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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27720: Casos: a verdade sobre... (63): o "cemitério de Cheche"

Foto nº 1A, 1B, 1 > Guiné > Região do Boé  >  "Cemitério à beira do Rio Cheche" (sic)... Estranha (e perturbante) foto do Arquivo Amílcar Cabral, sem legenda nem uma data precisas (1963-1973)... Estas cruzes só podem ser de militares portugueses, mortos por afogamento na travessia do Rio Corubal, em Cheche, em 6/2/1969... Devem ser captadas por gente do PAIGC.  Parecem ser 11 campas improvisadas, 8 assinaladas com cruzes de ferro e 3  em madeira.

Fonte: Instituição:Fundação Mário Soares e Maria Barroso | Pasta: 05360.000.124 | Título: Cemitério à beira do rio Cheche | Assunto: Cemitério à beira do rio Cheche, Guiné-Bissau | Inscrições: Cheche. | Data: 1963 - 1973 | Fundo: DAC - Documentos Amílcar Cabral | Tipo Documental: Fotografias |

(1963-1973), "Cemitério à beira do rio Cheche", Fundação Mário Soares / DAC - Documentos Amílcar Cabral, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_43446 (2026-2-9)
Foto nº 2 > Guiné > Região do Boé  > Cheche > Parecem ser restos do destacamento de Cheche, abandonado pelas NT em 6/2/1969, aquando da retirada de Madina do Boé.  A sua missão era proteger a jangada que fazia a cambança do rio Corubal. Ficava na margem esquerda. Chegou a lá haver uma pequena povoação.

Instituição: Fundação Mário Soares e Maria Barroso | Pasta: 05360.000.251 | Título: Depósito de combustível, em Cheche | Asunto: Depósito de combustível, em Cheche, localidade junto ao Rio Corubal. | Inscrições: Cheche | Data: 1963 - 1973 | Fundo: DAC - Documentos Amílcar Cabral | Tipo Documental: Fotografias

(1963-1973), "Depósito de combustível, em Cheche", Fundação Mário Soares / DAC - Documentos Amílcar Cabral, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_43064 (2026-2-7)



Guiné > Região de Gabu > Carta de Jábia (1961) > Escala 1/50 mil > Posição relativa de Ché Ché, na margem esquerda do Rio Corubal.  (Habituámos-nos a a grafar o topónimo como "Cheche". Mas na carta de Jabiá vem Ché Ché.)

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)


1. Ao que parece não foram resgatados nenhum corpos das 47 vítimas, por afogamento, na travessia do rio Corubal, em Cheche, na manhã,  de 6/2/1969, quinta feira. Foi a última travessia efectuada. A coluna (5 dezenasd de vituras) seguiu para Nova Lamego:

(...) " O Comandante da Operação  [cor inf Hélio Felgas] não permitiu que as duas Companhias [CCAÇ 1790 e CCAÇ 2405] permanecessem no Ché Ché para tentarem recuperar o maior número de corpos possíveis, seguindo por isso logo para Nova Lamego" (...).(*)

O cor inf Hélio Felgas, mais tarde, em 1995, já brigadeiro na reforma, escreveria:

(...) Aguardámos horas, com o helicóptero sobrevoando o local na esperança de localizar alguns dos desaparecidos. Dois ou três bons nadadores também mergulharam na zona onde acorrera o acidente. Nada foi encontrado.(...) (**)

No dia 20, quinta feira, duas semanas depois depois (!),  é que alguns corpos (11)  serão  resgatados a  jusante: a dúvida é saber exatamente em que local do rio.

No dia 20 de fevereiro de 1969, uma equipa de mergulhadores-sapadores da armada, após várias operações de busca, a cerca de 400 m a  jusante do local do acidente,  terão conseguido resgatar  os restos mortais de 11 militares (de resto, irreconhecíveis)

Outra dúvida: teriam sido, ou não, seguidamente helitransportados para Bissau e sepultados no cemitério municipal, no talhão dos combatentes ? Ficaram as cruzes e levaram os restos mortais dos nossos camaradas  ? Não nos parece. Os corpos deviam estar em adiantado estado de putrefacção.

E já agora: porquê 8 cruzes de ferro e 3 de madeira ? Teriam sido trazidas de Bissau, obviamente, as cruzes de ferro (que são do mesmo modelo das  usada no talhão dos combatentes portugueses,  no Cemitério Municipal de Bissau). E essas só podem ter sido colocadas pelas NT.

As cruzes de madeira temos que admitir que tenham sido improvisadas por gente da população local, fula, que conheciam os "tugas" antes da independência. De qualquer modo,  a foto  nº 1 tem se ser da época do acidente (1969). O Arquivo Amílcar Cabral só contempla imagens e outros documentos com datas até 1973 (ano da morte de Amílcar Caberal). Por outro, é de todo improvável  que estass inprovisadas e precárias  sepulturas tenham sobrevido às cheias que vieram logo a seguir, na época das chuvas de 1969.


Guiné-Bissau > Bissau > Cemitério Municipal > Talhão Militar Central > Abril de 2006 > Monumento que celebra os soldados portugueses, mortos nas diversas "campanhas de pacificação" da Guiné, desde a Campanha do Geba (1890) à Campanha do Cuor (1907/08), passando pelas Campamhas do Oio e Bissorã (1913), onde se destacou o Capitão Diabo, Teixeira Pinto. Este cemitério tem três talhões, reservados aos combatentes portugueses mortos em campanha).

Foto ( e legenda): © Hugo Costa (2006).Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

Mais provável é que que  o brigadeiro  Spínola (acompanhado de um  capelão de Bissau) tenha  assistido a esta delicada operação, como de resto era sua intenção,  operação que foi enquadrada por fuzileiros especiais e terá tido forte apoio aéreo.

Estas 11 cruzes da foto nº 1 vêm baralhar a nossa narrativa, também por causa da sua localização...  A foto do Arquivo Amílkcar Cabral tem como legenda: 

"Cemitério à beira do Rio Cheche" (sic).

Ora, não há nenhum rio Cheche, perto do local onde se deu o acidente. Há vários afluentes do rio Corubal, a montante e a jusante de Cheche (vd. carta de Jábai): o mais perto, é o rio Campossabane, a 600 metros,  a montante; a jusante, temos o rio Cambengoi (ou Cambengol), a 3,5 km;  o rio Canchã, a 7,5 km; e o rio Ché Ché Piri, muito mais longe, depois de várias curvas e contracurvas  do Corubal (vd. carta de Padada). Todos afluentes deste.

As cruzes foram colocadas pelos fuzileiros que terão recuperam alguns corpos, no dia 20 de fevereiro de 1969. Irreconhecíveis.

 A legenda deve, pois, estar errada. O rio Ché Ché Piri, afluente do Rio Corubal, ficava a jusante do local da tragédia, uns largos quilómetros abaixo. 

