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segunda-feira, 18 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28035: Notas de leitura (1925): "Estranha Guerra de Uso Comum" de Paulo Faria; Ítaca, 2016 (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 21 de Janeiro de 2026:

Queridos amigos,
É um romance excecional, creio que abre uma janela de originalidade. Estamos habituados a romance, novela, conto, digressão memorial, de antigos combatentes e não só, reportagens e biografias de largo espectro, abarcando enfermeiras paraquedistas, correspondência entre pais e filhos durante a guerra, estudos sobre as mulheres dos combatentes, filhos de combatentes que ficaram em África, que um dos nossos confrades deu o epíteto de filhos do vento, madrinhas de guerra, e algo mais. 

Desta feita, e sabe-se lá com que cunho autobiográfico, Paulo Faria, um tradutor conceituado, vai organizar uma viagem com cartas ao pai e entrevistas a dez militares que conviveram com este alferes miliciano médico em vários pontos de Moçambique. 

É um tremendo confronto numa sala de espelhos entre a memória do pai e da família e o que dele pensaram militares que partilharam as agruras, desventuras, descobertas, afetos e até confrontos na cadeia do comando. Uma trama de cunho universal, qualquer um de nós terá convivido com o todo ou as partes daquelas dez entrevistas. Quando o Dr. António Silveira morreu, o filho foi em busca da guerra dele e também da sua. Foi ao fundo do fundo, cumpriu-se o dever de memória e há mistérios tão densos como verdades que não devem ser interpeladas. De leitura obrigatória, é uma joia literária.

Um abraço do
Mário



Quis saber mais sobre o meu pai, alferes miliciano médico em Moçambique:
Este livro é a minha busca da guerra dele e também da minha


Mário Beja Santos

Paulo Faria
Quando procuramos o âmbito deste subgénero literário que designamos por literatura da guerra colonial, é possível incluir o romance, a poesia, a novela, o testemunho memorial do combatente, a vasta historiografia sobre as três frentes ou a visão de conjunto, a análise sobre os intervenientes feitos por terceira pessoa que estudam a enfermeira paraquedista, as tropas africanas que combateram ao lado das portuguesas, e podemos igualmente enxertar neste vasto âmbito os testemunhos dos filhos e a ficção que tem o seu foco em acontecimentos da guerra colonial, aqui posso incluir o romance O Último Avô, de Afonso Reis Cabral e agora este romance de altíssima qualidade de Paulo Faria, Estranha Guerra de Uso Comum, Ítaca, 2016.

A originalidade que preside a esta escrita passa pela organização de um romance que nos quer ludibriar que fosse uma reportagem, o alferes miliciano médico definhou, com muitos padecimentos viveu numa residência sénior e quando faleceu a guerra do pai apropriou-se do escritor, este falou com dez homens que estiveram numa guerra silenciada em casa, ou quase, e escreveu dez cartas ao pai, interpolam-se os testemunhos com as missivas íntimas do vinho que dá conta de paradoxos, labirínticas frases, com que, de tempos a tempos, se sabia do que ele vivera nalguns recantos de Moçambique.

Os testemunhos ficcionados são quase sempre admiráveis, e somados ganham tonalidades macroscópicas da vivência e lembranças dos antigos combatentes: a ardência do sexo, a presença das prostitutas, as colunas de abastecimento e o pesadelo das minas, a morte à queima-roupa do dia, a carta em que o filho interpela o pai sobre um punhado de fotos onde há a presença bastante frequente de uma criança, sabe-se lá se esta não foi tomada como um filho adotivo, o autor até foi ler revistas da época para tentar entender como o pai justificava a sua presença na guerra; iremos ouvir falar do Lago Niassa, de Vila Cabral, do quartel do Chicôco, de Jemusse, de Parapi, de Manhauane, e outras paragens; serão afloradas as relações entre oficiais e subordinados; o filho confessa ao pai que está a ávido de conhecer as histórias dele em África, porque “deixei passar o momento certo e agora corro atrás de um comboio em andamento, tentando apanhá-lo, é bonito, mas não é bem verdade. Estou ávido de conhecer as histórias precisamente porque já não estás aqui para as contar”; e dá-nos a imagem que ele guarda do pai e da relação familiar e de tudo mais que aconteceu depois do divórcio, tudo isto é escrito numa toada de mágoa e abandono; nas entrevistas aparece o alferes Elpídio Barros, tu cá e tu lá com o entrevistador, Carlos Silveira, procura dar um quadro daquela guerra vivida em alguns pontos do distrito de Manica e Sofala, fica-se a saber que o alferes médico António Silveira falava sem parar da família, que protegia as crianças, de novo aparece a história daquela criança abandonada, o tal Artur, que terá direito a uma farda e a dormir no quarto aos pés da cama do alferes médico, de novo recordações das picadas onde as viaturas se atascavam na época das chuvas, o filho do médico leva fotografias para as entrevistas, o entrevistado faz os comentários que a memória ainda permite; é inevitável, fala-se de operações, de mortes e feridos; outros testemunham, quem depõe chama-se Alberto Tavares Santana, diz que o pessoal do batalhão era quase todo da região do Douro, do Minho e de Trás-os-Montes, o que causava alguns problemas de logística, só queriam comer batata, o arroz era alpista, faz uma descrição das instalações militares, das valas de proteção, dos ratos a correr nas traves, das instalações sanitárias imundas, de uma jiboia a comer uma cabra, e de novo se volta à história do guia morto à queima-roupa.

Tudo conjugado, os entrevistados ajudam a fazer o puzzle, as cartas ao pai é um permanente caminhar no escuro, é quase como um querer agarrar uma esfera com dois dedos, são sucessivas recordações da infância e da juventude, como aquela vida doméstica parecia ter apagado em definitivo a memória do alferes médico.

 O leitor já está capturado pela forma como se rendilham entrevistas e cartas, é suposto haver alguém que desencante um elemento informativo que ilumine a figura do pai, todos abonam que o alferes António Silveira era um médico exemplar, nada dado a cunhas nem a falsas doenças, de súbito volta-se ao passado da vida familiar, o entrevistado seguinte abre uma nova dimensão de uma história que podia ser aferida como interminável, a figura do Artur em dado momento parece sair do livro e entrar diretamente na conversa, Carlos Silveira oferece a fatiota do Artur a alguém que nunca o esqueceu e que recebe aquela prenda como um tesouro.

Talvez o Artur fosse filho de um militar português, tinha sinais de mestiço. E com o avançar de entrevistas interpoladas com cartas ao pai, os contornos deste parecem ganhar uma forma de densidade, bem curiosa é a entrevista que o autor faz a João Castanheira Matias, este vai depondo sempre com o olho revirado para o ecrã da televisão e para um desafio do Sporting-Porto, Matias não se esquece de contar a história de que foi mordido por uma cobra, apareceu o pai com o antídoto, afinal era um médico bem-disposto, muito metido com ele, os entrevistados guardam dele a imagem de um homem sereno, nada que tenha ficado nas recordações de Carlos Silveira que achava o pai um homem tenso, mantinha uma relação dura com ele, pouco efusivo.

E prossegue toda esta caminhada sobre uma estranha guerra do que se passou lá em África e dos silêncios familiares contrastantes. E o autor tece numa meditação sobre os entrevistados, magnífico remate para o labirinto da guerra do pai e da guerra do filho:

“Quando eles me contam histórias que nunca contaram a ninguém, percebo que cheguei à tal essência, percebo que fui ao fundo. Quando me contam histórias que nunca contaram a ninguém daquela maneira, pelo menos. Quando deixam de se gabar e se interrogam. Querem que eu escreva tudo, porque esperaram muito tempo por alguém disposto a ouvi-los assim, alguém com todo o tempo do mundo para os ouvir. Percebo que fui ao fundo da história quando os olhos se lhes turvam, mas é uma coisa de escassos segundos, de meio segundo, uma coisa abafada. Percebo que fui ao fundo quando nos olhos deles já não vejo fúria nem vergonha, mesmo ao contarem-me gestos grotescos, coisas obscenas e vis que fizeram ou a que assistiram, quando percebo que eles sublimaram a fúria e a vergonha e me contam os gestos tal e qual os viram com as cores vivas e sujas do Niassa (…) Depois destas conversas com os teus camaradas, fez-se em mim uma estranha paz.”

Como se quisesse dizer que a guerra que ele quis saber do pai era mesmo uma estranha guerra de uso comum que reconciliou pai e filho. Quanto ao mais todas estas guerras vividas em África precisam urgentemente de revisitação e aceitação como corpo do nosso passado.

Um belíssimo romance, acreditem. Comecei por ler um exemplar emprestado pela Biblioteca da Liga dos Combatentes, não descansei enquanto não adquiri o exemplar. A Ítaca Editora vende este livro por um preço simbólico de 4 euros (contacto da Ítaca: 964 440 940).

