Guiné > Região do Óio > Porto Gole > Fevereiro de 1967 > A melhor foto de que dispomos, no blogue, sobre o gen Arnaldo Schulz, governador e comandante-chefe (1964/68): aqui sentado, ao lado do piloto do helicóptero; pronto a partir depois de visita a Porto Gole; no banco de trás, duas caixas de cerveja, Sagres e Cristal; à direita, o fur mil José António Viegas, do Pel Caç Nat 54, com camuflado paraquedista trocado com um camarada numa operação no Morés em outubro de 1966.
Esta foto, que nos mandou o Viegas, é "surrealista" ou "hilariante": duas caixas de cerveja, à temperatura ambiente (+ 30 graus!), era para matar a sede a quem ? A que desgraçados ? Ali, perto, mais a sudeste, talvez a malta do destacamento da Ponta do Inglês, na foz do rio Corubal, que sofria com a crónica falta de abastecimentos (feitos pela Marinha, através de LDP ou LDM).
Arnaldo Schulz (1910-1983), contrariamennte a António Spínola, não era um "populista", nem se preocupava muito com a sua imagem... Nem sequer em ser um "bem amado" entre a tropa... O que não quer dizer que não tenha sido um bom governador e até um melhor comandante-chefe. (Não sei, não sou do seu tempo.)
Foi, em todo o caso, escolhido a dedo, por Salazar: era um militar, do núcleo duro do regime, ex-Ministro do Interior, num dos períodos de forte repressão, depois do "tsunami" que foi a campanha eleitoral do gen Humberto Delgado... Schulz, é bom lembrá-lo, foi ministro das "polícias!" (incluindo a PIDE) entre novembro de 1958 e maio de 1961.
(...) Foi promovido a general em 1965. Em Setembro de 1965 esteve em Lisboa, afirmando então que a Guiné jamais deixará de ser portuguesa (...) Permaneceu naqueles cargos até 1968, vindo a ser substituído pelo então brigadeiro António de Spínola. A 18 de Março de 1968 foi feito Comendador da Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito." (...) (Fonte: Wikipedia > Armaldo Schulz)
Foto (e legenda) : © José António Viegas (2015). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]
1. Camaradas, conhecem alguma anedota do brigadeiro (e depois general, a partir de 1965) Arnaldo Schulz, governador e comandante-chefe na Guiné Portuguesa, substituído em maio de 1968 pelo brigadeiro António Spínola ?
Não, ninguém conhece. O que na tropa e na guerra, não é bom sinal... Um bom comandante militar , um general, um cabo de guerra, deixa saudades, boas memórias e, claro, anedotas, histórias de caserna. Lembremos algumas:
(i) Napoleão Bonaparte, talvez o general ou "cabo de guerra" com mais anedotas:
Quando lhe disseram que os Alpes eram impossíveis de atravessar, respondeu: “Então vamos passar por cima deles".
(ii) Arthur Wellesley, 1º Duque de Wellington, herói da Batalha de Waterloo (1815), mas tamb+em da guerra peninsular (1807-1814).
Era conhecido pelo humor tipicamente britânico. Uma das histórias mais citadas conta que, ao passar revista às tropas portuguesas pouco disciplinadas, terá dito: "Não sei se farão o inimigo fugir, mas certamente assustam-me a mim.”
(iii) George S. Patton, um dos generais americanos mais temperamentais da Segunda Guerra Mundial:
Era conhecido pela rudeza das frases que dirigia aos soldados: “Nenhum filho da puta venceu uma guerra morrendo pelo seu país. Venceu-a fazendo o outro filho da puta morrer pelo país dele.”
(iv) Bernard Montgomery, talvez o mais famoso general britânico da II Guerra Mundial, conhecido como a "raposa do deserto".
(iv) Bernard Montgomery, talvez o mais famoso general britânico da II Guerra Mundial, conhecido como a "raposa do deserto".
Era conhecido pela sua autoconfiança que roçava a arrogância. Numa receção com generais aliados terá: "Eu não durmo, não bebo, não fumo, não f*do e sou 100% eficiente e eficaz.” Ao que o Churchil, terá replicado: "Eu durmo, bebo, fumo, f*do e sou 200% eficiente e eficaz.”
