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sábado, 24 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28460: Os nossos seres, saberes e lazeres (756): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (276): Os quadros de António Palolo, a sua alegria luminosa, as cores incandescentes, as transbordantes secções do mundo (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 5 de Outubro de 2026:

Queridos amigos,
A Galeria 111 teve uma influência determinante na formação do meu gosto pela arte contemporânea, pelas opções que fui fazendo nas minhas compras modestas. Devo imenso a Manuel de Brito que propunha a quem se lançava na vida compras a prestações, ficou triste quando lhe disse que não podia comprar aquela serigrafia da Sónia Delaunay com a chegada de uma filha, andava com o dinheiro contado por ter decidido retomar os estudos com o ordenado de Tenente, enfim, vida modesta mas com contas certas. Recordo-o com alegria e saudade, parece que estou a ouvi-lo a explicar-me o que havia de profundamente original na arte de Palolo, Brito amava profundamente o seu trabalho, tinha aquele seu ar ponderado a comunicar o que estava exposto e como ele próprio sentia as obras de arte ali expostas, e, como ele dizia, se vocês não têm dinheiro para os óleos e guaches comprem as serigrafias a prestações. Que boas lembranças deste homem e do que ele fez pela arte contemporânea.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (276):
Os quadros de António Palolo, a sua alegria luminosa, as cores incandescentes, as transbordantes secções do mundo


Mário Beja Santos

Conheci a arte de Palolo (1946-2000) quando um dia, aí por finais de novembro de 1971, a caminho da Faculdade de Letras de Lisboa, onde retomara os estudos e passar a fazer exames com o estatuto de estudante-militar, passei pela Galeria 111, a pretexto de ir comprar um livro numa das livrarias do quarteirão, chamou-me à atenção haver na montra pintura que me pareceu da Arte Pop, mordido pela curiosidade fui percorrendo aquela pintura acrílica sobre tela e guaches, rapidamente me apercebi que havia outras aproximações e derivas da Arte Pop, subtis compromissos entre o figurativismo e o abstracionismo, impressionou-me o encerramento em molduras estritas, um geometrismo com cores muito vivas, uma autêntica festividade cromática, simetrias rigorosas, quadros dentro de quadros, linhas dentro de linhas.

É nisto que se aproximou Manuel de Brito, o proprietário da galeria, sempre ansioso de conversa, sobretudo com os mais jovens. Retive que ele fazia apelo a influências internacionais, falava mesmo em neofiguração, abstracionismo geométrico, minimalismo, Palolo era exposto na Galeria 111 desde 1964, para Manuel de Brito era muitíssimo interessante ver a evolução do artista, a sua combinação de linguagens abstratas e figurativas, o seu grau de autonomia e originalidade, a despeito da influência norte-americana ou britânica (a cor, a imagem popular, a repetição) ia adquirindo uma linguagem própria, ali presente havia uma arquitetura geométrica realçada pela cor, a indispensável matéria-prima do artista, parecia que era a cor que definia o espaço, o espetador da obra era muito mais dominado pela cor em estado vibrante que pelo enquadramento da obra. Manuel de Brito propunha sempre aos jovens aquisição de serigrafias a prestações, naquela altura, com a previsão da chegada de um filho, eu só fazia contas para que nada faltasse lá em casa, o gosto pelas obras de arte seria consumado quando houvesse as competentes folgas, quando houvesse melhoria de rendimento. Nunca perdi Palolo e os seus trabalhos de vista e cheguei a ter uma serigrafia e um desenho.

Não sei há quantos meses voltei a passar pela Galeria 111 e lá estava uma homenagem a Palolo, voltei a entrar e a sair deslumbrado quão tudo é visível e oculto nos seus trabalhos, a sua originalidade, uma certa traquinice no seu comportamento criativo, ele um autodidata, revelara uma impressionante maturidade na composição de códigos internos sem prejuízo de haver na composição qualquer coisa de teatro popular. Naquele ano de 1971, em que conheci os seus trabalhos, já Palolo era o mais jovem dos pintores que foram selecionados para a nova decoração da “Brasileira” do Chiado, o mesmo quer dizer que quem o avaliara encontrara nos seus trabalhos pujança pela linguagem de alegria luminosa e rigor na apresentação geométrica dos seus conteúdos.