“A guerra colonial foi o conflito mais significativo que Portugal travou no século XX. Tenho para mim que um país que não consegue olhar para a sua História é um país perdido.” Paulo Faria em entrevista

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Nota do editor

Último postda série de 18 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28034: Notas de leitura (1924): "Os Có Boys (Nos Trilhos da Memória)", de Luís da Cruz Ferreira, ex-1º cabo aux enf, 2ª C/BART 6521/72 (Có, 1972/74) - Parte XI: O primeiro ato de enfermagem: tratar um queimado

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28010: Notas de leitura (1921): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (7) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 22 de Dezembro de 2025:

Queridos amigos,
Agora que chegamos ao término da viagem, importa realçar que não estamos perante uma história da guerra nem mesmo história oral de valor memorial sobre a guerra. Trata-se de uma abordagem onde se procura analisar a estratégias desenvolvidas pelas famílias no tocante à relação entre pais e filhos durante a guerra. Há uma linha de conduta dos militares lá longe apelando aos filhos perseverança nos estudos e coesão familiar, como se houvesse a antevisão de que eles viriam mudados e se impusesse um esforço de adaptação. Estes filhos dos militares, em conversa com as autoras, falavam por vezes como se ainda fossem pequenos; e o terem retomado as memórias da infância e da adolescência, as estadias do Colégio Militar e do Instituto de Odivelas, a necessidade dos irmãos se terem reunido para relerem cartas e aerogramas traz leituras por vezes bem curiosas sobre a relação dos pais depois dos militares terem definitivamente regressado a casa. Nestas reuniões com as autoras também houve assombros a escutar de novo as fitas magnéticas onde não faltam cantigas, conversas sobre os estudos e até músicas do Festival da Canção. Na verdade, os pais voltaram outros, em muitos casos houve a necessidade de deixar passar o tempo para depois descobrir que tudo tinha mudado na sociedade, nos valores e nos contextos sociais.

Um abraço do
Mário



Olhe que o pai faz muita falta. Foi com a sua comissão que eu aprendi o quanto custa o estar longe e só e para nós o sofrimento não se compara com o seu – 7

Mário Beja Santos

Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975, por Ana Vargas e Joana Pontes, Tinta da China, 2025, é um livro arrebatador, profundamente terno, e, tanto quanto me é dado de saber, preenche uma lacuna no campo da investigação.

Vamos hoje despedir-nos destas conversas entre filhos e pais em tempos de guerra falando de Joaquim Pires Afreixo e Fernando Manuel Saraiva. Joaquim era funcionário dos CTT quando foi requisitado em 1961 para o Serviço Postal Militar (SPM), tinha 36 anos e foi graduado em alferes. Constituído o teatro de operações de Angola havia que organizar a distribuição do correio aos militares em campanha. Os CTT em Angola não dispunham de meios para fazer face ao crescente volume da correspondência. Deu-se o caso de a correspondência entre os combatentes e as suas famílias se ter acumulado em Luanda por mais de três meses. Determinou-se que essa correspondência seria enviada para o Quartel-General da Região Militar de Angola, mas o problema não ficou resolvido.

Foi então que o ministro do Exército determinou a organização do SPM, o objetivo era criar uma estrutura que fizesse chegar ao seu destino, o mais rapidamente possível, a correspondência e as encomendas. Joaquim fez quatro comissões, sempre neste serviço, em Moçambique, em Macau, na Guiné, de novo em Moçambique. Joaquim permaneceu muito tempo afastado dos filhos. José, o mais velho, nasce em 1955, e Lucinda em 1962. Quando Joaquim regressa dois anos depois, José não o reconheceu. Até ao seu regresso em 1965, Joaquim passará apenas curtos períodos em Lisboa com a família. A mulher de Joaquim trabalhava como bibliotecária e arquivista, manifestamente não quis ir para os locais onde o marido procurava manter o SPM em bom andamento.

Lucinda vai com dez anos para o Instituto de Odivelas e o irmão para a Faculdade de Medicina. Na correspondência Joaquim nunca fala da guerra, mas em Lisboa aborda-a, à luz do que vê e ouve. Ele comprara um gravador de cassetes para poder enviar à família notícias suas e canções românticas; nas cartas remetia fotografias. O pai pede aos filhos notícias. Com o passar do tempo, Joaquim vai revelando um outro olhar sobre o lugar onde está. Na troca de cartas o tema da escola é recorrente.

Finda a guerra, Joaquim regressa em 1975, depois da independência de Moçambique, é integrado no Exército e chega a Tenente-coronel. A guerra raramente esteve presente nas conversas da família. O tempo foi passando e o que ficou desses tempos está na correspondência que se salvou da fogueira.

Agora Fernando Manuel Saraiva. Nuno tem três anos e oito meses quando o pai, o Capitão Miliciano Fernando Saraiva parte para Moçambique, mobilizado para comandar a 1.ª Companhia do Batalhão de Caçadores n.º 4811, partiu em abril de 1973, vai de avião com 165 homens, entre os quais um médico, um enfermeiro e dois auxiliares de enfermagem, quase todos os militares são originários dos Açores. Ao chegar a Moçambique, o Batalhão assume a responsabilidade por uma zona de atuação no distrito de Niassa com uma superfície aproximada de 14 mil km2.

Antes da mobilização, Fernando era estudante de Engenharia e havia entrado na carreira de Despachante. Quando soube que ia ser mobilizado, preparou a saída de Portugal com destino a Paris, mas o pai impediu-o. Nuno fica com a mãe, de nome Maria José, era doméstica. Maria José escreve todos os dias a Fernando, lamentando a sua ausência. Nos aerogramas que envia ao filho, Fernando faz desenhos para Nuno colorir ou copiar.

Nuno recorda às autoras: “As cartas que escreve para a minha mãe é para a descansar. É o paraíso. A forma como ele fala comigo é por vezes autoritária, outras vezes como se fala com um bebé. Nas cartas em que enviava ao meu avô a forma é um pouco mais dura. A partir de uma certa altura, o meu avô deixa de escrever, era a minha tia que escrevia em nome dele. A escrita do meu avô era muito certinha, escrevia autênticos testamentos onde ele dava conta do que estava a acontecer ao país real.”

Em 1 de abril de 1974 Nuno e a mãe chegam a África, comenta o filho: “Muita insistência dela, o meu pai não queria.” Mãe e filho chegaram a Muembe, local onde estava a Companhia de Caçadores que o pai comandava. Nuno não o reconhece. A família fica alojada no aquartelamento juntamente com outros oficiais e as respetivas mulheres. A companhia encontrava-se instalada numa zona montanhosa, cortada por inúmeros rios e linhas de água. Não há população branca na zona de atuação do Batalhão, apenas dois cantineiros. A população vive em aldeamento para onde foi deslocada. Muitos fugiram para o Maláui e para a Tanzânia, e aldeias que se sabe estar sob controlo do inimigo. A população é maioritariamente muçulmana e não fala português.

A conversa de Nuno com as autoras recolhe muitas informações do livro da Unidade. Chegou-se ao 25 de abril e Nuno lembra-se da agitação e da alegria dentro do quartel, veio depois uma grande tensão, pela indefinição relativa ao futuro dos militares. O Batalhão inicia o seu regresso a partir de novembro de 1974. A família regressa a casa. Nascem mais duas filhas. Não se fala da guerra. A mãe não esconde as boas memórias da passagem por África. Com o pai foi diferente, como Nuno relata: “O meu pai tornou-se extremamente violento comigo, e eu atribuo isso também um bocado à cabeça meio esfrangalhada com que ele veio. Houve episódios de violência muito, muito grandes. O meu pai também se reencontrou, mas muito mais tarde.”

Depois da sua morte, Nuno tem participado nos almoços de confraternização da Companhia. “O meu pai destruiu tudo o que tinha a ver com a guerra ou com a memória da guerra.” Dos poucos aerogramas que sobraram, Nuno lê um excerto:
“E por saber que tens ido à praia o pai fez hoje um desenho para colorires. Trata-se de um marinheiro, que está a passear numa praia e tem uma gaivota com um peixe na boca em cima do chapéu. Quando a mamã escrever diz-lhe para ela contar como o Nuno passa os dias, como costuma brincar. E também se desenhas e pintas bonecos.”
E a conversa com as autoras termina assim: “Eu tinha sempre de participar, sempre, o que me faz pensar que também esse exercício, esse jogo contínuo, me levou a ser o que sou hoje, um desenhador.”

No epílogo da obra, as autoras reafirmam que o seu objetivo era de contribuir para um melhor conhecimento deste período. “A separação familiar revelou-se uma experiência avassaladora, com repercussões nos laços entre o casal e os pais com os filhos. Esta vivência torna-se consciente muito mais tarde na vida das crianças envolvidas, hoje adultos.” Consideram que este recuo a memórias da infância, a descoberta de novas fotografias, a reunião com irmãos para falar desses tempos resultou num visível alívio para quase todos. Há filhos que fizeram perguntas ao pai sobre a guerra, as respostas foram raras, por vezes evasivas. E nos relatos onde se usa a crueza de narrar o acontecido, como observam as autoras, mais parecem desabafos escritos para si próprios do que para os filhos, que não podiam compreender do que falava o pai. Falava-se por vezes da fuga das populações, das aldeias dispersas permeáveis à influência do inimigo, há militares que falavam das crianças órfãs então escrevem sobre elas, alguns pensando nos próprios filhos.

