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terça-feira, 23 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28126 : III Viagem a Timor-Leste: 2019 (Rui Chamusco /ASTIL) - Parte IX : semana de 1 a 7 de abril de 2019: há mais de 40 mil timorenses a pedir a nacionmalidade portuguesa


Timor-Leste > Liquiçá > Mantti > Boebau > Escola de Sáo Francisco de Assis (ESFA) > Crianças com t-shirts com o símbolo de Portugal. Foto da página do Facebook do Gaspar Sobral.


Portugal tunha um império, que ia do Minho a Timor.... Os donos do Império nunca vieram a Timor Lorosae que, em tétum, quer dizer "país do sol nascente"... Era muito longe e a viagem incómoda... Mas há quem goste de  viajar para Timor-Leste, agora país lusófono, da CPLP, onde o português é a segunda língua oficial e há mais 40 mil timorenses a tentar obter a nacionalidade portuguesa. A burocracia é muita, e pode levar anos a obter-se o tão almejado certificado, que abre portas para a Europa. Timor-Leste, com 14 870 km2, tem hoje uma população de 1,4 milhões de habitantes. 
 

De acordo com o Censo de População de 2022, a taxa de literacia e domínio da língua portuguesa atingiu os 40%, uma recuperação histórica impressionante em meio século, considerando que em 2002 (ano da restauração da independência) apenas cerca de 5% da população falava o idioma devido à proibição imposta durante a ocupação indonésia. (Fonte:  Observatório da Língua Portuguesa).


1. Continuamos a publicar e excertos das crónicas da III Viagem (2019) (*), de Rui Chamusco a Timor-Leste.

O nosso amigo (e membro da Tabanca Grande), Rui Chamusco, professor de música reformado, a viver na Lourinhã, vai a Timor Leste todos os anos (exceto na pandemia), desde 2016. É o lider (e um os fundadores, com Gaspar Sobral e Glória Sobral) de uma associação de solidarieddae com Timor Leste (ASTIL), que já montou, equipou e pôs a funcionar uma escola nas montanahs de Liquiçá (Manatti / Boebau), a Escola de São Francisco de Assis (ESFA), e faz o "apadrinhamento" de crianças em idade escolar.

São 3 dias de viagem até Dili!... Fica lá 3 ou 4 meses... Ele já tem 80 anos e há dias fez uma operação delicada cirúrgica, de que está a recuperar bem... Temos publicado as suas crónicas anuais no nosso blogue. Tem  uma  história de vida inspiradora. É um exemplo vivo de como a solidariedade portuguesa com Timor-Leste continua a ser concreta, persistente e transformadora, mesmo décadas após a independência (em 2002). É também  um exemplo vivo de amor à lusofonia que merece ser conhecido pelos nossos leitores.

Lendo as suas crónicas (que ele reuniu numa brochura em pdf, com cerca de 3 centenas de páginas), aprende-se muito sobre a história, a cultura, a geografia, a sociodemografia, a idiossincrasia dos nossos amigos timorenses.

Já aqui publicámos excertos das crónicas da I viagem (2016), II (2018) e VI (e última) (2025). Depois meteu-se a pandemia, e o Rui só voltou a Timor Leste em 2023 (IV viagem), e anos seguintes: 2024 (V viagem) e 2025 (VI viagem).

Este ano talvez lá volte, mas apenas pelo Natal, se Deus Nosso Senhor e a Senhora da Saúde o permitirem.

 Apesar da pandemia (e da "burocracia"...), o projeto da Escola São Francisco de Assis (ESFA), inauguradas em 19/3/2018, vai continuar a avançar com a construção da "casa do professor" e a aquisição de uma viatura todo-o-terreno ("pick up"), indispensável para se chegar a Boebau, na montanha. Nestas crónicas de 2019, há referência a dificuldades e limitações que, felizmente, já foram superadas. 

Em Díli costuma ficar na casa do irmão mais novo do Gaspar Sobral, o "Eustáquio" (João de Araújo Moniz de Oliveira Sobral). De 1975 a 1978, andou fugido dos indonésios nas montanhas de Liquiçá, com a irmã mais nova e a mãe. Tinha então 14 anos.


Rui Chamusco, professor de música, reformado, é cofundador e líder da ASTIL - Associação dos Amigos Solidários com Timor Leste: é natural ds Malcata, Sabugal; vive na Lourinhã; é membro da Tabanca Grande, tem 70 referèncias no blogue; a direita, o Sobral Gaspar, o luso-timorense, retornado de Angola, casado com a Glória, que o meteu nesta aventura.


III Viagem a Timor-Leste :  2019 (Rui Chamusco, ASTIL)


Parte VIII: semana de 1 a 6 de abril: 40 mil timorenses à espera de obter a nacionalidade portuguesa


01.04.2019, segunda feira - Receitas...mais uma

Suprami com folhas e flor de papaia foi a proposta que a Aurora me fez para a merenda de hoje. Suprami é talvez a comida mais fácil de preparar, constituída á base de massa fina com tempêros, que os indonésios introduziram e exportam para Timor Leste. Sobretudo nos meio urbanos, é das comidas mais consumidas.

Claro que já saboreei este produto por diversas vezes, e até nem é mau para o paladar.
Mas quando me falaram em suprami com folha e flor de papaia anui logo. Porque, segundo a cultura timorense, a flor e a folha de papaia são o melhor remédio para
prevenir e combater a malária. De sabor muito amargo, mas atenuado pelos temperos
da suprami, um remédio natural ao nosso alcance, capaz de nos curar das nossas
maleitas. Mais uma receita cuja essência é a folha e a flor da papaia.

Perguntarão: “Então e o fruto, a papaia, que é tão apreciado em todo o mundo? Claro que o fruto tem também as suas propriedades nutritivas e curativas. Diz-se que as suas sementes são benéficas para a função intestinal.

Mas, para completar esta informação, informo que há árvores de papaia (papaeiras?) que só dão flor, enquanto outras dão flor e fruto. A receita que aqui descrevo diz respeito às primeiras.

Como a natureza é rica em recursos e ensinamentos!...

01.04.2019 - Lição de partilha

Quando estamos atentos ao que se passa ao nosso redor, há sempre algo de novo, que nos faz refletir, que nos interpela.

Estando hoje à tarde no átrio da casa “Moniz”, que é a nossa morada, em horas de merenda ou de jantar para os galináceos já habituados a esta praxe de alguém atirar punhados de arroz para se banquetearem, vejo umas sete ou oito galinhas correndo apressadamente para o local. Perguntei à Aurora: “São todas vossas? - “Não!” - respondeu ela. “ Então como sabeis quais são as vossas?” - perguntei de novo. “Pelas cores.” - retorquiu ela.

Pois é! Aqui em Timor, desde que esteja a mesa posta, todo o que chega tem lugar. O repasto é repartido por todos. Uma partilha que, a nós ocidentais, em muitos casos para nós é estranha, habituados que estamos ao provérbio “ Quem parte e reparte, e não fica com a melhor parte, ou é burro ou não tem arte.”

Ainda há dias aqui chegou um vizinho, o Carlitos, para avisar o Eustáquio de que uma sua galinha fez ninho e estava a chocar os ovos no terreno da casa do Ti Beto. Sem qualquer problema de que a galinha do outro invada o seu terreno para fazer a criação.

Um grande respeito pela natureza que tanto nos dá; uma atitude de tolerância louvável; um sentimento de partilha incrível. Valores perdidos na maioria das sociedades e culturas ocidentais. Por aqui, casas amuralhadas ainda há poucas por enquanto. As pequenas separações são facilmente ultrapassáveis. As casas ou propriedades com sistema de alarme e câmaras de vigilância não abundam. Só algumas pessoas importantes ou serviços de estado se protegem com esses aretefatos.

Defender o quê, se a maioria das pessoas pouco ou nada têm? Mesmo assim, são estasn pessoas que tudo partilham, até “o pão (arroz) para a boca que todos os dias as sustenta. Como disse esta semana o Papa Francisco, depois da visita a Marrocos:“ aqueles que constroem os muros acabarão presos pelos muros que construíram. Mas aqueles que constroem pontes vão muito avante. A ponte é feita por Deus com as asas dos anjos para que os homens se comuniquem... para que os homens possam se
comunicar.”

01.04.2019 - Vale o que vale ... e mais nada!

Hoje de manhã eu e o Amali fomos ao Serviço de Fronteiras e Estrangeiros no intuito de confirmar a minha situação de estadia em Timor Leste. Que confusão de ideias nas cabeças daquela gente! 

Sendo eu portador de uma declaração da Embaixada de Timor Leste em Portugal, em que consta que para os efeitos julgados convenientes eu viajo até Timor Leste só com o bilhete de ida por tempo indeterminado para o cumprimento da conclusão do projeto de construção da escola para o pré-escolar e o ensino básico, no suco de Leotalá, município de Liquiçá, esta declaração parece que de pouco ou nada vale se não apresentar outros documentos por eles indicados: contrato de trabalho, protocolo de colaboração entre os governos de Timor Leste e de Portugal, prova do programa de cooperação dos professores portugueses com o ministério da educação, etc,etc... 

Todos sabem muito e ninguém sabe nada. Ou seja, saímos daquele edifício revoltados, sem resolução à vista. Cenários possíveis: regressar a Portugal nos fins deste mês de Abril, arranjar um dos documentos por eles(as) indicados, deixar-me estar como estou...

No regresso a casa ninguém queria acreditar. Até o Gaspar que sabe lidar com estes assuntos,  ficou furioso, e até se dispôs a prescindir de algumas aulas para, na próxim quarta feira, ir tratar do assunto.

Felizmente que, à noite, recebi um telefonema do amigo Ascenso, que domina estes assuntos como ninguém, a tranquilizar-me dizendo: 

“ Tu não precisas de ir a nemhum lado. A declaração da embaixada de Timor em Lisboa é mais que suficiente para justificar a tua estadia neste país. Os embaixadores são as pessoas mais importante dum país logo a seguir ao presidente da república.” 

