1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 11 de Dezembro de 2025:Queridos amigos,
Continuamos na companhia de militares e da sua correspondência endereçada a filhos menores durante a guerra colonial. Temos, primeiro, Carlos Alberto de Oliveira e Lemos, aqui relevado pela originalidade de ter enviado um conjunto de contos em pequenas bobines, assim deliciava crianças e adultos. Carlos fez o curso da Escola Naval, teve uma comissão em Moçambique entre 1968 e 1970. Os filhos recordam o camarote do pai e a sua mesa de trabalho, foi nessa cabine que o pai iria escrever e ler as centenas de cartas que trocou com a família e gravar as bobines com os contos e as conversas que enviou para os filhos. Carlos não escondia situações de apuros vividas durante a comissão militar. Terá vindo muito debilitado de Moçambique, morreu com 53 anos. Pedro João dos Santos Reis era oficial da arma de infantaria, fez quatro comissões. A primeira comissão em Moçambique, e depois Timor, experiência inesquecível para os filhos, Pedro deixou a filha mais nova ao cuidado dos avós. A terceira comissão foi na Guiné, leva parte da família, irão os três filhos mais novos, os mais velhos em instituições militares. Pedro fará a sua última comissão em Angola, aqui viverá o 25 de abril, será um dos últimos militares a regressar. Um dos filhos comenta: "Ele adorava aquela cidade (Luanda). O pouco que ele contava do que se passou depois era uma coisa horrível."
Um abraço do
Mário
Olhe que o pai faz muita falta. Foi com a sua comissão que eu aprendi o quanto custa o estar longe e só e para nós o sofrimento não se compara com o seu – 4
Mário Beja Santos
Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975, por Ana Vargas e Joana Pontes, Tinta da China, 2025, é um livro arrebatador, profundamente terno, e, tanto quanto me é dado de saber, preenche uma lacuna no campo da investigação.
Começamos hoje por falar de Carlos Alberto de Oliveira e Lemos, estou seguro de que ele vai prender a atenção do leitor. Escreveu um livro de contos aos filhos durante os dois anos que esteve em Moçambique, com o título Lá de Longe, Edições Culturais da Marinha, é um conjunto de contos que Carlos Lemos escreveu, gravou e enviou em pequenas bobines de som que os filhos ouviam, acompanhados pela mãe, pela avó e por Alice, a empregada que esteve sempre com a família. O encontro entre as autoras e o filho de nome Miguel realizou-se no Museu da Marinha, ouviu-se a voz do pai a contar uma história, lá de longe, com a música de efundo a condizer. Carlos Lemos tinha 42 anos quando partiu para Moçambique como oficial imediato da Fragata D. Francisco de Almeida. Deixa rastilhos: Guida, com 7 anos, e Miguel, com 6. Para além das bobines, havia a correspondência, as perguntas sobre o dia-a-dia dos filhos. Entretanto nasceu mais uma menina, a Sara. O pai mandou a notícia por carta: “Parece que Jesus nos vai mandar um irmão ou uma irmã para ti e para o Miguel […] é preciso não arreliar a mãe para não fazer mal ao bebé que está a crescer. Depois, quando ele nascer, tens de ajudar a criar. Não é muito difícil.” O correio dos dois filhos mais velhos é dar notícias da recém-nascida.
Carlos Lemos é mais aberto à escrita, conta mesmo operações em que intervinham fuzileiros, e descreve situações muito enrascadas. Ouve-se a voz do pai numa gravação: “Havia guerra entre pretos e brancos. A guerra era por causa dos brancos que queriam ficar a mandar nos pretos, e por causa dos pretos que não estavam satisfeitos com o procedimento dos brancos. Tanto pretos como brancos mandavam outros pretos e outros brancos, que não eles, pegarem armas para se matarem uns aos outros. Poucos sabiam porque é que haviam de lutar e pouquíssimos gostavam realmente de pegar em armas.”
Para os filhos não há dúvidas, Carlos Lemos escrevia para ele. O pai entende que não deve esconder aos filhos o dia-a-dia: “Ontem o navio parecia uma autêntica arca de Noé. Vinham atestados até mais não poder. Trazia mais de duzentos homens, coitados, dormem ao relento pelo chão e por onde calha. Deus teve pena deles e não mandou chuva.”