O epílogo termina de modo muito poético:
“No regresso, os pais voltaram outros. Como só a poesia, nas palavras de Fiama Hasse Pais Brandão, sabe exprimir:
Outras andorinhas voltam, não as que
partiram dos beirais, no outono.
Mudaram no deserto as suas imagens,
e as que volteiam hoje sobre esta água
no passado conheceram outro destino.
Que lugar trarão na memória dos olhos?”

Terna e estrénua foi a pesquisa, o resultado é este livro esplendente.

Ana Vargas e Joana Pontes
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Notas do editor:

Vd. post de 4 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P27987: Notas de leitura (1919): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (6) (Mário Beja Santos)

Último post da série de8 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28001: Notas de leitura (1920): A biografia de um combatente: O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História (1): I - À guisa de apresentação do ex-combatente e II - Foi assim que cheguei ao Cuor (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 4 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P27987: Notas de leitura (1919): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (6) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 22 de Dezembro de 2025:

Queridos amigos,
Para sermos francos, já outros se aventuraram a pesquisar e corrigir as narrativas familiares envolvendo militares na guerra de África e os filhos que aqui ficaram ou que eventualmente tenham podido acompanhar as comissões dos pais. É mais uma janela que se abre para o estudo caleidoscópico da guerra, temos relatos de enfermeiras-paraquedistas, mulheres de militares que os puderam acompanhar, histórias de madrinhas de guerra, isto para não falar já de impressionantes relatos deixados por combatentes, estou a lembrar-me do pungente e dramático relato do Capitão Salgueiro Maia intitulado "Crónica dos Feitos da Guiné", a descrição que ele faz da coluna que vai até Guidaje completamente cercada por uma operação de grande envergadura do PAIGC, em maio de 1973. Sem margem para dúvidas, somos agora confrontados quanto ao modo como os militares procuravam desempenhar o seu papel de pais, enviando inclusivamente bobines com histórias apropriadas para menores; é uma troca de correspondência, como dizem as autoras, uma reflexão muito particular sobre a ideia de família numa sociedade em mudança, a par dos valores e dos contextos sociais que marcaram uma época fundadora na história do país.

Um abraço do
Mário


Olhe que o pai faz muita falta. Foi com a sua comissão que eu aprendi o quanto custa o estar longe e só e para nós o sofrimento não se compara com o seu – 6

Mário Beja Santos

Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975, por Ana Vargas e Joana Pontes, Tinta da China, 2025, é um livro arrebatador, profundamente terno, e, tanto quanto me é dado de saber, preenche uma lacuna no campo da investigação.

João António Gonçalves Serôdio, militar do quadro permanente parte para a sua segunda comissão em março de 1970. Os filhos, Ana, a fazer catorze anos, Zá com doze, Cristina com onze e João com três estarão no Cais da Rocha do Conde de Óbidos. A mãe está grávida de uma menina que havia de nascer uns meses depois, Margarida. Os filhos mais velhos estão nos colégios internos, no Colégio Militar e no Instituto de Odivelas. A primeira comissão de João Serôdio foi na Índia. A filha Cristina recorda: “Ele estava lá sozinho. Escrevia para a mãe quase todos os dias. Temos a correspondência toda que o pai enviou para cá. A que a mãe enviou desapareceu.”
O pai enviava para a família uma mensalidade de quatro contos.

Ficará em casa oito anos, durante os quais frequentará vários cursos. A família não o vai acompanhar quando ele parte para Luanda, alguns dos filhos irão lá visitá-lo. O Colégio Militar deixou alguns traumas ao filho Zé. O pai dá conselhos: “Tens de saber ser forte na adversidade. Tens de reagir e não podes fraquejar. Crê, meu filho, que todos os homens encontram na sua vida mais obstáculos que facilidades. Mas, aqueles que desistem, que cruzam os braços, são arrastados para situações medíocres e são durante toda a vida infelizes porque sentem que não lutaram quando deviam.”
Há troca de correspondência com as filhas.

Quando nasceu Margarida, a mãe vai para o Porto para casa dos pais e leva o filho de três anos e a bebé recém-nascida. Segundo os filhos, a mãe sofre muito com a ausência do pai. Zé foi três vezes visitar o pai a Luanda, em 1972 foi a família toda sem a filha mais nova. João Serôdio pediu para continuar a comissão por oferecimento, foi um choque para toda a família. João Serôdio trabalhava diretamente com o General Costa Gomes, exerceu as funções de Chefe de Gabinete quando Costa Gomes foi Presidente da República. É numa destas cartas que encontrei a frase que vai encimando este conjunto de textos:
“Querido Pai,
Olhe que o pai faz mesmo muita falta. Foi com a sua comissão que eu aprendi o quanto custa estar longe e só e para nós o sofrimento não se compara com o seu, onde está sozinho; só às vezes acompanhado por espírito.”

O pai regressa em junho de 1974, João tem então sete anos e lembra-se que o pai lhe observava que devia dobrar os calções ao deitar, não pôr os cotovelos na mesa.

João Menino Vargas tem muito a ver com Ana Vargas, a prosa que se segue é muito enternecedora:
“Há uma caixa de madeira em cima da mesa à volta da qual estamos à conversa. Aqui se guardam, há muito tempo, cartas, diários antigos, aerogramas e fotografias. São memórias relacionadas com a vida militar de João Vargas, pai de Luís, Ana e Cristina. Entre eles e connosco vai surgir uma reflexão sobre o passado familiar e comum, em grande medida marcado pela passagem do pai pela guerra colonial.”

João entra na Academia Militar com dezasseis anos. É filho de um capitão. João sai da Academia como oficial de artilharia, namora com Beatriz, estudante no Instituto de Odivelas, Beatriz tem nove irmãos, veio para Lisboa tirar um curso de costura após o qual ficou a trabalhar em casa, dando também aulas deste ofício. O pai de Beatriz é destacado para Timor como comandante-militar, leva consigo cinco dos dez filhos entre os quais Beatriz. Como ela já namorava com João, este ofereceu-se como voluntário para acompanhar, não podiam ainda casar, quer pela idade quer pelos rendimentos.

João Vargas escreveu que ficou chocado com a penúria e o atraso com que viviam os timorenses:
“Eram obrigados a trabalhar um mês de borla para a Administração, período muitas vezes ampliado para dois meses, ou o que fosse decidido pelas autoridades administrativas locais; a que se somava o imposto de capitação, que todos os homens eram obrigados a pagar, vulgo imposto de palhota e, para completar o quadro, estavam sujeitos a serem arrebanhados para as plantações de café, sempre que os fazendeiros precisavam de trabalhadores, aos quais depois pagavam salários miseráveis. Os castigos corporais eram moeda corrente.”

Beatriz e João casam em 1960. Um ano depois nasce Luís. Em 1964 a família deixa Timor. Quatro meses depois, João é mobilizado para Tete em Moçambique. Vai a família toda, Beatriz, Luís e Ana. Em 1966 nasce Cristina. Regressam todos de Moçambique. João escreveu sobre esse tempo: “Na pacatez de Tete, parte da população branca não escondia as suas simpatias pela política de apartheid e a discriminação racial era evidente. Era do conhecimento público a colaboração das autoridades na angariação de donativos para trabalho de escravo e o seu envio forçado para a colheita da cana-de-açúcar da Sena Sugar sem que alguém manifestasse discordância.”

No regresso ficam a viver na Escola Prática de Artilharia. É por essa altura que um familiar, o tio Joãozinho, um dos irmãos da mãe parte para a Guiné e na própria noite em que chegaram ele morre num acidente, estava de oficial de dia, ia passar a ronda, o desgraçado que o abateu ouviu um barulho, ele morreu com dezassete tiros. João Vargas é mobilizado pouco tempo depois para a terceira comissão, vai para a Guiné, a família não o pode acompanhar. João é colocado em Nova Lamego. Pouco depois da partida do pai, Luís entra para o Colégio Militar, Ana vai para o Instituto de Odivelas, Cristina ainda com cinco anos, fica com a mãe em casa. Beatriz irá trabalhar como bibliotecária. Troca-se muita correspondência, o tema dos estudos é recorrente. A família envia a João gravações de músicas. No regresso virá muito mais tenso. João tece o seguinte comentário: “Vinha necessitado de mostrar que era quem mandava. Nós estávamos habituados a maior autonomia e independência.”

Estamos chegados ao 25 de abril. Após a morte recente dos pais, os filhos têm encontrado mais correspondência, postais e outros textos. Num deles, já no ocaso do regime e sobre a sua passagem pela Guiné, o pai deixou escrito:
“A guerra tem consequência interessantes. Curiosamente, as pessoas sentem-se libertas para dizerem o que lhes vai na alma. A PIDE era ali omnipresente, mas para o combatente é-lhe indiferente. Ouvem-se afirmações, alto e bom som, de verdadeira revolta: eu estou aqui porque o meu pai não me deu dinheiro para emigrar; estou aqui, porque não posso abandonar a minha família, senão tinha emigrado; se eu fosse africano também lutaria pela independência.”

Ao terminar a conversa os filhos de Beatriz e João, Luís dirá: “Pela maneira como se encara as guerras, parece que a gente está a ver na televisão, parece quase um filme. Nem se percebe às vezes, que de ambos os lados há vítimas e mesmo o maior facínora tem família.”