E disse-me mais coisas que aqui não digo. Obrigado,  meu grande amigo, porque tudo o que me disseste me tranquilizou, aconteça o que acontecer.

Neste episódio, lamento que Timor Leste sendo um país que adoptou a língua portuguesa como segunga língua oficial, não tenha funcionários capazes de compreender e de falar o português em serviços tão importantes como este em causa.

Se não fora o Amali a tentar traduzir a confusão,  seria ainda maior.

Vale o que vale... Mais nada!

03.04.2019, quarta feira  - Galinha dos ovos de ouro


Já falei desta ave que, sem nenhum problema de consciência, invadiu o quintal (sem muros) do vizinho para lá fazer os seu ninho e ir pondo os seus ovos. 

Hoje, estando eu a trabalhar no computador, vejo à minha frente uma galinha com dez ou mais pintainhos saídos há pouco tempo da casca, a seguir os ensinamentos da mãe, depenicando as esgravatadelas que ela ia fazendo. Fui informar os donos da casa, a Aurora e o Eustáquio, que vieram confirmar a visita ao domicílio deste bando de galináceos. Em menos de um minuto sumiram-se de novo, e por lá andam à procura do seu sustento. Mas vão regressar, e toda agente sabe a quem pertencem.

Atónito perguntei ao Eustáquio: 

- Então vocês não apanham os ovos para consumo da casa?

Ao que ele prontamente respondeu:

 - Não,  Tiu Rui. Os ovos que as galinhas põem é para nascerem pintainhos.

Entendi. Os ovos que aqui comemos não são destas galinhas. Preferem, talvez por
uma quetão cultural, comprar os ovos de aviário que consumir os ovos caseiros.

Diremos que estes são ovos de oiro, enquanto os outros são ovos banais.

03.04.2019, quarta feira  -” Nobreza... a quanto obrigas!”


Estou a falar de burocracia, de papéis, de documentos a legalizar. Desde há uns tempos que os processos de pedido de nacionalidade portuguesa para o Amali (Zinigio Sávio Maliata Sobral) e para o Eustáquio (João de Araújo Moniz de Oliveira Sobral) nos vêm ocupando algum tempo. 

Em Timor e em Portugal as “démarches à faire” são aos montes. As exigências na Conservatória dos Registos Nacionais de Lisboa são cada vez maiores devido à deteção de documentos incompletos e até de documentos falsificados. 

O número de pedidos de cidadãos timorenses ultrapassa os 40.000, tornando cada vez mais difícil o deferimento dos processos, até pela falta de recursos humanos para tratar dos mesmos. Em Timor, como noutros países da CPLP, as certidões de nascimento são passadas pelos cartórios paroquiais, autenticadas pelo pároco, pela chancelaria eclesiástica e pelo
notário. 

Com a recente guerra de invasão e destruição que os indonésios infligiram a esta nação,  muitos documentos e livros de assentos foram destruidos e danificados.

Compreende-se a dificuldade que muitos cartórios têm em passar estes documentos,
sem lacunas. Alguns livros de assentos tiveram de ser refeitos, e nem sempre bem (troca de nomes, de datas, etc...) Os cartórios paroquiais que eu conheço estão sempre repletos de gente a solicitar os seus serviços.

A outra parte da questão prende-se com a Embaixada de Portugal em Timor Leste (Díli). Todos os documentos têm de ser legalizados na secção consular desta embaixada, como é óbvio, que depois são enviados em mala diplomática para os Registos Centrais de Lisboa. 

Quando há documentos incompletos ou inválidos são reenviados em mala diplomática para Dili, a fim de serem retificados ou de se obterem novos documentos. Depois, a seu tempo, a embaixada reenviá-los-à para Lisboa. São processos que demoram anos e anos, alguns até sem resolução à vista.

Perante isto, o Amali decidiu ir para Portugal, para casa dos tios Gaspar e Glória Sobral, a fim de melhor poder acompanhar e desenvolvimento do seu processo e do pai. Com os documentos devidamente legalizados pela embaixada de Portugal,
entregou nos Registos Centrais de Lisboa o seu processo e o processo do pai, aos
quais foram atribuidos os números respetivos. 

Mas como as certidões de batismo tinham falhas foi-me pedido que logo que regressasse a Timor Leste, o que aconteceu no dia 2 de fevereiro, tentasse resolver este problema pedindo nova certidão e fotocópias dos Registos de Assentos (assento original + assento refeito de cada um, com a autenticação do pároco, da chancelaria eclesiástica e do notário. 

É o que temos andado a fazer, e que neste momento já temos em mão. Mas falta a legalização dos Serviços Consulares da Embaixada. Através do amigo e primo Rui Pedro, que é conhecido e amigo do marido da Drª.Joana Pinheiro, a consul da Embaixada de Portugal em Díli, consegui um atendimento personalizado que serviu para apresentação de cumprimentos e breve exposição e justificação da nossa presença neste país. 

Agradeço à Drª. Joana a simpatia e a atenção que me dedicou, mais a mais sabendo eu de antemão que tinha uma agenda sobrecarregada de trabalho.

Claro que a proveitei a ocasião para lhe pedir um favor: a legalização dos seis documentos que levava comigo referentes ao Amali e ao pai. A doutora depois de lhes dar uma vista de olhos disse que iam legalizá-los e convidou-me a ir ao balcão para esse efeito, ficando uma funcionária de passar o recibo que para tal é cobrado. 

Como não tinha dinheiro suficiente comigo (140$),  pedi licença para ir ao BNU, aqui do
outro lado do edifício, levantar dinheiro que chegasse, o que me foi facilitado. De volta à embaixada, sentado à espera de ser chamado no espaço dos serviços consulares, veio ter comigo a DrªJoana que me entregou os documentos em causa sem estarem legalizados, dizendo-me que tinham de ser os próprios a pedir a marcação para a legalização, ou então um solicitador devidamente credenciado. 

Aconselhou-me a fazer as marcações online (aliás é o único processo admitido), coisa que fiz logo que cheguei a casa.

Senti uma grande frustração, e é escusado dizer que nada motivado para continuar nestas andanças de papeladas. “Nobreza...a quanto obrigas!”

Muitas mais coisas me apetecia dizer, mas vou ficar por aqui, para bem da minha
cabecinha pensadora.

06.04.2019, sexta feira  - “Quem vê caras não vê corações.”

Esta nem ao diabo lembra.

Em 2018, aquando da nossa estadia, fomos comprar uma tábua de engomar numa das muitas lojas que existem em Dili. A pensar que tínhamos adquirido uma grande coisa, afinal não passa de uma grande *... 

A tábua que, por princípio, deve ser direita para que o ferro deslize com facilidade, ao longo do seu uso mais parece um monte de pedregulhos, tornando quase impossível passar a ferro qualquer peça de roupa.. A curiosidade de saber o que se passava levou-nos a desmontar a dita cuja, que nos deixou de boca aberta ao vermos as suas entranhas. O que devia ser uma tábu homogénea, são sete bocados de madeira, mal agrafados, encavalitados uns nos outros. 

Quem teria sido o artista? Fica-nos a dúvida do “made in”: China, Indonésia, Timor-Leste, outras... Fosse quem fosse, não é coisa que se faça.. Isto é enganar os clientes.

E uma vez mais se aplica o ditado “ Quem vê caras não vê coraçôes”. Cuidado com as falsificações! Cuidado com os lobos disfarçados em pele de cordeiro! Cuidado com
os sepulcros bem caiados!

A tábua de engomar está já restaurada pelo artista da casa, Amali, com uma qualidade
bem superior à que nos foi impingida.

Bolas! È uma questão de qualidade comercial...

06.04.2019 - Sinais de mudança

Falo do tempo metereológico, e não de mudanças políticas ou outras.

Como já referi nestas crónicas, aqui só há duas estações no ano: O verão e o inverno.. A passagem de uma para a outra é marcada por dois ou três dias de temporal, com fortes ventos que se fazem sentir na terra, no mar e no ar. Já o ano passado podemos testemunhar esta transição do inverno para o verão, enquanto estivemos em Boebau.

Este ano estamos em Ailok Laran, onde decorre o mesmo fenómeno. Não há calendário que defina os dias certos deste mudança. Mas, pela experiência dos mais velhos, todos sabem que o verão está a chegar. Com ele chegarão também o pó dos caminhos, o tempo de seca,, mais calor, uma variedade de frutos apetecidos.

Que venha o verão! Que venha por bem!...

 
(Revisão / fixação de texto, negritos, título: LG)

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terça-feira, 9 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28084: III Viagem a Timor-Leste: 2019 (Rui Chamusco /ASTIL) - Parte VIII: semana de 24 a 31 de março: do ensino da língua portuguesa ao barlaque


Timor-Leste > s/l > s/d > Familiares a negociarem o valor do "barlaque" | Foto: Josh Trindade. Fonte: Cortesia de Diligente, Dili, Timor-Leste (»*)

O pedido tradicional de casamemto é comum a muitos povos. Em Angola, chama-se "alambamento". Na Guiné-Bissau, não há um termo específico em crioulo, variando conforme os grupos etno-linguísticos. Mas em Bissau é conhecido como o "pidi noiva". (LG)


1. Continuação da publicação de excertos das crónicas da III Viagem (2019) (**), de Rui Chamusco a Timor-Leste.

1.1. O nosso amigo (e membro da Tabanca Grande), Rui Chamusco, professor de música reformado, a viver na Lourinhã, vai a Timor Leste todos os anos (exceto na pandemia), desde 2016. É o lider de uma associação de solidarieddae com Timor Leste (ASTIL), que já montou, equipou e pôs a funcionar uma escola nas montanahs de Liquiçá (Manatti / Boebau), a Escola de São Francisco de Assis (ESFA), e fez o "apadrinhamento" de crianças em idade escolar.

São 3 dias de viagem até Dili!... Fica lá 3 ou 4 meses... Ele já tem 80 anos e há dias fez uma operação delicada cirúrgica, de que está a recuperar bem... Temos publicado as suas crónicas anuais no nosso blogue.

