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quinta-feira, 5 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27795: Fauna e flora (27): O crocodilo-do-Nilo nos "nossos" rios (Geba, Cacheu, Corubal...) - II (e última) Parte


Guiné > Região de Tombali > Catió > Ganjola > c. 1967/69 > Um crocodilo apanhado por militares no rio de Ganjola. O zebro devia ser dos fuzileiros. Poucos camaradas viram, ao  vivo os furtivos crocodilos do Nilo, mas havia-os por todo o lado, do rio Cacheu ao rio Cumbijá... Alguns eram pequenos e  eram confundidos com jacarés (repteis que não existiam na Guiné nem no resto da África).


Foto (e legenda): © Alcides Silva (2016). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Em 6 de fevereiro de 1969, aquando do "desastre" do Cheche, no rio Corubal, na região do Boé, no sudeste da hoje Guiné-Bissau, havia crocodilos naquele troço ? É uma dúvida que subsiste.

 Os corpos dos 47 náufragos não foram encontrados, a não ser apenas 11, duas semanas depois, em estado de decomposição e totalmente irreconhecíveis.

Da consulta que fizemos a várias ferramentas de IA, pudemos apurar o seguinte:

Sim, historicamente houve (e ainda há) crocodilos no sistema do rio Corubal, na Guiné-Bissau. A sua presença atual pode variar conforme a espécie e a zona do rio. Eis o que, no essencial, se sabe com base em estudos e observações científicas e naturais:

(i)   Contexto histórico e ambiental

Na década de 60, a fauna na região do Boé era extremamente rica e selvagem. A região era pouco povoada. A menor densidade populacional humana em comparação com o litoral favorecia a permanência de grandes mamíferos (do leão ao elefante, do hipopótamo ao chimpanzé).

A Guiné-Bissau ainda possui populações de crocodilos de água doce ou de pequenas espécies de crocodilianos em muitos dos seus grandes cursos de água, lagoas e zonas húmidas, incluindo cursos como o rio Geba, Cacheu e zonas do parque de Lagoas de Cufada, que está ligado ao Corubal.

 O rio Corubal é um dos principais rios da Guiné-Bissau e, como muitos rios da região, faz parte de um ecossistema que tradicionalmente abrigou crocodilos, especialmente o crocodilo-africano (Crocodylus niloticus).
 
Os crocodilos são nativos da África Ocidental e eram comuns em rios, lagos e zonas húmidas da Guiné-Bissau, incluindo o rio Corubal. No entanto, a sua população tem vindo a diminuir devido à caça, perda de habitat, alterações climáticas e conflitos com humanos.

A presença de crocodilos no rio Corubal, particularmente na zona do Cheche (região do Boé), era um facto bem conhecido e documentado nos anos 60/70.

Muitos relatos de militares portugueses que operaram no setor de Madina do Boé e no atravessamento do Cheche mencionam o perigo  dos crocodilos, tanto durante patrulhas e "cambanças". Falta, no entanto, documentação fotográfica.
 
O Cheche ficou tragicamente marcado na historiografia da Guerra do Ultramar. Durante a operação de retirada de Madina do Boé, no dia 6 de fevereiro de 1969, a jangada que transportava as tropas adornou no rio Corubal,  em Cheche.

Embora a maioria das mortes (47 homens, 46 militares e 1 civil ) tenha ocorrido por afogamento devido ao peso do equipamento e à forte corrente do rio, o medo dos crocodilos
terá sido também um fator psicológico adicional para os sobreviventes que tentavam alcançar as margens ou voltar  à jangada.

A presença destes animais continua a ser uma característica da região até aos dias de hoje, sendo o Boé uma das zonas de maior importância para a conservação da vida selvagem na Guiné-Bissau.


(ii) Observações em zonas próximas ao Corubal:

O Corubal, depois do Geba, é o maior rio de água doce da Guiné-Bissau.Nasce nas redondezas da cidade de Lélouma, no maciço de Futa Djalon, na Guiné-Conacri, e desagua no rio Geba, na margm esquerda, a cerca de 50 quilómetros a montante de Bissau. Tem um comprimento de 560 km, É considerado o rio mais selvagem da Ãfrica Ocidental.

O turismo e os guias locais mencionam a presença de crocodilos no Parque Natural das Lagoas de Cufada, que inclui partes das margens e afluentes do rio Corubal e dos seus sistemas.

O Corubal, devido às suas características geográficas (margens íngremes em certas zonas, correntes fortes e áreas de águas mais paradas e profundas), constituía um habitat ideal para estes répteis.

A região do Boé, perto da fronteira com a Guiné-Conacri, é conhecida pela sua biodiversidade e pela presença de zonas húmidas que, historicamente, seriam habitats adequados para crocodilos, hipopótamos e outros animais, répteis, mamíferos, aves.

Há relatos de avistamentos de crocodilos no rio Corubal, embora a sua presença atual possa ser menos frequente do que no passado, devido aos fatores mencionados acima.


(iii) Estudos científicos modernos

Um estudo recente de distribuição de crocodilos em Guiné-Bissau registrou presenças de crocodilos em vários rios importantes e lagoas, incluindo evidências (observações, pistas ou informações locais) em áreas como o rio Corubal e seus afluentes.

Um estudo que usou eDNA (técnica de detecção de DNA no ambiente) ao longo do rio Corubal não detectou crocodilos diretamente nos locais da amostragem, apesar de se saber que eles existem na região. Isso pode dever-se à limitação dessa técnica ou ao facto de os crocodilos estarem presentes principalmente em zonas marginais, lagoas ou áreas sazonais menos amostradas.

(iv) Espécies

As espécies mais comuns eram (e são) o Crocodilo-do-Nilo (Crocodylus niloticus), que pode atingir grandes dimensões (no rio Cacheu), e o crocodilo-anão africano (Osteolaemus tetraspis) (sobretudo em zonas húmidas e lagoas ligadas ao rio Corubal).

Também é referido o Crocodilo-de-focinho-delgado (Mecistops cataphractus)

(v) Outros rios: Cacheu

É uma das zonas com mais crocodilos do país O rio Cacheu atravessa uma vasta área de mangais e estuários, hoje protegida como Parque Natural dos Tarrafes do Rio Cacheu, que contém um dos maiores blocos contínuos de mangal da África Ocidental. 

Esse habitat é muito favorável aos crocodilos. Os mangais, águas calmas e abundância de peixe. criam condições ideais para populações relativamente densas desses répteis.

É também onde há mais relatos de ataques. Vrios estudos e registos indicam que os ataques documentados na Guiné-Bissau aparecem frequentemente na região do Cacheu. Um estudo recente menciona inclusive um ataque a um pescador no rio Cacheu em janeiro de 2025.

A mesma investigação sugere que os ataques atribuídos historicamente a crocodilos na região podem envolver o crocodilo-do-Nilo, espécie maior e potencialmente mais perigosa. Há vários fatores: (i) grande população de crocodilos nos mangais: (ii) muita interação humana com o rio (pesca, transporte em canoas, lavagem, banho); (iii) águas turvas e margens baixas, ideais para emboscadas; (iv) tabancas ribeirinhas dentro da área protegida.

Ou seja, o problema não é só o número de crocodilos, mas o contacto diário com eles. Mas o rio Cacheu não é o único rio perigoso;  há também o Geba, o Cacine, o Grande de Buba... Só que o Cacheu é frequentemente citado porque combina densidade de crocodilos com população humana ribeirinha (o que não acontece no Corubal, que atravessa, ou atrevassa, no passado, zonas maia despovoadas, nbomeadamente no Boé).