Estamos praticamente no fim desta belíssima recolha de narrativas, concluiremos na próxima semana.

Ana Vargas e Joana Pontes

(continua)
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Notas do editor

Vd. post de 27 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27959: Notas de leitura (1917): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (5) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 1 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P27976: Notas de leitura (1918): Carta de Bertrand-Bocandé sobre o islamismo no Casamansa, 1851 (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 27 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27959: Notas de leitura (1917): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (5) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 16 de Dezembro de 2025:

Queridos amigos,
Bem distintos foram os itinerários de João Corte-Real de Araújo Pereira e o de Rogério Pereira. O primeiro embarcou para Timor em 1959, era capitão, na viagem no navio Índia, descobre empatia com Luísa, haverá namoro e depois casamento, o casal ficou quatro anos em Timor. Seguem-se novas comissões, vão aparecendo mais filhos. As comissões são em Moçambique, Angola e Guiné. Os mais velhos irão frequentar o colégio militar. A mãe sofre de surdez, mas nada abalou o bom relacionamento entre a mãe e os filhos. Dá por vezes pormenores do que faz nas suas comissões, sobretudo na Guiné. Rogério Pereira foi furriel miliciano em Angola entre 1969 e 1971. Publicou a sua correspondência num livro que intitulou de Almas que não foram fardadas. No seu casamento com Teresa surgiram três filhas, duas das quais já existem quando ele está em Angola. Sente-se do seu depoimento que a guerra lhe trouxe mudanças profundas, deu-lhe um grande sentimento de solidariedade com gente tão carenciada. Sofreu muito com a morte da mulher e está bastante arrependido de ter destruído a correspondência que lhe enviou dos sítios onde viveu em Angola.

Um abraço do
Mário



Olhe que o pai faz muita falta. Foi com a sua comissão que eu aprendi o quanto custa o estar longe e só e para nós o sofrimento não se compara com o seu – 5

Mário Beja Santos

Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975, por Ana Vargas e Joana Pontes, Tinta da China, 2025, é um livro arrebatador, profundamente terno, e, tanto quanto me é dado de saber, preenche uma lacuna no campo da investigação.

João Corte-Real de Araújo Pereira era capitão quando embarcou para Timor, no final do mês de setembro de 1959. Acontece que naquele navio, no Índia seguia também Luísa e a família. O pai da Luísa tinha sido nomeado para Comandante Militar em Timor. Aqui chegados, houve namoro e casamento, em Baucau, 1962. Observa João que Timor era uma colónia desgraçada, abandonada, não tinha luz, não tinha água, nada. Houvera uma sublevação em Viqueque contra as autoridades portuguesas em junho de 1959, rapidamente sufocada. Sabe-se que na sua origem estavam catorze indonésios que se encontravam exilados em Timor. O sogro de João fez um relatório da sublevação, aí escreveu: “O problema da subalimentação e definhamento das populações nativas, já referido pelo antigo Governador Álvaro de Fontoura no seu livro "O trabalho dos indígenas de Timor" é hoje verdadeiramente angustiante.”

João ficou quatro anos em Timor, Luísa regressa e dá à luz gémeos. Seis meses passados deste nascimento, João parte para a segunda comissão, em Moçambique, a família fica em Lourenço Marques. Um ano e pouco depois João é promovido a major. Mandaram-no então para Angola, Luísa regressa a Lisboa com os gémeos, nasce agora o terceiro filho. Quando João regressa de Angola voltará a ser mobilizado de novo para esta colónia como oficial de operações do Batalhão de Artilharia 2864. Entretanto nasce o quarto filho, Luís, João tinha metido férias e assistiu ao nascimento do filho. Aerogramas não faltaram. Em dezembro de 1972, João parte para a Guiné, é tenente-coronel e comanda o Batalhão de Artilharia 6522. Tinham sido desembarcados em Bolama e foram recebidos com foguetões 122. João comanda o Batalhão em Ingoré, trata-se do Sector 06, a zona de atuação tinha uma superfície aproximada de 1500 km2, a dimensão da fronteira norte com a República do Senegal era de cerca de 100 km.

Todo este relato será feito por João, assistiu ao aparecimento dos misseis terra-ar. O Batalhão ficou neste setor cerca de vinte meses. Luísa destruiu a correspondência que escreveu e recebeu do marido. Guardou cuidadosa e separadamente a que João trocou com cada um dos quatro filhos. João iniciava a sua correspondência com os filhos dizendo “Meus queridos filhos”, “Meus queridos rapazes” ou “Meus queridos homenzinhos”. Luísa sofria com a surdez, desenvolveu com a família uma linguagem própria. Quando se dá o encontro com as autoras do livro, é o filho mais novo que serve de intérprete. Guardam na memória a morte do tio Joãozinho, um estúpido acidente na Guiné. A memória dos anos da ausência do pai está muito relacionada com a passagem no Colégio Militar. A adaptação às regras da instituição não foi fácil.

João escreve aos filhos a sua rotina, por vezes fala aos filhos dos rapazes que vai encontrando à sua volta e também dos adultos:
“As mulheres andam nuas da cintura para cima. Andam à vontade, sem vergonha. É nelas natural. Olha, agora os miúdos vieram pedir esferográficas porque não têm. Todos estes rapazes têm um grande desejo em aprender para poderem ter uma vida melhor. Quase só comem arroz. É uma alimentação muito incompleta e por isso têm uma barriga enorme. Os rapazes fazem brinquedos com caixas de papelão, tampas das garrafas, etc. Com pouca coisa conseguem fazer trabalhos bem feitos.”

Chegou a hora da independência, entregou o território ao PAIGC. E deu-se uma viragem que para ele foi muito chocante: “Em Bissau, entregámos as armas, atirando-as para o monte, no cais, o monte de G3, nós passávamos e atirávamos a G3.

No fim da conversa os filhos de João disseram às autoras: “Nosso pai nunca falou da guerra nem nós perguntámos. Diz-se que uma guerra só acaba quando o último participante morrer. Enquanto houver um que viva, esta guerra ainda não acabou.”

Vejamos agora a história de Rogério Pereira, nascido em 1945, casou com Teresa em 1966, mobilizado como furriel miliciano enfermeiro para Angola entre 1969 e 1971. Quando Rogério parte, Teresa fica em Lisboa com duas filhas. Teresa trabalhava na área dos seguros. Rogério escreve às filhas no verso de fotografias que envia à mulher, às vezes escrevia poemas e quadras, Rogério dirá na entrevista às autoras que cada fotografia era um referencial daquele momento. A correspondência serviu-lhe para escrever um livro a que chamou Almas que não foram fardadas. Destruiu a correspondência depois da morte de Teresa e considera que foi uma coisa estúpida. Mas teve uma surpresa quando a filha mais velha, de nome Maria João, lhe trouxe uma embalagem castanha, a caixa de uma ração de combate, o conteúdo eram cartas, aerogramas e fotografias que escrevera em Angola.

Partiu para Angola em 12 de julho de 1969, com a Companhia de Cavalaria 2562, começou na região de Maquela do Zombo, na Fazenda Costa. Escreve à filha mais velha, fala-lhe das casas, da pobreza, das ruas, os meninos que não têm brinquedos, os meninos não têm areia, só terra. A maioria não fala português, havia os que falavam Quimbundo e o Quioco. Envia desenhos nas cartas. A meio da comissão, a companhia foi transferida para a zona centro para locais na Província do Bié, refere à mulher o meio em que vive, não lhe parece que haja comportamentos racistas, há cantineiros que casam com negras ou mulatas, mas é notório que os fazendeiros exploram as populações nas roças de café e do algodão, assistiu ao trabalho forçado.

No final da conversa com as autoras, João diz-lhes:
“A guerra humanizou-me muito. Relacionei-me com outras formas de ser, de estar, de conviver, com outras culturas. Quando aquela gente soube que os tratava bem, logo de manhã eu tinha filas à porta do posto de socorros, e isso, digamos, é uma experiência muito difícil de explicar. Porque o que nos produz são sentimentos. Eu, ao perceber aquela dependência, aquela vivência, e aquela forma de estar, percebi que, de facto, nós, enquanto potência colonial, fizemos muito mal o nosso trabalho de casa.”

Iremos seguidamente ouvir falar de João António Gonçalves Serôdio, militar do quadro permanente e de João Menino Vargas, aqui, uma das autoras, Ana Vargas, tem laços familiares apertados. É a penúltima viagem por este tão intimista e esplendente Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra, 1961-1975.