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Arnaldo Schulz |
2. Contrariamente ao Sínola, as anedotas especificamente sobre (ou de) o general Arnaldo Schulz são poucas, diz a IA, mas entre antigos militares da Guerra da Guiné circulam algumas histórias contadas em tom humorístico. Muitas vezes são mais “histórias de quartel” do que anedotas p.d., transmitidas oralmente.
Antigos combatentes do seu tempo (1964-1968) são os primeiros a reconhecer quase não circulavam, na caserna, anedotas sobre Schulz, ao contrário de Spínola, o seu carismático sucessor, que gerou muitas histórias de caserna. Mesmo assim, há alguns episódios e comentários curiosos que funcionam quase como anedotas históricas.
(i) A frase famosa (“A Guiné jamais deixará de ser portuguesa”) que passou a "anedota histórica"
Quando era governador e comandante-chefe na Guiné Portuguesa (1964-1968), Schulz veio a Lisboa em setembro de 1965 e declarou (com convicção ? ou para agradar o poder político ?)
— A Guiné jamais deixará de ser portuguesa!!!
A frase tornou-se conhecida entre militares e políticos da época e, com o desenrolar da guerra e a independência em 1974, passou a ser repetida com alguma ironia histórica, um erro de prognóstico. Schul confundiu, deliberadamente ou não, o desejo com a realidade.
Entre antigos combatentes, muitas vezes é citada como exemplo de excesso de confiança (e senão mesmo de arrogància) do regime na altura.
Depois da independência da Guiné‑Bissau em 1974, a frase passou a ser repetida entre veteranos como uma anedota involuntária da História. Alguns diziam ironicamente:
— O general tinha razão… só se esqueceu de dizer “até 1974”.
(ii) A “anedota involuntária”: o contraste com Spínola
Uma história repetida em memórias de militares é esta comparação:
Schulz quase não visitava unidades no mato (para poupar gasolina);Spínola visitava-as frequentemente, de helicóptero (gastando uma pipa de massa: 15 contos à hora).
Por isso, dizia-se meio em tom de graça nas companhias:
"Com Schulz sabíamos que estávamos longe do palácio do Governador e do QG, na Amura. Com Spínola sabíamos que ele podia aparecer a qualquer momento do dia"... (E só não aparecia à noite porque os Helis AL III não voavam à noite.)
Não é uma piada clássica, mas uma observação humorística de quartel sobre estilos de comando que, numa guerra como a da Guiné, fazia toda a diferença.
(iii) O dois em um
Quando foi nomeado em maio de 1964, Schulz acumulou duas funções ao mesmo tempo: governador da província e comandante-chefe das forças armadas
Isso era invulgar no império colonial português, criado para evitar conflitos entre autoridades civil e militar na guerra da Guiné (o governador anterior a ele tinha sido o Vasco António Martins Rodrigues, capitão-de-mar-e-guerra, entyre 1961 e1965; e o comandante-chefe, o brigadeiro Fernando Louro de Sousa, de 19/3/1963 e 26/5/1964).~
Alguns oficiais brincavam dizendo que ele era “governador de dia e general de noite”,porque tinha de decidir ao mesmo tempo assuntos políticos, administrativos e operações militares.
Está por fazer o balanço, imparcial, do seu mandato...
(iv) Puro e duro
Quando António de Spínola o substituiu em 1968, mudou completamente a estratégia: passou da linha mais militar e defensiva de Schulz para uma política de “conquista das populações” e e de acção psicossocial.
(v) O general que nunca aparecia (e, portanto, também não chateava)
Durante o comando de Schulz na então Guiné Portuguesa (1964-1968), dizia-se nas companhias do mato (conversa entre dois capitães):
— Já viste o general Schulz?
— Não.
— Então está tudo bem por lá, no teu aquartelamento.
A piada vinha da ideia de que o comandante-chefe raramente visitava posições isoladas, ao contrário do que viria a fazer o seu sucessor, António de Spínola, que aparecia frequentemente de helicóptero, sem se fazer anunciar.
