia-se o bairro do Mocambo, ocupava uma área que incluía o bairro que atualmente é conhecido por Madragoa. O termo africano mocambo, da língua umbundo e corresponde ao termo quilombo, da língua quimbundo. O facto da Rua e a Travessa do Poço dos Negros se encontrarem nesta superfície contribui para corroborar a hipótese de uma alta concentração de população negra nesta parte da cidade (mocambo ou quilombo significava nas citadas línguas africanas pequena aldeia ou refúgio).

Sarmento de Matos contrariou a hipótese de Júlio de Castilho e a investigação de Isabel Castro Henriques, oferecendo outra explicação ligada à presença, na mesma área, do Mosteiro de S. Bento. Ele fundamenta-se na instalação na cidade dos beneditinos cluniacenses, que se diferenciavam dos beneditinos cistercienses, vestidos de branco, por levarem uma capa de cor negra, razão pela qual seriam chamados Padres Negros. No limite sul da propriedade do Mosteiro encontrava-se um poço de água que os religiosos deixavam a população utilizar. Por isso, em sua opinião os topónimos da Rua e da Travessa subentendem o significado do poço de água dos Padres Negros. Na atualidade, a Rua do Poço dos Negros integra os circuitos do turismo histórico organizado por Associações de afrodescendentes, como um dos marcos da presença africana na cidade de Lisboa.

A dificuldade em assumir radicalmente este passado traumático levou Sarmento de Matos a afirmar que estes escravos, por serem batizados, não havia legitimidade na prática de atirar corpos de cristãos para poços. Porém, o documento de 1515 revela um pormenor muito interessante. Os escravizados que, falecidos, não eram sepultados na maneira devida para evitar pestilências, eram dos tratadores da Guiné. Esses corpos pertenciam, provavelmente, aos escravizados que ainda não tinham sido vendidos ou que tinham falecido no mercado da Casa da Guiné e Mina. Os escravos eram vendidos no mercado próximo da praça do Pelourinho Velho (hoje em frente à Igreja de Santa Madalena, a caminho da Igreja de Santo António e da Sé de Lisboa). Assegurar uma sepultura digna constituía uma das principais finalidades das confrarias de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos. Os escravizados recém-chegados, ainda propriedade dos comerciantes escravistas, não beneficiavam destas formas de proteção, e o abandono dos seus corpos representava, provavelmente, a principal causa da prática que vem no documento de D. Manuel I.

O Poço do Negros de Lisboa inseria-se numa área que se tornou zona habitacional da população africana ou afrodescendente na cidade. O bairro do Mocambo é descrito como o segundo dos seis bairros em que Lisboa estava organizada, e incluía as freguesias de Santos-o-Velho, Santa Catarina, São Paulo, Nossa Senhora do Loreto e Chagas, isto é, a vasta faixa da parte ocidental da cidade que ficava fora das muralhas da época fernandina.

A Rua do Poço dos Negros faz parte do debate público, em que é dado destaque aos descobridores portugueses e à epopeia marítima sem nenhuma denúncia das implicações do tráfego negreiro transatlântico. Observa o autor que são postas placas que assinalam a história dos lugares conexos com a vivências das pessoas negras, crê-se ser inevitável que a Rua do Poço dos Negros seja um desses lugares contemplados.

Deixamos para uma última intervenção as ruas Gilberto Freyre e Viriato da Cruz, detendo-nos com mais detalhe na Sociedade de Geografia de Lisboa, por razões óbvias.
Padrão dos Descobrimentos, escultura de Leopoldo de Almeida
A Cruz de Cristo no jardim em frente aos Jerónimos, a Praça do Império tem recordações coloniais que ainda dão controvérsia
Perto da Praça do Império temos o Jardim Botânico Tropical, ali aparecem esculturas do tempo da Exposição do Mundo Português, 1940
Rua do Poço dos Negros na atualidade

(continua)
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Notas do editor:

