Pesquisar neste blogue

sábado, 29 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28305: Os nossos seres, saberes e lazeres (747): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (268): Ainda a visitar Mainz, no dia seguinte em Frankfurt - 3 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 13 de Agosto de 2026:

Queridos amigos,
O facto da Catedral de Mainz possuir um interior que não me enche as medidas de modo algum garantindo o peso patrimonial que possui, a começar pela arte funerária, peças belíssimas dos túmulos daqueles bispos que coroavam o Imperador do Sacro Império Romano-Germânico, acresce os retábulos, o esplendor do púlpito, o podermos observar as etapas da evolução do gótico, do barroco, as múltiplas adições introduzidas no século XIX, até chegarmos aos importantes trabalhos de conservação e restauro depois da Segunda Guerra Mundial, e concluídos em 1975. No dia seguinte apanhei o comboio de Idstein para Frankfurt, depois o metro e sair na praça principal, onde se avista soberbos arranha-céus, são a prova eloquente desta cidade que é uma praça financeira de muito peso, sede do Banco Central Europeu e possuidora de um património histórico-artístico de valor incalculável. Por razões de saúde, vou palmiando lentamente à procura de novidades arquitetónicas, sempre na esperança de ganhar coragem de atravessar o Reno para visitar o mais importante museu da Alemanha, tal não acontecerá, mas deixarei provas do meu registo.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (268):
Ainda a visitar Mainz, no dia seguinte em Frankfurt - 3


Mário Beja Santos

Pretendo acrescentar umas notas sobre a visita que fiz à catedral de Mainz. Trata-se de uma basílica com mais de mil anos de história, onde relevam as marcas do românico, de diferentes fases do gótico, do barroco, de sucessivas adições do século XIX e alterações provocadas por bombardeamentos em 1942 e 1944, tudo conjugado as imagens que temos datam do acabamento das obras em 1975. Um templo de cinco naves, duas absides, torres magníficas. Se bem que este volumoso interior muito pouco me impressiona, há que reconhecer a considerável importância da Catedral no plano histórico em termos arquitetónicos, talvez nenhuma outra catedral alemã conserve tanta arte funerária, os túmulos dos arcebispos, dado que o arcebispo de Mainz fazia parte dos príncipes eleitores do Sacro Império Romano-Germânico, era mesmo a sede religiosa do Império. Mais de mil anos, porque foi catedral carolíngia, a planta que hoje disfrutamos arrancou na Idade Média, diga-se de passagem, que o património medieval melhor conservado é o do claustro, como aqui se mostra.
Pormenor do claustro medieval da Catedral de Mainz
Madona dos Peregrinos da Palestina, obra do final do século XV
Imagem tirada no claustro mostrando a torre mais elevada, passeando no jardim são bem visíveis as marcas dos estilhaços dos bombardeamentos
Um dos corredores do claustro com marcas funerárias de alguns dos arcebispos
Outra perspetiva da torre tirada do claustro medieval
O altar de Maria, século XVI, Catedral de Mainz
Portal do Mercado (séc. XII) da Catedral. As portas de bronze são da época de Willigis (c. 1000)
Duas perspetivas de uma das fachadas laterais da catedral tiradas da praça onde, no lado oposto, está o museu Gutenberg, que, infelizmente, não tive oportunidade de visitar. Juntei as duas imagens só para se ver o conjunto de adições que se embebem nas paredes da primitiva catedral
Um só exemplo do esmero arquitetónico que rodeia a praça da catedral. Aqui termina a visita a Mainz, regresso a Idstein, amanhã nova viagem de comboio para matar saudades de Frankfurt
Já no Guide Bleu de 1972 se falava da importância comercial industrial e de feiras desta vetusta cidade, posicionada na encruzilhada das principais rotas europeias, com bolsa desde o século XVI, também dessa época um importante centro bancário, depois da Segunda Guerra Mundial sede de feiras prestigiosas à escala mundial abarcando o livro, a química, o automóvel, a indústria farmacêutica, a aparelhagem elétrica e as ferramentas. Num bombardeamento em 1944 desapareceu a velha Frankfurt, era um dos maiores conjuntos medievais alemães. Há lugares fundamentais a visitar, dadas as dificuldades da minha saúde, tomei o metro à saída da gare principal de Frankfurt e encaminhei-me para a Catedral de São Bartolomeu. Pelo caminho vou encontrando recordações de famílias judaicas que habitaram pela cidade e que acabaram em fornos crematórios, em dado passo passei perto do cemitério judaico de cuja parede tem lembrança dos falecidos devido às perseguições nazis, ali perto do cemitério está o museu judaico, dado como historicamente muito importante, ficará para a próxima visita.
Esta imagem não é minha, é da Wikipédia, mostra claramente como a catedral está completamente afogada pelos edifícios circundantes, a foto foi tirada da outra margem do rio Reno
O novo órgão da Catedral de São Bartolomeu, impressionante até pelo seu aparato cénico. Entra-se na catedral pela porta lateral onde está um belo calvário, obra do início do século XVI. A catedral tem também uma grande importância histórica, era peça indispensável para a cerimónia da coroação imperial, tendo a nave a normalmente curta tem um transepto que permitia aos dignatários agrupar-se à volta do imperador e participar diretamente nas cerimónias, pois era no cruzamento do transepto que o bispo eleitor de Mainz coroava o novo imperador.
Retábulo gótico esculpido chamado Altar da Despedida dos Apóstolos, datado do século XVI
Capela onde se elegia o imperador do Sacro Império Romano-Germânico

