sábado, 4 de dezembro de 2010

Guiné 63/74 - P7381: (Ex)citações (114): Ainda os Mig... heróis e outras coisas (José Brás)

1. Mensagem de José Brás* (ex-Fur Mil, CCAÇ 1622, Aldeia Formosa e Mejo, 1966/68), com data de 4 de Dezembro de 2010:


AINDA OS MIG
...heróis e outras coisas

Dizem que debaixo dos pés se levantam os trabalhos e, às vezes até parece verdade!
Digo isto a propósito do excelente texto do Tenente General António Martins de Matos sobre a alegada existência de MIG's nas mãos do PAIGC para passar a uma fase nova da sua luta contra nós, já se vê.
E digo-o excelente, o texto, não apenas por uma das suas vertentes, a da análise objectiva sobre a possibilidade de ser ou não ser verdade tal informação. Digo-o também porque por ser credível e metodicamente objectiva, não perde objectividade na fluidez e na leveza da palavra escrita, outro dos motivos porque acho excelente o texto.

Foi bom ler todos os comentários dos camaradas reconhecidamente de visões diferenciadas, deixaram, comungando da mesma opinião que eu tenho sobre o texto e Martins de Matos tem sobre a verdade dos MIG.

É necessário reconhecer nesta identidade, duas questões que a justificam, para além da qualidade do texto do camarada Martins de Matos.

Primeira, a constatação de que vimos todos amadurecendo neste debate, cada um assumindo que a verdade não é coisa só sua, nem necessariamente sua, porque é sempre feita de muitas verdades e de algumas mentiras, de formas diferentes de abordagem à realidade e até de recepção diferenciada de cada um que viveu peripécias da guerra, no mesmo local e no mesmo momento.

Segunda, porque vamos também lendo e vendo, tomando nota de coisas que, isolados no mundo que nos construiu individuais, desconhecíamos, alargando a visão por cima das copas das árvores que nos cercavam então e limitaram o nosso crer.

É bom acompanhar essa mudança gradual na postura dos antagonismos, não porque seja possível alguma vez rasoirar o pensamento colectivo matando o indivíduo, mas porque assumindo diferenças e respeitando-as, em muitas coisas da vida nos irmanamos e criamos essa tal cultura como povo.
Seria sempre impossível chegar a um estágio relacional como este sem o convívio aberto, plural e fraterno que a Tabanca Grande veio criar, juntando-nos e pondo-nos ao mesmo tempo em contraste e comunhão.

Aqui chegado e retornando ao texto e aos comentários, eis senão quando... e é aqui que se justificam os pés e os trabalhos, aparece o comentário absolutamente dissonante na sinfonia.
Digo dissonante, não por recusar que mesmo a dissonância possa trazer harmonia à peça, antes pelo contrário, se colocada no tempo e espaço musical apropriado, mas porque, aqui veio recuperar questões mais que debatidas e quase arrumadas nas prateleiras próprias, velhas formas de humor, palavras exageradas e mesmo alguma provocação com a história do "ganhámos ou perdemos".

Estou a referir-me ao comentário de Luís Dias.

Diz ele: - Será desta que alguns deixam de nos impingir a estrondosa derrota militar, que nos estava preparada pelo PAIGC.

E eu devo confessar que nunca ouvi, aqui ou noutro sítio, alguém falar de estrondosas vitórias fosse de quem fosse, a não ser ao próprio PAIGC, coisa que compreendo e desculpo.

Depois introduz ainda essa "FORMA BEM MILITAR" de contar a realidade, enfiando de rompante a ideia de "castas", de militares e paisanos, bem entendido, quiçá, de novo a imagem do bando.

E fecha ainda pior, em meu entender, quando se refere à forma de contar "muito à portuguesa", está visto pelo andar da carruagem, numa sugestão "para bons entendedores" de que à portuguesa é militar e militar apenas numa faixa da visão sócio-politica, e que todos os outros são traidores à pátria, aliás, pensamento muito próprio de toda a classe de ditadores ou de hipotéticos ditadores.

Devo dizer que o comentário fica com quem o fez, evidentemente, não podendo responsabilizar por ele, se não ao próprio que o produziu.
Se querem a minha opinião, que aliás, venho defendendo faz muito tempo, mais pela via da interpretação da história da humanidade do que pela apreciação militar, acredito que seria possível aguentar por mais tempo aquela guerra, e até entalar o PAIGC numa situação de capitulação, dado o enorme desgaste que há-de provocar física e psicologicamente num grupo não muito homogéneo em termos de consciência política, ideológica e religiosa, o prolongamento da luta dura que travavam connosco.

Contudo, poderemos chamar a isso uma vitória nossa?

Podemos, se nos fecharmos no casulo da visão puramente militar e local, e em tempo determinado.

Podemos, se não quisermos pesar todo o mal que se acumulou no nosso próprio povo, no desenvolvimento civilizacional, nos meios desperdiçados em destruição, desviados da educação, da modernização da estrutura económica, da saúde e da cultura, nos doía lados da contenda.

Mas se olharmos o próprio País que sustentava a guerra e que é o nosso, se analisarmos cruamente a situação económica e política, o esgotamento de meios humanos e materiais, o crescente isolamento internacional, tal vitória sabe muito ao amargo da derrota, excepto para esses epígonos da imagem heróica da raça e da guerra; desses apóstolos guerreiros de um império que, aliás, nunca foi concretizado.

Mesmo assim, uma vitória arrancada no terreno da guerra com as consequências que se aludem acima, nunca seria uma vitória final e definitiva, porque atrás desta derrota, um PAIGC ou outro qualquer movimento havia de voltar à luta, perseguindo um qualquer ideal de pátria sua.

Muitas vezes, quem fala de guerra colonial, circunscreve o conceito aos últimos treze anos da nossa presença em África, ignorando que nos longos quinhentos que durou a ocupação, nunca em mais de cinco anos seguidos, deixou de haver movimentos de revolta localizados e mesmo grandes movimentações que aliaram tribos por vastos territórios contra o ocupante.

E creio que é disto, desta visão da história que falam os tais a quem Luís Dias, por sugestão, alia a visão da derrota. E se é disto, é necessário dizer da persistência do seu erro, ainda que não fosse por outra verdade, também porque no seio desses há verdadeiros e inegáveis heróis, condecorados várias vezes por feitos de guerra no cumprimento das obrigações que lhes estavam cometidas por serem portugueses, uns, militares profissionais e outros, até, militares a contra-gosto.