Falando com as autoras Guida diz que o pai veio diferente, triste e debilitado. Carlos morreu com 53 anos, doente.
Vejamos agora a trajetória de Pedro João dos Santos Reis. A conversa decorre à volta de uma mesa, estão cinco irmãos de uma família de sete filhos. Trouxeram fotografias, aerogramas e cartas que consultam, trocam entre si, e sobre as quais contam histórias, desafiando-se uns aos outros sobre memórias dos seus tempos de infância e da adolescência. Pedro fez a academia militar e foi mobilizado para quatro comissões, tendo, entre elas, concluído o curso de Estado-Maior que graduava oficiais superiores. A primeira comissão foi em Moçambique. Aqui nasceram dois filhos, a Paula e a Leny. Regressam e a família fica quatro anos em Lisboa e, entretanto, nascem mais três filhos, Zé Pedro, Ana e Maria João, entre 1956 e 1960. O pai é mobilizado para Timor, ele e a mulher levam quatro filhos, o bebé fica com os avós. Contam-se histórias como um convite feito a um padre para almoçar lá em casa, e o criado estava a servir à mesa quando viu aquela pessoa que fugiu. A mãe quis apurar a verdade, ainda por cima ia buscar os criados saídos da vida prisional. O criado confessou que tinha matado um padre que era o seu patrão. Ficou tudo em segredo de família.
Nasce mais um filho em Timor, a família regressa em 1963, o pai vai fazer o curso do Estado-Maior. Em Lisboa nasce mais uma filha, a Patrícia. O pai parte para nova comissão, vai para a Guiné e ficará em Bissau, com ele vai uma parte da família, a mãe e os três filhos mais novos. Conversando com as autoras, os filhos vão dando conta, uns recebendo a correspondência dos pais, outros a viver em Bissau, da atividade do pai, oficial perto de Spínola. As viagens que fizeram para a Guiné tornaram-se inesquecíveis. O pai é um dos últimos oficiais a deixar a Guiné, regressou em setembro de 1974. Há também lembranças do instituto de Odivelas, como recorda a filha Paula: “Havia órfãs, caso da nossa colega, também de nome Paula. Havia uma ideia de que o pai tinha sido morto na guerra, mas não se falava disso. Era um assunto sobre o qual não se falava. Na minha turma, havia duas que os pais ficaram malucos. Era tudo dito em surdina. Havia uma espécie de vergonha das famílias, porque eles não tinham sido mortos em combate, honradamente. Havia muita vergonha e eram sempre as pessoas mais próximas delas que faziam este sussurro entre nós.”
Deixa-se para o próximo texto a itinerância de João Corte-Real de Araújo Pereira, era capitão quando embarcou para Timor em setembro de 1959 e fez a sua última comissão na Guiné, para onde partiu em dezembro de 1962. Mais família com vida no quartel, mais filhos internados em instituições militares; e também Rogério Pereira, furriel miliciano enfermeiro em Angola entre 1969 e 1971. Nascido em 1945 casou em 1966 e quando parte a mulher fica com duas filhas. Durante dois anos, Rogério escreve quase todos os dias para casa. Parte significativa da correspondência é feita no verso de fotografias que envia à mulher e às filhas. Quando se dirige à filha mais velha escreve com letras muito grandes na expetativa de que ela talvez começasse a entendê-las. O Rogério falará com as autoras a quem dirá que a guerra o humanizara muito. “Por imperativos que eu não gostaria de ter tido, relacionei-me com outra forma de ser, de conviver, com outras culturas. Quando aquela gente soube que os tratava bem, logo de manhã, eu tinha filas à porta do posto de socorros… e isso deu-me, digamos, é uma experiência muito difícil de explicar. Porque o que nos produz são sentimentos. Eu, ao perceber aquela dependência, aquela vivência e aquela forma de estar e viver, percebi que, de facto, nós, enquanto potência colonial, fizemos muito mal o nosso trabalho de casa.”
Ana Vargas e Joana Pontes
(continua)
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Notas do editor
Vd. post de 13 de abril de 2026 >Guiné 61/74 - P27918: Notas de leitura (1913): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (3) (Mário Beja Santos)
Último post da série de 17 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27927: Notas de leitura (1914): "A Partilha de África", por Conde de Penha Garcia; Lisboa, 1901 (1) (Mário Beja Santos)


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