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sábado, 21 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27759: Os nossos seres, saberes e lazeres (723): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (244): Paula Rego, o guarda-roupa do seu estúdio num diálogo com as obras que lhe correspondem - 3 (Mário Beja Santos

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 9 de Fevereiro de 2026:

Queridos amigos,
Escreve a curadora da exposição, Catarina Alfaro, que os fatos que iremos visitar não são impressionantes. "O que os torna admiráveis é a abordagem pictórica, o modo como os vestidos se comportam quando vestidos pelos modelos, como caem, se colam ou se avolumam no corpo, para seduzir ou esconder. Nas pinturas, as saias adquirem volume face aos modelos originais, pois, segundo a artista, quanto mais pregas tiverem, mais segredos podem esconder, mais histórias ficam por dizer." Uma impressionante viagem ao trabalho cenográfico de Paula Rego, desde muito cedo interessada na moda e educada em Inglaterra a aprender a costurar e a bordar, neste país fascinou-se com as tendências da moda, roupa e adereços; e é incontestável que a partir de 1990 o vestuário passou a ser um elemento determinante para a construção das suas personagens, é para ver e deslumbrar, pelo conhecimento das entranhas do trabalho de estúdio da genial artista.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (244):
Paula Rego, o guarda-roupa do seu estúdio num diálogo com as obras que lhe correspondem - 3


Mário Beja Santos

“Pintar é uma maneira de se lidar com a realidade, com o mundo de todos os dias, pois a pintar absorve-se tudo quanto há.”
Paula Rego


Estão patentes na Casa das Histórias Paula Rego, em Cascais, duas exposições de arromba: uma, em que a coleção da artista parece entrar numa sala de espelhos, a coleção do Museu irá desdobrar-se pelos temas dominantes e transversais à sua obra; outra, a obra de Paula Rego é apresentada através da lente da moda e do vestuário, introduzindo pela primeira vez o guarda-roupa do seu estúdio num diálogo com as obras que lhe correspondem. É sobre esta última que nos vamos agora debruçar.
A partir de 1990, o vestuário passa a ser um elemento determinante para a construção das suas personagens, para além de se constituir como elemento cenográfico central na sua obra. Em muitas das obras aqui apresentadas as peças de roupa são o principal foco de atração conduzindo-nos para dentro da sua pintura. A forma como veste os seus “atores” de acordo com as cenas que muitas das vezes são verdadeiros dramas em trajes da época, num espaço que começa a assemelhar-se a um palco ou film set (local onde se realiza o filme), tem implicações no modo como irá conceber as suas obras.

Como revelou a artista, “a pintura é sempre uma mascarada” com a roupa e os adereços postos no sítio certo, os gestos traduzem a intensidade que se quer.
Na sua educação, a artista recebeu a influência da sua mãe, mulher que primava pela elegância e tinha profundo interesse na moda, lá em casa compravam a revista francesa Elle; e a menina Francisca, a costureira, vinha a casa para os executar com todo o rigor. Em Inglaterra, ainda adolescente, frequentou uma escola exclusivamente feminina, aqui aprendeu a costurar e a bordar, acompanhou com entusiamo as últimas tendências da moda londrina.
Voltando ao que aconteceu a partir de 1990 - momento que coincide com a sua estadia na National Gallery como artista residente, deixando-se guiar pelos Mestres da Pintura Antiga, a artista ganha consciência da qualidade pictórica das texturas dos tecidos, das rendas, dos veludos, dos panejamentos e das pregas, camada por camada, mancha por mancha.

O guarda-roupa que se encontra no seu estúdio e foi trazido para esta exposição é em grande parte responsável pela dimensão espetacular de algumas obras, conferindo-lhes o estatuto de verdadeiros quadros vivos.
Numa outra dimensão encontra-se aí uma grande variedade de adereços, como chapéus ou joias, que a artista obteve em lugares muito diversos: desde os bastidores de salas de espetáculo londrinas, a Feiras da Ladra ou lojas de roupa em segunda mão. Outras peças são recordações com as quais estabeleceu muitas vezes uma sólida ligação sentimental: “São coisas que trouxe de Portugal, há muitos anos: roupas, certos bonecos. Há fatos que eram da minha mãe, tenho coisas que eram da minha mãe.”