Vamos continuar a visita em Frankfurt, está uma tarde muito quente, bem gostava de ter coragem de palmilhar até à margem do Reno, atravessar a ponte e encaminhar-me para um dos mais belos museus que conheço, o Museu Städel, considerado o mais importante da Alemanha, mais não fosse para estar um bom bocado em frente ao quadro O Geógrafo, de Vermeer, mas não me sinto capaz.
O Geógrafo, quadro de Vermeer, Museu Städel

(continua)
_____________

Nota do editor

Último post da série de 22 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28281: Os nossos seres, saberes e lazeres (746): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (267): De Wiesbaden para Idstein, o Festival de Música do Reno no castelo de Johannisberg, visita a Mainz - 2 (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P28304: Humor de caserna (267): O anedotário da Spinolândia - Parte XXXVIII: Mais um das "galgas" da IA: a famosa cadela do com-chefe, a "Blonde", que adorava andar, de rabo tremido, de "hélio" (e até de DO-27)



"A MENINA DA IA NÃO É DO MEU TEMPO, MAS EU USAVA O CACO  NO OLHO... ESQUERDO!"


JORGE FÉLIX, ALF MIL PIL, AL III (BA 12, BISSALANCA 1968/70)...."O MEU PILOTO MILICIANO
PREFERIDO"


"Ó MENINA, EU NUNCA PRECISEI DE UM ESCORREGA PARA SAIR DO HÉLIO"


"VÊ-SE QUE A MENINA NÃO ME CONHECEU OU ENTÃO NÃO SIMPATIZA COMIGO!... EU ERA UM GENERAL DE 3 ESTRELAS OPERACIONAL...TRAJAVA FATO CAMUFLADO, QUICO OU BOINA. AQUI ATÉ PAREÇO O PINOCHET!"


"BOA SORTE, MEU RAPAZ", 
GRITA O GENERAL LÁ DE CIMA...


A 5ª REP, CAFÉ BENTO, BISSAU... "O MAIOR 'MENTIDERO'  DA SPINOLÂNDIA!"...


"SÃO QUINZE CONTOS À HORA, Ó BLONDE!


"ANIMA-TE, ZÉ, ÉS O MELHOR SOLDADO
 DO MUNDO!"


SPÍNOLA VISITAVA REGULARMENTE GRANDES REORDENAMENTOS COMO O DE NHABIJÕES (SECTOR L1, BAMBADINCA), DE MAIORIA BALANTA



Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto: Luís Graça  (2026)
Imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


 1. Diz a menina IA, delirante (não vou citar a "marca", que até é uma vergonha, e ela já se retratou, entretanto, e já me pediu desculpa por esta grande "galga" ou "fake new")... 

Registo o seu gesto de "humildade". É um progresso, mesmo sabendo que as meninas da IA (ou meninos ?!,  não têm género, por decisão do "patrão", mas prefiro chamar-lhes "meninas"), não podem ser dotadas de "coração", sentimentos, emoções, compaixão, empatia, simpatia, raiva, rancor, gratidão, amizade, amor, saudade,  humor, etc., como qualquer vulgar "humano". 

Apesar do seu elevado QI, a IA admite "que pode cometer erros". Eureka!...E isso deixa os "humanos" mais tranquilos. Por enquanto.  Ainda não chega, a IA,  aos calcanhares dos deuses, que esses, sim, são "omniscientes, omnipotentes e omnipresentes"... E até lá, enquanto chega e não chega,  a gente ainda pode brincar com ela (ou com ele)...

Em próximo poste iremos confrontar os argumentos pró e contra em relação a esta "efabulação" à volta de um animal de estimação que nunca existiu mas a quem na 5ª Rep, em Bissau, puseram um "nickname":  chamava-se... "Blonde", a cadela!... 

Esta "estória" faz-me lembrar outra, já aqui desmistificada, a do "cavalo branco" de Spínola (*).

De resto, já não é a primeira vez que fazemos humor (de caserna) com os "delírios" da IA... Valha-nos, isso, ao menos. Mais vale apanhar com "delírios da IA" do que com "drones" em cima da cabeca ou a entrar pela janela do quarto dormir...

Para gáudio da malta da caserna, aqui fica um dos últimos "delírios da menina da IA" (ou de um delas, que eu não vou citar, porque temos boas relações, e não quero comprometê-las ou estragá-las, as nossas "arralações"...). 

Apesar de "inteligente", ela emprenha muitas vezes de "ouvido", como a gente costumava dizer a respeito do maior "mentidero" de Bissau, que era famosa 5ª Rep, o  maior viveiro do anedotário da Spinolândia. 