A seguir a Ché-Ché, uns 4 km, no sentido jusante, o rio Corubal fazia uma curva de 90 graus. A corrente deve ter arrastado os corpos. As margens aqui eram altas, cota 40/50. Estamos na época seca, o rio tem muito menor caudal, mas mesmo assim  a corrente era forte, segundo os testemunhos da época.


Guiné > Região de Gabu > Carta de Padada (1959) > Escala 1/50 mil > Posição relativa de Burmeleu, do  rio Ché Ché Piri, e de um troço do rio Corubal,  largos quilómetros a jusante do antigo destacamento de Ché Ché (na estrada Nova Lamego - Madina do Boé)

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)


De qualquer modo, esta foto deve ter sido tirada por alguém do PAIGC e enviada para Conacri. É a única referência (mesmo que indireta) que encontrei, no Arquivo Amílcar Cabral, a esta brutal tragédia que nos enlutou.

Há cinco referências a Cheche  (topónimo) no Arquivo Amílcar Cabtral:
  • as duas que publicamos acima (fotos nºs 1 e 2);
  • e, por fim, uma mensagem urgente do Secretário Geral, para o Boé, com data de 29 de janeiro de 1971, com informações sobre "uma grande ofensiva militar portuguesa no Boé (concentração das forças inimigas em Cheche)", solicitando-se ao Humberto e ao Silvino preparação cuidadosa da defesa da região e ligação permanente com o Secretariado Geral.
O erro no título ("Cemitério à beira do Rio Cheche" também pode ser imputado, eventualmente, aos ténicos da Fundação Mário Soares que trataram o Arquivo Amílcar Cabral. Mas inclinamo-me mais para a hipótese de ter sido legendada por gente do PAIGC, que conhecia mal o nome dos rios naquela zona. 

O António Rosinha reconheceu o local, onde esteve em 1986: ficaria a " montante da jangada menos de 100 metros na margem esquerda do rio" (!)... e não a jusante, como imaginávamos nós...(afinal, todos os rios correm para foz).

A haver ali um rio era o  o rio Campossabane, a montante,  a meio quilómetro de Cheche (segundo a carta de Jábia).  

2. Já tínhamos publicado em tempos esta foto (nº 1) que mereceu diversos comentários de dois  camaradas que conheceram a zona (*)

De qualquer modo, Cheche era  passagem obrigatória para quem vinha de Nova Lamego até Madina do Boé (e Guiné-Conacri) passando por Canjadude, sede da CCAÇ 5 (Os Gatos Pretos, a que pertenceu o fur mil trms José Martins, 1968/70). 

E a verdade é que ainda hoje não há ponte nenhuma, ali, no Cheche, para facilitar as comunicações com  o país vizinho. E, se calhar ainda bem (por razões ambientais).

(i) O nosso camarada José Martins pode esclarecer-nos melhor sobre onde terá sido tirada a foto.

(...) Esta foto, para mim, não é só surreal como ofensiva. A zona de Burmeleu, a jusante do Cheche, não tem as margens como a imagem sugere.

A tragédia ocorreu no rio Corubal e não no Rio Ché Ché Piri. Acho muito estranho que os militares do PAIGC, mesmo depois da independência, fossem retirar cruzes das campas dos militares portugueses, para as colocar ali.

Alguns corpos foram recolhidos por guineenses, mas não prestariam esta homenagem, até porque ocuparam o espaço de cemitérios com novas moranças, como se viu em reportagens televisivas, na zona de Bafatá. (...)

(ii) O Antº Rosinha que foi cooperante na Guiné, como topógrafo, depois da independência,  conheceu o local (em 1986):

(...) penso que aquele lugar fica a montante da jangada menos de 100 metros na margem esquerda do rio.

Evidentemente que ali não há cemitério nenhum. Pode ter havido ali algum tipo de cerimónia de militares nas margens do rio, como se costuma fazer de pôr uma cruz e flores à beira da estrada onde morre de acidente um familiar.

Aquele rio chega, ou chegava quando a Guiné estava mais longe do deserto que é hoje, a ter cheias em que esse lugar está debaixo de água.

Este acidente deu-se no tempo seco, e as chuvas começam em maio /junho (e vão até outubro/novembro),.

Ali é difícil o acesso às margens junto à agua, devido aos grandes arbustos que se debruçam sobre a água, e aquele lugar (que é igual àquele que eu penso) é alcantilado (arriba) mas sem os tais arbusto fechados.

Conheço bem o lugar, porque trabalhei como cooperante das Obras Públicas vários dias a tentar pôr aquela jangada e seus acessos funcionais, em 1986.(...)


(Não sei se é verdade tudo o que eu digo, mas o que digo é apenas o que vejo)

A imagem que se consegue ver no Google é apenas em cheias, pelo que não se vê este pormenor da margem que eu digo.

Mas a foto ou foi tirada de canoa ou de algum bote de fuzileiros, pois como se vê aquilo é uma arriba de dificil acesso, mesmo para uma foto, quanto mais para fazer sepulturas.

Em arribas não se fazem cemitérios, embora lá se encontrem dinossauros.

Contemos a história, e em memória dos que morreram, mesmo sem pôr cruzes, afirmar que não foram eles os culpados de haver tantos guineenses junto ao arame farpado de Ceuta. (...)

sábado, 6 de fevereiro de 2016 às 11:20:00 WET

Enfim, fica aqui o desafio aos nossos leitores para trazerem novos contributos para o esclarecimento deste "misterioso cemitério de Cheche"(***). 


terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27565: Casos: a verdade sobre ... (61): Aldeia Formosa / Quebo é atacada ou flagelada pelo menos 7 veses em 1969 e 1971, em pleno consuklado Spinolista: em 7/3/69, 8/3/69, 21/3/69, 9/7/71, 11/7/71, 31/7/71, 12/8/71... E continuou a ser atacada ou flagelada em 1972... Faz sentido continuar a considerar o Cherno Rachid como um "agente duplo" ?




Guiné > Região de Tombali > Sector S2 _ Aldeia Formosa > 1973 > Vistra aérea do aquartelamento, tabanca e aeródromo. Crédito fotoghráficio: José Mota Veiga (JMV).. Edição e legtendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2025).




"Dia sete bombardeamos o campo fortificado de Quebo, com dois morteiros oitenta e dois, quarenta  obuses às onze da noite. Acção pelo camarada (...)"

