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sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27620: Notas de leitura (1883): Uma publicação guineense de consulta obrigatória: O Boletim da Associação Comercial, Industrial e Agrícola da Guiné (8) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 5 de Novembro de 2025:

Queridos amigos,
Creio que o Boletim desapareceu de morte natural em 1966, o falecimento do presidente da Direção, António Flamengo constituiu uma pesada perda, terá diminuído bastante o número de associados, as rubricas dos primeiros anos envolvendo legislação consultório, informação de contactos estabelecidos com as autoridades, os dossiês económicos, etc, vão minguando, o Boletim tenta socorrer-se de colaboradores externos como Teixeira da Mota, e nos últimos números apresenta-se um diagnóstico socioeconómico publicado em novembro de 1965 que, por um lado, se revela totalmente alheio aos acontecimentos inerentes à luta armada, e, por outro lado, não esconde críticas à natureza oligopolista do comércio de exportação entregue, esmagadoramente, a três empresas, que têm as suas sedes na Metrópole, onde se utilizam as respetivas matérias-primas exportadas da Guiné. Este boletim, estou seguro, interessará todos os investigadores que queiram conhecer o import-export destes anos cruciais da década de 1960.

Um abraço do
Mário



Uma publicação guineense de consulta obrigatória:
O Boletim da Associação Comercial, Industrial e Agrícola da Guiné – 8


Mário Beja Santos

Foi verdadeiramente traumático o desaparecimento de António José Osório Flamengo, alegam-se outras razões para a perda de periodicidade do Boletim. Quem assume a responsabilidade deste não esconde as extremas carências da vida associativa:
“De todos é conhecido de sobejo as dificuldades enormíssimas que na Província se foram acumulando desde o ano de 1963, resultante da situação anormalíssima que tivemos de enfrentar, guerra que teria forçosamente de mais fazer ruir as já debilitadas condições da nossa balança de pagamentos”.


Ainda se procura reagir, informa-se os associados que está definido o projeto da piscina, falta ainda uma máquina para fazer o furo para a captação de água. Publica-se a segunda parte do artigo de Teixeira da Mota intitulado “Um Príncipe de Bissau batizado em Lisboa no ano de 1994”.

Saltando para o número de janeiro a junho de 1966, retira-se do relatório da Direção: “Queremos referir no comércio uma concorrência desmedida, desleal e até antieconómica, que se tem vindo agravando e a que qualquer Direcção, que agora seja eleita, certamente terá junto dos jovens de procurar sanar e rápida e vigorosamente como se impõe, dadas as gravíssimas consequências que poderão advir para todo o comércio, e ainda para a economia da Província.”

Faz-se uma exposição dos assuntos superiormente tratados, destacam-se:
“– Contrabando que se faz com chapas de zinco ondulado, vendendo-se por preço a que o comércio estabelecido não pode concorrer;
- A quase nula afluência de autóctones a Bissau para ali venderem os seus produtos, devido à adopção de medidas de segurança que poderiam ser atenuadas;
- Solicitaram-se medidas idênticas às já estabelecidas para os transportes marítimos de Bissau para Bafatá, que fossem aplicadas a Farim, estabelecendo-se uma carreira de barcos do Estado;
- Denúncia do abuso do contrabando de sapatilhas, chinelas, laranjadas, receptores e transístores, colchas, tapetes, etc.”


Não se esconde que as receitas da Associação continuavam na sua curva descendente. Dá-se a notícia do oferecimento da Gulbenkian, na pessoa do Dr. Azeredo Perdigão, para uma exposição com alguns valiosíssimos quadros de artistas contemporâneos. Foi recebido um subsídio de trezentos contos para a construção da piscina. A Associação ofereceu uma Espada de Honra ao Governador Arnaldo Schulz pela sua promoção a General.

Um dado de considerável importância é a publicação do diagnóstico apresentado pela Comissão Técnica do Planeamento e Integração Económica da Província da Guiné, estudo datado de novembro de 1965.

O diagnóstico, escreve-se, respira fundadas esperanças no potencial agrícola da Província, se se metodizar a produção. São consideradas estimulantes as possibilidades reais das culturas do arroz, da mandioca, do caju, da palmeira do azeite e da bananeira; conclui-se que a cana sacarina é uma cultura pouco favorável. Apresenta-se um quadro desolador da pesca, admite-se que tudo pode mudar com a abertura de uma estância frigorífica em Bissau. Também o diagnóstico cita algumas potencialidades reais no campo das indústrias transformadoras e complementares da agricultura, potencialidades essas que teriam de obedecer a um critério de prioridades.

Também se reconhece que o desenvolvimento da Província está mal servido de crédito. O BNU usa uma taxa de desconto tal que torna o dinheiro local mais caro que o de Angola, Moçambique e Macau. Termina o diagnóstico concluindo que dadas as contingências da Província, tão anormais, terá de ser o Estado a incrementar as diversas atividades, por pouco se esperar da iniciativa privada, nada confiante; e de que será indispensável a montagem do serviço de financiamento, com uma Caixa de Crédito Agropecuário.

Relendo com mais cuidado o estudo, acho que vale a pena ainda referir que os autores consideram que o aspeto negativo da economia guineense tem a ver com a sua característica oligopolista, já que a comercialização da mancarra e do coconote é exercida pelas três grandes empresas locais, que não estimulam o progresso da Província, já que fazem incidir as suas atividades sobre a exportação daqueles produtos, que representam 92,7% da exportação.

O último número que se encontrou deste Boletim é o de julho a setembro de 1976. Ainda há o recurso nestes últimos números tão minguados ao aparecimento de alguns artigos de carácter pedagógico, e parece-me bem curioso o contributo de Alexandre d’Almeida que em dado passo das suas referências culturais fala na indústria dos panos, a panaria.

