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quarta-feira, 20 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28040: Historiografia da presença portuguesa em África (530): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1972 (88) (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 10 de Dezembro de 2025:

Queridos amigos,
O que acima de tudo mais me impressiona deste ano de 1972, deixando de lado o reforço de verbas e os orçamentos extraordinários, é o empenho posto no sistema educativo, chegou-se mesmo à criação de uma escola do magistério primário. Nas biografias e ensaios dedicados a Spínola não vejo esta dimensão de ação governativa claramente definida. O ano, como sabemos, marcou uma viagem relacional entre Spínola e Marcello Caetano, a solução militar revelara-se-lhe inviável, apostou em algumas metas de desenvolvimento socioeconómico, rasgaram-se e alcatroaram-se estradas, abriram-se postos sanitários, as missões de combate às mais tremendas moléstias receberam meios, mas foi no sistema educativo que se operou uma aceleração que nos leva a perguntar o que, após a independência da Guiné Bissau se aproveitou desta mão-de-obra que se tinha espalhado pelos pontos mais recônditos. Só muito raramente há referências à situação militar, entre as poucas nesgas de informação temos o louvor ao Chefe Augusto Sambé, da região de Fulacunda.

Um abraço do
Mário



Província da Guiné Portuguesa
Boletim Oficial da Guiné, 1972 (88)


Mário Beja Santos

Em 1972, não vem no Boletim Oficial, Azeredo Perdigão, Presidente da Fundação Calouste Gulbenkian, volta a visitar a Guiné e mantém um grande apoio ao sistema educativo, esse sim está permanente no Boletim Oficial, como à frente se escreverá. Também não consta no Boletim Oficial a condecoração de António de Spínola com a medalha de Valor Militar com Palma. Procedeu-se à assinatura da constituição da Companhia Industrial de Cervejas e Refrigerantes da Guiné (CICER) iniciaram-se as obras de construção da fábrica. O Governo autorizou a instalação em Bissau de uma fábrica de artigos de plástico. E surgiu o jornal Voz da Guiné, mostrou ser logo no primeiro número uma publicação oficiosa.

No Boletim Oficial n.º 3, de 18 de janeiro, pela Portaria n.º 697/71, de 10 de dezembro, fica-se a conhecer que o Ministério do Ultramar reforçou duas dotações do programa de financiamento do III Plano de Fomento da Província para o corrente ano económico. O reforço incidiu nas áreas da energia, transportes, comunicação e meteorologia, educação e investigação. No mesmo Boletim Oficial temos um despacho dos ministérios do Ultramar e da Economia referindo preços da mancarra. Considerava-se conveniente, em relação à próxima campanha, manter regime análogo ou praticado na última campanha, passando, todavia, o preço de colocação na metrópole a ser fixado para a ginguba (amendoim descascado). Refere-se concretamente no artigo 4.º que “O Ministério do Ultramar e a Secretaria de Estado do Comércio diligenciarão intensificar as correntes de comércio de oleaginosas alimentares entre a metrópole e as províncias ultramarinas, mantendo-se permanentemente informados, através de consulta recíproca, por forma a harmonizar os interesses e exportações das províncias ultramarinas com as necessidades do abastecimento nacional.”

No Boletim Oficial n.º4, de 25 de janeiro, publica-se o Regulamento da Organização Provincial de Voluntários e Defesa Civil da Guiné. Esclarece-se que esta organização coopera na manutenção da ordem e defesa da integridade territorial contra agentes subversivos e perturbadores da ordem, terroristas e bandos armados. Poderão fazer parte desta organização indivíduos que tenham pelo menos 18 anos, que se alistem voluntariamente. Poderão ser chamados a colaborar com a organização, oficiais e sargentos dos quadros permanentes das Forças Armadas e também indivíduos pertencentes aos escalões das tropas licenciadas e territoriais e não incorporados em unidades militares. O que o legislador não exprime factualmente é de que se trata das milícias que estão espalhadas por toda a Guiné. Veremos adiante que esta organização provincial de voluntários irá ter à sua frente Carlos Fabião.

No Boletim Oficial n.º 11, de 14 de março, publica-se uma Portaria assinada pelo Governador e que se prende com um louvor dado ao chefe da povoação de Bissássema de Cima, da Circunscrição de Fulacunda em Tite, Augusto Sambé: “Muito patriota, prestimoso e extremamente devotado à obra de promoção socioeconómica em que está empenhado o Governo da Província, o Chefe Augusto é um digno exemplo a apontar às autoridades tradicionais pela sua extraordinária dedicação, confiança e fidelidade à causa nacional, não obstante as duras provações por que tem passado desde a inclusão do terrorismo na região de Quínara.”

No Boletim Oficial n.º 11, de 18 de março, 3.º Suplemento, vem publicado o Regulamento Orgânico dos Transportes Aéreos da Guiné Portuguesa. Estes transportes destinam-se à exploração na Província da Guiné do transporte aéreo regular de passageiros, bagagens, correio e carga diversa, mediante a remuneração que for estabelecida nas suas tabelas; estes transportes também podem fazer fretamentos que poderão ser extensivos a outros pontos do território nacional ou estrangeiro.

No Boletim n.º 12, de 21 de março, vem publicada a Portaria n.º 100/72, de 19 de fevereiro, da Direção-Geral de Obras Públicas e Comunicações, alude às tabelas de taxas e portes postais das Províncias Ultramarinas, a referência vai para Angola, Moçambique e Cabo Verde, a Guiné fica de fora.

No Boletim Oficial n.º 18, de 2 de maio, por dois avisos do Conselho dos Transportes Terrestres da Guiné ficamos a saber algo mais sobre os transportes coletivos passageiros na Província. O Sr. Alberto Lamine Jaquité, requerera a concessão de uma licença de transportes coletivos de passageiros ligando Nova Lamego a Sonaco e vice-versa; e o Sr. Dionísio Dias Monteiro requerera a concessão de uma licença de transportes coletivos de passageiros ligando diariamente Farim-Mansabá-Nhacra-Bissau e vice-versa.

Consta no Boletim Oficial n.º 21, de 23 de maio, uma daquelas revoadas a que assistimos no sistema educativo guineense, no caso concreto a criação de postos escolares, é a matéria das Portarias n.º 37 e 38/72. Eram criados postos escolares em Bruce, na ilha de Bubaque, Bijagós; posto escolar São José, área do Posto Administrativo de Sedengal, em Ingoré; postos escolares de Ancadaque e Cuiane, na ilha Formosa, Bijagós; e atribuída à Escola de Habilitação de Professores do Posto Escolar de Bolama “Governador General Arnaldo Schulz” um fundo permanente de 35.000$00.

No Boletim Oficial n.º 25, de 20 de junho, publica-se o Decreto-Lei n.º 186/72, de 2 de junho, assinam Marcello Caetano e Silva Cunha, diz-se no preâmbulo: “A expansão do ensino primário na Guiné, a caminho rápido para uma escolarização total aconselha a criação de uma escola do magistério primário naquela Província, em ordem à preparação de pessoal docente, para fazer face às necessidades resultantes dessa expansão.” A escola ficaria instalada na cidade de Bissau, referem-se os diferentes requisitos de orgânica, e diz-se concretamente que enquanto a escola não dispuser de instalações próprias funcionará no edifício do Liceu de Honório Barreto.

No Boletim Oficial n.º 27, de 4 de julho, o Ministério da Defesa Nacional, pelo Decreto-Lei n.º 133/72, manda atribuir a gratificação mensal de 400$00 aos militares dos três ramos das Forças Armadas que prestem serviço de pisteiro de combate e tenham averbado o respetivo curso completo. A competência para repartir o efetivo fixado pelos ramos das Forças Armadas compete ao Comandante-Chefe.

No Boletim Oficial n.º 32, de 8 de agosto, há um curioso Despacho do Gabinete do Ministro de Defesa Nacional. Atribui-se uma gratificação diária de 4$00 às Praças com especialidade de Enfermeiro de Veterinária explica-se que esta especialização tinha anteriormente o nome de “ferrador”.

No Boletim Oficial n.º 41, de 10 de outubro, publica-se o Decreto-Lei n.º 366/72, do Ministério do Ultramar, autorizando-se o Governador da Guiné a prestar, em nome da Província, aval a um empréstimo a contrair pela Companhia de Pesca e Conservas da Guiné até ao montante de 45.000$00. Estou em crer que esta empresa deu com os burrinhos na água, quando fiz a investigação sobre o BNU na Guiné, nas actas finais da administração dava-se com todo o crédito concedido malparado.

