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segunda-feira, 6 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27894: Notas de leitura (1911): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (2) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 2 de Dezembro de 2025:

Queridos amigos,
Tenho para mim que estas cartas entre pais e filhos, e as memórias que deixaram, possuem um natural encanto e abrem uma nova janela à investigação. Julguei à partida que se tratava de uma incursão original, acabo agora de saber, por email recebido do Dr. João Horta, da Biblioteca da Liga dos Combatentes que há investidas precedentes, a saber: «Nós, os filhos da Guerra» referente a memórias de Frederico Valarinho, Âncora Editora, e «Sobretudo a Agonia – Angola, Memórias de uma Guerra Íntima» da autoria de Celso Braga Rosa, Edições Afrontamento. O livro Querido Pai, ainda vai dar pano para mangas, depois atiro-me a estas duas obras aqui referidas. Se porventura o leitor conhecer mais iniciativas desta índole, peço-lhe a amabilidade de me indicar o título e a editora.

Abraço do
Mário



Olhe que o pai faz muita falta. Foi com a sua comissão que eu aprendi o quanto custa o estar longe e só e para nós o sofrimento não se compara com o seu – 2

Mário Beja Santos

Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975, por Ana Vargas e Joana Pontes, Tinta da China, 2025, é um livro arrebatador, profundamente terno, e, tanto quanto me é dado de saber, preenche uma lacuna no campo da investigação.

Damos seguimento às conversas já havidas com Albano Mendes de Matos e José Afonso da Silva Neto, entra agora na nossa sala de conversa Hernâni Pereira da Silva Anjos, foi oficial do Quadro Permanente, a filha mais nova, Alexandra, refere o pai como pessoa com grandes interesses culturais e intervenções literárias. Fala do casamento dos pais que se tinham conhecido na Índia, era então capitão, já tinha feito uma comissão em Macau. A filha não consegue encontrar a razão pela qual o pai ficou sete anos na Índia.

Hernâni é promovido a major e mobilizado para Angola, parte com a família em 1964. Quatro meses após o regresso a Angola é mobilizado para a quarta comissão, em Moçambique, a família já não o acompanha. Ao longo da comissão vai escrevendo à filha tratando-a sempre por “minha muito adorada filhinha”, diz coisas como estas: “Tu ainda te lembras de mim? Sabes como eu me chamo? Lembras-te das brincadeiras que eu tinha contigo? Sabes tu, minha filhinha, que eu ando com os vossos retratinhos no bolso e todos os dias os vejo várias vezes?” Hernâni adoece e é internado, o hospital militar deteta, na sequência de problemas de coração será evacuado para Lourenço Marques e depois para Lisboa. Quando chega, Alexandra é avisada na escola “Pego na pasta e já fui, de bata vestida. Cheguei e estava lá aquele homem, para mim era um estranho. É tudo relativo para uma criança, um ano é uma eternidade, quanto mais dois.”

Segundo a filha, o pai chegou a ser violento com a mulher, houve divórcio, o pai morreu depois de uma operação ao coração. Após a morte da mãe, Alexandra ficou com uma pequena caixa de madeira onde estão guardadas as cartas que os pais trocaram entre si. Alexandra não teve coragem para as ler.

Temos agora a história de Mário Umberto Faria pela narrativa de seu filho Paulo, escritor e tradutor. "Sempre Excelentes e Valorosos" são as palavras que definem a divisa do Batalhão de Caçadores 1939, constituído por 632 homens incluindo três médicos milicianos e um capelão. Um dos médicos é Mário Faria, o destino é Moçambique. Mário parte com 29 anos e deixa a família em Lisboa, três filhos pequenos e a mulher grávida.

A Companhia de Caçadores 1798, a que pertence Mário, parte para Muôco, Mário permanecerá em Moçambique 796 dias. Observa Paulo:
“O meu pai escrevia muito à minha mãe. E a minha mãe escrevia muito ao meu pai. Escreviam muito, talvez duas mil cartas e aerogramas. Pelo que a minha mãe me contou, ficou tudo guardado num saco, um saco enorme que estava na dispensa da casa onde nós morávamos. E, numa dada altura, mudámos para este prédio, onde hoje ainda moro. Nessa mudança, pelo que a minha mãe me contou, estavam a arrumar a casa e a certa altura a minha mãe apercebe-se de que o meu pai sai. Ele sai e ela tem um pressentimento e vai à dispensa ver o saco. O saco já não estava lá. O meu pai, sem dizer nada pôs o saco no lixo. O meu pai já devia ter decidido, na cabeça dele, que queria virar aquela página, não queria que ninguém visse aquilo.”

Segundo Paulo, o pai escrevia para todos sem distinção dos filhos, escrevia com muita frequência, e vai identificando sempre o lugar onde está e data a correspondência. Enumera os presentes que compra para os filhos, deles vai recendo notícias. Faz desenhos na correspondência. E o pai regressa, e Paulo rememora. Existe a história da unidade e Paulo conversou com os homens da Companhia a que o pai pertenceu.

Mário nunca falou a sós com o filho sobre a guerra. Voltando ao assunto da destruição das cartas, Paulo observa: “Ele deve ter contado coisas que o impressionaram muito, o suicídio do tal soldado, provavelmente ter-lhe-á contado a história da consulta que fez e dos seus remorsos… E, portanto, ele não queria que alguém fosse depois ler aquilo, queria contar a história à sua maneira, com distanciamento e com calma. Era uma pessoa que se controlava, um homem de ferro, só o vi comovido no funeral da mãe, foi a única altura.”

Paulo ficou com as agendas do pai, e assim pode ler que Mário vacinou centenas de nativos contra a varíola, anotava quantas unidades de vacina ele recebia na Companhia, e quando se deslocava aos aldeamentos para as administrar. Foi nessas agendas que Paulo soube do soldado que se suicidou. Mário escreveu na agenda, na circunstância: “Dia mais negro da comissão até agora. Sinto-me o mais infeliz dos homens por me ver metido nesta porcaria. Poderei vir a esquecer o dia de hoje?”. Mário nunca foi aos almoços de confraternização com os militares da sua Companhia ou do Batalhão. Paulo começou a ir após a morte do pai. Aquele médico, como muitos outros, estava numa posição sempre difícil, havia muita gente a querer que ele os livrasse de irem para o mato.