Adereços e joias de fancaria
Paula Rego, A sina de Madame Lupescu, 2004
Paula Rego, Jane Eyre, 2001-02
Paula Rego, tríptico Preparando-se para o baile, 2001-02
Paula Rego, Agonia no horto, 2002, da série “Ciclo da vida da Virgem”
Indumentária usada para o quadro acima
Traje para a série “Branca de Neve”
Paula Rego, Branca de Neve no cavalo do Príncipe, 1995, da série Branca de Neve
Paula Rego, Mãe, 2007, da série “O crime do Padre Amaro”
Quadro à direita: Paula Rego, A Gata Nicotina, 2003
Quadro à esquerda: Paula Rego, O cigarro, 2006
Paula Rego, Espantalho, 2006

O que inebria nesta exposição é o diálogo que se estabelece entre a indumentária e adereços e as obras que lhe correspondem. A artista foi ganhando consciência da qualidade pictórica das texturas dos tecidos que se materializa nas suas pinturas na sequência da eleição do pastel seco, em 1994, como meio capaz de conferir uma solidez jamais alcançada com o óleo ou o acrílico. Sim, uma bela exposição que pode ser visitada até 15 de março.
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Nota do editor

Último post da série de 14 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27735: Os nossos seres, saberes e lazeres (722): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (243): Paula Rego na sala de espelhos, harmonia e disrupção, justiça e iniquidade - 2 (Mário Beja Santos

sábado, 14 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27735: Os nossos seres, saberes e lazeres (722): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (243): Paula Rego na sala de espelhos, harmonia e disrupção, justiça e iniquidade - 2 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 9 de Fevereiro de 2026:

Queridos amigos,
Aqui se volta a falar da exposição A Coleção da Casa das Histórias Paula Rego com a coleção da artista, visitável até 15 de março. Retiro observações da curadora Catarina Alfaro: "Ao longo da sua carreira, usou o desenho e a pintura para gerar um universo artístico tão disruptivo quanto belo, abordando temáticas que ecoam na vida de cada cidadão na contemporaneidade. Da projeção de tradições e dinâmicas familiares ao papel da mulher em cada época histórica, de contos e mitos à liberdade e à desigualdade, a artista luso-britânica produziu obras artísticas dotadas de integridade, harmonia e esplendor. Pelas diferentes salas passa-se em revista a vida da artista, obras que permitem uma visão panorâmica da sua evolução técnica e estilística, destaca-se o sentido transgressor e a necessidade de desafiar não só os restritos códigos morais vigentes à época, mas sobretudo a opressão sexual das mulheres; nas distintas fases da sua produção artística, os contos tradicionais e os contos de fadas serão sempre uma fonte fértil para o desenvolvimento do seu trabalho criativo (...) Esta exposição não ficaria completa sem que, na sua última sala, se desse uma especial atenção à construção das personagens femininas que se destacam na sua obra pela imponência física e expressividade emocional. Evidenciam-se três obras de uma série dedicada à depressão psicológica, em que a artista capta o sentimento de compreensão, construindo imagens ferozes de solidão e de sofrimento humano."

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (243):
Paula Rego na sala de espelhos, harmonia e disrupção, justiça e iniquidade - 2

Mário Beja Santos

“Pintar é uma maneira de se lidar com a realidade, com o mundo de todos os dias, pois a pintar absorve-se tudo quanto há.”
Paula Rego


Estão patentes na Casa das Histórias Paula Rego, em Cascais, duas exposições de arromba: uma, em que a coleção da artista parece entrar numa sala de espelhos, a coleção do Museu irá desdobrar-se pelos temas dominantes e transversais à sua obra; outra, a obra de Paula Rego é apresentada através da lente da moda e do vestuário, introduzindo pela primeira vez o guarda-roupa do seu estúdio num diálogo com as obras que lhe correspondem. Vastidão de leituras, justifica que se vá faseando o que o leitor pode visitar até 15 de março, asseguro-lhe que não se arrependerá de ir contemplar Paula Rego em corpo inteiro, entrando mesmo nos bastidores onde os adereços patentes podem ajudar a descodificar este carrossel de emoções, de encontros e desencontros e de uma grande fiabilidade na defesa de causas e desmontagem de tabus.
Na continuação da visita, vale a pena focar o exemplo do trabalho de Paula Rego nos chamados primeiros anos. Entre 1952 e 1956 ela teve a sua formação numa reputada instituição londrina, a Slade School of Fine Art. Experiência que ela considerou traumática, com aspetos entusiasmantes. No entanto, o ensino aí praticado tinha como base a aula de desenho à vista. Recebeu um conselho do diretor da instituição, “ir pintando o que ia cá dentro na cabeça”. É um período fértil, vai projetar nas suas artes plásticas o protagonismo das mulheres, não faltará um carácter assumidamente político à ditadura que ocorre em Portugal, explora a arte figurativa, como se pode ver neste retrato do seu pai.