(vi) O mapa “demasiado limpinho”
Conta-se que numa reunião de oficiais em Bissau, um oficial jovem mostrou um mapa cheio de marcas de ataques do PAIGC.
Schulz teria comentado:
— Esse mapa está pessimista demais.
E um capitão murmurou para o colega ao lado:
— O mapa do general deve ser melhor… porque não tem inimigos.
Era uma piada amarga sobre a diferença entre a situação real no terreno e a visão otimista do comando ( apatir da "periferia" da guerra, que er Bissau).
(vii) A comparação inevitável
Quando António de Spínola chegou em 1968, começou a visitar quartéis isolados e a falar com soldados.
Rapidamente surgiu a piada nas tropas:
— O Schulz governava a Guiné a partir do palácio de Bissau.
— O Spínola governa-a, no mato, a partir do helicóptero.
Curiosidade: apesar destas histórias, Schulz era visto por muitos oficiais como um comandante disciplinado e prudente, apenas com um estilo muito mais tradicional e burocrático do que o de Spínola.
(viii) O "general alemão"
Os guineenses diziam que ele não era bem português, por causa do apelido alemão (paterno), impronunciável...
É uma história, algo xenófoba e chauvinista, que aparece em várias memórias de militares e relatos orais da guerra. O general Arnaldo Schulz tinha de facto apelido de origem alemã, herdado do pai, e isso acabou por gerar comentários e pequenas anedotas entre as populações locais da então Guiné Portuguesa.
Uma versão da história contada por antigos combatentes diz que alguns guineenses estranhavam o nome e comentavam algo como:
— Esse general não pode ser bem português… tem nome de alemão.
Noutras versões mais humorísticas, dizia-se:
— Portugal nomeou um alemão para mandar na Guiné.
Isto não era propriamente uma crítica política, era mais humor popular, porque nas colónias era comum associar a nacionalidade ao apelido. Um nome como “Schulz” soava claramente germânico, muito diferente dos apelidos portugueses habituais.
(viii) Curiosidade histórica
Apesar do apelido, Schulz era totalmente português. O pai era de origem alemã, mas a família estava integrada em Portugal há gerações. Ele fez toda a carreira no exército português e acabou por chegar a general, governando a província entre 1964 e 1968, antes de ser substituído por António de Spínola.
Esse tipo de comentário sobre nomes estrangeiros também acontecia com outros oficiais no império português — especialmente quando tinham apelidos alemães, ingleses ou franceses, algo relativamente comum em Portugal desde o século XIX.
Curiosamente, em África os apelidos europeus eram muitas vezes reinterpretados ou adaptados foneticamente pelas populações locais, o que também gerava muitas pequenas histórias de caserna:
Espínla ou Spínla (Spínola), Tchultz (Schulz), cap'ton Bitu (capitão Brito), alfero Cabrá (alferes Cabral), Cabrá (Amílcar Cabral), furié 'Vzinu (furriel Levezinho), furrié Ericu (furriel Henriques), cabu Galvon (cabo Galvão), furrié fermero (furriel enfermeiro), alfero doutô (alferes médico), Calvê Magalã (governador Calvet de Magalhães), Masel Caetanu (Marcelo Caetano)...
(Pesquisa: LG + Net + IA) (Condensação, revisão / fixação de texto, negritos, título: LG)
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Nota do editor LG:
Último pposte da série > 17 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27830 Humor de caserna (247): O anedotário da Spinolândia (XIX): Quem conta um conto, acrescenta-lhe quase sempre um ponto...
Último pposte da série > 17 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27830 Humor de caserna (247): O anedotário da Spinolândia (XIX): Quem conta um conto, acrescenta-lhe quase sempre um ponto...

2 comentários:
Náo é preciso lembrar qie rir é próprio do homem... E esta referência à ascendência alemá do Schulz nada tem de xenofobia ou chauvinismo... Há muitas anedotas sobre os nossos estereótipos europeus.. Há uma que eu adoro e que diz: "No inferno, a comida é inglesa, a gestão italiana, o desenrascanço português e o humor...alemão".
Preparem-se... Luís Graça.
E quem recebe as gorjetas ? (Refiro-me ao restaurante de cinco estrelas do inferno.)
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