Segundo ele, proviria da República da Guiné, os panos do Rio Pongo, os chamados panos da costa, proferidos em Cabo Verde por longo tempo.
“E como o Arquipélago necessitou de braços do Continente africano para as suas necessidades de colonização e fomento, e porque o vestuário característico da maioria da gente importada era o clássico e tradicional pano, a indústria de tecelagem e tintura prosperaria, porquanto, ainda por largas décadas, subsistiria a diferenciação primitiva entre amos e servos, a começar pela indumentária.
Na nossa já longínqua meninice víamos uma velhinha, escrava-liberta dos nossos avós, proceder à tintura de panos chamados galãs com a diluição de pães cinchados de folhas trituradas de anileira, secas, em coada de potassa obtida de cinzas de caule de bananeira, campeche e capa-rosa, na qual mergulhava o pano cru, por dias sucessivos, com refegos adequados à estampagem desejada. E durante esta fase dizia-se que o pano estava ‘na tinta’. Igualmente, ainda nos lembramos de um velho tecelão, também descendente de gente importada e que estivera na Demerara (Guiana holandesa) a trabalhar numa leva de escravos, que de lá trouxe o mester, e que nos entretinha com tantas histórias da terra e o tratamento que ele e companheiros suportaram, até o milagroso resgate.
Ora, estas singelas referências não corroboram, em parte, em que a indústria proviera da Costa africana e nunca levada da Metrópole pelos colonizadores reinóis do Arquipélago? O tear, o mais rudimentar possível, é ainda uma cópia perfeita do que hoje é usado na Guiné, e ele laborava algodão branco e amarelo crescido nas ilhas, esfiado em dobadouras, igualmente rudimentares.”


Perguntou-se à Biblioteca Nacional de Portugal se havia outros números do Boletim. A resposta é de que nem um havia. Existe uma coleção na rede das bibliotecas de Lisboa, e o número de Boletins existentes coincide com o número daqueles que eu pude ler na Biblioteca da Sociedade de Geografia de Lisboa.

Bolanha de Pessubé
Pescadores Mancanhas
Sapateiros Mandingas
Mulher Fula

Estas quatro imagens foram retiradas de vários números do Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, 1965
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Notas do editor

Vd. poste anterior de 2 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27596: Notas de leitura (1880): Uma publicação guineense de consulta obrigatória: O Boletim da Associação Comercial, Industrial e Agrícola da Guiné (7) (Mário Beja Santos)

Último post da série de > 7 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27613: Notas de leitura (1882): "O capelão militar na guerra colonial", de Bártolo Paiva Pereira, capelão, major ref - Parte VI: "Apenas dois capelães foram expulsos do Exército"

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27616: Historiografia da presença portuguesa em África (511): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1955 (69) (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 26 de Junho de 2025:

Queridos amigos,
Visto à lupa o Boletim Oficial destes anos da permanência de Mello e Alvim, creio não exagerar que ele teve uma vida santa, publicou-se legislação em catadupa, havia que transferir as instituições do poder colonial para um novo molde, as províncias ultramarinas, chegando-se mesmo ao cúmulo de anunciar sanções a régulos, construía-se com habilidade um Ultramar de ficção legal. No entanto, impunham-se preceitos de proibição a animais, fossem mamíferos, aves ou répteis, a Guiné não foi esquecida com os macacos bijagó e fidalgo, a galinha azul, os abutres e o pavão gigante, entre outros; publicou-se o novo estatuto da província da Guiné, apagando toda e qualquer menção que cheirasse a colónia; Amílcar Cabral recebeu confirmação da Junta de Saúde do Ultramar que lhe arbitrou 60 dias licença para se tratar, inequivocamente nunca foi expulso nem coisa parecida. Mas o que me suscitou mais a atenção foi a ata de um Conselho de Governo que se realizou em 6 de outubro, D. Diogo de Mello e Alvim pôs à discussão o parecer de um Gabinete de Urbanização do Ultramar quanto à criação de taxas de urbanização, a discordância foi total e a declaração do governador, constante da ata do Conselho, que aqui se reproduz, merece reflexão. Na verdade, estávamos em 1955, convém não esquecer.

Um abraço do
Mário



Província da Guiné Portuguesa
Boletim Oficial da Guiné, 1955 (69)


Mário Beja Santos

Retive deste ano de prolífica legislação nacional e da Província um conjunto de situações que em certos casos podem vir a merecer a atenção dos historiadores. Logo a publicação no Boletim Oficial n.º 17, de 28 de abril, o Decreto n.º 40040, que se prende com os preceitos destinados a proteger nas províncias ultramarinas o solo, a flora e a fauna. Definidos os preceitos, chama-nos a atenção o anexo referente a animais cuja caça é proibida. No que toca a primatas, o macaco fidalgo; carnívoros, o gato almiscarado, e o leopardo ou onça; proibido caçar o elefante, a cabra grande, o oribi, a palanca vermelha; no domínio das aves, proibido caçar abutres, andorinhas, a galinha azul, o papagaio cinzento e o pavão gigante. Segue-se uma lista alfabética dos nomes vernáculos e correspondente nomenclatura científica, não me estendo aqui com mais explanações, é matéria que deve encantar zoólogos, biólogos, ambientalistas.

No Boletim Oficial n.º 30, de 28 de julho, temos um novo estatuto da Província da Guiné, compreende disposições gerais, a função legislativa do Governador, o funcionamento do Conselho de Estado e da Administração Local, etc. Para que não subsistissam dúvidas, exara-se que a residência do Governador tem guarda militar permanente e nela será todos os dias, a horas regulamentares, solenemente içada e arreada a Bandeira Nacional. A competência legislativa do Governador abrange todas as matérias que interessem exclusivamente à Província, haverá em muitos casos que ouvir o Conselho de Governo, e se houver discordância no voto entre o Governador e o Conselho cabe ao Ministro do Ultramar resolver o diferendo.

No Boletim Oficial n.º 40, de 6 de outubro, nova referência a Amílcar Lopes Cabral:
“Engenheiro Agrónomo, contratado dos Serviços Agrícolas e Florestais da Província da Guiné – confirmado o parecer da Junta de Saúde do Ultramar, que, em sua sessão de 24 do corrente, lhe arbitrou 60 dias de licença para se tratar”, o que veio confirmar que o engenheiro estava mesmo doente, tal como ele escreveu em correspondência particular, bem como a sua mulher, mas houve quem procurasse martirológio, um revolucionário não pode estar doente, tem que ser expulso…


Mas a peça de substância que me foi dada a encontrar é uma Acta do Conselho de Governo que se realizou em 6 de outubro, presidida por Mello e Alvim. A matéria em discussão era um parecer do Gabinete de Urbanização, destinado a ser aplicado nas províncias de Angola e Moçambique, o Governador entendia que o Conselho de Governo devia proceder a um debate que tivesse a ver com despesas de arruamentos, esgotos, passeios, etc. O chefe dos Serviços de Administração Civil punha em dúvida quanto a haver condições para um serviço de urbanização, era tudo uma questão de penúria económica; o chefe dos Serviços de Fazenda e Contabilidade era de parecer que na Guiné não deviam ser criadas as taxas de urbanização, podiam criar problemas graves ao município; um dos representantes dos interesses económicos, Fernando dos Santos Correia, pronunciou-se do seguinte modo:
“A cidade de Bissau só tem crescido, praticamente, de há quinze anos para cá. E em matéria residencial, cerca de metade das construções devem ser do próprio Estado. Do restante, uma boa parte se tem construído por meio de empréstimos das Caixas Económicas e do Banco Nacional Ultramarino. Há falta de habitações e não vejo agora entusiasmo algum em continuar a fazê-las. Isto porque estamos vivendo, novamente, num ambiente de regresso às difíceis condições económicas de antes da guerra. É elucidativo o facto de a Câmara Municipal trabalhar com baixíssimas taxas de aforamento de terrenos, e sem que apareçam pretendentes a preços melhores. Receio, pois, que a aplicação de taxas de urbanização venha, ainda mais, fazer reduzir o já reduzido interesse pelas construções da província.”