Vd. post de 31 de outubro de 2025 > Guiné 61/74 - P27370: Notas de leitura (1857): "Ecos Coloniais", coordenação de Ana Guardião, Miguel Bandeira Jerónimo e Paulo Peixoto; edição Tinta-da-China 2022 (4) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 7 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27395: Notas de leitura (1859): "Amok", por Stefan Zweig; Lisboa: Relógio D'Água, 2022 (Jaime Bonifácio da Silva, ex-Alf Mil Paraquedista)

segunda-feira, 21 de abril de 2025

Guiné 61/74 - P26711: Notas de leitura (1791): Lançados ou tangomaus e pombeiros, no tráfico de escravos, o que os distingue (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 28 de Março de 2024:

Queridos amigos,
É impressionante vermos que o Google e outros motores de busca guardam um número já bastante apreciável de trabalho sobre lançados e pombeiros. Num feliz acaso das minhas compras na Feira da Ladra encontrei estas atas de colóquio onde o professor universitário brasileiro Carlos Alberto Zerón apresentou um trabalho onde disseca analogias e dissemelhanças entre pombeiros e tangomaus, influentes intermediários no tráfico de escravos em África, parece-me um trabalho muitíssimo bem elaborado, embora tenha dificuldade em entender a omissão de referências aos estudos de António Carreira, Jean Boulègue, Silva Horta e Eduardo Costa Dias sobre estes luso-africanos de origem cabo-verdiana, mas também judeus e foragidos.

Um abraço do
Mário



Lançados ou tangomaus e pombeiros, no tráfico de escravos, o que os distingue

Mário Beja Santos

A investigação sobre os lançados ou tangomaus e pombeiros, imagens de importância primordial nas relações luso-africanas soma uma enorme quantidade de textos que qualquer um de nós pode encontrar em qualquer motor de busca, inclusivamente documentos universitários publicados em vários continentes. Mas pela primeira vez encontrei um trabalho que permite apreciar o que em lugares e espaços diferenciados de África distingue um lançado de um pombeiro. Trata-se do trabalho de um professor universitário brasileiro, Carlos Alberto Zerón, apresentado no II Colóquio Internacional sobre mediadores culturais, séculos XV a XVIII, que se realizou em Lagos, em outubro de 1997. Estranho o facto de Zerón pôr muita ênfase num trabalho publicado por Maria da Graça Garcia Nolasco da Silva, intitulado Subsídios para o estudo dos lançados da Guiné, publicado no Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, n.º 25, 1970, e nunca fazer a referência aos trabalhos de António Carreira, merecedores de crédito.

Por decisão da Coroa, que não queria ser prejudicada nos seus réditos, os cabo-verdianos tinham limitações no seu comércio, estavam proibidos de se internarem pelos rios, mas a verdade é que muitos desobedeceram, foram figuras privilegiadas no comércio ilícito em toda a zona dos Rios da Guiné. Eram, sobretudo, judeus foragidos, refugiados políticos, cooperando com traficantes originários de outros países, sobretudo ingleses, franceses e holandeses. O tangomau atua nos Rios da Guiné. O pombeiro é um mercador ambulante que atua sobretudo na região angolana, eram mulatos ou negros, antigos escravos libertos que funcionavam como emissários dos comerciantes europeus, que atuavam nestes paradeiros africanos ou no continente americano. O que se sabe de ambos os tipos de agentes comerciais é através de relatos indiretos, caso das relações de missionários ou das relações de viagens. Zerón, neste seu trabalho, pretende identificar as características essenciais destes dois grupos socioeconómicos, que também aparecem referenciados nos tratados jurídicos escritos pelos teólogos no decorrer do século XVI.

