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sexta-feira, 29 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28058: Efemérides (393): Há 57 anos, a 24 de maio de 1969, partiu o T/T Niassa para o CTIG - Parte IV: "E tudo o vento levou"... Os navios de transporte de tropas


A caminho da Guiné > A bordo do Niassa > c. 24-29 de maio de 1969 > Quadros metropolitanos da CCAÇ 2590 (futura CCAÇ 12), na viagem de Lisboa-Bissau. Da esquerda para a direita: 2º sargento Alberto Videira (já falecido), furriéis milicianos António Branquinho (já falecido), Tony Levezinho, Humberto Reis, Joaquim Fernandes, eu (Graça Henriques) e Luciano Almeida (já falecido). Na mesa de trás, ao fundo, receonhece-se, à ponta, do lado esquerdo, o  João Martins, o nosso "pastilhas" (fur mil enf).

Foto: Arquivo Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné


1. Foi há 57 anos que embarquei para a Guiné no T/T Niassa,  regressaria 22 meses depois no T/T Uíge (*). 

Hoje, olhando para trás, impressiona a dimensão logística e humana daquele esforço militar que o nosso país fez. Entre partidas e regressos, milhares de portugueses cruzaram o Atlântico e o Índico em navios que ficaram para sempre associados à memória da Guerra do Ultramar / Guerra Colonial  

Para muitos antigos combatentes, recordar o Niassa, o Uíge ou o Vera Cruz é recordar uma etapa decisiva da sua juventude, feita de camaradagem, incerteza, medo, distância e saudade. (E já não falo das "viagens de retorno" de centenas de milhares de portugueses, vítimas da descolonização, em 1974 e 1975.)

Recorde-se aqui a "epopeia" do transporte marítimo (e depois aéreo) de tropas para o Ultramar, a pretexto de mais uma efeméride.

Em finais dos anos 50, depois de investimentos públicos de grande envergadura, a marinha mercante portuguesa tinha atingido o seu desenvolvimento máximo. Éramos uma "potência marítima",  com uma frota de 22 paquetes, somando no total de 167 000 toneladas. (Sem esquecer a frota pesqueira, e nomeadamente a "frota branca", que  ia á pesca do bacalhau na Terra Nova e na Gronelândia.)

Na marinha mercante  destacavam-se   quatro gigantes, Santa Maria, Vera Cruz, Príncipe Perfeito e Infante D. Henrique:
  • com cerca de 30 000 toneladas cada um;
  • sendo capazes de transportar mais  de 1000 passageiros ou mais de 2000 soldados.

Quase todos estes paquetes foram requisitados em diversas ocasiões para transporte de tropas, muito especialmente na fase inicial da guerra. De resto, todas as unidades da marinha mercante seriam essenciais para manter o esforço de guerra em África.  Entre os  mais requisitados na ligação a África  destaca-se  o Vera Cruz, o Niassa, o Lima, o Império e o Uíge.

O Niassa foi o primeiro paquete fretado como transporte de tropas e de material de guerra, por portaria de 4 de Março de 1961. O Vera Cruz, por sua vez, seria aquele  a fazer mais viagens, chegando a realizar 13 num ano:

  • em 1961, efectuaram-se 19 travessias por nove paquetes em missão militar;
  • o ritmo aumentou à medida que a força expedicionária em África crescia;
  • em 1963, tinham-se efectuado 27 viagens por oito paquetes;
  • e, em 1967, 33 por nove. 
  • até 1974, o mar foi grande via de ligação ao império, tendo mais de 90 por cento da carga e de 80 por cento do pessoal metropolitano empenhado na guerra sido transportado em navios

 Fonte: Adapt de Centro de Documentação 25 de Abril, com a devida vénia.

 2. Recorramos, mais uma vez,  ao nosso "enciclopédico" Pedro Marquês de Sousa, autor de "Os números da Guerra de África" (Lisboa, Guerra & Paz Editores, 2021, pp. 306 e ss.), que tem informação preciosa sobre esta matéria no seu capítulo IV (As despesas da guerra).

Escreveu ele: "Estes três navios que asseguraram 75% das viagens de ligação de Lisboa para África realizaram 146 viagens para Angola, 50 para a Guiné e 30 para Moçambique" (pag. 306). 

Analisando o período entre 1965 e 1970 (seis anos), o autor apurou que o número médio anual de viagens foi 18, 8 e 5, para Angola, Guiné e Moçambique, respetivamente (pág. 307).  

Por sua vez, a média de militares transportados (ida e volta), por ano foi a 70 mil: mínimo, 54 mil em 1966, máximo, 74,9 mil em 1969.

Discriminam-se a seguir os navios que transportaram tropas entre 1961 e 1975, por ordem decrescente do nº de viagens. O destaque vai para o Vera Cruz, o Niassa, o Uíge e o Ana Mafalda, com mais de duas dezenas de viagens:

  • Vera Cruz: 85;
  • Niassa: 66;
  • Uíge: 47; 
  • Ana Mafalda: 22;
  • Índia: 13;
  • Cuanza: 11;
  • Império: 9;
  • Pátria:7;
  • Carvalho Araújo: 5;
Total=265.

Estes nove  seriam os principais navios afetos ao transporte de tropas... Mas o autor fala num frota de 15... Há outros que fizeram também viagens, mas esporádicas: 

  • Arraiolos (em 1961, para Angola, e depois em 1974, para a Guiné); 
  • Sofala (em 1963, para a Guiné);
  • Timor: 2 viagens para a Guiné em 1967;  outra, em 1969, para a Guiné; em 1970, para Angola; em 1971, outra para Angola e Moçambique,

Mas há mais: 

  • em 1974, os navios Bragança, Cabo Bojador e Alcobaça, fizeram uma viagem para a Guiné; 
  • e em 1975 realizaram uma viagem a Angola e Moçambique os navios Lendas, Beiras, Amarante,  Infante D. Henrique, e o Serpa Pinto;
  • e ainda em 1975, mas só para Angola, viajaram o Papacostas, o Panarrange (duas viagens), o Lobito, o Novo Redondo e o Leixões (pág. 309), nomes de navios de que nunca tínhamos ouvido falar...