Fundação Mário Soares e Maria Barroso | Pasta: 07200.170.066 | Título: Mensagem - Boké | Assunto: Bombardeamento do quartel de Quebo | Data: Sexta, 7 de Março de 1969  | (...) Fundo: DAC - Documentos Amílcar Cabral

(1969), "Mensagem - Boké", Fundação Mário Soares / DAC - Documentos Amílcar Cabral, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_40660 (2025-12-22)




"Dia oito nossa artilharia atacou quartel de Quebo com dois morteiros oitenta e dois e quarente cinco obuses às sete da noite. Acção dirigida (...). 8/3/69".


Fundação Mário Soares e Maria Barroso | Pasta: 07200.170.065 | Título: Mensagem - Candiafará | Assunto: Comunica o ataque da artilharia do PAIGC ao quartel de Quebo. | Data: c. Sábado, 8 de Março de 1969 | (...) Fundo: DAC - Documentos Amílcar Cabral (...)


(1969), "Mensagem - Candiafará", Fundação Mário Soares / DAC - Documentos Amílcar Cabral, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_40659 (2025-12-22)




"Dia 21 - Bombardeamenti ao Quebo com dois morteiros Stop Gastamos 33 obuses.Às cinmdo da tarde. Dirigiu ação Nocolau Andrade. 1/4/69"

Fundação Mário Soares e Maria Barroso | Pasta: 07200.170.053 | Título: Mensagem [Frente Sul] | Assunto: Bombardeamento de Quebo (dirigido por Nicolau Andrade) pela artilharia do PAIGC. | Data: Terça, 1 de Abril de 1969 | (...).Fundo: DAC - Documentos Amílcar Cabral (...)


(1969), "Mensagem [Frente Sul]", Fundação Mário Soares / DAC - Documentos Amílcar Cabral, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_40647 (2025-12-22)



(...) "Dia 9/7 - Sabotagem contra Quebo com canhões 75 Stop Opração dirigida Blokpaz Nandenhe, Mora Na Logna, Malan Camara. Dia 11/7 - Sabotagem contra Quebo com canhões 75 Stop Operação dirigida Blokpaz Nandenhe, Malan Camaram Stop Pires. 12/7/71."


Fundação Mário Soares e Maria Barroso | Pasta: 07200.170.017 | Título: Comunicado - Candjafara | Assunto: Mensagem de Pedro Pires para Amílcar Cabral comunicando o ataque do PAIGC ao quartel de Quebo, nos dias 9 e 11 de Julho. | Data: Segunda, 12 de Julho de 1971 | (...) Fundo: DAC - Documentos Amílcar Cabral (...)


(1971), "Comunicado - Candjafara", Fundação Mário Soares / DAC - Documentos Amílcar Cabral, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_40614 (2025-12-22)




"Pires, dia 12 nossa artilharia bombardeou cmpo fortificdao de Quebo utilizando uma peça canhão 75 (...) com 15 obuses às 6 horas da tarde Stop Dirigiu a ação camarada Júlio Mendonça Stop Buotcjha. Candiafra, 13/8/71, Manuel da Silva"

 
Fundação Mário Soares e Maria Barroso | Pasta: 07200.170.021 | Título: Mensagem [Frente Sul] | Assunto: Mensagem de Buota N'Batcha para Pedro Pires comunicando o bombardeamento do quartel de Quebo pela artilharia do PAIGC. | Data: Sexta, 13 de Agosto de 1971 | (...).Fundo: DAC - Documentos Amílcar Cabral (...)


(1971), "Mensagem [Frente Sul]", Fundação Mário Soares / DAC - Documentos Amílcar Cabral, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_40618 (2025-12-22)

 

(...) " 31/7 Bombardeado Quebo Grad Stop Esperamos informações Stop Dirigido  Júlio de Carvalho, Joãozinho Yala e N'Quesna N'Puam Stop Pires. 2/8/71" 


Fundação Mário Soares e Maria Barroso| Pasta: 07198.168.041 | Título: Comunicado - Candjafara | Assunto: Mensagem de Pedro Pires comunicando o bombardeamento do quartel de Quebo, dirigido por Júlio de Carvalho, Joãozinho Yala e N'Quesna N'Puam (refere a utilização do sistema GRAD). | Data: Segunda, 2 de Agosto de 1971 | (...) .Fundo: DAC - Documentos Amílcar Cabral (...)
 
(1971), "Comunicado - Candjafara", Fundação Mário Soares / DAC - Documentos Amílcar Cabral, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_40598 (2025-12-22)


1. Aldeia Formosa (para as NT) ou  Quebo  (para o in) é atacada ou flagelado pelo menos 7 veses em 1969 e 1971, em pleno consulado  Spinolista, em:

  •  7/3/69, 
  • 8/3/69, 
  • 21/3/69, 
  • 9/7/71, 
  • 11/7/71, 
  • 31/7/71, 
  • 12/8/71... 
2. Em 1972 (e até ao fimda gierra), Aldeia Formosa continuou aq ser um objetivoo militar importante tanto para as NT como para o PAIGC. No livro da CECA sobre a atividade operacional no CTIG, pode ler-se:

(...) Em Agosto (de 1972), destacam-se as flagelações contra as posições das Nossas
Tropas em Olossato, na zona Oeste, Bafatá na zona Leste e Aldeia Formosa (4
vezes), Catió (4 vezes) e Bedanda (3 vezes) na zona Sul. (pág. 122)

(...) O ln implantou 47 engenhos explosivos sofreu 24 mortos, 14 feridos e
3 capturados e manteve uma actividade dinâmica com emprego de foguetões
122mm nos ataques aos aquartelamentos das Nossas Tropas em Aldeia Formosa,
Catió e Empada. O aquartelamento de Tabanca Nova, na zona Sul, foi
atacado cinco vezes. (pp. 122/123).

Excertos de: Estado-Maior do Exército; Comissão para o Estudo das Campanhas de África (1961-1974). Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África; 6.º Volume; Aspectos da Actividade Operacional; Tomo II; Guiné; Livro III; 1.ª Edição; Lisboa (2015),  

Pergunto: faz sentido continuar a considerar o Cherno Rachid como um "agente duplo" ? Seriam estes ataques ou flagelações  apenas "manobras de diversão" ? 

Se o Cherno Rachide fosse uma peça importante do xadrez políticvo-militar do partido do Amílcar Cabral, por certo que o poupariam (pu arranjaraiam maneira de o levar para sítio "mais seguro", talvez do outro lado da fronteira... 

Mas não, o aquartelamento e tabanca de Aldeia Formosa /Quebo  é atacado com morteiro 81, canhão s/r 75, sistema Grad (os foguetões de 122 mm, o "jacto do povo")... A vida do Cherno Rachide esteve em risco por diversas vezes nestes ataques e flagelações. Portanto, Aldeia Formosa nunca foi um "santuário das NT". (Segundo o José Teixeira, o homem jogava com um pau de dois bicos, teria um sobrinho como comandante nas tropas do PAIGC, e os artilheiros do IN  nunca apontavam as armas para a tabanca... Ou então eram os "amuletos" do Califa que, segundo os meus soldados da CCAÇ 12, neutralizavam os ataques do IN.)