Ana Vargas e Joana Pontes

(continua)
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Notas do editor:

Vd. post de 20 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27935: Notas de leitura (1915): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (4) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 24 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27946: Notas de leitura (1916): "A Partilha de África", por Conde de Penha Garcia; Lisboa, 1901 (2) (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 20 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27935: Notas de leitura (1915): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (4) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 11 de Dezembro de 2025:

Queridos amigos,
Continuamos na companhia de militares e da sua correspondência endereçada a filhos menores durante a guerra colonial. Temos, primeiro, Carlos Alberto de Oliveira e Lemos, aqui relevado pela originalidade de ter enviado um conjunto de contos em pequenas bobines, assim deliciava crianças e adultos. Carlos fez o curso da Escola Naval, teve uma comissão em Moçambique entre 1968 e 1970. Os filhos recordam o camarote do pai e a sua mesa de trabalho, foi nessa cabine que o pai iria escrever e ler as centenas de cartas que trocou com a família e gravar as bobines com os contos e as conversas que enviou para os filhos. Carlos não escondia situações de apuros vividas durante a comissão militar. Terá vindo muito debilitado de Moçambique, morreu com 53 anos. Pedro João dos Santos Reis era oficial da arma de infantaria, fez quatro comissões. A primeira comissão em Moçambique, e depois Timor, experiência inesquecível para os filhos, Pedro deixou a filha mais nova ao cuidado dos avós. A terceira comissão foi na Guiné, leva parte da família, irão os três filhos mais novos, os mais velhos em instituições militares. Pedro fará a sua última comissão em Angola, aqui viverá o 25 de abril, será um dos últimos militares a regressar. Um dos filhos comenta: "Ele adorava aquela cidade (Luanda). O pouco que ele contava do que se passou depois era uma coisa horrível."

Um abraço do
Mário



Olhe que o pai faz muita falta. Foi com a sua comissão que eu aprendi o quanto custa o estar longe e só e para nós o sofrimento não se compara com o seu – 4

Mário Beja Santos

Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975, por Ana Vargas e Joana Pontes, Tinta da China, 2025, é um livro arrebatador, profundamente terno, e, tanto quanto me é dado de saber, preenche uma lacuna no campo da investigação.

Começamos hoje por falar de Carlos Alberto de Oliveira e Lemos, estou seguro de que ele vai prender a atenção do leitor. Escreveu um livro de contos aos filhos durante os dois anos que esteve em Moçambique, com o título Lá de Longe, Edições Culturais da Marinha, é um conjunto de contos que Carlos Lemos escreveu, gravou e enviou em pequenas bobines de som que os filhos ouviam, acompanhados pela mãe, pela avó e por Alice, a empregada que esteve sempre com a família. O encontro entre as autoras e o filho de nome Miguel realizou-se no Museu da Marinha, ouviu-se a voz do pai a contar uma história, lá de longe, com a música de efundo a condizer. Carlos Lemos tinha 42 anos quando partiu para Moçambique como oficial imediato da Fragata D. Francisco de Almeida. Deixa rastilhos: Guida, com 7 anos, e Miguel, com 6. Para além das bobines, havia a correspondência, as perguntas sobre o dia-a-dia dos filhos. Entretanto nasceu mais uma menina, a Sara. O pai mandou a notícia por carta: “Parece que Jesus nos vai mandar um irmão ou uma irmã para ti e para o Miguel […] é preciso não arreliar a mãe para não fazer mal ao bebé que está a crescer. Depois, quando ele nascer, tens de ajudar a criar. Não é muito difícil.” O correio dos dois filhos mais velhos é dar notícias da recém-nascida.

Carlos Lemos é mais aberto à escrita, conta mesmo operações em que intervinham fuzileiros, e descreve situações muito enrascadas. Ouve-se a voz do pai numa gravação: “Havia guerra entre pretos e brancos. A guerra era por causa dos brancos que queriam ficar a mandar nos pretos, e por causa dos pretos que não estavam satisfeitos com o procedimento dos brancos. Tanto pretos como brancos mandavam outros pretos e outros brancos, que não eles, pegarem armas para se matarem uns aos outros. Poucos sabiam porque é que haviam de lutar e pouquíssimos gostavam realmente de pegar em armas.”

Para os filhos não há dúvidas, Carlos Lemos escrevia para ele. O pai entende que não deve esconder aos filhos o dia-a-dia: “Ontem o navio parecia uma autêntica arca de Noé. Vinham atestados até mais não poder. Trazia mais de duzentos homens, coitados, dormem ao relento pelo chão e por onde calha. Deus teve pena deles e não mandou chuva.”

Falando com as autoras Guida diz que o pai veio diferente, triste e debilitado. Carlos morreu com 53 anos, doente.

Vejamos agora a trajetória de Pedro João dos Santos Reis. A conversa decorre à volta de uma mesa, estão cinco irmãos de uma família de sete filhos. Trouxeram fotografias, aerogramas e cartas que consultam, trocam entre si, e sobre as quais contam histórias, desafiando-se uns aos outros sobre memórias dos seus tempos de infância e da adolescência. Pedro fez a academia militar e foi mobilizado para quatro comissões, tendo, entre elas, concluído o curso de Estado-Maior que graduava oficiais superiores. A primeira comissão foi em Moçambique. Aqui nasceram dois filhos, a Paula e a Leny. Regressam e a família fica quatro anos em Lisboa e, entretanto, nascem mais três filhos, Zé Pedro, Ana e Maria João, entre 1956 e 1960. O pai é mobilizado para Timor, ele e a mulher levam quatro filhos, o bebé fica com os avós. Contam-se histórias como um convite feito a um padre para almoçar lá em casa, e o criado estava a servir à mesa quando viu aquela pessoa que fugiu. A mãe quis apurar a verdade, ainda por cima ia buscar os criados saídos da vida prisional. O criado confessou que tinha matado um padre que era o seu patrão. Ficou tudo em segredo de família.

Nasce mais um filho em Timor, a família regressa em 1963, o pai vai fazer o curso do Estado-Maior. Em Lisboa nasce mais uma filha, a Patrícia. O pai parte para nova comissão, vai para a Guiné e ficará em Bissau, com ele vai uma parte da família, a mãe e os três filhos mais novos. Conversando com as autoras, os filhos vão dando conta, uns recebendo a correspondência dos pais, outros a viver em Bissau, da atividade do pai, oficial perto de Spínola. As viagens que fizeram para a Guiné tornaram-se inesquecíveis. O pai é um dos últimos oficiais a deixar a Guiné, regressou em setembro de 1974. Há também lembranças do instituto de Odivelas, como recorda a filha Paula: “Havia órfãs, caso da nossa colega, também de nome Paula. Havia uma ideia de que o pai tinha sido morto na guerra, mas não se falava disso. Era um assunto sobre o qual não se falava. Na minha turma, havia duas que os pais ficaram malucos. Era tudo dito em surdina. Havia uma espécie de vergonha das famílias, porque eles não tinham sido mortos em combate, honradamente. Havia muita vergonha e eram sempre as pessoas mais próximas delas que faziam este sussurro entre nós.”

Deixa-se para o próximo texto a itinerância de João Corte-Real de Araújo Pereira, era capitão quando embarcou para Timor em setembro de 1959 e fez a sua última comissão na Guiné, para onde partiu em dezembro de 1962. Mais família com vida no quartel, mais filhos internados em instituições militares; e também Rogério Pereira, furriel miliciano enfermeiro em Angola entre 1969 e 1971. Nascido em 1945 casou em 1966 e quando parte a mulher fica com duas filhas. Durante dois anos, Rogério escreve quase todos os dias para casa. Parte significativa da correspondência é feita no verso de fotografias que envia à mulher e às filhas. Quando se dirige à filha mais velha escreve com letras muito grandes na expetativa de que ela talvez começasse a entendê-las. O Rogério falará com as autoras a quem dirá que a guerra o humanizara muito. “Por imperativos que eu não gostaria de ter tido, relacionei-me com outra forma de ser, de conviver, com outras culturas. Quando aquela gente soube que os tratava bem, logo de manhã, eu tinha filas à porta do posto de socorros… e isso deu-me, digamos, é uma experiência muito difícil de explicar. Porque o que nos produz são sentimentos. Eu, ao perceber aquela dependência, aquela vivência e aquela forma de estar e viver, percebi que, de facto, nós, enquanto potência colonial, fizemos muito mal o nosso trabalho de casa.”

Ana Vargas e Joana Pontes

(continua)
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Notas do editor

Vd. post de 13 de abril de 2026 >Guiné 61/74 - P27918: Notas de leitura (1913): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (3) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 17 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27927: Notas de leitura (1914): "A Partilha de África", por Conde de Penha Garcia; Lisboa, 1901 (1) (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 13 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27918: Notas de leitura (1913): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (3) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 11 de Dezembro de 2025:

Queridos amigos,
É elevado o número de oficiais do quadro permanente que neste livro aparecem a conversar com os filhos, e vemos que estas crianças, em situações frequentes, conheceram o internato no colégio militar e no instituto de Odivelas. Os pais tinham uma defesa na sua correspondência, acompanhavam os estudos dos filhos. São bem distintas as histórias que hoje aqui têm lugar.
Abílio Santiago Cardoso fez duas comissões em África que deixaram boa memória aos filhos. A terceira comissão é passada na Guiné, na região de Catió, entre 1967 e 1969. É parcimonioso nas descrições do seu dia a dia, os filhos socorreram-se da história da Unidade para saber mais da comissão do pai. Este veio muito abalado, comentam os filhos, demorou a recuperar. Nenhum dos filhos seguiu a carreira militar, os mais velhos revelaram-se contestatários e chegaram a ser presos na contestação ao regime e à guerra, em meio académico portuense. Amável Velez Serra, mal saído da Escola do Exército, ofereceu-se como voluntário, parte para Angola em 1955. Segue-se a Índia onde ficou prisioneiro, voltará a Angola entre 1963 e 1965. Também nunca escreveu aos filhos sobre a guerra, revelou-se profundamente terno a falar individualmente a cada um dos filhos, busca todos os assuntos, como as prendas de Natal, as aulas de piano e de judo, a catequese. voltará a ser mobilizado em 1970 para Moçambique, e logo a seguir para Angola. Também nunca quis falar com os filhos sobre a natureza das guerras que viveu.