Mas, no caso de transportes de tropa para a Guiné (e da Guiné), há omissões: 

  • não são referidos o N/M Angra do Heroísmo, o N/M Rita Maria e o N/M Alenquer; 
  • o N/M Lima não sabemos se alguma vez foi à Guiné; 
  • mas há ainda o N/M Alfredo da Silva (que viajava para a Guiné, era da SG / CUF);
  • e, se calhar outros,  que não nos vêm à memória.

Vejam-se aqui as referências todas que temos no nosso blogue aos navios a motor (N/M) (às vezes designados por T/T no texto), por ordem decrescente de referências:


Segundo a fonte que  temos vindo a citar (Sousa, 2021, pág. 309),  o Uíge (com lotação de 571 passageiros e 139 tripulantes)  fez mais viagens (28) para a Guiné do que o Niassa (22). 

O Ana Mafalda também fez muitas viagens para a Guiné, "sobrelotado com unidades dos Açores e da Madeira, chegando a levar duas companhia (cerca de 300 homens), apesar de a sua lotação ser apenas de 52 passageiros e 47 tripulantes".

O N/M Funchal nunca transportou tropas que eu saiba, era um navio de cruzeiro... Transportou, sim, em fevereiro de 1968,  o presidente da República, Américo Tomás, e sua comitiva na visita  à Guiné, ainda no tempo do gen Arnaldo Schulz. Daí ter uma referência no nosso blogue.

3. Nunca, ao longo da nossa história secular, recrutámos, mobilizámos e transportámos tantos combatentes, para teatros de operações,  distantes, em milhares de quilómetros, em África, como durante o período de 1961/75. 

Basta recordar que nos três teatros de operações (Angola, Guiné e Moçambique) estiveram empenhados cerca de 800 mil militares portugueses: cerca de 70% provenientes da metrópole, e sendo os restantes do recrutamento local (pág. 199).

Nessa época Portugal tinha uma belíssima  frota da marinha mercante, à qual podia requisitar navios para transporte de tropas, material de guerra, víveres e outros meios logísticos. 

Em 1971, o país aumentaria a sua capacidade de transporte por via áerea, com a aquisição de dois aviões Boeing 707, por parte dos TAM - Transportes Aéreos Militares. Começaram a operar na ligação Lisboa-Luanda, trajeto que faziam em 10 horas (enquanto o Vera Cruz demorava 10 dias). 

É bom recordar aqui a demora média das viagens  para os três teatros de operações, por via marítima:  
  • 9/10 dias, Lisboa-Luanda;
  • 5/6 dias, Lisboa-Bissau; 
  • 19/22 dias, Lisboa-Moçambique (dependendo do porto de desembarque).
(Continua)
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quinta-feira, 28 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28057: Efemérides (392): Há 57 anos, a 24 de maio de 1969, partiu o T/T Niassa para o CTIG - Parte III: Do Campo Militar de Santa Margarida ao Centro de Instrução Militar de Contuboel (ou de Bolama)



T/T Niassa > c. 24-29 de maio de 1969 > A caminho da Guiné > CCAÇ 2590 (futura CCAÇ 12 ) > Da esquerda para a direita, fur mil at inf António Fernando R. Marques (vive em Cascais), 1º sgr cav Fernando Aires Fragata (presumivelmenet já falecido), fur mil  trms José Fernando Almeida (vive em Óbidos), fur mil OE Humberto Simões dos Reis (vive em Alfragide), fur mil at inf António Manuel Martins Branquinho (1947-2013, vivia em Évora, se não erro, na Rua Heróis do Ultramar), e alf mil cav José António G. Rodrigues (falecido em 2011, morava então em Torres Novas).

O 1º sargento cav Fernando Aires Fragata iria deixar-nos ao fim de algum tempo, para seguir o curso de oficiais, na antiga Escola Central de Sargentos, em Águeda, ficando o 2º srgt at inf José Martins Rosado Piça a chefiar a secretaria da CCAÇ 2590, em Bambadinca; sei que lhe dei, ao Fragata, explicações de português, e o Humberto Reis, explicações de matemática, e o António Levezinho, também... Nunca mais soubemos do seu paradeiro. 
Tivemos alguns "desaguisados", era um homem de personalidade forte, e para mais de cavalaria. 


T/T Niassa > c. 24-29 de maio de 1969 > A caminho da Guiné > CCAÇ 2590 (futura CCAÇ 12) >  José Fernando Almeida  2º srgt at inf  José Martins Rosado Piça (1933-2021) (vivia em Évora). o António F. Marques, o António Branquinho, o Fernando Fragata, o José António Rodrigues e o Humberto Reis.


T/T Niassa > c- 24-29 de maio de 1969 > A caminho da Guiné > CCAÇ 2590 (futura CCAÇ 12) > De baixo para cima, José Fernando Almeida e António Branquinho; o António Fermandes Marques e o José António Rodrigues, o Humberto Reis e o Fernando Fragata 

T/T Niassa > c. 24-29 de maio de 1969 > A caminho da Guiné > CCAÇ 2590 (futura CCAÇ 12) > Da esquerda para a direita,  José Fernando Almeida,  o António Fermandes Marques e o Fernando Fragata (1º plano); o António Branquinho, o José António Rodrigues e o Humberto Reis (em 2º plano).


Fotos (e legendas): © Humberto Reis (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].