Não há mais registos, no Arquivo Amílcar Cabral, de ações militares do PAIGC contra Aldeia Formosa / Quebo onde vivia o Cherno Rachid, figura grada (e veneranda) do islamismo sunita na então Guiné Portuguesa... 

O que se terá passado para o PAIGC começar a bombardear n este importante quartel das NT, localizado junto à fronteira com a Guiné-Bissau, alienando o alegado apoio do Cherno Rachide ?  Parece yer havido um período de tréguas até 1969... 

O alargamento da pista de Aldeia Formosa (que passou a aeródromo), o início da construção da estrada Aldeia Formosa-Mampatá - Buba e da estrada Aldeia Formosa - Cumbijã - Nhacobá, o reforço dos meios militares do Sector S2 (CCAÇ 18, antiaéreas, etc.,  mais de 500 homens em armas, sob a dependenència do CAOP1, com sede em Cufar) são reveladores da importància estratégica de Aldeia Formosa (cuja conquista chegou a estar na mira de Amílcar Cabral, em vez de Guileje).

_________________

Nota do editor LG:

Último poste da série > 10 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27514: Casos: a verdade sobre... (60): Não se faz a guerra sem álcool (nem tabaco)

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Guiné 61/74 - P27412: Armamento do PAIGC (10): Pistola-metralhadora Samopal vz25, de origem checa, ou a M-25, ("Merengue", na gíria do IN, por influência cubana)




Pistola-metralhadora  M-25 ("Merengue"), de origem checa ("Samopal")


Guiné > Região de Tombali >  Ilha do Como > c. 1964 > Guerrilheiros do PAIGC, empunhando pistolas-metralhadoras M-25", cal 9 mm ("Merengue")  e PPSh", cal 7,62mm ("Pachanga", ou "costureirinha", na gíria das NT); do lado direito, distingue-se, em tronco nu,  João Bernardo  'Nino' Vieira, na ilha de Como, Frente Sul. Náo se sabe se a foto foi tirada antes, durante ou depois da Op Tridente. É mais provável  que seja do ano de 1963, pelo ar "desportivo" do grupo,  a fazer um crosse matinal, ou a posar para a fotografia, para o álbum do Amílcar Cabral ( será que o tratavam por senhor engenheiro ?)
 


1.  Através do Formulário de Contacto do Blogger, um nosso leitor pediu-nos que confirmassemos  se esta arma, cuja foto se publica acima, era usada na Guiné pelo PAIGC, no nosso tempo:

Data - sexta, 3/10/2025, 18:20

Segundo pesquisa na Net, que me deu "uma trabalheira",  a arma parece não constar das listagens habituais, trata-se de uma pistola metrelhadora Samopal, vz25.

Deixo o link da arma:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Sa_vz._23

 Sobre a arma:
  • o que me surpreendeu ao pesquisar a identificação dela foi a sua ausência das listagens consultadas na Net;
  •  no mesmo site encontra-se uma foto de 'Nino' Vieira com o seu grupo, curiosamente todos com a mesma arma, ou suas variantes

2. Comentário do editor LG:

2.1. Também sou de opinião que se trata de ums pistola-metralhadora checa, Sa vz25, "Samopal". Dispunha de  uma coronha de metal dobrável, disparava a munição 9×19mm Parabellum. Era em tudo é idêntica à Sa 23 (exceto da coronha, que era de madeira). e usando os mesmos carregadores de 24 e 40 tiros.

Gostava de ouvir a opinião do nosso especialista em armamento, o Luís Dias. Para já, recorri à minha assistente de IA / ChaGPT. Face às duas fotos que lhe mandei, não teve dúvidas em dar a sua opinião ponderada:

(..) Pela forma geral — receptor tubular curto, carregador recto montado à frente da empunhadura, coronha metálica dobrável para o lado e empunhadura/pega frontal dobrável — trata-se muito provavelmente de uma Samopal checoslovaca da família Sa vz.23 / Sa vz.25 (às vezes referido como CZ-23 / CZ-25, exportado como “Sa” ou “Samopal” nos catálogos da época).

Por que acho isto provável:

  • a posição do carregador (à frente da pega) e o aspecto geral lembram os desenhos da família vz.23/25, que foram amplamente exportados pela Checoslováquia na década de 1950–60;

  • a coronha metálica que dobra para o lado e a pega vertical rebatível são soluções técnicas presentes nesses modelos;

  • o PAIGC recebeu armamento do bloco de leste (inclu9indo a então  Checoslováquia) durante a guerra colonial, pelo que a captutra de um Sa vz.23/25 em 1964 é compatível com a proveniência e a cronologia.

Grau de certeza: provável, mas não definitivo. Existem variantes e cópias regionais/industriais e a família vz.23/25 teve pequenas diferenças entre versões de fábrica e exportação. Para confirmação absoluta, o ideal é verificar:

  • marcas e punções no receptor (normalmente código do fabricante e modelo);

  • formato exacto do carregador (capacidade e encaixe);

  • calibre estampado no cano/receptor (7,62×25 Tokarev foi comum em alguns modelos, mas havia variantes noutros calibres). (...)

(Pesquisa: LG / Assistente de IAS / ChatGPT)

(Condensação, revisão / fixaçãod e texto: LG)


2.2. Tudo indica que esta Sa vz25 seja a M-25 ("Merengue", na gíria do PAIGC, por influência cubana) que consta da relação a seguir:


Relação de material capturado  ao PAIGC  até 1964 >  (...) Pistolas-Metralhadoras: Modelo | País de oirgem

  • "M-23", cal 9 mm ("Rico") | Checoslováquia
  • "M-25", cal 9 mm ("Merengue") |  Checoslováquia
  • "PPSh", cal 7,62mm ("Pachanga", "Metra") | URSS
  •  "PPS SUDAYEF", cal 7,62mm | URSS, China
  • "THOMPSON", cal 1l,4mm ("Rico Thompson") | USA - China
  • "MP-40", cal 9mm | Alemanha Oriental
  • "SCHMEISSER" | Alemanha Oriental
  • "BERETA" | Itália
  • "UZI" | Israel 
  • "FBP" | Portugal

Fonte: Excertos de: Estado-Maior do Exército; Comissão para o Estudo das Campanhas de África (1961-1974). Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África; 6.º Volume; Aspectos da Actividade Operacional; Tomo II; Guiné; Livro I; 1.ª Edição; Lisboa (2014), pp. 290/291 (Com a devida vénia...).