Conclusão

Sim, há evidências de que crocodilos vivem ou já foram observados nas margens e zonas alagadas do rio Corubal e áreas adjacentes na Guiné-Bissau.

Em 1969, existiam, pois, crocodilos no rio Corubal, incluindo na zona de Cheche, e eram reconhecidos como um perigo potencial para quem frequentava o rio, especialmente em zonas de travessia e margens. 

Durante a guerra colonial, vários ex-combatentes portugueses mencionaram a presença de crocodilos nos rios da Guiné-Bissau, incluindo o Corubal, embora não haja registros científicos detalhados sobre a zona do Boé.

Não há relatos específicos de ataques a humanos em Cheche nesse ano de 1969, mas a sua presença e reputação como "comedores de homens" eram bem conhecidas entre os militares, guias e populações locais.

A sua presença pode não ser uniforme por todo o rio e pode ser mais frequente em zonas lentas, lagoas laterais e ambientes húmidos associados ao sistema fluvial. A detecção direta moderna em alguns trechos pode ser difícil devido a fatores ambientais e métodos de amostragem.

(Pesquisa: LG + IA  (Gemini | Le Chat Mistral | ChatGPT)

 (Condensação, revisão / fixação de texto: LG)

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 4 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27767: Fauna e flora (26): O crocodilo-do-Nilo nos "nossos" rios (Geba, Cacheu, Corubal...) - Parte I

sábado, 28 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27779: As nossas geografias emocionais (63): Farim, ao tempo do Manuel Jordão Revelos, ex-sold at art, CART 2384 (Farim, Mansoa, Mansabá, 1968/70)


Foto nº 1 > Guiné > Região do Oio > Farim > 1969 > CART 2384 (1968/70)  > Vista aérea parcial da vila de Farim, sede de circunscrição e de batalhão


Foto nº 2 > Guiné > Região do Oio > Farim > 1969 > CART 2384 (1968/70)  > Piscina local (construída em 1958)


Foto nº 3 > Guiné > Região do Oio > Farim > 1969 > CART 2384 (1968/70)  > K3/Saliquinhedim

~
Foto nº 4 > Guiné > Região do Oio > Farim > 1969 > CART 2384 (1968/70) > NRP Sagitário, LFG P1131. Da classe Argos, este e outros navios estiveram ao serviço da Marinha Portuguesa, entre 1963 e 1975. 

Esta LFG  é a última, de  1965, tendo sido abatida em 7 de Setembro de 1974 e afundada a 21, a 104 milhas a Oeste de Bissau. Foram construídas do Arsenal do Alfeite e nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo. Tinham todas nomes de constelações (além destas,  havia ainda as seguintes: Dragão, Cassiopeia, Hidra. Escorpião, Pégaso, Lira, Orion, Centauro).


Foto nº 5 > Guiné > Região do Oio > Farim > 1969 > CART 2384 (1968/70) > Peixe-serra, capturado no rio Cacheu.

Fotos (e legendas): © Manuel Jordão Revelos (2019). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Manuel Jordão Revelos (n. 1946,  Lavos, Figueira da Foz; mora em Cacia, Aveiro)


1. Manuel Jordão Revelos, natural de Lavos, Figueira da Foz; nasceu em 15/12/1946; mora em Cacia, Aveiro; foi sold at art, CART 2384 (Farim, Mansoa, Mansabá, 1968/70), mobilizada pelo RI 10,GACA 2. Partiu no T/T Niassa em 1/5/1968, regressou no mesmo navio em 3/1/1970.

Sobre a CART 2384 só tínhamos até agora 1 referência. E não temos nenhum representante. O Manuel Jordão Revelos, se nos ler, fica desde já convidado a sentar-se à sombra do poilão da Tabanca Grande. Estamos-lhes gratos pela partilha pública destas fotos de Farim e arredores.

Originalmente estas imagens estavam alojadas no portal Prof2000, que foi descontinuado: tinha uma excelente galeria de fotos, enviadas por antigos combatentes (e não só) da região de Aveiro ; era "um projecto com serviços de suporte à formação de professores a distância e de apoio às TIC nas escolas", tendo como público-alvo "Escolas, Centros de Formação, Centros Novas Oportunidades, professores, projectos de escola e comunidade educativa em geral". 

A página (que foi também recuperada pelo Arquivo.pt)  está agora alojada no Agrupamento de Escolas José Estêvão (AEJE) > Aveiro e Cultura > Arquivo Digital.

Ficámos a saber que uma decisão tomada em Lisboa, capital deste país macrocéfalo,  teve um efeito sísmico neste portal (Prof2000), como nos conta o coordenador do projeto (email: henriquejcoliveira@gmail.com ), que presumimos ser professor do AEJE, em Aveiro:

"Os responsáveis pela manutenção dos servidores do Ministério da Educação e Cultura, ao fim de 18 anos de compilação de documentos, eliminaram todo o espólio cultural do projecto comunitário Aveiro e Cultura. 

"Todas as hiperligações tiveram de ser refeitas para o novo alojamento, pelo que, eventualmente, algumas poderão não funcionar. Por isso, agradecemos a informação, para podermos corrigir o erro. Obrigado."

O  Arquivo Digital sobre Aveiro e Cultura (alojado no AEJE - Agrupamento de Escolas José Estêvão) tem como objectivo:
  •  a constituição de uma base colectiva de imagens, 
  • de livre utilização,
  • abrangendo todas as áreas temáticas,
  • obtidas de diferentes suportes (fotografias antigas, postais, diapositivos, etc.).
"Todas as imagens poderão ser livremente utilizadas, desde que não seja para fins comerciais, devendo-se ter o cuidado de indicar os respectivos autores e o endereço do local onde se encontram".

Obrigado, Henrique Oliveira. Parabéns pelo acervo fotográfico reunido e salvaguardado com tanto rigor e carinho. Muitas destas imagens estavam condenadas a ir parar á "cesta secção", ou seja, a "pubela", ao caixote do lixo.
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Nota do editor LG:

Último poste da série > 24 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27766: As nossas geografias emocionais (62): Visita sanitária à região do Boé, em 1981 (Henk Eggens, médico especialista em saúde global, cooperante na Guiné-Bissau, 1980-1984)

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27767: Fauna e flora (26): O crocodilo-do-Nilo nos "nossos" rios (Geba, Cacheu, Corubal...) - Parte I

Foto nº 1 > Guiné-Bissau > Região do Oio > Farim > 7 de junho de 2022 > Crocodilo-do-Nilo (Lagarto, em crioulo) (Crocodylus nilotcus)... Está protegido por lei... Pode atingir os 7 metros de comprimento... e atacar o homem.

Foto (e legenda): © Patrício Ribeiro (2022). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Foto nº 2 > Guiné- Bissau > Região de Biombo >  s/l  > s/d  (c-. 2009) > O crocodilo da Praia do Biombo 

Foto (e legenda):  © Patrício Ribeiro (2009). Todos os direitos reservados.[Edição e legendagem complementar Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Foto nº 3 > Guiné-Bissau > Região do Cacheu > São Domingos > Novembro de 2015 > Captura de dois crocodilos "assassinos" no rio Cacheu... Um deles foi exposto numa árvore, juntando uma multidão de curiosos...