Fotografia correspondente aos primeiros anos como pintora
Paula Rego, Retrato de José Figueiroa Rego, 1954-55

Uma outra dimensão que a artista explorou e continuará a explorar até ao fim da sua vida prende-se com imagens familiares e enredos ficcionais: contos de fadas como Capuchinho Vermelho, romance A Relíquia de Eça de Queirós, são obras que ganham um novo sentido com elementos e histórias que apenas à artista dizem respeito. O mesmo acontece quando ela evoca as memórias de infância e o contexto familiar, também a rememoração é um tema de referência no seu desenho e pintura, caso das figuras maternais e imagens femininas familiares.
Paula Rego, sem título, 2001
Paula Rego, Encontro com Adélia, 2013, da série “A Relíquia”

Passado o período de afirmação, Paula Rego na exploração de múltiplos domínios dará imensa atenção aos contos tradicionais e contos de fadas. A sua arte pictórica nessa fase envolve histórias violentas e cruéis, esta aproximação sistemática aos contos de fadas e aos contos populares leva-a a estabelecer como plano de trabalho quer essas histórias como modos de composição onde não falta o enredo cénico, um embate entre uma arte aparentemente ingénua e a presença de grupos que aparentam estar em ensaios, gerando no espetador um aturdimento entre o indivíduo, um pequeno grupo e a tentativa de entendimento do quadro geral – qualquer coisa como um inconsciente coletivo, um ponto alto da psicanálise.
Paula Rego, O Ensaio, 1989

Na viragem do século vemos que as personagens femininas criadas pela artista se destacam pela sua imponência física e emocional. Os corpos revelam vivências e emoções, entram imediatamente no olho do espectador, numa série de obras em que criou poderosas imagens que exploram a dimensão paradoxal da depressão psicológica, podemos ver que são registos pessoais de expressão física do sofrimento associado à depressão. Algo que a artista vivenciou: “Em 2007 passei por uma depressão particularmente profunda; tentei encontrar a saída através do desenho e fiz estas obras.”
Paula Rego, Três, 2007, da série “Depressão”
Paula Rego, da série “Depressão”, 2007

A rememoração da infância pesa enormemente em todo o seu trabalho. Um exemplo pode ser dado numa série de gravuras intitulada As pranchas curvas, seis águas-fortes e águas-tintas, tem a ver com um poema do poeta francês Yves Bonnefoy. As imagens criadas a partir desta narrativa poética põe no centro uma criança sozinha no mundo que deposita num estranho, um barqueiro, as suas esperanças. A artista estabelece paralelismo entre a narrativa de Bonnefoy, histórias de figuras religiosas e episódios da sua história pessoal. São também imagens que revelam a esperança na salvação das crianças que procuram um destino diferente no outro lado do rio, auxiliadas na sua travessia por intrépidos barqueiros, estes parecem ser uma espécie de entidades mágicas.
Paula Rego, Manobrando o barco, 2009

Se no início da sua carreira, Paula Rego escolheu motivos políticos declarados, como a denuncia da ditadura salazarista, a partir dos anos 1990 ela começa a encenar no seu estúdio histórias num processo onde não falta uma dimensão espetacular. Em 2008, ela exprime pela primeira vez a sua vontade de expor um conjunto de desenhos com as respetivas cenografias. Isto acontece num momento coincidente com a sua plena maturidade artística, alcançada em Carga Humana, obra que assume a mesma escala das suas grandiosas pinturas a pastel.
Paula Rego, Carga Humana, 2007, um tríptico sobre o tráfico humano

Vamos agora despedir-nos desta primeira exposição e antes de entrar noutra intitulada O vestuário na obra de Paula Rego, sento-me confortavelmente num banco diante de uma imensa tapeçaria intitulada Batalha de Alcácer-Quibir, obra datada de 1966, aqui se mostra um pormenor da parte central da obra. Mas que projeto foi este?
Pormenor central da tapeçaria Batalha de Alcácer-Quibir.