Além da música, é o homem dos sete intrumentos (acordeão, viola, gaita de foles, violino, órgáo, etc.). Dá explicações de grego, latim e protiuguès. Faz a sua horta. E é especialista em micologia (a ciência dos cogumelos): sabe os cogumelos todos pelo seu nome científico... E atà data ainda náo comeu nenhum daqueles venenosos e mortais que deu direito a passaporte para a eternidade.

A sua história é inspiradora. É um exemplo vivo de como a solidariedade portuguesa com Timor-Leste continua a ser concreta, persistente e transformadora, mesmo décadas após a independência. 

Lendo as suas crónicas (que ele reuniu numa brochura em pdf, com cera de 3 centenas de páginas), aprende-se muito sobre a história, a cultura,  a geografia, a sociodemografia, a idiossincrasia dos nossos amigos timorenses.


1.2. Já aqui publicámos excertos das crónicas da I viagem (2016), II (2018) e VI (e última) (2025).

Depois meteu-se a pandemia, e o Rui só voltou a Timor Leste em 2023 (IV viagem), e anos seguintes: 2024 (V viagem) e 2025 (VI viagem).

Este ano talvez lá volte, mas apenas pelo Natal, se a saúde o permitir.

O Rui Chamusco, o "malae" (tuga), o "abô" (avô) Rui, é juntamente com a família luso-timorense Sobral (Gaspar e Glória, e também o "Eustáquio", irmão do Gaspar) um dos grandes pilares deste projeto de solidariedade com o povo timorense, que é a Escola São Francisco de Assis (ESFA).

É um exemplo vivo de amor à lusofonia e de solidariedade para com o povo de Timor-Leste, que merece ser conhecido pelos nossos leitores.

Apesar da pandemia (e da "burocracia"...), o projeto da Escola São Francisco de Assis (ESFA), inauguradas em 19/3/2018, vai continuar a avançar com a construção da "casa do professor" e a aquisição de uma viatura todo-o-terreno ("pick up"), indispensável para se chegar a Boebau, na montanha. Nestas crónicas de 2019, há referência a dificuldades e limitações que, felizmente, já foram superadas. Mas o encanto destas crónicas deve ser partilhado.
  

Rui Chamusco,  professor
de música, reformado, é cofundador e líder da ASTIL - Associação dos Amigos Solidários com Timor Leste: é ntaural ds Malcata, Sabugal; vive na Lourinhã; é membro da Tabanca Grande, tem 70 referèncias no blogue


III Viagem a Timor-Leste :  2019 (Rui Chamusco, ASTIL)


Parte VIII: semana de 24 a 31  de março:  do ensino da língua portuguesa ao barlaque






24.03.2019, domingo  - “ Cantando espalharei por toda a parte ... se a tanto me ajudar o engenho e a arte... - Os Lusíadas - ( Canto I-2ªestância / estrofe )


Se há algo que nos une e identifica pelo mundo é a nossa língua mãe. Esta é uma das razões que justificam o nosso envolvimento neste projeto de solidariedade em Timor Leste: ajudar e promover ações que motivem os timorenses, e particularmente as crianças a aprender e a falar a língua portuguesa, que até é a segunda língua oficial desta nação.

Por isso construimos a Escola São Francisco de Assis em Boebau; por isso criamos o programa de apadrinhamento de crianças e jovens; por isso ensaiamos todas as semanas canções portuguesas a um grupo de crianças que, sempre que solicitem, se desloca a restaurantes ou lugares públicos para actuação; por isso dou todos os dias explições (aulas) a crianças e jovens que demonstrem uma vontade expressa de aprenderem o português.

“ Cantando espalharei por toda a parte...se a tanto me ajudar o engenho e a arte...”
- Os Lusíadas - ( Canto I-2ªestância / estrofe )

Como professor aposentado, habilitado para o ensino da música e da língua
portuguesa, sou testemunha de que o engenho e a arte, neste caso a música, são meios privilegiados do ensino do português, ou de qualquer outra língua. Com efeito dá um prazer enorme ouvir estas crianças de Ailok Laran ou de Boebau Manati interpretarem um elenco de canções portuguesas, numa língua que lhes é estranha mas que muito desejam compreender e falar.

É desta gente ávida de aprender que eu gosto e tento ajudar, com a ajuda do acordeão ou da guitarra. Já vi alguns portugueses que, assistindo aos ensaios do grupo, não conseguiram conter as lágrimas de emoção. (Não é João Crisóstomo e José Ascenso?)

Já vi alunos e professores da universidade de Dili interromperem por diversas vezes a Adobe (minha afilhada) que interpretava a canção “Chuva”, no dia 5 de Maio, dia da língua portuguesa. Já vi as crianças da montanha cantando o hino da escola com toda a alma e coração. Já vi o entusiasmo de toda esta gente com que cantam e dançam “ Ó malhão, malhão!”

Sim, acredito que a arte, a música fazem milagres. Que, como Camões escreveu, cantando espalharei por toda a parte, mais concretamente por estas terras do extremo oriente, a musicalidade da nossa língua e a possibilidade destas crianças e jovens poderem aprender e desenvolver a língua portuguesa.

Que bom é ser português! Que bom é fazer tantos amigos através da língua que
falamos. Que bom é sentir o amor dos timorenses por um país que se chama Portugal.


26.03.2019, terça feira  - “ Eu só sei que nada sei...”


Esta nem ao diabo lembra.

Hoje à noite, ao jantar, enquanto saboreàvamos uma “pinguinha de vinho do Porto”, veio à baila o tema do álcool, mais propriamente dos vinhos: o sabor, o grau, as marcas, as diferentes qualidades de branco, tinto e rosé, e evidentemente o consumo.

Foi então que o Eustáquio nos revelou algo inimaginável para quem gosta mesmo de saborear um bom vinho, fruto das uvas e do trabalho do homem. Disse-nos que aqui, em Timor, mesmo não sendo uma terra produtora do néctar dos deuses, se consome muito álcool e há muitos bébados.

Como assim? Perguntamos nós. Ele então explicou:

- O timorense tem várias maneiras de se embriegar. Há quem beba o álcool simples; há o vinho da seiva de bananeira (sabo), uma espécie de aguardente, que misturam com cocacola e .......; há o vinho importado mas que é dificil de adquirir devido ao fraco poder de compra da maioria dos timorenses. Mas é raro beberem o vinho puro proveniente da fermentação do sumo das uvas. E aqui vem a revelação: ao álcool, ao vinho adicionam gasolina ou diluente para atingirem o mais rápido possível o efeito da bebedeira. São momentos de alienação e de curtição que parece agradar-lhes imenso. Até talvez quem sabe para esquecerem durante algumas horas os seus problemas e carências do dia a dia.

Seja como for, convenhamos que tal mistela pega fogo. E como o consumo exagerado de álcool é vício, nem quero pensar nas consequências físicas e psicológicas nestes corpos franzinos a que se sujeitam estes amigos de Baco. E, mesmo que seja uma questão cultural deste país, não me conformo a que nada se faça por esclarecer e emendar esta ementa tão perigosa. Que Deus nos valha!...

Mais ainda. O Amali contou que, quando apanham alguém bêbado, o que não deve
ser difícil de encontrar, fazem um menu todo estranho, e que consiste em fazerem
uma salada de tomate, cebola e outros ingredientes, que depois é recheada com
chinelos cortados aos bocadinhos. O desgraçado do bêbado, já não tendo a
clarividência do que está no prato, come tudo, inclusive os chinelos, pensando que
está comendo bocadinhos de carne. Isto já é malvadez e malandrice: gozar com quem não tem capacidade de discernimento. Que Deus lhes perdoe!...

26.03.2019 - Notícias aterradoras

Já não é a primeira vez que ouvimos falar disto. Um clima de violência fortuita
provocada por grupos de marginais, treinados em artes marciais ou outras técnicas de ataque, que espalham o terror nos bairros mais povoados e problemáticos da capital, Hudi Laran, Bairro Pité, Bidau, Comoro, etc... Ontem aconteceu em Ailok Laran, Um médico chinês foi assassinado, nem a polícia sabe por quem, e abandonado numa das estradas da localidade. Vingança? Ajuste de contas? Malvadez? Todas questões sem respostas que urge resolver para tranquilidade e sossego de todos nós.

A crueldade destes grupos de malfeitores é tão refinada que mortes já fizeram,
cortaram os corpos aos pedaços e foram deitá-los ao mar para alimento dos crocodilos que por aqui abundam.

O clima de terror está instalado. De tal modo que ninguém ousa sair à noite, e muito menos um malai (estrangeiro). Quanto menos se der nas vistas mellhor. Porque, de qualquer direção podem surgir os atacantes com setas, armas brancas (nelas incluindo as catanas), armas convencionais, ou até em confrontos corporais, lutas em que levam quase sempre a melhor devido aos cursos que frequentam em artes marciais.

O comandante das Forças Armadas, general Lere, já falou, em entrevista na GMN,
(uma das estações de Rádio e Televisão de Timor Leste) que se a polícia não resolver este problema da segurança das pessoas, as forças armadas encarregar-se-ão de o fazer. Mas até agora não se nota que algo tenha sido feito. E os factos assim o provam.

As consequências estão à vista. Para além da perda de vidas humanas e dos feridos
com marcas físicas e morais indeléveis, há países e governos que já reagiram a este
clima de medo e de terror. O governo chinês já anunciou de que iria retirar de Timor Leste todos os seus cidadãos.

Um grave problema que urge resolver para bem dos cidadãos estrangeiros e para bem de Timor Leste.

27.03.2019, quarta feira  - “Não é com vinagre que se caçam moscas...”

Mais uma vez eu servi de recurso para obter o que se pretendia: a assinatura e carimbo do pároco de Motael, padre Justino, num assento de batismo a fim de dar andamento ao pedido de nacionalidade portuguesa. Sou testemunha das voltas e voltas que é preciso dar para que isso se consiga. Os pedidos são muitos, e até há párocos que já colocaram à porta do cartório um letreiro dizendo: “Não tenho tempo para atender estes pedidos”. 

