1. Mensagem de 14 de Março de 2026 do nosso camarada António Rosinha que foi Fur Mil, ainda do tempo da farada "amarela", em Angola, 1961/1962; topógrafo em Angola; emigrante no Brasil, e mais tarde na Guiné-Bissau, onde trabalhou, de 1978 a 1993, na empresa TECNIL. Entrou para o nosso blogue, em 29/11/2006, é um histórico da Tabanca Grande e autor da série "Caderno de Notas de Um Mais Velho"; tem cerca de 150 referências no blogue.
A TERAPIA DOS ALMOÇOS DA TROPA
Quem entre os 70 e os 83 anos, com alguma saúde, anseia pela convocatória anual dos almoços com os camaradas que andaram aos tiros nas ex-colónias, todos juntos, quando tinham 20 anos, com certeza que devem sentir-se uma geração historicamente diferenciada dos seus contemporâneos, que não tiveram aquela experiência.
Haverá muita nostalgia, haverá também orgulho em muitos, mas com certeza esses encontros são um alívio de tensão que dá vida e ânimo para manter a sanidade mental no seu devido lugar.
E mesmo quando nessas reuniões se invocam os nomes dos camaradas que morreram quer em combate quer pela vida fora, com ou sem visitas aos cemitérios, como se vê fazer em almoços a nível regional, missa e idas aos cemitérios, até esse recordar dos que morreram, como que completa uma obrigação de dever cumprido.
E quando se fala de muitos camaradas que ficaram com traumas e sem um tratamento adequado, podiam encontrar um bom tratamento em encontros/convívios e evitar desencontrar-se com antigos camaradas da tropa.
Mais antigos, já terão dificuldade em realizar esses encontros, uns vão desaparecendo, alguns mais entusiastas já não conseguem reunir camaradas com capacidade de deslocação com autonomia, e, no caso recente do problema do covid 19, com a interrupção aconselhada de reuniões, para muita gente esses almoços foi o fim total.
Pessoalmente, como ex-tropa da guerra de Angola, acabou-se o almoço anual, e tive a hipótese de frequentar um almoço mensal, com pessoal mais reduzido, com a interrupção do covid, não mais se retomou esse hábito.
E pessoalmente conheci ainda o poder terapêutico desses "almoços" em reuniões de retornados, que não era de jovens na casa dos vinte anos, mas em muitos casos foi com gente nos 50/60 anos... casos familiares terríveis, mas esses encontros funcionaram com muito sucesso, no "deixar para lá" e desabafar uns com os outros e retomar as rédeas da vida.
Como ex-militar, recorro muitas vezes aos lugares através do google earth para visitar os lugares por onde passei de arma ou sem arma na mão, para ver por onde passei, seja em Angola, Guiné ou Brasil, e ver como aquilo está, também essas visitas (virtuais) ajudam a encarar o nosso passado de frente.
E como diz o nosso grande escritor e também ex-militar, Lobo Antunes, que se preocupou muitíssimo comigo e todos os retornados, em que inclui grandes retornados tal como Vasco da Gama e mesmo por onde esses antigos andaram, eu gosto de visitar e desopilo imenso com isso.
Imagine-se hoje, 2026, lembrar que um desses guerreiros portugueses antigos, Afonso de Albuquerque, mandou construir o Forte Nossa Senhora da Conceição em 1515 na Ilha de Ormuz para cobrar portagem a barcos que quiserem transportar especiarias do oriente para norte e hoje nesse mesmo lugar alguém quer impedir petroleiros de transpor essa mesmíssima portagem sem pagar.
E segundo Lobo Antunes, fazem-nos falta petroleiros em frente aos Jerónimos.
Com reuniões e almoços, ou acompanhar Luisgraca de perto, não é só viver do passado, é viver a nossa história de frente.
Um abraço
Antº Rosinha
_____________
Nota do editor
Último post da série de 22 de Julho de 2025 >Guiné 61/74 - P27044: Caderno de notas de um mais velho (Antº Rosinha) (58): O racismo em Portugal... onde ninguém sabe se os seus antepassados foram escravos ou esclavagistas...
Blogue coletivo, criado por Luís Graça. Objetivo: ajudar os antigos combatentes a reconstituir o "puzzle" da memória da guerra colonial/guerra do ultramar (e da Guiné, em particular). Iniciado em 2004, é a maior rede social na Net, em português, centrada na experiência pessoal de uma guerra. Como camaradas que são, tratam-se por tu, e gostam de dizer: "O Mundo é Pequeno e a nossa Tabanca... é Grande". Coeditores: C. Vinhal, E. Magalhães Ribeiro, V. Briote, J. Araújo.