Chegámos ao fim do ano, a Guiné tem nova Lei Orgânica, consta no Boletim Oficial n.º 51, de 26 de dezembro, 2.º Suplemento, descrevem-se, por exemplo, a função executiva do Governador e as suas atribuições, e o papel da Assembleia Legislativa.

E assim nos aproximamos no último ano da Governação de António de Spínola.


Visita do Ministro do Ultramar à Guiné
Luta de raparigas Baiotes
Homem Papel
Penteado de rapaz Felupe
Cabeleireiras Manjacas
Marimbas Fulas
Bijagós, dança da “Vaca Bruto”
Penteado de Boenca

Imagens retiradas de diferentes números do Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, 1972

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 13 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28017: Historiografia da presença portuguesa em África (529): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1971 (87) (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28022: Notas de leitura (1923): A biografia de um combatente: O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História (2): III - O que eu sei da guerra que estou a travar e IV - O conhecimento da morte, Missirá devastada, o desafio de lhe dar nova vida (Mário Beja Santos)

CONGRESSO INTERNACIONAL
DAS GUERRAS AO PÓS-25 DE ABRIL
Os Militares em Territórios em Conflito
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
De 2 a 4 de abril de 2025


A biografia de um combatente:
O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História

Mário Beja Santos

III - O que eu sei da guerra que estou a travar

Estou consciente que não disponho de tempo para manter este nível de pormenor, quando comecei a estruturar esta intervenção achei por bem pôr ênfase neste tempo de adaptação, dou-lhe um valor incalculável, foi nascendo o meu amor por aquelas gentes que tanto confiavam em mim, faltava-lhes tudo, exigiram-me que lhes desse o devido cuidado, tudo somado nasceu entre nós o respeito, a consideração, a lealdade. Eu estava ali para fazer a guerra, ou para travar os ímpetos do chamado inimigo, cedo descobri que tudo passava por mostrar às populações a moeda da lealdade do cuidado pelo Outro.

À cautela, supondo que irei viver num universo radicalmente diferente do que vivi em Lisboa, apetrechei-me de dois malões feitos em pinho, levei neles umas largas centenas de livros e discos de vinil e o gira-discos a pilhas. Nada sei da Guiné, quando ali desembarquei, nem do seu mosaico étnico, em que locais estão implantadas as tropas portuguesas e onde há guerrilha, li durante a viagem de barco um volume sobre a Guiné Portuguesa da autoria do então Comandante Teixeira da Mota, esclarecedor quanto a aspetos históricos, geográficos, antropológicos e etnográficos, mas era um livro de 1954, fiquei com uma ideia quanto à severidade do clima, e havia tornados e uma espantosa diversidade quanto a fauna e flora, mangais, vários tipos de floresta, palmares, lalas de água salgada, Savanas, não faltam macacos, cobras, ratos-voadores e uma espécie de abutres, alimentam-se de tudo.

Desembarcado em Bissau, ainda esperei ser convocado para uma reunião onde ficasse a saber que guerra de guerrilhas ali se vivia, nada aconteceu, fiquei entregue a mim próprio, ia diariamente a uma repartição do Quartel-General saber se tinha guia de marcha. Passeei-me por Bissau, o museu da Guiné surpreendeu-me, comprei um livro sobre os Mandingas, o jeito que me deu. Resta dizer que me mandaram apresentar no cais do Pidjiquiti na manhã de 2 de agosto, embarquei num barco com vários africanos, deram-me um garrafão de água e uma ração de combate. Fiz o estuário do Geba, havia um jovem que me ia explicando os locais, ali ao fundo é Jabadá, vamos parar em Porto Gole, anoiteceu, alguém me dirá em voz baixa que vamos passar perto de Ponta Varela, é ali que os barcos são atracados, o barco navega com toda a gente em silêncio, depois entrou num estreito leito do rio, sinuoso, mais adiante há luzes, primeiro o Xime mais adiante Bambadinca.

Algo me está a maravilhar, assim como descobri na recruta e na especialidade a energia física e o prazer da marcha, começo a entender agora que tenho capacidade de liderança, nestes primeiros três meses vamos fazendo patrulhas de reconhecimento, vou tirando notas do terreno percorrido, deslumbrei-me com os palmares de Gambiel e de Chicri, estou ciente de que aquelas obras são mais do que indispensáveis, não tenho ilusões quanto à insegurança em que vivemos. Vivo numa morança onde se pôs saibro no chão, foi pintada uma cama de ferro e feito um colchão de folhelho, mais tarde descobrirei que aquela cama pertenceu a um dos nossos maiores cartógrafos, Armando Cortesão. Converso regularmente com o régulo, com o chefe de tabanca, com o responsável religioso. Apareceu um jovem a oferecer-se para guarda-costas, o seu nome é Ieró, parece ser uso e costume haver tal intendência, Ieró explica-me o que é que pretende fazer: entregar a roupa suja à lavadeira e verificar o estado em que regressa; limpar o armamento e a limpeza da casa de nosso alfero, vai por aí fora falando das botas para engraxar, levar e trazer recados, e, súbito, diz algo que arrepia nosso alfero: se necessário pôr, protege com o seu corpo o seu comandante, deve estar preparado para dar a sua vida por ele.

Vive-se com o que a vida nos ensina: os graves problemas de saúde, sobretudo dos civis, as carências nutricionais das crianças, o imperativo das colunas de abastecimento; apanhou-se um grande susto, um dia em Mato de Cão, ouve-se um ronco medonho, depois as águas parecem estar a ferver em remoinho, deitam espuma para os lodos das margens, segue-se uma onda, então desatei a fugir colina acima, soldados a rirem-se, e eu a pensar que era um marmoto e os soldados a dizerem que não, é macaréu.

Multiplicam-se as tarefas, na secretaria do Batalhão entregam-me um processo de averiguações, uma criança, anos atrás, em Finete, acionou uma granada incendiária que tinha ficado num reboque militar, o seu corpo foi severamente atingido, como eu irei ver mais tarde, passei horas e horas a mandar deprecadas para muitos lugares de Portugal, o processo acabou em nada. Percorro aquelas matas, vejo estacas calcinadas, houve para ali vida, apercebo-me agora que vivo num território dividido, onde se deu um turbilhão demográfico, fugiu gente para muitos sítios, os que ficaram estão em Missirá e Finete, em Madina e Belel. É assim que se vive num território em guerra de guerrilhas.



IV - O conhecimento da morte, Missirá devastada, o desafio de lhe dar nova vida

Aproveito as idas a Mato de Cão para fazer patrulhamentos, quero descobrir os caminhos que as gentes de Madina e de Belel percorrem atravessando o Geba em diferentes sentidos. Iremos descobrir pirogas camufladas dentro do mato denso do tarrafe, para quem vai aos Nhabijões; junto do Geba estreito, frente à bolanha de Mero, na margem esquerda, encontramos indícios da sua passagem, desde carregadores de espingardas a bosta de vaca. Seguem-se emboscadas, o chamado inimigo terá os seus mortos e feridos, sofremos também com gente nossa acidentada, o Natal mais luminoso da minha vida será o de 1968, alegria irrepetível, gente de cá enviou vitualhas, houve festa para toda a população civil e para os contingentes de Missirá e Finete.

Em fevereiro de 1969 fui ao hospital militar de Bissau para ser operado, sofria de uma cartilagem atrás do joelho direito que me dava dores insuportáveis. Antes de ir, participei numa operação desastrosa onde se acidentou gravemente mais um amigo meu. Feita a operação, descubro que Missirá fora flagelada, o incêndio consumira cerca de dezasseis moranças, consegui apoios no Batalhão de Engenharia, não me irá faltar cimento, nem dinheiro para as madeiras, virão chapas onduladas, o essencial para que quando chegou a época das chuvas toda a gente tinha o mínimo de conforto e aproveitou-se a ocasião para renovar um bom número de abrigos.

Entretanto, não faltarão flagelações, a resposta será sempre pronta e enérgica. Tenho de abreviar, a contragosto. Participaremos também nas operações dos outros, deixei de ter medo da noite. Uma vez escrevi o seguinte: “Descobri que a floresta à noite tem outras expressões de vida, os estalos da madeira sobressaltam, o piar das árvores pode parecer de muito mau agoiro, um porco-do-mato pode assustar uma patrulha em marcha, há sons que se confundem, o pior são os gemidos das hienas, lembram o choro dos bebés; em emboscadas noturnas, sente-se o bafo do vizinho do lado, parece que estamos perdidos num oceano de sombras, já me habituei ao restolhar dos animais, quem está à noite na floresta em circunstância alguma pode perder de vista o camarada que segue à frente, já ouvimos falar no terror, no desespero que é estar perdido em território perfeitamente desconhecido.”