Esta tapeçaria foi produzida na sequência de uma encomenda para um hotel no Algarve, mas acabou por não ser adquirida pelo dono da obra. Paula Rego apropriou-se de diversos meios técnicos e tradições: o uso da linha e da agulha intermedeia-se com a sobreposição de formas, devedora da imaginação e da intuição, mantendo-se a violência da utilização da tesoura e o rasgar apressado dos retalhos como elemento comum à prática da pintura-colagem. A artista inscreve no tema escolhido intenções de denúncia da demência da guerra, nem se poupa a histeria, esboçada no grito de guerra de uma fisionomia que se assemelha a um típico galo de Barcelos. Há faixas vermelhas a representar sangue que jorra de uma ferida mortal. É um trabalho singularíssimo, um itinerário que Paula Rego não voltou a trilhar. E vamos agora para a exposição O vestuário na obra de Paula Rego.

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 7 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27712: Os nossos seres, saberes e lazeres (721): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (242): Paula Rego na sala de espelhos, harmonia e disrupção, justiça e iniquidade -1 (Mário Beja Santos)

sábado, 7 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27712: Os nossos seres, saberes e lazeres (721): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (242): Paula Rego na sala de espelhos, harmonia e disrupção, justiça e iniquidade -1 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 16 de Janeiro de 2026:

Queridos amigos,
Diria que estas duas exposições dão margem de manobra a quem admira Paula Rego a poder conhecer melhor as sucessivas fases da sua evolução artística, a poder descodificar o porquê dos temas dominantes e transversais da sua obra onde o fio condutor se pontua em vórtices de dualidade - harmonia e disrupção, existencialismo e sátira, a paixão revelada pelas causas, o desvelamento da hipocrisia social e a galeria dos preconceitos, pensa-se na série que Paula Rego produziu sobre o aborto que confirma plenamente como uma imagem pode valer por mil palavras. Aqui e hoje começa-se a digressão por uma das exposições, na primeira vamos viajar pelos temas dominantes e transversais da sua obra e na segunda vamos confrontar o guarda-roupa do seu estúdio também no diálogo que estabelece com as suas obras. As exposições estão patentes até 15 de março, juro a pés juntos que são duas exposições muito enriquecedoras para entender a essência do trabalho desta genial artista, que é muito mais do que um ícone em Portugal e na Grã-Bretanha, é hoje consagrada uma das figuras maiores das artes plásticas contemporâneas.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (242):
Paula Rego na sala de espelhos, harmonia e disrupção, justiça e iniquidade -1


Mário Beja Santos

“Pintar é uma maneira de se lidar com a realidade, com o mundo de todos os dias, pois a pintar absorve-se tudo quanto há.”
Paula Rego


Estão patentes na Casa das Histórias Paula Rego, em Cascais, duas exposições de arromba: uma, em que a coleção da artista parece entrar numa sala de espelhos, a coleção do Museu irá desdobrar-se pelos temas dominantes e transversais à sua obra; outra, a obra de Paula Rego é apresentada através da lente da moda e do vestuário, introduzindo pela primeira vez o guarda-roupa do seu estúdio num diálogo com as obras que lhe correspondem. Vastidão de leituras, justifica que se vá faseando o que o leitor pode visitar até 15 de março, asseguro-lhe que não se arrependerá de ir contemplar Paula Rego em corpo inteiro, entrando mesmo nos bastidores onde os adereços patentes podem ajudar a descodificar este carrossel de emoções, de encontros e desencontros e de uma grande fiabilidade na defesa de causas e desmontagem de tabus.

A curadora, Cristina Alfaro, no que se refere à exposição que tem a ver com o diálogo da coleção da artista é a guia deste conjunto de núcleos como escreve na brochura da apresentação.

Na sala 1, o visitante pode contemplar a vida da artista através de apontamentos biográficos e uma obra inédita, não datada, em que a artista se autorretrata, veremos retratos como os que foram tirados por Nicholas Sinclair e Eduardo Gageiro. Na sala 2 apresentam-se obras que abrangem o período de 1954 a 1977 e que permitem uma visão panorâmica da evolução técnica e estilística durante esses anos. A aprendizagem na Slade School of Fine Arts, em Londres, de 1952 a 1956, terá sido determinante para a estimulação de uma linha de pesquisa e a revelação de uma linguagem figurativa muito pessoal, é visível a interação com a cultura e meio artístico britânico. O sentido transgressor e a necessidade de desafiar não só os restritos códigos morais vigentes à época, mas sobretudo a operação sexual das mulheres como é patente na sua obra sobre o Marquês de Sade.

