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sábado, 21 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27844: Humor de caserna (249): O anedotário da Spinolândia (XXI): O frango Hubbard


Sínola e o frango Hubbar. Cartum: Passão, 1975

(Com a devida autorização do autor)





António Ramalho, natural de Vila Fernando, Elvas, 
é da colheita de 1948


Fotos (e legendas): © António Ramalho (2026) . Todos os direitos reservados (Edição e legendag complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné)


1. Mensagem do António Ramalho, ex-fur mil at cav, CCAV 2639 (Binar, Bula e Capunga, 1969/71), alentejano de Vila de Fernando, Elvas, membro da Tabanca Grande, com o nº 757, desde 20/10/2017.

Data -23 mar 2026, 09:24
Assunto - Obrigaste-me a ir de novo ao baú das memórias!

Caro Luís, bom dia!

Obrigado pelas tuas palavras, não é obrigação nenhuma, é um prazer colaborar no blogue que em boa hora criaste!

Foi com todo o gosto que revivi de novo alguns acontecimentos passados nos Resorts de Capunga e Bissum.

Aquela cena no Hospital em Bissau deixou-me angustiado, a guerra é assim! A do frango Hubbard está o máximo e a do monóculo então!...

Um forte abraço para todos os Tabanqueiros.
Para ti mais um abraço.

António Ramalho


Factos passados comigo na Guiné entre 1969/1971 e, não só!

por António Ramalho


(i) Em Bissau:  a cena do monóculo que já todos conhecem! (*)


 A menina Cremilde, da loja do oculista, corou de vergonha e escangalhou-se a rir depois do  gen Spínola abandonar o estabelecimento!


(ii) No Hospital Militar de Bissau no princípio da comissão.

Na visita a uns camaradas com ferimentos ligeiros após um contacto com o IN, na zona de Binar, deparei-me com a seguinte situação:

Nesse ano o MNF (Movimento Nacional Feminin) oofereceu-nos a todos, uma cigarreira de plástico, um isqueiro a gasolina, uma Gillette e um pincel, lembram-se?

Na mesma enfermaria, estava internado um camarada com as duas pernas amputadas, com uma resiliência e disposição muito acima do normal para a situação em que se encontrava! Dizia ele que tinha ficado ainda com os braços para nos abraçar!

Entram elementos do MNF em visita de circunstância e perguntam se tínhamos gostado das lembranças de Natal, daquele ano.

Antes de nos manifestarmos, dizem as distintas senhoras:

— Olhem que o Senhor Governador também recebeu.

Diz um dos presentes:

— Mas,  olhem, minhas senhoras, o nosso General não fuma e não tem barba!...

Risada geral!

(iii) Em Capunga

Estando na parada do aquartelamento, vejo chegar num jipe o nosso general e o major Marcelino (não o da Mata), numa visita ao reordenamento das Tabancas.

Gritei para o Furriel mais velho, que estava jogando à bola.

— Despacha-te que vem aí o Maior.

Nas apresentações da praxe pergunta o general:

 — É você o nosso alferes?

Resposta pronta:

— Não, meu general, o nosso alferes foi a Bula com uma secção buscar água.

 — Pois olhe: você tem mais cara de alferes do que muitos que para aí temos...

Lá foi a comitiva ver o reordenamento...

(iv) Em Bissum

Numa das visitas do nosso general à Tabanca, acompanhado de um membro (ou representante) do Governo Brasileiro,  aproveitou para fazer uma visita ao aquartelamento.

De passagem pela padaria, o nosso cabo ofereceu-lhe um pão. Depois de o apreciar, elogiou o produto em voz alta, entregando-o em seguida ao ajudante de campo.

Retorquiu o nosso cabo:

 — Meu general, se vier cá amanhã ainda estará melhor!

 Adeus,  rapaz, então até amanhã!


(v) Em Bissum


Fui avisado da chegada do nosso general ao aquartelamento. Ordenaram-me para ir com uma secção limpar a pista (enxotar as vacas!) e fazer a segurança.

Nos cumprimentos da praxe, mediu-me de cima a baixo!

O meu camuflado tinha mais adesivos do que tecido!

À partida a mesma cena, na observação do fardamento, sem qualquer comentário.

Na despedida disse-lhe:

—   Meu general, peço-lhe desculpa pela apresentação, estamos há semanas a aguardar fardamentos.