Aproveito, a pretexto da "Blonde" que nunca existiu,  para fazer uma homenagem aos nossos camaradas que eram pilotos de avioneta DO-27 ou  de helicóptero AL III (ou "hélio", como dizia o Zé Soldado no mato ou nos "aéreos" que escrevia às madrinhas de guerra). Quase todos milicianos. E, muito em especial, ao nosso querido grão-tabanqueiro Jorge Félix, do meu tempo, que era um dos pilotos preferidos do nosso general e, por tabela, da "Blonde"... (**)


Mais um das "galgas" da IA : a famosa cadela do Spínola que adorava andar, de rabo tremido,  de "hélio" (e até de DO-27)


Esse pormenor biográfico é real e muito curioso, embora tenha ficado em parte obscurecido pelo folclore e pelo aparato quase teatral que o general António de Spínola cultivava na Guiné (o monóculo, o pingalim, as luvas pretas).

Sim, Spínola tinha uma cadela de estimação da raça pastor-alemão. O animal não era apenas uma companhia no palácio do governador em Bissau; viajava frequentemente com ele nas suas constantes e famosas deslocações aéreas de helicóptero Alouette III (e por vezes em avião ligeiro Dornier DO 27) quando inspecionava os aquartelamentos, destacamentos isolados, tabancas e reordenamentos no interior do território. (Só a não levava para operações, por razões de segurança.)

Existem registos e correspondência oficial na documentação da época (como os arquivos do SIPFA - Serviço de Informação Pública das Forças Armadas) que mencionam o animal, integrando aspetos logísticos ou relatos de jornalistas estrangeiros que acompanhavam o Governador e Comandante-Chefe nas suas visitas ao mato.

A presença do animal reforçava duas imagens distintas que coexistiam na perceção dos militares:

(i) Para a Propaganda e as Altas Patentes:

 ajudava a compor a mística do comandante enérgico, audaz, corajoso e omnipresente, que chegava dos céus com o seu ajudante de campo e outros elementos do seu  Estado-Maior mais o seu cão fiel (aliás, cadela), transmitindo uma imagem de controlo absoluto e modernidade operacional no âmbito da sua política de "Por Uma Guiné Melhor".

(ii) Para o "Zé Soldado" no Terreno

aqueles que estavam enterrados nas abrigos e  valas, rodeados por bidões de areia e chapa de zinco, em setores fustigados das Zona Leste, Oeste ou  Sul, viam nessa comitiva — que incluía o pastor alemão a descer do helicóptero — um contraste gritante, quase surreal, com a miséria e a dureza quotidiana do mato. 

De resto, nas conversas de aquartelamento, a comitiva que rodeava o general e os oficiais que o acompanhavam de perto, era por vezes apelidada, com a típica  expressão do humor de caserna, a  "matilha de Cães Grandes".  (Abundavam nos quartéis do mato os caes rafeiros, famélicos, vadios...)

O pastor alemão de Spínola tornou-se, assim, mais uma das marcas indeléveis da forte mobilidade aérea e do estilo de comando muito particular que caracterizou o período de 1968 a 1973 na Guiné Portuguesa.

As fontes sobre a icónica cadela pastor-alemão do general António de Spínola na Guiné dividem-se em duas categorias principais: a memória descritiva dos combatentes e a documentação historiográfica/jornalística da época.

A nível de referências formais e bibliográficas onde o animal e o ambiente da comitiva de Spínola são retratados, destacam-se as seguintes:

(a) Historiografia e Memórias Militares:

"Spínola: Fotobiografia", de Maria Inácia Rezola (A Esfera dos Livros, 2006). 

Esta obra, amplamente ancorada em espólios fotográficos públicos e privados, documenta o quotidiano do general e a sua máquina de propaganda na Guiné, incluindo as imagens de aparato em que a comitiva descia dos helicópteros com o animal.

"Spínola — Biografia", de Luís Nuno Rodrigues (A Esfera dos Livros, 2010). 

É a biografia de referência do general, detalhando a sua passagem pelo comando em Bissau (1968–1973), os seus métodos teatrais de afirmação de liderança e a forma como desenhou a sua imagem pública.

"História da Guerra Colonial", de Aniceto Afonso e Carlos de Matos Gomes. 

Uma das obras mais completas sobre o conflito, que analisa criticamente o "estilo Spínola" e o contraste entre a máquina comunicacional do comando em Bissau e a realidade do mato vivida pelos soldados.

(b) Arquivos de Imprensa e Reportagens da Época:

Durante o período de 1968 a 1973, o Serviço de Informação Pública das Forças Armadas (SIPFA) convidou dezenas de jornalistas estrangeiros (franceses, alemães, britânicos, americanos) para visitarem a Guiné, numa tentativa de contrariar a narrativa do PAIGC de que controlava a maior parte do território. 

Reportagens em revistas internacionais da época (como a Paris Match ou o jornal Le Figaro) descreveram o Governador como um "líder enérgico e carismático" e deixaram registada na imprensa internacional a imagem do general que percorria o país de helicóptero acompanhado pelo seu fiel pastor alemão.