Quando a conversa termina, Paulo arruma as fotografias dispersas, reúne as agendas e os papéis que mostrara e diz às autoras: “A guerra, no fundo, foi uma maneira de chegar ao meu pai. Digamos assim, foi uma espécie de atalho. Quando o meu pai morreu, percebi que tinha de escrever sobre ele.”

Iremos seguidamente falar de Abílio Santiago Cardoso, oficial de artilharia, com três comissões e de Amável Velez Serra que se alistou como voluntário aos 19 anos de idade, concluiu a escola do Exército.

Ana Vargas e Joana Pontes
A família de Albano de Matos. A neta Inês, a mulher Judite e a filha Rita, assunto que se abordou no texto anterior, fotografia do jornal Expresso, com a devida vénia

(continua)
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Notas do editor

Vd. post de 30 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27872: Notas de leitura (1909): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (1) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 3 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27885: Notas de leitura (1910): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (9) (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 30 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27872: Notas de leitura (1909): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (1) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 25 de Novembro de 2025:

Queridos amigos,
Estou em crer que esta relação dos militares mobilizados para a guerra colonial com os filhos menores era campo não desvendado nos estudos da guerra colonial. Quero confessar desde já que é uma literatura arrebatadora, as autoras rendilharam à perfeição estes encontros com antigos combatentes e descendência. Como escreve Aniceto Afonso no prefácio: "As cartas entre pais e filhos, normalmente ainda crianças, levam e trazem emoções especiais e sentimentos íntimos que devemos olhar com delicadeza e compreensão. Fazer história obriga-nos a considerar também estes casos singulares das relações com as crianças, o que nem sempre é um caminho fácil." Um livro maravilhoso, vale a pena dissecá-lo, de fio a pavio. Recomendo-o sem qualquer hesitação, talvez seja uma ajustada prenda de Natal para os nossos netos, que não viveram nem viverão as ausências de que aqui se fala.

Um abraço do
Mário



Olhe que o pai faz muita falta. Foi com a sua comissão que eu aprendi o quanto custa o estar longe e só e para nós o sofrimento não se compara com o seu - 1

Mário Beja Santos

Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975, por Ana Vargas e Joana Pontes, Tinta da China, 2025, é um livro arrebatador, profundamente terno, e, tanto quanto me é dado de saber, preenche uma lacuna no campo da investigação. Há estudos sobre as mulheres e a guerra, sobre a correspondência entre namoradas, noivas e mulheres e os combatentes, as enfermeiras-paraquedistas, os capelães militares, diários de quem combateu em terra, no mar e nos céus, a correspondência das madrinhas de guerra, mas permanecia no limbo saber-se algo da relação dos militares mobilizados para a guerra colonial com os filhos menores que ficaram na metrópole ou vieram nascer na sua ausência. Como escrevem as autoras, em aerogramas escritos e desenhados, o militar vai desempenhando o seu papel de pai; os filhos, do seu lado, consoante a idade, vão respondendo da maneira que conseguem, por vezes com a ajuda das mães, dos irmãos ou de outros familiares. É este vai e vem de correspondência que nos abre um campo de reflexão muito particular sobre as ideias de família numa sociedade em mudança, a par dos valores e dos contextos sociais que marcaram uma época fundadora da história do país.

Como é evidente, as autoras apresentam uma amostra que porventura reflete perfeitamente as relações e os sentimentos desse tempo de ansiedade. E não deixam de anotar que pouco conhecemos sobre a correspondência trocada entre os homens que foram mobilizados para combater em África e as suas famílias e amigos – muitas surpresas terão os investigadores quando vasculharem o que já está em depósito no Arquivo Histórico-Militar e afins.

O pontapé de saída é dado por Albano Mendes de Matos, tinha 92 anos quando interpelado pelas autoras, estão presentes a mulher e duas filhas. Albano fez três comissões militares, parte para Angola no verão de 1961 e regressa da sua terceira comissão da Guiné no último avião que sai de Bissau, em outubro de 1974. Ao longo de 13 anos, registou datas, ocorrências, leituras, pessoas com quem se cruzava, pensamentos em relação ao que observava. Quando parte para a sua primeira comissão ainda não está casado, regista durante a viagem, e muito criticamente, as condições em que vivem os soldados amontoados nos porões. Nesta primeira comissão irá escrever à namorada e à família, perdeu-se a correspondência.

Regressa a Angola em setembro de 1963, é já 1.º sargento. Já nasceu a filha mais velha, tempos depois manda vir a família para junto de si, vivem em Piri. Às vezes, de madrugada, ouvem-se gritos. Diz Albano: “O quarto estava em frente do edifício da prisão. Os gritos, às três da manhã… aplicavam castigos aos trabalhadores contratados, davam palmatoadas e batiam com chicote.” A menina assustava-se. A meio da comissão vão para Santo António do Zaire.

Regressado a Lisboa, Albano faz vários cursos e é promovido a oficial a sua terceira e última comissão é na Guiné. A família fica, a filha mais nova é internada num hospital ortopédico. As filhas recebem correspondência do pai. Os aerogramas que Albano escreve à filha hospitalizada centram-se na saúde, nas intervenções cirúrgicas e no internamento:
“Querida Lúcia Para o mês que vem vais ao hospital e depois já falta pouco tempo para estares boa. Tens de ir e não chorar, que é para deixares a cama depressa.
Vou mandar a coleção dos cães. Depois pões num álbum e dizes que foi o pai que mandou quando esteve na Guiné. Muitos beijos do teu pai Albano.”