Os meses passam, os homens do meu pelotão dão-me claramente a saber que estão fartos de viver naquele ponto do mato, há mais de três anos que combatem em Missirá, fui forçado a pedir ao comando do batalhão transferência, não deixando de advertir os meus homens que não iríamos para melhor em Bambadinca. Tal como aconteceu.
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Notas do editor:

Vd. post de 8 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28001: Notas de leitura (1920): A biografia de um combatente: O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História (1): I - À guisa de apresentação do ex-combatente e II - Foi assim que cheguei ao Cuor (Mário Beja Santos)

Último post da série de 13 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28014: Notas de leitura (1922): "Os Có Boys (Nos Trilhos da Memória)", de Luís da Cruz Ferreira, ex-1.º cabo aux enf, 2.ª C/BART 6521/72 (Có, 1972/74) - Parte X: À falta de vaca, avançou o hipopótamo para o rancho

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28017: Historiografia da presença portuguesa em África (529): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1971 (87) (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 26 de Novembro de 2025:

Queridos amigos,
Este Boletim Oficial é tudo menos insignificante, e não é mera documentação adicional. Dizia o então Governador Sarmento Rodrigues que queria pôr termo aos orçamentos da Província fantasiosos, camufladores da realidade económica, escondendo tanto as receitas como a despesa. O que o investigador tem à sua disposição é a evolução dos encargos, do crescimento da despesa, dos sucessivos orçamentos extraordinários, múltiplos créditos, dá para verificar como na governação Spínola o Governo de Lisboa abriu os cordões à bolsa, e também será interessante comparar com os orçamentos anteriores, mormente com os quatro anos de Arnaldo Schulz. Ainda não se tem um quadro nítido do que fez na Guiné até à independência a Esso Exploration Guiné, fica-nos a notícia da pesquisa no leito do mar e nas coordenadas que aqui vêm referidas. Que o leitor não se admire com o louvor atribuído a um Chefe de Brigada da DGS do Posto de Catió publicado no Boletim Oficial da Guiné por um ato de verdadeiro destemor, durante uma flagelação. A DGS não estava subordinada à instituição castrense, daí a publicação regular de nomeações, autorizações para férias, transferências e, por conseguinte, louvores.

Um abraço do
Mário



Província da Guiné Portuguesa
Boletim Oficial da Guiné, 1971 (87)

Mário Beja Santos

Como fizemos alusão na síntese de 1970, cresce exponencialmente o número de créditos, fundos de investimento, orçamentos suplementares e extraordinários. Fez-se logo alusão ao Boletim n.º 1, de 5 de janeiro de 1971, a Portaria n.º 630/70, do Ministério do Ultramar, que abriu um crédito destinado a reforçar verbas da tabela de despesa extraordinária do orçamento da Província da Guiné para o corrente ano económico. O Boletim Oficial n.º 6, de 9 de fevereiro, pela Portaria n.º 2310, aprova os novos Estatutos da Associação Comercial, Industrial e Agrícola da Guiné. Esta aprovação tem a cláusula expressa de que será retirada a autoridade agora concedida caso a Associação, por qualquer forma, proceda contrariamente ao interesse público e se desvie dos fins para que foi instituída. Os seus fins são de promover e dinamizar o desenvolvimento das atividades do comércio, indústria e agricultura, procedendo ao incremento do comércio externo, ao intercâmbio comercial entre a Guiné e a Metrópole e as outras províncias ultramarinas, ao sistema de transportes e comunicações, à organização bancária etc. etc.

O Suplemento do Boletim Oficial n.º 6, de 13 de fevereiro, pela Portaria 2310, põe em execução, para o ano económico de 1971, as tabelas adicionais que constituem os recursos para financiamento do Programa do III Plano de Fomento. O documento refere o vultoso empréstimo da administração central, as medidas do programa de execução em diferentes áreas como a agricultura, silvicultura e pecuária e pescas, indústrias extrativas e transformadoras, transportes, comunicações e meteorologia, turismo, habitação, saúde, etc. Para este programa de financiamento as verbas maiores vêm da administração central, do rendimento das concessões petrolíferas e até do Secretariado da Defesa Nacional. Mantém-se o mistério sobre o funcionamento da Esso Exploration Guiné Inc, a que título este rendimento das concessões petrolíferas, o que e aonde se explora em território guineense? Facto é que no Boletim Oficial n.º 9, de 6 de março, fala-se numa Assembleia Geral Extraordinária da Esso a ter lugar em 29 de março de 1971 na Rua Filipe Folque n.º 2, 3.º, em Lisboa, isto para aprovação e relatório de balanços e contas, eleição dos órgãos, etc.

No mesmo sentido o Boletim Oficial n.º 20, de 18 de maio, publica uma informação da Esso Exploration Guiné onde se diz:
“No decurso do ano de 1970 a Companhia continuou a proceder a trabalhos e pesquisas na área de concessão que lhe foi outorgada, trabalhos esses, que consistiram especialmente em trabalhos de prospecção sísmica e na interpretação dos dados geológicos e geofísicos obtidos até à data.
Os trabalhos sísmicos foram realizados apenas no mar, tendo os estudos geológicos e geofísicos sido coordenados pela Esso Exploration Inc, com a colaboração da Esso Production Research Company de Houston, Texas, EUA, e o East Atlantic Study Group de Walton-on-Thames, Inglaterra, todas empresas afiliadas da Standard Oil Company. É de assinalar que a Companhia, no exercício findo, contribuiu também para a perfuração de um poço em área contígua à concessão que lhe foi outorgada, contributo este considerado do maior interesse para a obtenção de dados e elementos que lhe permitem estabelecer melhor as estruturas da área de concessão.”

Segue-se o parecer do Conselho Fiscal e o detalhe das despesas de exploração ao longo de 1970.


Mas há ainda mais notícias da Esso. No Boletim Oficial n.º 29, de 20 de julho, a Repartição Provincial dos Serviços de Geologia e Minas publica o seguinte edital:
“Francisco de Almeida Flores, Engenheiro-Chefe dos Serviços de Geologia e Minas desta Província:
Faz saber que deu entrada nesta Repartição um requerimento dirigido a sua Excelência o Ministro do Ultramar em que afirma Esso Exploration Guiné Inc, sociedade por acções com sede nesta cidade de Bissau, pede que lhe seja outorgada concessão exclusiva para pesquisa e exploração de jazigos de hidrocarbonetos e substâncias afins numa área desta Província representada pelo leito do mar e compreendida dentro dos seguintes limites:
Ponto de partida, o ponto de intersecção das coordenadas 11º 56’ 30’’ da latitude norte e 17º 30’ 00’’ de longitude oeste; deste ponto, para sudoeste, ao longo de uma linha reta, até ao ponto de intersecção das coordenadas 11º 40’ 30’’ de latitude norte e 18º 00’ 00’’ de longitude oeste; daqui, em direcção ao sul, ao longo de uma linha reta, até ao ponto de intersecção das coordenadas 10º 35’ 00’’ de latitude norte e 18º 00’ 00’’ de longitude oeste; daqui, em direcção a este, em linha recta, até ao ponto de encontro com o limite da concessão de que a requerente é titular, no ponto de intersecção das coordenadas 10º 35’ 00’’ de latitude norte e 17º 11’ 30’’ de longitude oeste; deste ponto, para norte, até ao ponto de partida, ao longo, mas sem solução de continuidade, do limite da referida concessão de que a requerente é titular.”

São, sem dúvida, elementos abonatórios para a compreensão do que a Esso Exploration Guiné estava a fazer ao nível de 1970, continuamos sem encontrar outros elementos da história desta exploração.


Agora, uma mera curiosidade. Encontrou-se no Boletim Oficial n.º 33, de 17 de agosto, do Ministério do Ultramar a concessão ao Major de Infantaria Eugénio dos Santos Ferreira Fernandes, do Quartel-General da Região Militar de Moçambique a medalha de cobre de assiduidade de serviço no Ultramar, por ter prestado 12 anos de serviço, com comportamento exemplar, nas províncias de Moçambique, Angola, Guiné, Macau, Timor e S. Tomé e Príncipe, sendo mais de três consecutivas em Moçambique. É de perguntar que périplo ainda devia fazer o Major Fernandes para obter as medalhas de prata e ouro.

O leitor tem vindo a ser sucessivamente informado de que estes Boletins Oficiais ganharam enorme volume graças à publicação de tudo o que tem a ver com a política ultramarina, e aqui temos uma outra mera curiosidade. No Boletim Oficial n.º 44, de 2 de novembro, o Governo Central, através da Direção-Geral de Administração Civil publica a seguinte concessão:
“Considerando o extraordinário sangue-frio, coragem e perícia revelados pelo piloto aviador civil José Eduardo dos Santos Peralta, quando, em 11 de agosto findo, ao sobrevoar a região de Cabinda, fez gorar a tentativa de um grupo de indivíduos que se haviam apoderado de avultada quantia do Estado e, sob a ameaça de uma arma de fogo, pretenderam obrigá-lo a desviar a sua rota para território de um país vizinho.”
Pelo seu destemor foi-lhe concedida a medalha de prata de Serviços Distintos ou relevantes no Ultramar.