Um abraço do
Mário



Olhe que o pai faz muita falta. Foi com a sua comissão que eu aprendi o quanto custa o estar longe e só e para nós o sofrimento não se compara com o seu – 3

Mário Beja Santos

Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975, por Ana Vargas e Joana Pontes, Tinta da China, 2025, é um livro arrebatador, profundamente terno, e, tanto quanto me é dado de saber, preenche uma lacuna no campo da investigação.

É uma longa série de relatos, as autoras captaram perfeitamente a natureza dos laços afetivos, as contingências que perpassam toda esta correspondência onde é por demais evidente que o militar procure silenciar o mundo da guerra em que vive. É o caso de Abílio Santiago Cardoso que assim escreve: “Meus filhos queridos, não me façam mais perguntas sobre este assunto e peçam a Deus que me ajude a cumprir o meu dever.” Vamos agora falar deste oficial de artilharia que fez três comissões.


Só recentemente é que os descendentes, os filhos e as noras de Abílio e Maria Lúcia, ao desmanchar a casa dos pais, encontraram a correspondência trocada durante a comissão militar na Guiné, entre 1967 e 1969.

Abílio teve a sua primeira comissão em Moçambique, em 1955. Ele e Maria Lúcia casaram por procuração e em Lourenço Marques nasceram os três filhos mais velhos. No regresso, em 1956, a família vai para Penafiel, ficando a viver no quartel, foi aqui que nasceu o quarto filho, em 1961.
A segunda comissão foi em Cabo Verde, Abílio leva a família toda, a comissão deixou boas recordações. Regressam a Penafiel. Em 1967 Abílio é tenente-coronel de artilharia vai comandar o Batalhão de Artilharia nº 1913, vão para o setor S3, com sede em Catió, ali vivem na área controlada pelos militares cerca de 6000 pessoas.


Consta do livro da Unidade a descrição do inimigo: “apresenta-se num setor bem instruído, experiente, moralizado e bastante aguerrido". O filho mais novo acompanha a mãe e vão para a Régua, os outros três filhos ficam internos no Colégio Militar. O pai escreve-lhes incentivando-os no desempenho escolar, mostra-se orgulhosos com os prémios que os filhos gémeos recebem. Numa carta Abílio escreve aos filhos: “É necessário que todos nós, os 6, formemos um bloco unido e pronto a ampararmo-nos uns aos outros seja em que circunstância for e implique os sacrifícios que implicar.” Os filhos gémeos terão na altura 12 anos. Abílio está acerca de um mês em Catió quando escreve esta carta aos filhos mais velhos:
“É a última vez que vos falo da minha atividade aqui. Operações são coisas muito sérias em que morrem a guerrear uns homens que têm pais, mulheres ou filhos ou todos os parentes mencionados. Claro que se esses homens estão do outro lado, lamentamos o facto de nos obrigarem porque eles assim o quiseram. Quando se trata de homens nossos, o problema é muito doloroso.”


Os filhos que irão conhecer a realidade da comissão através do tal livro da Unidade. O Batalhão aposta na ação psicológica e no apoio social. Há população que estava sob o controle do inimigo que se apresenta nos aquartelamentos do Batalhão. Este regressou a 2 de março de 1969. Em combate teve 26 mortos e 137 feridos. Nos tempos subsequentes à chegada do pai a guerra não era tema de conversa. Nenhum dos filhos seguiu a carreira militar. Abílio foi sempre aos almoços de confraternização, era muito querido entre os seus antigos subordinados.

É a vez de falar de Amável Velez Serra, que se alistou como voluntário aos 19 anos de idade. Tinha feito a Escola do Exército, a sua primeira comissão foi em Angola. Casa-se por procuração em 1957 com Maria Julieta Rogado. O primeiro filho nasce um ano mais tarde em Benguela, e no ano seguinte, nasce uma filha em Nova Lisboa, permaneceram em Angola quatro anos.

Em 1961, Amável, já como capitão, é mobilizado para a Índia, a família acompanha-o. Pouco antes da invasão pela União Indiana, a mãe regressa com dois filhos e grávida do terceiro. Amável é preso. Regressa e é novamente mobilizado para Angola, a partir desta terceira comissão a família não acompanha o pai. Amável ficará em Angola entre 1963 e 1965, receberá a visita da mulher e do filho mais novo.

Em 1966, começa em Évora a constituição do Batalhão de Caçadores n.º 1903, Amável vai novamente para Angola, vão para Zau-Evua, há uma grande dispersão da população por sanzalas, grande parte da população fala português. Seguem-se outras deslocações, o Batalhão regressa em junho de 1969. Durante estes dois anos de ausência, Amável nunca escreveu aos filhos sobre a guerra, fala sempre do quotidiano dos filhos, é muito terno na escrita.

Amável voltará a ser mobilizado em 1970, para Moçambique, onde ficou mais dois anos. E logo a seguir para Angola onde se encontrava quando se deu o 25 de abril. Os filhos não encontraram correspondência que o pai tivesse enviado destas comissões, embora recordem que ele escrevia com regularidade, sobretudo os pais entre si, e também os filhos recordam que o pai nunca falou de situações pelas quais tivesse passado durante o período em que esteve mobilizado, nem sequer do tempo em que esteve preso na Índia, nem mesmo com o filho mais novo, que seguiu a carreira militar.

Itinerários diferentes são o que iremos reportar a seguir, envolvendo Carlos Alberto de Oliveira e Lemos, Oficial da Marinha, que deixou uma correspondência singularíssima, e de Pedro João dos Santos Reis, Oficial da Arma de Infantaria. Recordamos ao leitor que estamos a passar em sequência a correspondência entre pais mobilizados e os seus filhos menores durante a Guerra Colonial. Em aerogramas escritos e desenhados, o militar vai desempenhando o seu papel de pai. Os filhos, por seu lado, consoante a idade, vão respondendo da maneira que conseguem, por vezes a com a ajuda das mães. Esta troca de correspondência oferece-nos uma reflexão muito particular sobre a ideia de família numa sociedade em mudança.

Ana Vargas e Joana Pontes

(continua)
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Notas do editor

Vd. post de 6 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27894: Notas de leitura (1911): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (2) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 10 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27909: Notas de leitura (1912): Um manjar para filatelistas acérrimos: "Os Selos Coroa da Guiné" (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 6 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27894: Notas de leitura (1911): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (2) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 2 de Dezembro de 2025:

Queridos amigos,
Tenho para mim que estas cartas entre pais e filhos, e as memórias que deixaram, possuem um natural encanto e abrem uma nova janela à investigação. Julguei à partida que se tratava de uma incursão original, acabo agora de saber, por email recebido do Dr. João Horta, da Biblioteca da Liga dos Combatentes que há investidas precedentes, a saber: «Nós, os filhos da Guerra» referente a memórias de Frederico Valarinho, Âncora Editora, e «Sobretudo a Agonia – Angola, Memórias de uma Guerra Íntima» da autoria de Celso Braga Rosa, Edições Afrontamento. O livro Querido Pai, ainda vai dar pano para mangas, depois atiro-me a estas duas obras aqui referidas. Se porventura o leitor conhecer mais iniciativas desta índole, peço-lhe a amabilidade de me indicar o título e a editora.

Abraço do
Mário



Olhe que o pai faz muita falta. Foi com a sua comissão que eu aprendi o quanto custa o estar longe e só e para nós o sofrimento não se compara com o seu – 2

Mário Beja Santos

Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975, por Ana Vargas e Joana Pontes, Tinta da China, 2025, é um livro arrebatador, profundamente terno, e, tanto quanto me é dado de saber, preenche uma lacuna no campo da investigação.

Damos seguimento às conversas já havidas com Albano Mendes de Matos e José Afonso da Silva Neto, entra agora na nossa sala de conversa Hernâni Pereira da Silva Anjos, foi oficial do Quadro Permanente, a filha mais nova, Alexandra, refere o pai como pessoa com grandes interesses culturais e intervenções literárias. Fala do casamento dos pais que se tinham conhecido na Índia, era então capitão, já tinha feito uma comissão em Macau. A filha não consegue encontrar a razão pela qual o pai ficou sete anos na Índia.

Hernâni é promovido a major e mobilizado para Angola, parte com a família em 1964. Quatro meses após o regresso a Angola é mobilizado para a quarta comissão, em Moçambique, a família já não o acompanha. Ao longo da comissão vai escrevendo à filha tratando-a sempre por “minha muito adorada filhinha”, diz coisas como estas: “Tu ainda te lembras de mim? Sabes como eu me chamo? Lembras-te das brincadeiras que eu tinha contigo? Sabes tu, minha filhinha, que eu ando com os vossos retratinhos no bolso e todos os dias os vejo várias vezes?” Hernâni adoece e é internado, o hospital militar deteta, na sequência de problemas de coração será evacuado para Lourenço Marques e depois para Lisboa. Quando chega, Alexandra é avisada na escola “Pego na pasta e já fui, de bata vestida. Cheguei e estava lá aquele homem, para mim era um estranho. É tudo relativo para uma criança, um ano é uma eternidade, quanto mais dois.”