Ambas as filhas afirmam que o pai mandava muitas fotografias e telefonava. Albano escrevia de forma diferente para a filha mais velha. Faz uma leitura atenta do que a filha escreve e corrige-a, observando:
“A palavra aonde é um advérbio relativo, quer dizer movimento, para onde se vai; onde é advérbio relativo e significa que uma coisa está parada. Ambos dão ideia de lugar. Aonde vais?, quer dizer que uma pessoa vai em movimento. Onde estás?, quer dizer que uma pessoa está parada no lugar. Perguntas coisas que eu respondo.” Albano, como se disse atrás, regressará no último avião militar que deixa a Guiné, 14 de outubro de 1974: “Acabou-se o império ali. Depois comecei a pensar na gente que morreu, comecei a pensar nisso, chorei.” Nas suas notas escreve: “A um sentimento de alegria, por ter terminado a guerra colonial, e a alguma tristeza por naquelas terras ficar muito sangue português, juntava-se a vivência rara de ver nascer uma nação livre e independente.” Na despedida, Albano faz uma última confissão às autoras: “Passei anos a sonhar com a guerra. Nunca conseguia regressar. Ou me faltava a roupa ou me faltavam os sapatos.”

Zé Afonso da Silva Neto é a segunda história para contar. Quatro aerogramas, duas cartas com envelope, uma fotografia a preto e branco e uma folha de calendário do dia 5 de agosto de 1967 é tudo o que existe e testemunha a sua relação escrita que manteve com as três filhas enquanto esteve ausente na guerra. A maior parte da correspondência que trocaram ter-se-á perdido ao longo dos anos nas várias mudanças de casa. As autoras conversam com a filha mais velha, Isabel. José Neto era militar do quadro permanente, partiu para Macau em 1951, aqui conhece a mulher, casam ele com trinta anos ela com dezassete. Regressam de Macau e ficam em Leiria. Em 1962, parte para Angola, a mulher está grávida da segunda filha.

Quando regressa, vão viver no Bairro dos Sargentos em Leiria. A terceira comissão é em 1966, a terceira filha, Ângela, a quem o pai chama a Carochinha, tem um ano e três meses, Zé Neto vai para a Guiné. Deste tempo que a família sabe está contado num livro que o pai deixou no computador. José Neto não falou à mulher nem às filhas sobre as comissões. Esteve na Guiné de 1966 a 1968, o livro reproduz imagens dele em Guileje. Na Guiné afeiçoa-se a uma criança, filho de um oficial branco que estava na Companhia com uma miúda da aldeia. A filha Ângela observa às autoras: “Eu acho que o meu pai deu ao miúdo aquilo que não nos pôde dar. Era da minha idade, nasceu em 1965 e, portanto, o meu pai transportou para ele algum do amor que tinha para dar.”

Haverá dramas na unidade militar do José Neto, um soldado transtornado pegou numa arma e matou o capitão. Em 1970, José Neto parte para a quarta comissão, vai juntar-se ao BART 2896, em Cazombo, Alto-Zambeze. Ângela recebe uma carta do pai quando faz cinco anos. Envia-lhe também fitas com conversas e canções. José Neto regressa em 1971 para frequentar o curso de oficiais, vem muito magro e a sofrer de uma úlcera de origem nervosa. Isabel comenta para as autoras: “Para mal ou para bem, nós passámos por isto. Os nossos pais passaram por isto e eu acho que faz parte da história, que não se deve apagar da história de um país.” E a filha Ângela também comenta: “Até porque nós, filhos, uma parte de nós é como se tivéssemos uma tatuagem: o meu pai esteve no Ultramar e não cuidou de mim. Não pôde cuidar de mim como os outros pais puderam educar os outros filhos. Para o bem e para o mal, foi a pessoa mais importante nas nossas vidas.”

Ana Vargas e Joana Pontes

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 27 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27863: Notas de leitura (1908): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (8) (Mário Beja Santos)

sábado, 9 de agosto de 2025

Guiné 61/74 - P27104: In Memoriam (558): Dúnia Ivone Ramos Gonçalves (1976-2025), filha do nosso camarada Carlos Filipe Gonçalves, ex-fur mil amanuense, CefInt / QG / CTIG, Bissau, 1973/74): o funeral é amanhã, às16h00, no Cemitério da Várzea, Praia, Cabo Verde



1. Da página do Facebook de Ana Gonçalves, filha do nosso camarada Carlos Filipe Gonçalves, transcrevemos a seguinte mensagem:

Comunicado de Falecimento:

É com profundo pesar e imensa dor que a família comunica o falecimento de Dunia Gonçalves (@Nasha Gonçalves), vítima de doença prolongada, ocorrido hoje na Cidade da Praia.

Deixa o seu filho Rafael Lopes, os pais Ana Gonçalves e Carlos Filipe Gonçalves, as irmãs Monika e Ana Carla, sobrinhos, cunhado e demais familiares, que com grande tristeza partilham esta notícia.

O velório realiza-se na segunda-feira, 11 de agosto, no salão da Igreja do Nazareno, no Platô, Praia.

O funeral terá lugar no mesmo dia, pelas 16h00, no Cemitério da Várzea, com partida do salão da Igreja do Nazareno pelas 15h00.

A família agradece desde já todas as manifestações de apoio e solidariedade neste momento de luto.




A Dúnia é a primeira, da esquerda.
Foto: Ana Gonçalves (2025).
(Com a devida vénia...)




2. Outro excerto da página do Facebook da Ana Gonçalves:

(....) Éramos 3 ... sempre juntas que até misturávamos os nossos nomes, vou ser sempre a tua MoAna,  como dizias quando querias me chamar mas chamavas primeiro a Monika ...

Já não vou ouvir a tua voz na rádio nem nas publicidades.

Não vais ver o Francisco (txukin) e a Catarina (txorona) a crescerem.

Eu sei que lutaste ... agora descansa ... vou ter muitas muitas saudades. (...)



3. Nota do editor LG:

Carlos Filipe Gonçalves, nosso antigo camarada na Guiné (foi fur mil amanuense, CefInt/QG/CTIG, Bissau, 1973/74), é uma figura pública no seu país, Cabo Verde: radialista, jornalista, escritor, etnomusicólogo...  