O Boletim Oficial n.º 50, de 14 de dezembro, publica uma Portaria assinada pelo Governador da Guiné:
“O Chefe de Brigada de DGS do Porto de Catió, José da Silva Duarte, durante uma flagelação que o inimigo efetuou sobre aquela vila, em 14 de abril de 1971, teve actuação que é justo destacar e distinguir.
Verificando que, no local onde se encontrava, o rebentamento de um projétil havia provocado vários feridos, colocou um deles sobre os ombros e correu em direcção à enfermaria militar, indiferente ao perigo a que se expunha.
Ainda no trajecto, novo rebentamento atingiu um militar que seguia à sua rectaguarda. O Chefe de Brigada Duarte voltou atrás para socorrer aquele militar, colocando-o ao abrigo de futuros rebentamentos, após o que prosseguiu até à enfermaria com um ferido que inicialmente transportava.”

Foi assim louvado o Chefe de Brigada Duarte pelos seus actos em que demonstrou com a sua atitude acendrada abnegação e excepcional coragem.


Para finalizar, temos no Boletim Oficial n.º 52, de 28 de dezembro, a criação de postos escolares, uns no Gabu (Cam Fará, Sinchã Cantambá, Nematabá, Paunca, Sori Lumbato, Sumacunda, Tomana de Cima e Coiada) e nos Bijagós, nas ilhas de Uro, Uracane, Orango Grande.
Notícia da visita do Subsecretário de Estado do Fomento Ultramarino
Notícia do regresso do Governador
Felupes em Batuque
Dançarinas Mandingas
Inauguração de um fontenário em Sare Bacar
Rapariga Fula
Velho Mandinga
Dança Nalú

Este conjunto de imagens foram publicados no Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, em diferentes números de 1971

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 6 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P27993: Historiografia da presença portuguesa em África (528): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1970 (86) (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28010: Notas de leitura (1921): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (7) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 22 de Dezembro de 2025:

Queridos amigos,
Agora que chegamos ao término da viagem, importa realçar que não estamos perante uma história da guerra nem mesmo história oral de valor memorial sobre a guerra. Trata-se de uma abordagem onde se procura analisar a estratégias desenvolvidas pelas famílias no tocante à relação entre pais e filhos durante a guerra. Há uma linha de conduta dos militares lá longe apelando aos filhos perseverança nos estudos e coesão familiar, como se houvesse a antevisão de que eles viriam mudados e se impusesse um esforço de adaptação. Estes filhos dos militares, em conversa com as autoras, falavam por vezes como se ainda fossem pequenos; e o terem retomado as memórias da infância e da adolescência, as estadias do Colégio Militar e do Instituto de Odivelas, a necessidade dos irmãos se terem reunido para relerem cartas e aerogramas traz leituras por vezes bem curiosas sobre a relação dos pais depois dos militares terem definitivamente regressado a casa. Nestas reuniões com as autoras também houve assombros a escutar de novo as fitas magnéticas onde não faltam cantigas, conversas sobre os estudos e até músicas do Festival da Canção. Na verdade, os pais voltaram outros, em muitos casos houve a necessidade de deixar passar o tempo para depois descobrir que tudo tinha mudado na sociedade, nos valores e nos contextos sociais.

Um abraço do
Mário



Olhe que o pai faz muita falta. Foi com a sua comissão que eu aprendi o quanto custa o estar longe e só e para nós o sofrimento não se compara com o seu – 7

Mário Beja Santos

Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975, por Ana Vargas e Joana Pontes, Tinta da China, 2025, é um livro arrebatador, profundamente terno, e, tanto quanto me é dado de saber, preenche uma lacuna no campo da investigação.

Vamos hoje despedir-nos destas conversas entre filhos e pais em tempos de guerra falando de Joaquim Pires Afreixo e Fernando Manuel Saraiva. Joaquim era funcionário dos CTT quando foi requisitado em 1961 para o Serviço Postal Militar (SPM), tinha 36 anos e foi graduado em alferes. Constituído o teatro de operações de Angola havia que organizar a distribuição do correio aos militares em campanha. Os CTT em Angola não dispunham de meios para fazer face ao crescente volume da correspondência. Deu-se o caso de a correspondência entre os combatentes e as suas famílias se ter acumulado em Luanda por mais de três meses. Determinou-se que essa correspondência seria enviada para o Quartel-General da Região Militar de Angola, mas o problema não ficou resolvido.

Foi então que o ministro do Exército determinou a organização do SPM, o objetivo era criar uma estrutura que fizesse chegar ao seu destino, o mais rapidamente possível, a correspondência e as encomendas. Joaquim fez quatro comissões, sempre neste serviço, em Moçambique, em Macau, na Guiné, de novo em Moçambique. Joaquim permaneceu muito tempo afastado dos filhos. José, o mais velho, nasce em 1955, e Lucinda em 1962. Quando Joaquim regressa dois anos depois, José não o reconheceu. Até ao seu regresso em 1965, Joaquim passará apenas curtos períodos em Lisboa com a família. A mulher de Joaquim trabalhava como bibliotecária e arquivista, manifestamente não quis ir para os locais onde o marido procurava manter o SPM em bom andamento.

Lucinda vai com dez anos para o Instituto de Odivelas e o irmão para a Faculdade de Medicina. Na correspondência Joaquim nunca fala da guerra, mas em Lisboa aborda-a, à luz do que vê e ouve. Ele comprara um gravador de cassetes para poder enviar à família notícias suas e canções românticas; nas cartas remetia fotografias. O pai pede aos filhos notícias. Com o passar do tempo, Joaquim vai revelando um outro olhar sobre o lugar onde está. Na troca de cartas o tema da escola é recorrente.

Finda a guerra, Joaquim regressa em 1975, depois da independência de Moçambique, é integrado no Exército e chega a Tenente-coronel. A guerra raramente esteve presente nas conversas da família. O tempo foi passando e o que ficou desses tempos está na correspondência que se salvou da fogueira.

Agora Fernando Manuel Saraiva. Nuno tem três anos e oito meses quando o pai, o Capitão Miliciano Fernando Saraiva parte para Moçambique, mobilizado para comandar a 1.ª Companhia do Batalhão de Caçadores n.º 4811, partiu em abril de 1973, vai de avião com 165 homens, entre os quais um médico, um enfermeiro e dois auxiliares de enfermagem, quase todos os militares são originários dos Açores. Ao chegar a Moçambique, o Batalhão assume a responsabilidade por uma zona de atuação no distrito de Niassa com uma superfície aproximada de 14 mil km2.

Antes da mobilização, Fernando era estudante de Engenharia e havia entrado na carreira de Despachante. Quando soube que ia ser mobilizado, preparou a saída de Portugal com destino a Paris, mas o pai impediu-o. Nuno fica com a mãe, de nome Maria José, era doméstica. Maria José escreve todos os dias a Fernando, lamentando a sua ausência. Nos aerogramas que envia ao filho, Fernando faz desenhos para Nuno colorir ou copiar.

Nuno recorda às autoras: “As cartas que escreve para a minha mãe é para a descansar. É o paraíso. A forma como ele fala comigo é por vezes autoritária, outras vezes como se fala com um bebé. Nas cartas em que enviava ao meu avô a forma é um pouco mais dura. A partir de uma certa altura, o meu avô deixa de escrever, era a minha tia que escrevia em nome dele. A escrita do meu avô era muito certinha, escrevia autênticos testamentos onde ele dava conta do que estava a acontecer ao país real.”

Em 1 de abril de 1974 Nuno e a mãe chegam a África, comenta o filho: “Muita insistência dela, o meu pai não queria.” Mãe e filho chegaram a Muembe, local onde estava a Companhia de Caçadores que o pai comandava. Nuno não o reconhece. A família fica alojada no aquartelamento juntamente com outros oficiais e as respetivas mulheres. A companhia encontrava-se instalada numa zona montanhosa, cortada por inúmeros rios e linhas de água. Não há população branca na zona de atuação do Batalhão, apenas dois cantineiros. A população vive em aldeamento para onde foi deslocada. Muitos fugiram para o Maláui e para a Tanzânia, e aldeias que se sabe estar sob controlo do inimigo. A população é maioritariamente muçulmana e não fala português.