Não sei exactamente o que é que levou Spínola à crença da derrota, ou, pelo menos, da impossibilidade de vitória.
__________

Notas de CV:

(*) Vd. poste de 22 de Novembro de 2010 > Guiné 63/74 - P7319: (Ex)citações (112): O Simples e o Erudito (na Tabanca Grande) (José Brás)

Vd. último poste da série de 27 de Novembro de 2010 > Guiné 63/74 - P7348: (Ex)citações (113): Achas para a fogueira, ou a influência dos movimentos independentistas na política interna de Portugal (Joaquim Mexia Alves)

Guiné 63/74 - P7380: Blogpoesia (92): Sinfonia (Felismina Costa)

1. Mensagem da nossa tertuliana Felismina Costa* com data de 3 de Dezembro de 2010:

Boa-noite Editor e Amigo Carlos Vinhal!
Mais uma vez tomo a liberdade de enviar um pequeno poema alusivo ao espaço em que vivi na minha juventude, e faço-o acompanhar de uma foto minha, desse tempo.
Espero que me perdoem a minha paixão por esse pedaço, que na sua tranquilidade me transmitiu a Paz e o sossego que tanto aprecio.
Adolescente, aceitei como um prémio esse canto onde os pássaros cantavam comigo a alegria de ser jovem.
Homenageio a vida, a Paz, a terra, o Sol, a água, as aves, as flores, e todos os que me ajudaram a encontrar na Natureza, tudo o que preciso para ser feliz.

Muito Obrigada.


SINFONIA

Por cada pedra
Por cada rua
Por cada árvore nua
Por cada flor ressuscitada
Nas acácias da estrada
Por onde passei tanta vez!
Por cada ruga observada
Nos rostos que eu encontrava
Queimados pelas intempéries,
Por cada eucalipto que crescia
Mais à frente, nessa estrada
Aonde o vento uivava
Nos Invernos que fazia.
Por cada dia de Sol
Que nascia sorridente.
Pela água que corria
No ribeiro onde cantavam
As rãs que me conheciam
E onde com elas cantava.
Pelo ar que respirava.
Pelo aroma da erva
e das árvores floridas.
Pelas asas que voavam
ao redor da nossa quinta.
E pelas noites de encantar,
mais belas que o próprio dia,
eu compunha… se soubesse…
uma eterna Sinfonia!..


Felismina Costa
__________

Notas de CV:

(*) Vd. poste de 25 de Novembro de 2010 > Guiné 63/74 - P7336: Blogoterapia (167): Manhãs de Outono (Felismina Costa)

Vd. último poste da série de 3 de Dezembro de 2010 > Guiné 63/74 - P7374: Blogpoesia (91): Peregrinação (Manuel Maia) (3): Cabo Miliciano, o eterno explorado

Guiné 63/74 - P7379: Operação Tangomau (Mário Beja Santos) (2): O primeiro dia em Bissau

1. Mensagem de Mário Beja Santos* (ex-Alf Mil, Comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 3 de Dezembro de 2010:

Malta,
Os pequenos almoços na Pensão Lobato eram insuficientes e o meio envolvente melancólico, até soturno. Mas eu estava impaciente para calcorrear Bissau, sabendo de antemão que os dissabores seriam em maior número que os sabores. E naquele primeiro dia não era nada agradável dizer à Maria Fausta que o Abudu está mesmo muito doente, incapaz de viver na Guiné, quem já teve dois enfartes do miocárdio não pode acreditar em milagres no Hospital Simão Mendes.

Hoje seguem em separado as fotografias que tirei no primeiro dia de Bissau.
Ficarão com o copyright do nosso blogue.

Um abraço do
Mário


Operação Tangomau (2)

Beja Santos

O primeiro dia em Bissau

1. Cedo o Tangomau descobriu que o conflito que se instalara entre ele e a casa de banho da Pensão Lobato tem muito a ver com o sentimento de resignação e indiferença do povo guineense. Tomara um duche que esbanjava metade da água, a água esguichava e escapava-se na junta entre a serpentina e o punho. Mal se arranjou, informara a governanta da situação e pedira que pusessem uma lâmpada no corredor, por duas vezes tropeçara, com risco de estampanço. Resposta, com sorriso: “Não há problema, vou avisar o patrão, não custa arranjar”. Se era para o sossegar, não sossegou. Nada foi arranjado, ao terceiro dia estava tudo na mesma, era uma estragação de água, não se percebe porque é que não há uma alma que ensine a remover teias de aranha e as manchas da sujidade, cogitou o Tangomau.


2. Em vez de subir a antiga estrada de Santa Luzia, inflectiu à direita, um quarteirão à frente subiu à Praça dos Heróis Nacionais, tem uma encomenda a entregar nos escritórios da TAP, mas fica esparvoado com o escombro em que se encontra o palácio presidencial. Cá fora, as pessoas passam sem olhar aquele tecto esventrado, o vestíbulo reduzido a cacos, as janelas saqueadas. O Tangomau imagina a elegância que terá tido todo o tecto daquele vestíbulo onde agora se instalam, com o calor da manhã, bandos de morcegos. Sobe as escadas com o cimento esfarelado, tudo quanto era azulejo ou corrimão foi roubado. O salão do primeiro andar é formoso nas proporções, dá até para especular as sessões de Estado que ali se realizaram, mesmo banquetes, boas-vindas, sabe-se lá se até concertos. Pode observar a graciosidade da escadaria, permanece incólume ao vandalismo. Saiu do edifício, contornou pela direita, entrou no que terá sido o jardim, nas traseiras do palácio; expectante, está ali uma fonte apainelada por pequenos mosaicos.

O que era o Museu da Guiné, Biblioteca e Centro de Estudos da Guiné Portuguesa, é hoje a Primatura, vedaram-lhe o caminho. Onde estava o Café Império é hoje a pastelaria e padaria Dias & Dias, cá fora rescende um bom cheiro da confeitaria.

Fotografias retiradas do site: http://pensaodbertabissau.wordpress.com/
Quem não conhece a Pensão Central desconhece a magnitude dos sorrisos

Ele desce à Avenida Amílcar Cabral, pára diante da UDIB e recorda, sem dificuldade, os filmes de acção que ali viu, 40 anos antes. O Hotel Portugal é um edifício abandonado. Agora, em cada edifício habitado há sempre um segurança para dissuadir os assaltos. A deambulação prossegue, a catedral fita-o das suas linhas aprumadas, está pintada de branco imaculado. Excitado, o seu olhar contempla os dois andares da Pensão Central ou Pensão da D. Berta. E sobe a escadaria em ferro, visivelmente carcomida pela ferrugem, no primeiro andar avista um jovem e pergunta por D. Berta Oliveira Bento, a Avó, o sorriso mais doce de Bissau.