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2024

Guiné 61/74 - P25143: Recordando o Amadu Bailo Djaló (Bafatá, 1940 - Lisboa, 2015), um luso-guineense com duas pátrias amadas, um valoroso combatente, um homem sábio, um bom muçulmano - Parte XLIII: Nuvens negras (maio / junho de 1974): ameaças e promessas do PAIGC em relação aos 'colaboracionistas'


Casa Comum | Instituição: undação Mário Soares |  Pasta: 05222.000.069 | Título: João Bernardo Vieira, João da Silva e Maximiano Soares da Gama | Assunto: João Bernardo Vieira [Nino], membro do Conselho de Guerra e do Bureau Político do PAIGC, João da Silva e Maximiano Soares da Gama| Data: 1963 - 1973 | Fundo: DAC - Documentos Amílcar Cabral | Tipo Documental: Fotografias 

Citação: (1963-1973), "João Bernardo Vieira, João da Silva e Maximiano Soares da Gama", Fundação Mário Soares / DAC - Documentos Amílcar Cabral, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_43797 (2024-2-6) (Com a devida vénia...Há um primeiro elemento, à esquerda do 'Nino' Vieira,  que não está idenmtificado... O João da Silva é o terceiro elemento.



Casa Comum | Instituição: Fundação Mário Soares|  Pasta: 07198.169.175 | Título: Guia de remessa | Assunto: Envio de 20 caixas com obuses de RPG 7 da delegação do PAIGC em Boké para o depósito de Candjafara. Guia assinada por Antero Alfama | Data: Quarta, 27 de Dezembro de 1967 | Observações: Doc. incluído no dossier intitulado Guias de remessa (armas, viaturas, etc.) 1967-1971.| Fundo: DAC - Documentos Amílcar Cabral | Tipo Documental: Documentos.

Citação: (1967), "Guia de remessa", Fundação Mário Soares / DAC - Documentos Amílcar Cabral, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_40398 (2024-2-6) (Com a devidfa vénia...)


1.  Estamos a chegar ao fim. Estas são algumas das derradeiras páginas ("Depois do 25 de Abril, outros encontros", pp. 276/280) das memórias do Amadu Djaló (Bafatá, 1940-Lisboa, 2015), reproduzidas a partir do manuscrito, digitalizado, do seu livro "Guineense, Comando, Português: I Volume: Comandos Africanos, 1964 - 1974" (Lisboa, Associação de Comandos, 2010, 229 pp, il., edição esgotada) (*).

O nosso  camarada e amigo Virgínio Briote, o editor literário ou "copydesk" desta obra,  facultou-nos uma cópia digital. O Amadu Djaló, membro da Tabanca Grande, desde 2010, tem já perto de 120 referências no nosso blogue. Tinha um 2º volume em preparação, que a doença e a morte não  lhe permitaram ultimar. As folhas manusctrias foram entregues ao  Virgínio Briote com a autorização para as transcrever. Desconhecemos o seu conteúdo, mas já incentivámos o nosso coeditor jubiliado a fazer um derradeiro esforço para  transcrever, em word, o manuscrito do II volume (que ficou, naturalmente,  incompleto). O Virgínio Briote deu-nos "luz amarela" a esta nossa sugestão... Vamos estar atentos à nossa caixa de correio...


Capa do livro do Amadu Bailo Djaló,
"Guineense, Comando, Português: I Volume:
Comandos Africanos, 1964 - 1974",
Lisboa, Associação de Comandos,
2010, 229 pp, + fotos, edição esgotada.



O autor, em Bafatá, sua terra natal,
por volta de meados de 1966.
(Foto reproduzida no livro, na pág. 149)

Síntese das partes anteriores:

(i) o autor, nascido em Bafatá, de pais oriundos da Guiné-Conacri, começou a recruta, como voluntário, em 4 de janeiro de 1962, no Centro de Instrução Militar (CIM) de Bolama;

(ii) esteve depois no CICA/BAC, em Bissau, onde tirou a especialidade de soldado condutor autorrodas;

(iii) passou por Bedanda, 4ª CCaç (futura CCAÇ 6), e depois Farim, 1ª CCAÇ (futura CCAÇ 3), como sold cond auto;

(iv) regressou entretanto à CCS/QG, e alistou-se no Gr Cmds "Os Fantasmas", comandado pelo alf mil 'cmd' Maurício Saraiva, de outubro de 1964 a maio de 1965;

(v) em junho de 1965, fez a escola de cabos em Bissau, foi promovido a 1º cabo condutor, em 2 de janeiro de 1966;

(vi) voltou aos Comandos do CTIG, integrando-se desta vez no Gr Cmds "Os Centuriões", do alf mil 'cmd' Luís Rainha e do 1º cabo 'cmd' Júlio Costa Abreu (que vive atualmente em Amesterdão);

(vii) depois da última saída do Grupo, Op Virgínia, 24/25 de abril de 1966, na fronteira do Senegal, Amadu foi transferido, a seu pedido, por razões familitares, para Bafatá, sua terra natal, para o BCAV 757;

(viii) ficou em Bafatá até final de 1969, altura em que foi selecionado para integrar a 1ª CCmds Africanos, que será comandada pelo seu amigo João Bacar Djaló (Cacine, Catió, 1929 - Tite, 1971)

(ix) depois da formação da companhia (que terminou em meados de 1970), o Amadu Djaló, com 30 anos, integra uma das unidades de elite do CTIG; a 1ª CCmds Africanos, em julho, vai para a região de Gabu, Bajocunda e Pirada, fazendo incursões no Senegal e em setembro anda por Paunca: aqui ouve as previsões agoirentas de um adivinho;

(x) em finais de outubro de 1970, começam os preparativos da invasão anfíbia de Conacri (Op Mar Verde, 22 de novembro de 1970), na qual ele participaçou, com toda 1ª CCmds, sob o comando do cap graduado comando João Bacar Jaló (pp. 168-183);

(xi) a narrativa é retomada depois do regresso de Conacri, por pouco tempo, a Fá Mandinga, em dezembro de 1970; a companhia é destacada para Cacine [3 pelotões para reforço temporário das guarnições de Gandembel e Guileje, entre dez 1970 e jan 1971]; Amadu Djaló estava de licença de casamento (15 dias), para logo a seguir ser ferido em Jababá Biafada, sector de Tite, em fevereiro de 1971;

(xii) supersticioso, ouve a "profecia" de um velho adivinho que tem "um recado de Deus (...) para dar ao capitão João Bacar Jaló"; este sonha com a sua própria morte, que vai ocorrer no sector de Tite, perto da tabanca de Jufá, em 16 de abril de 1971 (versão contada ao autor pelo soldado 'comando' Abdulai Djaló Cula, texto em itálico no livro, pp.192-195) ,

(xiii) é entretanto transferido para a 2ª CCmds Africanos, agora em formação; 1ª fase de instrução, em Fá Mandinga , sector L1, de 24 de abril a fins de julho de 1971.