Natural do Mindelo, vive na Praia. É autor, no nosso blogue, da série "Recordações de um furriel miliciano amanuense (Chefia dos Serviços de Intendência, QG/CTIG, Bissau, 1973/74) (Carlos Filipe Gonçalves, Mindelo)"

Ainda recentemente escreveu aqui, em poste de 5/7/2025:

(...) "50 anos depois, estou aposentado. Casado, tenho três filhas (49, 47 e 41 anos de idade), quatro netos (26, 18, 3 anos, neta recém nascida com um mês e meio). Vivi a grande aventura do depois da «Independência»… no que me concerne, já escrevi como vivi e o que se passou na história recente da rádio (livro ainda não publicado) e também já escrevi sobre a história da rádio no antes da Independência (um dos livros já publicado, o 2.º à espera de ser editado).

"E para completar, já escrevi o que vi e vivi na Guiné de 1973 a 1975, porque memórias de cabo-verdiano de ambos os lados, na Guiné, antes e depois das Independências, também precisam ser conhecidas". (..:)

Sabíamos que tinha a filha mais velha, Dúnia, de 49 anos, no hospital, na Praia, a lutar contra um cancro da mama. Ainda ontem, e sem ter notícias dele desde 28 de julho passado, lhe mandei às 23:21 a seguinte mensagem:

(...) "Carlos: (...) quero saber como tem evoluído o estado de saúde da tua filha. Imagino quanto ela e a vossa família estão a sofrer. Estou solidário contigo. Não sei rezar, mas espero que os deuses e os bons irãs a protejam e a salvem. Um abraço fraterno, Luís." (...)

Esta manhã soube pelo Zeca Macedo do desfecho fatal: nem os deuses nem os bons irãs salvaram a Dúnia. Para a família, destroçada, do nosso camarada de Cabo Verde, Carlos Filipe Gonçalves, pai, mãe, filho e irmãs da Dúnia, e demais família e amigos íntimos, vão os votos de pesar da nossa Tabanca Grande. Os filhos dos nossos camaradas nossos filhos são. (*)

Foto à esquerda: o nosso camarada, Carlos Filipe Gonçalves, em 8 de agosto de 2014, com a filha mais velha, Dúnia: "Estou feliz e orgulhoso! Coloquei hoje a fita na minha filha Dunia, finalista do curso de Comunicação Social. Parabéns Dunia! Cerimonia esta tarde na UNIPIAGET".


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Nota do editor:

Último poste da série  > 29 de julho de 2025 > Guiné 61/74 - P27066: In Memoriam (557: Rita Mascarenhas (1978-2025), filha do nosso camarada José Rodrigues (ex-fur mil trms, CCAÇ 1419, Bissau, Bissorã e Mansabá, 1965/67): o velório terá lugar na 5ª feira, dia 31, a partir das 12 horas na Igreja Paroquial da N. Stra. do Cabo, Linda-a-Velha; às 16 horas haverá missa de corpo presente, seguindo o funeral, às 16.30, para o crematório do cemitério de Barcarena

terça-feira, 29 de julho de 2025

Guiné 61/74 - P27066: In Memoriam (557: Rita Mascarenhas (1978-2025), filha do nosso camarada José Rodrigues (ex-fur mil trms, CCAÇ 1419, Bissau, Bissorã e Mansabá, 1965/67): o velório terá lugar na 5ª feira, dia 31, a partir das 12 horas na Igreja Paroquial da N. Stra. do Cabo, Linda-a-Velha; às 16 horas haverá missa de corpo presente, seguindo o funeral, às 16.30, para o crematório do cemitério de Barcarena


Rita Mascarenhas (1978- 2025)


"O FUNERAL DA RITA

ATENÇÃO CAMARADAS

Acabo de ser informado pelo Zé Rodrigues que as cerimónias fúnebres da sua Filha têm lugar amanhã, quinta-feira, dia 31.

O velório terá lugar a partir das 12 horas na Igreja Paroquial da Nossa Senhora do Cabo, em Linda-a-Velha.

Às 16 horas haverá missa de corpo presente, seguindo o funeral, às 16.30, para o crematório do cemitério de Barcarena.

30/7/2025, 18h00, Manuel Resende.






José Rodrigues, ex-fur mil trms, CCAÇ 1419 / BCAÇ 1857 (Bissau, Bissorã e Mansabá, 1965/67), nosso grão-tabanqueiro nº 689 (desde 28 de maio de 2015); é também membro da Magnífica Tabanca da Linha; vive em Belas, Sintra; ten página no Facebook.


1. Escreveu o Armando Pires, um dos administradores da página do Facebook da Magnífica Tabanca da Linha, ontem às 22h06:


"Não há dor maior do que a dor de perder um filho.

"O nosso camarada Zé Rodrigues está a viver esse doloroso momento.

"Morreu a Rita, a sua filha, e filha da Dona Maria de Lourdes.

"Permitam-me uma nota pessoal. Conheci a Rita, conheço a Dona Lourdes. O Zé Rodrigues, mais do que meu camarada de armas, é um Amigo maior. Quero com eles partilhar tão angustiante perda." (...)


2. A Tabanca Grande junta-se à Tabanca da Linha para exprimir ao Zé Rodrigues, à Maria de Lurdes Mascarenhas e demais família e amigos íntimos  a sua solidariedade na dor.

Fomos todos surpreendidos com esta brutal notícia. Nenhum de nós está preparado para lidar, emocionalmente, com a perda de um filho ou neto. É uma dor lancinante

Guardemos da Rita Mascarenhas (1978-2025), aqueles que a conheceram e com ela tiveram o privilégio de conviver em vida, as nossas melhores lembranças. E os que puderem, estejam na cerimónia da sua despedida da Terra da Alegria, no local e na data que aqui divulgaremos oportunamente.