Tem razões para esta excitação: aqui viveu em 1970, aqui comeu duas refeições por dia, quatro meses sem interrupção, em 1991.
A D. Berta aluga acidentalmente quartos, ela acolhe, é confidente, moraliza e dá estímulo às centenas de cooperantes, investigadores, professores e até empresários que não prescindem daquela comida caseira: uma sopa onde nunca falta o gosto da batata, um prato de peixe ou de carne, e depois a sobremesa, doce ou fruta, tudo mais a bebida por 4500 francos CFA, a preços actuais, mais barato não há em Bissau.

Pois o que vai acontecer é que o Tangomau corre por impulso, chora no ombro da Avó Berta. Desajeitadamente, confessa: “Tenho tanta saudade da sua canja!”. E ela responde, quase maviosa: “Se tem saudades hoje almoça o que há, amanhã faço a canja.”. O Tangomau olha as mesas, ali ao canto comia muitas vezes com aqueles holandeses do saneamento básico ou com o Dr. Aníbal do Centro de Medicina Tropical.

Despedem-se, ele tem urgência de ir ao Bissau Velho trocar dinheiro. Por baixo da casa da Avó estão vendedores de artesanato, sempre a incitar à compra. Ele não pára, onde era o antigo Café Bento (ou 5ª Rep) é hoje a delegação da RTP África.

Feito o câmbio, sobe até à rua da Cidade de Lisboa, tem um encontro aprazado com o embaixador António Ricoca Freire, toma café e ali ficam em amena conversa. O esforço titânico da Avó Berta veio à baila e os dois sugerem à uma ir almoçar à Pensão Central. A Avó não escondia o seu orgulho, sentada ao lado do embaixador português.

Findo o almoço, regressam à embaixada, começa uma ronda de telefonemas para avisar vários destinatários de encomendas ou para convocar encontros. Um dos camaradas da Guiné queria obsequiar as suas duas lavadeiras e mandou as seguintes referências: a primeira, a Rosita, também conhecida pelo nome de Nhamo, mora no bairro Quelélé e tem uma filha chamada Tiba; a segunda é a Mariama Gorda que pode estar em Bissau ou já em Bambadinca. O pedido era categórico: “dá-lhes um beijo por mim”. E juntava fotografias de ambas para que não houvesse confusões. E depois saiu com o Sr. Sabino, os Soncó têm precedência. A embaixada situa-se num bairro que data dos tempos de Sarmento Rodrigues, tem reminiscências Art Deco, mas um grande número de moradias dá sinais de uma ruina imparável.


Tumblo em 1968, fotografia captada em Missirá. 
A menina mais crescida é a Sadjon (uma homenagem a S. João, em frente a Bolama), uma Mané que casou com o falecido Ansumane Mané, parente de Tumblo. Sentada ao lado de Tumblo está Mai Sai, a sua mãe. Segue-se outra criança não identificada. De calção e sorriso franco Abudu Soncó, a quem o Tangomau ofereceu esta fotografia.

3. O primeiro encontro é com Tumblo, o irmão que resta ao Abudu. O Tangomau esquecera-se de fazer uma cópia à fotografia tirada em 1968 a um conjunto de crianças em Missirá: Tumblo ao lado da sua mãe, Mai Sai; Sadjon, Abudu, Samba Mané, Nhalim Cassamá e Nhima Mané. Paciência, talvez não venha a faltar outra oportunidade. Depois de visitar a casa de Tumblo seguiram ao encontro da Maria Fausta. Àquela hora, a estrada que passa por Bandim estava em convulsão, congestionada, ouvem-se as imprecações em crioulo; em Bandim, um sinaleiro garboso procura pôr o trânsito mais fluido. Não foi fácil encontrar a Maria Fausta, afinal não vive perto da Somec, mas quase no sentido oposto. O Tangomau promete novo encontro, quando regressar da região de Bambadinca. No regresso, passam pelo INEP, o Dr. Mamadu Jao, o seu director, não está, ficam os livros e as cartas geográficas, deixou-se a promessa de regressar amanhã.

De novo na embaixada, consegue-se o contacto com Nhamo, que promete vir imediatamente. Sempre solicita, a secretária do embaixador estabelece contacto com Filinto Barros e Delfim Silva, ficam marcadas reuniões para amanhã. Nisto chega a Nhamo, em todo o seu esplendor. Riu-se quando a beijei em nome do Jaime Machado.


4. Ao almoço, o Tangomau estabeleceu contacto com Patrício Ribeiro, um empresário que trabalha há 26 anos na Guiné e é assíduo frequentador do blogue. Combinaram ir jantar ao Bissau Velho. É uma dor de alma a degradação a que chegou a zona comercial da segunda capital da Guiné. São edifícios simples dos anos 40 e 50, sobretudo, possuíam cores gritantes, era ali que estavam estabelecidos os libaneses da família Saad (a incontornável Casa Taufik Saad), os estabelecimentos António Pinto, a Casa Pintosinho, entre outras. Este Bissau Velho plantara-se perto da Fortaleza da Amura, era ponto de passagem obrigatório entre o porto e a zona habitacional da cidade, perto estava o tribunal, mais adiante os correios, logo no início da Avenida da República, do lado esquerdo, a Casa Gouveia. Esta urbanização aparece admiravelmente documentada nos postais da Guiné na edição de João Loureiro, infelizmente esgotada. Pois aqui está o restaurante Tá Mar, por capricho do destino apareceu o Delfim Silva, o Tangomau já não se recordava nem como nem porquê a conversa deslizou para os testemunhos de Luís Cabral e Aristides Pereira, a riqueza e as insuficiências de cada um deles. Exausto, o Tangomau pediu a Patrício Ribeiro que o levasse até à Pensão Lobato. Fora um dia em cheio, excessivo de emoções, de alegrias, de descobertas. Mas também o sentimento de agonia e consternação pela decomposição que atravessa Bissau.


5. No INEP visitou a exposição Raízes, patrocinada pela Fundação Mário Soares. O visitante tem ao seu dispor um conjunto de fotografias que datam das décadas de 40 a 60 do século passado. Era material que estava à carga no Centro de Estudos da Guiné Portuguesa, e que se deteriorara brutalmente, por falta de conservação. A Fundação Mário Soares contribuiu para recuperar meia centena de fotografias entre os milhares de espécies de um acervo de indiscutível valor histórico. Procedeu-se a limpeza e a expurgo, fez-se a reprodução fotográfica e digital e depois o respectivo restauro. Para esta exposição apresentam-se imagens de homens e mulheres da Guiné-Bissau na sua faina diária sob o olhar da “etnografia colonial”. São fotografias de uma beleza admirável, no mínimo o Tangomau recomenda que se adquira o catálogo. A ventoinha continua no seu ronronar e os grilos não se calam. O cansaço é tal que no cotejo destas notas se esqueceu a referência à maresia que vem do cais do Pidjiquiti, àquela hora da manhã embarcava gente para Catió e noutras embarcações desembarcava peixe.