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segunda-feira, 16 de março de 2026
Guiné 61/74 - P27827: Caderno de notas de um mais velho (António Rosinha) (59): A terapia dos almoços da tropa
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sábado, 7 de março de 2026
Guiné 61/74 - P27802: In Memoriam (575): António Lobo Antunes (1942-2026): "Que o País os beije antes de os deitar fora, e lhes peça desculpa" (seleção de uma crónica de 2008, por António Graça de Abreu)
António Lobo Antunes (1942-2026) (*)
Foto: Cortesia de Instituto Camões (2018). com a devida vénia.
Editada pelo Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)
Que o País os beije antes de os deitar fora, e lhes peça desculpa
por António Lobo Antunes / António Graça de Abreu
Caríssimos tertulianos, camaradas e amigos:
António Lobo Antunes, enorme escritor, foi alferes médico no leste e centro de Angola, de 1971 a 1973. Na sua crónica na revista Visão, ontem, quinta feira, a 19 de Junho de 2008, escreveu:
(…) Todos os anos a minha companhia lá da guerra [CART 3313 / BART 3835, Angola, 1971/73] faz um almoço com os que sobejam da miséria em que andámos.
António Lobo Antunes, enorme escritor, foi alferes médico no leste e centro de Angola, de 1971 a 1973. Na sua crónica na revista Visão, ontem, quinta feira, a 19 de Junho de 2008, escreveu:
(…) Todos os anos a minha companhia lá da guerra [CART 3313 / BART 3835, Angola, 1971/73] faz um almoço com os que sobejam da miséria em que andámos.
Não neste último almoço, no penúltimo, o furriel Firmino Alves começou a anotar os telemóveis dos nossos camaradas para os contactos da refeição seguinte, até que chegou ao 'Pontinha'.
'Pontinha' é a alcunha do ordenança da messe de oficiais, que morava na Pontinha. Como a cabeça dele era grande (continua a ser grande), chamavam-lhe também 'Porta-aviões', porque dava para os aviões aterrarem.
O 'Pontinha', como muitos dos soldados, vive com dificuldades. Ao fim de semana engraxa sapatos para equilibrar o orçamento.
(…) Falar dos meus camaradas comove-me: a expressão irmãos de armas é tão verdade. Enquanto nos aguentamos por cá. Mesmo depois. Zé Jorge, continuamos irmãos de armas. Cabo Sota: admiro a tua coragem até ao fundo da alma. Sozinho com a Breda, uma metralhadorzeca, aguentou um ataque. E vive mal, percebem? Como se deixa viver mal um herói? Ao acompanhá-lo ao táxi em que voltava, doente, ao Alentejo, avisei o condutor:
- Você leva aí um grande homem, sabia, um dos maiores homens que conheço e, como todos os grandes homens da guerra, de uma infinita modéstia, bondoso, sereno. Não lhe chego aos calcanhares. Cabo Sota, tu mereces a continência de um general. O Zé Luís, oficial de operações especiais que em matéria de coragem não necessitava de aprender com ninguém:
- Eram duros
expressão que constitui para nós o supremo elogio. Adiante. Contava eu que o furriel Firmino Alves anotava os telemóveis até que chegou ao 'Pontinha' e como fizera com os outros perguntou:
expressão que constitui para nós o supremo elogio. Adiante. Contava eu que o furriel Firmino Alves anotava os telemóveis até que chegou ao 'Pontinha' e como fizera com os outros perguntou:
- Tens um telemóvel, 'Pontinha'?
E o 'Pontinha' logo a mostrar serviço:
-Não, mas a minha mulher tem um microondas.
(…) Boaventura, Nini, Licínio, vocês todos, caramba, como a gente somos irmãos. Unamuno, que muito respeito, tem páginas admiráveis sobre a valentia dos portugueses.
Tens razão, Zé Luís, eram duros. Ganas de explicar às mulheres deles, aos filhos deles, o orgulho que tenho em ser amigo dos pais, em que os pais sejam meus amigos. Não: irmãos de armas. Não: irmãos. E bons como o pão.
Ao lado disto que maior elogio se pode fazer? Ao menos que o País os beije antes de os deitar fora e lhes peça desculpa. E há mais anjos para além dos padeiros, de arma nas unhas mata fora.