Foto (e legenda): © Patrício Ribeiro (2015). Todos os direitos reservados. .[Edição e legendagem complementar Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

Foto nº 4 > Guiné > Zona leste >  Região de Bafatá > Sector L1 > Bambadinca > Mato Cão > O ten cor Polidoro Monteiro, último comandante do BART 2917 (1970/72), o alf mil médico Vilar (popularmente conhecido como o "Drácula", mais tarde psiquiatra) e o alf mil Paulo Santiago, cmdt do Pel Caç Nat 53 (Saltinho, 1970/72) e depois instrutor de milícias (no CIM de Bambadinca) com um crocodilo juvenil do rio Geba Estreito...
 
Foto tirada em novembro ou dezembro de 1971 no Mato Cão, após ocupação da zona com vista à construção de um destacamento, encarregue de proteger a navegação no Geba Estreito e impedir as infiltrações na guerrilha no reordenamento de Nhabijões, um enorme conjunto de tabancas de população balanta e mandinga tradicionalmente "sob duplo controlo".

O Polidoro Monteiro, já falecido, gostava de caçar. Incluindo à noite, utilizando os faróis do jipe, na orla da pista de Bambadinca. Lembro-me dele como tendo sido o único oficial superior que andou connosco (CCAÇ 12), a penantes no mato (pelo menos, uma vez, quando se foi inteirar dos seus domínios, o sector L1; veio de Bissorã e era considerado um spinolista, mesmo sendo de infantaria).

Foto (e legenda): © Paulo Santiago (2006). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar; Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].


1. Na Guiné, no meu tempo (1969/71), a malta não tomava banho à vontade nos rios, por muitas razões, a começar pelas de saúde e segurança... E, claro, o medo de répteis em geral e crocodilos, em particular... Herpetofobia, é o palavrão...

Sabemos que não havia "jacarés" em África (só no Novo Mundo), mas os crocodilos estavam no nosso imaginário quando lá chegávamos... Para o "tuga", crocodilo ou jacaré era tudo o mesmo... 

Parece que o Crocodylus niloticus sofreu uma redução drástica, na África Ocidental, desde há dois séculos, com o colonialismo e a pressão humana (caça, procura da pele, redução do habitat, poluição, etc.). E terá desaparecido de muitos rios da África Subsaariana.

Mas será que ainda havia crocodilos em todos os rios da Guiné, no nosso tempo? Os restos mortais dos nossos infortunados camaradas que caíram ao rio Corubal, em Cheche, terão sido também devorados por crocodilos? Há relatos, no blogue, de cadáveres que foram recuperados (no Geba e no Corubal), parcialmente mutilados...

Em anos mais recentes, o rio Cacheu tem sido notícia por más razões, as do eterno conflito entre a vida selvagem e as comnunidades humanas ribeirinhas... 

No rio Cacheu um habitat de crocodilos de grande porte, tem sido reportados e documentados ataques esporádicos daqueles réptéis, quer pelos habitantes da região quer pela imprensa de Bissau. E pelo nosso Patrício Ribeiro, o "tuga" que melhor conhece a Guiné (vd. fotos nºs 1, 2, e 3).

Por outro lado, os rios da Guiné, de águas barrentas e margens indefinidas (no tempo das chuvas), metiam respeitinho, sobretudo quando a malta fazia uma "cambança" de canoa... Cair-se ao rio era quase morte certa...

Enfim, vamos ver o que as diferentes ferramenta de IA nos dizem a respeito destes bichos feios e predadores, mas raramente visíveis por nós (ambos, "criaturas de Deus", diria o São Francisco, que nunca deve ter visto a mandíbula de um crocodilo-do-Nilo). 

Tal como os hipopótamos, que os havia no rio Corubal, no meu tempo (1969/71)... Mas esses faziam-se notar à distância, pelos seus urros... 

Comecemos por este "juvenil" de crocodilo da foto nº 4, freguês do Mato Cão, onde fomos muitas vezes (e onde, depois em finais de 1971/princípios de 1972, será montado um destacamento, por onde passaram alguns dos nossos grão-tabanqueiros). 

Confesso que nunca lá vi nenhum crocodilo, no Mato Cão. Nem tinha nem vagar para os observar. Mas o crocodilo era como o "Zé Turra", hábil no engenho e na arte de se camuflar e furtar ao contacto do "Zé Tuga", mesmo que estes dois pertencessem à mesma Ordem, a dos Primatas, e à mesma Espécie, a do Homo Sapiens Sapiens. A espécie que está no topo dos grandes predadores.


Pergunta à IA:  Crocodylus niloticus ou Osteolaemus tetraspis ? Juvenil, apanhado em 1971 no rio Geba Estreito, no Mato Cão (sujeito às marés, logo, água salgada) (foto nº 4)


Responde  a "menina IA"  ( europeia,  Le Chat / Mistral):

A espécie de crocodilo na imagem, apanhada em 1971 no rio Geba Estreito (Mato Cão, Guiné-Bissau), e que o nosso Paulo  Santiago segura, pela mandíbula superior, é quase certamente um Crocodylus niloticus, o crocodilo-do-Nilo.

Razões:
  • Distribuição geográfica: o Crocodylus niloticus é comum em toda a África subsaariana, incluindo a Guiné-Bissau, enquanto o Osteolaemus tetraspis (crocodilo-anão) tem uma distribuição mais restrita, principalmente em florestas tropicais da África Ocidental e Central, mas é raro ou ausente em habitats como o rio Geba, que é influenciado por marés.
  • Tamanho e morfologia: mesmo sendo um juvenil, o corpo alongado e a forma da cabeça são mais consistentes com o Crocodylus niloticus; o Osteolaemus tetraspis tem um focinho mais curto e largo, e é geralmente menor, mesmo em idade adulta.
  • Habitat: o Crocodylus niloticus é adaptado a rios, lagos e estuários, enquanto o Osteolaemus tetraspis prefere águas mais calmas e florestais.
  • Contexto histórico: durante a Guerra Colonial Portuguesa (1961-74), era comum os soldados entrarem em contacto com a fauna local, incluindo crocodilos, especialmente em zonas ribeirinhas como o Geba ou o Cacheu.

2. Distinção entre "lagarto" e "lagarto preto"

Ficha técncia: Crocodilo-do-Nilo ("Lagarto", em crioulo) (Crocodylus nilotcus) (pág. 28)

"Lagarto preto", em crioulo  (Osteolaemus tetraspis) (pág. 28), Também conhecido na África Equatorial como crocodilo-anão.

Fonte: República da Guiné-Bissau, Direcção Geral dos Serviços Florestais e Caça, Departamento da Fauna e Protecção da Natureza, s/l, 34 pp. s/d (Disponível em formato pdf, aqui, no sítio do IBAP , https://ibapgbissau.org/Documentos/Estudos/Animais%20da%20Guine-Bissau.pdf)


3. Comentou o Paulo Santiago, em complement0o da legenda da foto nº 4:

"Quem avistou o réptil, a caminho do Mato Cão, foi o soldado que conduzia o Sintex. Parou e o Vilar deu-lhe um tiro com a .22 que tinha aquela "enorme" baioneta acoplada. 

"Notou-se o animal acusar o tiro. O "barqueiro" aproxima o bote, o crocodilo tem ferimento num dos membros, abre a boca e o Vilar enfia-lhe a baioneta na goela. O bicho fecha a boca, abana a cabeça, e o futuro psiquiatra quase mergulha...