Segundo a filha, o pai chegou a ser violento com a mulher, houve divórcio, o pai morreu depois de uma operação ao coração. Após a morte da mãe, Alexandra ficou com uma pequena caixa de madeira onde estão guardadas as cartas que os pais trocaram entre si. Alexandra não teve coragem para as ler.

Temos agora a história de Mário Umberto Faria pela narrativa de seu filho Paulo, escritor e tradutor. "Sempre Excelentes e Valorosos" são as palavras que definem a divisa do Batalhão de Caçadores 1939, constituído por 632 homens incluindo três médicos milicianos e um capelão. Um dos médicos é Mário Faria, o destino é Moçambique. Mário parte com 29 anos e deixa a família em Lisboa, três filhos pequenos e a mulher grávida.

A Companhia de Caçadores 1798, a que pertence Mário, parte para Muôco, Mário permanecerá em Moçambique 796 dias. Observa Paulo:
“O meu pai escrevia muito à minha mãe. E a minha mãe escrevia muito ao meu pai. Escreviam muito, talvez duas mil cartas e aerogramas. Pelo que a minha mãe me contou, ficou tudo guardado num saco, um saco enorme que estava na dispensa da casa onde nós morávamos. E, numa dada altura, mudámos para este prédio, onde hoje ainda moro. Nessa mudança, pelo que a minha mãe me contou, estavam a arrumar a casa e a certa altura a minha mãe apercebe-se de que o meu pai sai. Ele sai e ela tem um pressentimento e vai à dispensa ver o saco. O saco já não estava lá. O meu pai, sem dizer nada pôs o saco no lixo. O meu pai já devia ter decidido, na cabeça dele, que queria virar aquela página, não queria que ninguém visse aquilo.”

Segundo Paulo, o pai escrevia para todos sem distinção dos filhos, escrevia com muita frequência, e vai identificando sempre o lugar onde está e data a correspondência. Enumera os presentes que compra para os filhos, deles vai recendo notícias. Faz desenhos na correspondência. E o pai regressa, e Paulo rememora. Existe a história da unidade e Paulo conversou com os homens da Companhia a que o pai pertenceu.

Mário nunca falou a sós com o filho sobre a guerra. Voltando ao assunto da destruição das cartas, Paulo observa: “Ele deve ter contado coisas que o impressionaram muito, o suicídio do tal soldado, provavelmente ter-lhe-á contado a história da consulta que fez e dos seus remorsos… E, portanto, ele não queria que alguém fosse depois ler aquilo, queria contar a história à sua maneira, com distanciamento e com calma. Era uma pessoa que se controlava, um homem de ferro, só o vi comovido no funeral da mãe, foi a única altura.”

Paulo ficou com as agendas do pai, e assim pode ler que Mário vacinou centenas de nativos contra a varíola, anotava quantas unidades de vacina ele recebia na Companhia, e quando se deslocava aos aldeamentos para as administrar. Foi nessas agendas que Paulo soube do soldado que se suicidou. Mário escreveu na agenda, na circunstância: “Dia mais negro da comissão até agora. Sinto-me o mais infeliz dos homens por me ver metido nesta porcaria. Poderei vir a esquecer o dia de hoje?”. Mário nunca foi aos almoços de confraternização com os militares da sua Companhia ou do Batalhão. Paulo começou a ir após a morte do pai. Aquele médico, como muitos outros, estava numa posição sempre difícil, havia muita gente a querer que ele os livrasse de irem para o mato.

Quando a conversa termina, Paulo arruma as fotografias dispersas, reúne as agendas e os papéis que mostrara e diz às autoras: “A guerra, no fundo, foi uma maneira de chegar ao meu pai. Digamos assim, foi uma espécie de atalho. Quando o meu pai morreu, percebi que tinha de escrever sobre ele.”

Iremos seguidamente falar de Abílio Santiago Cardoso, oficial de artilharia, com três comissões e de Amável Velez Serra que se alistou como voluntário aos 19 anos de idade, concluiu a escola do Exército.

Ana Vargas e Joana Pontes
A família de Albano de Matos. A neta Inês, a mulher Judite e a filha Rita, assunto que se abordou no texto anterior, fotografia do jornal Expresso, com a devida vénia

(continua)
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Notas do editor

Vd. post de 30 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27872: Notas de leitura (1909): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (1) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 3 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27885: Notas de leitura (1910): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (9) (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 30 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27872: Notas de leitura (1909): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (1) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 25 de Novembro de 2025:

Queridos amigos,
Estou em crer que esta relação dos militares mobilizados para a guerra colonial com os filhos menores era campo não desvendado nos estudos da guerra colonial. Quero confessar desde já que é uma literatura arrebatadora, as autoras rendilharam à perfeição estes encontros com antigos combatentes e descendência. Como escreve Aniceto Afonso no prefácio: "As cartas entre pais e filhos, normalmente ainda crianças, levam e trazem emoções especiais e sentimentos íntimos que devemos olhar com delicadeza e compreensão. Fazer história obriga-nos a considerar também estes casos singulares das relações com as crianças, o que nem sempre é um caminho fácil." Um livro maravilhoso, vale a pena dissecá-lo, de fio a pavio. Recomendo-o sem qualquer hesitação, talvez seja uma ajustada prenda de Natal para os nossos netos, que não viveram nem viverão as ausências de que aqui se fala.

Um abraço do
Mário



Olhe que o pai faz muita falta. Foi com a sua comissão que eu aprendi o quanto custa o estar longe e só e para nós o sofrimento não se compara com o seu - 1

Mário Beja Santos

Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975, por Ana Vargas e Joana Pontes, Tinta da China, 2025, é um livro arrebatador, profundamente terno, e, tanto quanto me é dado de saber, preenche uma lacuna no campo da investigação. Há estudos sobre as mulheres e a guerra, sobre a correspondência entre namoradas, noivas e mulheres e os combatentes, as enfermeiras-paraquedistas, os capelães militares, diários de quem combateu em terra, no mar e nos céus, a correspondência das madrinhas de guerra, mas permanecia no limbo saber-se algo da relação dos militares mobilizados para a guerra colonial com os filhos menores que ficaram na metrópole ou vieram nascer na sua ausência. Como escrevem as autoras, em aerogramas escritos e desenhados, o militar vai desempenhando o seu papel de pai; os filhos, do seu lado, consoante a idade, vão respondendo da maneira que conseguem, por vezes com a ajuda das mães, dos irmãos ou de outros familiares. É este vai e vem de correspondência que nos abre um campo de reflexão muito particular sobre as ideias de família numa sociedade em mudança, a par dos valores e dos contextos sociais que marcaram uma época fundadora da história do país.

Como é evidente, as autoras apresentam uma amostra que porventura reflete perfeitamente as relações e os sentimentos desse tempo de ansiedade. E não deixam de anotar que pouco conhecemos sobre a correspondência trocada entre os homens que foram mobilizados para combater em África e as suas famílias e amigos – muitas surpresas terão os investigadores quando vasculharem o que já está em depósito no Arquivo Histórico-Militar e afins.

O pontapé de saída é dado por Albano Mendes de Matos, tinha 92 anos quando interpelado pelas autoras, estão presentes a mulher e duas filhas. Albano fez três comissões militares, parte para Angola no verão de 1961 e regressa da sua terceira comissão da Guiné no último avião que sai de Bissau, em outubro de 1974. Ao longo de 13 anos, registou datas, ocorrências, leituras, pessoas com quem se cruzava, pensamentos em relação ao que observava. Quando parte para a sua primeira comissão ainda não está casado, regista durante a viagem, e muito criticamente, as condições em que vivem os soldados amontoados nos porões. Nesta primeira comissão irá escrever à namorada e à família, perdeu-se a correspondência.

Regressa a Angola em setembro de 1963, é já 1.º sargento. Já nasceu a filha mais velha, tempos depois manda vir a família para junto de si, vivem em Piri. Às vezes, de madrugada, ouvem-se gritos. Diz Albano: “O quarto estava em frente do edifício da prisão. Os gritos, às três da manhã… aplicavam castigos aos trabalhadores contratados, davam palmatoadas e batiam com chicote.” A menina assustava-se. A meio da comissão vão para Santo António do Zaire.

Regressado a Lisboa, Albano faz vários cursos e é promovido a oficial a sua terceira e última comissão é na Guiné. A família fica, a filha mais nova é internada num hospital ortopédico. As filhas recebem correspondência do pai. Os aerogramas que Albano escreve à filha hospitalizada centram-se na saúde, nas intervenções cirúrgicas e no internamento:
“Querida Lúcia Para o mês que vem vais ao hospital e depois já falta pouco tempo para estares boa. Tens de ir e não chorar, que é para deixares a cama depressa.
Vou mandar a coleção dos cães. Depois pões num álbum e dizes que foi o pai que mandou quando esteve na Guiné. Muitos beijos do teu pai Albano.”