A conversa de Nuno com as autoras recolhe muitas informações do livro da Unidade. Chegou-se ao 25 de abril e Nuno lembra-se da agitação e da alegria dentro do quartel, veio depois uma grande tensão, pela indefinição relativa ao futuro dos militares. O Batalhão inicia o seu regresso a partir de novembro de 1974. A família regressa a casa. Nascem mais duas filhas. Não se fala da guerra. A mãe não esconde as boas memórias da passagem por África. Com o pai foi diferente, como Nuno relata: “O meu pai tornou-se extremamente violento comigo, e eu atribuo isso também um bocado à cabeça meio esfrangalhada com que ele veio. Houve episódios de violência muito, muito grandes. O meu pai também se reencontrou, mas muito mais tarde.”

Depois da sua morte, Nuno tem participado nos almoços de confraternização da Companhia. “O meu pai destruiu tudo o que tinha a ver com a guerra ou com a memória da guerra.” Dos poucos aerogramas que sobraram, Nuno lê um excerto:
“E por saber que tens ido à praia o pai fez hoje um desenho para colorires. Trata-se de um marinheiro, que está a passear numa praia e tem uma gaivota com um peixe na boca em cima do chapéu. Quando a mamã escrever diz-lhe para ela contar como o Nuno passa os dias, como costuma brincar. E também se desenhas e pintas bonecos.”
E a conversa com as autoras termina assim: “Eu tinha sempre de participar, sempre, o que me faz pensar que também esse exercício, esse jogo contínuo, me levou a ser o que sou hoje, um desenhador.”

No epílogo da obra, as autoras reafirmam que o seu objetivo era de contribuir para um melhor conhecimento deste período. “A separação familiar revelou-se uma experiência avassaladora, com repercussões nos laços entre o casal e os pais com os filhos. Esta vivência torna-se consciente muito mais tarde na vida das crianças envolvidas, hoje adultos.” Consideram que este recuo a memórias da infância, a descoberta de novas fotografias, a reunião com irmãos para falar desses tempos resultou num visível alívio para quase todos. Há filhos que fizeram perguntas ao pai sobre a guerra, as respostas foram raras, por vezes evasivas. E nos relatos onde se usa a crueza de narrar o acontecido, como observam as autoras, mais parecem desabafos escritos para si próprios do que para os filhos, que não podiam compreender do que falava o pai. Falava-se por vezes da fuga das populações, das aldeias dispersas permeáveis à influência do inimigo, há militares que falavam das crianças órfãs então escrevem sobre elas, alguns pensando nos próprios filhos.

O epílogo termina de modo muito poético:
“No regresso, os pais voltaram outros. Como só a poesia, nas palavras de Fiama Hasse Pais Brandão, sabe exprimir:
Outras andorinhas voltam, não as que
partiram dos beirais, no outono.
Mudaram no deserto as suas imagens,
e as que volteiam hoje sobre esta água
no passado conheceram outro destino.
Que lugar trarão na memória dos olhos?”

Terna e estrénua foi a pesquisa, o resultado é este livro esplendente.

Ana Vargas e Joana Pontes
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Notas do editor:

Vd. post de 4 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P27987: Notas de leitura (1919): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (6) (Mário Beja Santos)

Último post da série de8 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28001: Notas de leitura (1920): A biografia de um combatente: O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História (1): I - À guisa de apresentação do ex-combatente e II - Foi assim que cheguei ao Cuor (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28001: Notas de leitura (1920): A biografia de um combatente: O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História (1): I - À guisa de apresentação do ex-combatente e II - Foi assim que cheguei ao Cuor (Mário Beja Santos)

CONGRESSO INTERNACIONAL
DAS GUERRAS AO PÓS-25 DE ABRIL
Os Militares em Territórios em Conflito
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
De 2 a 4 de abril de 2025


A biografia de um combatente:
O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História

Mário Beja Santos

I - À guisa de apresentação do ex-combatente

Permitam que me apresente. Toda a minha vida profissional andou à volta do serviço público, nela incluo dois períodos em que tive ligação ao Exército: de abril de 1967 a agosto de 1970, em que me preparei e vivi na então Guiné Portuguesa, comandando tropa africana, caçadores nativos e milícias; no intuito de concluir as minhas habilitações universitárias, fiz um contrato com o Ministério do Exército, voltei a Mafra, à Escola Prática de Infantaria, dei recrutas a soldados cadetes, muitos deles partiram como oficiais para os teatros de operações da Guiné, Angola e Moçambique, colocado em Lisboa, tive condições de fazer o bacharelato e a licenciatura.

A minha vida profissional parecia destinada ao ensino, fui mesmo colocado num liceu para dar História de Arte, acabei no Ministério de Economia e passei quase quatro décadas ligado à política dos consumidores, por essa via fui autor e apresentador de programas televisivos e radiofónicos, tive uma prolongada participação cívica e associativa e pude colaborar na política a favor dos consumidores tanto em Portugal como a nível europeu.


Um acaso, um reencontro com um antigo camarada da Guiné, que tinha criado um blog, hoje sem qualquer dúvida o mais influente blog constituído por antigos combatentes da Guiné (Luís Graça & Camaradas da Guiné) levou-me e ainda em plena vida ativa a começar a escrever sobre a minha experiência, depois a investigar tanto a História da Guiné Portuguesa como a História da Guiné-Bissau. Em 2008, publiquei os dois volumes do meu diário, nunca mais parei, no ano passado publiquei o tomo I de Guiné, Bilhete de Identidade, tudo somado são mais de dez livros, uma imensa vontade de continuar, já tenho projetos de entrar em domínios que carecem ser desbravados, caso do Boletim Oficial da Guiné e começar a inventariar os olhares estrangeiros, sobretudo a partir do último quartel do século XIX até meados do século XX (diga-se em abono da verdade que há já um bom levantamento dos olhares estrangeiros sobre a Guiné nos tempos de luta armada, no que toca à investigação portuguesa continua a faltar um trabalho em profundidade sobre o período da governação do General Arnaldo Schulz (1964-1968). Direi mesmo que continua para mim a ser um mistério a falta de estudos sobre alguns intervenientes da guerra colonial, recordo, a título meramente exemplificativo, que não há nenhuma investigação sobre o relacionamento diplomático entre Portugal e Cuba, nos tempos da guerra colonial, Cuba tinha embaixada em Portugal enquanto dava apoio técnico-militar à Guiné e a Angola; o mesmo poderei dizer da cooperação entre Portugal e Israel, este país foi nosso fornecedor de armas e durante anos foi discreto apoiante da política externa do Estado Novo.

Estando feita a minha apresentação, passo para a guerra que vivi, depois ainda tenho algumas coisas a dizer sobre os meus retornos à Guiné, então já República da Guiné-Bissau, e pretendo dar-vos conta dos trabalhos de investigação e livros publicados aproximadamente há duas décadas.


II - Foi assim que cheguei ao Cuor

Cheguei à Guiné em 29 de julho de 1968, aqui vivi até aos inícios de agosto de 1970, fui colocado no início de agosto de 1968 no regulado do Cuor, no Centro-Leste do território, com responsabilidades em dois destacamentos: Finete, uma povoação com Mandingas e Balantas, vivendo a cerca de 4Km da margem direita do rio Geba, dispondo de uma fértil bolanha e bons terrenos agrícolas, encontrei um aquartelamento com escassa segurança e armamento diminuto, a força militar era o Pelotão de Milícias n.º 102, cerca de 40 homens, predominantemente Fulas e Mandingas; Missirá, a sensivelmente 16Km de Finete, com Mandingas e Fulas, residência do régulo, igualmente um aquartelamento com muitas vulnerabilidades, armamento inapropriado, com um largo histórico de flagelações, emboscadas e minas anticarro, a força militar era o Pelotão de Caçadores Nativos n.º 52, homens que tinham feito a sua instrução em Bolama em 1966, muitos deles provenientes de forças de milícias, e o Pelotão de Milícias n.º 101, a que se juntavam alguns elementos provenientes da Companhia de Comandos e Serviços do Batalhão de Artilharia 1904, em vésperas de partida, virá a ser substituído pelo Batalhão de Caçadores n.º 2852, chegará em setembro desse ano. Tenho que me deter sobre a minha chegada a locais onde viviam misturados militares e civis, rodeados de arame farpado, cultivando à volta a sua sobrevivência.