Nesta recente visita pus-me discretamente a um canto para ver as reações de quem entrava e saía, dei por casal a cochichar: “Que otimismo, que simplicidade aparente, ele tinha mesmo gosto nestas aventuras de cor, neste virtuosismo com fitas alegres, hoje já não há artistas que nos façam vibrar assim, não achas?”

Dei comigo a pensar que Palolo, que perdemos tão cedo, deixou toda esta festividade que é mais do que uma pintura ilustrativa, ultrapassou o abstracionismo, não se deixou compadecer pelo academismo, a frescura como o vemos hoje pronuncia que o mundo de Palolo aponta para o intemporal de todas as aventuras pictóricas que ajudam a mudar o mundo, anunciando-as pela cor vibrante, pela alegria e esperança que cabem dentro da tela.

Não ponho legendas porque elas não aparecem nas suas obras. No entanto, surfando na internet, encontrei uma tela de Palolo no Centro de Arte Moderna da Gulbenkian, tem título e comentários, que aqui se reproduzem com a devida vénia.


https://gulbenkian.pt/cam/works/horrido-silencio-do-teu-corpo-138882/
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Nota do editor

Último post da série de 17 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28444: Os nossos seres, saberes e lazeres (755): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (275): Uma inesperada Chuva de Verão no Centro de Artes de Sines, até 19 de outubro (Mário Beja Santos)

sábado, 17 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28444: Os nossos seres, saberes e lazeres (755): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (275): Uma inesperada Chuva de Verão no Centro de Artes de Sines, até 19 de outubro (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 30 de Setembro de 2026:

Queridos amigos,
Belíssima iniciativa esta, a de pôr em circulação nacional obras da Coleção de Arte Contemporânea do Estado, um conjunto significativo de obras de artistas consagrados e emergentes. Entrando na exposição e começando a ler a brochura, fico com sérias reservas quanto à comunicação utilizada pelos curadores, eu sei que eles sabem da poda, resta saber se o visitante que habita Sines e arredores se entende com as razões do título da exposição e as temáticas nela abordadas. Senão veja-se: "Esta exposição propõe uma leitura sensível e expandida do imaginário associado ao verão, tomando como ponto de partida a experiência da vida balnear e as formas de sociabilidade, lazer e pertença que esta mobiliza." O leitor que vai discorrer pelas imagens que selecionei que se pergunte onde encontra imaginário associado ao verão e até mesmo a experiência da vida balnear. Mais adiante, escrevem os curadores: "O verão surge como um momento de suspensão e expansão, onde as convenções quotidianas cedem lugar a formas intensificadas de relação com o mundo. Longe de uma leitura nostálgica, Chuva de Verão inscreve-se num horizonte de comunhão com a natureza e com o coletivo, explorando territórios instáveis, geometrias afetivas e estados de leveza que redefinem a perceção e a presença."Parece-me muito barulho para palavrório tão altissonante, percorre-se este conjunto de obras e só por milagre há uma relação de causa e efeito entre a apresentação e a explicação do que se vai visitar e a sucessão de telas e obras que o visitante encontrará dentro deste belíssimo espaço que é o Centro de Artes de Sines. Há quem pense que o uso da imaginação da palavra coincide com o impacto estético do que o visitante encontra; no caso vertente, por onde andará a Chuva de Verão?