Nas distintas fases da sua produção artística, os contos tradicionais e os contos de fadas serão sempre uma fonte fértil para o desenvolvimento do seu trabalho criativo, é por isso que são expostos na sala 2 guaches realizados em 1974 e 1975. No rescaldo da Revolução de Abril, Paula Rego propõe-se ilustrar as histórias violentas e cruéis dos contos tradicionais portugueses, revisitando as suas memórias e medos de infância.

Registos pessoais de memórias familiares cruzam-se na sala 3 com enredos que exploram a sátira social. São as recordações da infância passada em família. As figuras maternais estão também em destaque nesta sala. Seis obras da artista de 2003 ilustram este conto universal. A Mãe a usar a pele do lobo representa o final da história e a mais importante inversão de sentido tradicional do conto pela artista, com a substituição do caçador pela figura da mãe que vinga a jovem filha, esquartejando o lobo e usando a sua pele como um troféu de caça.

Nos anos de 1980, a artista joga a fundo numa metodologia de total liberdade. É um tempo de abordagem eclética da pintura em que cabem os valores da fantasia, do humor. São estes os temas dominantes que se podem ver nas obras expostas na sala 4. E ficamos por aqui para que o leitor possa degustar algumas das obras expostas e ganhar ânimo para vir fruir de duas exposições incomparáveis.

Casa das Histórias Paula Rego, Cascais
Paula Rego, autorretrato
O trabalho, a família, a artista
Paula Rego, autorretrato com as netas
Paula Rego, o exilado, um velho exilado sonhando com a sua juventude, 1963
Paula Rego, Marquês de Sade, 1957-1958
Paula Rego, a gata branca, 1993
Paula Rego, Brancaflor – as sete pipas de vinho, 1975
Paula Rego, Rei Canuto, 1977
Paula Rego, A Mãe a usar a pele do lobo, 2003
Paula Rego, Carga humana, 2007

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 31 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27689: Os nossos seres, saberes e lazeres (720): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (241): O Palácio de Viana em Córdova, termo da viagem pela Andaluzia - 8 (Mário Beja Santos)

sábado, 22 de novembro de 2025

Guiné 61/74 - P27452: Os nossos seres, saberes e lazeres (710): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (231): Por casualidade, o fotógrafo interessou-se por tal momento, por ele considerado esplendente - 3 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 13 de Outubro de 2025:

Queridos amigos,
Há uma nota curiosa de visita de amigos estrangeiros, tudo quanto se passa em Lisboa trazem completamente listado, desde o elétrico 28, os comes e bebes, os passeios pela Baixa Chiado e Bairro Alto, os miradouros. Uns vêm com o Michelin, outros trazem livros focados na arte, uns querem ver os azulejos, em visita anterior houve alguém que me pediu para ver algo que até então nunca ninguém pedira, a Basílica da Estrela, e não foi por causa dos presépios do Machado Castro. Desta feita, o casal alemão, que não é a 1.ª nem a 2.ª vez que visita Portugal, falou explicitamente em Tomar, Óbidos e Alcobaça. Procurei satisfazer os seus intentos, aqui fica uma síntese desse dia, esta itinerância continuará, pedem-me para no dia seguinte irmos visitar o Museu Nacional dos Coches, custa-lhes a acreditar que Portugal tenha o maior património de viaturas de aparato, como é que é possível um país tão periférico da Europa? Viram e confirmaram, não escondiam o entusiasmo.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (231):
Por casualidade, o fotógrafo interessou-se por tal momento, por ele considerado esplendente – 3


Mário Beja Santos

Passeios inusitados ou programados a Tomar, Óbidos e Alcobaça, para mostrar belezas a amigos estrangeiros que me vieram visitar, deram-se a agradável oportunidade de captar imagens com forte apelo cultural, até pretextos houve para tirar fotografias a estes amigos, que depois as colocam nas redes sociais. Vejamos o que resta de três passeios, todos eles me encheram a alma, volto lá se necessário for, há para ali, na arquitetura, na escultura e na pintura dedadas da nossa identidade, ali se exibem as nossas maneiras de ser, tratando carinhosamente algum património, desdenhando de outro.