(xiv) o final da instrução realizou.se no subsector do Xitole, regulado do Corunal, cim uma incursão ao mítico Galo Corubal.

(xv) com a 2ª CCmds, comandada por Zacarias Saiegh, participa, em outubro e novembro de 1971, participa em duas acções, uma na zona de Bissum Naga e outra na área de Farim;

(xvi) em novembro de 1971, participa na ocupação da península de Gampará (Op  Satélite Dourado, de 11 a 15, e Pérola Amarela, de 24 a 28);

(xvii) 21-24 dezembro de 1971: Op Safira Solitária: "ronco" e "desastre" no coração do Morés, com as 1ª e 2ª CCmds Africanos  (8 morts e 15 feridos graves);

(xviii) Morés, sempre o Morés... 7 de fevereiro de 1972, Op Juventude III;

(xix) o jogo do rato e do gato: de Caboiana a Madina do Boé, por volta de abril de 1972;

(xx)  tem um estranho sonho em Gandembel, onde está emboscado très dias: mais do que um sonho, um pesadelo: é "apanhado por balantas do PAIGC";

(xxi) saída para o subsetor de Mansoa, onde o alf cmd graduado Bubacar Jaló, da 2ª CCmds Africanos, é mortalmente ferido em 16/2/1973 (Op Esmeralda Negra);

(xxii) assalto ao Irã de Caboiana, com a 1ª CCmds Africanos, e o cap cav 'cmd' Carlos Matos Gomes como supervisor;

(xxiii) vamos vê-lo a dar instrução a futuros 'comandos' no CIM de Mansabá, na região do Oio, no primeiros meses do ano de 1973, e a fazer algumas "saídas" extras (e bem pagas) com o grupo do Marcelino, ao serviço do COE (Comando de Operações Especiais), que era então comandado pelo major Bruno de Almeida; mas não nos diz uma única sobre essas secretas missões; ao fim de 12 anos de tropa, é 2º sargento e confessa que está cansado;

(xxiv) antes de ir para CCAÇ 21, como sede em Bambadinca, como alferes 'graduado" (e sob o comando do tenente graduado Abdulai Jamanca, ainda irá participar na dramática Op Ametista Real, contra a base do PAIGC, Cumbamori, no Senegal, em 19 de maio de 1973;  esta parte do seu  livro de memórias  (pp. 248-260) já aqui foi transcrita no poste P23625;

(xxv) no leste, começa por atuar no subsetor do Xime, em meados de 1973;

(xxvi) em setembro de 1973, quando estava em Piche, já na CCAÇ 21, recebe a terrível notícia da morte do seu querido irmão mais novo, Braima Djaló, da 3ª CCmds;

(xxvii)  embora amargurado com a morte do seu irmão mais novo, e cansado, ao fim de 12 anos de tropa e de  guerra, o Amadu Djaló mantem-se na CCAÇ 21, como alferes graduado; vemo-lo agora no início de 1974 em Canquelifá, em reforço da CCAÇ 3545 / BCAÇ 3883 (1972/74);

(xxviii) a CCAÇ 21 está no leste, na região de Gabu, ao serviço do CAOP2, e mais exatamente em Canjufa, quando sabe da notícia do golpe de estado do 25 de Abril em Lisboa; só no dia 27, de manhã, regressa a Bambadinca, onde estava sediada;

(xxix)  ainda antes da extinção da CCAÇ 21 e do  Batalhão de Comandos da Guiné, o Amadu Djaló encontra-se com alguns responsáveis do PAIGC, logpo am maio/junho de 1974: o cabo-verdiano Antero Alfama, em Bambadinca e Xima, e depois na fronteira com o Senergal, com o João da Silva e com o Pedro Nazi...



Recordando o Amadu Bailo Djaló (Bafatá, 1940 - Lisboa, 2015), um luso-guineense com duas pátrias amadas, um valoroso combatente, um homem sábio, um bom muçulmano - Parte XLIII

Nuvens negras (maio / junho de 1974): ameaças e promessas do PAIGC em relação aos 'colaboracionistas' (pp. 276/280)


Nunca mais vou viver dias assim. Depois de sabermos que tinha havido um golpe militar em Lisboa, aqueles dias a seguir não sei bem como os descrever. Nos últimos dias de abril ou princípios de maio de 1974, encontrei-me frente a frente com o PAIGC, com o cabo-verdiano Antero Alfama, um bom homem. [Em finais de 1967, era delegado do PAIGC em Boké.] 

Na altura ainda todos, brancos e pretos, tinham armas nas mãos.

O Antero Alfama perguntou-me quem eu era, como me chamava. Eu estava acompanhado por um furriel da nossa companhia, a CCaç 21, e no grupo também se encontravam alguns furriéis, cabos e soldados de Bambadinca, negros, da nossa companhia africana.

Abri a conversa assim:

 − A nossa maior preocupação é que nós somos irmãos, andámos na guerra durante muitos anos, houve um muro entre nós que foi agora derrubado. Precisamos de falar com vocês, para nos aproximarmos.

No local estava muita gente e cada vez se juntavam mais pessoas. Então fomos para outro lado, com aquela gente toda atrás de nós.

Antero olhou-me e disse:

 − Olha, Amadu, nós não temos militares, o que temos é guerrilheiros. Amanhã, para formar o Exército da Guiné vocês vão ser precisos. Têm formação militar completa, o que os nossos homens ainda não têm.

O que acabava de me dizer podia ser verdadeiro, mas pareceu-me mais uma saída política. E a conversa, que foi muito amigável, terminou com a promessa de nos voltarmos a encontrar.

No segundo contacto fui com o alferes Sada Candé 
[da CCAÇ 21] ao Xime [onde estva aquartelada a CCAÇ 12], tivemos conhecimento que o Antero Alfama ia lá estar e fomos procurá-lo. Encontrámo-lo, falou connosco e recebeu-nos com boas maneiras.

Depois Alfama foi para Bafatá fazer reuniões com a população e pediu-me, a mim e a outro companheiro meu, que servíssemos de intermediários entre ele e a população. Não tinha ainda suficiente confiança no povo, desconfiava que podia estar gente ligada à DGS que o pudesse matar.

Quatro anos depois, já depois da independência, Antero disse-me que não podia fazer nada por nós, que o Buscardini[1] e o Constantino Teixeira não estavam de acordo com as ideias dele e que tinha pedido transferência para Cabo Verde.

Cassama, um soldado nosso do esquadrão de Bafatá, tinha tido a sorte de, tempos atrás, ter ganho a lotaria nacional e pediu para sair da tropa. Com o dinheiro que lhe saiu,  comprou uma carrinha
[ de caixa aberta]  aberta e passou a utilizá-la no transporte de pessoas e cargas entre Bafatá e Cambajo, na fronteira.