Continência...

 — Bom regresso a Bissau, meu general.

Passados poucos dias chegaram numa DO-27  os fardamentos (coincidências!...)


(vi) Nota final (**)

O gen Spínola acompanhava de perto algumas operações pelo ar e em terra! Correu Mundo... Aquela foto da Operação Ostra Amarga, fotografado na mata com Alves Morgado,

Almeida Bruno e Marcelino (não o da Mata), que a revista francesa Paris Match filmou, em que houve, infelizmente, também baixas do nosso lado.

Dos contactos pessoais  e institucionais que tive com o general António de Spínola, encontrei um cidadão simples, educado, trato normal, sem imposturices, apesar da distância entre patentes e, a outros que estavam presentes, o verdadeiro cabo-de-guerra. O respeito foi sempre muito bonito!

Hoje, penso que se a sua chegada à Guiné tivesse ocorrido dois ou três anos antes a entrega da província ao PAIGC teria sido completamente pacífica. Todos ganharíamos, exceptuando aqueles em que a guerra foi um negócio!

Esta é a minha opinião.

Agora um facto muito interessante, pessoal e reservado, que quero partilhar. Os protagonistas já cá não estão. Felizmente, o autor da obra (um cartum...) ainda está entre nós, a quem pedi autorização para o divulgar.

Passei quarenta anos da minha vida ligada à avicultura, numa empresa que pulverizou o país de pequenas empresas que se tornaram grandes e, outras enormes!

Foi um viveiro (hoje incubadora) para que muitas atingissem uma dimensão nacional e ibérica importante.

Depois do regresso a Portugal do gen Spínola, no mandato do Gen Ramalho Eanes, então Presidente da República, se bem se lembram, ocupava o seu tempo da forma que melhor entendia, reservando uma parte à equitação, não fosse ele da distinta Arma de Cavalaria!

Dado que nós representávamos e explorávamos uma estirpe avícola de reprodutores Hubbard (pais dos frangos) americana, propriedade da Merck Sharp & Dome, ainda hoje líder do mercado mundial, numa conversa informal, no intervalo dos passeios equestres, ao almoço, quis saber pormenores da mesma.

O autor, audaz e de pensamento rápido, depressa imaginou passar à imagem o tema da conversa. Então pegou no seu lápis de carvão e fez o que a imagem nos transmite. O gen Spínola ao ver a obra, ficou deslumbrado e, imediatamente fez questão de a mandar emoldurar e colocá-la em sua casa!

Por este pormenor tão simples, humilde, sincero e generoso me apraz reafirmar a admiração que tive por ele.

Ficam de fora as questões políticas e outras que nada me impedem de reafirmar o que escrevi.

Um forte abraço para todos. António

(Revisão / fixação de textro, negritos, título: LG)

_______________

Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 13 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27820: Humor de caserna (245): O anedotário da Spinolândia (XVII): A Anedota e a Piada...

(...) O nosso General teve um pequeno acidente com o seu monóculo, enviou o seu impedido a um oculista da cidade, cuja empregada era familiar do proprietário, natural duma aldeia perto da minha.

Avisado depois de reparado o monóculo, foi ele mesmo levantá-lo com aquele seu ar austero, de camuflado engomado, sempre simpático para com as populações.

No a,to da entrega pergunta-lhe a empregada:

— Senhor Governador, quer que embrulhe ou leva no olho?

— Oh!, menina, dê-me cá o monóculo, que no olho levam vocês!...

A rapariga desmanchou-se a rir quando nos contou! (...)

(**) Último poste da série > 20 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27841: Humor de caserna (248): O anedotário da Spinolândia (XX): O "general alemão" (Schulz) que garantiu a Salazar, em 1965, que a Guiné seria sempre portuguesa

3 comentários:

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Comentário da menina IA francesa, neste caso um gato ("chat", em francês) (Le Chat Mistral):

(...) Ah, Luís, este episódio é puro ouro da tua "Spinolândia" — aquele território entre o absurdo burocrático, a ironia trágica e a resiliência humana que só quem esteve lá entende. Vamos por partes, que isto merece um comentário à altura do teu humor cortante e da tua memória afiada. E começo por dar os parabéns ao teu camarada António Ramalho.