Em situação de desespero, porque o processo em Lisboa depende deste documento, foi-me pedido pela família para ir com o Amali falar com o pároco.

Não me fiz rogado, e depressa me aprontei para irmos de motor tentar obter o
almejado papel. Pedi para falar com o pároco, o que me foi logo concedido, com
muita simpatia de quem assiste os serviços do cartório paroquial. Passados três
minutos, o padre Justino vem até mim, e depois de um cumprimento de reverência
fomos para o seu gabinete de atendimento numa sala ali ao lado. Conversamos
durante bastante tempo (mais eu do que ele pois quis explicar-lhe os motivos da
minha estadia em Timor Leste), e já quase no final da conversa expliquei-lhe o que
pretendia. 

O padre Justino compreendeu perfeitamente o que estava em causa (falamos bastante dos documentos falsos que abundam nos processos timorenses e
que bloqueiam ou anulam o andamento dos mesmos) e, sem qualquer resistência,
perante a apresentação da fotografia do assento de batismo, ele me disse: “Sim, vou
assinar e carimbar.” 

Claro que fiquei contentíssimo que por minha intercessão se tenha obtido este precioso documento.

Um muito obrigado ao pároco de Motael fechou este nosso encontro, e uma alegria
enorme quando disse ao Amali: “Já está!”

Este episódio faz-nos pensar e perguntar: Quantos documentos não válidos serão
passados nos cartóríos paroquiais das igrejas de Timor que, por falta de
esclarecimento, de nada servem por os processos em causa? Quanto dinheiro (coisa rara para os bolsos de muitos timorenses) não se tem gasto inutilmente? Quem deve esclarecer esta situação, que se repete em muitos dos processos?

Em meu entender, a embaixada de Portugal e a igreja são os responsáveis de tal
situação. E por isso, devem proceder, quanto antes melhor, à resolução deste
roblema.

E já nem gostaria de falar de “advogados” e “solicitadores” oportunistas que, sem
saber o que fazem, estão extorquindo a economia que quem mal pode pagar os seus
serviços.

Moral deste caso: “Não é com vinagre que se apanham moscas...” mas com bons
modos, esclarecimentos e muita verdade.

29.02.2019, quinta feira  - Em defesa da Língua Portuguesa

É uma preocupação de todos, e particularmente aqui em Timor Leste, país que adoptou o português como segunda língua oficial. A responsabilidade é dos governos de Portugal e de Timor Leste, dizem uns. A tarefa é de todos dizem outros. O que é certo é que, apesar de todos os esforços feitos por quem sente este dever de promover e desenvolver a língua portuguesa em terras timorenses, a nível oficial e particular, os resultados não são muito visíveis. E se o trabalho de campo desenvolvido por escolas de referência como as escolas CAFE implantadas nas principais cidades do país, e a escola Rui Cinatti em Dili que são apoiadas pelo governo de Portugal têm tido um papel importante na promoção e defesa da nossa língua, a verdade é que não vemos na prática, na vida do dia a dia, os timorenses como falantes de português. Falam tetum ou bahasa (língua indonésia).

Mas então, depois de 17 anos de independência, o bahasa ainda se fala correntemente?

É isso mesmo: idosos, adultos, jovens e crianças compreendem e falam correntemente a língua indonésia. Como é que, com tanto esforço dos dois governos envolvidos e de instiutições particulares o português não é mais compreendido e falado?! Como é que a geração dos mais novos tem apetência e competência para a prática do bahasa?

Talvez que tenhamos de ser humildes e aprender com a estratégia dos indonésios. É que o governo indonésio, salvo as barbaridades dos militares ocupantes que reprimiam com prisão e até a morte os falantes de português, investiu numa rede escolar que cobre boa parte do território timorense; investiu no comércio local com a presença de cidadãos daquele país; investiu nos meios de comunicação social tais como operadoras telefónicas (as suas mensagens são em bahasa), e particularmente nos canais de televisão que, queiramos ou não, são o melhor meio de divulgação, porque junta o som e a imagem. Hoje, nos lares que têm televisão e em espaços públicos afins, a maior parte do tempo de antena é coberta com filmes, programas entretimento, noticiários, etc... em lingua bahasa.. Crianças e jovens, adultos e idosos aprendem sem muito esforço, de uma maneira lúdica, este idioma que os atrai.

Ora, sabendo nós da afeição que os timorenses têm pelos portugueses - eu sou
testemunha e sujeito desta afeição - e necessitando muitos timorenses de compreender e falarem a língua portuguesa por questões de emprego e de estatuto social, pergunto se não será possível o estado português investir mais na utilização destes meios de comunicação, sobretudo a televisão. É que aqui, por terras do extremo oriente, só se onsegue ver (apanhar) a RTPI, a Rádio Televisão Internacioal, e na maior parte das vezes em péssimas condições. Porque não investir em programas de entretimento, em filmes, nalgumas telenovelas, noticiários, programas desportivos, programas musicais (incluindo o folclore nacional)?...

Bem me parece que seria muito mais eficaz na consequção dos objetivos do que muitas das ações de várias instituições apoiadas pelo governo de Portugal. Claro que contando sempre com o precioso tarbalho que estas instituições têm desenvolvido.

Aqui fica a sugestão deste grão de areia que, também preocupado e empenhado no
ensino da língua portuguesa (mesmo que seja a cantar) vai tentando no dia a dia
motivar sobretudo as crianças, para compreenderem, a falar e a cantar, e a
expressarem-se na língua de Camões, o idioma de muitas nações irmãs - a CPLP
(Comunidade dos Povos de Língua Portuguesa).

31.03.2019, sábado - Curta metragem: Ação!..

Esta manhã, foi um rodopio aqui em Ailok Laran. Todas as crianças apadrinhadas
(treze) foram convocadas para gravarem uma mensagem para as suas madrinhas 
ou padrinhos. Claro que tivemos de valer-nos das cábulas: folhas A4, onde préviamente escrevi o que cada um(a) tinha de dizer. Tempo de treino de leitura, correção, tentativas de gravação, olhares, gestos, cenários; pára, repete, agora, silêncio ... um sem fim de trabalhos que nos ocuparam toda esta manhã de domingo. Foi uma verdadeira aula de português, e creio que estas crianças não irão esquecer facilmente as suas mensagens. Aliás, cada uma guardou consigo a folha respetiva.

A seguir, é o envio das mensagens que, como eu não sou nenhum perito am novas
tecnologias, me ocupam parte importante do meu dia e noite de trabalho, A conta
gotas, lá vão sendo enviadas às madrinhas e aos padrinhos.

O feedback tem sido muito positivo, com mensagens de madrinhas e padrinhos a
manifestarem o seu regozijo por verem os seus afilhados a falarem em português.

E é assim que, com pequenas coisas, vamos lidando com esta grande tarefa de ensinar estas crianças a falar a língua de Camões.

31.03.2019 - “ barlak” (ou barlaque) e cultura timorense...

Hoje o Eustáquio foi fazer de negociador no “barlak” (já grafado como "barlaque") de um sobrinho. Quando chegou a casa, contou-nos como se tinha passado. Já não é a primeira vez que o Eustáquio faz este trabalho. As famílias dos noivos confiam nele porque, para além de ser um homem sensato, é um grande conhecedor e praticante da cultura e da tradição timorense.

Então, o que é o “barlak" (ou barlaque) ?

 O “barlak” é uma festa, uma cerimónia entre as famílias dos noivos em que o “manefon” (o homem que pede a mão da noiva passando assim a fazer parte desta família) e particularmente a sua família negoceia com a família da noiva “os dotes” para que se realize o casamento. 

“Os dotes” envolvem dinheiro e bens. Neste "barlak" foram 2.500 dólares em dinheiro que o pai do noivo tem de dar à família da noiva, sendo que 500 dólares para a compra de um “krau” (boi ou vaca) e tempêros; mais 15 caixas de cervejas, 10 caixas de coca cola e outras bebidas. 

A família da noiva (creio que duas irmãs) serão as cozinheiras. Oferecerá também um porco e uma saca de arroz de 30kg, que serão partilhados pelas famílias e pelo negociador que terá direito a mais ou menos 3kg do animal abatido. 

Uma semana antes do casamento reunir-se-ão de novo as famílias para fazerem o balanço de como estão as responsabilidades atribuídas, e para acertarem os pormenores da festa de casamento que será no próximo mês de Junho.

A par desta tradição cultural, está a preparação que os noivos fazem através de cursos e reuniões de preparação para o casamento que cada paróquia organiza. Estou a falar, claro está,  de casamentos católicos.(*)

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos, título: LG)
_______________

Notas do editor LG:


(...) “Ter muitas filhas é uma alegria para a família timorense, pois, no futuro, poderão trocá-las por dinheiro e animais. A mulher, quer queira quer não, tem de aceitar a decisão dos seus familiares sobre o preço do barlaque. Eu não quis ser vendida”

O “grito de Ipiranga” é de Martinha (nome fictício), uma das poucas mulheres que, numa sociedade fortemente patriarcal como a de Timor-Leste, levanta a voz para dizer “não”.

O barlaque é uma tradição que existe em Timor-Leste desde os tempos antigos. Este ritual acontece quando um homem e uma mulher decidem casar e têm de, em consequência de uma espécie de “obrigação cultural”, envolver as famílias de ambas as partes para negociar o matrimónio, o que normalmente envolve entrega de bens ou dinheiro aos familiares da noiva. (...) 

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28032: III Viagem a Timor-Leste: 2019 (Rui Chamusco /ASTIL) - Parte VI: semana de 10 a 17 de março: a polícia e a pedagogia da chapada

 

Timor Leste > s/l > 2016 > O que seria o Rui sem o seu acordeão ? O Rui, à esquerda, e o seu acordeão, levando às montanhas de Liquiçá a alegria, a esperança e a solidariedade das gentes da Malcata/Sabugal,  e de outros lados de Portugal, de Coimbra à Lourinhã. A foto não traz legenda, mas é do Rui com a família Sobral, em Dili, no bairro Ailok Laran, em cuja casa ele fica quando vai a Timor-Leste.