E sugeria que deviam ficar sujeitos a taxas de urbanização unicamente os terrenos situados em zonas valorizadas, só em Bissau.

Mello e Alvim agradeceu os pareceres, sentia-se com eles sintonizado:
“Não sendo a Província da Guiné por enquanto uma terra de fixação para os colonos – uma vez que praticamente toda a atividade agrícola está confinada ao indígena – não é natural que se possa dar um grande desenvolvimento nos seus centros populacionais nos próximos anos.
Com efeito, dadas as características especiais dos indígenas da Guiné, o alto custo da sua mão-de-obra e o seu baixo rendimento, não parece que essa fixação de colonos possa vir a fazer-se senão através da mecanização, para o que necessário se torna que o crédito agrícola lhes permita os necessários meios. Deste modo, todos quanto aqui vêm têm apenas a ambição de efetuar economias para as levar para a metrópole, sem qualquer ideia de as aplicar nesta terra e nomeadamente nos centros urbanos.

Por reconhecer este estado de coisas e não desejar honorar os munícipes com taxas elevadas, a fim de não entravar o desenvolvimento urbano, tem o Governo subsidiado com muitos milhares de contos a Câmara Municipal de Bissau e com mais modestas verbas outras corpos administrativos.
Assim, tem melhorados as condições de salubridade dos centros populacionais, oferecendo-se às suas populações o mínimo de conforto que não seria possível obter-se de outro modo.
Nestes termos, parece que se deve tornar ciente o Gabinete de Urbanização que o seu interessante parecer vai ser cuidadosamente estudado pelos municípios com vista a um futuro ainda distante, porquanto nestes anos mais próximos não se julga viável a aplicação de quaisquer taxas de urbanização aos centros populacionais da Província da Guiné.”


O parecer foi aprovado por aclamação.
1955, na sequência do ano anterior, conhece uma profusão legislativa impressionante, com destaque para as medidas do Governo central, havia que readaptar o universo colonial ao universo ultramarino.
Mello e Alvim chegara à Guiné em janeiro do ano anterior, ao ausentar-se agora para Lisboa nomeia como encarregado do Governo o vice-presidente do Conselho de Governo, Manuel Peixoto Nunes
Bissau, edifício da Capitania dos Portos
Coreografia de dança tradicional da Guiné-Bissau. Documentos Amílcar Cabral, Casa Comum/Fundação Mário Soares
Pescadores da Guiné-Bissau, Documentos Amílcar Cabral. Casa Comum/Fundação Mário Soares

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 31 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27588: Historiografia da presença portuguesa em África (510): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1954 (68) (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27596: Notas de leitura (1880): Uma publicação guineense de consulta obrigatória: O Boletim da Associação Comercial, Industrial e Agrícola da Guiné (7) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 4 de Novembro de 2025:

Queridos amigos,
Os reveses sucedem-se, diz o editor que há problemas graúdos na tipografia, e vem por aí um grande abalo, a morte do presidente da Direção, António Flamengo, homem de grande prestígio, o seu desaparecimento marca o Boletim mais do que a compreensível consternação. Vimos anteriormente que as colaborações se vão reduzindo, há apelos sucessivos para o pagamento das quotizações. Em 1965 será muito pior, o Boletim só terá uma edição, de janeiro a dezembro. Teixeira da Mota escrevera ao presidente, fazendo-lhe um relato dos seus trabalhos sobre os Rios da Guiné, estava assessorado por António Carreira e Rogado Quintino. É um documento redigido com extrema vivacidade de que aqui se publicam alguns parágrafos. O Boletim já não esconde que se encontra num estado de orfandade, à deriva.

Um abraço do
Mário



Uma publicação guineense de consulta obrigatória:
O Boletim da Associação Comercial, Industrial e Agrícola da Guiné – 7

Mário Beja Santos

A crise está instalada, o sonho da publicação regular do Boletim apagou-se. Em 1964 aparecerão dois números, um de janeiro a março e outro de abril a dezembro. A guerra instalada está a deixar marcas profundas. O desânimo ainda é contido, mas ainda se procura mostrar que existe um poder reivindicativo e há o anseio de participar nas decisões ou fazer reverter as medidas que condicionam a iniciativa privada. Escreve-se no primeiro dos números o seguinte:
“Luta a Associação por se impor nos sectores económicos, já que, por função constitui elemento consultivo do Governo da Província. Os seus 700 associados de todas as proveniências, à face dos acontecimentos, encaram o futuro sombrio, agravado por uma carência de recursos, entre os quais não é o menor importante a falta de unidade entre eles mesmos. O Governo apoia, as entidades oficiais prometem, os organismos oficiosos auguram. Mas no confronto com os territórios vizinhos e concorrentes, o panorama não se modifica e mais do que nunca há fé pouco lisonjeira para a Guiné.
Os recursos agrícolas sempre foram mal aproveitados; as indústrias de transformação, até há pouco existentes, são hoje exíguas; a regularização dos rios mais do que descuidada; a rede rodoviária abandonada; apenas dois técnicos agrícolas e ausência de crédito; o elevado custo dos transportes para as madeiras; o quase monopólio da mancarra; o descuido dos produtores de coconote cujo teor de acidez e impurezas o desvalorizam irremediavelmente.”


Há sempre avisos, consultórios, noticiário económico. Ficamos a saber que o Prefeito Apostólico da Guiné, D. João Ferreira fez uma Conferência na Associação com o título "Juventude, Educação e Liberdade".