(c) Testemunhos e Arquivos Digitais de Veteranos:

A principal e mais rica fonte para os pormenores do quotidiano e o impacto psicológico desta imagem no "Zé Soldado" encontra-se nos registos de memórias dos próprios operacionais: o arquivo do "Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné" (Tabanca Grande, 2004-2026): 

Este repositório coletivo de memórias da Guerra Colonial na Guiné contém inúmeros testemunhos, crónicas e episódios partilhados por oficiais,, sargentos e  praças que operaram no mato e testemunharam in loco as aterragens do Alouette III do Comando-Chefe. 

Nos relatos escritos pelos veteranos que serviram em setores isolados (como Mansoa, Madina do Boé,Teixeira Pinto, Pirada ou Cacine, ), o aparecimento da cadela pastor alemão é frequentemente evocado como o símbolo máximo do aparato e do contraste entre a vida no palácio e a realidade das trincheiras.

Fonte: 5ª Rep + IA

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28303: Notas de leitura (1955): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (3) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 9 de Julho de 2026:

Queridos amigos,
A laboriosa pesquisa feita por este investigador norte-americano introduz um olhar diferente sobre o papel do continente africano na história detalhada de seis séculos de desenvolvimento mundial. O que Howard French procura consolidar como historicamente demonstrado, mas praticamente ausente ou até mesmo minimizado, é o papel fulcral desempenhado pela mão de obra escravizada nas plantações de açúcar de São Tomé, do Brasil, de toda a agricultura de plantação das Caraíbas e dos estados sulistas do que virá a ser os EUA, pois foi esta mão de obra escravizada que serviu de alavanca para a ascensão económica da Europa, para o seu desenvolvimento político, naturalmente uma trajetória que se inicia com os países ibéricos e que chegará à Revolução Haitiana e pelo adiante à evolução do conceito de Direitos Humanos e às modificações drásticas que tinham sido impostas pelos preconceitos raciais. É um convite para que os historiadores globais revejam as abastadas civilizações da África medieval e como o comércio negreiro configurou o papel do negro na História. Por isso vale a pena continuar a ler este livro com elementar cuidado.

Um abraço
do Mário



África, os africanos e a criação do mundo moderno, de meados do século XV à Segunda Guerra Mundial - 3

Mário Beja Santos

Se tentássemos contabilizar a proveniência dos autores que escreveram relatos, fizeram investigações, orientaram ou orientam estudos académicos sobre o continente africano, o número mais expressivo iria recair certamente nos europeus, seguido dos norte-americanos. No seu livro Origem: África, o jornalista, escritor e académico Howard W. French, Bertrand Editora, 2022, releva que os relatos tradicionais têm o seu foco na era dos Descobrimentos europeus do século XV, não escondendo os reais interesses de quem e para quê impulsionava estas viagens e a instalação de feitorias e fortalezas: sonhava-se descobrir mundo, encontrar o lendário rei Preste João, ter acesso ao ouro, levar a crença cristã e sempre que necessário, combater a crença muçulmana, encontrara a ligação entre os rios Níger e o Nilo – e parece que mais nada aconteceu.

É incontestável que foi este desencravamento do mundo que abriu as portas à modernidade. E Howard W. French sublinha que África foi a pedra-chave da máquina da modernidade:
“Sem os povos africanos traficados desde as suas costas, as Américas teriam contado pouco para a ascensão do Ocidente. O trabalho africano, materializado em escravos, tornou-se o fator providencial que tornou possível o desenvolvimento das Américas. Sem África, os projetos coloniais da Europa no Novo Mundo, tal como os conhecemos, são simplesmente inimagináveis. Através do desenvolvimento da agricultura de plantação – tabaco, café, cacau, anil, arroz e, principalmente, açúcar – os laços profundos e muitas vezes brutais entre a Europa e África conduziram ao desenvolvimento de uma economia capitalista verdadeiramente global.”

Chegou o momento de o autor abordar frontalmente a essência da escravatura. Primeiro, sempre houve escravatura, há testemunhos delas em todas as civilizações. A escravatura que vai partir de África, nomeadamente do século XVI em diante é nela que assentam as raízes do racismo moderno. Mas que escravatura havia em África, antes da chegada dos portugueses e de outros povos? O autor responde:
“A escravatura nesta parte de África (como noutras regiões subsarianas do continente) eram a prática antiga, embora não tivesse quase nenhuma semelhança com o modelo de escravo-mercadoria que estava prestes a surgir nas plantações de açúcar, de mãos dadas com o florescimento do imperialismo ocidental. Para os acãs (importante grupo étnico do Gana e da Costa do Marfim), os escravos eram tradicionalmente adquiridos no decurso de disputas múltiplas, bem como durante as campanhas expansionistas contra grupos externos. Os cativos nestes conflitos eram por vezes expostos a trabalhar na agricultura, na construção de estradas, e até mesmo como soldados, mas, tal como os otomanos, em geral era dada prioridade à sua assimilação na sociedade o mais rapidamente possível.
Os acãs, que controlavam as mais ricas fontes de ouro, tinham recentemente estabelecido laços comerciais lucrativos com os impérios do Sahel ocidental, como o Mali e Songhai, utilizando-os para escoamento dos seus metais preciosos. Vendiam-nos em troca de mercadorias provenientes do Norte de África e até da Europa. O valor na proposta de contacto e a despesa ou incómodo para casa lado, portugueses e acãs, assentava tanto num volume maior como mais regular. Mas até que os cobiçados panos da Índia se tornassem disponíveis, os bens portugueses não eram considerados suficientemente desejáveis para os acãs de modo a justificar o desvio em grande escala da sua própria mão de obra indígena para a produção de ouro.”