Capa do catálogo da exposição do INEP

Mandinga fabricando uma esteira

Balantas trabalhando na construção de um orique

Regalado, o Tangomau cogita sobre o que vai fazer amanhã, falta descer pela Baixa de Bissau, é impreterível passar pelo cemitério, há ainda outras encomendas a entregar, ao fim da tarde quer ir à missa na catedral. Está impaciente de partir para Bambadinca, pois claro, o Fodé já esclareceu que vai aparecer muita gente, surpresas não faltarão. E, com um suspiro, volta-se para o outro lado e adormece agradado com a ideia de que uma sopa de ostra o espera na Pensão Central.
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Nota de CV:

Vd. primeiro poste da série de 2 de Dezembro de 2010 > Guiné 63/74 - P7370: Operação Tangomau (Mário Beja Santos) (1): Primeiras notícias da Guiné-Bissau

Guiné 63/74 - P7378: O Mundo é Pequeno e a nossa Tabanca... é Grande (32): Estava no Cantanhez, no dia 1, e fiquei emocionado com o vosso poste de parabéns que só agora, em Bissau, posso agradecer (Pepito)



Guiné-Bissau > Região de Tombali > Medjo > O Régulo, Umaru Djaló, trajando o seu melhor fato...




Guiné-Bissau > Região de Tombali > Amindara > O milagre da água...




Guiné-Bissau > Região de Tombali > Amindara > A população em festa...




Guiné-Bissau > Região de Tombali > Farim de Cantanhez > Dezembro de 2010 > A Alicinha (afilhada da Alice Carneiro)  e a sua mãe, Cadi. 


1. Texto e fotos do nosso amigo Pepito:

 Data: 4 de Dezembro de 2010 17:39
Assunto: Aniversário

Amigo Luís

Fiquei comovido com o postal fabuloso do Miguel Pessoa e as mensagens que  os amigos lá puseram (*). Porque um homem não chora, as lágrimas caíram-me para dentro. Ninguém as viu. Só eu sei quanto me souberam bem. Mandei o post para duas pessoas em especial: as minhas netas Sara e Clara.

Quando li as mensagens tive uma enorme vontade em estar aí com todos os camaradas do blogue, meus companheiros de sonhos e amores comuns pela Guiné que tanto amamos, por mais partidas que ela nos pregue. Acho que ela até o faz de propósito, para nos juntar mais, para estarmos sempre a pensar nela, como as crianças bulidoras (traquinas) para nos obrigarem a dar-lhes mais atenção.

Estava em Cantanhez no dia 1 quando colocaste o post, por isso não vos agradeci imediatamente. 
Estava em Guiledje a preparar a reconstrução do oratório que o Patrício (embaixador dos portugueses em Bissau) já começou a fazer e para o qual o Grupo de Amigos de Guiledje do nosso Blogue decidiu contribuir.  

Estava em Amindara às 8 horas de uma noite escura como o breu, a receber os agradecimentos que as mulheres e os homens faziam à Tabanca Pequena por lhes ter construído um poço, com depósito elevado de água e painéis solares, que lhes permite passar a viver, segundo eles, suma brancu (como brancos).

Nesse dia também estava em Medjo, onde o Régulo Umarú Djaló decidiu vestir o seu melhor traje, para igualmente agradecer à Tabanca Pequena o poço igual ao do de Amindara, dizendo: "agora posso morrer descansado, porque vou ser sempre recordado por ter sido no meu tempo que a tabanca de Medjo passou a ter um poço tão bom e que as mulheres deixaram de ter problemas com o acesso à água". 

Estava também em Farim de Cantanhez, tendo nos braços uma linda criança a quem deram o nome de Maria Alice, vestida com roupas enviadas aí de Lisboa pela "vóvó Alice Carneiro", a companheira do nosso Luís e mãe do João que andou por Cantanhez a cuidar da saúde de pessoas que nunca tinham visto um médico.

Foi um dia em que andei, junto convosco, a percorrer os caminhos largos da solidariedade.

Por isso enviei para as minhas netas Sara e Clara lerem mais tarde o vosso post, para conhecerem o valor da amizade e saberem que o melhor mundo em que vivemos é o dos sentimentos e o da generosidade, que é nele que vamos buscar a força para viver de pé. (**)

Um abraço muito amigo

Pepito

(**) Último poste da série > 12 de Novembro de 2010 > Guiné 63/74 - P7270: O mundo é pequeno e a nossa Tabanca... é Grande (31): Achado e perdido, o meu amigo Mulai Baldé (Amílcar Ventura)

Guiné 63/74 - P7377: Facebook...ando (2): Duas fotos do Durval Faria, Nossa Senhora do Rosário, Lagoa, São Miguel, RA Açores, que pertenceu à CCAÇ Esp 274 / BCAÇ 356, CTIG, 1962/64



Fotos de Durval Faria (2010) (sem legenda)... Comentário do nosso amigo João Coelho: " O Durval Faria poderá indicar datas - e em que navio iam embarcar - mas a primeira foto é tirada na doca de Ponta Delgada, então Molhe Salazar, na ilha de S.Miguel. Curiosa a forma como as famílias acompanham os militares que mantém, apesar de tudo, uma espécie de formatura. Aqui em Lisboa a separação entre tropa e familias, na altura do embarque, era total, como sabem" ... Por sua vez, o João Moniz, natural de Lagoa, onde reside, e conhecido do Durval, diz-me, em conversa no Facebook, que o Durval, na outra foto,  é  o militar que aparece em primeiro plano (informação que o próprio acaba de confirmar no Facebook).


O João Moniz esteve igualmente na Guiné, em 1970/72, passou por Bula e Mansabá, tendo estado com o nosso camarigo António Matos, ex-Alf Mil da CCAÇ 2790... Convidei-o a ingressar no nosso blogue, de modo a poder partilhar as suas memórias, as suas histórias, as suas fotos... Mostrou-se emocionado, e prometeu contactar o seu amigo Durval, presidente da Junta de Freguesia de N. Sra. do Rosário... Como vêem, o mundo é pequeno e a nossa Tabanca... é Grande.

