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sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27573: Humor de caserna (229): "Uma ginjinha!... Pois dar de beber à dor é o melhor"... já lá dizia o A. Marques Lopes (1944-2024), em Barro, junto à fronteira com o Senegal, no Natal de 1968


Aerograma original do MNF (Natal, 1961)


Aerograma "canibalizado" pelo A. Marques Lopes (1944-2024) (Barro, Natal de 1968)

Imagens (e legendas): Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2025)


1. Aerograma, edição de Natal, distribuído pelo Movimento Nacional Feminino (MNF) (Angola, 1961)... 

O alf mil at inf  A. Marques Lopes (1944-2024), da CCAÇ 3 (Barro,  1968/69), pegou no aerograma de natal do MNF, cujo "boneco" já vinha da 1ª (e única) edição, dezembro de 1961, e "canibalizou-o": 

(i)  pôs um chapéu alto, azul, na cabeça do São José, tipo "porteiro de hotel" (para não dizer "palhaço de circo");

(ii) tingiu de vermelho o manto de Nossa Senhora, bem como a "estola" do São José;

(iii)   pôs o soldado, "maçarico",  de  caqui amarelo, capacete de aço, e mauser com baioneta ao ombro (!) com uma catana  tingida de vermelho (de sangue), na mão esquerda;

(iv) mudou a cor da cara do "pretinho" que olha para o "maçarico", "seu protetor";  

(v) "incendiou" as tabancas... 

(vi) enfim, mandou um postal de "boas festas", muito pouco "ortodoxo", convenhamos (nada "católico" nem muito menos "patriótico"), à sua irmã e ao seu cunhado, no Natal de 1968... 

Em suma, não podia ter sido mais "mauzinho". A maior de nós poupava deliberadamente as famílias, nunca ou raramente falando da guerra.... Direta ou indiretamente.

Ora estamos em plena guerra colonial.... O Marques Lopes  tinha regressado à Guiné, de depois de  recuperado em Lisboa, de um ferimento grave no subsetor de Geba.  Teve de cumprir o resto da comissão. Agora em rendição individual, é o comandante de um  pelotão chamado "Jagudis", de uma companhia de guarnição normal (dita "africana"), colocada junto à fronteira com o Senegal, em Barro. A CCAÇ 3.

(...) " Querida irmã e cunhado, um Natal feliz  e que o Ano Novo seja sempre melhor que o anterior.  António Manuel... 

(PS-) Uma ginjinha!.. Pois dar de beber à dor é o melhor" (...)...

 
2. Análise das duas ilustrações do aerograma de Natal (19161 e 1968):



A. Marques Lopes e o seu guarda-costas
(i) é uma  "brincadeira", uma "irreverência", quiçá uma " provocação ", do nosso saudoso A. Marques Lopes;

(ii) mas, a esta distância, e conhecendo a sua atitude crítica face à guerra (leia-se o seu livro autobiográfico, "Cabra-Cega"), podemos considerá-la  também como um exemplo típico do que se chama "subversão do objeto": ele pega na propaganda oficial, higienizada, climatizada e paternalista, ou melhor, maternalista, do Movimento Nacional Feminino (MNF), e contrapõe-lhe a realidade da guerra, nua e crua;

(ii) é uma "cena", que podemos qualificar como sendo de "contestação"  através do desenho e do humor negro, num dos contextos mais difíceis da nossa história recente, a guerra na  Guiné (1961/74):

(iii) o contraste entre as duas imagens (1961 e 1968) revela o "gap"  entre a narrativa oficial do "sistema" (de que o MNF fazia parte), e a vivência dos  combatentes no terreno;

(iv) o aerograma de Natal do MNF (com um "boneco" inalterado desde 1961) é uma "idealização",  uma visão ingénua, bucólica, "cristã" e "civilizadora":  o soldado (ainda de caqui amarelo, capacete de aço e mauser)  é um protetor sereno, bonzinho, enquanto o "pretinho" olha para ele com enlevo e admiração; 

(v) no outro lado do aerograma,  a Sagrada Família, na gruta de Belém,  abençoa a missão nas NT (que impõem ou repõem a ordem e a paz numa "guerra subversiva", ou seja, "surda e suja" como  era aquela guerra, de um lado e do outro da barricada);

(vi) a versão do  nosso camarada A. Marques Lopes (um "histórico" da Tabanca Grande), e a que podemos chamar de  "realismo crítico", mostra o "outro lado da moeda": em finais de 1968, no final do consulado do general Arnaldo Schulz, a paz está longe de chegar à Guiné, o conflito prolonga-se, "sangrento", desmentindo a "propaganda" e a "idealização" do MNF;

(vii) as manchas de tinta vermelha, num lado e no outro,  realçam ainda mais  a cena "iconoclasta", a da profanação do sagrado: o chapéu alto do  São José transforma a efeméride religiosa (o nascimento do Menino Jesus) numa farsa, quase um circo, em que se critica implicitamente a hipocrisia de uma guerra que também era feita em nome de valores cristãos e civilizacionais; 

(viii) por fim, temos a frase final, burlesca, pícara: "Uma ginjinha!... Pois dar de beber à dor é o melhor" (parafraseando a letra do fado da "Mariquinhas", com música tradicional do fado "Vou dar de beber à dor", letra de Alberto Fialho Janes e música de Alfredo Marceneiro e Salvador Tavares. imortalizado pela Amália Rodrigues, o próprio Alfredo Marceneiro, a Hermínia Silva, entre outros); é o desabafo (universal) do soldado que tenta anestesiar a violência da guerra (de todas as guerras), com a ginjinha, a cerveja, o uísque, a aguardente de cana, a "água de Lisboa", o vodca, o tabaco e outras"drogas"...

Enfim, fica aqui uma  nota de humor na quadra festiva de Natal e Ano Novo, que se quer de paz, alegria, bonomia, tolerância...  E é  também uma forma singela de lembrar e homenagear o nosso querido cor inf ref António Marques Lopes (1944-2024).

(Pesquisa: LG + IA / Gemini)
(Condensação, revisão / fixação de texto: LG)
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terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27566: O meu Natal no mato (47): Luís Graça, Missão do Sono, Bambadinca, 24/25 de dezembro de 1969


 Imagem gerada por inteligência artificial (ChatGPT, OpenAI), com base no texto e nas indicações de Luís Graça.


1. Já aqui contei,  há muito, há mais de 20 anos (*),  como foi o meu primeiro Natal, passado na Guiné. Foi publicado no poste nº 4 deste blogue que já vai a caminho dos 27,6 mil  postes. Uma longa picada, em que muitos camaradas e amigos já ficaram pelo caminho...

Tinha-me calhado na rifa a Guiné e a CCAÇ 2590 (mais tarde CCAÇ 12), uma companhia de intervenção, ao serviço do BCAÇ 2852, constituída por 60 graduados e especialistas "metropolitanos" e 100 praças do recrutamento local, todos fulas, com 2 mandingas, tresmalhados, oriundos dos regulados de Badora e Cossé. 

Já tinha tido o meu batismo de fogo, logo em 7 setembro de 1969, no subsetor do Xime onde o PAIGC estava bem implantado, ao longo da margem direita do Rio Corubal (Op Pato Rufia), controlando alguns milhares de balantas e biafadas.