Nenhum deles é banqueiro, claro. Nem administrador. Nenhum deles joga golfe. Jogaram golfe num campo de um só buraco onde não é a bola que cai. É um rapaz de vinte anos.
E acabo aqui, antes que seja tarde para marcar o número de um microondas. (...)
Camaradas de Portugal e da Guiné, depois de ler este texto, duas grossas lágrimas correram-me pelo rosto. Que o nosso País nos “beije antes de nos deitar fora e nos peça desculpa”. Que a vossa Guiné-Bissau vos beije também, “antes de vos deitar fora e vos peça desculpa.”
Sem complexos nem traumas de colonialista, sem complexos, sem traumas de colonizado, vamos ler outra vez o texto do António Lobo Antunes.
Depois, vamos adormecer em paz.
Um abraço,
António Graça de Abreu
S. Miguel de Alcainça,
20 de Junho de 2008
Ano do Rato
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Nota do editor L.G.:
(*) Último poste da série > 6 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27801: In Memoriam (574): António Lobo Antunes (1942-2026): até sempre, camarada! (Luís Graça)
sexta-feira, 6 de março de 2026
Guiné 61/74 - P27800: Notas de leitura (1902): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (5) (Mário Beja Santos)
1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 19 de Janeiro de 2026:Queridos amigos,
O Marquês do Lavradio consegue traçar e enquadrar os elementos fundamentais que levaram as potências coloniais a reunirem-se em Berlim para se tomarem decisões sobre o continente africano. A questão do Zaire foi um dos detonadores, as potências coloniais melhor apetrechadas, ambicionavam os negócios africanos, fazer caminhos de ferro, pagaram dispendiosas expedições científicas, o rei dos belgas, sob o pretexto de criar uma associação internacional para melhorar a civilização em África, fundou o Estado do Congo, surgiram conflitos para nos afastar das margens do Zaire; é facto que a Conferência de Berlim fez reconhecimento às possessões coloniais portuguesas, mas não passou do mero interlúdio para novas tentativas de reduzir a presença portuguesa em África. As hostilidades não vinham só da nossa mais velha aliada, a França já não escondia as suas ambições na África Ocidental, veremos adiante a questão do Casamansa e a sua tentativa de nos humilhar com a questão do navio Charles e Georges.
Um abraço do
Mário
Um livro assombroso, o Império Colonial Português no microscópio, na década de 1930, pelo punho do Marquês do Lavradio – 5
Mário Beja Santos
Portugal em África depois de 1851, Subsídios para a História, pelo Marquês do Lavradio, foi ditado pela Agência Geral das Colónias em 1936, trabalho que terá sido concluído em 1934. Goza da singularidade deste aio do Rei D. Manuel II ter tido acesso aos arquivos britânicos e possuir um repositório intitulado o Arquivo Lavradio, o seu pai, diplomata em Londres, correspondeu-se com diferentes governos britânicos, expediu notas para Lisboa e deixou relatórios da maior pertinência. O aspeto mais curioso deste seu trabalho é a franqueza que ele põe nas suas considerações da decadência imperial portuguesa, como se procurou mostrar nos quatro textos anteriores revela como até ao século XIX a nossa presença circunscrevia-se praticamente à orla da costa de regiões que só no século XIX passaram a ser designadas ou até fronteiras, caso da Guiné, Angola e Moçambique (os arquipélagos de Cabo Verde e São Tomé e Príncipe). Dentro da franqueza que o Marquês usa na sua narrativa é patente a crítica por vezes brutal face ao imperialismo britânico; no entanto, dirá nas conclusões que o Império português só poderá sobreviver à sombra da proteção britânica.
O que se entende por a questão do Zaire? O Governo português sustentava os nossos direitos aos territórios da Costa Ocidental de África, ao norte de Ambriz, o que indispunha a diplomacia britânica. Como observa o Marquês do Lavradio, quando se ocupou Ambriz, em 1855, fez-se a declaração da intenção de ir sucessivamente ocupando os territórios ao norte, caso de Cabinda. Logo em 1856 o Governo inglês dava instruções ao almirantado para que se opusesse pela força a qualquer nova tentativa de ocupação por parte de Portugal. Estas medidas de força violavam os Tratados existentes entre Portugal e a Grã-Bretanha. Que justificação davam os nossos aliados para tão tenazmente se oporem à nossa presença no Ambriz e mais ao norte? Que não tínhamos possibilidade de impedir o tráfico de escravos. O Ambriz, antes de ser novamente ocupado pelos portugueses, era o grande mercado dos escravos, e depois da ocupação não constava que saísse daquela localidade um só escravo.
