(i) Em Bissau: a cena do monóculo que já todos conhecem! (*)
A menina Cremilde, da loja do oculista, corou de vergonha e escangalhou-se a rir depois do gen Spínola abandonar o estabelecimento!
(ii) No Hospital Militar de Bissau no princípio da comissão.
Na visita a uns camaradas com ferimentos ligeiros após um contacto com o IN, na zona de Binar, deparei-me com a seguinte situação:
Nesse ano o MNF (Movimento Nacional Feminin) oofereceu-nos a todos, uma cigarreira de plástico, um isqueiro a gasolina, uma Gillette e um pincel, lembram-se?
Na mesma enfermaria, estava internado um camarada com as duas pernas amputadas, com uma resiliência e disposição muito acima do normal para a situação em que se encontrava! Dizia ele que tinha ficado ainda com os braços para nos abraçar!
Entram elementos do MNF em visita de circunstância e perguntam se tínhamos gostado das lembranças de Natal, daquele ano.
Antes de nos manifestarmos, dizem as distintas senhoras:
Diz um dos presentes:
— Mas, olhem, minhas senhoras, o nosso General não fuma e não tem barba!...
Risada geral!
(iii) Em Capunga
Estando na parada do aquartelamento, vejo chegar num jipe o nosso general e o major Marcelino (não o da Mata), numa visita ao reordenamento das Tabancas.
Gritei para o Furriel mais velho, que estava jogando à bola.
— Despacha-te que vem aí o Maior.
Nas apresentações da praxe pergunta o general:
Resposta pronta:
— Não, meu general, o nosso alferes foi a Bula com uma secção buscar água.
— Pois olhe: você tem mais cara de alferes do que muitos que para aí temos...
Lá foi a comitiva ver o reordenamento...
(iv) Em Bissum
Numa das visitas do nosso general à Tabanca, acompanhado de um membro (ou representante) do Governo Brasileiro, aproveitou para fazer uma visita ao aquartelamento.
De passagem pela padaria, o nosso cabo ofereceu-lhe um pão. Depois de o apreciar, elogiou o produto em voz alta, entregando-o em seguida ao ajudante de campo.
Retorquiu o nosso cabo:
— Meu general, se vier cá amanhã ainda estará melhor!
— Adeus, rapaz, então até amanhã!
(v) Em Bissum
Fui avisado da chegada do nosso general ao aquartelamento. Ordenaram-me para ir com uma secção limpar a pista (enxotar as vacas!) e fazer a segurança.
Nos cumprimentos da praxe, mediu-me de cima a baixo!
O meu camuflado tinha mais adesivos do que tecido!
À partida a mesma cena, na observação do fardamento, sem qualquer comentário.
Na despedida disse-lhe:
— Meu general, peço-lhe desculpa pela apresentação, estamos há semanas a aguardar fardamentos.
Continência...
— Bom regresso a Bissau, meu general.
Passados poucos dias chegaram numa DO-27 os fardamentos (coincidências!...)
(vi) Nota final (**)
Almeida Bruno e Marcelino (não o da Mata), que a revista francesa Paris Match filmou, em que houve, infelizmente, também baixas do nosso lado.
Dos contactos pessoais e institucionais que tive com o general António de Spínola, encontrei um cidadão simples, educado, trato normal, sem imposturices, apesar da distância entre patentes e, a outros que estavam presentes, o verdadeiro cabo-de-guerra. O respeito foi sempre muito bonito!
Hoje, penso que se a sua chegada à Guiné tivesse ocorrido dois ou três anos antes a entrega da província ao PAIGC teria sido completamente pacífica. Todos ganharíamos, exceptuando aqueles em que a guerra foi um negócio!
Esta é a minha opinião.
Agora um facto muito interessante, pessoal e reservado, que quero partilhar. Os protagonistas já cá não estão. Felizmente, o autor da obra (um cartum...) ainda está entre nós, a quem pedi autorização para o divulgar.
Passei quarenta anos da minha vida ligada à avicultura, numa empresa que pulverizou o país de pequenas empresas que se tornaram grandes e, outras enormes!
Foi um viveiro (hoje incubadora) para que muitas atingissem uma dimensão nacional e ibérica importante.
Depois do regresso a Portugal do gen Spínola, no mandato do Gen Ramalho Eanes, então Presidente da República, se bem se lembram, ocupava o seu tempo da forma que melhor entendia, reservando uma parte à equitação, não fosse ele da distinta Arma de Cavalaria!
Dado que nós representávamos e explorávamos uma estirpe avícola de reprodutores Hubbard (pais dos frangos) americana, propriedade da Merck Sharp & Dome, ainda hoje líder do mercado mundial, numa conversa informal, no intervalo dos passeios equestres, ao almoço, quis saber pormenores da mesma.
O autor, audaz e de pensamento rápido, depressa imaginou passar à imagem o tema da conversa. Então pegou no seu lápis de carvão e fez o que a imagem nos transmite. O gen Spínola ao ver a obra, ficou deslumbrado e, imediatamente fez questão de a mandar emoldurar e colocá-la em sua casa!
Por este pormenor tão simples, humilde, sincero e generoso me apraz reafirmar a admiração que tive por ele.
Ficam de fora as questões políticas e outras que nada me impedem de reafirmar o que escrevi.
Um forte abraço para todos. António
(Revisão / fixação de textro, negritos, título: LG)
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Notas do editor LG:
Avisado depois de reparado o monóculo, foi ele mesmo levantá-lo com aquele seu ar austero, de camuflado engomado, sempre simpático para com as populações.
No a,to da entrega pergunta-lhe a empregada:
— Senhor Governador, quer que embrulhe ou leva no olho?
— Oh!, menina, dê-me cá o monóculo, que no olho levam vocês!...
A rapariga desmanchou-se a rir quando nos contou! (...)