1. "Meninos e moços", arrancaram-nos das nossas terras e levaram-nos  para as bolanhas e matas da Guiné... A 4 mil km de distância. Cinco dias de barco, ou 3 horas e tal de avião, já nos últimos anos da guerra (a partir de finais de 1972). 

Muitos dos combatentes da "guerra do ultramar"  (como se dizia na época,  a censura  não deixava dizer "guerra colonail"...) passaram por este percurso, aqui descrito ou advinhado, e nomeadamente os que foram parar ao CTIG (Comando Territorial Independente da Guiné):

  • saída do Campo Militar de Santa Margarida, 
  • viagem nocturna, de comboio, pela linha da Beira Baixa até ao Cais da Rocha de Conde de Óbidos;
  • embarque no T/T Niassa (ou no T/T Uíge ou outro);
  • "adeus pai, adeus mãe, adeus amigos e companheiros, adeus minha terra que vou para longe";
  • "Tejo meu, Madeira, mar encapelado dos Açores e das Canárias, vómitos e saudades";
  • África Ocidental, Guiné, o insuportável calor de Bissau, LDG Rio Geba acima, Xime, Bambadinca, Bafatá, CFIM Contuboel... (ou noutros casos, Bissau, CIM Bolama).

Vale a pena conservar os tiques da linguagem castrense da época... Algumas siglas já não as sabemos descodificar... Em 1969 era ainda o país de Suas Excelências. E do respeitinho. O país do Deus, Pátria e Família. Das missas campais e das paradas militares. Do patriotismo serôdio e decadente... Por muito estranho que pareça, era o nosso país, a nossa pátria, de há cinquenta  e tal anos atrás... A Pátria que tivemos e temos, e que temos de assumir por inteiro, com o bom e o mau, o menos bom e o menos mau. Não há pátrias perfeitas.

Em 3 de Agosto de 1968 (dizem), o prof António Salazar tinha caído da sua cadeira, quando fazia férias no Forte de Santo Antório do Estoril.  Um mês e tal depois, em 27 de Setembro o seu antigo delfim, o prof Marcello Caetanto,  vem substituí-lo na Presidência do Conselho de Ministros. 

Em 1969 havia ainda quem acreditasse, ao ler-se o semanário  Expresso, na "primavera marcelista"... Em Bambadinca, eu recebia o Comércio do Funchal, o semanário  cor de rosa que uns putos, como oo Vicente Horge Silva (1945-2020) faziam no Funchal. 


2. Adapt. de História da CCAÇ 12 (1969/71). Bambadinca: Companhia de Caçadores nº12. 1971. Capítulo I. 1-2.

Mobilização para o CTI da Guiné

Pela nota-circular nº 00864/PM-Pº 18/2590 da Secção de Administração e Mobilização de Pessoal da 1ª Repartição do Estado-Maior do Exército, de 14 de Fevereiro de 1969, era dada ordem para se proceder a mobilização da Companhia de Caçadores 2590 (CCAÇ 2590) (futura CCAÇ 12), destinada a reforço do CTIG, e tendo como Unidade Mobilizadora o RI [Regimento de Infantaria] 15.

A mesma nota determinava que os quadros da CCAÇ 2590 seriam do origem metropolitana, sendo o restante pessoal fornecido pelo recrutamento da PU [Província Ultramarina] (c. 90 praças, das quais 11 seriam soldados arvorados ou cabos).

A apresentação do pessoal mobilizado pela Metrópole fez-se no Campo Militar de Santa Margarida, de 3 a 8 de Março de 1969. 

As CCAÇ 2591 (futura CCAÇ 13) e CCAÇ 2592 (futura CCAÇ 14) (exceto um pelotão, que ficou em Contuboel) seguiram para o CIM de Bolama.

(Continua)
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Nota do editor LG:

Último poste da série > 27 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28055: Efemérides (391): Há 57 anos, a 24 de maio de 1969, partiu o T/T Niassa para o CTIG - Parte II: "o cruzeiro das nossas vidas"

Guiné 61/74 - P28056: Parabéns a você (2489): António Acílio Azevedo, ex-Cap Mil, CMDT da 1.ª CCAV/BCAV 8320/72 e da CCAÇ 17 (Bula e Binar, 1973/74)

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Nota do editor

Último post da série de 26 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28052: Parabéns a você (2488): Jorge Narciso, ex-1.º Cabo Especialista MMA (FAP) BA 12 (Bissau, 1969/70)

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28055: Efemérides (391): Há 57 anos, a 24 de maio de 1969, partiu o T/T Niassa para o CTIG - Parte II: "o cruzeiro das nossas vidas"




Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.
Fontes iconográficas: fotos de Luís Graça, Humberto  Reis 
e Luís Nascimento / Joaquim Bessa, 
Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné


1. Um velho poema meu... Quando fui para a Guiné no navio misto, de carga e passageiros, "Niassa", com pouco mais de 150 metros de comprimento. e 10,7 mil toneladas de arqueação bruta... Levava 1735 homens para a guerra (fora a tripulação, que era de c. 130)... 

Durante anos recusei cruzeiros, aliás só fiz um, à Grécia, antes da pandemia,  para "recordar"... Mas sou "crítico" dos cruzeiros turísticos... Ao primeiro, que fiz, em 24-29 de maio de 1969, no T/T Niassa, chamei-lhe, por ironia,  "o cruzeiro da minha vida"...Já não sou mais o mesmo de há meio século atrás...Nem poderia sê-lo. Mas aqui vai, em jeito de filme do tempo do cinema mudo, com intertítulos, uma evocação "poética" desse cruzeiro, em que "viajaram" também amigos que depois fiz para a vida como o Humberto Reis, o Tony Levezinho,  o António Fernandes Marques, o sargento Piça, o Arlindo T. Roda, o Luciano Severo de Almeida, e tantos outros, alguns dos quais vim aqui a reencontrar no blogue como o Carlos Fortunato, o Eduardo Estrela, o José Nascimento, o Luís Nascimento, etc.