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (275):
Uma inesperada Chuva de Verão no Centro de Artes de Sines, até 19 de outubro


Mário Beja Santos

Estando ali perto de Sines, sendo um entusiasta destas instalações, vim visitar esta Chuva de Verão, uma nova exposição da Coleção de Arte Contemporânea do Estado. Reza a brochura que me acompanha na visita que esta exposição propõe uma leitura sensível e expandida do imaginário associado ao verão, tomando como ponto de partida a experiência da vida balnear e as formas de sociabilidade, lazer e pertença que esta mobiliza. Confesso que não entendo na vertigem deste palavrório, provavelmente um jargão corporativo de quem ganha a vida no domínio da história de arte e quer fazer um figurão com nomenclaturas impressionantes. O que irei visitar, subordinado a uma certa diversidade, entre o humano e o animal, dizem os curadores que nas chuvas de verão todos os elementos naturais estão reunidos e os corpos aceleram a esse apelo. Os humanos acedem à sua condição animal, explorando os seus instintos ancestrais e contemplando o mundo de modo radicalmente diferente das rotinas do dia-a-dia. Além deste humano e animal há outras temáticas, as geografias imaginárias e os corpos flutuantes. Vim cheio de curiosidade contemplar um tal diálogo entre diferentes práticas artísticas, do verão não vi sinal, rendi-me ao gozo estético que me provocam certas obras, sinto-me impressionado pela representação do belo, outras nada me dizem, mas isso parece ser matéria que tem a ver com as impressões que a arte provoca a cada um, desde o figurativismo mais académico às construções abstratas e às disparidades dos materiais. Deixo aqui um mero registo do que vi e porventura mais me tocou, quem vive em Sines ou nas proximidades está em cima da hora para poder visitar Chuva de Verão.
Inaugurado em 2005, o Centro de Artes de Sines (CAS) está dotado de biblioteca, auditório, galeria de exposições e arquivo histórico. Projeto dos arquitetos Manuel e Francisco Aires Mateus (prémio AICA/MC 2005 e finalista do Prémio Mies van der Rohe 2007)
Joaquim Bravo (1935-1990), La Mer, 1985. Este quadro mostra uma paisagem imaginária que evoca a superfície do mar e é reveladora de uma perspetiva original, revela a duplicidade entre escalas e cores, o vermelho e o azul, o grande e o pequeno, o cimo e o baixo, num jogo constante de contrabalanço.
Eduardo Batarde (1943-2025), da série “Candeeiros, Cubismos, Cães e Colunas”, 1980-81. Dotado de um domínio virtuoso da técnica e de uma atitude crítica e rigorosa perante a prática artística, Eduardo Batarda destacou-se pela coragem e ousadia da sua linguagem, construindo um legado que alia experimentação formal, densidade crítica e uma singular ironia.
Paula Rego (1935-2022), “Sem título”, 1983. A obra de Paula Rego depende, no essencial, da sua experiência portuguesa, de uma infância vivida perto das mulheres que povoaram a sua vida. Basta olhar algumas das suas obras para sentirmos a brutalidade implícita. É um regresso à imagem mais forte desse jogo persistente entre o bem e o mal, a razão das suas figuras, ou o modo insinuante como se questiona a sociedade patriarcal.
Francisca Carvalho, Ashlesha, 2018, tintas naturais sobre lona de algodão. Esta obra reúne referências expressivas da astrologia hindu e da mitologia grega, nomeadamente a Hidra, um corpo complexo com várias cabeças de serpente que surge representado com formas curvilíneas pintadas com pigmentos naturais.
Pedro Casqueiro, “Sem título”, 1984, acrílico sobre tela. Este artista tem desenvolvido um processo de produção criativa no qual vai variando ciclicamente a linguagem formal e os temas que explora nas suas obras. As suas obras mais abstratas envolvem a criação de espaços interiores e espaços arquitetónicos e cenográficos.
João Fonte Santa, Reisen In Brasilien, 2016, acrílico sobre tela. O artista recorre a imagens com origem na grande tradição narrativa do século XIX, introduz-lhes linhas de reflexão que não dispensam uma espécie particular de contemplação estética. De grande escala, estes trabalhos em acrílico estão impregnados de mensagens e metáforas críticas sobre os desequilíbrios da contemporaneidade.
René Bertholo (1935-2005), Nouvelles du Nord, 1966. Artista que não seguia uma gramática única, nem reconhecia as definições estanques em que se encerram as linguagens da figuração e da abstração. Os elementos presentes nas suas telas não possuem uma natureza precisa. E são eles que convivem livremente nos seus quadros, sem estarem dispostos numa relação aparentada à ordem clássica da composição pictórica.
Paula Rego, O mundo às avessas, aguarela sobre papel. Tudo o que diz respeito à condição feminina, em particular a inversão dos seus estereótipos, parece encontrar na pintura de Paula Rego um aliado inevitável e preciso. Entre pinturas a pastel de óleo, gravuras e desenhos, o que particulariza a sua obra é o paradoxo da imagem da mulher, da sua força intrínseca, assim como a ambígua condição imagética da pintura, entre um formalismo académico e clássico e a modernidade inventiva que a alimenta.
Eduardo Batarda, El Cineasta, 1979.
Helena Almeida (1934-2018), Pintura Habitada, 1975. Esta artista desenvolveu uma obra singular em que o corpo se torna simultaneamente sujeito, ferramenta e suporte da produção artística. Em Pintura Habitada, série desenvolvida na década de 1970, ela rompe as fronteiras da pintura, fotografia e performance, usando a imagem fotográfica para registar ações em que o seu próprio corpo, de algum modo, habita a composição.
António Palolo (1946-2000), Sem título, 1971. O corpo de trabalho deste artista oscila entre a abstração, informal e geométrica, e a figuração. Nos anos 1960 e 1970, desenvolve composições onde privilegia a justa composição concêntrica de elementos geométricos, lineares, triangulares, quadrados e cúbicos, tecendo um jogo de grelhas, molduras, de enquadramentos sobre enquadramentos.
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Nota do editor