A Associação, mesmo atendendo ao futuro sombrio, marca a sua cadência de exigências e o que a seguir se escreve é merecedor da atenção dos investigadores:
“Nos domínios da agricultura, continua a maior parte dos trabalhadores carecida dos favores da técnica. Trabalha-se na incerteza, um objetivo imediato da recuperação de terrenos para o cultivo de arroz, quando milhares de hectares de campo continuam incultos, por falta de apoio ao trabalhador.
Não se vê uma charrua, não se lobriga um trator. Os métodos agrícolas são primitivos, as pragas de séculos, a rentabilidade da terra de baixíssimo teor, o descoroçoamento uma constante, a desesperar.”


E prossegue o diagnóstico, começando pela mancarra o coconote e as madeiras: “São os principais produtos de exportação da Província da Guiné. Cerca de sete firmas locais exportam mancarra. Três deles são agentes dos fabricantes, na Metrópole. Aos restantes cabe a situação de enteados, investindo avultados capitais na compra para se sujeitarem ao tempo, ao aviltamento do preço de venda. A Metrópole, onde apenas três ou quatro grandes empresas o podem fazer, é o exclusivo importador.” E dá-se uma sugestão que é a de, à fixação de contingentes de exportação na Província, corresponda na Metrópole, por ofício da Comissão Reguladora de Oleaginosas, a pré-distribuição dos lotes de mancarra de todos os exportadores e, principalmente, daqueles que não representam interesses estranhos pelos únicos fabricantes nacionais: CUF, Sabões e Macedo & Coelho, como exclusiva forma de impedir que os nomeados continuem sujeitos aos jogos de empurra, e cheguem a termo da campanha sem terem assegurada a colocação do produto.

Veja-se o que se escreve sobre o coconote:
“A liberalização preconizada, deu os seus resultados em relação ao coconote. À maior exigência dos mercados estrangeiros e à concorrência de outros produtores, se deve, pelo menos, a valorização do coconote guineense. Reduziu-se o teor de impurezas; baixou a acidez, a produção escoa-se com regularidade.”


Tece-se uma dura crítica ao que se passa no setor dos transportes, isto quanto à indústria e comércio de madeiras, observando que a Sociedade Geral e a Companhia Colonial de Navegação afirmam não lhes interessar o transporte de madeiras da Guiné para a Metrópole, não se podendo também esquecer os preços proibitivos da rentabilidade dos fretes. A concorrência das empresas brasileiras que exploram as florestas da amazónia revelava-se esmagadora.

E o editorial ainda apontava com esperança para o futuro desde que se criassem serviços agrícolas tecnicamente eficazes, se fomentasse a produção do arroz, se eliminassem os direitos de exportação em madeiras, borracha, castanha de caju, frutas e leguminosas.

O número que vai até dezembro é bastante incolor, mas traz uma novidade, uma carta-artigo de Teixeira da Mota dirigida ao então presidente da Associação, António Flamengo, dá-lhe informações pessoais:
“Com a ajuda e colaboração de outras pessoas (entre elas António Carreira e Rogado Quintino) estou a preparar a publicação de uma série de volumes, em português e francês, onde serão editadas e comentadas antigas descrições portuguesas relativas aos Rios da Guiné, dos séculos XVI e XVII, parte delas completamente desconhecidas até agora, e que vêm trazer grandes novidades e surpresas.
Nessas velhas páginas revela-se o conhecimento verdadeiramente extraordinário que os portugueses então já tinham dos costumes e características dos numerosos grupos étnicos que vão dos Jalofos do rio Senegal aos Limbas dos montes da Serra Leoa. Para além da ação, também se revelam muitos revezes e fracassos, e muitos homens movidos apenas por propósitos e ambições ilegítimas.


Alguns casos, entre muitos. Um Diogo Carreiro, que por força das circunstâncias foi educado de pequeno em Marrocos, se tornou uma autoridade em questões islâmicas, foi Ministro do Xerife, conseguiu fugir para Portugal, meteu-se num barco com o qual venceu um navio de franceses na barra do Senegal (1565!), subiu este rio com o intento de chegar a Tombuctu e descobrir as fontes do ouro transportado pelas caravanas do deserto para Marrocos, e acabou por morrer às mãos de um Jalofo, ficando sepultado à beira do rio, passando depois o seu túmulo a ser venerado pelos nativos, que o consideravam um grande doutor das leis islâmicas. Um tal Ferreira, cristão-novo do Crato, alcunhado o ‘Ganagoga’ porque falava todas as línguas dos nativos, deslocando-se livremente por todos os matos (1580!), e que veio a casar-se com uma filha do Imperador dos Fulas de Galam, no alto Senegal. Um Roque Lopes de Castelbranco, natural de Santiago, que indo pelo rio de Buba numa embarcação, vendo dois elefantes a atravessar de uma margem para outra, cavalgou um deles e dentro de água o matou à punhalada. Um tal Henriques, ourives, que viveu entre os Bagas do Rio Nuno, em época em que estes se dedicavam a colecionar as caveiras dos brancos que abatiam, para utilizar como taças para a bebida. Dois portugueses, um branco e outro preto, náufragos de um galeão na Costa da Libéria, e que indo por terra se incorporaram no exército dos terríveis Sumbas, então assolando a Serra Leoa e aí praticando os mais violentos atos de canibalismo. Outros portugueses, servindo como arcabuzeiros e artilheiros nas lutas entre fações nativas na Serra Leoa ou ajudando o Rei dos Cassangas.”


E prossegue falando da missionação dos Jesuítas, a sua ação na Serra Leoa, e muitos mais outros casos, um nunca acabar. Cinco anos depois de ter escrito esta carta-artigo Teixeira da Mota regressava à sua muito querida Guiné, desta vez como chefe do Estado Maior do Comando da Defesa Marítima da Guiné, foi aí que o voltei a ver, em 1969, estadia curta, teve colisões frontais não só com a Marinha como com o Comando-Chefe, acabou a sua comissão em Angola.

Veremos no próximo número que a vida está cada vez mais difícil para editar este Boletim.