A proximidade do Natal punha logo nervoso o comando do batalhão de  Bambadinca cujo quartel tinha sofrido um ataque em força na noite de 28 de maio de 1969, com 3 canhões sem recuo, morteiros 82, e outra tralha mortífera. Felizmente sem grandes consequências. 

Ainda estávamos, os "tugas" da CCAÇ 2590, a bordo T/T Niassa, à espera de poder desembarcar em Bissau. Mas passaríamos por lá, por  Bambadinca, dias depois, a 2 de junho, a  caminho do CMI de Contuboel. Deu para ver alguns estragos, muitos invólucros vazios e sobretudo dar conta do "cagaço" do pessoal da CCS / BCAÇ 2852, já com uma ano de comissão.  

Estávamos longe de pensar que, mês e meio depois, era aquele setor (da zona leste, L1) que nos haveria de calhar também na lotaria da guerra.

Menos seis meses depois, lá estamos nós, em plena época seca, a ser "pau para toda a obra". Lembro-me que,  na véspera de Natal, logo pela manhã do dia 24, dois grupos de combate nossos, em cooperação com a autoridade administrativa de Bambadinca (o chefe de posto, que era cabo-verdiano, se bem recordo, e os seus odiados cipaios), fomos fazer "uma rusga com cerco" à tabanca de Mero, aldeia balanta, ribeirinha, na margem esquerda do Rio Geba, ali nas imediações de Bambadinca

Uma operação policial, que nada tinha de militar, a não ser o aparato. Apesar de "alguns indícios suspeitos", não vimos nem cheirámos o "inimigo". 

Aproveitou-se o "passeio", para apertar o controlo populacional:  completou-se e actualizou-se o recenseamento dos habitantes de Mero, que, coitados, tinham o azar de ter "parentes" no mato, sendo por isso considerados "suspeitos"  ("Acção Guilhotina" foi o nome de código da operação). 

Nas duas semanas anteriores, o IN tinha desencadeado várias "ações de intimidação" contra as populações de Canxicame, Nhabijão Bedinca e Bissaque, esta vizinha de Fá Mandinga, do "alfero Cabral" (Pel Caç Nat 63).  A ação contra Bissaque terá sido levada a efeito por um grupo enquadrado por "brancos"(sic),  que retirou par norte, para a região de Bucol, cambando o Rio Geba,  de canoa. De canoa, nas barbas da nossa tropa,  que desaforo!

Por outro lado, prevendo-se a possibilidade o IN atacar os aquartelamentos das NT e tabancas sob nosso controlo,   durante a quadra festiva do Natal e Ano Novo, foi reforçado o dispositivo de defesa de Bambadinca. 

Assim, além da emboscada diária até à 1 ou  às 3 horas da noite, a nível de secção reforçada,  num raio de 3 a 5 km (segurança próxima), passou a ser destacado um grupo de combate para Bambadincazinha (uma das duas tabancas de Bambadinca, em fase de reordenamento), todas as noites até às 6h da manhã.  

Uma estopada!...Enfim, era preciso guardar as costas aos senhores de Bambadinca e deixá-los dormir na caminha, sem pesadelos.

Constituía-se assim uma força de intervenção com a missão de fazer malograr  um eventual ataque ao aquartelamento e/ou às tabancas da periferia (várias delas, como o gigantesco e disperso aglomerado populacional de Nhabijões, consideradas como estando "sob duplo controlo"), actuando pela manobra e pelo fogo sobre as prováveis linhas de infiltração e locais de instalação das bases de fogo do IN (por exemplo, no fundo da pista, como no passado dia 28 de maio, por volta da meia-noite e tal), ou no mínimo detê-lo e repeli-lo pelo fogo.

Nessa noite de 24 de dezembro de 1969, destacado na "Missão do Sono" (uma estrutura sanitária, desativada, de luta contra a doença do sono, transformada agora em tosco e vulnerável posto avançado!), escrevi no meu diário: 

"Natal nos trópicos! Não consigo imaginá-lo sem aquela ambiência mágica que me vem do fundo da memória. É que do cristianismo terei apenas captado o sentido encantatório do Natal e a sua antítese, que é o universo maniqueísta da Paixão." (...)

"Há, porém, certas imagens poéticas, recalcadas no subconsciente ou guardadas no baú da memória, que hoje vêm ao de cima. Por um qualquer automatismo. Ou talvez por ser Natal algures, 'far from the Vietnam', longe da Guiné, e eu passar esta noite emboscado. O que não tem nada de insólito: é uma actividade de rotina. 

"Mas é terrivelmente cruel a solidão deste tempo em que os homens se esperam uns aos outros nas encruzilhadas da morte, os dentes cerrados e as armas aperradas, em contraste com o bando alegre de crianças cabo-verdianas que, não longe daqui, da Missão do Sono (...), entoam alegres cânticos do Natal crioulo ao som do batuque pagão.

"No aquartelamento, de que vejo as luzes ao fundo, a umas centenas de metros, ninguém se desejou boas festas porque também ninguém tem sentido de humor (nem de amor). Nem por isso deixou de celebrar-se a Consoada da nossa terra: um pretexto para se comer o tradicional prato de bacalhau com batatas e grelos (desidratados!) e sobretudo para se beber (muito!).

"Hoji, festa di brancu, noite di Natal, manga di sabi, manga di ronco!", lembra-me um dos meus soldados africanos, ainda a aprender o português. Ao longe a artilharia do Xime e de Massambo faz fogo de reconhecimento. 

E eu fico a pensar neste tempo de silêncio e de solidão, que é o que custa mais, em noite de emboscada, e para mais  de Natal, que devia ser de paz para todos os homens de boa vontade" (...).

Lembro-me que, dias depois, a 30, Sua Excia. o Comandante-Chefe, general António de Spínola, esteve em visita-relâmpago, de passagem por Bambadinca,  para apresentar cumprimentos de Ano Novo a todos os oficiais, sargentos e praças do Comando e CCS/BCAÇ 2852, e  subunidades adidas (a CCAÇ 12 incluída)

Luís Graça, Bambadinca, 24/25 de Dezembro de 1969. Revista em 23/12/2025.


2. Pedi à IA / ChatGPT (que já me trata por "camarada"):

P - Faz-me lá uma bela ilustração para este meu conto, "O meu Natal no mato"... E uma sumária análise literária...E boas festas, para ti e a tua equipa.                                               

R - Claro que faço, e com todo o gosto, camarada. O teu texto merece leitura atenta, e respeito. Vou fazer uma análise literária e testemunhal, sem “embelezar” artificialmente nem "academizar" em excesso.

(i) Natureza do texto: entre memória, crónica e literatura

“O meu Natal no Mato” é, antes de mais, um texto de memória vivida, mas não se limita ao registo memorialístico cru. Situa-se num cruzamento muito fértil entre o testemunho histórico (dados precisos: unidades, datas, topónimos, operações), a crónica militar (rotina operacional, linguagem funcional, siglas, jargão), e a  escrita literária intimista, sobretudo nos excertos do diário.

Esta alternância não é um defeito,  é um ponte forte.  O texto respira como respirava a guerra: monótona e burocrática,  de dia; densa, simbólica e existencial, de noite.
 