Duas fotos deixadas no mural do Facebook da Tabanca Grande por Durval Faria, ex-combatente da Guiné, 1962/64,  fazendo parte do Batalhão de Caçadores nº 356 e Companhia de Caçadores Especiais nº 274.

 O nosso camarada Durval Faria tem conta no Facebook e é nosso amigo. Está ligado ao Núcleo de Combatentes de Lagoa. É presidente da Junta de Freguesia de Nossa Senhora do Rosário, Lagoa (, foto à esquerda).


Em termos de património, é de destacar, nesta freguesia, a  sua magnífica igreja paroquial, consagrada a Nossa Senhora do Rosário,  um templo de grandes dimensões, setecentista, construído sob uma ermida do mesmo nome (que ali existia desde o século XVI).  Tem três naves e um notável conjunto de escultura da autoria de Machado de Castro.

Quanto ao concelho de Lagoa, na costa sul da ilha de São Miguel, Região Autónoma dos Açores, foi criado a 11 de Abril de 1522 por carta régia de D. João III.  Tem uma área de 45,6 km2 e uma população de 14 126 habitantes (censo de 2001),  repartindo-se por cinco freguesias: além de Nossa Senhora do Rosário, Santa Cruz , Água de Pau, Cabouco e Ribeira Chã.

Gostaríamos de ter este camarada, açoriano, autarca, entre nós, a conversar sob o poilão da Tabanca Grande sobre os primeiros tempos da guerra da Guiné (1962/64) e sobre a unidade a que pertenceu ( CCAÇ Esp 274 / BCAÇ 356) e que não está representada no nosso blogue. 


Queríamos que este camarada aceitasse o convite para fazer parte do nosso blogue, transformando-se assim em mais um camarigo... Já agora gostávamos que ele legendasse as fotos que teve a gentileza de pôr no nosso mural. 


Deixei-lhe as seguintes mensagens:  (i) [ Primeira foto, a contar de cima] Durval, obrigado... Foto com interesse documental... Legenda ? Local e data ? S. Miguel, Açores ? Partida de um contingente militar para a Guiné ? O teu batalhão ?; (ii) [Segunda foto] Durval, por onde andaram vocês na Guiné ? Onde estás tu na foto ? Data e local ?

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Nota de L.G.:

Poste anterior desta série 24 de Novembro de 2010 > Guiné 63/74 - P7327: Facebook...ando (1): O aerograma traçado de balas ou estilhaços na emboscada de 26/10/1971, na estrada Piche-Nova Lamego, e em que morreram 4 camaradas da CART 3332 (Carlos Carvalho)


sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Guiné 63/74 - P7376: Agenda Cultural (93): A Sociedade Filarmónica de Crestuma (José Ferreira da Silva, ex-Fur Mil Op Esp, CART 1689, 1967/69)


Vila Nova de Gaia > Crestuma > Marcha canção "Minha Terra", letra de Eugénio Paiva Freixo e  música de António Ferreira Alves, dois ilustres crestumenses


Vila Nova de Gaia > Crestuma > Sociedade Filarmónia de Crestuma, de que é presidente o nosso leitor e amigo José Campos.



1. Mail, com data de 22 de Novembro último, enviado pelo nosso camarada Silva da CART 
1689, de seu nome completo José Ferreira da Silva (ex-Fur Mil Op Esp da CART 1689/BART 1913, Fá, Catió, Cabedu, Gandembel e Canquelifá, 1967/69)




Camaradas Graça e Vinhal
Junto algum material que pode ser aproveitado para encerramento do caso do
"pobre camarada de Crestuma que morreu na ponte de Boruntuma" (*). Façam o que
entenderem por mais conveniente.

Um grande abraço do Silva da Cart 1689






2. Festival de Bandas > Concerto da Banda Filarmónica de Crestuma (**)

Texto e fotos: Silva da CART 1689

Camarada Luís Graça

Agradeço o convite que me foi dirigido, para assistir ao concerto da Banda Filarmónica de Crestuma, que teve lugar no dia 23 de Outubro e do qual ainda não apresentei a respectiva reportagem. Mas, mais grato  fico ainda pela excelente noite que me foi proporcionada.

Quando cheguei ao Auditório Municipal de Gaia, fui recebido muito amavelmente pelo Presidente da Banda, Sr. José Campos. Teve logo o cuidado de me dizer:
- Se vier mais alguém do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné, eu tenho muito gosto em recebê-los e dar-lhes estes convites especiais.

Fiz-lhe ver que seria muito difícil, os tertulianos, deixarem as suas terrinhas e os seus netinhos (agora muito recomendados), para se deslocarem numa noite fria a Vila Nova de Gaia.

Efectivamente verifiquei que a fila A nos estava reservada. É uma boa casa para este tipo de espectáculos, um cómodo salão, apropriado para estes eventos. Apesar das tarefas inerentes a um bom anfitrião, o Presidente arranjou tempo para vir conversar comigo acerca do nosso blogue, do qual se manifestou muito conhecedor e  grato, e, também, acerca da sua Banda, que vive uma fase de grande desenvolvimento.

Fiquei a saber que a Banda é composta por 62 elementos, com a idade média de 23 anos e que cerca de 40% são jovens mulheres. Os mais jovens estudam música e,  de entre os mais velhos, há vários licenciados pelas Conservatórias de Gaia e do Porto. Por sua vez, o Maestro José Bovião Monteiro também é jovem, mas já possuidor de um excelente currículo musical.

O programa:

1ª Parte
Maribel – Fantasia Espanhola,  de Ferrer Ferran
Tannhauser – Abertura da Ópera,   de Wilhem Richard Wagner
La leyenda del Beso – Excertos da Zarzuela,  de Reveria Soutullo e Vert Juan

2ª Parte
Cassiopeia – Fantasia,  de Carlos Marques
Português Suave – Rapsódia, de Carlos Marques
Starts and Sripes Forever – Marcha,  de Jon Philip de Sousa

Eu, duro de ouvido e um leigo nesta matéria, devo confessar que me deliciei imenso com este espectáculo, especialmente aquando das interpretações da Zarzuela e da Rapsódia.
De realçar também, as intervenções do Maestro, nos intervalos, explicando as obras e falando sobre os compositores, numa evidente demonstração de   grande conhecimento sobre a matéria.

O Presidente da Banda informou-me ainda que espera preparar uma obra baseada nos poemas de Eugénio Paiva Freixo e na música de António Ferreira Alves, dois ilustres artistas de Crestuma.

Sempre que se fala de Crestuma, estes dois nomes surgem inevitavelmente. Por isso, também não posso alhear-me disso, até porque, possivelmente, não haverá outra oportunidade de falarmos de Crestuma.