 

Quando o Niassa apitou três vezes

por Luís Graça


Uma estranha maneira de dizer adeus,
um estranho povo este
que vem ajoelhar-se, no cais de partida,
não em oração para aplacar a ira dos deuses, mas vergado,
vergado à toda poderosa razão de Estado.

A tentacular força centrífuga
que, de há séculos, 
te leva os filhos teus, para fora,
paridos e expulsos do ventre da mátria,
para longe, bem para longe, muito para lá do mar.

Uma despedida breve,
com lágrimas salgadas no rosto
e lenços brancos em fundo preto.
Todas as despedidas são breves e tristes:
o momento em que o Niassa apita três vezes
e levanta a âncora,
nunca se poderia eternizar,
diz o capitão de terra, ar, mar e guerra,
lencinho ao pescoço, cheirando a Vat(e) 69, 
ontogenético, fotogénico, cinéfilo,
garboso, charmoso, glamoroso
pronto para a ação
... na mesa do king, do bridge ou da lerpa.

Passado o Bugio,
deixado para trás o velho do Restelo
de que há um pouco em todos nós,
desvanecido o azul da serra de Sintra,
há um briefing às cinco da tarde,
já em velocidade de cruzeiro,
no mar alto que outrora foi português.

O anúncio é do capitão,
muito pouco ou nada miliciano,
que serve de mordomo, pequeno e burguês.
De megafone em punho,
não vá alguém sabotar a instalação sonora do navio.

Vai na segunda comissão, o oficial provinciano,
que nunca ouviu falar da batalha de Dien Bien Phu
nem sabe onde fica a ilha do Como.
Nem o onde nem o como nem o porquê
nem muito menos o até quando.

E o filme da noite é uma comédia, 
do cinema mudo,
acrescenta o nosso primeiro,
que no T/T Niassa faz de porteiro
ao bar Cretcheu, Guiné.
Um gajo bacano, num país de bacanos, fulanos e sicranos,
de soldados rasos, primeiros cabos, furriéis, alguns forcados, 
e segundos sargentos, mangas de alpaca.

Uma tragicomédia, escreverás tu no teu diário.
Cadé os oficiais ?
Cadé a elite da nação ?
Onde estão os filhos-família,
a ínclita geração,
os primeiros, a fina flor, os morgados,
os cavaleiros andantes, os primogénitos,
os palmeirins, os fidalgos, 
a casta, a raça apurada,
o sangue azul, o pedigree, 
os Gamas e os Camões,
os melhores de todos nós ?
... Morreram todos em Alcácer 
Quibir. 

Lisboa revista, revisitada, revistada,
em filme de oito milímetros,
a preto e branco ou a preto e negro, dizes tu, corrosivo,
uma só nação, valente mas ferida mortalmente,
ironiza alguém.
O Niassa colonial na azáfama do seu vai-e-vem
antes de ir parar à sucata,
inglória a sucata da história que tu perdeste
aos dezoitos anos, quando deste o teu nome para as sortes.
Estranha palavra essa, a das sortes,
que rima com desnortes e com mortes e com fortes,
que dos fracos não reza a história.

A despedida breve e triste do Niassa,
o teu primeiro e único cruzeiro da vida,
e ainda mais triste é o filme, sem som,
sem palavras desnecessárias, a preto e branco,
que alguém terá feito no cais das sete partidas,
com a noiva que ia vestida de branco 
e de xaile preto, a louca, por cima dos ombros.
Dizem que levada em ombros, a espernear,
pela polícia militar.

A ponte, ainda reluzente, de Salazar, o velho,
o velho abutre que alisa as suas penas,
dirás tu, Sophia, pitonisa de Delphos,
quase morto mas não enterrado.
Os últimos golfinhos do Tejo,
a última fragata de vela erguida,
a última caravela,
a última nau do cais da Ribeira,
o último império que ficou por haver,
o último marinheiro sem terra,
sinal de tempestade,
o último uísque marado
que ficou por beber, de um trago
numa espelunca do  Cais do Sodré, amargo,
o mudo do Cristo Rei em terra
que outrora foi dos infiéis,
o Terreiro que continua do Paço, não do povo…
Lisboa e o seu casario, branco, sujo,
o filme a preto e branco, riscado,
um gato preto à janela,
sinal de mau agoiro.

Lisboa... e lá longe a Guiné,
a 4 mil km de distância, 
Lisboa, enfim, com as suas ruínas, pré-pombalinas,
o poço dos mouros, o poço dos negros,
o lundum, a umbigada,
a procissão da Nossa Senhora da Saúde,
mais a Santa Inquisição,
zelando pela pureza da raça e do sangue,
zurzindo corpos e almas,
o Cemitério dos Prazeres ao alto,
com os seus altos ciprestes negros,
os mastros dos navios da carreira colonial,
o império por um fio, dental,
a vida, ainda curta, que se recapitula, de fio a pavio,
no último comboio da noite
que veio do campo militar de Santa Margarida.

Ah!, e os jacarandás que, em fins de maio, já choram,
de lágrimas lilases,
e as santas das nossas mães que ficaram em casa,
a acender a vela à santa das santas,
a tecer o lenço de enxugar lágrimas,
um fado que tu ouviste numa tasca do Bairro Alto, 
e que já não era batido nem dançado nem cantado,
um fado apenas gemido, sussurrado.

Ordeiros os soldados,
como os cordeiros da matança da Páscoa,
anhos, dizem no Norte, 
alinhados, no Cais da Rocha Conde de Óbidos,
como os elétricos amarelos
que vão para a Cruz Quebrada,
empilhados, aboletados, requisitados
às mães para servir a Pátria,
o pai-patrão que lhes cobra o dízimo
em sangue, suor e lágrimas.