O embate foi terrível, a adaptação custosa, a iniciação para conhecer a envolvente foi-me facilitada por um furriel experiente, Zacarias Saiegh, que colaborará comigo alguns meses, irá pertencer à 1.ª Companhia de Comandos Africana, que se formou perto do meu território, em Fá. Logo me apercebi que havia obras inevitáveis a implementar, para as quais eu não tinha a mínima preparação, e também me fizeram sentir que faltavam os materiais necessários: rolos de arame farpado, estacas, tesouras corta-arame, isto no tocante à segurança básica da tropa ali instalada e da população civil; os abrigos estavam envelhecidos, o madeirame apodrecido e sem a devida cobertura de cimento; o balneário não possuía os requisitos para uma boa higiene, não havia sanitários, só umas valas para defecar e urinar; a chamada messe era um casinhoto em tijolo com uma simples cobertura de chapa ondulada, uma mesa e uns bancos mal amanhados, tendo ao lado uma cozinha, tudo num completo desconforto; conversando com os meus colaboradores, apurei que a criançada não dispunha de uma escola, ia-se ao médico ou à enfermaria de Bambadinca só em situações de força maior e não havia tradição da visita de médico, Missirá e Finete dispunham de um cabo maqueiro em cada uma das localidades.

Em Bambadinca, na véspera de eu partir para Missirá, portanto em 3 de agosto, o oficial de operações do batalhão deu-me nota dos aspetos primordiais da minha missão: acima de tudo, e com a regularidade necessária, devia montar segurança num local chamado Mato de Cão, a sensivelmente 12,5Km de Missirá, para garantir a navegabilidade no rio Geba, já que tinha deixado de ter uso o itinerário por terra Jugudul – Porto Gole – Enxalé – Cancumba/Missirá – Gambiel – Bafatá (também no norte não havia circulação por terra entre Mansabá e Bafatá); se não fosse mantida a circulação pelo rio Geba toda a região do Leste ficaria gravemente afetada. Eu ainda não tinha conhecimento do planeamento de uma instalação portuária na localidade de Xime, que passou a ser operacional a partir de outubro de 1969, e que veio permitir a todas as unidades de Leste circularem entre Bafatá e Xime em termos de abastecimento de víveres, equipamentos e armamentos, materiais de construção civil, transporte de militares e civis, etc.

Este era o trabalho irrecusável, não obstante eu devia não só patrulhar regularmente todo o território à minha guarda e procurar manter os guerrilheiros em respeito; em nenhuma circunstância me foi sugerido que demarcasse a área ocupada pelo destacamento militar da povoação civil. No entanto, virei a ser bastante criticado pelo então Brigadeiro Spínola que quando visitou Missirá, achou que eu já devia ter iniciado a área do destacamento militar da área civil (fiz orelhas moucas, considerei sempre inaceitável, ainda por cima vivendo com soldados africanos e suas famílias, e com acesso limitadíssimo a materiais de construção, entrar numa operação de demarcação onde não via qualquer tipo de utilidade, sabendo de antemão que não haveria compreensão nem de militares nem de civis, seria sempre entendida como uma operação de discriminação).


Sendo as idas a Mato de Cão o aspeto primordial da minha missão, procurei aperceber-me como viajar sempre a pé e acautelando emboscadas e minas antipessoal. Demorou meses a pôr em prática a seleção de sete itinerários diferentes, numa lógica de corta-mato, o que me compensou não termos tido baixas nem emboscadas, pedi mesmo aos elementos guineenses que divulgassem no mercado de Bambadinca (onde circulavam informadores do PAIGC) que as nossas idas a Mato de Cão tinham itinerários imprevisíveis, quer a partir de Missirá quer a partir de Finete.

Logo no dia seguinte à minha chegada comecei a fazer o reconhecimento do terreno, dois meses depois conhecia o essencial do regulado do Cuor à exceção dos acampamentos do PAIGC sitos em dois pontos no termo no regulado, Madina e Belel, destes dois pontos só lá fui em operações com o reforço de duas companhias, uma vez um desastre completo, outra vez com o resultado da destruição do acampamento de Belel.

Referi acima que houve choque no confronto de um terreno para o qual eu não possuía nenhuma informação, uma boa parte do meu efetivo militar ou só falava crioulo ou um português mascavado, cheguei mesmo a ter necessidade de me socorrer de um intérprete em todas as situações em que era crucial perceber o que pretendia o chefe da tabanca, cabos ou soldados que me vinham fazer pedidos da mais diferente índole, mas acima de tudo adiantamentos da soldada. Conversando com os meus colaboradores diretos, concluí que se devia fazer um documento expondo a situação da segurança militar, a necessidade de ter apoios em engenharia para melhorar ou mesmo criar de raiz abrigos para proteger militares e civis.

Foi nesse contexto que o cabo quarteleiro de Missirá me chamou a atenção que o material que tinha a carga havia faltas clamorosas, tinham desaparecido camas de ferro, colchões de espuma, capacetes, e muito mais, impunha-se fazer um auto de abate e entregá-lo na sede do batalhão. Quando quis tratar do assunto com o então comandante da companhia, ele informou-me que contava comigo para incorporar nas minhas faltas as dele, entretanto iria obsequiar-me com material em excesso, bom jeito nos deu meter nas canoas com que atravessávamos o Geba cadeiras, pratos, talheres e copos. Estava a descobrir o desenrascanço.


O PAIGC brindou-me com uma flagelação em 6 de setembro, perto da meia-noite. Houve resposta rápida, enérgica, incendiaram-se duas moranças e um soldado milícia acidentou-se com um tiro no pé. Entre Finete e Missirá, Madina e Belel, é uma terra de ninguém; uma terra de ninguém, em cenário de guerrilha e contraguerrilha, significa que ninguém possui o domínio do território, e se houver um encontro é para abater o outro, o chamado inimigo; quando ainda hoje leio e vejo escrito que o PAIGC dominava uma parte importantíssima do território, eram as terras libertadas, a propaganda dizia umas vezes que se tratava de metade outras vezes de dois terços do território, posso perceber o peso da mentira, para a guerrilha era fácil chegar a estes dois quartéis, iluminados à noite, eu entretanto podia percorrer cerca de quatro quintos do regulado com 25-30 homens, quanto muito ouvia tiros longínquos, em poucos meses tive o entendimento que guerrilheiros e civis do PAIGC cambavam (atravessavam) o rio Geba em duas direções, para se abastecerem, possivelmente colher informações, aproveitavam sobretudo a noite para transferir gente de um acampamento para o outro, na margem esquerda do Geba, acima do Xime, o PAIGC estava fortemente implantado, tinha um domínio que direi quase total no curso principal do rio Corubal, até à região do Xitole.

Chegou o novo batalhão, senti-me à vontade para apresentar com mais tempo e critério as exigências de apoio médico, professor, de material de engenharia, de minas e armadilhas, um morteiro 81, uma viatura, um barco a motor que me salvaguardasse o abastecimento na época das chuvas, estava informado do alagamento seja da bolanha de Finete seja de um percurso de cerca de 6Km a partir de Canturé até à região de Sansão, já perto de Missirá, o percurso ficava praticamente intransitável. Fui pedinchando, ganhei uma manhã para levar os doentes à consulta médica, apareceu dinheiro para pagar a um professor, pedi dois, não podia ter só um professor em Missirá e não ter em Finete, lá apareceu dinheiro para o segundo professor; um de cada vez, os cozinheiros de Missirá foram estagiar na messe de Bambadinca, o resultado foi positivo, o rancho melhorou, mesmo sendo monótono: arroz, esparguete, carne enlatada, uma completa ausência de frutas e legumes, embora pudéssemos comer fruta enlatada, o resto podiam ser as compras locais, gazela, porco do mato, papaias, galinhas e ovos.

Muitas vezes aproveitava as boleias dos barcos que navegavam em direção a Bambadinca para ir fazer as minhas reivindicações ou abastecimentos. Em outubro, o novo oficial de operações adverte-me que me devo apresentar no dia tal às tantas horas pois irei participar numa operação. E nesse dia tal vou encontrar-me com outros oficiais, entramos numa sala de operações e vamos saber para onde vamos e o que se pretende. A intenção é chegarmos a uma base do PAIGC que terá dois pequenos acampamentos, Baio e Burontoni, a uma distância do Xime, eles também distantes de uma zona chave do PAIGC chamada Poidom, nessa altura as forças portuguesas já tinham abandonado um destacamento chamado Ponta do Inglês, ou seja, o regulado do Xime era mais outra terra de ninguém, mas aqui o dispositivo da guerrilha era incontestavelmente superior àquele com que eu me confrontava. Pouco há a dizer desta operação, andámos praticamente um dia inteiro às voltas dentro de matas, houve que fazer um alto noturno com todos os ruídos que a mata oferece, incluindo a surpresa seja da passagem de um porco do mato ou as ferroadas das formigas. Lembro-me perfeitamente que o regresso que fizemos do Xime para Bambadinca pensei seriamente que havia muita displicência na preparação destas operações, com resultados moralmente devastadores e desmobilizadores.