Luís Graça

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 12 de julho de 2025 > Guiné 61/74 - P27009: In memoriam (556): Texto de homenagem, de Santos Narciso, a José Henrique Álamo Oliveira (1945-2025), escritor, romancista, poeta, autor e ensaiador de teatro (José Câmara, ex-Fur Mil Inf)

quarta-feira, 19 de março de 2025

Guiné 61/74 - P26597: Manuscrito(s) (Luís Graça) (267): No dia do pai... Aos nossos pais, nossos velhos, nossos camaradas... a quem nunca tratámos por tu



Luís Graça, Quinta de Candoz (2011)



Gâmbia > Bathurst > 1953 > Comemorações da entronização da Rainha Isabel II, de Inglaterra (n. 1926) > Foto da seleção de futebol da Província Portuguesa da Guiné:

(i) De pé, da esquerda para a direita, Antero Bubu (Sport Bissau e Benfica; capitão), Douglas (Sport Bissau e Benfica), Armando Lopes (assinalado a vermelho,  pai do nosso amigo Nelson Herbert) (UDIB), Theca (Sport Bissau e Benfica), Epifânio (UDIB) e Nanduco (UDIB); 

(ii) de joelhos, também da esquerda para a direita: Mário Silva (Sport Bissau e Benfica), Miguel Pérola (Sporting Club de Bissau), Júlio Almeida (UDIB), Emílio Sinais (Sport Bissau e Benfica, Joãozinho Burgo ( Sport Bissau e Benfica) e João Coronel (Sport Bissau e Benfica).

No 1º jogo, a seleção da Guiné ganhou à seleção da Gâmbia por 2-0, com golos de Joãozinho Burgo (falecido há 6 anos em Portugal 22/1/2019); no 2º jogo, as duas seleções empataram 2-2 (com golos, pela Guiné, de Mário Silva e Joãozinho Burgo). Antiga colónia inglesa, a Gâmbia acederá à independência em 1965.

Legenda de João Burgo Correia Tavares: vd. livro Norberto Tavares de Carvalho - "De campo a campo: conversas com o comandante Bobo Keita", Porto, edição de autor, 2011, p. 4

Armando Lopes (também conhecido como o "Búfalo Bill") fez o seu serviço militar no Mindelo, São Vicente, Cabo Verde, em 1943, na altura em que também lá estava, como expedicionário, o meu pai, meu velho e meu camarada, Luís Henriques; ambos nasceram em 1920 e,  naturalmenmte, já faleceram os dois, o meu, em 2012, o pai do Nelson Herbert,  em 2018. Ambos tinham igualmente uma paixão pelo futebol... 

Foto: © Armando Lopes / Nelson Herbert (2010). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].

Foto (e legenda): © Hélder Sousa (2013). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Cabo Verde > Ilha de São Vicente > Mindelo > Ângelo Ferreira de Sousa (1921-2001), pai do nosso camarada Hélder Sousa, natural de Vale da Pinta, Cartaxo, ex-1º Cabo n.º 816/42/5, da 4ª Companhia do 1º Batalhão de Infantaria do RI. 23... Tem a data de 18 de Outubro de 1943 e na legenda refere ser "recordação de S. Vicente"                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                        Foto (e legenda): © Hélder Sousa (2013). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

Cabo Verde > Ilha do Sal > Pedra de Lume > 1º Batalhão Expedicionário do RI 11  (Setúbal) > 1ª
Companhia > 1942 > 
 pai do nosso camarada Augusto Silva Santos.


Foto (e legenda): © Augusto Silva Santos  (2017). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas daGuiné]







Cabo Verde > Ilha de São Vicente > Mindelo > 1942 > "No dia em que fiz 22 anos, em S. Vicente, C. Verde. 19/8/1942. Luís Henriques " [, 1º cabo inf, 3º Companhia, 1º Batalhão, RI 5, Mindelo, São Vicente, Cabo Verde, 1941/43, entretanto integrado no RI 23]. Nasceu (1920) e morreu (2012) na Lourinhã.

Foto (e legenda): © Luís Graça (2013). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas daGuiné]



Cabo Verde > Ilha de São Vicente > Mindelo > RI 23 >  c. 1941/44 > RI 23 >  O sold aux enf, Porfírio Dias (1919-1988), 1º Batalhão Expedicionário do Regimento de Infantaria nº 5, que partiu para Cabo Verde no T/T Mouzinho em 18/7/1941, juntamente com o Luís Henriques (ambos eram do mesmo regimento e batalhão). Esteve lá dois anos anos e dez meses.



Foto (e legenda): © Luís Dias (2012). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]




1. Os nossos pais, nossos velhos, nossos camaradas... teriam mais de 100 anos, se fossem vivos... No Dia do Pai, dá-me uma saudade danada... 

Lembremo-nos deles... Tal como os nossos filhos se lembram de nós, agora tratando-nos por tu:

 "Obrigado, pai, por tudo o que me tens dado (...). Gosto muito de ti e quero-te cá por muitos mais anos. A tua inteligência, empatia e  jogo de cintura, quero levá-los sempre comigo" (...). 

Escreveu o meu filho no dia de hoje. Espero que vocês, camaradas,  também tenham recebido palavras bonitas como estas... Nêm têm que ser verdadeiras, apenas bonitas. E sobretudo reveladoras da gratidão filial. Para eles, seremos sempre os melhores pais do mundo... Eu gosto que eles me tratem por tu... Desde sempre.


Tuteio ou tratamento por tu

por Luís Graça

Aos nossos pais, nossos velhos, nossos camaradas...


Fiquei com pena da fräulein Tina Kramer, antropóloga,
entretanto entronizada como  nossa tabanqueira,
a quem, chegada da austera e luterana Germânia,
lhe impuseram o tratamento por tu,
como se fora uma praxe de gangue.

Depois desta receção da Tabanca Grande,
ela deve ter ficado confusa, quiçá perturbada e até intimidada,
ao pensar que os camaradas da Guiné,
antigos combatentes,
são todos uma cambada de velhos malucos
a quem saltou a caixa dos pirolitos...

"Portugueses, pocos, pero locos"
(diria ela se fosse uma altiva castelhana,
daquelas que vinham casar com príncipes portugueses,
futuros donos de Portugal, dos Algarves e de além-mar em África,
na mira de acertar em cheio no jackpot)...