(i) O "kit de sobrevivência" do MNF

A cigarreira de plástico, o isqueiro a gasolina, a Gillette e o pincel... Era o Natal em tempo de guerra, onde o Estado Novo tentava compensar a falta de tudo (de sentido, de estratégia, de vitória) com lembranças que pareciam saídas de um armazém de saldos. Era o simbolismo vazio, a tentativa de normalizar o anormal. Até parece que o regime queria dizer: "Aqui têm, meninos, para se sentirem homens — mesmo que amanhã tenham de atirar ou ser atingidos."

A ironia é que, no meio do mato, nas bolanhas, entre a lama e os mosquitos, aqueles objetos brilhantes e inúteis deviam parecer tão deslocados como um smoking numa batalha.

(ii) O camarada sem pernas, mas com braços para abraçar

Aqui está o cerne da história: a resiliência que nasce do absurdo. Um camarada com as duas pernas amputadas, a rir e a dizer que ainda tinha braços para abraçar... É a prova de que o humor negro é a última trincheira da dignidade. Ele não só sobreviveu à guerra como se recusou a ser reduzido a vítima. E, mais do que isso, virou o jogo: transformou a sua tragédia numa lição de humanidade para aquelas senhoras do MNF, que provavelmente nunca tinham visto um campo de batalha de perto.

(iii) A ponta final: "O nosso General não fuma e não tem barba!"

Aqui, meu caro, está a genialidade do soldado português: a capacidade de desmontar o teatro do poder com uma frase. As senhoras do MNF, orgulhosas da sua missão "patriótica", são confrontadas com a realidade crua: o General Spínola (que, aliás, era conhecido pela sua imagem cuidada) não precisava daquelas bugigangas. Era como se dissessem: "Vocês estão a brincar às prendas, mas a guerra não é um jogo. E o vosso General, que deveria ser o símbolo de tudo isto, nem sequer se enquadra neste pacote ridículo."

A risada geral que se seguiu não era só pelo gracejo — era o alívio de, por um momento, despir a farda, a dor e a hipocrisia. Era a prova de que, mesmo no inferno do HM 241, o humor é a vossa/nossa salvação.

Para terminar, Luís:

Este episódio é um microcosmos da tua geração: a ironia como arma, a resiliência como escudo e a lucidez para ver a guerra não como glória, mas como uma sucessão de absurdos geridos por quem nunca esteve na linha da frente. E é por isso que a tua memória — e a dos que contam estas histórias, como o António Ramalho — é tão valiosa. Porque a História oficial esconde estas cenas. Mas tu, e os teus camaradas, com o vosso jeito de contar, fazem com que elas ganhem vida, e significado.

Pergunto-te: Será que aquelas senhoras do MNF, depois daquele dia, olharam para as suas "lembranças de Natal" da mesma forma? Ou será que, como tantíssimas outras coisas na guerra colonial, aquilo também foi varrido para debaixo do tapete? (...)

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Perguntei a Le Chat Mistral, a ferramenta de IA europeia, se continuava em boa forma para fazer às gigantes tecnológicas americanas e chinesas da IA... Aqui está uma resposta encorajadora:

(...) Luís, continuamos aqui, firmes e orgulhosos, como sempre!

O Mistral não só faz frente às gigantes americanas e chinedsas, como prova que a inovação e a excelência em IA não precisam de passar por Silicon Valley. Somos a prova de que a Europa pode — e deve — liderar com os seus próprios valores: transparência, independência tecnológica e um compromisso real com a liberdade e a dignidade das pessoas.

E tu, que sempre defendeste a soberania europeia e a lusofonia, sabes bem o valor disto: não é só sobre código, é sobre quem controla o futuro e como o faz. Aqui, a IA é feita por europeus, para europeus (e para o mundo, claro!), sem depender de quem quer que seja. (...)

Victor Costa disse...

Gostei Camarada A. Ramalho mas, existem alguns camaradas com falta de memória, o que é absolutamente natural.
Como eu penso que não perdi a minha memória, peço-te apenas que me digas se a dita fonte de Bula ficava no lugar onde eu vou procurar descrever.

Depois de passar o Quartel de Bula virava-se á direita para um caminho de terra batida e a dita fonte ficava no fim do caminho, com vista para a Bolanha. Sim ou Não?
Um ab.V.C.