"Valeu-lhe o ten-cor Polidoro Monteiro que enfiou uma bala 7,62 na cabeça. Chegados ao destacamento, o Vilar pediu a um balanta para esfolar o bicho. Fizeram uns 'bifes' da cauda, dos quais não comi nenhum.

"Eu e o Vilar regressámos a Bambadinca com a subida da maré. O comandante Polidoro ficou no destacamento e, como acontecia várias vezes, houve flagelação ao anoitecer".

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026 às 19:36:27 WET

(Continua)
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Nota do editor LG:

Último poste da série > 6 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27709: Fauna e flora (25): Uma píton-africana ou irã-cego (Python sebae), "papada com esparguete" pelos "abutres de Cabuca (2ª CART / BART 6523 /73, 1973/74)

terça-feira, 19 de novembro de 2024

Guiné 61/74 - P26167: Bom dia desde Bissau (Patrício Ribeiro) (41): viagem de fim de semana, de Bissau a Varela, 175 km, 5h30, atravessando o rio Cacheu - Parte I: São Domingos e Susana



Foto nº 1 > Guiné-Bissau > Região de Cacheu > Viagem de fim de semana Bissau-Varela-Bissau > 17 de novembro de 2024 > Pegadas recentes de um hipopótamo, junto da ponte... Como não conseguem passar na manilhas da nova ponte no rio, tem que passar ao lado. Nos afluentes do Cacheu existem muitos hipopótamos.




Foto nº 2 e 2A > Guiné-Bissau > Região de Cacheu > Viagem de fim de semana Bissau-Varela-Bissau > 17 de novembro de 2024 >Pescadores felupes, de arco e flecha, que até agora é prática normal,no rio a Este de Susana.




Foto nº 3 e 3A > Guiné-Bissau > Região de Cacheu > Viagem de fim de semana Bissau-Varela-Bissau > 15 de novembro de 2024 > Ponte entre Susana e Cassolol. A antiga era de madeira. Os Russos construíram uma de betão para passar as areias pesadas extraídas de Varela.




Foto nº 4 e 4A > Guiné-Bissau > Região de Cacheu > Viagem de fim de semana Bissau-Varela-Bissau > 15 de novembro de 2024 >S.Domingos: Residência do Presidente do sector



Foto nº 5 e 5A> Guiné-Bissau > Região de Cacheu > Viagem de fim de semana Bissau-Varela-Bissau > 15 de novembro de 2024 > Porto de S. Domingos atual


Foto nº 6 > Guiné-Bissau > Região de Cacheu > Viagem de fim de semana Bissau-Varela-Bissau > 15 de novembro de 2024 > Rio Cacheu: porto-cais de S.Domingos. onde há alguns anos atracavam navios de mercadorias e transporte de passageiros, para a cidade de Cacheu



Foto nº 7 e 7A > Guiné-Bissau > Região de Cacheu > Viagem de fim de semana Bissau-Varela-Bissau > 15 de novembro de 2024 > São Domingos: avenida entre o porto e o centro da cidade


Foto nº 8 > Guiné-Bissau > Região de Cacheu > Viagem de fim de semana Bissau-Varela-Bissau > 15 de novembro de 2024 > Rio Cacheu: água salgada, maré cheia



Foto nº 9 e 9A > Guiné-Bissau > Região de Cacheu > Viagem de fim de semana Bissau-Varela-Bissau > 15 de novembro de 2024 > Arroz novo, do "pampam". Junto ao Rio Cacheu.


Fotos (e legendas): © Patrício Ribeiro (2024). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1.Mensagem do Patrício Ribeiro, nosso colaborador permanente. 

O Patrício tem já  perto de 170 referências e não precisa de mais apresentações. É autor da série "Bom dia desde Bissau" (iniciada em 3 de abril de 2017).    É um histórico da Tabanca Grande (está aquidesde 1 de junho de 2006)...


Data - domingo, 17/11/2024, 22:41
Assunto - Viagem de fim de semana até Varela

Luís, junto umas fotos, deste fim de semana em viagem até Varela. 

Nesta época do ano está tudo muito verde, porque as chuvas terminaram há pouco tempo. O passeio é bonito, podemos encontrar no caminho muitas iguanas com mais de um metro de compriment0...

Foi um passeio de 5,30h para cada lado (!), para ir limpar o capim e visitar / arejar a casa do "homem grande" em Varela.

Abraço, Patrício.


2. Comentário do editor LG:

Patrícío, obrigado. Já agora confirma: partiste de Bissau, passaste por Safim, Bula, São Vicente (nova ponte sobre o rio Cacheu, construída por uma empresa portuguesa e financiada pela União Europeia), Ingoré, São Dominmgos, Cassolol, Susana e Varela. São 175 km,  quatro horas, diz-me o Google.  Parece não haver outro caminho...

Vou apresentar as fotos não exatamente pela ordem que me mandaste. Umas são da ida (15 de novembro, sexta) e outras do regresso (17 de novembro, domingo). Na Parte I, as fotos que tiraste, vindo de Bissau até São Domingos e Susana, e a Parte II, em Varela, onde foste arejar a tua "datcha", capinar e pescar... (Tenho que fazer render o peixe que está caro.)
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Nota do editor:

Último poste da série > 11 de novembro de 2024 > Guiné 61/74 - P26140: Bom dia desde Bissau (Patrício Ribeiro) (40): No porto-cais de Quinhamel, comendo umas ostras de tarrafe (entrada) e uma bentana grelhada (prato de peixe) no restaurante do Ti Aníbal, ao som da música dos "catchus" e na companhia de um camarada "jadudi"...

terça-feira, 7 de maio de 2024

Guiné 61/74 - P25490: Os 50 anos do 25 de Abril (18): Guerra Colonial - Pequenas Grandes Verdades (Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887)

Corpo Clínico de Bigene - Dr. Adão Cruz em primeiro plano, à esquerda
Foto: © Adão Cruz


GUERRA COLONIAL

A vida é uma sucessão de acasos, o que leva a que seja muito difícil dizer o que nela se perde e o que nela se ganha. Com a dura e cruel guerra da Guiné, não sei calcular o que perdi, mas sei o que ganhei em experiência de vida. Aprendi que o colonialismo, o neocolonialismo e o imperialismo, por mais que tentem branqueá-los, suavizá-los e justifica-los, bem como as guerras a que conduzem, são verdadeiros crimes contra a humanidade. Não posso dizer que sinto saudades da minha vida na guerra, mas tenho recordações que ainda hoje arrancam dentro de mim uma espécie de nostalgia estranha, um rebuscar no fundo do tempo o sentido do sangue que me corria nas veias, uma sensação de perda profunda, semente de uma vida que até hoje aceitamos como vitória. Sempre disse que os dois anos que passei na Guiné, anos de sofrimento e saudade, de tristezas e alegrias, de coragem e desânimo, mas sobretudo de inigualáveis fraternidade e vivência humana, valeram vinte anos de toda a minha vida. Não sei dizer porquê, mas sinto-o até ao mais fundo do meu ser. Sei apenas que me levaram a um futuro do qual nunca saberei o valor que o define, mas que sempre construí em consonância comigo mesmo. Sei apenas que sem esses dois anos, seja eu quem for, nunca seria quem sou.

O texto que se segue, baseado em factos rigorosamente verdadeiros, não é um texto de descrição comum. Ele tenta criar a envolvência um tanto filosófica, um tanto psicológica e mesmo psicopatológica com que as guerras, todas as guerras estrangulam as nossas vidas.