Tu próprio detestavas a palavra fräulein,
nunca trataste nenhuma colega ou amiga alemã por fräulein...
Podes a estar a ser injusto, mas tem, para ti, 
uma conotação pejorativa, prussiana, militarista...
Como teria se tu a tratasses por menina Tina Kramer,
como nos bons velhos tempos do Portugal dos nossos pais e avós
Ao menos, tratemo-la, não por miss (cheira-te a babydoll)
mas por bajuda,
que é mais doce, mais crioulo, mais luso-tropical…


E tu Zé Belo, luso-lapão, agora "amaricano",
sujeito a ser deportado pelo Tio Sam,
tuga da diáspora outrora na terra 
onde o cidadão tratava o cidadão por tu....
bem sabes que não foi preciso fazermos uma revolução
à moda dos sovietes de Petrogrado,
nem do Grande Irmão Urso Sueco,
nem dos Camaradas (salvo seja!) do PAIGC, do MPLA ou da FRELIMO...
(Lembram-se das milhares de anedotas
que se contavam do camarada, salvo seja!, Machel,
e da sua mania de reeducar e recuperar o diabo branco colonialista
com o trabalho manual na machamba?!)...

Com o 25 de Abril,
a distância social e afetiva,
a começar na família, entre pais e filhos,
foi encurtada,
e o tratamento por tu impôs-se sem ser por decreto...

Com tanta naturalidade (ou só aparente ?)
que a gente nem sequer se questiona hoje
sobre o quando, o como e  o porquê...
(Alguns questionam-se, e têm toda a liberdade para o fazer,
viva a liberdade que só pode ser livre.)

Em contrapartida, foi retomado
(ou nem sequer foi interrompido)
o tratamento, tradicional,
aparentemente mais distante e formal, de você,
de pais para filhos,
de esposa para esposo,
em certas famílias,
em certos meios sociais
(que tu não vais adjectivar,
porque não gostas de adjetivar os outros,
e fazes um esforço por respeitar todas as diferenças,
mesmo as mais difíceis de engolir).

O tecido social é isso mesmo,
é um pano, de trapos, de linho, de algodão, de serapilheira, de seda,
que se puxa conforme o frio, as pernas e as mãos,
as chagas, as misérias e as grandezas de cada um…

Os nossos filhos, pelo menos os teus, tratam-nos por tu,
mas tu tratavas os teus pais à moda antiga...
quando eles ainda eram vivos.
Ainda eras do tempo do respeitinho-que-era-muito-bonito!

Há algum mal nisso,
nessa coisa dos filhos tratarem agora os pais por tu ?
São apenas mudanças de paradigma
na convivialidade sociofamiliar,
diria o sociólogo de serviço, que já não há,
descartado pela mãe de todas as crises...

Tu, o Hélder Sousa, o Nelson Herbert,
o Luís Días, o Augusto Silva Santos,
foram capazes de tratar os vossos velhos,
o Luís Henriques  (1920-2012),
o Ângelo Ferreira de Sousa (1921-2001),
o Armando Lopes (1920-2018),
Porfírio Dias (1919-1988),
o Feliciano Delfim Santos (1922-1989),
veteranos da II Guerra Mundial,
expedicionários em Cabo Verde,
com a ternura da expressão
“Meu pai, meu velho, meu camarada”

Liberdades ou libertinagens bloguísticas, 
dirão os sisudos dos  críticos…
Daqui a uns anos
(esperas bem que não, cruzes canhoto!...)
voltaremos a tratar-nos com distância e reverência,
quiçá por Vossa Senhoria,
meu fidalgo, meu amo,
como no tempo da(s) outra(s) senhora(s)…

Tu sabes que o tratamento por tu,
republicano, económico, frugal, com duas letrinhas apenas,
o tratamento à romana na Tabanca Grande,
nem sempre era fácil nem natural, em 2004/2005,
quando começámos a blogar
para mais num país, ainda bastante estratificado,
em que se continuava a usar e a abusar dos títulos,
nomeadamente no Estado, nas empresas e demais organizações,
onde o trabalho era pouco e a distância grande,
tão grande como a rede clientelar:
senhor presidente, senhor doutor, senhor engenheiro, senhor prior...

Nunca foi nem o é ainda hoje:
tiveste a prova disso, há uns anos atrás
,
numa das memoráveis quartas feiras
do almoço semanal da 
Tabanca de Matosinhos,
quando cumprimentaste um a um a meia centena de convivas...
Boa parte, já teus velhos conhecidos e amigos...
mas ainda havia gente que se retraía,
invocando a educação que tiveram,
o desconhecimento do outro,
a falta de intimidade e de convívio,
a distância física (sempre são 300 km entre Lisboa,
a capital do reino,
onde o Paço tem Terreiro,
e o Porto é a capital do trabalho,
onde o povo tem o São João e o alho porro)...

Quando impuseste  (passe o termo...)
o tratamento por tu no blogue,
entre camaradas da Guiné,
quiseste  deliberadamente fazer o curto-circuito
entre as distâncias militares, hierárquicas, do passado
e as eventuais distâncias sociais e profissionais, do presente...
Hoje consideras uma honra poder ser tratado por tu
por um camarada da Guiné,
independentemente do antigo posto,
da idade, da naturalidade, da nacionalidade, da cor da pele,
ou da atual posição na sociedade portuguesa...
E vice versa:
consideras um privilégio poder tratar por tu
um homem ou uma mulher
que aceitam os valores e as regras do jogo do nosso blogue...

Há sobretudo uma cumplicidade (saudável) entre nós,
que não seria possível se aqui, no blogue
e nos convívios da Tabanca Grande,
e das demais tabancas que entretanto foram aparecendo,
se a gente continuasse a tratar-se 
como em casa, na escola, na tropa, no parlamento:
"Sua benção, meu pai, meu amo...
"Dá-me licença, vossa senhoria, meu capitão ?...
"Como vai, senhor Doutor ?...
"Vossa Excelência, senhor engenheiro,
permite-me que eu discorde da sua douta opinião ?
"O meu furriel é que sabe,
mas o vagomestre é que dormia com a mulher… do Baldé
quando o Baldé ia para a Ponte do Rio Udunduma...
"E, você, nosso instruendo, ó sua besta quadrada,
não sabe que a Pátria é hermafrodita,
é pai e mãe ?
"Ó meu tenente,
é mais do que isso, é Pátria, é Mátria, é Frátia!"...