Havia manifestamente relutância em vender os seus semelhantes étnicos ou mesmo os prisioneiros de guerra, uma das principais medidas de riqueza e poder nos reinos africanos era o número de súbitos. Ora esta relutância deixou de se verificar com a proliferação do comércio europeu, eles traziam armas e outros bens que eram preciosos para os africanos, tudo conjugado contribuiu para o surgimento de um novo mercado de escravos. Ainda em termos mitigados, os navios portugueses que exploravam o extremo oriental do delta do rio Níger encontraram em 1486 cinco canais serpenteantes que passaram a ser conhecidos por Rios Escravos. Os portugueses chegaram ao Benim e imediatamente reconheceram o grande potencial comercial de um pimento que se tornou largamente apreciado nos mercados da Flandres. Mas nada se igualava aos escravos, e os portugueses ficaram satisfeitos por descobrir uma oferta de escravos com raízes nas guerras do Benim com os povos vizinhos. A cultura do Benim impressionou os portugueses. Os beninenses queriam negociar manilhas de cobre e bronze, a arte beninense ganhou imediatamente fama.

Howard French muda agora para São Tomé, formalmente decretada como uma colónia em 1485, irá ser muito importante na produção de açúcar, também daqui partiram escravos para o Benim, e havia escravos enviados do Congo via São Tomé para o Novo Mundo. Estamos, pois, a assistir à organização de circuitos do tráfico negreiro. O autor dissecará em profundidade a importância da plantação esclavagista de São Tomé e como o complexo de plantação deu um salto de São Tomé para as Américas. Teremos depois um histórico sobre Barbados. Outra condicionante histórica relevante que o autor destaca é o nascimento do crioulo, a formação de comunidades crioulas em lugares tão diferentes como Cartagena, Havana, Cidade do México e São Salvador, nestas comunidades era frequente encontrar os escravos a falar pidgins e línguas crioulas fortemente ligadas ao português.

Mudando de assunto, o autor vai observar a competição europeia por África, os grandes conflitos que vão envolver a cobiça e os interesses das grandes potências europeias.

Dirá, a título introdutório:
“A história moderna de África como uma massa terrestre geopoliticamente disputada, cheia de parcelas de território que foram cortadas por forasteiros ávidos, começou formalmente na Alemanha em 1884, num famoso evento conhecido como Conferência de Berlim. Na altura, os europeus mal controlavam 10 por cento do continente, na sua maioria nas extremidades norte e sul. Por volta de 1914, em consequência das decisões tomadas em Berlim, monarcas e outros governantes do Velho Continente dominavam mais de 90 por cento de África. As fronteiras que estes líderes europeus estabeleceram entre si continuam a ser as fronteiras em vigor atualmente na maior parte do continente.
À medida que assumiam o controlo do continente, os europeus quase não tinham em conta a história africana, o legado dos impérios indígenas ou os Estados africanos preexistentes. Ignoraram considerações envolvendo o mosaico de línguas que prevaleciam à medida que eles definiam e depois subdividiam regiões. Prestavam pouca atenção aos padrões de identidade local de longa data, ao comércio local ou mesmo às rivalidades e animosidades étnicas. Nem os próprios africanos foram consultados.”


Vamos seguidamente ver mais pormenores sobre esta corrida a África.


Professor Howard W. French

(continua)
_____________

Notas do editor

Vd. post de 21 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28278: Notas de leitura (1951): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (2) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 24 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28288: Notas de leitura (1954): “Pai, tiveste medo? A guerra contada é muito diferente da que foi vivida”, por Catarina Gomes; Matéria Prima Edições, 2014 (1) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P28302: Agenda cultural (902): "Geração Afro: Os Últimos Guerrilheiros do Império", de Recaredo (Angelino Santos Silva): apresentação do livro,. amanhã, sábado, 29 de agosto, em Paredes (Biblioteca Municipal), e 1 de outubro, quinta feira, no Porto (Unicepe)


Capa


Geração Afro: Os Últimos Guerrilheiros do Império - Vol I, de Recaredo (pseudónimo lietrário de Angelino Santos Silva, ed. autor, Recarei, Paredes, 2026, 455 pp.)


1. O livro vai ser apresentado amanhã, sábado, na Biblioteca Municipal de Paredes, pelas 17h00. E dia 1 de outubro,  quinta feira, na UNICEPE - Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, pelas 18h00.