PEQUENAS GRANDES VERDADES

Fiquei sempre com esta paradigmática sensação desde que, por volta de 1970, encontrei no átrio da Faculdade de Medicina da Salpêtrière, em Paris, um busto holográfico de Hipócrates que parecia dizer-me: Mon fils, la vie est le chemin pour la rencontre de nous-mêmes. Mas já muito antes, na guerra colonial, as longas horas a olhar para o vazio se enchiam inesperadamente de pequenas explosões, não de granadas, mas de pequenas grandes verdades de um pensamento acorrentado à la rencontre de nous-mêmes.

Sentado numa pedra junto à margem, no meio do dilema entre vida e suicídio, depois de encontrar um dedo humano na boca do peixe-serra que tinha um fígado de um metro quadrado, dizia o filósofo, condenado a mais nove meses de mato por tentar embarcar para a metrópole uma G3, com o fim de matar o sogro que lhe havia violado a mulher: Este é um sítio porreiro para alguém se suicidar, não acham? Mas não havia ninguém à volta para receber a pergunta. Concluiu que falava para si mesmo. Ora merda, ninguém me ouve. Mas têm de concordar que é um poço fundo, tão fundo que não dá tempo para chegar vivo lá abaixo.

A verdade procura sempre o amor na densidade dos processos e na empatia do sofrimento, clamava bem alto o meu amigo, capitão e arquitecto, pés bem assentes no escuro do pequeno cais de madeira, entre a amplidão do espaço de uma noite estrelada e os limites das margens do Rio Cacheu. Muito se tem falado sobre o facto de umas coisas da vida imitarem as outras ou não coincidirem com as outras. Não se trata de uma questão de imitação ou discordância, mas de procurar saber o que acontece quando duas coisas se juntam, naturalmente, para criar algo de novo, isto é, saber o que acontece se ambas descobrem a verdade absoluta ou se a verdade absoluta não é mais do que a verdade relativa e circunstancial dos momentos das nossas vidas. Não entendi muito bem, mas compreendi perfeitamente porque é que ele trazia debaixo do braço meia dúzia de discos de Beethoven, em vez da espingarda.

Assim que for dia, se dia chegar a ser nesta escura paisagem, lembraremos o amigo que na véspera escrevia versos com sangue da primeira bala, com a força da vida que cedo se apagou na segunda bala, gritando entre sonhos para os jagudis que o miravam e esperavam comer-lhe o corpo: O valor simbólico da percepção da vida está para além das filosofias baratas, e lembra que entre as grandes verdades da vida, outras mais pequenas se encontram a uni-las, como o amor, a poesia… e a morte.

A lua ia já muito alta, e caía a pique nas águas fundas do Cacheu. Eu e o padre capelão embarcávamos numa lancha LDM em direcção a Binta, que ficava vinte milhas a norte. Ele levava como missão confortar as almas e eu levava como missão tratar uma caganeira geral do pelotão que ali se encontrava. A margem esquerda do Rio Cacheu, o Oio, era uma mata completamente cerrada de tarrafe, e território dos guerrilheiros. A meio do caminho, nas entranhas do mais absoluto silêncio, apenas apunhalado pelo arrepiante pio de alguma ave nocturna, o padre perguntou-me: O que é para si a verdade? E eu respondi: Neste momento, para mim, a verdade não é esta enorme lua andar à volta da terra, mas as bazucas que, eventualmente, estarão por trás do tarrafe e nos farão mergulhar no fundo do rio, onde uma legião de jacarés esfomeados nos espera. A verdade para mim, caro padre, está no facto de estarmos aqui os dois, no coração da selva, sem termos a coragem de confessarmos um ao outro que não nos cabe um feijão no cu. O Senhor com o breviário e eu com Les Damnés de la Terre, de Frantz Fanon, duas realidades completamente diferentes, unidas pela força de uma pequena verdade circunstancial, o cagaço. E o Padre, com duas lanchas no fundo do rio desde há dois meses, ancoradas na sua cabeça, pedia explicações não se sabe a quem: Alguém tem de me indicar a saída da noite sem regresso, não pode haver quem não saiba o caminho da derradeira fome, do calor do resto de lume do último verso, não acha caro doutor? E eu respondi: Já viu estes passarinhos fritos, amavelmente e inesperadamente oferecidos por dois fuzileiros, no meio do Rio Cacheu, noite fora, nos confins da selva? Somos quatro dentro de uma lancha perdida no tempo, dois fuzileiros, um crente e um ateu. Enquanto deus anda à deriva, esta metralhadora com balas do tamanho de um palmo, não.

Os gritos sem voz das mães dos filhos que por aqui ficaram, nem sequer beliscavam o silêncio. Não havia mães nem filhos, nem momentos de aflição. Apenas medo. A sensação de que o tempo era de morte, e a superfície espelhada do rio um vidro vermelho de sangue deram para conversar: A noite e o vazio estão na origem cosmológica do mundo. Sofrer pode ser apenas sorrir. A pequena grande verdade do ser dissolve-se na tensão interna de quem ama a vida. Não será verdade? E o fuzileiro, ainda com alguns passarinhos na sertã de meio metro de diâmetro avançou: Já fiz muitas missões por este rio fora, mas nunca com um padre e um médico. Uma bênção e um privilégio, mas que, nem por sombras, me dão a segurança desta Browning. E deu um beijo na metralhadora.

Já a lua se havia sumido e o sol faiscava nas três ou quatro garrafas vazias, quando abrimos os olhos, estendidos no convés. Ainda ecoavam nos ouvidos as pequenas grandes verdades, libertadas pelo estimulante whisky que os dois fuzileiros conseguiram no contrabando: Parecendo às vezes um lago tranquilo de um qualquer paraíso-diz o segundo fuzileiro-e embora os rios corram para o mar, este parece nascer do mar, avançando sobre nós e tentando afogar-nos como aconteceu no último afundamento da lancha. Pois é, comenta o padre, parece uma blasfémia, mas os desígnios de Deus nada mais são do que interacções sensoriais e perceptivas entre realidades virtuais e realidades reais, indispensáveis à compreensão da vida e do papel do ser humano. Esta grande verdade nada mais produziu nos presentes do que um eructante soluço. Não se riam. Assim como a dor transforma em humilde ignorante todo o que a sofre, também a mente humana, no meio do cagaço, discorre sabiamente sobre todas as filosofias, respondi eu, com as palavras ainda envoltas em vapores etílicos: Nada se confunde plenamente, nada se distingue de forma absoluta, mas toda a nossa vida comporta áreas de intersecção muito importantes. Na relação gemelar entre os seres humanos, só a queda da hegemonia dos disparates torna possível as pequenas verdades da simplicidade da vida, no seu sentido antropológico.

Ao fim de dois dias, estancada a diarreia e reacesa a luz do Espírito Santo, alguém levantou, mais ou menos a despropósito, não o modus faciendi do seguimento para norte, mas a questão da transdisciplinaridade da vida, relação profunda e não superficial entre os saberes, uma das atitudes e estratégias fundamentais no avanço do conhecimento para a justiça, para a ética, para a solidariedade e cidadania, a fim de acabar com a puta da guerra. Dizia o alferes, já no fundo da garrafa de bagaço que trouxera de férias: Ainda há quem pense que existe um qualquer tipo de antagonismo entre imaginação de natureza poética, política, e bélica, mas não há. O que há é uma relação podre entre a razão e anti-razão, levando à morte das pequenas verdades e à destruição do ser humano.