Mudos, agrilhoados, os básicos,
uns refratários, outros desertores,
cozinheiros, magarefes, corneteiros,
apontadores de dilagrama,
municiadores de metralhadora,
desenfiados, traidores, atiradores,
cangalheiros, sacristães, capelães,
barbeiros-sangradores, 
sapadores, pulhas, coirões,
coveiros, escriturários, bazuqueiros,
safados, bufarinheiros, cavaleiros,
trolhas, cavadores de enxada,
infantes, artilheiros, maqueiros,
heróis de torre e espada…

Coitadas das mães que tais filhos pariram,
diz a letra do ceguinho,
subindo o portaló, o cadafalso,
com um nó na garganta mal disfarçado,
os lenços brancos como em Fátima no 13 de maio.
Algumas bandeiras verdes-rubras,
poucas e loucas, que os tempos não são
de exaltação patriótica.
O hino canta-se em voz de cana rachada,
em disco riscado
por senhoras, poucas e roucas,
do Movimento Nacional Feminino.

A mesma atitude, admirável, de patética resignação
perante o arbítrio dos deuses
que tudo pedem e podem, diz o capelão,
cheio de unto e de virtude,
que este é um povo religioso
porque tem o sentido do pathos,
leia-se: da tragédia inelutável,
acrescenta o bispo de merda…suma.

Senhora Nossa, rogai por nós, pecadores,
protege-nos, das minas e armadilhas,
dos fornilhos e das bailarinas,
das canhoadas e roquetadas,
das morteiradas, dos estilhaços
e dos tiros de "costureirinha",
protege-nos do IN, leia-se inimigo,
dos esquentamentos e das sezões,
da mosca tsé-tsé e do mosquito anapholes,
dos ataques de abelhas e das formigas carnívoras,
mas também do cone de fogo
das nossas bazucas e canhões sem recuo,
das piçadas e dos louvores dos nossos comandantes...
Livrai-nos sobretudo de nós mesmos,
soldados malgré nous, soldados à força,
arrebanhados, arregimentados, requisitados,
condenados, ameaçados, camuflados,
acondicionados no porão como bestas
que vão para o matadouro.
Livrai-nos, Senhora Nossa,
da fome, da peste e da guerra,
e do marechal da nossa terra
que nos manda para tão longe.

Lisboa e as suas sete colinas
perdem-se na linha de água.
Puseste o combate do possível
na tua agenda de expedicionário da Guiné.
Puseste o fio com a medalha de ouro
ao peito, que te deu a tua namorada, coitada.
Não, não usas a cruz, o crucifixo, o amuleto,
não vais para a guerra santa,
não, senhor capelão-mor,
alguém há de rezar por ti, camarada,
para que voltes são e salvo.
Do regulamento é apenas a chapa de zinco,
com o número mecanográfico 13151468,
e o picotado ao meio,
para mais facilmente ser cortada em duas partes
que seguirão caminhos distintos,
tudo isto face ao risco, bem real e concreto,
de tu morreres longe, bem longe
da tua casa, da tua pátria, para lá do mar,
em terra que nunca te viu nascer.

Descansa, camarada,
alguém fará o teu espólio,
cerrará os teus dentes,
fechará os teus olhos,
engraxará as tuas botas,
comporá os atacadores e a boina,
e porá um moeda na boca
para pagares a viagem ao barqueiro Caronte,
no caso de morreres pela Pátria,
ainda jovem, belo e imberbe,
nas bolanhas, rias ou matas da Guiné

Levarás contigo a pedra-chave
que te liga ao além,
uma chapa de zinco, picotada ao meio,
que outrora era de xisto ou de grés,
entre o teu antepassado
calcolítico, castrejo, romanizado.
Ironia da história: 
também já foste escravisado, colonizado,
e nem a língua dos teus avoengos lusitanos chegou até ti.

Respeitaremos a tua última vontade,
lavrada no cimento fresco do teu abrigo:
Camaradas (que colegas é só nas putas!,
diz o pícaro do sargento Piça):
se eu morrer aqui,
que me enterrem,
numa anta do meu país megalítico!



A bordo do T/T Niassa,
a caminho da Guiné,
24-29 de maio de 1969.

Visto, revisto, aumentado e melhorado,
Reino dos Algarves, Portimão, Praia do Vau, 26  de maio de 2026
 
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Nota do editor LG:

Guiné 61/74 - P28054: Efemérides (390): Há 57 anos, a 24 de maio de 1969, partia o T/T Niassa para o CTIG - Parte I: eram 1735 homens pertencentes às seguintes subunidades: CART 2520, CART 2521, CCAV 2525, CCAÇ 2527, CCAÇ 2529, CCAÇ 2531, CCAÇ 2533, CCCAÇ 2590/CCAÇ 12, CCAÇ 2591 / CCAÇ 13, CCAÇ 2592 / CCAÇ 14 , CMP 2537, além dos Pel Mort 2116, Pel Mort 2117 e Pel Can S/r 2126

 

Lourinhã > Zambujeira e Serra do Calvo > 25 de fevereiro de 2018 > "Homenagem da Zambuejira e Serra do Calvo aos seus combantentes"... Monumento inaugurado em  5 de outubro de 2013 (pormenor). Foi uma bela iniciativa do Clube  Desportivo, Cultural e Recreativo da Zambujeira de Serra Local.

Desconhece-se o autor do painel de azulejos que representa a partida, no T/T Niassa, no Cais da Rocha Conde de Óbidos, em Lisboa, de um contingente militar que parte para África. Ao canto inferior esquerdo a quadra: "Adeus, terras da Metrópole / Que eu vou pró Ultramar /, Não me chorem, mas alegrem [-me], / Que eu hei-de regressar"... No chão, em calçada portuguesa, lê-se: "Em defesa da Pátria". 