Brigadeiro Arnaldo Schulz, Governador da Guiné, 1964-1968
Publicidade nos tempos da licra
Mulher Nalu
Lavadeiras no rio Geba
Rapariga da etnia Pajadinca
Choro de Manjacos

Estas quatro imagens foram retiradas de alguns números do Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, 1964

(continua)

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Notas do editor

Vd. post de 26 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27574: Notas de leitura (1878): Uma publicação guineense de consulta obrigatória: O Boletim da Associação Comercial, Industrial e Agrícola da Guiné (6) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 29 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27583: Notas de leitura (1879): Um comandante do PAIGC, o homem dos mísseis Strela e de Guidaje, vem depor para a História (Mário Beja Santos)

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27588: Historiografia da presença portuguesa em África (510): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1954 (68) (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 25 de Junho de 2025:

Queridos amigos,
Sem margem para dúvidas, D. Diogo de Melo e Alvim, o novo governador, mais do que entrar com o pé direito tem a vida bastante facilitada por toda esta normalidade administrativa, há regulamentos para tudo, Amílcar Cabral é membro residente do Centro de Estudos da Guiné Portuguesa, o Farol do Ilhéu dos Pássaros passou a funcionar com luz vermelha, há nova definição de indígena e definem-se uns atributos da passagem de indígena a cidadão e ameaçam-se os chefes gentílicos de prisão de se cobrarem impostos a seu proveito ou saírem da área da sua circunscrição sem prévia licença da autoridade administrativa, medidas de uma ironia extrema; acresce que se definem estradas nacionais e locais e dá-se a respetiva relação. D. Diogo de Melo e Alvim vai percorrendo a província. Nada transpira, como é evidente no Boletim Oficial, do que acontece à volta, nas colónias francesas, será no ano seguinte que o administrador do BNU Castro Fernandes publicará um relatório sigiloso sobre a Guiné, documento constante do meu livro "Os Cronistas Desconhecidos do Canal de Geba", deixa claro que têm que ser tomadas medidas urgentes, e aponta os vetores do desenvolvimento. Resta saber se Castro Fernandes deu conta do seu relatório a Melo e Alvim.

Um abraço do
Mário



A Província da Guiné Portuguesa
Boletim Oficial da Guiné, 1954 (68)


Mário Beja Santos

O Governador Melo e Alvim chegou à Guiné em janeiro de 1954 e vai conhecer um ano de doce acalmia, não irão faltar reforços de verbas, nomeações e reconduções, ficamos a saber que o Farol do Ilhéu dos Pássaros passou a funcionar com luz vermelha, o Boletim Oficial publica o balancete do BNU, multiplicam-se os avisos e anúncios dos oficiais, há referências variadas aos serviços de aeronáutica civil, ao corpo de Polícia de Segurança Pública, ao serviço meteorológico, muitas menções a vendas em hasta pública, noticia-se o Concurso de Literatura Ultramarina.

Tenha-se em atenção o Boletim Oficial n.º 36, de 9 de setembro, republica-se o Decreto-Lei n.º 39666, que se prende com situações especiais do Acto Colonial e que se aplica à Guiné, Angola e Moçambique: “Consideram-se indígenas os indivíduos de raça negra ou seus descendentes que não possuem ainda a ilustração e os hábitos individuais e sociais pressupostos para a integral aplicação do direito público.” E, mais adiante: “É proibido aos chefes gentílicos sob pena de prisão ou de trabalhos públicos de 15 dias a 10 meses: cobrar impostos em seu proveito, aplicar multas, sair da área da sua circunscrição sem prévia licença da autoridade administrativa competente”; e aclara-se como se passa de indígena a cidadão: “Pode perder a condição de indígena e adquirir a cidadania os indivíduos que provem satisfazer os seguintes requisitos: falar correctamente a língua portuguesa, exercer profissão, arte ou ofício de que aufira rendimento necessário para o seu sustento e família.”

No Boletim Oficial n.º 20, de 20 de maio, através do diploma legislativo n.º 1:591, procede-se à classificação das vias de comunicações públicas rodoviárias na província. Iremos passar a ter estradas nacionais de 1.ª e 2.ª classe e estradas regionais. As estradas nacionais de 1.ª classe são as que estabelecem a ligação da capital da província com a fronteira e as que servem centros de turismo importantes, mas também as que ligam duas ou mais sedes de circunscrição com a capital da província. Fica-se a saber que a construção e grandes reparações de obras de arte definitivas serão sempre executadas por intermédio dos Serviços de Obras Públicas e Minas, salvo determinação em contrário do governador. O diploma traz o mapa de classificação das estradas nacionais, a EN 101, vai de Bissau a Varela, é servida por jangadas motorizadas nos rios Mansoa e Cacheu; a EN 102 liga com Buruntuma; e a EN 103 liga Enxudé a Catió.

No Boletim Oficial nº. 25, de 25 de junho, publica-se o regulamento da Caixa de Previdência dos Funcionários Públicos da Guiné, que substitui a Caixa de Aposentações e Pensões às famílias dos funcionários públicos da Guiné. Como é da praxe divide-se em capítulos, refere a denominação sede e fins, os deveres e direitos dos sócios, a tabela das pensões, a atribuição de pensões de sobrevivência, subsídio de luto, etc.

No Boletim Oficial n.º 25, de 24 de junho, mais uma surpresa envolvendo o nome de Amílcar Lopes Cabral. Tinha sido exonerada a Comissão Executiva do Centro de Estudos da Guiné Portuguesa, é nomeada nova comissão, o presidente passa a ser o Intendente Augusto de Jesus Santos Lima, os vogais são António Carreira, Carlos Lehmann de Almeida, Artur Augusto da Silva e Amílcar Lopes Cabral; o secretário que também exerce funções de conservador do museu é Joaquim Augusto Areal. E o governador da Guiné manda que seja nomeado como membro resistente do Centro de Estudos da Guiné Portuguesa o engenheiro agrónomo Amílcar Lopes Cabral, dos Serviços Agrícolas da Guiné. Vamos passar agora para o ano de 1955.


Boletim Oficial de 28 de abril de 1955, Amílcar Lopes Cabral regressa a Lisboa conforme opinião da junta de saúde da província, assim se põe termo à lenda de que fora expulso
Criança branca e criança mandinga. Foto: INEP/Casa Comum
Alberto Barbosa e filhos. Foto: INEP/Casa Comum
Carta Étnica da Guiné Portuguesa, por Mendes Correia, em Raças do Império. Portucalense Editora, Porto, 1943

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 24 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27571: Historiografia da presença portuguesa em África (509): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1953 (67) (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27574: Notas de leitura (1878): Uma publicação guineense de consulta obrigatória: O Boletim da Associação Comercial, Industrial e Agrícola da Guiné (6) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 30 de Outubro de 2025:

Queridos amigos,
Com a maior discrição, a verve reivindicativa que temos notado do Boletim quase que se apagou, conquanto o responsável do Boletim avise solenemente os associados que se estava num quadro de grandes mudanças. A participação guineense do Boletim reduziu-se drasticamente, vamos ter artigos do Comandante Teixeira da Mota de cariz histórico, publicam-se as intervenções do deputado James Pinto Bull, há noticiário económico, verbera-se uma Biblioteca associativa que está vazia, chama-se a atenção dos associados para o que a Associação tem a dar, desde um fundo de assistência, apoio médico, um curso para tenistas, sucedem-se os artigos históricos tendo inclusivamente um artigo sobre o Líbano e a sua história. Conforme já informei o leitor, temos Boletim até 1966, escrevi para a Biblioteca Nacional, ali nada existe. E é tudo.