Minha Terra

Coro 

Minha terra, minha terra!
Meu pequenino rincão!
Via-Sacra dos meus passos,
Pátria do meu coração!

Ó minha terra modesta!
És pequenina, que importa?
- Cada qual gosta da festa
Que se faz à sua porta... 

II

Ó terra de lenda, 
Paninho de renda,
Bordado por mãos de fada!
Tão bela e garrida,
És a minha vida, 

Ó minha terra adorada!

Crestuma formosa,
Meu botão de rosa
No perfume e no feitio!
Talvez sejas pobre
- Mas és a mais nobre
Das terras da beira-rio!


II

Tão fresca e singela,
És uma aguarela
Cheia de luz e pureza!
Quem te deu a graça,
Que por ti perpassa,
Foi Deus, com toda a certeza!

Terra que te enfeitas
Nas ruas estreitas
De raparigas aos molhos,
Assim pequenina
Tu és a menina
Das meninas dos meus olhos!


III
Terra de meus pais!
Da montanha ao cais,
Quem te desce, anda a rezar,
Como se quisesse
Contar numa prece,
Os degraus de algum altar!

Meu ninho adorado,
De céu anilado,
Gostar de ti, quem não há-de!
Coração em ânsia,
Tu és na distância,
A presença da Saudade!

IV

Crestuma gaiata
Que o Douro retrata
Na chapa das suas águas!
Das vidas sem preço
Tu é que és o terço
Onde os pobres rezam mágoas!

Meu lar, minha cruz,
Meu doce ai-Jesus,
Meu formoso amor-perfeito:
- Enquanto viver,
Crestuma, hás-de ser
O grande amor do meu peito!



Com um abraço do
Silva da Cart 1689

_____________

Notas de L.G.:


(...) [Teve mais de meia centena de comentários... Por exemplo:] 


silva da cart 1689 disse...




Desculpem, mas a povoação Crestuma/Lever não existe. Existem sim, estas duas vilas do concelho de Gaia. Esta ligação, muito utilizada por políticos e jornalistas, deve-se ao facto de ter havido uma "guerra de limites geográficos"( a tal que condicionou a tomada de posse de Mário Soares, devido ao boicote nas respectivas eleições), quando da construção da Barragem de Crestuma, dentro do limite de Lever.


Aí, nessa fronteira, quase despovoada, junto à Barragem, na curva mais larga, onde funciona o "Centro Regional de Trabalho das Meninas dos Palop", foi onde o meu conhecido António Camelo, de Lourosa, abandonou uma cadela chamada Irene que lhe chegou a casa prenha de caezinhos de várias cores. (...)


(**) Último poste desta série > 2 de Dezembro de 2010 > Guiné 63/74 - P7368: Agenda Cultural (92): Lançamento do livro Pelo sistema solar vamos todos viajar, de Regina Gouveia, dia 9 de Dezembro de 2010, no Porto


Guiné 63/74 - P7375: A última missão, de José Moura Calheiros, antigo comandante pára-quedista: apresentação do livro (3): Sítio promocional

Visite a página do livro «A Última Missão»


1. Duas mensagens que recebemos hoje, do autor de A Última Missão, José Moura Calheiros:




(i) Caro Amigo Luís: Informaram-me que esteve no lançamento do meu livro. No meio da balbúrdia que aquilo foi para mim,  por causa dos autógrafos, não sei se chegamos a falar.


Muito obrigado pela sua presença.


Penso que a leitura do meu livro vai ajudar a esclarecer algumas discussões travadas untre os membros da Tabanca Grande. Espero não vir a turvar as águas...


Não sei se é possível e se está de acordo com oos regulamentos do blogue, mas, caso seja, agradecia a divulgação deste meu site àcerca do livro.


Com um grande abraço, felicitações e boa sorte para o blogue.


Moura Calheiros


(ii) Caro Amigo Luís:  Vi o blogue e, pelas razões que já lhe referi, não poderei nunca intervir. A senhora que está na mesa é a Prof Doutora Eugénia Cunha, antropóloga, que foi a Coordenadora da Equipa Técnica da Missão a Guidage. 


Talvez tenha interese para o blogue, segue em anexo a intervenção de António-Pedro Vasconcelos, que é uma brilhante peça literária (*)

Com um abraço
Moura Calheiros

2. Visite a página do livro «A Última Missão»


Já à venda nas livrarias
Preço de capa: 27 €


Uma edição
CAMINHOS ROMANOS, Editora
Rua Pedro Escobar, 90 - R/C
4150 - 596 PORTO
Tel./Fax 220 110 532
Telemóvel 936 364 150
e-mail ac.azeredo@hotmail.


3. Comentário de L.G.:

Meu caro José: OK! Obrigado, tive pena de não ter estado consigo... Vi-o sempre muito atarefado, rodeado de amigos e camaradas... Fica para a próxima. Foi uma bela sessão. Cheguei um pouco tarde. Fiz alguns vídeos.  Sinta-se sempre à vontade para utilizar este mail para comunicarmos um com o outro. Tenho pena que não possa juntar-se a este grupo de camaradas e amigos da Guiné, mas entendo as suas razões.
Vou naturalmente divulgar o seu site, como faço com todos os blogues e sítios sobre a guerra da Guiné (1961/74)...  Vou também ler o seu livro com apreço e atenção.

Um Alfa Bravo. Luís Graça

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Nota de L.G.:

Guiné 63/74 - P7374: Blogpoesia (91): Peregrinação (Manuel Maia) (3): Cabo Miliciano, o eterno explorado


1. Mensagem de Manuel Maia* (ex-Fur Mil da 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4610, Bissum Naga, Cafal Balanta e Cafine, 1972/74), com data de  2 de Dezembro de 2010:

Carlos,
Aqui vão mais umas quantas na sequência do título acima referenciado.

abraço.
manuelmaia


PEREGRINAÇÃO - 3

A peregrinação foi nacional
da Cava Viriato à capital,
do Alentejo, Évora tão bela...
Quartel que foi convento em tempos idos,
formou um Batalhão de destemidos,
bem dentro da antiga cidadela...


José Pinheiro, à altura, Coronel,
pugnava p`lo acesso a Furriel
do Cabo Mil, eterno explorado...
E deste Comandante de Unidade,
histárias mil se contam, em verdade,
um militar à antiga, algo alquebrado...


Recordo em certo dia, reunião,
dos graduados, todo o Batalhão,
a quem na entrada é imposta a hierarquia...
Por ordem decrescente, fora claro,
e acabaria por fazer reparo
a Sargento que entrou, hora tardia...