Abaixo do panel, há um livro metálico com os nomes de todos  os nossos camaradas, naturais das duas povoações, que combateram no Ultramar.

N/M Niassa > Ficha técnica:

(i) navio misto (carga e passageiros), de 1 hélice; 

(ii) construído em 1955, na Bélgica;

 (iii) registado no porto de Lisboa (e abatido em 1979);

 (iv) com mais de 151 metros de comprimento; 

(v) arqueação bruta de c. 10.700 toneladas;

 (vi) uma potência de 6800 cavalos e uma velocidade normal de 16,2 nós; 

(vii) alojamentos: 22 em primeira classe, e 300 em classe turística, num total de 322 passageiros; 

(viii) número de tripulantes; 132; 

(ix) armador: Companhia Nacional de Navegação (CNN), Lisboa.

Foi neste navio, adaptado a transporte de tropas (T/T), que viajaram (!), de Lisboa para Bissau, diversas companhias independentes, com partida a 24 de maio de 1969, incluindo a CCAÇ 2590 (futura CCAÇ 12), a CCAÇ 2591 (futura CCAÇ 13) ( do Carlos Fortunato), a CCAÇ 2592 (futura CCAÇ 14) ( do Eduardo Estrela), bem como a CCAÇ 2533 (dos nossos camaradas Luís Nascimento e Joaquim Lessa) ou ainda a CART 2520 (do José Nascimento, do Renato Monteiro, etc.) e ainda  a CPM 2537 (a que pertenceu o antigo secretário geral do PCP - Partido Comunista Português, Jerónimo de Sousa). Um pequeno "fait divers" para a história... 

Crédito fotográfico: Navios Mercantes Portugueses (2004) (Foto aqui reproduzida com a devida vénia...) (A página foi descontinuada).




T/T Niassa > Maio de 1969 > Lista das subunidades transportadas para o TO da Guiné: documento gentilmente disponibilizado pelo nosso saudoso camarada 1º  ten RN, 8.º CEORN, 1965/1972,  Manuel Lema Santos (1942-2025).

  • CART 2520, Xime, Enxalé, Mansambo e Quinhamel (73 referèncias) 
  • CART 2521 (Aldeia Formosa, Nhala e Mampatá) (7 referências)
  • CCAV 2525
  • CCAÇ 2533 (Canjambari e Farim) (63 referências ) (referências)
  • CCAÇ 2590  (25 referências( (futura CCAÇ 12) (Contuboel e Bambadinca) (506 referências)
  • Dos Pel Mort 2116, Pel Mort 2117 e Pel Can S/r 2126 e restantes (pessoal de do Regimento de Serviços de Ssaúde e do Depósito Geral de Adidos)... não temos nenhuma referência.
 
 A subunidade que tem mais representantes  (e referências) no nosso blogue é a CCAÇ 2590 / CCAÇ 12: Luís Graça, Humberto Reis, Tony Levezinho, Adélio Monteiro,  António Manuel Martins Branquinho (1947-2013),  António Manuel Carlão (1947-2018),  José Manuel P. Quadrado (1947-2016),  José Marques Alves (1947-2013), José Martins l Rosado Piça (1933-2021), Fernando Sousa, António F. Marques,  José F. Almeida, João Carreiro Martins, Joaquim Fernandes, Abel Maria Rodrigues, Gabriel Gonçalves, António Mateus, José Luís Vieira de Sousa... entre outros (estou a citar de cor).

T/T Niassa > 24 de maio de 1969 > Uma imagem repetida "as nauseam" ao longo da guerra colonial: o transporte de tropas era feito em cargueiros, mistos, adaptados... As condições a bordo eram inaceitáveis para seres humanos ... Neste caso foram transportadas 13 companhias independentes. num total de 1735 homens. As praças eram "acomodadas" em beliche, nos porões, como animais levados para o matadouro. Com capacidade para 3 centenas de passageiros, além de cerca de 130 tripulantes, o T/T Niassa,  a caminho do TO da Guiné aumentava a "carga humana" cinco ou seis vezes mais... Não consta que algum dia  tenha havido alguma revolta a bordo: os oficiais iam em 1a. classe, os sargentos em classe turística, as praças na... 3a. classe. O poder sempre soube dividir para reinar. De resto, era "a ordem natural das coisas"...

Foto do livro "Histórias da CCAÇ 2533" [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

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terça-feira, 26 de maio de 2026

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28051: Álbum fotográfico de Ernestino Caniço, ex-alf mil cav, Pel Rec Daimler 2208, Mansabá e Mansoa, e Rep ACAP/QG/CCFAG, Amura, Bissau, 1970/72 - Parte III: dissociar o binómio População / IN






Foto nº 1, 1A e 1B




Foto nº 2 e 2A




Foto nº 3 e 3A



Foto nº 4 e 4A



Foto nº 5

A política !Por Uma Guiné Meçlhor" em ação...

Fotos (e legendas): © Ernestino Caniço (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Ernestinmo Caniiço,
médico de famíla, inscrito da OE,
desde 1977,
nº 17053

Ernestino Caniço (ex-Alf Mil Cav, Comandante do Pel Rec Daimler 2208, Mansabá e Mansoa; Rep ACAP - Repartição de Assuntos Civis e Acção Psicológica, QG/CCFAG, Bissau, jan 1970/ dez 1971, hoje médico, vive em Tomar, estando reformado do SNS (em 1971, era chefe da Rep ACAP o major inf Mário Lemos Pires, que será entretanto promovido a tenente-coronel; trabalhou com o então cap Otelo Saraiva de Carvalho):

1. Mensagem de Ernestino Caniço 

Data - domingo, 24/05, 17:35 (há 13 horas)
Assunto - Rep ACAP

Caros amigos

Em resposta aos comentários ao poste  P28042  (*), posso exprimir o seguinte:

A população do “mato” (“turra”) estava em fase de sensibilização e recuperação pelas NT.