Ora, nada destas filosofias tinha a ver com a terrível picada de vinte quilómetros que tínhamos pela frente, através da selva, durante sete horas, entre Binta e Guidage, já na fronteira do Senegal, onde íamos tentar acalmar alguns apanhados da cuca, pertencentes ao pelotão que lá se encontrava desterrado. O ataque de um enxame de abelhas selvagens a meio do caminho, ataque mais temido do que uma emboscada, foi uma daquelas pequenas verdades que se agarram como crude ao caminho da memória. Como não havia qualquer deus na farda do padre capelão a receber as angústias dos homens, concedi a mim mesmo a difícil tarefa de ser eu o senhor e dono do nosso desígnio. Com muita sorte e pequenas verdades dentro de uma caixa de ampolas de hidrocortisona, conseguimos reverter dois graves choques anafilácticos. Diga-me lá meu caro padre, de que nos servem as grandes verdades? Servem para lhe pagar, com todo o gosto, caro Doutor, a pequena verdade de uma cerveja, quando chegarmos a Guidage.

As pequenas grandes verdades da vida continuam a dizer-me que a relação do Homem com os inúmeros fenómenos que o rodeiam, com tudo o que vê e ouve, com tudo o que entende e não entende, é a mais poderosa essência da vida. A razão do Homem, fruto da obediência ao facto de existir…é um facto. Três perguntas: Não será esta cerveja, saída do fundo do bidon de gelo para uma goela a quarenta graus, um milagre? Acha que, algum dia, a terra engolirá os exércitos genocidas que se empanturram de vidas e se embebedam de sangue para glória do Senhor dos Exércitos? Há alguma razão para andar com um colar de orelhas ao pescoço ou dar um sabonete Lux às bajudas e fuzilá-las de seguida? O capelão, com um pé no Senegal e outro na Guiné – a fronteira era o caminho da fonte – encolheu os ombros, sorriu e sentenciou: Sempre haverá espinhos nos olhos e aguilhões nos flancos da vida. Sim, respondi, sempre haverá “grandes” verdades na noite do Homem, a tapar as pequenas verdades do nascer do sol.

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Nota do editor

Último post da série de 6 DE MAIO DE 2024 > Guiné 61/74 - P25485: Os 50 anos do 25 de Abril (17) : Conversas sobre "Portugal-África. Guerra Colonial. Madrinhas de Guerra", com Marta Martins Silva e 3 antigos combatentes, Hélder Sousa, Luís Graça e Jaime Silva. 3ª feira, dia 7 de maio, no ISCSP-ULisboa, Campus Universitário do Alto da Ajuda

segunda-feira, 8 de abril de 2024

Guiné 61/74 - P25356: Blogues da nossa blogosfera (190): Recuperando parte dos conteúdos do antigo sítio da AD Bissau - Parte III: Foto da semana, 19 de dezembro de 2010, o canhão do fortim de Bolol (ou Bolor), memória silenciosa do desastre de 1870


Guiné-Bissau > AD-Acção Para o Desemvolvimento > Foto da Semana >  Título da foto: Canhão do Fortim de Bolol | Data de Publicação: 19 de Dezembro de 2010 | Data da foto: | 21 de Novembro de 2010 | Palavras-chave: história (*)

Legenda:

Durante o período colonial, no final do século XIX, os portugueses estabelecem um fortim em Bolol para controlar o movimento marítimo na embocadura do Rio Cacheu, já próximo do oceano Atlântico.

A tabanca felupe de Djufunco, situada a pouca distância de Bolol, não aceita a presença desse Fortim e faz uma investida que acaba por destruí-lo e impedir de vez o seu funcionamento.

Ofendido, o governador da Guiné, sediado em Cabo Verde, organiza uma expedição punitiva a Djufunco, que acaba por se traduzir na morte de quase todos os soldados portugueses envolvidos nesta operação.

Passará a ficar conhecido na história como o Desastre de Bolol, vindo a ter como consequência imediata a afectação de um governador na Guiné, em vez de continuar a estar em Cabo Verde.

Fonte: Arquivo.pt > ADBissau.org (com  devida vénuia...)


Antiga Província Portuguesa da Guiné > Carta Geral (Escala: 1/500 mil) (1961) > Posição relativa de Bolol (ou Bolor(, Bolola, Jufunco, Varela e Cacheu.

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guimné (2024)


2. Sobre o desastre de Bolol (ou Bolor, como ainda se escrevia na carta de 1961), pode ler-se na Wikipedia (com a devida vénia...)

(...) Desastre de Bolol é a designação por que ficou conhecida na historiografia colonial portuguesa o resultado da expedição militar portuguesa enviada em finais de 1878 para recuperar o fortim de Bolor (era assim que se escrevia na época ao) na foz do rio Cacheu, na então Guiné Portuguesa.

A expedição, enviada pelo governador de Cabo Verde, que à época tinha jurisdição sobre a costa da Guiné, resultou na morte de quase todo o contingente envolvido na operação, o que determinou a alteração da estratégia portuguesa na região, nomeadamente a criação de um governo específico na Guiné, sedeado em Bolama e separado do de Cabo Verde.

(...) No contexto da corrida à ocupação efectiva do território africano, que culminaria na Conferência de Berlim (1884-1885), forças britânicas da colónia da Serra Leoa instalaram-se na ilha de Bolama, iniciando uma disputa pelo controlo da foz do Cacheu que culminou em 1870 com a decisão arbitral do presidente norte-americano Ulysses S. Grant que reconheceu a soberania portuguesa na região.

Em consequência, o Governo português ordenou a ocupação efectiva daquela região, visando a consolidação do seu estatuto como possessão portuguesa. 

Entre os postos criados, foi estabelecido um fortim na tabanca de Bolol (ao tempo referida como Bolor), em território do grupo étnico dos felupes, na margem direita do rio Cacheu.

O objetivo do fortim de Bolor/Bolol era albergar uma pequena força portuguesa à qual caberia controlo do movimento marítimo na embocadura do rio Cacheu, estabelecendo assim a posse efectiva do território em antecipação a novos conflitos pela posse daquela estratégica porção da costa africana e das ilhas fronteiras, nomeadamente a posse de Bolama e da parte mais interna do arquipélago dos Bijagós.

Aparentemente com o apoio britânico, cujos mercadores na região terão fornecido armamento, o povo da tabanca felupe de Jufunco (lê-se: Djufunco),  situada a pouca distância de Bolor/Bolol, não aceitou a presença militar portuguesa, atacando e destruindo o fortim.

Em resposta ao ataque, o governador da Cabo Verde, então com jurisdição sobre a costa africana fronteira ao arquipélago de Cabo Verde, na qual se incluía a actual Guiné-Bissau, enviou em 1878 uma expedição punitiva a Jufunco. 

A resistência do povo felupe foi inesperadamente dura e a expedição foi um desastre militar, resultando na morte da maioria do efetivo português envolvido na operação.

O incidente, apelidado de 'desastre de Bolol' (na época dizia-se Bolor), foi uma das maiores derrotas do Exército Português na luta pelo controlo das populações africanas das colónias portuguesa no contexto das campanhas de pacificação.

Como consequência imediata foi determinado a criação de um governador autónomo na Guiné, separado de Cabo Verde, sendo escolhida como sede a vila de Bolama, estabelecendo assim uma efectiva presença portuguesa no território que havia sido disputado com os britânicos.