(ii) foi mobilizada pelo CIOE, Lamego, tendo como cmdt o Cap Inf Cmd Alberto Freire de Matos;

(iii)  embarcou em 25mar70, chegou a Bissau em 31mar70 e regressou a 27dez71;

(iv)  é até agora o primeiro e único representante da 26ª CCmds na Tabanca Grande;

(v) é natural de Recarei, Paredes, distrito do Porto




Resumo das Experiências dos Combatentes Portugueses e Africanos 


1. O Início: Patriotismo, Desencanto e Realidade. 

  • Expectativa vs. Choque: 
Os jovens portugueses embarcavam para África "imbuídos de um mesmo amor à Pátria, considerando as suas comissões uma causa justa". No entanto, logo no início da viagem, o desconforto, as más condições nos navios e o choque com a realidade africana geravam desencanto e frustração.
  •  A Chegada:
 Ao chegarem, deparavam-se com combatentes africanos armados ao serviço de Portugal, o que causava estranheza e, ao mesmo tempo, aliviava o desconforto inicial. 

2. A Vida no Terreno: Dificuldades, Medos e Camaradagem 

  • Condições Extremas: 

O quotidiano era marcado por calor, humidade, doenças como o paludismo, chuvas torrenciais, emboscadas, minas e noites mal dormidas na selva. 

  •  União: 

A camaradagem entre soldados era fundamental para suportar o medo, a saudade e o desgaste físico e psicológico. O humor, as pequenas festas e as conversas ajudavam a aliviar a tensão constante. 

  • Perspetiva Africana: 

Os combatentes africanos, como os do Grupo Especial de Combate (GEC), partilhavam o risco e o sacrifício, mas tinham motivações e preocupações distintas, muitas vezes relacionadas com o futuro das suas famílias e a incerteza do pós-guerra. 

3. Contradições e Dilemas 

  • Laços Partidos: 

Muitos africanos lutavam ao lado dos portugueses, enquanto familiares seus combatiam no PAIGC (movimento de libertação). Isso criava situações de "irmãos contra irmãos", ilustrando a complexidade das lealdades e dos laços familiares.

  • Sentido da Guerra: 

Os portugueses, por sua vez, questionavam o sentido do sacrifício, especialmente ao perceberem que a guerra era "uma causa perdida" e que o império colonial estava no fim. 

4. O Impacto Psicológico e Social


  •  O Regresso: 

O regresso à Metrópole era frequentemente marcado por traumas psicológicos, ausência de apoio psiquiátrico e falta de reconhecimento social. Muitos ex-combatentes sentiam-se ignorados e desamparados.

  •  Angústia do Futuro: 

Entre os africanos, o medo de represálias após a independência e a incerteza quanto ao futuro das suas famílias eram fontes de grande angústia.


 5. O Quotidiano e a Sobrevivência

  •  Operações de Risco: 

As operações militares eram descritas como extenuantes e perigosas, com relatos de emboscadas, minas, flagelações e ataques noturnos. 

  • Adaptação: 

A sobrevivência dependia tanto da preparação militar quanto da adaptação ao ambiente hostil e do apoio dos guias e combatentes africanos, conhecedores do terreno. 

6. Humanidade, Humor e Resistência

  •  Momentos de Trégua:

 Apesar da dureza da guerra, havia espaço para a amizade, o humor e até para momentos de festa e confraternização, com refeições de churrasco, uma ementa desconhecida na Metrópole.

  •  Troca Cultural: 

O contacto com a cultura local, a aprendizagem de palavras em crioulo e a partilha de refeições aproximavam portugueses e africanos, criando laços que iam além da guerra. 

7. O Fim da Guerra e o Legado

  • Sentimentos Mistos: 

O fim do conflito trouxe alívio, mas também frustração e uma sensação de missão inacabada.
  •  Marcas Eternas: 

Muitos combatentes, portugueses e africanos, carregaram para sempre as marcas físicas e psicológicas da guerra, sentindo-se "diferentes" e, por vezes, incompreendidos pela sociedade.

 ______________________

 Exemplo de Testemunho Resumido:

"Já lá fomos e voltamos. Percorremos o lado negro da vida, tropeçamos na face má da sorte e andamos por trilhos e picadas da morte. [...] Já lá sorrimos e penamos. E abrimos a caixa de Pandora e antes de virmos embora enfrentamos medos e emboscadas, carregamos sonhos e granadas, corremos perigo e aflição, bebemos água da bolanha, comemos colados ao chão, adormecemos de arma na mão, socorremos camaradas feridos, beijamos rostos estendidos, cerramos os punhos cantando, festejamos a vida chorando, deixamos os sonhos esquecidos."
 ______________________ 

Conclusão:

 As experiências dos combatentes portugueses e africanos na Guerra Colonial foram marcadas por sofrimento, coragem, dilemas morais e laços de solidariedade. 

O livro retrata com realismo e sensibilidade a complexidade humana da guerra, dando voz a todos os que nela participaram, independentemente do lado em que lutaram. 