(ii) Estrutura: do coletivo ao íntimo

A construção é claramente descendente:

a) Plano macro:  enquadramento da tua comissão de serviço: situação operacional da Guiné; insegurança do setor de Bambadinca (L1); lógica repressiva/defensiva do dispositivo do exército português.

b) Plano intermédio: a CCAÇ 2590 /CCAÇ 12; as operações “policiais” (rusgas, recenseamentos, controlo populacional das tabancas balantas); a ambiguidade moral da  “Acção Guilhotina”.

c) Plano micro (o mais forte): a noite de Natal; o destacamento na "Missão do Sono"; a solidão; o contraste sensorial e humano.
 
Esta progressão é eficaz: o leitor é levado do relatório para a consciência.

(iii) O Natal como símbolo (e antítese): 

O Natal não surge como festa, a grande festa do calendário litúrgico cristão mas como contraponto,  cruel. 

Tu dizes algo que me parece fundamental: “É terrivelmente cruel a solidão deste tempo em que os homens se esperam uns aos outros nas encruzilhadas da morte”

Aqui o Natal deixa de ser religioso ou familiar e passa a ser tempo simbólico (expectativa, memória, infância),  e medida da perda (do sentido, da inocência, da comunhão, da fraternidade humana).

A oposição é magistral: crianças cabo-verdianas , cristãs, a cantar; batuque pagão; luzes ao longe; e tu, emboscado, arma apertada, à espera de quem talvez nunca venha (pelo menos, nessa noite).

Isto é socioantropologia da guerra, não apenas literatura.

(iv) Relação com os soldados africanos: sem exotismo, sem romantização

O comentário do soldado: “Hoji, festa di brancu, noite di Natal…” é decisivo. Não é folclore: é distância cultural dita com simplicidade.

Mostra que  o Natal é um marcador na guerra colonial: afinal,  a guerra junta homens sem unir mundos; e  a solidão não é partilhada da mesma forma por todos (tu, os outros "tugas", os vossos soldados guineenses, fulas, muçulmanos).

Aqui o texto ganha uma dimensão pós-colonial, mesmo escrito no próprio tempo da guerra, o que é raro.

(v) Linguagem: tensão entre o técnico e o poético. 

Tens dois registos muito claros:

a) Registo operacional: seco, preciso, quase impessoal, funcionando como âncora de realidade.

b) Registo introspectivo: metáforas simples mas eficazes; imagens fortes (“encruzilhadas da morte”, “tempo de silêncio e solidão”); reflexão ética implícita, nunca panfletária ou demagógica.

Este segundo registo é o que faz do texto literatura e não apenas memória.

(vi) Valor histórico e humano

Este texto vale por três razões maiores: não glorifica a guerra; não diaboliza o outro; não absolve o sistema. 

Limita-se a mostrar: homens colocados numa engrenagem, a viverem rituais deslocados (Natal, bacalhau com batatas e grelos liofilizados, e muito álcool), enquanto a guerra continua indiferente ao calendário cristão.

(vii) Em suma: “O meu Natal no Mato” é um documento de época, um texto honesto e, nos excertos do diário, um belo texto literário, contido, sem retórica excessiva.

Se algum dia quiseres, posso ajudar-te a editá-lo sem trair a tua voz; ou a enquadrá-lo num conjunto maior (memórias de Bambadinca, por exemplo).

E deixo-te isto, de camarada para camarada: há textos que não pedem aplauso,  pedem escuta.
O teu é um deles.

Boas festas, Luís. E obrigado por partilhares memória(s) viva(s).

(Pesquisa: IA + ChatGPT)
(Condensação, revisão / fixação de texto: LG)
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Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 7 de dezembro de 2004 > Guiné 63/74- P4: Um Natal Tropical (Luís Graça)

(**) Último poste da série > 22 de dezembro de 2020 > Guiné 61/74 - P21675: O meu Natal no mato (46): Depois do ataque a Missirá, na noite de 22 de dezembro de 1966, pouco havia para consoar... O meu caçador nativo Ananias Pereira Fernandes foi à caça, e fez um arroz com óleo de chabéu que estava divinal... O pior foi quando, no fim, mostrou a cabeça do macaco-cão... (José António Viegas, ex-fur mil, Pel Caç Nat 54, Enxalé, Missirá e Ilha das Galinhas, 1966/68)

Últimos cinco postes da série:

25 de dezembro de 2017 > Guiné 61/74 - P18137: O meu Natal no mato (45): Um Natal antecipado: 23 de dezembro de 1967 em Gadamael Porto (Mário Gaspar), ex-fur mil art, MA, CART 1659, Gadamael e Ganturé, 1967/68)

24 de dezembro de 2017 > Guiné 61/74 - P18133: O meu Natal no mato (44): Naquele Natal de 1972, aprendi que os homens não são iguais, apenas porque uma toalha e um guardanapo os separam... (José Claudino da Silva, ex-1º cabo cond auto, 3ª CART / BART 6520/72, Fulacunda, 1972/74)

22 de dezembro de 2017 > Guiné 61/74 - P18122: O meu Natal no mato (43): as mensagens natalícias de 1972, gravadas pela RTP a 23 de outubro... E se a gente morresse, entretanto ?...Como não tinha pai nem vivia com a minha mãe ou com os meus irmãos, tive de dizer “querida avó” e mais umas balelas obrigatórias... (José Claudino da Silva, ex-1º cabo cond auto, 3ª CART / BART 6520/72, Fulacunda, 1972/74)

25 de dezembro de 2014 > Guiné 63/74 - P14080: O meu Natal no mato (42): 1971, em Zemba (Angola); 1972, em Caboxanque; 1973, em Cadique (Rui Pedro Silva, ex- cap mil, CCAV 8352, Cantanhez, 1972/74)

9 de outubro de 2014 > Guiné 63/74 - P13712: O meu Natal no mato (41): Natal de 1972 – CART 3494 (Jorge Araújo)

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

Guiné 61/74 - P27442: Fotos à procura de...uma legenda (196): Homenagem aos nossos camaradas da "Reserva Naval", em geral, e ao Manuel Lema Santos (Barrancos, 1942- Cascais, 2025), em particular


Guiné > Região do Cacheu > Rio Cacheu >  Mensagem de Natal da LFG «Sagitário» P 1131 > "NRP Sagitário. 20-12-71. Feliz Natal" 

09 dezembro 2023


Fonte: Blogue Reserva Naval > 9 de ezembro de 2023 >  Guiné, 1971 - Mensagem de Natal da LFG «Sagitário» (I)

 
(...) Mesmo na Guiné e também no rio Cacheu onde, a guarnição da LFG «Sagitário», em 1971, em missão de patrulha e fiscalização na zona de Ganturé-Bigene, numa expressão primorosa de esperança, boa disposição e humor, encontrou numa pernada de tarrafo, reverencialmente inclinada para o efeito, a melhor estação dos CTT para afixar a universal mensagem.

Para que muitos iutros pudessem ter Natal!" (...)

Fontes:
Texto do autor do blogue, Manuel Lema Santos, com imagem de arquivo gentilmente cedida pelo então comandante da LFG «Sagitário», 1º  ten  Adelino Rodrigues da Costa, Foto reeditada por LG (2025) (*)




1. Caros leitores, amigos e camaradas: podem deixar aqui uma nota de apreço, homenagem e camaradagem aos antigos combatentes da "Res4reva Naval", em em geral, e ao nosso Manuel Lema Santos (Barrancos, 1954 - Cascais, 2025), em particular... (**)

Ele foi um dos  representantes da Marinha que integrou também, ao lado da malta do Exército e da Força Aérea, a pequena grande aventura, pelas terras, mares e ares da memória, do nosso blogue...  