(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 4 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P27987: Notas de leitura (1919): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (6) (Mário Beja Santos)

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P27993: Historiografia da presença portuguesa em África (528): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1970 (86) (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 26 de Novembro de 2025:

Queridos amigos,
Quando os investigadores da história da Guiné apontarem o foco para estes últimos anos que precedem a independência, concretamente a governação Spínola, quando mergulharem neste mar de créditos, orçamentos extraordinários, fundos de investimento, diversos alívios de pagamentos obrigatórios, certamente que darão nota de que existiu uma economia fantasmática em que o produto interno era dado sobretudo pelos consumos das unidades militares e pelas débeis exportações. 1970 foi um ano que se apostou no ensino, até a Fundação Calouste Gulbenkian ajudou; o arroz manteve-se a grande preocupação do Governo, havia que ter mão firme. No Boletim Oficial são quase inexistentes os sinais da luta armada, mas é publicado o louvor a Mamadu Seidi, chefe da tabanca de Sinchã Madiu, e fruto do seu destemor e liderança face aos ataques do inimigo. o Governo de Lisboa passou a permitir aos Comandantes-Chefes que promovessem militares e milícias com provas dadas, era mais um sintoma de que estávamos na africanização da guerra.

Um abraço do
Mário



Província da Guiné Portuguesa
Boletim Oficial da Guiné, 1970 (86)


Mário Beja Santos

O que parece ganhar mais relevo neste ano de 1970 são os sucessivos orçamentos extraordinários e suplementares, fundos de investimento, créditos; há também muita enfâse na educação. Tendo em conta o que se publica no Boletim Oficial n.º 13, de 4 de março, os espelhos das contas de gerência e do exercício de 1969, avolumam-se os débitos. As escolas primárias passam a ter designações. No Boletim Oficial n.º 21, de 26 de maio, é criada uma escola primária na vila de Farim com a designação de Marechal Carmona; o Boletim Oficial n.º 22, de 4 de junho, dá-nos a saber que a Fundação Gulbenkian incluía no seu plano de realizações a construção de cinco escolas primárias: a de Bafatá teria o nome de Calouste Gulbenkian, a de Bissau Almeida Garrett, a de Nova Lamego Alexandre Herculano, a de Teixeira Pinto Luís de Camões e a de Cacheu Honório Pereira Barreto. No Boletim Oficial n.º 45 de 14 de novembro, a escola primária de Fulacunda passa a designar-se escola de Mouzinho de Albuquerque. É uma constante, a criação de postos escolares. São redobradas as preocupações com o ensino, veja-se a Portaria n.º 2280, de 9 de dezembro:
“Considerando que na Escola Comercial e Industrial de Bissau, funcionam, com pleno rendimento, os cursos de formação de serralheiro e de montador eletricista, é autorizado o funcionamento nessa Escola das secções preparatórias para o ingresso nos institutos industriais.”

O Boletim Oficial n.º 52, de 29 de dezembro, refere as escolas primárias de Rebelo da Silva, em Bissau e a escola primária James Pinto Bull em Buba.

Neste ano surgiu mais uma Associação Desportiva, no Boletim Oficial n.º 52, Suplemento de 30 de dezembro, vê publicados os estatutos do Ajuda Sport Sport Clube de Bissau.

Mas há outros acontecimentos dignos de registo. Logo no Boletim Oficial n.º 1, de 6 de janeiro, diferentes Portarias de reformulações administrativas: é desdobrada a área do Posto Administrativo da sede do concelho de Bissorã, sendo criado o Posto Administrativo de Bissum; são desanexados da área do Posto Administrativo Contuboel, concelho de Bafatá, várias regedorias que passaram a constituir o Posto Administrativo de Sama. No mesmo Boletim Oficial, pela Portaria 2192 cria-se o posto escolar de Ambancaná, na ilha das Galinhas, concelho de Bolama.

O Boletim Oficial n.º 7, de 17 de fevereiro, chama-nos a atenção para um problema crónico, o arroz. Pela Portaria 2205, durante o ano de 1970 é autorizada a isenção de direitos e outras imposições a cobrar nos despachos de importação de arroz, de qualquer origem, bem como das respetivas taras, até ao total de 15 mil toneladas, isentando-se também das taxas de direitos de cais.

A vila de Bafatá é elevada à categoria de cidade, é o que consta no quarto suplemento do Boletim Oficial n.º 10, de 13 de março, tem o seguinte preâmbulo: “A privilegiada situação geográfica do concelho de Bafatá e as suas especiais condições agrícolas, florestais e pecuárias concorrem para que o seu agregado populacional mais importante adquira foro de cidade. Instituído o municipalismo no concelho pela Portaria n.º 1104, de 15 de maio de 1952, dia-a-dia se tem intensificado a sua atividade mercantil e industrial, sendo hoje a vila de Bafatá o centro urbano de mais destacado desenvolvimento no interior da Província.”

As promoções das tropas de milícias foram alvo de nova legislação, é o que consta no Boletim Oficial n.º 18, Suplemento, de 6 de maio: determina que sejam graduados os Comandantes-Chefes, nos postos para que tenham revelado especial aptidão, os militares ou elementos das milícias designados para fazerem parte de unidades que venham a ser constituídas nas províncias ultramarinas onde existem operações militares ou de polícia. Era mais um degrau na africanização da guerra. Dá-se como razão a necessidade de valorizar os naturais há vários anos integrados em unidades militares ou de milícias; a escolha para o preenchimento dos diversos graus hierárquicos deverá recair nos combatentes mais provados e que tenham revelado melhores qualidades de chefia em operações.

E temos mais postos escolares. No Boletim Oficial n.º 19, de 12 de maio, pela Portaria 2226, criou-se um posto escolar em cada uma das seguintes localidades do concelho de Cacheu: Bajope, Batucar, Belequisse, Caió, Capunga, Carungue, Chulane e ilhéu de Caió. O Boletim Oficial n.º 26, de 30 de junho, traz um louvor a Mamadu Seidi, chefe de tabanca Sinchã Madiu, por ter revelado excecionais qualidades de inteligência, desembaraço, elevado espírito de iniciativa e entusiasmo, contribuindo de forma notável para a realização de trabalhos de autodefesa das populações.

“Durante todos os ataques à sua tabanca, o chefe Mamadu Seidi evidenciou sempre possuir coragem inabalável, decisão, sangue-frio e grande controlo de vontade, dotes estes que lhe permitiram obter assinaláveis êxitos contra o inimigo e lhe granjearam não só natural ascendente e prestígio entre os elementos da sua tabanca, como a amizade e consideração de todas as forças militares da área.”
O louvor é dado pelo Governador e Comandante-Chefe.

Os ministérios das Finanças e do Ultramar juntaram-se para trazer um alívio financeiro à Guiné, conforme consta no Boletim Oficial n.º 32, de 12 de agosto, é o Decreto-Lei n.º 327/70. Nele é referido que a atual situação económico-financeira da Província da Guiné não permite o cumprimento das obrigações decorrentes num empréstimo contraído, pelo que é autorizada a Província a suspender pelo período de cinco anos, a partir de 1969, inclusive, o pagamento das semestralidades do empréstimo, e é eventualmente autorizada a redução da taxa de juro.

E findamos a leitura do Boletim Oficial de 1970 com uma nova referência ao arroz, consta do Boletim Oficial nº 43, de 29 de outubro, é um despacho do Governador onde se faz referência à melhoria das condições de vida, e dentro deste âmbito uma das preocupações do Governo é a redução dos preços dos géneros de primeira necessidade, sobretudo daqueles que constituem a base da alimentação do guinéu. Como é evidente, o foco é o arroz, o principal género de alimentação, e o Governo determina que a partir de 1 de novembro próximo passem a vigorar na comercialização interna do arroz descascado mecanicamente, originário da Província, de segunda qualidade e do importado, preços que vão dos 4$60 a 5$00.

O leitor que se prepare para o ano que vem, logo no Boletim Oficial nº 1, temos a Portaria nº 630, do Ministério do Ultramar, abrindo um crédito destinado a reforçar verbas da tabela de despesa extraordinária do orçamento da Província da Guiné para o corrente ano económico.