Último post da série de 10 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28423: Os nossos seres, saberes e lazeres (754): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (274): Assisto a um concerto memorável no Festival de Música do Reno, amanhã sigo para Trier, já tenho saudades de regressar à Renânia-Palatinado - 9 (Mário Beja Santos)

sábado, 28 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27866: Os nossos seres, saberes e lazeres (728): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (249): Notícia póstuma de uma notável exposição dedicada a Rogério Ribeiro - 2 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 9 de Março de 2026:

Queridos amigos,
Não posso dizer que coro de vergonha pelo facto de não ter publicado em tempo oportuno este relato de visita a uma importantíssima exposição sobre a obra neorrealista de Rogério Ribeiro. Do itinerário do artista, do seu experimentalismo permanente em que deixou a obra no desenho gráfico, na cerâmica e na faiança, no mural, na tinta-da-china, na linogravura e na gravura, na água forte, na litografia, no guache e na aguada, e fiquemos por aqui, se deixou notícia no texto anterior chamando a atenção para a organização da exposição que abre com um módulo de Mar e Sargaço, o seguinte intitulado de Terra e Campesinato, e hoje aqui se dá o destaque aos módulos sobre o Operariado e outras Fainas, a Família e o Quotidiano, o Corpo e Rosto e, finalmente, Ecos do Realismo, em que se pode apreciar que o artista evoluiu, mas nunca deixou de revelar o valor da dignidade humana, nunca escondeu a sua frustração, num mundo que oprime os mais desfavorecidos. E convido os interessados a adquirir o catálogo de referência da exposição, para além de nos mostrar o extraordinário talento de Rogério Ribeiro, traça o que de mais importante e significativo foi o fenómeno cultural que deu pelo nome de neorrealismo.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (249):
Notícia póstuma de uma notável exposição dedicada a Rogério Ribeiro - 2

Mário Beja Santos

Decorreu no Museu do Neorrealismo uma exposição intitulada Fazer Crescer a Vida, Rogério Ribeiro e o neorrealismo, aconteceu entre finais de maio e outubro do ano passado. A tudo assisti na inauguração, uma apaixonante apresentação feita por David Santos, o diretor científico da casa, lá voltei duas vezes, e sabe-se lá por que negligência ou inércia fui demorando a intenção de pôr por escrito a chamada de atenção para este acontecimento cultural de gabarito, ainda por cima acompanhado de um catálogo de referência.