Ambas as filhas afirmam que o pai mandava muitas fotografias e telefonava. Albano escrevia de forma diferente para a filha mais velha. Faz uma leitura atenta do que a filha escreve e corrige-a, observando:
“A palavra aonde é um advérbio relativo, quer dizer movimento, para onde se vai; onde é advérbio relativo e significa que uma coisa está parada. Ambos dão ideia de lugar. Aonde vais?, quer dizer que uma pessoa vai em movimento. Onde estás?, quer dizer que uma pessoa está parada no lugar. Perguntas coisas que eu respondo.” Albano, como se disse atrás, regressará no último avião militar que deixa a Guiné, 14 de outubro de 1974: “Acabou-se o império ali. Depois comecei a pensar na gente que morreu, comecei a pensar nisso, chorei.” Nas suas notas escreve: “A um sentimento de alegria, por ter terminado a guerra colonial, e a alguma tristeza por naquelas terras ficar muito sangue português, juntava-se a vivência rara de ver nascer uma nação livre e independente.” Na despedida, Albano faz uma última confissão às autoras: “Passei anos a sonhar com a guerra. Nunca conseguia regressar. Ou me faltava a roupa ou me faltavam os sapatos.”

Zé Afonso da Silva Neto é a segunda história para contar. Quatro aerogramas, duas cartas com envelope, uma fotografia a preto e branco e uma folha de calendário do dia 5 de agosto de 1967 é tudo o que existe e testemunha a sua relação escrita que manteve com as três filhas enquanto esteve ausente na guerra. A maior parte da correspondência que trocaram ter-se-á perdido ao longo dos anos nas várias mudanças de casa. As autoras conversam com a filha mais velha, Isabel. José Neto era militar do quadro permanente, partiu para Macau em 1951, aqui conhece a mulher, casam ele com trinta anos ela com dezassete. Regressam de Macau e ficam em Leiria. Em 1962, parte para Angola, a mulher está grávida da segunda filha.

Quando regressa, vão viver no Bairro dos Sargentos em Leiria. A terceira comissão é em 1966, a terceira filha, Ângela, a quem o pai chama a Carochinha, tem um ano e três meses, Zé Neto vai para a Guiné. Deste tempo que a família sabe está contado num livro que o pai deixou no computador. José Neto não falou à mulher nem às filhas sobre as comissões. Esteve na Guiné de 1966 a 1968, o livro reproduz imagens dele em Guileje. Na Guiné afeiçoa-se a uma criança, filho de um oficial branco que estava na Companhia com uma miúda da aldeia. A filha Ângela observa às autoras: “Eu acho que o meu pai deu ao miúdo aquilo que não nos pôde dar. Era da minha idade, nasceu em 1965 e, portanto, o meu pai transportou para ele algum do amor que tinha para dar.”

Haverá dramas na unidade militar do José Neto, um soldado transtornado pegou numa arma e matou o capitão. Em 1970, José Neto parte para a quarta comissão, vai juntar-se ao BART 2896, em Cazombo, Alto-Zambeze. Ângela recebe uma carta do pai quando faz cinco anos. Envia-lhe também fitas com conversas e canções. José Neto regressa em 1971 para frequentar o curso de oficiais, vem muito magro e a sofrer de uma úlcera de origem nervosa. Isabel comenta para as autoras: “Para mal ou para bem, nós passámos por isto. Os nossos pais passaram por isto e eu acho que faz parte da história, que não se deve apagar da história de um país.” E a filha Ângela também comenta: “Até porque nós, filhos, uma parte de nós é como se tivéssemos uma tatuagem: o meu pai esteve no Ultramar e não cuidou de mim. Não pôde cuidar de mim como os outros pais puderam educar os outros filhos. Para o bem e para o mal, foi a pessoa mais importante nas nossas vidas.”

Ana Vargas e Joana Pontes

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 27 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27863: Notas de leitura (1908): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (8) (Mário Beja Santos)

sábado, 9 de agosto de 2025

Guiné 61/74 - P27104: In Memoriam (558): Dúnia Ivone Ramos Gonçalves (1976-2025), filha do nosso camarada Carlos Filipe Gonçalves, ex-fur mil amanuense, CefInt / QG / CTIG, Bissau, 1973/74): o funeral é amanhã, às16h00, no Cemitério da Várzea, Praia, Cabo Verde



1. Da página do Facebook de Ana Gonçalves, filha do nosso camarada Carlos Filipe Gonçalves, transcrevemos a seguinte mensagem:

Comunicado de Falecimento:

É com profundo pesar e imensa dor que a família comunica o falecimento de Dunia Gonçalves (@Nasha Gonçalves), vítima de doença prolongada, ocorrido hoje na Cidade da Praia.

Deixa o seu filho Rafael Lopes, os pais Ana Gonçalves e Carlos Filipe Gonçalves, as irmãs Monika e Ana Carla, sobrinhos, cunhado e demais familiares, que com grande tristeza partilham esta notícia.

O velório realiza-se na segunda-feira, 11 de agosto, no salão da Igreja do Nazareno, no Platô, Praia.

O funeral terá lugar no mesmo dia, pelas 16h00, no Cemitério da Várzea, com partida do salão da Igreja do Nazareno pelas 15h00.

A família agradece desde já todas as manifestações de apoio e solidariedade neste momento de luto.




A Dúnia é a primeira, da esquerda.
Foto: Ana Gonçalves (2025).
(Com a devida vénia...)




2. Outro excerto da página do Facebook da Ana Gonçalves:

(....) Éramos 3 ... sempre juntas que até misturávamos os nossos nomes, vou ser sempre a tua MoAna,  como dizias quando querias me chamar mas chamavas primeiro a Monika ...

Já não vou ouvir a tua voz na rádio nem nas publicidades.

Não vais ver o Francisco (txukin) e a Catarina (txorona) a crescerem.

Eu sei que lutaste ... agora descansa ... vou ter muitas muitas saudades. (...)



3. Nota do editor LG:

Carlos Filipe Gonçalves, nosso antigo camarada na Guiné (foi fur mil amanuense, CefInt/QG/CTIG, Bissau, 1973/74), é uma figura pública no seu país, Cabo Verde: radialista, jornalista, escritor, etnomusicólogo...  

Natural do Mindelo, vive na Praia. É autor, no nosso blogue, da série "Recordações de um furriel miliciano amanuense (Chefia dos Serviços de Intendência, QG/CTIG, Bissau, 1973/74) (Carlos Filipe Gonçalves, Mindelo)"

Ainda recentemente escreveu aqui, em poste de 5/7/2025:

(...) "50 anos depois, estou aposentado. Casado, tenho três filhas (49, 47 e 41 anos de idade), quatro netos (26, 18, 3 anos, neta recém nascida com um mês e meio). Vivi a grande aventura do depois da «Independência»… no que me concerne, já escrevi como vivi e o que se passou na história recente da rádio (livro ainda não publicado) e também já escrevi sobre a história da rádio no antes da Independência (um dos livros já publicado, o 2.º à espera de ser editado).

"E para completar, já escrevi o que vi e vivi na Guiné de 1973 a 1975, porque memórias de cabo-verdiano de ambos os lados, na Guiné, antes e depois das Independências, também precisam ser conhecidas". (..:)

Sabíamos que tinha a filha mais velha, Dúnia, de 49 anos, no hospital, na Praia, a lutar contra um cancro da mama. Ainda ontem, e sem ter notícias dele desde 28 de julho passado, lhe mandei às 23:21 a seguinte mensagem:

(...) "Carlos: (...) quero saber como tem evoluído o estado de saúde da tua filha. Imagino quanto ela e a vossa família estão a sofrer. Estou solidário contigo. Não sei rezar, mas espero que os deuses e os bons irãs a protejam e a salvem. Um abraço fraterno, Luís." (...)

Esta manhã soube pelo Zeca Macedo do desfecho fatal: nem os deuses nem os bons irãs salvaram a Dúnia. Para a família, destroçada, do nosso camarada de Cabo Verde, Carlos Filipe Gonçalves, pai, mãe, filho e irmãs da Dúnia, e demais família e amigos íntimos, vão os votos de pesar da nossa Tabanca Grande. Os filhos dos nossos camaradas nossos filhos são. (*)

Foto à esquerda: o nosso camarada, Carlos Filipe Gonçalves, em 8 de agosto de 2014, com a filha mais velha, Dúnia: "Estou feliz e orgulhoso! Coloquei hoje a fita na minha filha Dunia, finalista do curso de Comunicação Social. Parabéns Dunia! Cerimonia esta tarde na UNIPIAGET".


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Nota do editor:

Último poste da série  > 29 de julho de 2025 > Guiné 61/74 - P27066: In Memoriam (557: Rita Mascarenhas (1978-2025), filha do nosso camarada José Rodrigues (ex-fur mil trms, CCAÇ 1419, Bissau, Bissorã e Mansabá, 1965/67): o velório terá lugar na 5ª feira, dia 31, a partir das 12 horas na Igreja Paroquial da N. Stra. do Cabo, Linda-a-Velha; às 16 horas haverá missa de corpo presente, seguindo o funeral, às 16.30, para o crematório do cemitério de Barcarena