No caso dos tangomaus, a primeira regulamentação do trato da Guiné, de 1470, refere-os, segue-se um alvará de 1508 onde é abordado a punição deles considerando-os como infratores ao regime de monopólio real. No caso dos pombeiros, temos os relatos de viajantes, de administradores da Coroa e da correspondência dos missionários, existe esta informação desde os primórdios da ocupação portuguesa na região do Congo e Angola. Como escreve Zerón:
“através destes escritos vemos a conquista militar de Angola, efetiva a partir de 1574/1575, ganha evidência uma dupla estratégia de captação de escravos: aos prisioneiros feitos durante a guerra de conquista somavam-se os escravos negociados diretamente junto dos inúmeros mercados localizados no interior do país. Neste último caso, eram os próprios comerciantes portugueses, ou seus escravos, ditos pombeiros que realizavam a operação. Ambas as práticas foram inicialmente toleradas, sem que a administração real fosse além de um controlo alfandegários nos portos de desembarque. Mas um aumento significativo na demanda pela mão de obra escrava nesta mesma época (a década de 1570 corresponde ao início da expansão da cultura canavieira no Brasil, por exemplo) correspondeu a uma série de abusos que desorganizavam o mercado africano e colocavam em risco a estabilidade do fluxo do comércio negreiro.”
E daí terem iniciado as interdições das atividades dos pombeiros.

Revelou-se impossível a aplicação na região do Congo e de Angola de um modelo centralizador e monopolista. Quem eram os pombeiros? Eram escravos de negociantes e feitores, viviam próximos dos portugueses implantados juntos à costa africana, guarda-se documentação importante sobre esta atividade dos pombeiros, caso da descrição que nos deixou o físico holandês Olfert Dapper na sua Descrição dos Países Africanos, uma edição de Amesterdão de 1668:
“Alguns senhores ensinam a ler, a escrever e a calcular e outras coisas que possam ser úteis ao comércio a esses escravos comumente chamados pombeiros a partir deste local de comércio Pombo. Esses pombeiros têm ainda a seu serviço, sob seu comando, outros escravos, às vezes até ao número de 100 ou 150, os quais transportam as mercadorias sob suas cabeças pelo interior do país.”

O que têm estes agentes em comum? Antes que os conquistadores e os comerciantes portugueses ousem instalar-se ou desenvolver as suas atividades mercantis no interior do continente africano, são os tangomaus e os pombeiros que perfazem a intermediação comercial entre os europeus e os africanos. A despeito das fórmulas diferenciadas empregadas pela Coroa para tentar controlar o tráfico negreiro no Golfo da Guiné e nas regiões do Congo, Angola e Benguela, dá-se conta que a primeira operação de troca é efetuada quase exclusivamente por agentes intermediários marginais às sociedades europeia e africana. Temos registos da presença de pombeiros e tangomaus ativos juntos dos mercados africanos até ao século XVIII e mesmo até ao início do século XIX. Zerón lembra que há relatos detalhados sobre os tangomaus dos dois clássicos da literatura de viagens da autoria de André Álvares de Almada e André Donelha, bem como na Relação do jesuíta Fernão Guerreiro.

Repudiados tanto pela Coroa como pelos missionários, os tangomaus eram verdadeiros intermediários, mesmo que fossem encarados como apátridas, fossem eles judeus, homiziados ou degredados, valiam-se dos seus expedientes e da sua autonomia para mediar entre os negociantes estrangeiros e as tribos aborígenes. Uns com influência e até ligados às famílias dos régulos, outros levando uma existência miserável. Adotavam hábitos alimentares aborígenes e ritos gentílicos, praticavam frequentemente a poligamia, pagariam tributos aos chefes com quem negociavam. Ao contrário dos pombeiros, os tangomaus eram frequentemente donos dos seus bens, comerciavam principalmente escravos, mas também outras mercadorias (panos, algodão, cera, marfim, ouro, coiros) A sua vida religiosa era sincrética, um misto de cristianismo e vários animismos, havendo mesmo uma descrição de 1606 do jesuíta Baltasar Barreira que informa que há uma aldeia de 100 portugueses que seguem a lei de Moisés.