"Do embarque ao regresso a casa, o leitor com poucos conhecimentos sobre a Guerra Colonial Portuguesa em África terá o privilégio de acompanhar, em tempo real, o dia a dia dos combatentes: desde as deficientes condições de viagem até à estranha surpresa ao desembarcar, quando vê, no cais, soldados africanos a combater ao lado da bandeira portuguesa. Já no 'mato', vai acompanhar os passos de quem faz 'mexer' a guerra, testemunhando os dias de sorriso e tristeza, os dias de aflição e lazer, e os 'acasos' do azar e da sorte que separam a vida da morte. Por fim, vai sentir no corpo e na 'mente' as mazelas que trouxemos de África e a injustiça do tratamento inadequado votado aos combatentes da parte dos governos, desde o regime do Estado Novo ao regime nascido com o 25 de Abril — algo que permanece até hoje. Para memória futura, este romance ficará gravado nas páginas graníticas da História da Guerra Colonial." 

Principais locais onde se desenrola o romance: 

• Bissau, Brá, Bula, Binar, Bissorá, Olossato, Mansoa, Mansabá, K3. 
• São Vicente, Pelundo, Teixeira Pinto, Bachile, Cacheu.
 • Catió, Cabedu, Guileje, Gadamael Porto, Kandiafara (Guiné-Conacri), Cumuré e Hospital Militar de Bissau. 

(Sinopse: Autor + IA)
(Revisão / ficação de texto: LG)

 Contactos:

 Angelino dos Santos Silva (RECAREDO) Combatente na Guiné-Bissau – 1970-71 

• E-mail: recaredo241148@gmail.com 
• Telemóvel: 926 365 774

__________________

Nota do editor LG:

Último poste da série > 27 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28300: Agenda cultural (901): O Angelino dos Santos Silva ("Recaredo") vai estar, sábado, dia 29, às 17h00, na Biblioteca Municipal de Paredes, para falar do seu livro "Geração Afro: Os Últimos Guerrilheiros do Império"

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28301: Verso & reverso (3): quando era o pai que decidia o futuro dos filhos (e filhas): "tu vais para a Academia Militar, tu vais para o Seminário "... (Virgínio Briote)















~











Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto: Virgínio  (2026)
Imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.



Virgínio Briote: (i) nascido em Cascais: (ii) frequentou a Academia Militar, em 1962, que abandonou em seguida; (iii) foi Alf Mil em Cuntima, CCAV 489 / BCAV 490 (Jan-mai1965); (iv) 8ez o 2º curso de Comandos do CTIG; (v) comandou o Grupo Diabólicos (Set 1965 / set 1966); (vi) regressou em Jan 1967; (viii) casado com a Maria Irene, orfessora de liceu reformada;  (ix) foi quadro superior de uma empresa da indústria farmacêutica.



1. Comentário do Virgínio Briote, nosso coeditor jubilado, ao poste P28263 (*):


A propósito deste excelente texto saltou-me rapidamente à memória um caso que vi e vivi de perto, talvez demais. 

Anos 60. Um pai funcionário público, dois filhos com diferença de meia dúzia de anos. Pai extremoso, severo, homem honrado, justo, fiel adepto de Salazar e do Cardeal [Cerejeira, patriarca de Lisboa].

Segundo o seu desejo, expresso aos amigos e colegas, "um dos meus filhos vai para militar e o outro para padre" . 

Os filhos foram ouvindo esta ordem do pai enquanto estudavam, um num Liceu numa cidade do Norte e o outro na Escola Primária. 

Quando o mais velho concluíu o 5º ano,  foi para Ciências,  contrariado. 

− Como vais para Ciências se foste sempre um aluno de 10 / 11 e bom aluno, apesar de seres pouco aplicado, na área de Letras? 

− Eu gostava de ir  para Letras mas o meu pai matriculou-me em Ciências.

O mais velho lá foi tropeçando na Física, na Matemática, na Biologia, na Mineralogia... até que acabou o Liceu em 1962.

Papelada, concurso para a Academia Militar, Lisboa, e em meados do verão guia de marcha para a Gomes Freire. 

−  Para onde, Pai? 

−  Para a Academia Militar, para seres oficial do Exército. 

Sem mais história, concorreu e em outubro de 62 deu entrada na Academia Militar, Amadora. 

Na 1ª semana, na 1ª aula de equitação,  ministrada pelo capitão Marques Pereira, escolheu o cavalo mais alto, preto, irrequieto com o chicote no ar. E tentou montar. Tentou, porque,  quando tomou balanço, o cavalo levantou a garupa e atirou-o ao chão. Quando se ia a levantar,  apoiado pelos gritos do instrutor, levou um coice na zona do estômago. 

Saltando estes momentos, quase desmaiado,  viu-se em cima do cavalo, mãos bem amarradas às argolas. Chicote no ar, cavalos em disparada, uns por um lado,  outros em sentido contrário... E minutos depois estava na camarata, nos urinóis  a fazer chi-chi com sangue. Enfermaria, ambulância, Hospital da Estrela, três dias depois outra vez na Amadora. 