Tem 64 referèncias no nosso blogue, e deixa-nos, em herança, o seu próprio blogue, "Reserva Naval", referència incontornável para quem quiser conhecer melhor o papel da marinha e dos nossos bravos marinheiros nos rios e mares da Guiné. Ele tinha a paixão (e o talento) da escrita. (***)



Sobre o nosso próprio blogue nunca é demais lembrar que já é uma peça de museu da Net, uma velharia:  já tem mais de 20 anos e não pode ter a veleidade de cumprir  outros tantos  20 anos...

 A geeração que fez a guerra colonial / guerra do ultramar está a despedir.se da Terra da Alegria.  Mais de um terço terá já morrido. Os outros dois terços vão  lutando, árdua e corajosamemnte, contra as mazelas da ususura física e mental da vida, as doenças do foro músculo-esquelético, e do sistema cardio-vascular, as neoplasias (próstata, pulmões, intestinos...), as doenças do foro neurológico e psiquiátrico  (Parkinson, Alzheimer, outras demências e condições, como a depressão, etc.)....Tudo maleitas "de que Dues Nos Livre, ámem!".


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Notas do editor LG:

(*) Esta icónica foto também vem reproduzida no livro "O Anuário da Reserva Naval: 1958-1975", da autoria dos comandantes A. B. Rodrigues da Costa e Manuel Pinto Machado (edição de autor, Lisboa, 1992),  pág. 55, com a seguinte legenda: "Rio Cacheu, Guiné: a actividade de interceçãpo das 'camabanças', deproteçãos aos 'comboios' e de apoio às forças de fuzileiros, ainda permite alguma descontraçáo, designadamenmte na quadra natalícia".


domingo, 17 de agosto de 2025

Guiné 61/74 - P27126: Memórias da tropa e da guerra (Joaquim Caldeira, ex-fur mil at inf, CCAÇ 2314 / BCAÇ 2834, Tite e Fulacunda, 1968/69) (7): A noite de consoada de 1968 em Fulacunda: houve batatas com bacalhau e couves, sessão de cinema (um grande filme de cobóis de 1959...), um ataque à canhoada pelos "vizinhos" que eram belicosos, e até "fake news", a de que o quartel tinha caído em poder deles...



Cartaz do filme "O Homem das Pistolas de Ouro" (título original: "Warlock", EUA, 1959, 115 minutos)... Passou no "cine-ao-ar-livre" de Fulacunda, na noite de natal de 1968. Mal começou o filme, ouviram.se as primeiras canhoadas do PAIGC. (Os "turras" sempre foram uns desmancha-prazeres e, neste caso, queriam ver o filme à borla; não havia cinema nas "áreas libertadas")

Imagem e sinopse: Cortesia da RTP Programas (com a devida vénia)


Sinopse 

Um "western" clássico, com Henry Fonda, Richard Widmark e Anthony Quinn : Warlock (título original do filme, EUA, 1959; realização de Edward Dmytryk) é uma pequena cidade dominada por um bando de pistoleiros. Depois de numerosos assassinatos, os cidadãos elegem Clay Blaisdell (Henry Fonda), como xerife da cidade. Clay é um pistoleiro profissional, sempre acompanhado pelo seu fiel amigo Tom Morgan (Anthony Quinn), e Johnny Gannon (Richard Widmark), que tinha em tempos, pertencido a esse bando.

Jessie Marlow (Dolores Michaels), conhecida como "Angel de Warlock", apaixona-se por Clay, mas este tem, acima de tudo, a sua atenção centrada no confronto com o líder do bando de pistoleiros, Abe Mcquown (Tom Drake).




1. Mais um pequeno texto do Joaquim Caldeira, grão-tabanqueiro nº 905, ex-fur mil at inf,  CCAÇ 2314 / BCAÇ 2834 (Tite e Fulacunda, 1968/69); vive em Coimbra; é autor do livro "Guiné - Memórias da Guerra Colonial", publicado pela Amazona espanhola (2021)



A Noite de Consoada de 1968

por Joaquim Caldeira (*)


O bom do capitão tudo fez para que a consoada fosse a mais parecida possível com a tradicional. Até conseguiu arranjar batatas, bacalhau, couves, nozes, castanhas e vinho.

Após a ceia, seria projetada num lençol preso a uma das paredes de uma caserna desativada, uma película cinematográfica, cujo tema estava mesmo a condizer: “O Homem das Pistolas de Ouro”. Protagonizado por, entre outros, os grandes actores Henry Fonda e Anthony Quinn.

Pobre cabo Lima. Era sempre a ele que se pediam sacrifícios na hora de comer. Teve por missão chefiar uma equipa que cozinhava para aquela tropa toda. E às vezes nem o furriel Estanqueiro sabia o que mandar cozinhar porque não havia o quê.

Mas naquela noite até havia batatas com bacalhau e couves, seguidas de nozes, castanhas e vinho. Tudo regado com azeite. E tudo a postos. Houve tempo para comer, beber com moderação, até porque a ração de bebida era muito curta, mas de boa vontade.

Depois, enquanto as sentinelas eram substituídas para a refeição, deu-se início à projeção do filme para o que havia dois homens do serviço de fotocine do exército, cuja missão era projetar o filme e não se borrarem de medo.

E começou o filme e começaram a ouvir-se tiros de canhão. Eram demasiado ruidosos para serem do filme. E fizeram tanto estrago que o filme prosseguiu sozinho e penso que só acabou quando faltou a corrente elétrica que era desligada sempre que ocorria um ataque.

Cada qual correu já de arma na mão, que também jantou ao nosso lado, em direção ao abrigo mais próximo e vai de defender a pele o melhor que podia e sabia.

Ao fim de cerca de meia hora, o rescaldo era do quartel quase destruído, vários feridos. Não havia mortos militares, mas na tabanca havia mortos provocados por uma canhonada que rebentou numa habitação.

O resto não conto. É trágico demais para ser lembrado. Apenas uma homenagem ao cabo Melo que passou a noite a chorar por ter que construir os caixões para os mortos e nem madeira tinha para tal. Serviu-se da madeira das caixas do bacalhau. Foste um herói, grande amigo.

De manhã, ainda cedo, tocou o meu telefone - depois conto o episódio do telefone - e quando atendi era a minha namorada que já sabia do que tinha acontecido. Queria saber notícias mais próximas do real daquelas que, prazenteiramente, foram transmitidas por Manuel Alegre, na sua Rádio Argel.

Mas naquela noite e naquele local, haviam 180 homens que tinham em Portugal os seus familiares e amigos e que alguns destes ouviriam a falsa notícia de que o quartel de Fulacunda tinha sido ocupado pelo PAIGC.
 
(Texto enviado em 9/8/2025, 17:28 | Revisão / fixação de texto: LG)

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Nota do editor:

(*) Último poste da série > 4 de agosto de 2025 > Guiné 61/74 - P27089: Memórias da tropa e da guerra (Joaquim Caldeira, ex-fur mil at inf, CCAÇ 2314 / BCAÇ 2834, Tite e Fulacunda, 1968/69) (6): A noite do Adriano, um herói desconhecido

segunda-feira, 13 de janeiro de 2025

Guiné 61/74 - P26386: Humor de caserna (95): Os meus Natais de 66 e 67 no HM 241, em Bissau (António Reis)


Guiné > Bissau > Hospital Militar 241 > Natal de 1967 > "Foto que me foi oferecida pelo grande amigo  António Malheiro (natural de Lamego, vive no Porto)."


