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quinta-feira, 19 de março de 2026

Guiné 61/74 – P27838: (Ex)citações (446): A necessidade de mudar (Hélder Valério de Sousa, ex-Fur Mil TRMS TSF)

Hélder Valério de Sousa, ex-Fur Mil TRMS, TSF (Piche e Bissau, 1970/72)
Provedor da Tabanca Grande


1. Mensagem do nosso camarada Hélder Valério de Sousa, com data de 8 de Março de 2026:

Caros camaradas
Envio este pequeno texto, não como "manobra de diversão" relativamente aos temas "pesados" que temos vindo a viver ultimamente, mas sim para apontar uma possível atitude para contrariar os desânimos.
A foto em anexo da "Eau Sauvage" foi retirada da net.

Abraços e "saudinha da boa".
Hélder Sousa



A necessidade de mudar

Hoje, agora, deu-me para isto!

Claro que todos os dias sabemos do falecimento deste ou daquele, uns mais próximos, outros nem tanto, uns que nos dizem alguma coisa e outros nem por isso.

Mas foram as frases e as ideias republicadas do A. Lobo Antunes que, por um lado, me despertaram estas lembranças e por outro, também talvez a necessidade de voltar a proceder como em tempos idos.

Recentemente ao passar numa perfumaria para comprar um presente, reparei num produto que me fez lembrar de algo. Tratava-se de uma “Eau De Toilette” chamada “Eau Sauvage”.

Perguntei à menina da perfumaria se aquele produto era recente ou antigo. Respondeu que “era antigo, que era bom, mas que agora havia coisas novas, mais recentes, que tinham melhor saída”.

E voltei eu a perguntar “antigo de quanto? Aí uns 10 anos? E ela disse: “não, mais um bocado, talvez 15 ou 20”!

Assim tanto? Perguntei aparentemente admirado. E ela disse, “pois não sei, mas é bem antigo!” Para desfazer enganos disse-lhe então que faziam 55 anos que tinha por hábito usar esse produto adquirido em Bissau, demonstrando assim a sua bem longa antiguidade.

Foi a vez dela ficar a mostrar estranheza, a perguntar porquê e para quê esse perfume e a agradecer os seus novos conhecimentos.

Disse-lhe então que, por aqueles tempos, naquelas paragens, usava-se o “Old Spice”, o “Brut” e outros, mas eu optei por aquele, talvez por causa do nome “sauvage”… e que o objetivo era o de me sentir mais próximo dos familiares e dessa maneira mais afastado dos locais de guerra. Assim, a modos de um “lavar de alma”.

Este pequeno episódio, aliado aos tempos cada vez mais conturbados e incertos que se vivem, despertou em mim a lembrança de que talvez fosse bom voltar a “perfumar-me” para tentar afastar os maus prenúncios.

Na Guiné, resultou. Pode ser que aqui e agora, também.

Abraços
Hélder Sousa
Fur Mil Transmissões TSF

_____________

Nota do editor

Último post da série de 16 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 – P27537: (Ex)citações (445): Literatura da Guerra Colonial? (Alberto Branquinho, ex-Alf Mil Art da CART 1689/BART 1913)

5 comentários:

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Obrigado, Hélder. Nunca fui de usar perfumes...Ninguém é perfeito, eu muito menos. Mas, olha, descobri, em francês, uma entrada na Wikipedia sobre o Eau Sauvage (água selvagem, em português). Da Dior. Comercializado em 1966. E foi um sucesso de vendas. Chegava aos "tugas", em Bissau, no teu tempo. Havia tudo em Bissau. E até perfume francês...Dava jeito no mato, quando

Tabanca Grande Luís Graça disse...

... quando um gajo chegava ao quartel, depois de dois ou três dias atrás do "Zé Turra", tresandando a merda, desidratado, fodido, roto, esfomeado, com 3 ou 4 quilos a menos. Mas não havia perfume no mundo que te tirasse o maldito cheiro do mato da Guiné..."Sangue, suor e lágrimas" ? A Dior nunca teve "perfumes" desses a pensar nesse insignificano nicho de mercado, que eram os "tugas" da Guiné.

Hélder Valério disse...

Olá Luís e companheiros destas "lides".
Realmente, no "mato" propriamente dito, seria mesmo desaconselhável, pois naturalmente denunciaria a presença. Mas nos aquartelamentos, pelo menos nos maiores, poderia fazer algum sentido.
No meu caso foi mesmo só quando fiquei instalado em Bissau.
Quando usava, "fingia" que estava em Portugal e, nessas circunstâncias, a mente transportava-se para outras paragens e até dava para apreciar, com outros olhos e sentidos, o que se passava à volta.
Lembrei-me disto, como escrevi, por uma circunstância de acaso mas que achei apropriada aos tempos que hoje também se vão vivendo.

Alberto Branquinho disse...

Helder

Mais importante que dizeres "perfumar-te para afastar maus prenúncios" era teres dito à menina (quando ela disse "que era antigo, que era bom...") que tu também és antigo... ("bom" ou não, seria uma conclusão da exclusiva responsabilidade dela).
(A sugestão acima é simples técnica de vendas de perfumes e... de outros produtos ou serviços).
Abraço

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Hélder, eu não usava nem uso perfume(s)... Mas lembro-me que havia camaradas que, depois de uma operação no mato (daquelas que deixava um gajo de rastos), nada sabia melhor do que tomar um "bom banho" (mesmo com aquela água ferrosa de Bambadinca), vestir uns jeans e uma camisinha Lacoste (mesmo de contrafacção), pôr um gel no cabelo e "besuntar" o corpinho f*dido com um "Eau Savage"...

Não era para mais nada, não havia a "febre de sexta-feira à noite", nem as "meninas do Bataclã" davam importância a essas essências parisienses... Era só para um gajo de se sentir a 4 mil km dali, no relativo conforto da nossa terra e da nossa casa... Era uma "cheirinho a Lisboa, a Coimbra ou a Porto, isto é, a civilização", dizia a malta...

Porque aquela não era a nossa terra nem a nossa casa...contrariamente à propaganda oficial e oficiosa do regime...Como sabes, "não se muda por decreto"...e dificilmente só com "propaganda" (tem que haver o chicote e a cenoura para o burro andar, mesmo devagar...).