Após as visitas anteriormente referidas, as populações optavam por ficar nos reordenamentos já referenciados, ou regressavam às suas tabancas.

Ninguém era “obrigado” a ficar. A decisão era sempre dos próprios de acordo com os seus critérios opcionais.

Os reordenamentos em apreço eram construídos, também, pelos militares metropolitanos e/ou pela população, que ainda colaboravam no apoio e participação na agricultura, conforme se pode verificar em algumas fotos expostas.

A população (presumivelmente balantas, a das fotos) sofrida e explorada, sem condições de vida aceitáveis no “mato,” vislumbrava alguma melhoria do lado dos metropolitanos. O seu semblante sugere-me desconfiança. Provavelmente indecisos entre a expectante melhoria da qualidade de vida e a situação deplorável no “mato”, com putativas represálias.

Os intervenientes para essa promoção, como eu, cumpria as diretivas e/ou diretrizes, do Governador e Comandante Chefe (Gen Spínola), conforme foi redigido pelo cap Otelo Saraiva de Carvalho, subscrito pelo ten coronel Lemos Pires e publicado na O.S. de 14dez71 do Com-Chefe /QG/CTIG (nos muitos contactos que teve com as populações evidenciou perfeita identificação com a manobra psicológica em curso no TO, contribuindo de forma bastante satisfatória para o cumprimento da missão da Rep ACAP).

Não me movia qualquer motivação político-ideológica, com total alheamento da mesma, e nem agora é o meu forte.

Na foto nº vê-se, de costas, alf Fidalgo numa das suas visitas: pertencia à Rep ACAP (Secção de Operações Psicológicas) e que eu fui substituir.

Não havia guerrilheiros nessa visita ao reordenamento.

Aproveito para anexar mais algumas das fotografias que possuo sobre esta temática.

Um abraço,

Ernestino Caniço

PS - Trata-se de população IN, capturada pelas NT.

2. Comentário do editor LG:

Obrigado, Ernestino, obrigado por estas preciosas (e raras) fotos... Acho que respondeste cabalmente às minhas perguntas e observações, com exceção da última:

(i) era população do "mato", em fase de "recuperação / integração ?

(ii) são balantas (pelo vestuário rudimentar);

(iii) estão a visitar um reordenamento

(iv) quem seria o alferes ? da ACAP ? ou da unidade a que pertencia o reordenamento ?

(v) donde veio esta gente ? havia também guerrilheiros ?

Temos de reconhecer, mais de meio século depois, o fantástico trabalho que as NT que fizeram (sob a superior orientação da Rep ACAP / QG / CTIG, ao tempo do governador e comandante-chefe, gen António Spínola) no plano da recuperação e reintegração das populações que viviam no "mato", nas chamadas "zonas libertadas" do PAIGC.

Foram portugueses generosos, competentes e dedicados, como vocês, tu, Ernestino Caniço, o Fidalgo, o Otelo Saraiva de Carvalho, o Lemos Pires e tantos outros, que passaram pela Rep Acap,que ajudaram a comprovar que aquela guerra (e os "senhores da guerra") não podia levar a Guiné a lado nenhum, e que só havia uma via para acabar com ela: sentar à mesa todos as partes interessadas, os combatentes de um lado e do outro, e a população civil que os apoiava (ou tolerava).

Foi feita um esforço gigantesco com a construção, até 1974, de mais de 8 mil casas para alojar população sob duplo controlo ou controlo do PAIGC (que vivia no "mato"). E com as casas, veio a escola, o posto sanitário, a água potável, a estrada, o convívio pacífico interétnico, etc. Estas fotos do nosso amigo e camarada Ernestino Caniço, que depois da "peluda" licenciou-se em medicina pela Universidade de Coimbra (1976), são a prova de que as guerras não se ganham só por ação dos "rambos" e cabras-matchu" mas pela arte e engenho da paz, da empatia, da solidariedade, da partilha, da inteligência, da participação de "todos" na busca de soluções duradouras para os conflitos...
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Nota do editor LG:

Último poste da série > 20 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28042: Álbum fotográfico de Ernestino Caniço, ex-alf mil cav, Pel Rec Daimler 2208, Mansabá e Mansoa, e Rep ACAP/QG/CCFAG, Amura, Bissau, 1970/72 - Parte II: recuperar a gente do "mato"

domingo, 24 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28050: Humor de caserna (269): o anedotário da Spinolândia - Parte XXXVII: Oh, homem, cale-se! (Alberto Branquinho, ex-alf mil art OE, CART 1689 / BART 1913, Fá, Catió, Cabedu, Gandembel e Canquelifá, 1967/69)


Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.
Fontes iconográficas: fotos de Alberto Branquinho e gen António de Spínola (1969), Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné



1. O escritor Alberto Branquinho, alto-duriense de Vila Nova de Foz Coa (uma terra antiga como o caraças), e que faz questão de não esconder que andou na guerra colonial da Guiné, na porrada, é um dos nossos contribuintes (líquidos) desta série, "Humor de Caserna".

Não vive da escrita, é advogado, mas já publicou uma "porrada" de livros, e p0demos dizer que  vários se encaixam no polémica categoria da "literatura da (e não sobre a) guerra colonial"...

 Acaba de publicar mais um, que ele diz que é o último mas a gente não acredita. Ficou de mandar um exemplar autografado para a Tabanca Grande. Ainda nem sabemos como é o título. 