O pombeiro é um ser desqualificado e marginalizado pela sociedade portuguesa, dotados da capacidade de dotar várias línguas, como já se referiu eram escravos de confiança, operavam de maneira semelhante aos tangomaus, mesmo com uma autonomia significativamente menor já que não possuíam a propriedade das mercadorias negociadas nem participavam dos lucros obtidos. Quando em missão, os pombeiros partiam por um longo tempo com outros escravos que lhe eram subordinados, levavam as mercadorias dos seus senhores para trocá-las por escravos e também por marfim. Outra analogia que encontramos entre tangomaus e pombeiros era o interesse pela sua intermediação, apoiada pelas duas partes interessadas, os pequenos fornecedores e os comerciantes europeus buscavam quebrar o controlo monopolista imposto pelos grandes potentados locais.

Zerón, no termo da sua exposição questiona se esta intermediação dos pombeiros e dos tangomaus no comércio de escravos era ou não uma mediação cultural. Dá-nos uma síntese da moldura do pensamento na tradição jurídica antiga e medieval e depois na idade moderna quanto à legitimação do tráfico de escravos, mas estes pensadores da era dos Descobrimentos e depois consideravam que a intermediação destes agentes comerciais marginais estava desvinculada dos valores da sociedade cristã ocidental, não lhe atribuíam qualquer consideração para além de serem mediadores em negócios, eram discriminados pela sua aculturação e pela sua condição marginal social. E Zerón termina dizendo que pombeiros e tangomaus foram mais “atravessadores” que “mediadores culturais”.

Negociantes de escravos em Gorée, Senegal, século XVIII
Mercado de escravos no Recife, desenho de Zacharias Wagner
“Os Rios da Guiné” em History of the Upper Guinea Coast, 1545-1800, por Walter Rodney, New York University Press, 1970
Brasão de Fernão Gomes
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Nota do editor

Último post da série de 18 de abril de 2025 > Guiné 61/74 - P26700: Notas de leitura (1790): Philip J. Havik, um devotado historiador da Guiné: As turbulentas duas primeiras décadas na Guiné, ainda é difícil falar dela como colónia (6) – 1 (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

Guiné 61/74 - P26432: Notas de leitura (1767): A colonização portuguesa, um balanço de historiadores em livro editado em finais de 1975 (3) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 19 de Setembro de 2023:

Queridos amigos,
Entre os historiadores estrangeiros que se debruçaram aturadamente sobre o império marítimo português, Charles Ralph Boxer é um dos nomes mais sonantes. Convidado a fazer um texto sobre o balanço da colonização portuguesa, em 1975, centrou as suas observações em África, entre 1415 e 1800. Começa logo por dizer que as praças-fortes semeadas ao longos das costas africanas eram essencialmente entrepostos de escravatura, houve uma contradição de base jamais resolvida: a apregoada propagação da fé e conversão das populações africanas, isto enquanto se escravizam as mesmas almas que eram objeto de cuidados dos missionários. Havia singularidades como Cabo Verde e S. Tomé, onde se assistiu à destribalização e à cristianização, mulatos e negros livres trabalhavam a terra e mesmo em S. Tomé possuíram a maior parte da ilha, daí o massacre de Batepá, em 1953, quando o Estado Novo se pôs ao lado dos roceiros e os seus propósitos capitalistas; Boxer chama a atenção para a fanfarronice dos monarcas portugueses intitularem-se "Senhores da Guiné", coisa que nunca foram; e dá-nos um quadro admirável da presença portuguesa no Congo, não deixando no final do artigo de recordar que a ocupação efetiva do interior e as tentativas bem-sucedidas da colonização branca datarem apenas dos fins do século XIX.

