
Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52
1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 16 de Janeiro de 2026:
Queridos amigos,
Diria que estas duas exposições dão margem de manobra a quem admira Paula Rego a poder conhecer melhor as sucessivas fases da sua evolução artística, a poder descodificar o porquê dos temas dominantes e transversais da sua obra onde o fio condutor se pontua em vórtices de dualidade - harmonia e disrupção, existencialismo e sátira, a paixão revelada pelas causas, o desvelamento da hipocrisia social e a galeria dos preconceitos, pensa-se na série que Paula Rego produziu sobre o aborto que confirma plenamente como uma imagem pode valer por mil palavras. Aqui e hoje começa-se a digressão por uma das exposições, na primeira vamos viajar pelos temas dominantes e transversais da sua obra e na segunda vamos confrontar o guarda-roupa do seu estúdio também no diálogo que estabelece com as suas obras. As exposições estão patentes até 15 de março, juro a pés juntos que são duas exposições muito enriquecedoras para entender a essência do trabalho desta genial artista, que é muito mais do que um ícone em Portugal e na Grã-Bretanha, é hoje consagrada uma das figuras maiores das artes plásticas contemporâneas.
Um abraço do
Mário
Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (242):
Paula Rego na sala de espelhos, harmonia e disrupção, justiça e iniquidade -1
Mário Beja Santos
“Pintar é uma maneira de se lidar com a realidade, com o mundo de todos os dias, pois a pintar absorve-se tudo quanto há.”
Paula Rego
Estão patentes na Casa das Histórias Paula Rego, em Cascais, duas exposições de arromba: uma, em que a coleção da artista parece entrar numa sala de espelhos, a coleção do Museu irá desdobrar-se pelos temas dominantes e transversais à sua obra; outra, a obra de Paula Rego é apresentada através da lente da moda e do vestuário, introduzindo pela primeira vez o guarda-roupa do seu estúdio num diálogo com as obras que lhe correspondem. Vastidão de leituras, justifica que se vá faseando o que o leitor pode visitar até 15 de março, asseguro-lhe que não se arrependerá de ir contemplar Paula Rego em corpo inteiro, entrando mesmo nos bastidores onde os adereços patentes podem ajudar a descodificar este carrossel de emoções, de encontros e desencontros e de uma grande fiabilidade na defesa de causas e desmontagem de tabus.
A curadora, Cristina Alfaro, no que se refere à exposição que tem a ver com o diálogo da coleção da artista é a guia deste conjunto de núcleos como escreve na brochura da apresentação.
Na sala 1, o visitante pode contemplar a vida da artista através de apontamentos biográficos e uma obra inédita, não datada, em que a artista se autorretrata, veremos retratos como os que foram tirados por Nicholas Sinclair e Eduardo Gageiro. Na sala 2 apresentam-se obras que abrangem o período de 1954 a 1977 e que permitem uma visão panorâmica da evolução técnica e estilística durante esses anos. A aprendizagem na Slade School of Fine Arts, em Londres, de 1952 a 1956, terá sido determinante para a estimulação de uma linha de pesquisa e a revelação de uma linguagem figurativa muito pessoal, é visível a interação com a cultura e meio artístico britânico. O sentido transgressor e a necessidade de desafiar não só os restritos códigos morais vigentes à época, mas sobretudo a operação sexual das mulheres como é patente na sua obra sobre o Marquês de Sade.
Nas distintas fases da sua produção artística, os contos tradicionais e os contos de fadas serão sempre uma fonte fértil para o desenvolvimento do seu trabalho criativo, é por isso que são expostos na sala 2 guaches realizados em 1974 e 1975. No rescaldo da Revolução de Abril, Paula Rego propõe-se ilustrar as histórias violentas e cruéis dos contos tradicionais portugueses, revisitando as suas memórias e medos de infância.
Registos pessoais de memórias familiares cruzam-se na sala 3 com enredos que exploram a sátira social. São as recordações da infância passada em família. As figuras maternais estão também em destaque nesta sala. Seis obras da artista de 2003 ilustram este conto universal. A Mãe a usar a pele do lobo representa o final da história e a mais importante inversão de sentido tradicional do conto pela artista, com a substituição do caçador pela figura da mãe que vinga a jovem filha, esquartejando o lobo e usando a sua pele como um troféu de caça.
Nos anos de 1980, a artista joga a fundo numa metodologia de total liberdade. É um tempo de abordagem eclética da pintura em que cabem os valores da fantasia, do humor. São estes os temas dominantes que se podem ver nas obras expostas na sala 4. E ficamos por aqui para que o leitor possa degustar algumas das obras expostas e ganhar ânimo para vir fruir de duas exposições incomparáveis.
Casa das Histórias Paula Rego, Cascais
Paula Rego, autorretrato
O trabalho, a família, a artista
Paula Rego, autorretrato com as netas
Paula Rego, o exilado, um velho exilado sonhando com a sua juventude, 1963
Paula Rego, Marquês de Sade, 1957-1958
Paula Rego, a gata branca, 1993
Paula Rego, Brancaflor – as sete pipas de vinho, 1975
Paula Rego, Rei Canuto, 1977
Paula Rego, A Mãe a usar a pele do lobo, 2003
Paula Rego, Carga humana, 2007
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Nota do editor
Último post da série de 31 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27689: Os nossos seres, saberes e lazeres (720): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (241): O Palácio de Viana em Córdova, termo da viagem pela Andaluzia - 8 (Mário Beja Santos)












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