Penitencio-me da minha falta, o que se segue não passa de uma tentativa de redenção.

A homenagem que o Museu do Neorrealismo prestou a Rogério Ribeiro é, a todos os títulos, tocante. O magnífico catálogo, é uma obra de referência. O curador e diretor científico da casa disserta sobre este fenómeno artístico assente no amor ao povo, no mostrar a dignidade do trabalhador como mensagens indutoras à alegoria à transformação do mundo. Todos estes artistas plásticos, pode hoje ponderar-se à distância, acompanhavam um cânone, mas possuíam uma sintaxe específica, e Rogério Ribeiro revelou desde muito novo um olhar distinto, quer quando ele trabalhou a obra plástica sobre a recolha do sargaço, a monda do arroz ou a ceifa; o trabalhador, fosse a mulher arranjando peixe ou mondadeira, o homem como feirante, cosendo redes, ou ambos em duros trabalhos, o que há peculiar neste artista são cores, traços, ajuntamento de gentes que nos falam do real do quotidiano.

A exposição organizava-se em módulos, logo no primeiro intitulado Mar e Sargaço, logo destaque para a figura feminina, na recolha das algas, mas não faltam pescadores, a simbologia de que a união faz a força, e fica bem claro e o artista plástico vê com previsão um conjunto de formas que o que lhe dará no futuro, caso dos quadros com representação de barcos. Segue-se o módulo de Terra e Campesinato, aparece a máquina, a debulhadora, cores por vezes ciclâmicas em contraponto com linogravuras a preto e branco, mondadeiras trabalhando numa atmosfera quase tropical. É muito vasto o campo de observação de Rogério Ribeiro, experimentando formas com que possa mostrar o trabalho das mulheres nos arrozais, camponeses embiocados, sentados em tendas, estudou à minúcia as posições de homens e mulheres acocorados, em grupos ou isolados.

Outro módulo é dedicado ao Operariado e outras Fainas, aqui se pode ver, se dúvidas subsistem, que o valor do realismo social é uma constante do seu traço desde a década de 1950 até à viragem do século, é como se houvesse uma ética inabalável na atenção aos homens e mulheres sobretudo no exercício das mais duras posições. Rogério Ribeiro nunca escondeu que era um artista político, e nunca cedeu a uma liberdade criativa que fazia parte do seu engajamento, expressões do seu sonho de libertação social.

O módulo Família e Quotidiano é um tópico sempre presente na obra de Rogério Ribeiro, claramente associado a um sentimento de comunidade e solidariedade: a figuração da maternidade, a manifestação de afetos, a apresentação do pai como figura protetora e o núcleo familiar como expoente da coesão, o último reduto da confiança e do amor. Era um dos vetores da ficção neorrealista, a família inspira e sustenta uma ideia de progresso, um mundo melhor, não disfarçando o trabalho político, mostrando um quotidiano humilde, marcado por pequenos trabalhos domésticos, mas onde o lazer e a esperança constituem valores que definem um horizonte a alcançar.

Estamos agora no penúltimo módulo intitulado Corpo e Rosto. Escreve-se no texto da exposição:
“Desde os seus tempos de iniciação artística que o retrato e a representação dos corpos constituem na obra de Rogério Ribeiro eixos decisivos de perceção sobre o real, numa consciência de observação que o conduzirá à expressão do social. Os retratos produzidos por Rogério Ribeiro confirmam, como em todo o neorrealismo, uma realidade social que não abdica da esperança da sua transformação. Porém, esse vínculo humanista não inviabiliza, antes exige, soluções estéticas alimentadas pela arte moderna. Na sua diversidade estética, é possível identificar nestes retratos valores que vão do realismo ao expressionismo.”

O último módulo intitula-se Ecos do Realismo, assim identificada no texto de apresentação da exposição:
“Mesmo nos trabalhos que ecoam já uma memória do realismo original, a obra do Rogério Ribeiro prioriza o reconhecimento sobre o valor da dignidade humana e a sua frustração por um mundo que oprime os mais desfavorecidos. Determinada por um vínculo de compromisso e firmeza, uma tensão formal, baseada numa crescente gestualidade, percorre o trabalho do artista neste período.”