- Que tempo tens de tropa ó moleza?
- De forma aproximada, ou com certeza?
responde com pergunta, alvo visado...
- Já mais de trinta levo de missão!
- Os postos conhecer, é obrigação!
Perdeste a alocução, ó atrasado!!!


A alocução ( leitura de uma carta...)
das muitas que ele envia, "que se farta",
para a tutela sobre os cabos mil...
Divisas amarelas, vencimento
de acordo com o curso de sargento,
chefias o rotulam de senil...


Dos cabos mil, amigo, ao que constava,
por genro que as vermelhas "ostentava"
ter curto p`ra família, o vencimento...
Bem cedo nos concede a promoção,
um mês, talvez, `ind`antes d`avião,
nos conduzir p`ra guerra/sofrimento...


D`injustiçados chama a si defesa,
talvez por ter sentado à sua mesa,
o genro, cabo mil, lá se dizia...
O posto, era uma lusa "inventona",
"colhão de galo ao preço de mijona"
(com uvas faço aqui a analogia...)

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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 28 de Novembro de 2010 > Guiné 63/74 - P7353: Blogpoesia (90): Peregrinação (Manuel Maia) (2): Regimento das Beiras, Montes Hermínios, RI 14 de Viseu

Guiné 63/74 – P7373: Estórias do Zé Teixeira (39): O medo do terrífico telegrama (José Teixeira)

1. Mensagem de José Teixeira* (ex-1.º Cabo Enf.º da CCAÇ 2381, Buba, Quebo, Mampatá e Empada, 1968/70), com data de 2 de Dezembro de 2010:

Caríssimos editores
Junto mais um pequeno artigo com uma história verdadeira

Abraço
Zé Teixeira




Estórias do Zé Teizeira (37)

O medo do terrífico telegrama

Naquele dia 8 de Fevereiro de 1970, uma mãe esquecida do quadragésimo oitavo aniversário, preparava o almoço para os três filhos. Um quarto estava ausente na Guiné. Este, tinha feito 23 anos dois dias antes.

Era comum juntar-se a família no dia oito e cantarem-se os parabéns em duplicado. Apenas se mudavam as velas no bolo que aquela mãe, analfabeta, cozinhava com todo o carinho.

Seriam umas onze da manhã, quando o carteiro bateu à porta. Trazia um pequeno papel rectangular dobrado em quatro e tinha como destinatário o nome daquela mulher.

- D. Rita assine aqui em como recebeu.

- Mas… eu não sei assinar - retorquiu aquela mãe, com o coração já em sobressalto.

Uma vizinha prontificou-se a assinar a rogo. O carteiro foi-se embora e aquela mãe tremia de medo, com a mensagem que supunha vir dentro do malfadado papel.

- Ai que o meu filho morreu. Foi o seu primeiro pensamento.

Largou os chinelos. Com o papel junto ao coração desata a correr descalça, rua acima até ao emprego da filha, a cerca de dois quilómetros.

Chega ao destino esbaforida e sem forças, as lágrimas correm-lhe pela face.

Pede para lhe chamarem a filha. Queria ser ela a primeira a saber da sorte do seu filho.

Ao ver a filha ao longe grita:

- Ai Lai que o teu irmão morreu!

- Morreu nada, minha mãe.

- Morreu, morreu. Chegou agora o telegrama.

A filha abre o terrífico papel.

PARABÉNS PELO SEU ANIVERSÁRIO
Assina - Armanda

- Oh minha mãe, então você não se lembra que faz hoje anos?! É um telegrama da Armanda (a namorada do filho) a dar-lhe os parabéns.

- É isso que diz aí?

- É minha mãe. É o que está aqui escrito.

- GRAÇAS A DEUS.

Aquela mãe, era a minha mãe.

E eu dou Graças a Deus por poder contar, hoje, esta pequena, mas verdadeira história.

Zé Teixeira
__________

Notas de CV:

(*) Vd. poste de 15 de Novembro de 2010 > Guiné 63/74 - P7287: Ser solidário (95): Com a abertura do poço em Amindara, todos ficam a ganhar (José Teixeira)

Vd. último poste da série de 14 de Agosto de 2009 > Guiné 63/74 – P4819: Estórias do Zé Teixeira (36): Mataram o futuro (José Teixeira)

Telegrama não original, composto pelo editor para esta história

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Guiné 63/74 - P7372: (De) Caras (6): Convidado por Moura Calheiros para o lançamento do seu livro, A Última Missão, Manecas dos Santos, veterano do PAIGC, diz que "cada um de nós estava a cumprir o que era o seu dever" (Diário de Notícias, de 30/11/2010)


Manecas dos Santos, antigo comandante do PAIGC, o homem dos Strela... Diário de Notícias, 30 de Novembro de 2010. Recorte que nos foi enviado por José Moura Calheiros, o autor de A Última Missão (Porto, Editora Caminhos Romanos, 2010) (*) (**).


____________

Notas de L.G.:

(*) Vd. poste de 2 de Dezembro de 2010 > Guiné 63/74 - P7371: A última missão, de José Moura Calheiros, antigo comandante pára-quedista: apresentação do livro (2): Excerto de Discurso do autor

(**)  Último poste da série > 21 de Outubro de 2010 > Guiné 63/74 - P7154: (De) Caras (5): Silate Indjai, um dos primeiros guerrilheiros do PAIGC a entrar em Guileje, dirige agora os trabalhos de detecção e limpeza de UXO (Pepito)

Guiné 63/74 - P7371: A última missão, de José Moura Calheiros, antigo comandante pára-quedista: apresentação do livro (2): Excerto de Discurso do autor



Amadora > Aquartelamento da Academia Militar > Grande Auditório > 29 de Novembro de 2010 > Intervenção, em último lugar, do autor do livro, A Última Missão, José Moura Calheiros, Cor Pára Ref, depois da apresentação a cargo do realizador de cinema António-Pedro de Vasconcelos (*). Editora: Caminhos Romanos, Porto.


 O título do livro é inspirado na missão, que o coronel chefiou, em Março de 2008, de recuperação dos restos mortais de três soldados pára-quedistas mortos em combate e inumados, em Guidaje, em 23 de Maio de 1973, no perímetro do aquartelamento... Recorde-se aqui os seus nomes: o Manuel da Silva Peixoto, de 22 anos, natural de Vila do Conde; o José de Jesus Lourenço, de 19 anos, natural de Cantanhede; e o António das Neves Vitoriano, de 21 anos, natural de Castro Verde. Um quarto militar da CCP 121, gravemente ferido, acabou por morrer em Bissau.  Os restos mortais de outros camaradas nossos, do exército, em nº de sete, também foram exumados nessa ocasião, em Março de 2008. A missão foi igualmente apoiada pela Liga dos Combatentes, e contou com uma equipa técnico-científica de 3 antropólogos forenses, 1 geofísico e 1 arqueóloga (Conceição Maia, irmão do sold pára Vitoriano)

Essa missão acabou por levar o antigo oficial pára-quedista, José Moura Calheiros, oriundo da Academia Militar, a rever os seus anos de guerra em África, em três teatros diferentes (Angola, Moçambique e Guiné), por ele duramente vividos , com o todo o seu cortejo de boas e más memórias.