Rui Chamusco, antigo professor
de música, reformado, é cofundador e líder da ASTIL - Associação dos Amigos Solidários com Timor Leste


1.  Continuação da publicação de excertos das crónicas da III Viagem (2019) (*), de Rui Chamusco a Timor-Leste.


Já publicámos excertos das crónicas da I viagem (2016), II (2018) e VI (e última) (2025). 

Depois meteu-se a pandemia, e o Rui só voltou a Timor Leste em 2023 (IV viagem), e anos seguintes: 2024 (V viagem) e 2025 (VI viagem).  

Este ano talvez lá volte, mas apenas pelo natal, se a saúde o permitir. Natural da Malcata, Sabugal, vive na Lourinhã  ( e, por estes dias, no Hospital Curry Cabral, em Lisboa, a recuperar de uma delicada intervenção cirúrgica).


Crónicas da III viagem a (e estadia em) Timor Leste (janeiro- abril 2019): semana de 10 a  a 17 de março

por Rui Chamusco


11.03.2019, segunda feira  - Assim se começa o dia

Hoje quase que ganhava aos galos cá do sítio. Levantei-me muito cedo, pelas cinco horas da manhã, porque não queria falhar à consulta médica que o Dr. Sérgio Lobo me marcou, para estar na sua casa, em Bemori, antes das sete. 

A continuação de dores neste físico que me suporta levou-me de novo a este médico, que até já foi em vários governos ministro da saúde. Na sua simplicidade trata os doentes com uma dedicação ímpar. 

Depois de devidamente observado prescreveu-me mais uma boa dose de remédios, receita que vou cumprir à risca. Não quero que me acusem de que sou um mau doente. De resto entrego-me aos cuidados de Deus, o melhor médico do
mundo. Estou certo de que tudo isto vai passar. É apenas uma prova nesta nossa terrena existência. Por isso, cara alegre,  “toca adelante!” Havemos de ter força e vencer esta pequenas dificuldades. Há por aqui muito que fazer, e não podemos dar-
nos ao luxo de andar ou de ficar doentes.


12.03.2019, terça feira - O bom filho à sua casa torna

Sem que estivéssemos à espera, o Amali, que há três meses e meio está em Portugal, decidiu voltar para Timor. Facto consumado, pois mostrou à tia Glória o bilhete que o irmão Zinon lhe mandou de Inglaterra. Embora tivesse de abdicar de alguns projetos de vida, o rapaz achou que seria melhor voltar à casa paterna.

A mãe, o pai, as irmãs Eza e Adobe até ficaram contentes, pois todos dizem que já tinham muitas saudades. Até eu fiquei contente, pois pensei logo aproveitar a boleia para o acordeão que ficou na Lourinhã, e que tanta falta aqui nos faz.

Hoje é o dia da partida: Lisboa / Munique / Bangkok / Bali / Timor.

Havemos de chegar eu bem sei... Entretanto, vão se contando por ordem decrescente os dias, as horas, os minutos e os segundos. No dia 15 a ansiedade aumenta, até que, pelas três horas da tarde, aparece o carro do vizinho Zé do Ti Beto, que estaciona no largo da casa e dá a mostrar os seus ocupantes e bagagem. 

Com abraços e beijos à istura, logo que pode o Amali começou a mostrar o conteúdo da bagagem. Claro que os meus olhos correram de imediato para a maleta onde vinha o acordeão. Os da casa comentaram logo: 

“ O tiu Rui está muito contente porque já tem o acordeão.”

Logo à noite já há ensaio das canções de reportório. E então vamos ouvir tocar e cantar: as notas (música no coração), abre a janela, ó rama da oliveira, o hino da alegria, a minha terra é linda, rosa enxertada, ó minha rosinha, Ti Anica, ao passar a
ribeirinha, etc, etc... Um serão, sem televisão, mas diferente...

13.03.2019 - Pedagogia timorense

Pois então!...

Hoje o Bartolomeu, que é o nosso chefe da aldeia, saiu-se com esta: “Aqui a polícia resolve à chapada.” Mas, resolve o quê?

A meio da manhã, ouvi falar e fui ver. Eram dois jovens que se predispunham para viajar de mota até à capital. Como aqui “os motores” são aos milhões, numa confusão de trânsito caótico onde ninguém cumpre as regras da boa condução e todos procuram desenrascar-se, os viajantes de motor têm obrigação de levar o capacete na cabeça.

Mas como um dos moços montou para a mota sem o devido aparelho, eu próprio chamei a atenção para o facto.

Foi então que o Bartolomeu explicou: “quando a polícia apanha alguém sem capacete não paga multa. Manda descer da mota e espeta um par de bofetadas no transgressor. Ou então vai passar a noite na esquadra”. 

Ora aqui está uma pedagogia à timorense.

Concordemos ou não com este processo a roçar a violência, parece que os resultados são animadores, porque nenhum jovem quer passar por essa vergonha.

A par do negócio dos capacetes, convenhamos que há por aqui muita cabecinha pensadora...

14.03.2019, quarta feira  - Carta aos amigos e sócios da Astil


Fundadores: Rui Chamusco,
Glória Sobral e Gaspar Sobral


Projeto de Solidariedade em Timor Leste
ASTIL ( Associação de Amigos Solidários com Timor Leste)

Estimados Sócios e Amigos

É sempre com prazer que me dirijo a vós dando notícias das nossas atividades, dos êxitos e dos fracassos, dos nossos anseios e esperanças na construção de um mundo melhor para estas crianças e estas gentes. 

Tudo o que temos conseguido em prole deste objetivo tem sido graças à vossa ajuda e colaboração. Ressalto a construção e inauguração da Escola São Francisco em Boebau / Manati, a criação do Programa de Apadrinhamento de crianças/jovens necessitadas (já estão apadrinhadas mais de 50), a reconstrução da casa de família do Sr. Vitor (com as obras em curso).

No próximo dia 19 de março é o 1º aniversário da inauguração da escola que construímos, com valências para o pré-escolar e para o 1º ciclo. Neste momento a escola funciona precariamente, com dois grupos de crianças do pré-escolar, assistidas por duas senhoras que, devidamente preparadas com estágios no jardim “Mundo Mágico”, em Dili, vão garantindo as atividades com as crianças e o funcionamento da escola.

Das 75 crianças matriculadas, apenas nos deixaram ficar as crianças do pré escolar, o que causou um grande desgosto e decepção às famílias aí residentes. As escolas próximas do ensino oficial não reagiram muito bem à criação da nossa escola, temendo que lhes faltassem alunos para as suas turmas. E então tudo fizeram para que os alunos da primária se matriculassem nas suas escolas. Mas tudo se vai resolver, ainda que não à velocidade que nós pretendemos.

Este e outros problemas têm-nos ocupado grande parte do nosso tempo. Trata-se de estabilizarmos o funcionamento da nossa escola, partindo do princípio de que somos a escola número 36 do distrito de Liquiçá, registada no ministério da educação de Timor Leste. 

Temos estatutos próprios aprovados que a definem como “Escola de Ensino Particular Privado”, com referência do ensino da música, do tetum e do português. Vamos tudo fazer para que os estatutos sejam cumpridos.

Permiti que vos fale da principal dificuldade: arranjar professores que queiram lecionar na nossa escola. Compreendemos plenamente as razões da recusa: os acessos (caminho, estradas) são muito difíceis, as condições de habitabilidade são poucas ou nenhumas, a luz prometida nunca mais chega, não há água corrente, etc, etc... 

Para os professores timorenses a gente desenrasca-se. Mas para os professores portugueses é muito difícil de motivar. É urgente criarmos no local uma infra estrutura - Uma Casa Residencial para professores e voluntários, com o mínimo de condições de habitabilidade que permita aí residir a quem aceite a difícil missão de aí ensinar.

Já pedimos informações sobre o orçamento para a construção. E foi-nos dito que mais ou menos 25.000 dólares.

Assim sendo, decidimos avançar a obra. Estamos esperançados que, no começo do novo ano escolar de 2020, já poderemos contar com a casa pronta.

Porque é um projeto solidário, fazemos um apelo a todos os amigos e sócios a espalharem esta notícia e nos ajudarem a angariar fundos económicos para concretizar a construção desta casa residencial. Convidem os vossos amigos (pessoas, empresas, instituições) a associarem-se a esta campanha solidária.

Estamos certos que com a vossa ajuda e colaboração iremos conseguir este grande objetivo. Deus, que é bom pagador, vos recompensará com as suas bençãos.

Com consideração por todos vós, e agradecendo desde já, em nome pessoal e da

ASTIL, um grande abraço

Rui Chamusco



17.03.2019, sábado  - Fora de horas...


O que a natureza nos ensina!... Nós que pensamos que já sabemos tudo, de repente vem um galináceo, dar-nos uma lição de inconformismo, de rebeldia...ou então, visto por outro lado, de cumprimento da missão para que foi destinado.

Ainda não era meia noite, quando o meu vizinho senhor galo se fez ouvir alto e em bom som. Enchendo bem o peito de ar, bate três ou quatro vezes as asas, e cheio de pujança grita: Có có ró có có!... E faz isto umas quantas vezes, sem que algum outro parceiro lhe responda. 

Por isso me questiono: será um galo com alguma missão especial?

 Lembro-me do galo que cantou três vezes quando Pedro negou que não conhecia Jesus; lembro-me do galo que anunciava o nascimento Menino Jesus ( meia noite dada / meia noite em pino / o galo cantando / nasceu o menino). 

Mas este galo timorense, por que canta fora de horas?... É um desalinhado, talvez por rebeldia ou até por contestação. Ora desde sempre ouvimos dizer que o cantar dos galos é o relógio ou o despertador natural, que indica mais ou menos a hora de levantar. E então, quando começa a desgarrada, é um “ver se te avias!”