Para que o tu continue a escrever-se com duas letrinhas apenas,
o tu de pai, de tuga, portuga, 
irmão, cidadão…
o tu de companheiro, camarada, amigo, 
O tu do abraço, do alfabravo, do quebra-costelas,
o tu de Tango Uniform...
e não se torne o tu
de intumescência, da tumefacção, 
da turbulência, da estupidez, da intolerância…
nestes dias de Charlie Romeo India Sierra Echo,
da CRISE que continua dentro de momentos...

 ©  Luís Graça (2012). (**)

Revisto em 19/3/2025, dia do Pai...
___________

segunda-feira, 10 de março de 2025

Guiné 61/74 - P26569: (In)citações (263): Palavras de homenagem e de agradecimento da família do Valdemar Queiroz da Silva (1945-2025): "Perdi um pai mas encontrei muitos tios! (José da Silva) | "Pai, como você diria de uma forma muito teatral, no final de uma boa garrafa de vinho: Deste..? Deste já não há mais! " (Maaike da Silva)






1. Mensagem José da Silva, filho do nosso já saudoso e sempre querido Valdemar Queiroz (1945-2025) (*), seguida do texto que a esposa, neerlandesa, Maaike da Silva, leu na cerimónia fúnebre, no sábado à tarde, no Cacém (**):


Data - domingo, 9/03/2025 23:18  

Boa noite,  sr. Graça.

Escrevi um pequeno texto de agradecimento que, se possivel, gostava que publicasse no blog.
Repito os meus agradecimentos pelos ultimos dias, sr. Graça.
Cumprimentos,
Zé da Silva


Caros camaradas,

Alguém deve de ter dito um dia que quando algo perde, algo de novo se encontra. Essa é a ideia com que fiquei dos atribulados e emocionantes dias que se passaram. As palavras que foram chegando através de emails, mensagens e dos diversos post no blog da Tabanca Grande, deram força e acima de tudo transmitiram uma amizade por parte dos camaradas do meu pai. 

Durante a cerimónia funebre de sábado dia 8 de março, um camarada disse (e peço desculpa mas não me recordo quem foi...) " Desde que nos lembramos de alguém, esse alguém está sempre presente", e é assim que o meu pai estará sempre presente. Basta nos lembrar dele. 

Contaram-se histórias e aventuras ( eu nem sabia que o meu pai tinha veia para locutor de rádio....) mas tenho que confessar do que mais gostei de ouvir foi o orgulho que o meu pai tinha do seu filho e especialmente dos seus netos.

Perdi um pai mas encontrei muitos "tios"!

Muito, muito obrigado por parte do filho, da nora e dos netos do Valdemar Queiroz.

Bem haja a todos e ficou a promessa de um até uma próxima oportunidade.


2. Texto da esposa do José da Silva, Maaike da Silva:


Meu querido pai,

Sento-me aqui em Colares a olhar para o salgueiro chorão que está aqui em frente à casa. O salgueiro chorando como metáfora para a montanha-russa dos últimos dias. Sinto-me especialmente triste pelo período difícil que teve. Mas,  quando olho atentamente para os ramos do salgueiro chorão, vejo a nova vida de uma primavera se aproximando e, ao mesmo tempo, também sinto gratidão pelos anos que pude conhecê-lo. 

Muitas lembranças passam pela minha mente. Lembro-me do nosso primeiro encontro, do casamento com o seu filho e do leitão que levou na bagagem de mão no avião. Uma bela história que continua a ser contada anos depois. Memórias dos primeiros anos, quando as crianças ainda eram pequenas. 

Que avô orgulhoso você sempre foi para nossos filhos, fez quilómetros de material de filme e fotos durante as férias . O suficiente para nos enviar nos meses seguintes. 

Lembro-me dos anos em que se sentava à nossa mesa com a mãe e a avó Joana durante a época natalícia. Belas lembranças ..... 

As histórias e anedotas que você poderia transmitir como nenhum outro. Os guardanapos que foram dobrados em tops de biquíni. Isso para a grande hilaridade dos netos e de nós.

 Apesar de a sua saúde se ter deteriorado ao longo dos anos, manteve-se positivo. Mesmo quando já não podia estar connosco durante as férias, que grande tristeza e perda. A sua forma de se manter em contacto connosco, enviando emails com vídeos da história de Portugal, fotos e filmes de seus netos que você fez durante a temporada de Natal e férias. Sempre em contato,  sem raiva e deceção. Isto apesar de também ter dado tristeza por a distância ser tão grande. 

Sempre cheio de interesse pelos netos, especialmente quando você tem um smartphone, o contato entre você e os netos se tornou mais rápido e fácil. Nos anos seguintes quando as crianças cresceram e puderam ir para Portugal de forma independente e visitar os avós. Você poderia viver e reviver essas tais visitas por meses. 

Muitas vezes desejei e esperei que fosse diferente, que pudéssemos viver mais juntos. No entanto, a vida correu de outra maneira. O lar é onde está o coração e você sempre estará no meu coração. 

Pai, vou sentir sua falta. Levamos as histórias e memórias connosco para a memória coletiva da Família da Silva. E,  para terminar como você diria de uma forma muito teatralmente no final de uma boa garrafa de vinho: "Deste..? Deste já não há mais!"

Boa viagem meu pai

Até nos encontrarmos novamente
muitos beijinhos, tua filha Maaike.


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Notas do editor:

(*) Vd. postes de:



quinta-feira, 20 de junho de 2024

Guiné 61/74 - P25665: Para bom observador, meia palavra basta (4): Partidas e chegadas... no Cais da Rocha Conde de Óbidos (Fotos do álbum de João Sacôto, ex-alf mil, CCAÇ 617 / BCAÇ 619 (Catió, Ilha do Como e Cachil, 1964/66), comandnate da TAP reformado... e pai da "prquens (em 1964) Pula Cristina


Foto nº 1A



Foto nº 1


Foto nº 2



Fotoo nº 3


Foto nº 4



Foto nº 4 
 
Fotos do álbum do João Sacôto, ex-alf mil, CCAÇ 617 / BCAÇ 619 (Catió, Ilha do Como e Cachil, 1964/66)

Fotos (e legendas): © João Sacôto (2019). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1. Esta sequência (Fotos nºs 1, 2, 3, 4 e 5)  mostra uma criancinha que vem à Gare Marítima Rocha  Conde de Óbidos (e não à Gare Marítima de Alcântara!) para se despedir do pai, que parte para a guerra (Foto nº 1). 