Faleceu Salazar
Visita do Ministro do Ultramar
Famílias Saracolés
Spínola fala à multidão na inauguração de três escolas
Dança de mancebos Balantas
Tatuagens em mulher Manjaca
Feiticeiro Papel
Balobeiro, dirigente de cerimónias rituais

Estas imagens foram retidas do Boletim cultural da Guiné Portuguesa 1970

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 29 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27968: Historiografia da presença portuguesa em África (527): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1969 (85) (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 1 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P27976: Notas de leitura (1918): Carta de Bertrand-Bocandé sobre o islamismo no Casamansa, 1851 (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 22 de Fevereiro de 2026:

Queridos amigos,
À procura de documentação atinente a esta tentativa de encontrar relatos de olhares estrangeiros sobre a Guiné do século XIX e primeira metade do século XX, encontrei este extrato de carta que Bertrand-Bocandé, de que iremos ver um relevante trabalho que fez sobre a Senegâmbia portuguesa ter enviado a Ferdinand-Denis uma carta de que o Boletim da Sociedade de Geografia de França publica um extrato. Tem a ver com as arremetidas de gente oriunda do Futa-Djalon contra os Mandingas Soninqués ou bebedores, isto é gente teoricamente islamizada, mas que bebia bebidas experimentadas, seria esta a sua ligação ao Estado idólatra. o autor dá nota do assunto, a gente do Futa não se confinou ao Casamansa, desceu até às regiões de Cacheu e de Geba. Implicitamente Bocandé compara o grau de civilização destes povos islamizados, fala em pilhagem e velhacaria e alude ao sucesso de missões que começavam a espalhar-se na região. Importa não esquecer que quer o Casamansa quer o chão Felupe detinham uma maioria de povos da etnia Djola, animistas, que resistiram aos Fulas e que sempre procuraram conservar a sua identidade, daí a tensão permanente em que vivem com a República do Senegal.

Um abraço do
Mário


Carta de Bertrand-Bocandé sobre o islamismo no Casamansa, 1851

Mário Beja Santos

A folhear a documentação referente a olhares estrangeiros sobre a Guiné, encontrei no Boletim da Sociedade de Geografia de França, ano de 1851, julho/dezembro, o extrato de uma carta de Bertrand-Bocandé, residente francês em Carabane (Casamansa) ao Sr. Ferdinand-Denis, como data de 2 de fevereiro desse ano. Emmanuel Bertrand-Bocandé tem a ver com a história da Guiné; explorador, homem de negócios e administrador colonial francês, teve desempenho na influência francesa no Senegal, principalmente na ilha de Carabane. Deve-se-lhe um importante testemunho desta região em tempos coloniais. Na oportunidade aqui se falará do seu trabalho Notas sobre a Guiné Portuguesa ou Senegâmbia Meridional, publicado no Boletim da Sociedade de Geografia de França em 1849. A carta que iremos traduzir aqui informalmente encontra-se na edição francesa original no link https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k37657w/f427.item

Junto à minha carta um documento que se prende com a história atual da região de África onde resido; tem a ver com os processos do islamismo na África ocidental; peço-lhe que utilize estes elementos como melhor lhe convier.

Uma guerra religiosa ocorreu no Casamansa setentrional depois de 1840. Os seus promotores são gente do Futa-Djalon. Convocados pelos Mandingas islamizados, que se designam por Marabus ou Mouros, subjugaram os Mandingas idólatras ou Soninqués (nome que é dado a todos os que bebem bebidas fermentadas). Eles projetaram alargar as suas conquistas e converter o resto do continente até ao mar, desde a sua fronteira do Futa-Djalon. Eles mandaram já clamar tributos aos diferentes entrepostos europeus, a Geba, Farim, Selho.

Correm mil histórias absurdas sobre o seu número de guerreiros e a sua bravura; e foi assim que todos iam cedendo à sua invasão. Passada a primeira surpresa, os Soninqués tentaram resistir-lhes; menos de 50 homens na pequena povoação de Banhuns, em Jaroumi, travaram a sua marcha, devido a dois ataques diferentes, quando eles procuravam uma passagem em direção da Gâmbia; eles fracassaram também em duas tentativas de retomar na povoação Soninqué-Mandinga de Canjénou, entre o Casamansa e o rio Grande de S. Domingos ou Cacheu; os Fulas pastores, que são também Soninqués e que estavam reunidos com os Mandingas, provocaram-lhes perdas. Apesar de todas as ameaças e de novos projetos, os esforços de gente de Futa-Djalon não tiveram sucesso no Casamansa; aqui ou aí, todo o país Mandinga ficou sobre o seu domínio, com exceção de algumas povoações Soninqués, onde temos o nosso forte de Selho.

Antes da chegada de gente do Futa-Djalon, nenhuma povoação maometana estava fortificada ou murada por paliçadas, os Soninqués eram considerados como proprietários da terra, e fortificaram as suas povoações. Os habitantes Soninqués de um mesmo território não têm, regra geral mais do que um ou dois patronímicos que são conhecidos por todos: nas povoações muçulmanas cada individuo tem um nome de família próprio, de modo que é evidente que o país dos Soninqués é povoado pela agregação de famílias conduzidas por um chefe enquanto as povoações maometanas são gradualmente formadas pela reunião de indivíduos vindos cada um da sua região e atraídos pelo comércio ou a esperança de vender amuletos e qualquer tipo de artesanato.

Depois dos chefes muçulmanos terem dominado pelo número, procuraram dominar pela força. Creio que é esta a história do islamismo numa grande parte do interior de África, aqui é fácil de observar como as coisas se passam. O Futa-Djalon é há muito tempo inteiramente maometano; também já dominam no Casamansa, fortificaram as suas povoações e destroem as dos Soninqués. Nas margens dos rios de São Domingos ou Cacheu, ou do rio Geba, os maometanos são em grande número, mesmo quando estão sob a dependência dos Soninqués; todos os povos em contacto com os Mandingas adotaram aos poucos os usos e a língua destes, acabando por se confundir com eles. Assim essa etnia aumenta à custa de Felupes, Banhuns, Balantas e Biafadas que se tornam Mandingas Soninqués; os Mandingas maometanos procuram dominar em toda a parte onde se sentem bastante fortes.

Importa observar que é menos o espírito do proselitismo que expande a religião de Maomé que a cupidez. Os Futa Fulas são atraídos pelo espírito da pilhagem. Se o islamismo venceu a idolatria é menos porque emprega a força que pelo facto de se fazer avançar por uma civilização mais avançada.

As civilizações vindas do interior de África são menos desenvolvidas que as que os nossos missionários estabelecem na costa ocidental de África; só que a fé no cristianismo não consegue repelir o maometanismo para o interior de África. A nossa missão cristã em Dahar, perto de Gorée, nos maometanos jalofos, fez poucos progressos, tiveram mais sucesso em Joal e também nos povos idólatras. Têm uma capela onde os cânticos da igreja se cantam em língua serere, escrita em caracteres latinos; propõe-se formar missões na orla costeira; os povos, convertidos a uma religião que ensina a caridade onde estavam os submetidos ao cristianismo, acabam por reconhecer que os prosélitos maometanos se comportam como velhacos.

Há um facto simples que também pesa como dado civilizacional, os povos da costa não se alimentam só de arroz enquanto os do interior se alimentam de milho e dos alimentos do tarrafe, caso dos caranguejos, amêijoas e ostras.

Sobre este assunto encontramos na Inteligência Artificial o seguinte:
“No século XIX, os Fulas do Futa-Djalon, frequentemente referidos como Futa-Fulas, exerceram influência significativa na Casamansa, marcada por expansão militar e islâmica. Estes grupos, oriundos da região da atual Guiné-Conacri, realizaram incursões e ataques contra populações locais, como os Mandingas, num contexto de luta pelo poder após a desintegração do Império de Kaabu. 

 - Ataques e Conflitos: Em meados do século XIX, os Fulas do Futa-Djalon realizaram ataques contra os Mandingas na região, gerando conflitos intensos. Um exemplo citado é o episódio "turrubam" (o fim da sementeira), onde populações preferiram a morte a serem capturadas.

- Islamização: A presença dos Fulas do Futa-Djalon intensificou a islamização na região, consolidando o Islão como força política e religiosa.

- Influência Regional: Embora focados na luta pelo poder e expansão, a sua influência inseria-se no contexto de desestabilização da Casamansa durante o século XIX, que também envolvia a rivalidade colonial entre Portugal e França.

Esses povos, conhecidos pela sua organização militar, procuravam dominar as rotas comerciais e assenhorear-se das populações locais, intensificando a instabilidade e as transformações sociais na Casamansa.”


Encontrámos também um documento universitário que pode ser útil a quem queira aprofundar conhecimentos sobre esta matéria: https://repositorio.iscte-iul.pt/bitstream/10071/29871/1/master_mamadu_nanque.pdf

Carta da Guiné por Bertrand-Bocandé, 1849
Ninte Kamatchol e mais pequeno a escultura da Deusa Nimba
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Nota do editor

Último post da série de 27 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27959: Notas de leitura (1917): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (5) (Mário Beja Santos)