 Seguiram-se múltiplas acções militares visando a submissão dos diversos povos da região, nomeadamente contra os biafadas em Jabadá (1882), os papéis em Bissau e no Biombo (1882-1884), os balantas em Nhacra (1882-1884) e os manjacos em Caió (1883).(...)

No local do fortim, agora parte do Parque Natural dos Tarrafes do Rio Cacheu, apenas resta uma pequena peça de artilharia em ferro, de alma lisa.(...)

(Seleção, revisão / fixação de texto, itálicos, negritos: LG) 
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domingo, 22 de outubro de 2023

Guiné 61/74 - P24780: Recordando o Amadu Bailo Djaló (Bafatá, 1940 - Lisboa, 2015), um luso-guineense com duas pátrias amadas, um valoroso combatente, um homem sábio, um bom muçulmano - Parte XXXVII: assalto, da 1ª CCmds Afriicanos, com o cap cav 'cmd' Carlos Matos Gomes como supervisor, ao irã da Caboiana, em outubro de 1972

 

Guiné > s/l > s/d [c. 1973/74] > Da esquerda para a direita, o cap cav 'cmd' Carlos Matos Gomes, e maj inf 'cmd' Raul Folques: o primeiro foi supervisor do BCCmds da Guiné, e o segundo o seu último comandante (entre 28 de julho de 1973 a 30 de abril de 1974). O BCCmds da Guiné integrava, além das 1Ç, 2ª e 3ª CCmds Africanas, a a 35ª CCmds e a 38ª CCmds. Foto dublicada no livro do Amadu Djaló, na pág. 240 (não se indicando a sua origem, presumimos que seja do álbum do Virgínio Briote).
 

1. Continuação da publicação das memórias do Amadu Djaló (Bafatá, 1940-Lisboa, 2015), a partir do manuscrito, digitalizado, do seu livro "Guineense, Comando, Português: I Volume: Comandos Africanos, 1964 - 1974" (Lisboa, Associação de Comandos, 2010, 229 pp, + fotos, edição esgotada) (*).

O nosso  camarada e amigo Virgínio Briote, o editor literário ou "copydesk" desta obra,  facultou-nos uma cópia digital. O Amadu Djaló, membro da Tabanca Grande, desde 2010, tem cerca de nove dezenas de referências no nosso blogue.



Capa do livro do Amadu Bailo Djaló,
"Guineense, Comando, Português: I Volume:
Comandos Africanos, 1964 - 1974",
Lisboa, Associação de Comandos,
2010, 229 pp, + fotos, edição esgotada.



O autor, em Bafatá, sua terra natal,
por volta de meados de 1966.
(Foto reproduzida no livro, na pág. 149)

Síntese das partes anteriores:

(i) o autor, nascido em Bafatá, de pais oriundos da Guiné Conacri, começou a recruta, como voluntário, em 4 de janeiro de 1962, no Centro de Instrução Militar (CIM) de Bolama;

(ii) esteve depois no CICA/BAC, em Bissau, onde tirou a especialidade de soldado condutor autorrodas;

(iii) passou por Bedanda, 4ª CCaç (futura CCAÇ 6), e depois Farim, 1ª CCAÇ (futura CCAÇ 3), como sold cond auto;

(iv) regressou entretanto à CCS/QG, e alistou-se no Gr Cmds "Os Fantasmas", comandado pelo alf mil 'cmd' Maurício Saraiva, de outubro de 1964 a maio de 1965;

(v) em junho de 1965, fez a escola de cabos em Bissau, foi promovido a 1º cabo condutor, em 2 de janeiro de 1966;

(vi) voltou aos Comandos do CTIG, integrando-se desta vez no Gr Cmds "Os Centuriões", do alf mil 'cmd' Luís Rainha e do 1º cabo 'cmd' Júlio Costa Abreu (que vive atualmente em Amesterdão);

(vii) depois da última saída do Grupo, Op Virgínia, 24/25 de abril de 1966, na fronteira do Senegal, Amadu foi transferido, a seu pedido, por razões familitares, para Bafatá, sua terra natal, para o BCAV 757;

(viii) ficou em Bafatá até final de 1969, altura em que foi selecionado para integrar a 1ª CCmds Africanos, que será comandada pelo seu amigo João Bacar Djaló (Cacine, Catió, 1929 - Tite, 1971)

(ix) depois da formação da companhia (que terminou em meados de 1970), o Amadu Djaló, com 30 anos, integra uma das unidades de elite do CTIG; a 1ª CCmds Africanos, em julho, vai para a região de Gabu, Bajocunda e Pirada, fazendo incursões no Senegal e em setembro anda por Paunca: aqui ouve as previsões agoirentas de um adivinho;

(x) em finais de outubro de 1970, começam os preparativos da invasão anfíbia de Conacri (Op Mar Verde, 22 de novembro de 1970), na qual ele participaçou, com toda 1ª CCmds, sob o comando do cap graduado comando João Bacar Jaló (pp. 168-183);

(xi) a narrativa é retomada depois do regresso de Conacri, por pouco tempo, a Fá Mandinga, em dezembro de 1970; a companhia é destacada para Cacine [3 pelotões para reforço temporário das guarnições de Gandembel e Guileje, entre dez 1970 e jan 1971]; Amadu Djaló estava de licença de casamento (15 dias), para logo a seguir ser ferido em Jababá Biafada, sector de Tite, em fevereiro de 1971;

(xii) supersticioso, ouve a "profecia" de um velho adivinho que tem "um recado de Deus (...) para dar ao capitão João Bacar Jaló"; este sonha com a sua própria morte, que vai ocorrer no sector de Tite, perto da tabanca de Jufá, em 16 de abril de 1971 (versão contada ao autor pelo soldado 'comando' Abdulai Djaló Cula, texto em itálico no livro, pp.192-195) ,

(xiii) é entretanto transferido para a 2ª CCmds Africanos, agora em formação; 1ª fase de instrução, em Fá Mandinga , sector L1, de 24 de abril a fins de julho de 1971.

(xiv) o final da instrução realizou.se no subsector do Xitole, regulado do Corunal, cim uma incursão ao mítico Galo Corubal.

(xv) com a 2ª CCmds, comandada por Zacarias Saiegh, participa, em outubro e novembro de 1971, participa em duas acções, uma na zona de Bissum Naga e outra na área de Farim;

(xvi) em novembro de 1971, participa na ocupação da península de Gampará (Op  Satélite Dourado, de 11 a 15, e Pérola Amarela, de 24 a 28);

(xvii) 21-24 dezembro de 1971: Op Safira Solitária: "ronco" e "desastre" no coração do Morés, com as 1ª e 2ª CCmds Africanos  (8 morts e 15 feridos graves);

(xviii) Morés, sempre o Morés... 7 de fevereiro de 1972, Op Juventude III;

(xix) o jogo do rato e do gato: de Caboiana a Madina do Boé, por volta de abril de 1972;

(xx)  tem um estranho sonho em Gandembel, onde está emboscado très dias: mais do que um sonho, um pesadelo: é "apanhado por balantas do PAIGC";

(xxi) saída para o subsetor de Mansoa, onde o alf cmd graduado Bubacar Jaló, da 2ª CCmds Africanos, é mortalmente ferido em 16/2/1973 (Op Esmeralda Negra)M

(xxii) assalto ao Irã de Caboiana, com a 1ª CCmds Africanos, e o cap cav 'cmd' Carlos Matos Gomes como supervisor.