Porventura trabalho de mondadeiras, a tinta-da-china e guache sobre papel
Pastores, linogravura sobre papel, 1954
Porventura mulher em trabalho de recolha, tinta-da-china e aguada sobre papel, 1953
Alentejo, tapeçaria mural decorativa, 2011
Rogério Ribeiro no seu ateliê na Póvoa de Varzim, 1951
Rendilheiras, 1958, linogravura
Homens laborando provavelmente com uma debulhadora, tinta-da-china, aguada e grafite sobre papel
Trabalho de mulheres, não se sabe se é uma lota ou trabalho de conserveiras, aguada e grafite e lápis litográfico sobre papel
Família, óleo sobre platex, 1951
Sem título, tinta-da-china, aguada e anilina sobre papel, 1961
Sem título, óleo sobre tela, 1959
Pastel sobre papel, 1959
UCP – Unidade Coletiva de Produção, óleo sobre tela, 1976
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Nota do editor

Último post da série de 21 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27843: Os nossos seres, saberes e lazeres (727): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (248): Notícia póstuma de uma notável exposição dedicada a Rogério Ribeiro - 1 (Mário Beja Santos)

sábado, 21 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27843: Os nossos seres, saberes e lazeres (727): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (248): Notícia póstuma de uma notável exposição dedicada a Rogério Ribeiro - 1 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 5 de Março de 2026:

Queridos amigos,
Não sei que preguiça me deu para não ter oportunamente dado uma notícia útil sobre este acontecimento cultural de gabarito que foi a exposição dedicada a Rogério Ribeiro e o neorrealismo intitulada Fazer Crescer a Vida, que estava patente no Museu de Vila Franca de junho a outubro do ano passado. Mais absurdo ainda é o meu comportamento por ter voltado mais duas vezes para desfrutar da arte do mestre que tanto venero. O Museu contou com o património em poder dos herdeiros de Rogério Ribeiro onde está este labor de sua juventude e que comprovam que o artista plástico só tinha por cânone as representações de um povo. O seu ativismo social assim se exprimiu, ele é um companheiro de ideias neste período de comunistas e homens sem partido que agitavam a bandeira do realismo social. Vendo estes trabalhos, sente-se já a sua grande abertura a experiências, tudo o que se irá metamorfosear na cerâmica, na litografia e linogravura, nas artes da gravura, no desenho de ilustração, algo culminará num projeto maravilhoso que ele dirigiu no Almada velho, a Casa da Cerca.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (248):
Notícia póstuma de uma notável exposição dedicada a Rogério Ribeiro - 1


Mário Beja Santos

Tenho uma profunda admiração por todo o legado artístico e poder criador de Rogério Ribeiro (1930-2008). Quando era responsável por uma página inteira do Jornal de Notícias, nos tempos do grande formato, havia uma secção dedicada a eventos artísticos e culturais a quem eu reconhecia confluência para os arquétipos da sociedade de consumo de massas; entrevistei então Rogério Ribeiro que dirigia a Casa da Cerca, hoje um património cultural de onde se tem, a partir do Almada velho, a mais bela vista de Lisboa fora de Lisboa. Mestre Rogério Ribeiro distinguia-se pela construção de um património artístico, onde primava uma importantíssima coleção de desenho contemporâneo, a realização de exposições envolvendo grandes figuras da arquitetura e das artes plásticas, isto num ambiente envolvido pelo chão das artes, isto é, uma natureza viva onde está implantada alguma da matéria-prima com que os artistas plásticos trabalham, enfim, uma originalidade na articulação da natureza com a arte feita pelo homem.