O interesse foi-se esvanecento, não era o que desejava, os meses e as aulas iam correndo, divertia-se na Educação Física, atletismo, corridas de obstáculos, manobras nos arredores da Amadora, na Carregueira, Sta Margarida...

A Deontologia Militar, as Físicas,as Matemáticas e outras teóricas passava-as a dormir. Em junho de 64, foi enviado para Mafra e um mês depois era aspirante miliciano. 

Alguns dias de férias, o pai,  de má cara,  não lhe falava e em setembro foi para os Açores. 

Quando saíu do BII , não sei se o 17 [Angra do Heroísmo],  se o 18 [Angra do Heroísmo], foi passar o Natal a casa com os pais, o irmão deve ter consoado no Seminário, certamente. 

Meados de janeiro estava a pôr os pés em Bissau e dias depois estava no mato, seguramente. Já no meio da comissão,  o pai escreveu-lhe dizendo que o irmão tinha fugido do Seminário!

Para finalizar esta história que fui seguindo de perto, ao regressar a Lisboa,  depois de uma comissão consecutiva de 24 meses,  os pais e o irmão esperaram-no no cais. E, para acabar a viagem, seguiram para o Norte, talvez com uma paragem nos Pedro dos Leitões  [na Mealhada], não sei.

A vida continuou. O mais velho empregou-se, o mais novo foi para Coimbra para Direito até ser chamado para Mafra, com o curso talvez a meio, não sei. 

O jovem foi mobilizado para Moçambique, veio de férias, lembro-me, ainda foi padrinho de uma sobrinha recém-nascida e regressou ao Chai, Macomia, julgo eu.

Alguns dias depois, o pai recebeu ao jantar um telegrama de uma entidade do Exército a informar que o seu filho havia sido gravemente ferido. (**)

(Seleção, revisão / fixação de texto, parênteses retos, links, título: LG)


2. Comentário do editor LG:

Agradeço ao Vb a oportuna partilha destas suas memórias já com sessenta e muitos anos... É um verdadeiro "conto mural ao fundo".., passado no fim do salazarismo, em que o paradigma de autoridade  dominante ainda era o da "santíssima trindade"...Deus, Pátria e Família,

Mas neste caso a realidade e a ficção fundem-se. Impossível saber onde acaba uma e começa outra...

Não tenho dúvidas que este caso, que "ele viu e viveu de perto, talvez até demais" (sic), é verídico. 

E, na época, não terá sido único.  Pessoalmente conheço mais casos, e até alguns mais recentes,  em que os pais, invocando a sua autoridade e experiência de vida, traça(va)m o caminho dos filhos (e das filhas)... O caminho que julga(va)m ser  "melhor" para eles  e elas (e para a família)... 

Estamos numa época em que os pais, "amando profundamente os seus filhos" (está fora de questão pôr isso em dúvida!), os infantilizavam e tomavam decisões (neste caso, "quase de vida ou de morte"!) por eles... 

Mas não era só a nível das opções escolares e das carreiras profissionais ("vais para o colégio de freiras, vais para o Magistério Primário, vais para o seminário, vais para a Academia Militar"...), era também até noutras matérias ainda mais sensíveis e delicadas, com o namoro, as amizades,  o casamento... 

Estamos a falar de pais de certos estratos sociais, correspondentes às classes alta, média-alta média, excluindo portanto as classes populares (média-baixa, baixa). Nestas, a que pertencia maior parte de nós, começava-se mais cedo (na família, na escola, na rua, no trabalho, na "moina", nas "tainadas", nos "bailaricos", na  noite, na tropa...) a experimentar e a conhecer os desafios, os riscos e os limites da aventura da liberdade. 

O Vb aparece aqui como um mero  narrador... E inclusive não chegou, por lapso, a assinar o comentário. Depois corrigiu, sob chamada de atenção minha.  Vi, logo desde o princípio, que o texto era dele, pelo seu inconfundível estilo narrativo que já conheço  de há 20 anos, no blogue..

 Ao relê-lo, e agora ao fazer o guião para esta BD, fiquei com a "suspeita" de que poderia ser um texto autobiográfico (ou com traços autobiográficos)... Há pormenores coincidentes... O capitão Marques Pereira, por exemplo, era na época o instrutor de equitação da Academia Militar. A cidade do do Norte será Braga (onde o Vb fez o examde admissão ao liceu). 

Em suma, o "irmão mais velho" que vai, contrariado, para a Academia Militar, terá semelhanças com a história militar  do nosso querido Vb, que em 1962 também entrou para a Academia Militar... 

Mas o texto não me autoriza a que tire esta conclusão.   E eu, portanto,  não tenho  mais  o direito de estar aqui a especular... O Vb, se assim o entender, poderá dar mais informação circunstanciada sobre este caso que o tocou tanto ao ponto de acompanhar, tão intimamente,  o percurso destas duas vidas... trocadas.

Se não é, em todo o caso, bem poderia ser a história dele e do seu irmão mais novo... (que julgo que ele tem). Ou, como diz o provérbio italiano, "se non è vero, è ben trovato" (se não é verdade, é bem achado).