Um abraço do
Mário



A colonização portuguesa, um balanço de historiadores em livro editado em finais de 1975 (3)

Mário Beja Santos

Iniciativas Editoriais foi uma editora altamente conceituada dirigida por José Rodrigues Fafe, os temas sociopolíticos foram o seu polo atrativo. Lançou um projeto aliciante, o de juntar um conjunto de profundos conhecedores da historiografia da colonização portuguesa e pedir-lhes uma apreciação em jeito de balanço. Demos a palavra já aos professores Banha de Andrade e Frédéric Mauro, excluímos Eric Axelson dado que este se focaliza na colonização portuguesa no sudeste africano entre 1505 e 1900, e damos agora a palavra a Charles Boxer que se irá centrar no tema As raízes de Portugal em África, 1415-1800. Este eminente historiador recorda que a presença portuguesa em África foi objeto de grandes divergências entre diferentes historiadores. Houve críticos que clamaram que durante mais de três séculos o interesse primacial de Portugal era o comércio negreiro. “As praças-fortes portuguesas semeadas ao longo das costas africanas de Arguim (1445), na Mauritânia, a Mombaça (1593), no Quénia, eram essencialmente entrepostos de escravatura. Mesmo após a sua relutante abolição da escravatura no decurso do século XIX, os portugueses continuaram a depender fortemente de várias categorias de trabalho forçado ou contratado, que frequentemente eram formas ligeiramente disfarçadas de servidão.”

Em oposição, houve quem escrevesse e argumentasse que os portugueses eram mais humanos no trato dos escravos do que quaisquer outros europeus, não tinham barreiras de cor nem preconceitos sexuais. Nesta observação havia um dado histórico irrefutável: “Os portugueses tinham sido parte integrante da cena africana por mais de quatro séculos.” E lembra um depoimento de Cunha Leal, um crítico de Salazar, que assim escrevia: “É preferível, mil vezes preferível, o nosso colonialismo honrado e progressivo, ao colonialismo de certos anticolonialistas, em especial ao da Rússia, com os seus campos de concentração, e ao dos EUA, com o seu odioso racismo interno.” Há em tudo isto uma dicotomia nas atitudes portuguesas com os africanos nunca resolvida: por um lado, o propósito de converter os africanos ao cristianismo e, por outro, a ânsia em escravizar os tais pagãos ignorantes.

Quando os portugueses chegaram a Terra dos Negros, a Senegâmbia, rapidamente compreenderam que era muito proveitoso obter escravos através de permuta com os Mandingas, os Jalofos e outros povos, independentemente de as navegações irem descendo a caminho do Cabo da Boa Esperança. A grande maioria destes chefes africanos não puseram dificuldades em permutar homens, mulheres e crianças capturados em guerras intertribais. E Boxer também observa que os escravos africanos trazidos para Portugal eram relativamente bem tratados, apesar das práticas discriminatórias (por exemplo, os negros livres não podiam tornar-se aprendizes da corporação dos ourives). Nalguns lugares (caso de S. Tomé) os africanos destribalizaram-se e cristianizaram-se. E nasceu uma nova realidade: “Os brancos guardaram o controlo dos altos postos do governo, da Igreja, e da economia; mas os mulatos, mestiços ou filhos da terra, obtinham por vezes posições de poder ou influência, bem como boa parte da terra (…)"

As ilhas de Cabo Verde eram descritas pelo seu governador em 1628 como sendo o cemitério e a estrumeira do império português. Em contrapartida, um jesuíta português que visitou a ilha de Santiago durante a semana de Natal de 1652, ficou muito impressionado com o alto nível do clero indígena. Escreveu o Padre António Vieira: “São todos pretos, mas somente neste acidente se distinguem dos europeus. Têm grande juízo e habilidade e toda a política que cabe em gente sem fé e sem muitas riquezas, que vem a ser o que ensina a natureza. Há aqui clérigos e cónegos tão negros como azeviche, mas são compostos, tão autorizados, tão doutos, tão grandes músicos, tão discretos e bem morigerados, que podem fazer inveja aos que lá vemos nas nossas catedrais.”