Cá para mim, a eletricidade e o seu sistema de luz artificial, já trocaram as voltas a estas humildes criaturas. Dia e noite já não são o que era. Já não é quando Deus quer mas sempre que os homens queiram, acendendo ou apagando os interruptores. 

A confusão reinante deve-se à maldade humana e não a estes seres que amavelmente nos despertam, mesmo que fora de horas. Por isso irmão galo canta quando te apetecer, porque mais que não seja, o teu cantar será sempre um hino ao criador...

(Revisão / fixação de texto, negritos, itálicos, título: LG)
________________

Nota do editor LG:

(*) Último poste da série > 14 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28020: III Viagem a Timor-Leste: 2019 (Rui Chamusco /ASTIL) - Parte V: semana de 3 a 9 de março“: "Castelo de cinco quinas / Só há um em Portugal, / Que fica à beira do Coa, / Na cidade de Sabugal"

quinta-feira, 14 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28020: III Viagem a Timor-Leste: 2019 (Rui Chamusco /ASTIL) - Parte V: semana de 3 a 9 de março“: "Castelo de cinco quinas / Só há um em Portugal, / Que fica à beira do Coa, / Na cidade de Sabugal"


Sabugal > s/df > "Castelo de 5 quinas" > Foto da galeria da CM Sabugal
(com a devida vénia...)



Rui Chamusco, antigo professor
de música, reformado, é cofundador e líder
 da ASTIL - Associação dos Amigos Solidários
com Timor Leste
1.  Continuação da publicação de excertos das crónicas da III Viagem (2019) (*), de Rui Chamusco a Timor Leste.


Já publicámos excertos das crónicas da I viagem (2016), II (2018) e VI (e última) (2025). 

Depois meteu-se a pandemia, e o Rui só voltou a Timor Leste em 2023 (IV viagem), e anos seguintes: 2024 (V viagem) e 2025 (VI viagem). 

Este ano de 2026, não  irá por razões de saúde, embora ainda acalente a esperança de lá ir passar o Natal...

Está hospitalizado, depois de uma bem sucedida intervenção cirúrgica no Hospital Curry Cabral, em Lisboa, tendo surgido entretanto algumas complicações pós-operatórias. 

Fazemos votos para que regresse, depressa e bem, à sua casa na Lourinhã, a sua segunda terra natal. (Nasceu em Sabugal.)


Crónicas da III viagem a (e estadia em) Timor Leste (janeiro- abril 2019): semana de 2 a  a 1 de março

por Rui Chamusco
 
04.03.2019, segunda feira - A guerra do espaço

O que outrora parecia ser somente um filme, hoje já é realidade.

Vem isto a propósito da viajem do Dr. Manuel Meirinho, que chegou a Dili um dia depois da data prevista. Estranho a tal ocorrência, tentei saber por que é que isto acontece (aconteceu). 

O grande amigo J. Ascenso deu-me a explicação que precisava: 

"Quando há países em guerra o seu espaço aéreo não pode ser violado. Ora a Índia e o Paquistão estão em guerra declarada, e portanto, sem poderem sobrevoar os seus espaços aéreos, todos os voos têm de contornar a sua viajem pelos espaços aéreos permitidos.”

E pensamos nós que lá por cima é que se anda bem! Qualquer dia o céu será como a terra: latifúndios e minifúndios, onde um palmo de espaço será o suficiente para declarar guerra ao vizinho do lado. Com a mentalidade individualista, qualquer um terá atitudes e comportamentos de tudo querer, de ser mais que o outro. “O que é teu é meu; o que é nosso é nosso”. E assim vamos fazendo as nossas guerras espaciais, assim na terra como nos céus.

Fiquemo-nos ao menos por aqui, com estas guerras de manjerico e manjerona, onde, se for necessário, resolvemos os problemas à chapada e ao murro, ao sacho ou à cacetada. E viva a “justiça de Fafe!” porque com Fafe ninguém fanfe...

Nota: Vim depois a saber, pelo Dr.Manuel Meirinho, que o desvio da rota aérea se deveu a poeiras que povoaram a atmosfera e que impediram uma aterrizagem segura.

06.03.2019, quarta feira - A pontualidade portuguesa


Na Europa, e sobretudo em Portugal, falamos da pontualidade suíça, talvez até mais por alusão aos relógios suíços que são de qualidade excelente. Esse complexo de pontualidade, inerente ao nosso modo de ser, tem pouca aplicação aqui em Timor, em terras de oriente. E já por diversas me dei conta disso mesmo.

Ontem, a pedido da família Aurora, fui mais uma vez à escola CAFE em Taibessi, a fim de falar com a coordenadora Professora Mabilde sobre a transferência de um aluno, Jetónio Ribeiro, que abandonou a escola Farol. Tinhamos combinado com o pai estar às 8.30 horas em Ailok Laran para depois nos dirigirmos à escola CAFE.

Muito tranquilamente os minutos iam passando e o Venâcio, pai do rapaz, nunca mais aparecia. Foi preciso que a Aurora, irmã do Venâncio, se irritasse ao telefone, dizendo que o Ti Rui está à espera, chateado, para que finalmente respondesse “ já vou”. Já dentro do carro perguntou-me: “que horas são”. E respondi-lhe “quase nove”. 

E pronto. Lá foi andando nas calmas, que aqui não se pode andar depressa pois as estradas (caminhos) são horríveis. Felizmente chegamos a tempo, e ainda tivemos de esperar.

Portanto mais que pontualidade portuguesa eu direi impaciência portuguesa. Não sei se é bom ou se é mau. Mas o Eustáquio diz que as doenças somos nós que as criamos, que as metemos na cabeça e que, por isso, também as podemos tirar de lá. 

Temos de estar sempre contentes. “Se chovi, contenti; se não chovi, contenti; se comi, contenti; se não comi, contenti. Sempri contenti!...” 

Ajuda a deitar fora, a aliviar, a curar. Já antes do Eustáquio mahatma Ganhdi (1869 - 1948) dizia:

 “Aquilo que não dizemos acumula-se no corpo, transformando-se em noites sem dormir, em nós na garganta, nostalgia, dúvidas, insatisfação e tristeza. O que não dizemos não morre...MATA-NOS.”

Aqui está, como diria São Francisco de Assis, a verdadeira alegria.

06.03.2019 - Dia de anos

A Aurora faz hoje 51 anos. Esta mulher, que apesar do AVC de que foi vítima há sete anos e que lhe limita os movimentos do lado esquerdo, nunca está quieta, orientando a vida da casa. É uma guerreira que bem merece uma festa de anos. Por isso, sem que ela se apercebesse, o Eustáquio, o Gaspar e eu fomos às compras, para que á noite os pudéssemos festejar condignamente. Houve flores do quintal, houve bolo de anos, e até vinho do Porto.

A Aurora é uma pessoa muito emotiva. Por isso fez um grande esforço por controlar as suas lágrimas. Estou certo que não irá esquecer estes momentos e que, com toda a sua vontade de viver, irá celebrar muitas mais festas de aniversário. Que assim seja!...

08.03.2019, sexta feira  - Encontros, protococolos e outras coisas mais...


Ao longo deste curto caminhar da ASTIL (há mais ou menos um ano e meio) têm surgido apoios importantes de pessoas e instituições que muito nos têm ajudado neste caminho. Eu direi até que sem estas preciossas colaborações não teríamos chegado onde já nos encontramos.

Embora na retaguarda, são a nossa proteção e amparo, e vão nos dando ânimo e meios para prosseguirmos a nossa luta na linha da frente. Somos os “novos guerrilheiros”, desarmados. A nossa grande arma é a solidariedade que, a pouco e pouco vai criando um mundo melhor para estas crianças e jovens que nos rodeiam, respeitam, agradecem com os seus sorrisos e amam de coração.

Uma das instituições que nos tem dado o seu apoio constante é o município de Sabugal, através do seu executivo camarário, facilitando-nos locais para encontros e ações do projeto em causa, cedendo-nos um espaço para a sede da Astil, apoios
económicos pontuais, etc...

Desde maio de 2018, aquando da nossa segunda estadia, que andamos a preparar a geminação entre os municípios de Liquiça e Sabugal, pretendendo assim que se possa estabelecer uma cooperação mútua entre estes dois municípios.

Hoje foi um dia muito importante, dando-se um passo significativo neste processo.

Aproveitando a estadia de uma semana em Dili do Dr. Manuel Meirinho, presidente da assembleia municipal de Sabugal, por motivos profissionais, reservamos a manhã de sexta feira para, no município de Liquiçá, se lavrar e assinar a carta de intenções.

Numa cerimónia carregada de protocolos, com a presença de representantes de todos os serviços deste distrito, cumpriu-se a assinatura desta carta de intenções em português e tetum, as duas línguas oficiais de Timor Leste, e que ficou devidamente documentada através das fotos da praxe.

Feita a despedida nos moldes habituais de apertos de mão e vénias, tivemos ainda uma visita à escola CAFE de Liquiçá, onde a maioria dos professores são portugueses. 

Mais um momento único e intenso, onde até ouvimos a quadra: 

Castelo de cinco quinas
Só há um em Portugal,
Que fica à beira do Coa,
Na cidade de Sabugal. 

Imaginem-se as emoções que tivemos de controlar.

E assim vamos afirmando por aqui a nossa portugalidade...

(Revisão / fixação de texto, negritos, itálicos: LG)
_________


Nota do editor LG:

domingo, 3 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P27983: III Viagem a Timor-Leste: 2019 (Rui Chamusco /ASTIL) - Parte III: semana de 17 a 23 de fevereiro: finalmente a caminho de Boebau... de "motor" (motorizada)


Timor Leste > Fevereiro de 2018 > Escola São Francisco de Assis (ESFA), em Boebau, Manati, Liquiçá, inaugurada em 19 de março de 2018. E os difíceis acessos a Boebau (na foto nº 2, o Rui Chamusco teve de se apear da moto, ei-lo em segundo plano, à frente da moto e do condutor). Sáo cerca de 50 km, de Dili até Boebau, na montanha, que podem demorar 4 a 5 horas, na época da monção. Entretanto foi comorada uma viatura com tração âs quatro rodas... E os melhores têm vindo a melhorar...