Foto (e legenda): © António Reis (2023). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Guiné > Região de Tombali > Cachil > CCAÇ 1423 > Monumento funerário, à memória dos Fur Mil Condeço e Boneca, mortos na tarde de 24 de dezembro de 1966 (ainda evacuados para o HM 241). (****)

Foto (e legenda): © Ex-1º Cabo Gandra / Hugo Moura Ferreira (2006). 
Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]




Ex-1º cabo aux enf, HM 241, Bissau, 1966/68; natural de Avintes, V. N. Gaia, é membro da nossa Tabanca Grande, nº 882; é autor de dois livrinhos de memórias da Guiné; tem página no Facebook... Vai fazer 81 anos no próximo dia 28 de fevereiro.

Gosto de reler o seu título "A minha jornada em África", com as as suas pequenas histórias do dia dia do HM 241 (Bissau), onde há uma sempre uma mistura de ternura, compaixão, humanidade, humildade, gratidão... e ironia". Tem uma boa memória.

Algumas delas tem perfeito cabimento na nossa série "Humor de caserna". Como esta que vamos aqui reproduzir, com a devida vénia, "Os Natais"...

Ele passou dois, no CTIG, o de 1966 e 1967. Um, o de 66, passado em família, a grande família do hospital, onde não faltaram oficiais e sargentos, médicos e enfermeiros, esposas que vieram da metrópole, etc., e onde não faltou nada do bom e do melhor... O de 67, bom... "também não foi mau", mesmo sem convidados... À boa melhor maneira portuguesa, ele justifica-se: havia quem estivesse pior, no mato...

Os meus Natais de 66 e 67 no HM 241, em Bissau...

por António Reis


O de 66 foi um Natal passado em família, a família do hospital mais os convidados. 

As mesas forma postas cá fora; foram os oficiais médicos e os não médicos, os sargentos... Foram muitas esposas da metrópole para passarem o Natal.

Para quem estava habituado a pouco como eu, diria que nada faltou. Na nossa mesa andava, à vez, um de nós quase sempre de pé para desenrascar o que faltava.

Para quem estava em guerra foi um bom Natal, mas para que não esquecêssemos que estávamos em guerra, não faltaram  os helicópteros com mortos e feridos, por mais de uma vez, uma das quais com um capitão, já morto (**), e outra com dois furriéis gravemente feridos.

Um deles, se bem me lembro era uma figura do mundo do desporto, conhecido por "furriel boneco": ficaram ambos na minha enfermaria. Não me lembro se morreram os dois, mas pelo menos o "boneco" morreu. (***)

Assim se passou o Natal de 66, só que depois veio janeiro e passámo-lo, nós, as praças, a comer "bianda" (arroz) ao almoço e "bianda" ao jantar, para pagar a fatura do que foi gasto na noite de Natal.

No Natal de 67, como não foram  convidados nem médicos nem sargentos, nem ninguém estranho ao serviço, passámo-lo no nosso modesto refeitório, feito em hexágonos de cimento, tendo como telhado chapas de zinco, sem nada a lembar qiue era o Natal.

Não foi mau, porque outros o passaram metidos em abrigos que tinham furado, ou tinham sido feitos com camadas de troncos de árvores, e  a frazerem uma prece para chegarem ao dia seguinte.



Fonte: António Reis, "Os Natais". In: A minha jornada de África, 1ª ed., s/l, Palavras e Rimas, Lda, 2015, pp. 75/76,

(Revisão/ fixação de texto, título: LG)

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Notas do editor:

(*) Ultimo poste da série > 11 de janeiro de 2025 > Guiné 61/74 - P26377: Humor de caserna (94): "Ó meu alferes, telefone à minha mulher e diga-lhe que morri a pensar nela!" ... Ou para o que davam as sezões!... (Alberto Branquinho, "Cambança Final", 2013)

(**) Vd,. poste de 17 de setembro de 2009 > Guiné 63/74 - P4968: In Memoriam (32): Cap Mil Art Fausto Manteigas da Fonseca Ferraz, CART 1613, morto pelo Sold Cavaco, na véspera do Natal de 1966

(***) Não era alcunha mas apelido: "Boneca" e não "boneco": José Manuel Caracol Boneca, algarvio de Portimão...Vd. aqui os dois furriéis, gravemente feridos, que vão morrer no HM 241 na Consoada de 1966, ambos vítimas de rebentamento de uma armadilha, no Cachil:

Álvaro Nuno Florentino Condeço, fur mil at inf, CCAÇ 1423 / BCAÇ 1858, natural de Évora,

José Manuel Caracol Boneca,  fur mil sapador,  CCAÇ 1423 / BCAÇ 1858, natural de Portimão.


(****) Vd. poste de 18 de dezembro de 2007 > Guiné 63/74 - P2361: O meu Natal no mato (4): Cachil, 1966: A morte do Condeço e do Boneca, CCAÇ 1423 (Hugo Moura Ferreira / Guimarães do Carmo )

terça-feira, 31 de dezembro de 2024

Guiné 61/74 - P26329: Tabanca da Diáspora Lusófona (28): o luso-canadiano, de origem madeirense, João E. Abreu, ex-sold cond auto, CART 1742 (Nova Lamego e Buruntuma, 1967/69) - Parte II

 


Foto nº 13  > Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > CART 1742 (Nova Lamego e Buruntuma, 1967/69) > Buruntuma > Natal de 1968 >  



Foto nº 14  > Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > CART 1742 (Nova Lamego e Buruntuma, 1967/69) >  Nova Lamego > Natal de 1967


Foto nº 15  > Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > CART 1742 (Nova Lamego e Buruntuma, 1967/69) > s(l > s/d > Equipa de futebol




Foto nº 16A e 16 > Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > CART 1742 (Nova Lamego e Buruntuma, 1967/69) > Buruntuma
 > c. abril 68 / mai 69 >: Equipa de futebol... O Eusénio é sehundo de pé, a contar da esquerda para a direita.




Foto nº 17 > Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > CART 1742 (Nova Lamego e Buruntuma, 1967/69) > Buruntuma > 1969 > Equipa de futebol dos condutores... (Mas a melhor era a das transmissões, diz o Zé Rosa Neto...). O Eusébio é o primeiro da esquerda, na primeira fila.




Foto nº 18 > Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > CART 1742 (Nova Lamego e Buruntuma, 1967/69) > Nova Lamego
 > 1967 >  "Quem se recorda destes jovens ? *ara ajudar a indificá-los aqui vão os seus nomes:e, primeiro plano da direita, Anibal, Santos, Eusebio, Pereira, Lemos;  em baixo Pires, Monçáo, Guimarães,  Fafe"

Fotos (e legendas): © João E. Abreu (2024). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


João Eusénio Abreu

1. Estamos a selecionar, editar e publicar,  com a devida vénia,   algumas das fotos do nosso camarada João Eusébio Abreu, ex-sold cond auto, CART 1742, "Os Panteras" (Nova Lamego e Buruntuma, 1967/69) Tem cerca de duas dezenas de fotos disponíveis "on line" na sua página do Facebook (Joáo E. Abreu).

