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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27709: Fauna e flora (25): Uma píton-africana ou irã-cego (Python sebae), "papada com esparguete" pelos "abutres de Cabuca (2ª CART / BART 6523 /73, 1973/74)




Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Cabuca > 2ª CART 6532/73 (Cabuca, 1973/74) >

Foto e legenda do blogue Abustres de Cabuca  > quinta-feira, 8 de outubro de 2009 >  "Foi papada om esparguete. Esta foto já estava foi publicada aqui há uns tempos, mas por obra e graça desapareceu. Mas eu não quero que o Barbosa fique chateado, e publico mais uma vez a foto daquela que deu a melhor refeição de vaca guisada com esparguete".

Foto: © António Barbosa (2009). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. No temos dúvidas que se trata de Píton-africana ou píton-da-rocha-centro-africana ou Píton-norte-africana (Python sebae) (Python sebae), também conheciuda (e temida) como "irã-cego".

Píton-africana: uma fêmea adulta
(em cativeiro)
Fonte: Wikipedia

As duas "meninas da IA" (Gemini IA / Le Chat, Mistral IA)  que consultei também acerrtam noi veredito:
 
  • a cobra em questão, pela morfologia e tamanho, grande e corpo, robusto, é claramente uma serpente constritora;
  • é uma serpente não-venenosa  (o que explica a segurança com  os militares lhe pegam, se bem que deva estar morta);
  • padrão irregular em manchas escuras ao longo do corpo;
  • cabeça relativamente larga, sem aspeto de víbora;
  • parece de facto corresponder a uma píton-africana (Python sebae), também conhecida como píton-da-rocha-africana;
  • é nativa da África Subsaariana;
  • é a maior cobra de África (pode ir dos 3 aos 6 metros, e pesar entre 60 a 80 kg.);
  • esta parece ser uma fêmea, bem alimentada, medir 4 m e pesar 70 kg (cálculos da menina  IA europeia, a partir  da fotografia).

É uma espécie comum na Guiné-Bissau, especialmente 
em zonas de savana, proximidade de rios e cursos de água (como o rio Corubal). Às vezes tropeçávamos com elas em operações no mato.

É/era com alguma frequência caçada e consumida localmente, inclusive por militares durante a Guerra Colonial. A sobrecaça hoje em dia (e a redução do seu habitat) começam a ser uma ameaça.

 O que não é:
  • uma mamba nem uma cobra (elapídeo): essas são muito mais esguias;
  • uma víbora (bitis), que teria corpo mais curto e cabeça muito triangular;
  • uma jiboia sul-americana (essas não existem em África).

(...) "A píton-da-rocha centro-africana mata suas presas por constrição e frequentemente come animais do tamanho de antílopes, ocasionalmente até crocodilos. A cobra se reproduz por meio da postura de ovos. Ao contrário da maioria das cobras, a fêmea protege seu ninho e, às vezes, até seus filhotes.(...)


2. Sobre o consumode cobra  por humanos:

Em Cabuca foi cozinhada e servida com esparguete, o que é perfeitamente plausível.

A carne de píton é considerada comestível, tem textura semelhante a frango / peixe firme. É usada como recurso alimentar ocasional nas zonas rurais em África (e também no nosso tempo, em aquartelamentso do mato, mais isolados, com "falta de proteina", como em Cabuca, que não era propriamente um "resort" turístico)

A menina IA europeia acrescenta, muita curiosa pelo facto dos "tugas" comerem cobra na Guiné:

(...) Tradição local: em muitas culturas africanas, a carne de cobra é considerada uma iguaria, rica em proteína e com um sabor muitas vezes comparado ao de frango ou peixe. O facto de ter sido preparada com esparguete sugere uma adaptação criativa dos militares às condições locais, misturando recursos disponíveis com técnicas culinárias portuguesas.
 
Sabor: a comparação com a carne de vaca é subjectiva, mas a carne de cobra é geralmente descrita como magra, firme e de sabor suave, absorvendo bem os temperos. Não é incomum que, em contextos de sobrevivência ou escassez, os soldados recorressem a fontes alternativas de proteína.(...)


E dá-nos mais este apontamento histórico e cultural:

(...) Adaptação e resiliência: episódios como este ilustram a capacidade de adaptação e a resiliência dos soldados portugueses em ambientes hostis, onde a criatividade culinária se tornava uma necessidade.

Memória colectiva: fotografias como estas são documentos valiosos, não só pela informação biológica ou geográfica, mas pelo retrato humano e cultural que proporcionam. Captam a interacção entre pessoas de diferentes origens (no teu caso, com soldados locais fulas) e o quotidiano da guerra, que nem sempre se resume ao conflito armado." (...)

Comentei, para ela, "armado em machão: 

"Sim, nas zonas mais isoladas e com maiores dificuldades de abastecimento, recorria-se à caça (ou à pesca, mas o peixe sabia um bocado a lodo)... Tirando o macaco-cão (que era o "hamburguer" dos guerrilheiros do PAIGC e da população sob o seu controlo), e obviamente o "jagudi" (nunca vi nem ouvi ninguém dizer que comeu abutre), os "tugas" não eram esquisitos... Na falta de carne de vaca leitão, cabrito, frango, etc. (nem sempre fácil de obter nos "hipermercados" locais), também se comia cobra, pelicano, hipopótamo... A outra caça era melhor: gazela, lebre, galinhas do mato, etc. Crocodilo, também não se comia, mas houve quem experimentasse... Os muçulmanos também não comiam babuíno ou outros macacos, a não ser "às escondidas", quando a fome apertava. Os animistas comiam (e bebiam) de tudo... "Desenrascanço", menina,  é uma palavra muito portuguesa... Afinal, a fome é boa conselheira, não achas?".

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