Vamos começar por uma peça magnífica que nunca foi concluída, a Casa do Capítulo de Tomar, onde, no primeiro andar e no terraço subsequente se aclamou Filipe II de Espanha como Filipe I de Portugal. É obra de João de Castilho, um mestre de obras e arquiteto hispano-português, homem com formação gótica que irá ter um papel determinante no estilo renascentista em Portugal e nos seus últimos anos de vida pendeu para o classicismo sob a forma maneirista. Ele encontra-se ligado a cinco monumentos históricos classificados pela UNESCO como Património Mundial: o Mosteiro dos Jerónimos, o Convento de Cristo, o Mosteiro de Alcobaça e a construção da Fortaleza de Mazagão. Trabalhou duas vezes em Tomar (provavelmente entre 1516 e 1530) e um segundo período que decorre na década de 1930, em que trabalhou no Claustro Grande, vários claustros interiores, como o da Hospedaria, Corvos e Micha, concedeu esta Casa Capitular em mistério a desvendar as razões que impediram a sua conclusão.

O que o leitor vê são as paredes robustas, a fotografia que foi tirada da zona do arco triunfal e do altar, vê-se a antecâmera por onde entravam os frades. Caiu completamente o piso que separava a sala dos frades da sala dos cavaleiros. Aquela porta que se vê na torre dos cavaleiros estava prevista para ser a porta de acesso a esses cavaleiros; ao fundo vemos o topo da Charola e uma nesga da Igreja.

Casa Capitular a requerer com urgência trabalhos de conservação e restauro.
Sempre que acompanho amigos a Óbidos, falo-lhes de uma extremosa pintora de origem espanhola e filha de um artista que deixou obra em Portugal, Josefa de Óbidos, ela tem obra num altar lateral da Igreja Matriz e está também representada no Museu Municipal de Óbidos. Noto que os visitantes vão ali também admirar um túmulo e o impressionante forro azulejar da igreja, a mim cativa-me aquele Santo António bonacheirão e o Menino de braços abertos, gosto particularmente daquele teto pintado com tanta simplicidade, é como o emaranhado de uma renda que faz suspender Nossa Senhora guardada pelos anjos.
Este é um pormenor da pintura do teto do nártex da igreja.
Eram as últimas horas de sol, consultados os visitantes, houve acordo em visitar a igreja do Mosteiro de Alcobaça, deixamos para a próxima visita o precioso Museu. Mesmo habituados a este gigantismo das paredes do gótico-alemão que se pode encontrar desde o mar Báltico até perto de França, o casal alemão estava boquiaberto com a sobriedade da igreja, a solução dos pilares estarem reforçados por botaréus, tomaram nota que as riquezas vieram depois. D. Pedro I tomou esta igreja como seu mausoléu, tratou de igual maneira a sua apaixonada, Inês de Castro, túmulos de uma enorme beleza, marcados pelo vandalismo das invasões francesas.
No altar-mor atraiu-me prontamente esta Virgem de manto barroquizado, parece que pedala, tem umas linhas muito elegantes, gabo-lhe a Majestade e o panejamento em movimento.
Com as limitações da minha câmara foi esta a imagem que consegui da dimensão entre o nártex e o altar-mor.
Túmulo de Dona Inês de Castro, deste lado os danos são menos evidentes.
Conjunto escultórico que dá pelo nome Retábulo da Morte de São Bernardo, é todo em terracota policromada, obra de monges barristas do mosteiro, finais do século XVII.
Túmulo de D. Pedro, aqui o vandalismo é mais do que evidente.
Trata-se do sarcófago de Dona Urraca, mulher de D. Afonso II, está depositado no Panteão Régio, obra concluída em 1782 e atribuída ao engenheiro William Elsden, foi a primeira obra neogótica em Portugal. O panteão primitivo localizava-se na galilé que existiu à entrada da igreja. Posteriormente os túmulos foram transferidos para o transepto sul onde permaneceram até ao final do século XVIII.

Aqui se dá por terminada esta itinerância, segue-se outra que nos fará viajar até ao Museu Nacional dos Coches.

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 15 de Novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27423: Os nossos seres, saberes e lazeres (709): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (230): Por casualidade, o fotógrafo interessou-se por tal momento, por ele considerado esplendente - 2 (Mário Beja Santos)