Decorreu no Museu do Neorrealismo uma exposição intitulada Fazer Crescer a Vida, Rogério Ribeiro e o neorrealismo, aconteceu entre finais de maio e outubro do ano passado. A tudo assisti na inauguração, uma apaixonante apresentação feita por David Santos, o diretor científico da casa, lá voltei duas vezes, e sabe-se lá por que negligência ou inércia fui demorando a intenção de pôr por escrito a chamada de atenção para este acontecimento cultural de gabarito, ainda por cima acompanhado de um catálogo de referência. Penitencio-me da minha falta, o que se segue não passa de uma tentativa de redenção.

Naqueles anos de 1950, eram múltiplas e divergentes as vanguardas artísticas, os princípios ideológicos primavam ou eram contestados. Houvera a rotura com o figurativismo graças ao cubismo, ao futurismo, ao construtivismo, ao expressionismo e o abstracionismo; entrar em cena uma estética figurativa assente num outro modo de ver o realismo, aí assentaram artistas do comunismo e do socialismo, ou não comprometidos explicitamente, mas companheiros de ideias. Um realismo social que conheceu debate interno, aconteceu em Portugal no fim da década com a chamada polémica interna do neorrealismo, isto numa altura em que também se impunham novas correntes estéticas, caso do surrealismo e as expressões abstratas. Rogério Ribeiro era então um jovem artista que irá abraçar o real, será tocado do trabalho dos sargaceiros e das sargaceiras.

Como se escreve no catálogo, ele cumpre em 1951 e em 1952 serviço na Administração Militar da Póvoa de Varzim. Nas praias da região observa a recolha do sargaço, trabalho duro que do mar recupera algas e limos para fertilizar as terras agrícolas. Tais atividades irão preencher um dos módulos da exposição intitulado Mar e Sargaço. A imagem da capa do catálogo é exatamente uma sargaceira, olha-nos de frente, como se tivesse interrompido o trabalho árduo, exibe umas mãos quase másculas, excessivas, o que nos remete para a dimensão dos volumes físicos desproporcionados, caso de O Gadanheiro, pintura de Júlio Pomar.

O que podemos apreciar é que o artista não está confinado a um só cânone, o conteúdo, a grande mensagem é o trabalho e em que condições, ele não se limitará ao óleo ou ao desenho, espraia-se pela cerâmica, pelas ilustrações, será um grande animador da gravura, um apaixonado pela linogravura e litografia, um eterno experimentador da ilustração. O conteúdo é sempre o povo, acrescenta-se aos gestos quotidianos do trabalho o lazer, há uma linha poética constante, entre a vitalidade desses trabalhos duros, como ele revela com as debulhadoras, os construtores de naus, a apanha da azeitona. Pois bem vamos entrar num território de mar e sargaço.

Texto sobre o módulo Mar e Sargaço
Temos pescadores, mulheres cosendo redes, sargaço e sargaceiras, naus, e falando de naus veja-se a agilidade das formas, é uma plasticidade que nos remete para um traço que torce e retorce e distorce, mas que não nos deixa olhar hesitante, são mesmo barcos.
Falando sobre o seu pai, e quanto ao período de 1947-1953, a filha, Ana Isabel Ribeiro, revela documentos do pai sobre este período. Retenho só um parágrafo:
“A convicção da possibilidade de a pintura poder, em determinados momentos, como os revolucionários, ser portador de um sentido aglutinador e mobilizador de vontades, foi algo que o meu pai jamais esqueceu. Foram dezenas os murais que pintou com outros artistas, um pouco por todo o país, após a revolução do 25 de abril. Lembro-me bem dos baldes de água que lhes levava para poderem lavar os pincéis, ou de quando perguntava ao meu pai o que podia fazer, e ele me passava uma trincha para as mãos e dizia: ‘Enche isso aí de azul!’.” Retive este parágrafo porque acho que há qualquer coisa de muralista nas debulhadoras acima, como iremos depois ver em pastores e podadores e mondadeiras, é uma verdadeira épica pastoril onde não se esconde a apologética do social.

Texto que abre a secção Terra e Campesinato

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 14 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27821: Os nossos seres, saberes e lazeres (726): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (247): A câmara clara e a câmara escura de manhã ao anoitecer: Acasos e descasos de exultação do fotógrafo remendão (Mário Beja Santos)