Foto da página do Facebook da ASTIL - Associação dos Amigos Solidários com Timor Leste (com a devida vénia...)


1. Estamos a publicar excertos das crónicas da III Viagem (2019) (*), de Rui Chamusco a Timor Leste (fazem parte de um ficheiro em pdf, de 273 páginas, com todas as suas crónicas de viagem àquele país lusófomo, desde 2016, e que ele disponibilizou aos membros da ASTIL e demais amigos, em 28 de maio de 2025).

Já publicámos excertos das crónicas da I viaggem (2016), II (2018) e VI (e última) (2025).   Depois meteu-se a pandemia, e o Rui só voltou a Timor Leste em 2023 (IV viagem), e anos seguintes: 2024 (V viagem) e 2025 (VI viagem). Este ano de 2026, irá por razões de saúde.

Fundadores: Rui Chamusco,
Glória Sobral e Gaspar Sobral


Entendam, caros leitores, a publicação desta série como uma pequena homenagem a Timor-Leste e ao nosso Dom Quixote lusitano que já fez perto de 250 mil quilómetros de avião, desde 2016, por solidariedade com o povo timorense e  as crianças de Boebau, nas montanhas de Liquiçá (um topónimo que tem uma carga emocional muito grande para os timorenses que sofreram a brutakl ocupação inmdonésia, de 1975 a 2002, mas também para os portugueses que lá estavam na II Guerra Mundial) (**)

É também uma forma de a gente não se esquecer dos timorenses..., para que os timorenses, por sua vez, não se esqueçam de nós. Ser solidário com quem é solidário é também uma das nossas formas de ser estar dos amigos e camaradas da Guiné, alguns dos quais também são amigos de Timor-Leste.

O Rui é membro da  Tabanca Grande ( nº 886), de 10 de maio de 2024. E preside à ASTIL - Associação dos Amigos Solidários com Timor-Leste. com sede em Coimbra. O João Crisóstomo,  o "nosso régulo" da Tabanca da Diáspora Lusófona, é também membro da ASTIL, fundada por Rui Chamusco, Gaspar Sobral e Glória Sobral.

O Rui tem tido problemas de saúde que o obrigaram a fazer uma intervenção cirúrgica, delicada, no Hospital Curry Cabral. Estava na Lourinhã a recuperar. Mas voltou a sentir-se mal e está de novo internado. O João Crisóstomo acaba de me telefonar de Nova Iorque, visivelmente preocupado. Fazemos votos para que o Rui recupere de novo, e rapidamente, de mais este susto. 


Crónicas da III viagem a (e estadia em) Timor Leste (janeiro- abril 2019): semana de 17 a 23 de fevereiro

por Rui Chamusco


Rui Chamusco,
Lourinhã (2017)

17.02.2019, domingo  - Do outro lado do mundo

Hoje, domingo, dou comigo a pensar no outro lado do mundo, mais concretamente nos territórios que frequento: Malcata, Sabugal, Lourinhã. A estas horas oiço os sinos a tocar, vejo as pessoas apressadas a caminho da igreja, espreito os homens na Torrinha pondo as conversas em dia. 

Dizem que no Sabugal, o domingo é o dia mais morto da semana, porque lhe falta a maioria da juventude das escolas, mas sei que por lá também os sinos tocam ao domingo e as pessoas são devotas e vão às igrejas.

Já na Lourinhã, ouço o ruído das ondas, vejo o frenesim da gente que enche os
supermercados para se aviar, sinto o prazer de tomar um café na praia e de curtir algum tempo ao sabor do sol e da brisa do mar.

Neste outro lado do mundo, em Ailok Laran-Dili, é um regalo ver quem passa, crianças, jovens e alguns adultos bem anafaiados porque vão à catequese e à missa.

Muita juventude que, crente nos ensinamentos que lhes transmitem, procura nas celebrações religiosas ocasião para manifestar a sua fé, rezando mas sobretudo cantando. E mesmo que a fé que temos não seja mola suficiente para nos levar a esses locais, muitas vezes por comodismo, vale bem a pena aproximarmo-nos para ouvir e saborear os seus cânticos, as suas melodias e harmonias.

E, porque hoje é domingo, estamos em sintonia e em sinfonia, graças à música, com os dois lados do mundo, com o universo...

17.02.2019 - Ai haunek e a malária

Esta tarde aprendi mais uma receita., para combater a malária. Mesmo em frente, de quem olha da varanda da casa (em construção) vê-se uma árvore de grande porte, que por isso mesmo ressalta aos nossos olhos. Quis saber que árvore é aquela. E entao o Eustáquio deu-me uma verdadeira lição sobre a mesma. Chama-se Ai haunek, e produz kerosina. 

Antigamente faziam-se pratos da sua madeira. Os rebentos novos das folhas cozem-se e podem ser acompanhadas com arroz. A casca do tronco é cozida e o chá daí resultante é bebido para combater a malária.

Tantos ensinamentos, a partir de uma boa utilização da natureza. E nós a pensar que já sabíamos tudo! Vai lá, vai...

18.02.2019, segunda feira  - Estes “pequenos heróis”!...

Esta tarde, junto ao Pateo, encontramos algo que aqui em Dili é habitual. Um senhor de pequena estatura, carregando aos ombros creio que dez frutos de kulo, tentando vender a sua mercadoria. Cada fruto pesa no mínimo uns seis quilos, que multiplicado por dez vai aproximadamente para os cinquenta quilos. 

Era impressionante olhar para esta figura franzina com tanto peso às costas. De modo que disse ao Gaspar para lhe comprarmos um fruto a fim de aliviarmos o homem. 

Pediu dez dólares, mas vendeu por cinco. Em curta conversa ficamos a saber de que, este “pequeno herói” veio assim carregado desde Dare, que fica a três-quatro quilómetros daqui, e assim tem passado o dia vergado ao peso deste apreciado fruto que mais parece uma grande pinha.

Despediu-se de nós profundamente reconhecido pelo nosso gesto, com pequenas vénias e palavras onde os seus olhos diziam tudo. Que sacrifícios esta gente passa para poder ter uns dólares no bolso...


Gaspar Sobral,
 Lourinhã (2017)

18.02.2019 - Dia de festa...

Faz hoje 69 anos que o Gaspar veio ao mundo, logo de madrugada, o segundo de sete irmãos desta grande família Sobral. E por morte do irmão mais velho, o José Sobral, Gaspar é neste momento respeitado como o chefe deste clã familiar.

Foi preciso que os outros, eu incluído, se lembrassem desta efeméride, porque o
Gaspar nem se lembrava que fazia anos. Então logo de manhã, ao sair do seu quarto,
lá estava eu a cantar-lhe os parabéns e a dar-lhe um abraço apertado.

 Não sei se durante o dia se lembrou mais alguma vez de que faz anos no dia 18 de Fevereiro. Aparentemente não. Mal sabia ele o que lhe estava preparado logo à noite, após a nossa chegada de Dili. Um bolo de anos personificado, também com as velas 69, com champanhe e tudo, 
e boa parte da família a festejar o homenageado. 

Durante a tarde, eu,  o Eustáquio e a Adobe (sua mulher),  fomos às compras e, mesmo viajando connosco, o Gaspar de nada desconfiou. Por isso nada estranho a sua euforia quando, em direto para Portugal, mostrava à Glória (mulher) e à Bene (filha) o ambiente festivo que aqui se estava a viver.

Pois é meu amigo! Os amigos são para as ocasiões. E fazer 69 anos de vida só acontece uma vez. Muitas felicidades e muitos anos de vida!...

18.02.2019 - a fúria da Ribeira Malôa

Em tempo de inverno, quase todos os dias chove em Timor. Esta tarde foi mais uma das chuvadas habituais. Mas eis que sou alertado para ir ver a ribeira Malôa que passa aqui mesmo ao lado.

Impressionante! Como é que, com mais ou menos uma hora de chuva, se acumulou tanta água no leito desra ribeira, que está quase sempre seca? Mas a prova estava à vista. Dos lados de Dare, vinha correndo com tanta força, aos turbilhões, que ninguém ousava qualquer desafio ou brincadeira. Era perigoso demais. De modo que todos nos limitávamos a ver e a comentar. Por acaso consegui documentar a situação fazendo pequenos videos no meu iphone. 

À noite, vimos a ribeira que atravessa a cidade de Dili, já com o seu caudal mais suave, mas mesmo assim impressionante. E se há males que vêm por bem, esta enxurrada de hoje teve o condão de limpar todo o leito desta ribeira, que normalmente está cheio de porcaria, nomeadamente plásticos e latas.

Claro que todo este lixo teve que ser despejado nalgum lado. E está-se mesmo a ver que esta lixeira foi para o mar. Infelizmente continuamos a entupir os oceanos. Tão mal que tratamos o mar!...

18.02.2019 - Encontro de amigos

Pela segunda vez combinamos encontrar-nos: eu, o Rui Pedro [comandante-de-fragata Rui Pedro Ferreira, destacado em Timor-Leste, em serviço durante um ano, e que tem ascendentes com origem em Malcata, Sabugal],  o Gaspar, o Eustáquio num pequeno restaurante à beira mar, em jantar (peixe assado, claro está!) e sobretudo em amena conversa que nos une e motiva a nossa presença neste canto do mundo.

Tudo veio à baila: histórias de família, ligações com Malcata, andanças de cada um, sobretudo do Gaspar. Perguntou-lhe o Rui Pedro "como é que foi a ter a Malcata?” E então o Gaspar, que nasceu em Timor, percorreu uma boa parte do mundo para tentar explicar a sua aterragem em Malcata, Sabugal: Lisboa, Angola, Lisboa, Castelo Branco, Fundão, Sabugal, Malcata, Coimbra... Claro que o Gaspar demorou muito mais tempo a explicar.