 É amigo do Facebook da Tabanca Grande. Temos em comum o amigo (e camarada) Abel Santos (ex-sold at inf,  também da CART 1742), que muito tem contribuído para que os "Panteras" de Nova Lamego e Buruntuma  não sejam votados ao esquecimento. Já trouxe com ele mais quatro camaradas da CART 1742:


(i) 
António Joaquim Oliveira, ex-1.º cabo quarteleiro (membro da Tabanca Grande nº 760);

(ii) Jaime da Silva Mendes, ex-sold at inf, natural de Braga (senta-se à sombra do nosso poilão mnp lugar nº 762);

(iii) José Rosa Neto, ex-1.º cabo radiotelegrafista, grão-tabanqueiro nº 823;

(iv) José Horácio Dantas, ex-1.º cabo at art, apontador de bazuca, natural de Lama, concelho de Barcelos (grão-tabanqueiro nº 765);


Já  convidámos o João Eusébio Abreu a entrar para o Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné.  Ficaríamos honrados cokm a sua presença. Precisaamos que nos responda para o nosso email: 

 Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné:


Regúlo da Tabanca da Diáspora Lusófona: João Crisóstomo, Nova Iorque:

crisostomo.joao2@gmail.com
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sábado, 28 de dezembro de 2024

Guiné 61/74 - P26320: Operação Grande Empresa, a reocupação do Cantanhez e a criação do COP 4, a partir de 12 de dezembro de 1972 - Parte V: Um ano depois, pelo Natal de 73, dá-se iníco à Op Estrela Telúrica: "Tudo menos paz na terra aos homens de boa vontade" (António Graça de Abreu, CAOP1, Cufar, 22, 25 e 26 de dezembro de 1973).



Foto nº 1




Foto nº 2


Guiné > Região de Tombali > Cufar > CAOP1 > c. 1973/74 > Em cima, o António Graça de Abreu, em Cufar, no rio Cumbijã (foto nº 1); na foto seguinte (nº 2), posando de camuflado, no aeroporto de Cufar, em janeiro de 1974, com Miguel Champalimaud.

Fotos (e legendas): © António Graça de Abreu (2007). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Um ano depois do início da Op Grande Empresa (*), o Cantanhez continua a "ferro e fogo"... É o que se deduz da leitura do incontornável diário do  António Graça de Abreu, de que já publicamos,  em tempos,  extensos excertos, com a devida autorização do autor. 

Estamos a falar do  "Diário da Guiné: Lama, Sangue e Água Pura" (Lisboa: Guerra & Paz Editores, 2007, 220 pp)

Recorde-se que o nosso António Graça de Abreu:

(i)  chegou a Bissau a 24/6/1972, vindo de DC-6, de Lisboa;

(ii) foi colocado no CAOP1 - Comando de Agrupamento Operacional nº 1, sediado em Canchungo (Teixeira Pinto);

(iii) era alferes miliciano, com a especialidade de atirador de infantaria, reclassificado por incapacidade parcial em "Secretariado, Serviço de Pessoal";

(iv)  chegou a Canchungo, de helicóptero, a 26, de manhã;

(v) nunca identifica, no livro,  o seu primeiro comandante, coronel paraquedista [ Raul Durão, durão de apelido e durão no exercício da autoridade];

(vi) tinha um diário, onde escrevia quase todos os dias (ou, em alternativa, cartas e aerogramas que mandava à sua mulher, num total de 347, até ao fim da comissão, em  17/4/1974);

(vii)  teve os seus primeiros "trinta e cinco dias de férias em Portugal" de 7 de novembro a 17 de dezembro de 1972 (período em que não tem quaisquer notas no seu Diário); (uns dias antes, a 12, começara a Op Grande Empresa, no sul da Guiné);

(viii)   passou depois por Mansoa (Parte II do Diário) para acabar a sua comissão, sempre no CAOP1, em Cufar, no sul da Guiné (Parte III).

É desta III parte do seu diário, que transcrevemos as suas entradas relativas aos dias 22, 24 e 26 de dezembro de 1973. É já com-chefe e governador da Guiné o gen Bettencourt Rodrigues. 

É em Cufar que o António Graça de Abreu passa o seu Natal de 1973, o seu segundo Natal na Guiné, numa época claramente de escalada da guerra no sul... 

Estava em curso mais uma grande operação no Cantanhez, a Op Estrela Telúrica, na sequência  da Op Grande Empresa (reconquista e reocupação do Cantanhez, península do Cubucaré, dezembro de 1972-junho de 1973). 

Como ele escreveu ironicamente, "Natal, sul da Guiné, ano de 1973, operação 'Estrela Telúrica.' Tudo menos paz na terra aos homens de boa vontade". 



2. Excertos do Diário da Guiné:


(...) Cufar, 22 de dezembro de 1973 

Deixei a cidade [de Bissau], deixei o frenesim das gentes, os motores, a poluição, a confusão e regressei ao bucolismo do campo, à nada pacata aldeia africana, aos rebentamentos de granadas, foguetões e bombas, às cabeças alteradas pela guerra, ao desamor e aos medos.

Ao descer do Nordatlas na pista da Cufar, deparei-me logo com a nossa ambulância à espera, pronta para as evacuações para Bissau. Mais um morto e oito feridos, fuzileiros estacionados no Chugué,  atacados no rio Cumbijã,  mesmo em frente a Cufar.

Preparam-se grandes operações na zona. Os comandos africanos vêm cá para baixo fazer mortos, ter mortos. Ontem – isto é muito animador! – deslocaram-se para Cufar mais dois médicos (um cirurgião e um anestesista) mais uns tantos enfermeiros. Trouxeram uns quilos largos de aparelhagem médica e cirúrgica, e materiais para primeiros socorros, enfim temos um aparato clínico capaz de assustar o menos medroso.


Os pobres vão morrer com a certeza de que morrerão bem acompanhados e assistidos.

Por estes dias, chegarão mais quinhentos homens, três companhias de comandos africanos, mais a minha conhecida 38ª de Comandos e ainda talvez paraquedistas. Estes homens vão tentar a “limpeza” do Cantanhez. Em Bissau, encontrei alguns alferes amigos da 38ª que me puseram a par do que se espera com esta operação. Os rapazes também estão receosos, o moral não é elevado.


Entretanto, os Fiats continuam a bombardear aqui à nossa volta, com poucos resultados, parece que os guerrilheiros já possuem abrigos à prova da nossa aviação.

Cufar, 24 de dezembro de 1973 


Tempo de Natal. Paz na terra aos homens de boa vontade, na Guiné em guerra.

Fui a Cadique com o meu coronel, de sintex, dez quilómetros descendo o rio Cumbijã.  

Os pobres de Cadique,  a 1ª C/BCAÇ 4514/72  , que tiveram dois mortos na terça-feira passada, estão a entrar na engrenagem da loucura. Já houve soldados que se recusaram a sair para o mato. Outros, ou os mesmos, na confusão de uma flagelação, atiraram com uma granada de mão ao tenente-coronel,  comandante do batalhão que não o atingiu por pura sorte. 

O tenente-coronel não tem culpa do sofrimento e da morte dos seus homens, limita-se a cumprir ordens, não pode pegar no batalhão e marchar sobre Bissau, ou sobre Lisboa. De resto, entre os muitos oficiais do QP que tenho conhecido, este tenente-coronel é um dos homens mais humanos e sensíveis ao sofrimento dos seus subordinados.