Um abraço do
Mário



Uma publicação guineense de consulta obrigatória:
O Boletim da Associação Comercial, Industrial e Agrícola da Guiné – 6


Mário Beja Santos

O que posso dizer ao leitor sobre o ano de 1963 é que se alterou profundamente a natureza da escrita, é de admitir que a eclosão da guerra de guerrilhas tenha levado os associados à contenção, fruto das incertezas produzidas pelas alterações demográficas na região Sul, nas margens do Corubal, nas florestas do Morés. São convocados deputados e investigadores, chega-se mesmo a apresentar escritos de Brito Camacho e Paiva Couceiro. Logo no número de janeiro aparece um apontamento assinado pelo deputado da Guiné James Pinto Bull, sublinhando toda a conveniência em se incrementar a concessão de bolsas de estudo aos estudantes autóctones do nosso Ultramar, dizendo mesmo:
“A Guiné Portuguesa, com uma população de cerca de 530 mil habitantes, tem apenas treze indivíduos habilitados com um curso superior, o que corresponde a um formado por cada 41 mil habitantes, e onze indivíduos habilitados com um curso médio, isto é, um diplomado por cada 48 mil habitantes; encontram-se presentemente cursando escolas superiores e médias na Metrópole 36 bolseiros que terminaram os seus estudos na Província.”

É certo que se mantém o cuidado em apresentar os dados económicos sobre a exportação do amendoim, arroz, borracha, cera, coconote, couros, madeiras, óleo de palma. Está em curso na Associação um Fundo de Assistência para associados em estado de precariedade; há um clínico avençado na Associação que presta assistência médica.

Num outro número do Boletim reproduz-se a intervenção do deputado Pinto Bull na Assembleia Nacional, em 6 de fevereiro desse ano, lembra a quem está no hemiciclo que é preciso encarar mais objetivamente as aspirações da população quanto ao ensino geral, as bolsas de estudo em particular, a assistência sanitária fixa e móvel, a assistência social e os seus mais diversos aspetos; e de novo enfatiza que é muito baixo o número de guineenses com formação superior, estão praticamente ausentes de cargos diretivos no escalão médio-superior nas organizações. Fará uma desenvolvida exposição sobre o sistema educativo e apela ao crescimento das bolsas de estudo. Na sua esteira, temos uma extensa exposição do deputado José Fernando Nunes Barata sobre o estado atual do desenvolvimento da Guiné e as suas potencialidades. Outra questão marcante em diferentes números passa pela enumeração das vantagens da Unidade Económica Nacional, a política do Estado Novo demarcara até então os regimes pautais entre a Metrópole e as colónias, procurava-se a todo o transe sossegar os investidores e os proprietários e os agentes económicos em geral com alívios aduaneiros.

Chegou o momento de saudar o novo Comandante-chefe das Forças Armadas da Guiné, o ainda Coronel Tirocinado Fernando Louro de Sousa. Surge o primeiro artigo do Comandante Teixeira da Mota dedicado a Honório Pereira Barreto, este falecera em 26 de abril de 1851, portanto há 104 anos. A Associação criou uma escola de ténis. Sucedem-se os artigos sobre a história da Guiné. Faz-se um abate exaustivo das comemorações do 46.º aniversário da Associação. Reapareceu a secção “Atentos à Legislação”. Faz-se o obituário do escritor Aquilino Ribeiro. Segundo artigo de Teixeira da Mota desta vez sobre a morte de dois franciscanos martirizados em 1742. Publica-se a notícia sobre a criação da Liga dos Amigos da Guiné Portuguesa, na Metrópole. Há um número completo dedicado ao obituário de Presidente da Associação, António José Osório Flamengo. Seguramente a pensar-se na comunidade sírio-libanesa publica-se um artigo intitulado O Líbano na História.

Fica-se com a sensação de que a vida associativa deu uma reviravolta e o diretor do Boletim dedica um texto aos perigos do individualismo, texto esse que termina com uma séria advertência:
“A Guiné prestou-se idealmente aos propósitos e manejos do individualismo mais desaforado, e, tendo sido alfobre de ganhunças, houve para si apenas as migalhas do lauto festim.
Chegados ao termo de uma época particularmente favorável há reprodução de cifras em progressão geométrica, em que as preocupações eram nenhumas, as oportunidades timbravam pela constância e os problemas financeiros quase não se punham porque o crédito era fácil, temos que reconhecer a superioridade, a argúcia, a inteligência dos indivíduos para melhor manobrarem. Os factos deram-lhes razão.
Doravante, porém…
A recente e inopinada reviravolta no tradicional sistema ‘quem tem olho é rei’ e o consequente estendal de complicações e vicissitudes, supomos venha a transformar, apesar de inveterados, os hábitos anti fraternos, se é que já não destroçou a até agora solidíssima razão do cisma isolacionista – ‘chacun s’arrête’. E ninguém nos convence que do colapso ao ‘debacle’ do individualismo medeie ainda muito tempo.”