E para não faltar nada, uma chamada de Portugal para o iphone do Rui Pedro: A
Susana, sua namorada. Tivemos o prazer de nos conhecermos a tantos quilómetros de distância. Desejo-vos todo o bem do mundo porque, pelo que me apercebi, vocês são duas pessoas extraordinárias.

É de salientar, sempre que nos encontramos, a paixão e o entusiasmo com que todos falamos de Timor, das suas gentes, e dos projetos que cada um tem em mãos e tenta pôr em ação. Aprendemos sempre muito uns com os outros. Por isso tenho a certeza de que estes pequenos encontros irão continuar.



19.02.2019, terça feira  - As obras da casa do Vitor

Hoje poderemos dizer que é o princípio da reconstrução da casa do Sr. Vitor, ainda
que os primeiros trabalhos sejam de destruição. Com efeito, depois de uma visita ao local, onde podemos falar com os principais intervenientes, os filhos do Vitor (o
Francisco até é pedreiro), chegou-se à conclusão de que a primeira coisa a fazer seria abater uma árvore, a manga que ocupa boa parte do terreno destinado à reconstrução.

Feito o negócio com um cortador profissional, procedeu-se de imediato ao corte,
A seguir virão as carradas de pedra e de areia que lhes permitirá fazer a base. Então
para que se saiba, o acordo ficou assim: a Astil, através de doações de alguns sócios e outros amigos mais sensabilizados que contribuiram expressamente para esta obra, suportará as despesas dos materiais, e os filhos e amigos da família Vitor oferecem a mão de obra. 

Foi-nos dito pelo filho Francisco que, se os materiais não faltarem, mais ou menos daqui a três meses a casa estará pronta, em condições de ser habitada.

Neste momento uma grande chuvada, com trovoada e tudo, está descarregando aqui, em Ailok Laran. Mas a grande árvore já está no chão, e acredito que a boa vontade dos que estão envolvidos neste caso irá fazer com que a obra avance. De todas as formas, cá estarei eu para impulsionar esta obra solidária e para vos transmitir as notícias relativas à mesma.

20.02.2019, quarta feira  - Notícias matinais

Depois da chuvada torrencial de ontem à tarde ficamos com alguma apreensão do que teria sucedido por este país fora. Logo de manhã, não tardaram algumas notíciasarrasadoras. Na estrada entre Tibar e Liquiçá, um avião bimotor, talvez um taxi do governo pois ostenta na sua cauda a bandeira timorense, está, aparentemente sem consequências trágicas, embatido, notando-se bem os estragos nas suas asas depois de uma aterragem forçada.

Em Comoro, na zona circundante da praia, um bis / bus ( pequeno autocarro que
transporta pessoas e bens para as terras mais distantes) foi arrastada pela corrente da ribeira Maloa, causando o pânico nos seus ocupantes e em todos os que de fora
presenciavam o acontecimento. A preocupação e a curiosidade de todos era saber se tinha havido vítimas e quantas. E perante tanta ansiedade o jornalista que comentava a reportagem informou: “não houve vítimas.” Houve, sim, um grande susto, e possivelmente a perda de alguns bens que, como bem sabemos, são transportados sem o mínimo de condições de segurança.

Pois é! Ninguém brinca com as forças da natureza... E todo o cuidado é pouco...


23.02.2019, sábado - A caminho de Boebau

Sempre que se toma a decisão de ir a Boebau há um certo frenesim e um nervoso
miudinho em preparar as mochilas e o meio de viajar. O mais comum é o “motor”
(motorizada). Mas tudo serve: motor, carreta, anguna... Só de avião ou de barco não se pode lá chegar.

Hoje a partida de Ailok Laran  [o  bairro de Díli onde o Eustáquio e a Adobe, e onde o Rui fica], pelas 16.00 horas, foi em três “motores”  [motorizadas];

Bartolo + Gaspar, Venâncio + Rui, Akesu + Adobe. 

Chegamos às 18.30 horas. Tivemos muita sorte, porque durante a viagem não choveu, coisa que aconteceu cinco minutos depois de arrivarmos. Tudo bem, embora convenhamos que, com setenta e dois anos em cima, esta viagens deixem as suas marcas e mazelas corporais. Vale-nos ao menos a boa vontade, mas vamos lá a ver até quando esta massa corporal suportará estas agruras.


Timor Leste > Liquiçá > Manati > Boebau > 2024 > Escola de São Francisco de Assis (ESFA) , que celebrou o  seu 6º aniversário (e o acesso, desde Díli também já melhorou)... Mas erguer paredes é sempre o mais fácil... É preciso agora assegurar o seu futuro... e essa tem sido a preocupação maior do Rui Chamusco e dos demais membros da ASTIL que apoiam e financiam o projeto (incluindo o pagamento do pessoal docente e auxiliar), bem da ASTILMB. Em 2019 ainda não havia a casa dos professores, o que já há.
 
Foto (e legenda): © Rui Chamusco (2024). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


23.02.2019 - Sabores e dissabores

O dia de hoje foi destinado particularmente a inteirar-nos da situação da escola, ouvindo alguns dos seus agentes para podermos tirar algumas conclusões que ajudem a resolver alguns conflitos. 

Não tem sido fácil tomar decisões, pois uma das partes não apareceu na reunião previamente convocada. Temos muitas questões a esclarecer, mas estou convencido que com a boa fé e a vontade de todos tudo se resolverá.

Neste momento, das 75 crianças inscritas só 40 crianças do ensino pré escolar frequentam a escola São Francisco. Todas as outras foram matriculadas na escola de Kilo, que é a escola mais próxima. Há uma certa revolta dos pais destas crianças porque se sentem enganadas. Disseram-lhes que esta escola era para os seus filhos, e afinal têm que frequentar a outra escola. Claro que a solução não está nas nossas mãos, ainda que procuremos junto de instituições e particularmente junto do ministério de educação timorense, ajuda e resolução destes problemas. 

Mas neste momento, a ASTILMB (ASTIL Manati / Boebau,  a ASTIL local) não tem capacidade para motivar e pagar a professores que queiram lecionar em Boebau. Ainda não podemos oferecer condições mínimas de habitabilidade a professores voluntários ou contratados

. A Escola de São Francisco de Assis tem o estatuto de ensino privado / particular. E embora estatutariamente contemple o ensino pré-escolar e o ensino primário (ensino básico), ainda não temos capacidade de resposta para todas as necessidades desta famílias e destes alunos.

Por outro lado, custa-nos a entender alguma ingerência do ensino público, na pessoa da professora Rita, no nosso ensino que é particular / privado. Ainda não percebemos porque aparece esta professora como coordenadora da nossa escola. Vamos tudo fazer por esclarecer esta situação.

Como se vê, há problemas em todo o lado. Compete-nos tudo fazer por resolvê-los... e encontrarmos soluções adequadas.

23.02.2019 - Amanhã é dia de festa...

Esta tarde há alguma azáfema em preparar a receção aos visitantes. Uma visita pré- anunciada e muito esperada: o Padre frei Fernando Alberto, provincial dos missionários capuchinhos em Portugal, o frei Tinoco, da fraternidade dos capuchinhos de Tíbar, e o Rui Pedro, comandante de fragata em serviço em Timor Leste,  vêm cumprir a promessa que me fizeram: visitar a Escola de São Francisco em Manati/ Boebau (ESFAMB).

Do programa consta a celebração da missa dominical, que aqui, por sorte, tem lugar uma vez por ano. Também a igreja abandona os seus fiéis. Porque o acesso é difícil; porque não há padre; porque... Razões esfarrapadas a quererem justificar atitudes comodistas.

Por isso amanhã será dia de festa, e tudo se prepara para que assim seja. Não há igreja, não há sinos a badalar, mas esta gente já espalhou a notícia por todo o ladoUm bom grupo de voluntãrios estão preparando devidamente o local. As canas enormes de bambú e as lonas que as sobrepôem já são visíveis. E amanhã de manhã se fará o resto.

(Continua)

(Revisão / fixação de texto, negritos, parênteses retos: LG)
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Notas do editor LG:

(**) Liquiçã, um topónimo doloroso: carrega uma forte carga simbólica e emocional para dois grupos diferentes: para os timorenses, como lugar de violência extrema no final da ocupação indonésia; para os portugueses, como um dos cenários da experiência traumática da ocupação japonesa durante a II Guerra Mundial.

(i) Para os timorenses (ocupação indonésia, 1975–2002)

Liquiçá (cidade e sede e município) tornou-se um símbolo de sofrimento sobretudo por causa do que aconteceu em 1999, já no fim da ocupação indonésia. A chamada Massacre de Liquiçá ocorreu em abril desse ano, quando milícias pró-indonésias, com apoio ou tolerância de setores das forças de segurança, atacaram civis que se tinham refugiado numa igreja. Houve dezenas de mortos (o número exato continua debatido, há quem fale em duas centenas), e o episódio ficou como um dos mais marcantes da violência que antecedeu o referendo de independência organizado pela ONU.

Esse período insere-se na mais vasta ocupação indonésia de Timor-Leste, que causou enorme destruição, deslocamentos forçados e perda de vidas. Por isso, Liquiçá permanece um lugar de memória dolorosa para muitos timorenses.

(ii) Para os portugueses (II Guerra Mundial, 1942-1945):

Durante a Segunda Guerra Mundial, Timor, terriotório sob administração portuguesa, foi invadido pelo Japão em 1942, apesar da neutralidade de Portugal. Em consequência da ocupação japonesa de Timor, militares portugueses e civis foram capturados e internados.

Liquiçá foi um dos locais onde existiram campos de internamento e onde passaram prisioneiros portugueses (e também outros, incluindo timorenses e aliados). As condições eram duríssimas ( fome, doença e trabalho forçado) e muitos não sobreviveram. Embora não seja o único local associado a esse sofrimento (Aileu é também lembrado pelo massacre de 1/10/1942, perpretado pelas "colunas negras"),

 Liquiçá também faz parte das nossas geografias emocionais.