Video (13'  32''): © Luís Graça (2010). Alojado em You Tube Nabijoes. Todos os direitos reservados.



«(…) Não se arrisca nada se se disser que A ÚLTIMA MISSÃO, com a sua boa escrita, amplo desenho, factos fortes e consistência, é a melhor peça memorialística sobre a nossa última guerra. Assim, com este seu livro inaugural sobre a guerra que levou ao Fechamento, José de Moura Calheiros, rematando um arco de séculos, ajuda a fechar bem o trabalho iniciado pelos cronistas da Expansão. Mas o valor desta obra não se esgota no reforço da nossa debilitada tradição memorialística, reside também no facto de ser uma resposta da realidade real à altura da melhor realidade imaginada – Nó Cego, de Vale Ferraz, A Costa dos Murmúrios, de Lídia, e Jornada de África, de Alegre – sobre a Guerra Colonial, como a Esquerda lhe chama, ou Guerra do Ultramar, como a Direita prefere.» (...)  (Rui de Azevedo Teixeira, prefaciador da obra)




1. Sinopse da obra (da responsabilidade da Editora Caminhos Romanos-Unipessoal, Lda., com sede no Porto; contacto do editor,  António Carlos Azeredo, na ausência de sítio na Internet:ac.azeredo@hotmail.com)


(i) Em 1973 o autor prestava serviço no Batalhão de Caçadores Pára-quedistas 12 (abreviadamente, BCP 12), com sede na BA 12,  Bissalanca (Guiné)


(ii) Em 23 de Maio desse ano, numa operação por si comandada e tendo como missão atingir e reforçar a guarnição de Guidaje, cercada pelo PAIGC, a Companhia de Pára-quedistas 121 (abreviadamente, CCP 121) sofreu quatro mortos, dos quais três tiveram que ser inumados num cemitério localizado na cerca do aquartelamento daquela localidade;


(iii) Trinta e cinco anos depois, em Março de 2008, o autor regressa à Guiné integrado numa Missão da Liga dos Combatentes destinada a exumar, em Guidaje, os cadáveres daqueles três militares pára-quedistas e de outros sete do Exército;


(iv) O autor conta-nos toda a problemática relacionada com a expedição: os antecedentes, a preparação e o seu desenrolar;


(v) Simultaneamente descreve o ambiente da Guiné de hoje comparando-o com o do tempo da guerra; os usos, costumes e religiões da região de Farim e Guidaje; o sentimento da população em relação ao antigo colonizador; as mágoas dos guineenses antigos militares portugueses por Portugal os ter enganado e abandonado; conversas com velhos guerrilheiros do PAIGC, etc.;


(vi) Ao longo da missão ocorrem situações que lhe fazem recordar o passado, o tempo da guerra; nestes momentos de rebuscar das memórias “assistimos” à evolução da guerra, bem como à do pensamento do autor e do sentimento da população portuguesa em relação a ela;


(vii) Pela ordem temporal das sucessivas comissões, descreve e caracteriza os três Teatros de Operações, sempre como pára-quedista:


(viii) Angola, primeiro, para onde vai cheio de entusiasmo, ideais e utopias, certo de que a guerra seria ganha depressa; os cuidados com a família, o choque com o clima, a grandiosidade de África; a ambientação ao capim e à mata; o encontro com a guerra, ainda mais horrível do que imaginara; a surpresa com as condições de vida das populações refugiadas nas matas; a progressiva perda das ilusões e do entusiasmo com que partira da Metrópole;


(ix) A segunda comissão,   Moçambique; o título do capítulo é sugestivo: “Moçambique, o sacrifício maior”;  drandes distâncias, operações muito prolongadas, falta de meios de apoio; a sede, uma tortura, o maior flagelo; as minas, outro flagelo; a tragédia que foram os Postos Avançados de Combate, instalados como se de uma guerra clássica se tratasse; a operação Zeta, um sucesso que esteve prestes a ser uma grande tragédia;


(x) Por fim, a Guiné, a terceira comissão; a aparente abundância de meios, para quem viera de Moçambique; as primeiras impressões, muito favoráveis, do ambiente social e militar; a degradação progressiva da situação militar a partir da morte de Amílcar Cabral;


(xi) Mais: a “caça” à delegação que a ONU enviara à Guiné; a operação "louca" de protecção ao Comandante-Chefe nas conversações de Cap Skirring; a reocupação do Cantanhez, no sul (Operação Grande Empresa, uma grande, delicada e muito bem sucedida operação); 


(xii) E ainda: os mísseis terra-ar Strela, a procura de aviões abatidos e de restos de mísseis para identificar o utilizado pelo PAIGC; a crise nas fronteiras da Guiné (Maio - Junho de 1973), os dias mais críticos de toda a guerra; a Norte, o prolongado cerco de Guidaje e as sangrentas batalhas travadas em seu redor; a Sul, o terrível assédio a Gadamael, um inferno, ocorrido após a retirada de Guileje (em 22 de Maio de 1973);


(xiii) Os sentimentos dos combatentes nas diversas fases dos com bates e nas pausas da guerra...


 A ÚLTIMA MISSÃO é um livro de sentimentos, os dos soldados e os dos Comandantes, estes nas suas angústias, dúvidas e responsabilidades, enquanto chefes e homens.


Toda esta história real é contada a par da descrição da juventude e da preparação militar dos três Páras inumados em Guidaje e da sua actividade na CCP 121,  a que pertenciam.O livro dá-nos uma noção muito real da forma como os Pára-quedistas actuavam em operações, dos seus sentimentos em cada circunstância e de como era a vida numa Unidade de Intervenção de excelência – o BCP 12. E, também, da idiossincrasia dos Páras portugueses, dos seus valores, ideais e princípios.


____________


Nota de L.G.:


(*) Vd. poste de 29 de Novembro de 2010  > Guiné 63/74 - P7359: A última missão, de José Moura Calheiros, antigo comandante pára-quedista: apresentação do livro (1): Intervenção do cineasta António-Pedro Vasconcelos