Queixa do diretor do Boletim, a Biblioteca devia estar permanentemente às moscas…
Falando por mim, tive um estremeção quando vi esta imagem, instantaneamente me ocorreu a minha vida numa enxovia, alimentação rudimentar, sempre sujeitos a faltas de toda a ordem, com a agravante de que na época das chuvas transportávamos à cabeça e às costas, cheguei mesmo a meter pacotes de esparguete nos bolsos das calças, o vinho era uma zurrapa, mas a água era Perrier ou Evian, questionei sempre, sem resposta, havendo aqui água de Carvalhelhos, do Luso, e muito mais, a que título bebíamos obrigatoriamente Perrier ou Evian.
Eram outros tempos, o tabaco dava estatuto, era prestigiante, nas décadas seguintes vieram em catadupa as doenças cancerosas, os AVC, e tudo o mais que se sabe.
Raparigas Bijagós
Mulher Nalú
Pesca à linha no rio de Sonaco

Estas três últimas imagens foram retiradas de diferentes números do Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, 1963

(continua)

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Notas do editor:

Vd. post de 19 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27548: Notas de leitura (1875): Uma publicação guineense de consulta obrigatória: O Boletim da Associação Comercial, Industrial e Agrícola da Guiné (5) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 22 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27562: Notas de leitura (1877): A Polícia Militar na Guiné (1959-1974) (Mário Beja Santos)

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27571: Historiografia da presença portuguesa em África (509): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1953 (67) (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 23 de Junho de 2025:

Queridos amigos,
Sempre a sombra do ímpeto criador Sarmento Rodrigues, é inaugurada em 1953 a ponte-cais de Bissau, é acontecimento marcante; há graves problemas com a quantidade e qualidade de arroz, apostara-se numa indústria modernizada de descasque, uma parte fundamental da produção passava-lhe à margem, o governador procura tomar medidas firmes; já há em funcionamento um liceu-colégio, pretende-se agora avançar para um incipiente ensino técnico e comercial, fica anexado ao dito liceu-colégio, tem funcionamento diurno e noturno; são tomadas medidas consideradas indispensáveis para tratar a lepra, aqui sempre designada como o Mal de Hansen; dado que o Boletim Oficial publica os diplomas do Governo central que têm a ver com a política ultramarina, ficamos a saber que se pôs termo ao degredo que toma a forma de pena de prisão maior. Quanto ao mais, é patente da leitura deste Boletim Oficial que se entrou na rotina administrativa, aumentaram-se os capitais do BNU, o governo de Lisboa faz com ele um contrato de 30 anos, há muitas menções ao reforço de verbas, nomeações e reconduções. Enfim, a colónia parece progredir, não há uma só menção de sublevações ou conflitos interétnicos.

Um abraço do
Mário



A Província da Guiné Portuguesa
Boletim Oficial da Guiné, 1953 (67)


Mário Beja Santos

Estamos no último ano da governação de Raimundo Serrão. Em 28 de maio foi inaugurada a ponte-cais de Bissau, por diploma legislativo n.º 1:571, publicado no Boletim Oficial n.º 24, de 11 de junho, define-se a área de jurisdição do porto pelo ilhéu dos Pássaros, canal do Impernal, margem direita do rio Geba e uma linha paralela a esta abrangendo os ilhéus do Rei e dos Pássaros. Faz-se referência à exploração do porto, tem à sua frente um conselho de administração, definem-se as taxas a cobrar pelos serviços de atracação e desatracação dos navios, as taxas a cobrar pelas mercadorias e bagagens, etc. No mesmo diploma consta um despacho do governador em que se refere o preço de venda ao público para o arroz em casca (arroz em casca originário da própria circunscrição e de outras circunscrições).

O problema do arroz inquieta a governação, como fica bem claro no Boletim Oficial n.º 3, de 19 de janeiro, diploma legislativo n.º 1:563, que regula a produção, armazenagem, detenção, circulação, industrialização, exportação e comercialização do arroz. Diz-se claramente:
“Verificou-se durante a campanha de arroz no ano findo que este cereal em casca não apareceu nas quantidades previstas para o abastecimento das indústrias locais de descasque, pouco tendo ultrapassado 50% das cotas legalmente estabelecidas para as referidas indústrias.
Por outro lado, é do conhecimento público que as quantidades comerciadas de arroz de descasque manual vêm aumentando consideravelmente de ano para ano, com o inconveniente de uma grande parte deste cereal assim descascado se escoar para fora da Província, com grave prejuízo do seu abastecimento interno e das suas exportações devidamente legalizadas.
Enquanto em todos os centros orizícolas mundiais estão procurando melhorar os seus produtos pela laboração industrial, não é aceitável que nesta Província se continue a permitir o desenvolvimento do descasque manual sobretudo no momento em que a indústria local se vai apetrechando para uma maior capacidade e melhoria dos produtos laborados.
Verifica-se ainda que a excessiva produção de arroz de descasque manual originou uma grande dificuldade no seu controle, dadas as especiais condições geográficas das Guiné Portuguesa, a tal ponto que se tornou notória a falta de arroz descascado para o abastecimento interno.”


É um diploma extenso, como diz o próprio título, refere da produção e armazenagem, da detenção e circulação, da exportação, sanções, etc. Na sequência do diploma, o governador determina que a saída de arroz em casca das localidades em que se encontra armazenado será sempre acompanhado de guia passada pela respetiva autoridade administrativa, entre outros preceitos.

Já se fez referência que Raimundo Serrão está focado no ensino. No Boletim Oficial n.º 19, de 7 de maio, refere-se a criação de uma escola comercial anexa ao colégio-liceu de Bissau, destina-se a ministrar, em regime noturno, um curso de aperfeiçoamento e em regime diurno o ciclo preparatório e o curso geral de comércio.

Ficamos igualmente a saber que há problemas financeiros no BNU – Banco Nacional Ultramarino, são aludidos no Boletim Oficial n.º 26, de 30 de junho. Escreve-se que estava completamente debelada a grave crise que ameaçou o banco, faz-se um histórico das dificuldades ocorridas em fevereiro de 1951 e como o Governo central procedeu à consolidação da instituição bancária; é feito um novo contrato, a vigorar por trinta anos, tal como Portugal fizera com o Banco de Angola, aumenta-se o seu capital, refere-se que o banco gozará das regalias que as emissões de notas lhe oferecem, obrigando-se a pagar uma renda às províncias ultramarinas.

No Boletim Oficial n.º 28, de 9 de julho, fica-se a saber que vai haver um prédio para a Associação Comercial, Industrial e Agrícola da Guiné, será edificado na Praça do Império, procede-se a uma troca de terrenos entre o Estado e a Associação, sem direito a mais indeminizações de parte a parte. Não deixa de ser curioso ver, como se publica no Boletim Oficial n.º 36, de 3 de setembro, a tabela dos valores fiscais dos produtos de exportação, fala-se concretamente de produtos oleaginosos (amendoim, coconote, copra, gergelim, óleo de palma, purgueira e rícino) e outros produtos (que vão desde arroz descascado e borracha até às madeiras).