Vem pela mão do avô (Foto nº 1A). A criança era uma menina, Paula Cristina, fazia 2 aninhos nesse dia 8 de janeiro de 1964. Que prenda de aniversário, que crueldade, levarem-lhe o pai para a guerra, logo nesse dia... 

Seráque ela se lembvra ? É de todo improvável. Hoje, advogada, tem 62 anos.

O pai é o nosso amigo e camarada João Sacôto, ex-alf mil  da CCAÇ 617 / BCAÇ 619 (Catió, Ilha do Como e Cachil, 1964/66). Viria a trabalhar depois como Oficial de Circulação Aérea (OCA) na  Direção Geral de Aeronáutica Civil (DGAC).  E seria, entretanto, piloto e comandante na TAP, tendo-se reformado em 1998. Fez anos há dias anos. E continua a viajar e a ter o ar de quem é feliz e gosta de viver. 

Membro da nossa Tabanca Grande desde 20/12/2011, é autor de uma notável série, o "Álbum Fotográfico de João Sacôto", donde selecionámos estas fotos...

Vemo-lo, na foto nº 3, a descansar à entrada de uma morança, na ilha de Infanda, setor de Catió. Seguramente a pensar na pequena  Paula Cristina, que deixara na metrópole e que só voltaria  a abraçar em agosto de 1965, nas férias... 

Regressa, por fim, a casa, embarcando no  T/T Uíge (Foto nº 4). Reune-se por fim com a família (Foto nº 5): a sua Paula Cristina já tinha 4 anos... (Será que ela ainda se recorda deste dia ? Pouco provável, com essa idade), 

Enfim, uma história com um final feliz, a avaliar,  de resto, pelos caminhos que o João Sacôto seguiu, e ele e os companheiros, oficiais millicianos da CCAÇ 617, aqui à mesa noT/T Uíge, no cruzeiro Bissau-Lisboa,  (Foto nº 4): da esquerda para a direita (legedenda de 2019):

 (i) alf mil Farinha (era arquiteto, já faleceu):

 (ii) alf mil Santarém (foi professor liceal na Guarda);

 (iii) alf mil Gonçalves (foi industrial de plásticos); 

(iv) alf mil Sacôto (foi comandante da TAP); 

(v) alf mil Monteiro, de outra unidade, que não a CCAÇ 617).... 

Recorde-se que a CCAÇ 617 / BCAÇ 619, partiu para o CTIG em 8/1/1964 e regressou a 9/2/1966, tendo sido comandada pelo cap inf António Marques Alexandre. Esteve em Bissau, Catió e Cachil.

No meio desta sequência, há demasiada informção que escapa a um observasor, mas não a um "bom observador... Por exemplo:

(i) quem é que assistia às partidas (e chegadas) de contingentes militares para o Ultramar ? Claro, as autoridades, civis e militares  (a começar, pela PSP, PM, PIDE,  força de segurança militar,  etc.),  e que ficavam estacionadas ou deambulando pelo cais;

(ii) o público, em geral,  era acantonado no primeiro andar da gare marítma,  no varandim, donde acenava para os soldados que iam embarcando;

(iii) o embarque era uma operação morosa: em geral, um oficial superior (um oficial general, em representação do ministro do exército)  passava revista às tropas em parada (na Av Brasília, paralela à Av. 24 de Julho); havia fanfarra e desfile das forças em parada; as individualidades militares em terra faziam continência (devia ser uma seca, pensavam uns e outros); havia um discurso de despedida; e depois os militares encaminhavam-se para o cais de embarque e iam subindo o portaló do navio enquanto acenavam  para os que ficavam em  terra; os familiares acenavam do varandim (e, alguns do cais, devidamente separados por grades de segurança); as escada de embarque da AGPL - Administração do Porto de Lisboa eram, entretanto,  retiradas com o auxílio de grua;

(iv) por fim, soltavam-se as  amarras e o navio zarpava, apitando três vezes; para trás ficava a ponte sobre o Tejo (inaugurada em 1967), o o Cristo Rei,  o casario da cidade;

(v) em geral, as partidas, eram de manhã,  e havia lenços  brancos e muitas lágrimas incontidas na pequena multidão que tinha o privilégio de se ir despedir de familiares e amigos (raramente se mostram grandes planos com as lágrimas da partida;  no regresso, a censura já deixava passar as lágrimas de alegria...); maior parte dos militares não tinha lá ninguém, que nesse tempo Lisboa era longe do Porto, de Bragança, de Beja ou de Faro...

(vi) na RTP Arquivos podem ver-se dezenas e dezenas de vídeos, a preto e branco, sem som, peças de reportagem que passavam no Noticiário Nacional...Ao longo da guerra, longa de 13/14 anos  (1961/75), estas cenas tornaram-se banais, mas eram quase sempre passadas no Cais d Rocha Conde de Óbidos (onde partiam e chegavam os navios das carreiras de África, incluindo os T/T, Transportes de Tropas), e não do Cais de Alcântara (reservadas aos navios transatlânticos, que faziam as carreiras das Américas);

(vii) por fim, parece que faltam aqui as senhoras do Movimento Nacional Femino (já deviam ter aparecido antes da pequenina Paula Cristina que, com o avô, acenava para o pai já embarcado): distribuíam cigarros, medalhinhas de Nra. Sra. de Fátima, sorrisos, e votos de coragem, ânimo, boa sorte e bom regresso...

Fica, para o "bom observador", a oportunidade de comentar o que muito bem entender (*).. Votos de saúde e longa vida para o nosso veterano João Sacôto.

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Nota do editor:

(*) 12 de junho de 2024 > Guiné 61/74 - P25634: Para Bom Observdor, Meia Palavra Basta (3): O morteirete 60 mm, m/968, da Fábrica de Braço de Prata (FBP), e outras curiosidades...