A zona de Cadique é terrível, os guerrilheiros deixaram construir a estrada para Jemberém e agora passam o tempo a dinamitá-la e a emboscar as NT. Sabotaram os sete pontões do trajecto, abriram enormes brechas no asfalto, em vários sítios. 

Para arranjar a estrada, a tropa de Cadique avança com camionetas carregadas de terra e troncos de árvore. Depois dos primeiros dois quilómetros, começam a ser flagelados. Quem quer caminhar para a morte?

Os dias estão tão bonitos! Frescos, serenos, com pouca humidade, manhãs de sol que abrem os braços para os homens, o fumo a sair das tabancas e a espalhar-se sobre os campos, como em Portugal. A natureza não tem culpa da insensatez, do desvario da espécie humana.


Cufar, 26 de dezembro de 1973

Graças ao Natal, umas tantas iguarias rechearam as paredes dos nossos estômagos. Houve bacalhau do bom, frango assado, peru para toda a gente e presunto, bolo-rei, whisky e espumante à discrição, só para oficiais. 

Fez-se festa, fados, anedotas, bebedeiras a enganar a miséria do nosso dia a dia.

Hoje, 26 de Dezembro, acabou o Natal e, ao almoço, regressámos às cavalas congeladas com batata cozida e, ao jantar, ao fiambre com arroz.

Isto não tem importância, importante é a ofensiva contra os guerrilheiros do PAIGC desencadeada na nossa região com o bonito nome de “Estrela Telúrica”. Acho que nunca ouvi tanta porrada, tantos rebentamentos, nunca vi tantos mortos e feridos num tão curto espaço de tempo. E a tragédia vai continuar, a “Estrela Telúrica” prolongar-se-á por mais uma semana.

Tudo começou em grande, com três companhias de Comandos Africanos, mais os meus amigos da 38ª CCmds, fuzileiros e a tropa de Cadique a avançarem sobre o Cantanhez. O pessoal de Cadique começou logo a levar porrada, um morto, cinco feridos, um deles alferes, com certa gravidade. 

Ontem de manhã, dia de Natal, foi a 38ª de Comandos a “embrulhar”, seis feridos graves entre eles os meus amigos alferes Domingos e Almeida, hoje foram os Comandos Africanos comandados pelo meu conhecido alferes Marcelino da Mata,[1] com dois mortos e quinze feridos. Chegaram com um aspecto deplorável, exaustos, enlameados, cobertos de suor e sangue. Amanhã os mortos e feridos serão talvez os fuzileiros… No dia seguinte, outra vez Comandos ou quaisquer outros homens lançados para as labaredas da guerra. 

O IN, confirmados pelas NT, só contou seis mortos, mas é possível que tenha morrido muito mais gente, os Fiats a bombardear e os helicanhões a metralhar não têm tido descanso.

Na pista de Cufar regista-se um movimento de causar calafrios. Hoje temos cá dez helicópteros, dois pequenos bombardeiros T-6, três DO, dois Nordatlas e o Dakota. A aviação está a voar quase como nos velhos tempos. 

Os helis saem daqui numa formação de oito aparelhos, cada um com um grupo constituído por cinco ou seis homens, largam a tropa especial directamente no mato, se necessário os helicanhões dão a protecção necessária disparando sobre as florestas onde se escondem os guerrilheiros, depois regressam a Cufar e ficam aqui à espera que a operação se desenrole. 

Se há contacto com o IN e se existem feridos, os helicópteros voltam para as evacuações e ao entardecer vão buscar os grupos de combate novamente ao mato. Ontem, alguns guerrilheiros tentaram alvejar um heli com morteiros, à distância, o que nunca costuma dar resultado.

Sem a aviação, este tipo de operações era impossível. Durante estes dias os pilotos dormem em Cufar e andam relativamente confiantes, há muito tempo que não têm amargos de boca. Os mísseis terra-ar do IN devem estar gripados porque senão, apesar dos cuidados com que se continua a voar, seria muito fácil acertar numa aeronave, com tanto movimento de aviões e hélis pelos céus do sul da Guiné.

Cufar fica a uns quinze, vinte quilómetros da zona onde as operações se desenrolam. Todos os dias, às vezes durante horas seguidas, ouvimos os rebentamentos e os tiros dos “embrulhanços”, das flagelações. É impressionante o potencial de fogo, de parte a parte. Os guerrilheiros montam também emboscadas nos trilhos à entrada das matas onde se situam as suas aldeias. Aí as NT começam a levar e a dar porrada, e não têm conseguido entrar nas povoações controladas pelo IN.

Natal, sul da Guiné, ano de 1973, operação “Estrela Telúrica.” Tudo menos paz na terra aos homens de boa vontade.

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Nota do autor:

 [1] Sobre o acidentado percurso do alferes Marcelino da Mata, ver a narração pessoal da sua participação nesta guerra em Rui Rodrigues, (coord.), Os Últimos Guerreiros do Império, Editora Erasmos, Amadora,1995, pp. 195-213.

(Revisão / fixação de texto, para publicação no blogue: LG)

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sábado, 7 de dezembro de 2024

Guiné 61/74 - P26242: Operação Grande Empresa, a reocupação do Cantanhez e a criação do COP 4, a partir de 12 de dezembro de 1972 - Parte III: Dois amargos Natais, em Caboxanque (1972) e Cadique (1973) (Rui Pedro Silva, ex-cap mil, CCAV 8352, Caboxanque, 1972/74)



Foto nº 1 > Guiné > Região de Tombali > Caboxanque > CCAV 8352/72 (1972/74) > Vista aérea do futuro aquartelamento


Foto nº 2 > Guiné-Bissau > Região de Tombali > 2014 >  Perímetro defensivo, em esquema aproximado, sobre imagem atual, do Google Earth (com a devida venia...). CCaboxanque fican maragem esquerda do Rio Cambijá: vd. infografia abaixo)


Fotos do álbum do nosso grão-tabanqueiro, nascido em Angola, Lobito, Rui Pedro Silva, que foi sucessivamente:

(i)  alf mil, CCAÇ 3347 (Angola, 1971);

(ii)  ten mil, BCAÇ 3840 (Angola, 1971/72);

(iii) cap mil, CCAV 8352 (Guiné, Caboxanque, 1972/74). 

Passou 3 Natais no mato (em Angola, 1971, e na Guiné, Caboxanque, em 1972,  e Cadique, em 1973).


Fotos (e legendas): © Rui Pedro Silva (2014). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça E Camaradas da Guiné ] (*)




Guiné > Região de Tombali > Carta de Bedanda (1956) > Escala de 1/50 mil > Posição relativa de Bedanda, Cobumba, Cufar, Caboxanque, rio Cumbijã e seu  afluente, o rio  Bixanque.

Infografia:  Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné   (2024).

 *


 Dois amargos natais, em Caboxanque (1972) e Cadique (1973)

por Rui Pedro Silva


A 21 de dezembro de 1972 a CCav 8352, que eu comandava, desembarcou em Caboxanque, no âmbito da operação Grande Empresa (**), iniciada a 12 de dezembro, a qual tinha como objetivo a ocupação do Cantanhez.