Não menos importante é a publicação no Boletim Oficial n.º 39, de 24 de setembro, do Decreto n.º 39321, extingue-se a pena de degredo nas províncias ultramarinas, sendo substituída por penas de prisão maior, de igual duração menos um terço, as penas de degredo cominadas para crimes previstos na legislação vigente no Ultramar. “As penas de degredo já aplicadas no Ultramar, ainda não cumpridas, no todo ou em parte, executar-se-ão como penas de prisão maior.”

Temos finalmente publicado no Boletim Oficial n.º 45, de 5 de novembro, o Serviço de Combate ao Mal de Hansen:
“Considerando que o progresso das ciências médicas no campo da evolução, profilaxia e tratamento exige, para uma ação coordenadora na luta contra aquela doença, nos seus aspetos médicos e sociais especiais, do critério orientador de um organismo especializado, é criado o Serviço de Combate ao Mal de Hansen que funcionará sob a superintendência e orientação da Repartição Central dos Serviços de Saúde e imediata direção do médico leprólogo como chefe desses serviços.”
Vejamos alguns aspetos do regulamento: os doentes serão, conforme os casos, submetidos a um destes regimes: observação ou vigilância sanitária; vigilância e tratamento ambulatório; internamento em estabelecimento adequado; tratamento domiciliário. São considerados suspeitos: as pessoas com lesões abertas ou outras que apresentem a sintomatologia aparente do Mal de Hansen; os pais, filhos, cônjuges e irmãos dos doentes, desde que tenham habitado com este no período contagioso da doença, etc.

Escusado é dizer que está perfeitamente instalada uma rotina administrativa, como iremos ver com a nova governação de D. Diogo António José Leite Pereira Mello e Alvim, o novo governador é capitão de fragata e chegará em 7 de janeiro de 1954.

O governador Raimundo Serrão terminou a sua comissão como governador da Guiné
O novo governador, o Capitão de Fragata Diogo de Mello e Alvim chegará à Guiné em julho de 1954
Luís Pinto, mulher e filhos. Imagem retirada de INEP/Casa Comum
Criança branca e criança mandinga, INEP/Casa Comum
António Francisco da Graça com família, Teixeira Pinto. INEP/Casa Comum
Objeto cultural-religioso mandinga, Museu Nacional de Etnologia
Adorno de costas bijagó, Museu Nacional de Etnologia

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 17 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27541: Historiografia da presença portuguesa em África (508): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1952 (66) (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27562: Notas de leitura (1877): A Polícia Militar na Guiné (1959-1974) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 20 de Março de 2025

Queridos amigos,
Enquanto folheava esta publicação da Associação de Lanceiros veio-me à memória a história de um médico natural de Gaia, Joaquim Vidal Saraiva, desembarcado em Bissalanca, nem teve tempo de tomar os ares de Bissau, foi transferido para Guileje, experiência que, contava ele em Bambadinca, como médico do BCAÇ 2852, lhe deixou profundas marcas, nunca lhe passara pela cabeça aquela permanência de flagelações, com o perigo sempre à espreita. O Vidal teve que ir a Bissau, conversava amenamente depois de um jantar com outro médico à porta de um restaurante, chegou a Polícia Militar e, sem mais nem menos, espetou-o toda a noite no calabouço, ficou-lhe uma raiva de todo o tamanho. Não sei se o leitor recorda a conversa que tive com o antigo secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, também ele esteve na PM em Bissau. Em entrevista à revista Visão fez declarações que considerei totalmente despropositadas, escrevi-lhe um mail para o grupo parlamentar, teve a delicadeza de me convidar para uma conversa na sede do seu partido, tenho muita admiração pela sua dignidade, mas não lhe perdoo ter dito que aterrara em Bambadinca completamente destruída, isto quando Bambadinca sofreu ligeiros arranhões na primeira das duas flagelações que teve, uns fios elétricos que foram a baixo. Creio que o nosso confrade José Martins, se acaso não conhece esta publicação da Associação de Lanceiros, vai ficar contente. E mais não digo.

Um abraço do
Mário



A Polícia Militar na Guiné (1959-1974)

Mário Beja Santos

Com data de setembro de 2024, a Associação de Lanceiros publicou a presença da Polícia Militar (PM) na Guiné. Foi graças ao empréstimo que fez o Dr. João Horta, da Biblioteca da Liga dos Combatentes, que tive conhecimento desta publicação. Logo se explicita a ligação entre o Regimento de Lanceiros 2 e a Polícia Militar: era a unidade formadora e mobilizadora da quase totalidade das subunidades da Polícia Militar que atuaram no Ultramar, envolvendo um total de 68 companhias e 53 pelotões independentes, correspondendo ao efetivo aproximado de 8500 homens, cuja atividade era de policiamento, patrulhamentos e rusgas, captura de desertores e criminosos, policiamento em portos e aeroportos, quartéis generais e outros pontos sensíveis, incluindo escoltas a comboios de reabastecimento às zonas de intervenção.

Há a presença de um pelotão expedicionário de PM na Guiné logo em setembro de 1959, isto devido aos acontecimentos do 3 de agosto, as autoridades decidiram que a tropa mais adequada para reforço da Guiné era a PM, mobilizou-se um pelotão. A missão foi dada ao Regimento de Cavalaria 6 e não ao Regimento de Lanceiros 2, o comando foi assumido pelo alferes Ruy Anselmo de Oliveira Soares, embarque por via aérea, as viaturas, armamento e restante material seguiram no Alfredo da Silva. Esta unidade da PM ficou aquartelada no forte de Amura. A missão que lhe foi atribuída tinha a ver fundamentalmente com o patrulhamento motorizado e apeado da zona urbana e suburbana de Bissau. Regressa em outubro de 1961, em sua substituição chegará à Guiné um pelotão designado por PPM 1. A publicação lista as unidades e subunidades, quem as comandava, embarque e regresso, o seu teatro de operações foi sempre Bissau.

Publicação profusamente ilustrada, explicando detalhadamente a história dessas unidades, serviços e atividades e ações diversas. Faz-se igualmente a listagem de efetivos obtidas a partir das Ordens de Serviço que estão em arquivo no Regimento de Lanceiros 2, diz-se na publicação que pode haver algumas imprecisões e incorreções. Deixam-se os contactos da publicação para eventuais interessados.

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Nota do editor

Úlltimo post da série de 21 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27557: Notas de leitura (1876): "Os Có Boys (Nos Trilhos da Memória)", de Luís da Cruz Ferreira, ex-1º cabo aux enf, 2ª C/BART 6521/72 (Có, 1972/74) - Parte VII: A chega a Có, com a praxe do costume