Até lá (até que o livro chegue à Lourinhã, minha terra natal, também velha como o caraças), fui revisitar um dos seus contos da série "Contraponto". Recorde-se quem ele é (ou foi, noutra encarnação):

(i) ex-alf mil art, CART 1689 / BART 1913, Fá, Catió, Cabedu, Gandembel e Canquelifá, 1967/69;

(ii) nota curiosa: desembracou em Bissau em 1 de maio de \1967, no tempo do governador e comandante-chefe, Arnaldo Schulz; regressou à metrópolke em 2 de março de 1969, já no tempo do gen António Spínokla;

(iii) depois de ter passado por Coimbra como estudante, fixou-se em Lisboa, onde exerce adv0cacia (advogados e médicos trabalham até morrer);

(iv) dizem os críticos literários que é um dos grandes contistas da guerra da Guiné (ou da Guinezinha, como dizia a senhora dona Supico Pinto,m com ternura);

(v) é autor, entre outros, dos livros de contos "Cambança"; "Cambança Final" e "Deixem a Guerra em Paz";

(vi) faz parte da Tabanca Grande desde 26/8/2008, altura em que venceu a relutância de se associar ao nosso blogue, ao ler o nosso apelo, "Não deixemos que sejam os outros a contar a nossa história por nós";

(vii) tem 163 referências no nosso blogue.


2. A história que se segue tinha originalmente um título modesto (mas honesto), "O Spínola que eu...entrevi". Ele começa por justificar por que é que, muito sinceramente, nunca poderia enganar o leitor se disssesse "O Spínola que eu conheci". Não é homem para enganar os outros, mesmo sendo causídico, vendendo gato por lebre. 

A cena passa-se, nos arredores de Bissau, em Brá, no famoso Depósito dos A(r)didos), num sábado, dia 1 de março de 1969, aquando da despedida de mais um contingente de tropas que cumpriam a sua comissão de serviço e regressavam, no dia seguinte, a casa: BART 1913, CCAV 1693, etc.  

Repare-se que, "naqueles bons velhos tempos" (há quem saudades!...), ainda se trabalhava ao sábado e sol a sol... (Não é como agora, em que  toda a gente, a começar pela tropa,  quer a semana de 4 dias e, de preferência, em teletrabalho).
 

Humor de caserna > O anedotário da Spinolândia: Oh!, homem, cale-se!

por Alberto Branquinho


Não me pareceu que este texto pudesse ser colocado na série “O Spínola que eu conheci”, porque não o conheci. O que posso dizer é que, por duas vezes, pude entrevê-lo.

A primeira foi durante o período de permanência da minha companhia em Bissau (onde nunca estivera), aguardando o embarque de regresso a Lisboa. Encaminhava-me para a messe em Santa Luzia 
[no QG/CTIG], quando o vi, ao longe, em frente à messe, entre meia dúzia de oficiais.

A segunda vez foi durante a formatura de despedida das tropas que, no dia seguinte, embarcavam para Lisboa. Que me lembre, na formatura, estava o meu batalhão  [BART 1913], outro batalhão [ ou, pelo menos, a CAV 1693] e, lá mais à frente, sob a minha direita, tropas da marinha, impecáveis, nas suas fardas brancas.

Eu estava à frente do meu pelotão e tinha a tapar-me a visibilidade sobre um palanquim de madeira (onde estava um microfone), o meu comandante de companhia e, em frente a ele, o coronel que comandava a tropa em formatura. Chegou o Com-Chefe, acompanhado de um oficial que se colocou mais atrás, sob a sua esquerda. Toque de “Sentido”. A seguir, o coronel fez o cumprimento militar. O Com-Chefe respondeu, elevando a mão direita, enluvada, mais ou menos à altura do rosto. Toque de “À-vontade”.

Colocaram um microfone em frente ao coronel. Compasso de espera para o acertar à altura adequada. O coronel colocou os óculos e retirou umas folhas de papel do bolso direito das calças. (Aproveitei para espreitar discretamente, ora sobre a direita ora sobre a esquerda.) O coronel começou a ler. 

Eu não prestava atenção ao que ele dizia, tentando entrever o general, que dava sinais de impaciência. Apurei o ouvido. O coronel falava da arma de Artilharia, da excelência do artilheiro, da história da Artilharia.

O general, que estava cada vez mais impaciente, chegou-se ao microfone do palanquim e ouviu-se, por entre as palavras do coronel, em som nasalado e grave:

 — Já chega!

O coronel pareceu não ouvir e continuou a passar folhas e a ler. E o general:

 — Shh! Shh!

De cabeça baixa, continuei a procurar entrever o palanquim e o general, olhando por cima do sobrolho e pensando: 

 — Vai haver esturro!

O general, de novo:

— Já chega! Shh!

O coronel continuou. Acabou. Dobrou e guardou as folhas.

Ouviu-se o toque de “Sentido” e, logo a seguir, o coronel fez continência. O general respondeu, com um gesto, fazendo oscilar o pingalim sobre o seu lado direito. Então recuou um pouco, ficando, assim, visível, olhou o oficial que o acompanhava 
[talvez oi ajudante de campo, o "Aponta, Bruno"] e que estava à sua esquerda e, com o pingalim apontando o microfone, disse em voz bem audível, mais ou menos isto:

 — Diz lá umas palavras aos rapazes sobre o significado deste ato, que voltam para as famílias, para as mulheres, para os filhos… que era o que o senhor coronel devia ter feito.

(Revisão / fixação de texto, parênteses retos, título, negritos: LG)

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Nota do editor LG:

Último poste ds série > 23 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28047: Humor de caserna (268) : O anedotário da Spinolàndia - Parte XXXVI: o que faz o sargento de guarda ao palácio do Governador com uma mensagem relâmpago ("zulu") num domingo, já noite dentro ? Se necessário, faz o Governador saltar da cama...