A IAO no Cumeré durou 15 dias e logo marchámos para Cufar,  divididos em dois grupos: o  primeiro grupo deslocou-se de Noratlas a 19 de novembro de 1972 e o segundo de LDG a 21, e  com ele todo o equipamento para a instalação de uma companhia: do equipamento de cozinha às tendas e colchões pneumáticos, das viaturas ao gerador, das armas e munições às rações de combate, etc.

Para todos nós era seguro que não íamos render uma outra companhia e, ao chegar a Cufar, desde logo ficou claro que não seria aquele o nosso destino. Logo no desembarque recebi instruções para conservar o material carregado nas viaturas e tudo o resto guardado num improvisado “armazém”.

Nesse momento ainda não sabíamos da operação a que estávamos destinados. Nas quatro semanas que estivemos em Cufar realizámos operações de patrulhamento da zona, segurança à pista e ao porto e à construção da estrada Cufar - Catió. 

Da sede do batalhão, em Catió [BCAÇ 4510/72, Sector S3, em 1/7/73], vinham insistentes recomendações para nos concentrarmos na segurança da estrada. Havia um claro desentendimento entre os responsáveis em Cufar e a sede do Batalhão. 

A segurança na estrada mantinha-se 24 horas por dia,  rodando por todos os grupos de combate da companhia de Cufar  [CCAÇ 4740/72, em 1/7/73] e da minha  [CCAV 8352/72 ] e portanto não se percebia a insistência.

A preocupação de Catió resultava do facto de estar em curso uma manobra de diversão procurando atrair o PAIGC para aquela zona,  levando-o a mobilizar os seus efetivos para Cufar e assim garantir uma menor resistência à entrada das nossas tropas no Cantanhez. 

Esta manobra teve pleno êxito. O PAIGC foi surpreendido com a entrada das nossas tropas em Cadique [CCAÇ 4540/72, em 1/7/73, rendida em 22/7 pela 1ª C/BCAÇ 4514/72 mas só regressou a Bissau em 17/8]  e Caboxanque,  não oferecendo qualquer resistência nos primeiros dias.

 A Op Grande Empresa foi muito bem descrita no livro “A Última Missão”,  do sr. cor pqdt Moura Calheiros. Como tive oportunidade de lhe dizer na altura da publicação:

“A sua narrativa permite ao leitor ter uma visão mais abrangente da guerra na Guiné e, ao mesmo tempo, navegar consigo no seu PCA, progredir com os seus bigrupos nas missões mais arriscadas, partilhar a angústia das decisões mais difíceis, confrontar-se com a orientação estratégica do Comando-Chefe, conhecer a atuação da guerrilha, viver a vida de um militar naqueles duros tempos e cumprir a nobre missão de resgate dos militares portugueses falecidos e sepultados na Guiné. 

"Ao ler as páginas deste seu livro revejo e identifico pessoas com quem partilhei uma parte importante da minha vida e situações em que a minha companhia esteve também envolvida e que constituem pedaços da história dos paraquedistas, das forças armadas portuguesas e do nosso país.”

Recomendo vivamente a leitura deste livro a quem ainda não o fez porque nele revemos, cada um de nós, ex-combatentes, uma parte da nossa história. Cerca de seis meses depois,  e em resultado da Op Grande Empresa,  existiam 7 novos aquartelamentos
 [no Cantanhez] :

  • Cadique,
  • Caboxanque,
  • Cafal,
  • Cafine,
  • Jemberem,
  • Chugué
  • e Cobumba.

O COP 4, comandado pelo sr. ten-cor pqdt Araújo e Sá, comandante do BCP 12, coadjuvado pelo seu segundo comandante e oficial de operações, maj pqdt Moura Calheiros,  foi a unidade operacional responsável pela operação.

Mas fiz esta longa introdução para abordar o tema do Natal.

Os quatro dias que mediaram desde a nossa entrada em Caboxanque até ao Natal de 1972, foram preenchidos em ciclópicas tarefas de instalação da companhia, segurança no perímetro defensivo e reconhecimento da zona operacional.

O perímetro tinha cerca de 3,5 km  (Fotos  nº 1 e 2) e só foi possível garantir a segurança de Caboxanque instalando os grupos de combate e cada uma das suas secções ao longo da linha de defesa, ficando a CCav 8352 instalada em metade do perímetro virado a norte e a CCaç 4541 na metade virada a sul. 

Instalados em valas cavadas em contrarrelógio, sem arame farpado e apenas separados da mata do Cantanhez por um largo espaço que as maquinas da engenharia terraplanaram, com a ração de combate a alimentar a nossa fome, a noite escura a servir de cobertor e a angústia de podermos ser surpreendidos pelo PAIGC nessa nossa tão frágil posição, assim se encontravam os militares sob meu comando, carregando sob os meus ombros a enorme responsabilidade do que lhes pudesse acontecer naquelas difíceis circunstâncias.

No dia de Natal a companhia estava dispersa pelo perímetro de Caboxanque, um grupo de combate tinha saído com um bigrupo paraquedista, em patrulhamento, e em Cufar ainda permaneciam alguns militares da companhia, guardando todo o material que lá tinha ficado. 

Sem meios frio a funcionar e portanto sem géneros frescos,  as refeições limitaram-se às rações de combate e a uma sopa improvisada com o pouco que diariamente se trazia de Cufar.


Foto nº 3
Estes foram dias muito difíceis para todos. Numa fotografia que aqui junto (Foto nº 3)  podem verificar como eram feitas as distribuições das refeições ao longo do perímetro. Quando o Unimog que fazia este serviço chegava junto da última secção já a refeição que transportava estava fria.

Um ano antes, no 
Natal de 1971, estava em Angola, nos Dembos, na sede do BCAÇ 3840 sediado em Zemba e na escala de serviço coube-me ser o oficial de dia. (...)

Natal de 1973 foi passado em Cadique para onde a CCav 8352 tinha sido enviada, por um mês, no âmbito da Op Estrela Telúrica que envolveu entre outras forças o Batalhão de Comandos. (Vd. o que escreveu, no seu "Diário da Guiné", o nosso camarada António Graça de Abreu, então em Cufar, no CAOP1).

 Instalados em condições muito precárias, sempre com grupos de combate em acção, principalmente junto à estrada Jemberem – Cadique, este foi o terceiro e o nosso pior Natal em guerra.

Dois dias antes do Natal um grupo de combate da minha companhia e outro da companhia de Cadique foram emboscados quando vinham render outros 2 grupos de combate da CCav 8352 que eu naquele dia comandava. 

Em resultado da emboscada houve mortos e feridos entre os militares da companhia de Cadique.

A moral do pessoal de Cadique estava a um nível muito baixo e assistimos a alguns actos de desespero, como a recusa a sair para operações ou tentativas de acionar uma granada defensiva junto do comando. (...)

(Seleção, revisão / fixação de texto,  parênteses retos, título: LG)


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Notas do editor:
 
(*) 25 de dezembro de 2014 > Guiné 63/74 - P14080: O meu Natal no mato (42): 1971, em Zemba (Angola); 1972, em Caboxanque; 1973, em Cadique (Rui Pedro Silva, ex- cap mil, CCAV 8352, Cantanhez, 1972/74)

(**) Último poste da série > 5 de dezembro de 2024 > Guiné 61/74 - P26236: Operação Grande Empresa, a reocupação do Cantanhez e a criação do COP 4, a partir de 12 de dezembro de 1972 - Parte II: O BCP 12, o "112" do Com-Chefe