Um dia encontrou o alferes Demba Chamo Seca e disse-lhe que tinha estado com o comandante João 
 [da] Silva[2] e que ue lhe tinha dito que precisava de falar com alguns oficiais dos Comandos africanos. 

Por mim, não via inconveniente, tinha até interesse em ouvir o que tinha para nos dizer. O Demba concordou e ficou combinado encontrar-nos no dia seguinte à noite.

Um problema familiar imprevisto impediu a ida do Demba, mas ele apareceu à hora combinada, entregou-me a fotografia dele e disse que o que eu combinasse ele assinava também, que procedesse como se ele estivesse presente. 

Vesti-me à civil, tomei lugar na carrinha e rumámos a Cambajo. Daqui fomos a pé até a uma tabanca senegalesa.

À minha frente estava um homem de aspecto afável, mais ou menos da minha idade, o comandante João Silva, um balanta muito prestigiado entre o PAIGC. Apertámos as mãos e convidou-me a acompanhá-lo.

Antes de mais, disse-lhe que me representava a mim e ao Demba, que por impedimento familiar não podia estar presente e entreguei-lhe a fotografia, conforme o Demba me tinha pedido. 

 − Faça de conta que o Demba está aqui comigo  − acrescentei.

Entrámos numa sala, eu, Cassama, o motorista que me tinha levado, o Maude Embaló, conselheiro, um comissário político que não me lembro do nome, o comandante João da Silva, o Pedro Nazi, responsável pela segurança da zona,  e vários soldados armados do PAIGC.

Depois de ter dito o meu nome, que era alferes dos Comandos africanos, feita a minha apresentação, o João da Silva virou-me para o Pedro Nazi e disse-lhe:

 
 − Então, já ouviste?!   − e  convidou-o a falar.

Durante alguns momentos houve ali uma hesitação, o militar, o João da Silva, queria que fosse o segurança a falar primeiro, o homem da segurança, o Pedro Nazi, queria que fosse o militar a abrir a conversa. 

Resolvida esta cerimónia, o Pedro Nazi começou assim:

 
− Está bom. As minhas palavras… eu não tenho muito a dizer. Este camarada que está aí sentado nunca se lembrou que este dia chegava. Para mim, Pedro Nazi, um trapo no ombro não me engana para matar os meus irmãos. Branco não me enganava com dinheiro na mão para eu matar os meus irmãos. Os Comandos fizeram grandes crimes nas zonas libertadas. Se os Comandos entravam numa dessas zonas, essas zonas andavam a chorar três ou quatro meses, um pai que perdeu um filho, o filho que perdeu o pai, uma mulher que perdeu o marido, um homem que perdeu a esposa. Foram matanças, crimes! Os brancos têm número de militares superiores a nós, os brancos têm carros, carros de combate, aviões, mas Deus deu-nos razão e os brancos perderam a guerra, agora hoje está aí sentado para falarmos de Guiné! Ele nunca pensou, nunca passou pela cabeça dele que algum dia viria ter connosco para falarmos da nossa terra, da Guiné. Eu já falei o que tinha a falar.

Então quando João da Silva se estava a preparar para falar, eu, que fiquei muito chocado com as palavras do Pedro Nazi, disse:

 
− Desculpa, João, eu quero responder às palavras que ouvi. 

E enfrentei os olhos do Pedro Nazi:

 Camarada Pedro, é ainda muito cedo para falar da maneira que o camarada falou agora. Muito cedo. Nós não viemos cá saber o que se passou. Porque se nas zonas libertadas vocês apresentam mil órfãos,  nós também vos mostramos órfãos aqui na zona. O chicote da guerra é comprido, muito comprido. Quando quer bater no inimigo também pode tocar em inocentes. Não levámos em consideração os órfãos e as viúvas que vocês fizeram cá. Foi a guerra. Tenho a certeza que as bombas que vocês lançaram em Bafatá, aquelas bombas mataram população inocente. A vossa ideia era matar militares, mas mataram civis. Nós, quando entrámos nas zonas libertadas, quando havia disparos contra nós, disparámos também e matámos civis. O povo das zonas libertadas não nos pode julgar porque sempre considerou os militares como criminosos e por isso quando viam tropa fugiam. E o povo das zonas urbanas também não vos pode julgar, nem considerar o PAIGC criminoso. Por isso, vamos deixar esta parte de lado, camarada.

Logo, João da Silva, gritou: "Viva PAIGC, viva PAIGC!" e as pessoas que estavam com ele gritavam: "Viva PAIGC!"...

E João da Silva continuou:

Hoje fiquei satisfeito, já sei que nós vamos ter a independência [estavam a decorrer as negociações de paz, bilaterais, primeiro em Londres e depois em Argel] .

Temos homens como este no Exército Português, que reconhece o passado, porque nós não somos militares, somos guerrilheiros. Exército são eles. Este irmão esteve onze anos num lado, eu estive no outro, um contra o outro. Ele não morreu até hoje, eu também não, estamos aqui sentados a conversar, o que nós pedimos é que não haja mais motivos para ele ou eu fazermos mais guerra. Fiquei muito satisfeito. A única coisa que peço ao camarada é coragem, é coragem que eu te peço.

Com as palavras do comandante João da Silva fiquei mais satisfeito, mais aliviado, mas houve uma altura, quando estava a falar o Pedro Nazi, eu perguntei a mim próprio, por que é que eu tinha vindo. O Cassama, o motorista que me tinha levado e que estava sentado ao meu lado num banco comprido, quando comecei a falar,  vi-o escorregar do banco para o chão e enfiar a cabeça entre as mãos.

No fim do encontro, Cassama estava com pressa de sair dali.

- Vamos embora, vamos regressar. Tenho que levar os sapatos que o João da Silva me encomendou porque não lhe servem, tenho que trazer o outro número ainda hoje. Vamos, Amadu.

João da Silva, o Pedro Nazi e a comitiva acompanharam-nos até à fronteira. Apertámos as mãos e abraçámo-nos. Recordo que Pedro me recomendou coragem.

Este encontro ocorreu em fins de maio ou nos primeiros dias de junho 
[de 1994] .

(Continua)
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Notas do autor ou do editor literário, Virgínio Briote:

[1] Nota do editor: António Buscardini, depois da Independência, foi considerado por muitos como um dos principais responsáveis (juntamente com Constantino Teixeira) pelas prisões e pelos fuzilamentos sumários que ocorreram durante 1975, de militares e civis que tinham colaborado com as tropas portuguesas.

Na sequência do golpe de 1980, que levou 'Nino' Vieira ao poder, esteve preso dois anos. Na altura em que foi detido, era o Secretário-Geral do Comissariado de Estado do Interior. Morreu de doença, pouco tempo depois. 