Refere igualmente Boxer que embora os monarcas portugueses se intitulassem “Senhores da Guiné” desde 1481, a Coroa não fez qualquer tentativa para ocupar mais do que uns quantos postos de apoio costeiros com vista ao comércio de escravos, ouro, marfim, cera, malagueta, entre outros. A língua portuguesa passou a ser língua franca por muitos nos Rios da Guiné, muitos topónimos da costa ocidental africana são também de origem portuguesa. Os portugueses permaneceram em S. Jorge da Mina até 1637, estavam acantonados, mas permutavam bacias de latão, braceletes, contas, têxteis e outras mercadorias por ouro, marfim e escravos trazidos por mercadores africanos do interior. Mantiveram contactos de grande significado, caso do Benim, que era então o mais importante Estado do que é hoje a Nigéria. A presença portuguesa ficou atestada pelos bronzes a marfins artísticos produzidos no século XVI, representando soldados portugueses, mercadores de escravos, e por pequenos artigos tais como pimenteiros, saleiros que vieram a ser transacionados no mercado europeu. A ação missionária a norte do Equador não conduziu a resultados duradouros, mas os missionários foram mais bem-sucedidos no velho reino do Congo, e Boxer alarga-se em considerações sobre a presença portuguesa na região.

Pelo adiante, dirá que os portugueses nunca tentaram estabelecer-se no Cabo da Boa Esperança e observa que as suas praças-fortes costeiras no atual território de Moçambique, Sofala (1505), ilha de Moçambique (1507) e Quelimane eram escassamente povoadas e só a ilha era fortemente fortificada. E dá conta de como se processou entre os séculos XVI e XVII as formas de ocupação no vale do Zambeze e na região de Manica. Ajeitando as conclusões neste seu artigo, Boxer dirá que as raízes portuguesas em África até tempos recentes da ocupação efetiva do território foram sempre muito fracas. “Por exemplo, em meados do século XIX havia apenas 1800 brancos em Angola, a maioria dos quais em Luanda. Bissau tinha só 16 europeus; e a ilha de Moçambique, que se manteve continuamente na mão dos portugueses desde 1507, tinha só 6 famílias brancas em 1822.”

É evidente que as doenças tropicais, particularmente a malária, a disenteria infeciosa, a febre biliosa, a doença do sono e a triquiníase fizeram de África o que se designava pelo túmulo do homem branco antes das descobertas científicas e médicas de fins do século XIX. E Boxer adianta uma outra observação: “O homem português emigrava sozinho para África. Raramente o acompanhava uma mulher branca até mesmo ao século presente.” E, mais adiante: “E é por demais sabido que as tribos africanas e os povos para além da franja costeira opunham uma resistência muito forte (…) As raízes portuguesas em África limitaram-se por séculos aos estabelecimentos costeiros e a alguns vales insalubres. A ocupação efetiva do interior e tentativas bem-sucedidas de colonização branca datam apenas de fins do século XIX e particularmente dos tempos da Segunda Guerra Mundial.”

Findo o texto de Charles Boxer, Joel Serrão reserva-nos um texto admirável, datado de janeiro de 1975.

Charles Ralph Boxer (1904-2000)
Castelo de São Jorge da Mina, Gana, imagem recente
Saleiro bini-português, século XVI
Saleiro bini-português, século XVI
Fortaleza de Cacheu, Caminho de Escravos
Cabo Verde, desenterrada a igreja mais antiga dos trópicos. Imagem do Público, com a devida vénia

(continua)
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Nota do editor

Vd. post de 13 de janeiro de 2025 > Guiné 61/74 - P26385: Notas de leitura (1764): A colonização portuguesa, um balanço de historiadores em livro editado em finais de 1975 (2) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 24 de janeiro de 2025 > Guiné 61/74 - P26421: Notas de leitura (1766): O Arquivo Histórico Ultramarino em contraponto ao Boletim Official, os acontecimentos posteriores à campanha de Teixeira Pinto, 1917-1919 (11) (Mário Beja Santos)