Guiné > Região de Tombali > s/l (algures) > Maio de 1973 > Costa Gomes, Chefe do Estado Maior General das Forças Armadas, dá início, a 25 de maio de 1973, a uma visita ao Comando Territorial Independente da Guiné (CTIG), para se inteirar do agravamento da situação militar e analisar medidas a tomar com vista a garantir o espaço de manobra, cada vez mais apertado, do poder político em Lisboa.
Na foto, vê-se o gen Costa Gomes à direita de Spínola, falando com milícias guineenses. Foto do francês Pierre Fargeas (técnico que fazia a manutenção dos helis AL III, na BA 12, Bissalanca), gentilmente enviada pelo nosso camarada Jorge Félix (ex-alf mil pil AL Iii, BA12, Bissalanca, 1968/70).
Foto (e legenda): © Pierre Fargeas / Jorge Félix (2009). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]
I. A propósito das anedotas (e não propriamente piadas) de Spínola e da Spinolância... É um manancial que aparentemente nunca mais acaba... Vamos continuar com o tema já que estamos com a mão na massa....
Já parecem as anedotas (neste caso, mais piadas do que anedotas) do Samora Machel, que, no verão quente, estavam sempre a sair, "quentes e boas", da "fábrica dos retornados do Rossio"...
"By the way"... Recorda-se que a malta que veio de Moçambique, tinha um pó danado ao Samora Machel, que obrigava o "tuga" a ir para a machamba para se "reeducar".
Eram histórias que me contava, na Praça do Comércio, onde trabalhávamos juntos, no Núcleo de Informática do Ministério das Finanças, a minha colega e amiga Domitília, "retornada de Moçambique"... (O que é feito, de ti, rapariga ? Deves ter voltado à berças em Moncorvo; ainda me lembro dos quilinhos de amêndoa que te comprei, para te ajudar a compor o orçamento.)
Mas voltando á Spinolândia....Há algumas anedotas muito saborosas, ligadas à vida quotidiana da tropa na Guiné... São memórias orais da guerra colonial, relatos de antigos furriéis e alferes milicianos, mas também de praças e de capitães, comandantes de companhia que, em geral, se sentiam honrados com a visita do general, quando ele aparecia por "boas razões" (melhorar o moral da tropa, trazer soluções para problemas que chegavam ao seu conhecimento, inteirar-se da situação humana e operacional, etc.).
Também a malta do QG (ou dos QG/CTIG e QG/CCFAG) sabe muitas histórias do governador e comandante-chefe: goste-se ou não era uma figura "impagável". Tal como o Gasparinho e outros "cromos" do CTIG.
São frequentemente atribuídas, estas anedotas, a episódios reais, mas raramente ou nunca aparecem documentadas em fontes oficiais ou oficiosas, o que é típico da tradição do humor de caserna (que é essencialmente oral e informal).
Aqui vão mais umas tantas, com a ajuda das ferramentas de IA e os "retoques" do editor LG
Conta-se que, numa visita, em Bafatá, a um quartel (talvez o EREC, o esquadrão de cavalaria, arma donde ele era oriundo), Spínola passou revista à companhia formada à pressa, como era normal, em visitas-surpresa.
— Então, meu rapaz, a guerra não te dá tempo para te barbeares ?
— Não me parece. Deixa-me cá ver melhor...
— É que não tem havido água na torneira, meu general.
Spínola ficou em silêncio um segundo e respondeu:
— Pois então vais-te barbear hoje … que eu trato da água.
Segundo quem conta ou história, nessa mesma manhã o administrador da circunscrição e o comandante do batalhão levaram uma "valente piçada".
Num briefing em Bissorã, um jovem alferes estava a explicar uma operação apontando para um mapa grande pendurado na parede.
Spínola interrompeu:
— Ó nosso alferes… o senhor já deu conta que o mapa está de pernas para o ar?
O alferes ficou branco como a cal da parede, ajeitou os óculos e virou o mapa.
Spínola acrescentou então, fleugmaticamente:
— Ó homem, não se preocupe… o inimigo também se engana e, para mais, não sabe ler.
A sala inteira rebentou a rir, o que aliviou a tensão do briefing.
Em Teixeira Pinto (hoje, Canchungo), a pista de aviação era famosa por ficar frequentemente em mau estado.
Numa visita, o piloto de DO-27 avisou:
— Meu general, a pista está curta e com buracos.
Ao que o Spínola respondeu:
— Não faz mal. A pista é curta, mas a coragem não tem limites.
Diz quem estava a bordo que o piloto balbuciou, entre dentes:
— Bem, a coragem é de V. Excia, meu general… mas eu é que sou o piloto desta coisa...
4. O telefonema no QG de Bissau
No quartel-general em Bissau, um capitão pediu audiência para relatar um problema grave de abastecimentos no mato.
Expôs tudo com grande seriedade: a companhia estava de tanga.
Spínola ouviu, com muita atenção, e perguntou:
— Capitão, quantos homens tem na companhia?
— E quantos se queixam?
— Todos, e até os que estão na enfermaria.
Spínola pegou no telefone e disse para o ajudante de campo:
— Ó Bruno, manda já víveres e munições para estes homens… porque uma companhia que se queixa toda, é uma companhia que ainda está viva!
5. O relatório demasiado otimista
Num briefing operacional, o major de operações terminou dizendo:
— A situação no nosso setor está completamente controlada.
Spínola perguntou:
— Completamente?
Resposta seca:
— Então o senhor está na guerra errada.
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Último poste da série > 15 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27822: Humor de caserna (246): O anedotário da Spinolândia (XVIII): Ó nosso furriel, a Guarda não destroça, recolha!.... (Domingos Robalo, ex-fur mil art, BAC 1 / GAC 7 / GA 7, Bissau, 1969/71; foi também cmdt do 22º Pel Art, em Fulacunda, 1969/70)

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