(Virgínio: esta informação é falsa; o Buscardini morreu na noite do golpe de Estado de 14/11/1980. LG)

[2] Do PAIGC, que tinha feito a guerra na zona nordeste, na fronteira com o Senegal.

(Seleção, fixação / revisão de texto, negritos, links, fotos, notas adicionais entreparènteses retos, título, subtítulo, síntese das partes anteriores: LG)
___________

terça-feira, 16 de janeiro de 2024

Guiné 61/74 - P25076: Memórias cruzadas: o que o PAIGC sabia sobre Bubaque, em 1969... "O antigo governador Schulz ia lá de vez em quando, com outros militares e algumas mulheres. O atual governador nunca lá esteve morado. Foi só visitar."...


Guiné-Bissau > Arquipélago dos Bijagós > Ilha de Bubaque > 1978  >  O "Palácio do Estado" (hoje, 2024, em completa ruína)... Edifício da época colonial, de arquitetura alemã,conhecido também como "Palácio do Governador"... Do lado esquerdo,  uma outra casa que terá sido construida, para efeito de lazer,  para os oficiais superiores portugueses...  ("Foto tirada pelo médico cirurgião Dr. Luís Tierno Bagulho. c. 1974/75, como cooperante, já falecido"). Cortesia de Patrício Ribeiro (*)


Guiné-Bissau > Arquipélago dos Bijagós > Ilha de Bubaque > Dezembro de 2023 > O "Palácio do Estado" "ou "Palácio do Governador", hoje uma total ruina...


Foto (e legenda): © Patrício Ribeiro (2024). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


ORGANIZAÇÃO, FORNAÇÃO POLÍTICA E IDEOLÓGICA
2-12-69
Audição de camaradas vindos de Bijagós
(A láspis,no alto da folha,está escrito: "Informações recolhidas pelo camarada Vasco Cabral")


(...) BUBAQUE não tem quartel. Tem lá padres italianos (2) e co-
merciantes cabo-verdianos, que são 4. Um deles, sabe-se de certeza
que é contra o Partido e está como empregado encarregado da
Casa Gouveia em Bubaque. A loja da Gouveia vende tecido, compra
coconote, compra óleo de palma. Vende também arroz.
 

Há 3 tugas que trabalham na fábrica de extração de óleo de 
palma. Esta fábrica pertenceu em tempos aos alemães. Esses
tugas estão armados com armas de defesa pessoal - pistolas.
Estão em Bubaque uns 10 cipaios que se enontram armados 
de carabinas Mauser, mas só usasm as armas em momentos
de serviço. O serviço de vigilância é montado poe 2 cipaios : um que circula 
na ilha eoutro que monta a guarda à Administração. Drante o
dia não usam armas no seu serviço. De noite usam as armas.
Por volta das 10h da noite o cipaio da guarda à Administração
custuma ir dormir. Mss o cipaio que vigia a iha faz  ua roda
até de manhã.

De uma maneira eral as pessoas da ilha são favoráveis ao Partido.







ORGANIZAÇÃO, FORNAÇÃO POLÍTICA E IDEOLÓGICA
3-12-69
Audição de camaradas vindos de Bijagós

(...) 2. BUBAQUE - Está contra o Partido um comerciante cabo-verdiano de     
[nome 
Juca Ferraz que pertence à Pide. Também pertence  à
à Pide um outro empregado cabo-verdiano de nome Alberto
dos Santos.

Cada cipaio trabalha 24 h seguidas: das 7h da manhã de um 
dia às 7h da manhã do dia seguinte.

As tabancas grandes têm um nº de pessoas que oscila



entre 600 e 1 000.

Há um outro elemento favorável ao Partido e que ouvia frequente-
mete as nossas emissões. Trata-se de Luís de Barros, empregado da Casa
Espinheiro [? ] .

Há carreiras turística de avião e de barco que vêm de Bissau para
gente visitar as praias ao fim de semana. Em geral, trata-se de oficiais do Exér-
cito português que aí vão com as suas famílias. Às vezes, alguns, aproveitando
o tempo de férias ou gozando um certo tempo de licença, permanecem 15 dias e
até um mês. Existe em construção ainda uma casa destinada a albergar esses
oficiais. Trata-se de um edifício em  3 blocos, cada um com uns 4 quartos,
o que perfaz um total de 12 quartos. Situa-se à beira-mar.

Há também cerca deste edifício a casa do Governador da Guiné que já
está pronta. Trata-se de uma casa grande com 4 grandes quartos, também


está na praia. O antigo governador Schultz  [sic, Schulz ]   ia lá 
de vez  em quando,
com outros militares e algumas mulheres. O atual governador nunca lá
esteve morado. Foi só visitar. (*)

Uns aspirantes [cadetes ] da Marinha, um grupo vindo 
de  Portugal,  comeram  lá perto por altu- 
ras do mês de março e abril. Comeram numa pensão à beira-mar que é des-
tinada aos turistas e que foi construída pelos alemães. Esta casa pertence
ao Estado, mas é explorada comercialmente por um tal Teodoro Romano Pe-
reira.  Há ainda mais 2 casas semelhantes a esta, que pertencem ao
Estado e onde moram os empregados portugueses da Fábrica de Extração de
Óleo de Palma, em nº de 3, havendo um outro ainda de nome Lourenço de Pina.

  [ Seleção, edição,  transcrição, revsão / fxação de texto, parênteses retos: LG ]

Citação:
(1969), "Informações sobre o Arquipélago dos Bijagós. Organização, formação política e ideológica dos Bijagós", Fundação Mário Soares / DAC - Documentos Amílcar Cabral, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_41391 (2024-1-16) (Com a devida vénia...)

Fonte: Casa Comum | Instituição: Fundação Mário Soares
Pasta: 07073.128.006 | 
Título: Informações sobre o Arquipélago dos Bijagós. Organização, formação política e ideológica dos Bijagós. | Assunto: Informações de carácter militar, extraídas da audição com os "camaradas" vindos dos Bijagós, sobre Soga, Bubaque, Formosa, Uno, Caravela, Orango, Orangozinho, Canhabaque, Galinhas e Uracane. Organização e formação política e ideológica dos Bijagós, manuscritos por Vasco Cabral. | Data: Terça, 2 de Dezembro de 1969 | Observações: Doc. incluído no dossier intitulado Relatórios 1965-1969. | Fundo: DAC - Documentos Amílcar Cabral | Tipo Documental: Documentos.

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Nota do editor:

(*) Vd. poste de 15 de janeiro de  2024 > Guiné 61/74 - P25073: Bom dia desde Bissau (Patrício Ribeiro) (32): Os encantos e os mistérios da ilha deBubaque (incluindo o "Palácio do Governador", hoje em total ruína, onde o PAIGC quis matar Spínola)