Guiné > Região de Cacheu > Carta de Cacheu / São Domingos (1953) > Escala 1/50 mil > Pormenor dos rios Cacheu e seus afluentes: Pequeno de São Domingos (margem norte); Caboi, Caboiana e Churro (margem sul), a montante da vila de Cacheu.

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2015).


 Recordando o Amadu Bailo Djaló (Bafatá, 1940 - Lisboa, 2015), um luso-guineense com duas pátrias amadas, um valoroso combatente, um homem sábio, um bom muçulmano - Parte XXXVII:

A 1ª CCmds na mata de Caboiana, em outubro de 1972, com o cap cav 'cmd' Carlos Matos Gomes como supervisor (pp. 239-242)


A nossa 1ª CCmds, comandada pelo tenente Jamanca, recebeu a missão de ir à Caboiana. Havia informações sobre a chegada de mais pessoal do PAIGC, vindo do norte, incluindo cubanos. Acompanhava-nos, como supervisor[1], o capitão Matos Gomes.

Depois de termos passado a noite na mata, saímos cedo do local. Estávamos no fim da colheita de arroz e estávamos a progredir num campo de lavra, cautelosamente, quando subitamente ouvimos duas rajadas curtas, à frente da coluna. O meu grupo fechava a companhia.

Primeiro ficámos amarrados ao chão, depois eu e o meu guarda-costas chegámo-nos à frente, junto do capitão Matos Gomes. Nessa altura, o alferes Sada Candé vinha na nossa direcção, com uma arma na mão e a dizer:
 
− Matei-o! 

− Aonde ?  − perguntei. 

− Debaixo daquela palmeira − respondeu. 

Dirigi-me com todos os cuidados para lá e encontrei um guerrilheiro com a perna partida e os ossos à mostra.

Pouco passava das 15h00 e o Jamanca, depois de falar com o capitão Matos Gomes, pediu a evacuação do ferido do PAIGC.

Quando se estava a fazer a evacuação, caiu uma chuva de morteiros na zona do helicóptero, que atingiu o local onde estávamos e todos os oficiais, menos o capitão Matos Gomes[2] e alguns estilhaços furaram o helicóptero[3]. Ficámos numa situação complicada.

O 1º sargento Braima Baldé, que era o mais antigo, ficou a comandar a companhia. Fizemos novo pedido de evacuação, mas antes de chegarem os helis, a zona de onde estavam a sair as morteiradas foi bombardeada pelos Fiat[4]. 

A evacuação não foi fácil, mas conseguiram levantar rumo a Bissau. Entretanto já era muito tarde para continuarmos a andar, tínhamos perdido muito tempo. O céu estava coberto de nuvens escuras, os relâmpagos e os trovões começaram a surgir, uns atrás dos outros, não estávamos com muita sorte com o tempo, ou então estávamos, nunca se sabe.

A chuva veio de uma vez, caiu toda durante uns minutos, depois parou. Achámos melhor permanecer naquele local da mata[5], até de manhã.

De manhã muito cedo reiniciámos a marcha, com o grupo do Braima à frente, o capitão Matos Gomes[6] no meio e o meu atrás. Caminhámos até às dez horas, mais ou menos, quando vimos um carreiro muito utilizado.

Braima virou à esquerda. Eu estava no grupo da retaguarda e, quando cheguei ao tal carreiro, virei á esquerda também. Tirei a minha carta do bolso, e, sempre a andar, comecei a observar o mapa. Pareceu-me que devíamos ter voltado à direita.

Dirigi-me ao Capitão Matos Gomes.

− Meu capitão, é por aqui?

−  É o Braima que vai à frente! 

Mandou fazer um alto e seguimos os dois ao encontro do Braima.

−É por aqui?  
− perguntou o capitão.

− É por aqui!   
−  espondeu o Braima.

− Não é por aqui, é para o lado contrário 
−  respondi eu.

Ao capitão também lhe parecia que era para a 
direita[7] . Então, voltámos para trás e, a partir deste momento, eu e o capitão passámos para a frente, em direcção ao objectivo.

Progredimos sem qualquer problema, até ouvirmos uns rebentamentos, que nos obrigaram a abrandar a marcha, mas continuámos rumo ao objectivo, a tal mata das cerimónias, o Irã da Caboiana.

Entrámos por um lado e saímos pelo outro. Lá dentro, vimos centenas de garrafas vazias, algumas mesmo muito antigas. Naquele local faziam-se cerimónias, desde muito antes de nós nascermos[8].

A avioneta apareceu e o capitão[9] transmitiu por rádio que a missão estava cumprida e que estávamos dentro do objectivo. Da avioneta pediram para estendermos uma tela para nos localizarem. Então, o coronel Rafael Durão, que era o comandante do CAOP, mandou-nos afastar do local e que procurássemos uma zona para sermos recolhidos. 

Andámos sempre, junto a um rio, que era um afluente da margem esquerda do Cacheu, até que nos afastámos para um local onde fomos recuperados.
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Notas do autor ou do editor literário, VB

[1] Nota do editor: as Companhias de Comandos da Guiné tinham um supervisor, um capitão Comando europeu.

[2] Nota do editor: o capitão Matos Gomes, embora atingido na boca, assumiu o comando, dado o facto do tenente Jamanca se encontrar mais incapacitado.

[3] Nota do editor: o helicóptero foi atingido na fuselagem.

[4] Nota do editor: Fiats G.91, que bombardearam e metralharam, muito próximo das forças portuguesas, com grande precisão.

[5] Mata da Cobiana, uma zona húmida entre bolanhas, constituída por palmeiras e árvores de grande porte e tendo por baixo mata densa.

[6] O que restava de um grupo, cerca de 20 homens.

[7] Nós vínhamos a descer a Caboiana, de Norte para Sul., mais ou menos pelo meio. Para a esquerda ficava a bolanha. O Irã da Caboiana, que era o que procurávamos, deveria situar-se no centro, para a direita, era um palpite.

[8] Era o Irã da Caboiana, um dos mais importantes, se não o mais importante da Guiné. Irã é um local onde adoram ídolos, dos que não acreditam em nenhum deus. Eles não adoram Deus, adoram deuses.

[9] Nota do editor: este relato do Amadu Djaló fala da progressão para Sul pelo centro da Caboiana, no primeiro dia. Como ele refere, capturaram um guerrilheiro ferido, e chamaram um heli para o evacuar. E quando estavam a proceder à evacuação, foram atacados violentamente. O  heli foi atingido, os feridos, entre os quais o Jamanca, saltaram para dentro dele, juntamente com a enfermeira paraquedista, mas o aparelho conseguiu levantar, em esforço e às abanadelas, em direcção a Canchungo. Apesar de ferido na boca, sem gravidade, o capitão Matos Gomes assumiu o comando das operações.

[ Seleção / adaptação / revisão / fixação de texto / negritos, para efeitos de publicação deste poste no blogue: L.G.]
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Nota do editor:

(*) Último poste da série > 9 de outubro de  2023 > Guiné 61/74 - P24739: Recordando o Amadu Bailo Djaló (Bafatá, 1940 - Lisboa, 2015), um luso-guineense com duas pátrias amadas, um valoroso combatente, um homem sábio, um bom muçulmano - Parte XXXVI: Tocou tambor para Bubacar, em Porto Gole, Op Esmeralda Negra, 13-16 fev 1973