Comentando a situação, escrevia o Visconde de Sá da Bandeira: “Parece-me que o Governo inglês tem preparado para pouco a pouco estabelecer no Zaire e costa adjacente o mesmo sistema que tem conseguido fundar na Costa da Mina, isto é, uma espécie de protetorado sobre todos os régulos. A consequência de tal protetorado tem sido que o comércio britânico adquiriu, com o andar do tempo, tal supremacia na Costa da Mina que quase que monopolizou as transações que se fazem nos portos.” A diplomacia portuguesa continuou a insistir nos seus direitos, como abonam as iniciativas de Andrade Corvo e as do Duque de Saldanha. Toda aquela região era ambicionada por potências coloniais, expedições como as de Livingstone, Stanley ou Brazza revelavam o valor dos territórios. As viagens, que haviam chamado a atenção das potências para a questão da escravatura em tráfego, originaram a conferência Internacional de Bruxelas, que se reuniu a 12 de setembro de 1876, Portugal não se fez representar, e foi nessa conferência que nasceu a Administração Internacional para a Exploração e a Civilização da África Central.
Em 1878, em resultado das novas explorações de Stanley, fundava-se em Bruxelas a Comissão de Estudos do Alto Congo e posteriormente a Associação Internacional do Congo. Foi nessa ocasião que a Inglaterra se decidiu finalmente em encetar negociações connosco para um Tratado que nos devia reconhecer o direito de ocuparmos o que legitimamente nos pertencia. A Inglaterra impunha-nos que se declarasse a liberdade de navegação no Zambeze e Congo, que se concedesse o tratamento de nação mais favorecida aos súbditos britânicos, que se desistisse de qualquer pretensão sobre terrenos ao sul ou no interior que não estivessem efetivamente ocupados e que se suprimisse o tráfico da escravatura.
Numa tentativa de recapitulação podemos considerar que a questão do Zaire, a criação de uma associação internacional sobre a égide do rei Leopoldo da Bélgica, a delimitação da bacia do Congo, a própria política hostil dos Estados Unidos que exigia uma total liberdade comercial na região do Congo, as expedições de Stanley, numa tentativa de encontrar apoios junto das chefaturas nativas em detrimento dos interesses portugueses estão entre as causas principais que conduziram à Conferência de Berlim, na justa medida em que a Alemanha também cobiçava porções de território africano. A Alemanha já pusera o pé na África Oriental entre Zanzibar e Tanganica, e começava a assentar arraiais no Togo. Como escreve o Marquês do Lavradio, “Ingleses, franceses e alemães lançaram-se sucessivamente nos sertões africanos, ou com fins meramente científicos ou com intuitos de especulação comercial, resultando destas viagens o conhecimento completo da geografia africana, a criação de novas colónias ou protetorados e, ainda, o nascimento de um Estado novo.”
O autor procura denunciar que grande parte destas expedições em que pessoas como Livingstone ou Stanley ou Cameron alegavam que eram os primeiros a atravessar África escondiam o facto dos portugueses já terem importantes viagens, e avança com dados históricos:
“Não devem ser esquecidos os nomes de João Fernandes, o primeiro europeu que penetrou no terreno de África, ficando no Rio de Oiro em 1445, para aprender a língua e costumes, a fim de informar o Infante D. Henrique; padre Gonçalo de Silveira, que em 1561 conseguiu batizar solenemente o rei de Monomopata, que meses depois o mandava assassinar; frei João dos Santos, que de 1568 a1597 encontrámos exercendo a sua missão na África Oriental; padre Jerónimo Lobo, que em 1624 estava na Abissínia; Domingos de Abreu e Brito, 1592 reconhecia a facilidade de passar de Benguela para as minas de Monomopata; Baltazar Rebelo de Aragão; Manuel Cerveira Pereira; Luís Mendes de Vasconcelos.”
E, mais adiante:
“O Tenente-coronel Francisco Honorato da Costa, Comandante da Feira de Cassange, mandou em 1802, por ordem do Governador de Angola, dois dos seus pioneiros a Tete com cartas para o Governador dos rios de Sena. Estes dois homens, Pedro João Baptista e Anastácio José, saíram de Cassange em fins de novembro de 1802 chegaram a Tete em 2 de fevereiro de 1811, onde Pedro João Baptista entregou ao Governador dos rios de Sena um roteiro do caminho seguido. É esta a primeira travessia entre as duas costas africanas de que há conhecimento afetivo.”
Como iremos ver adiante, estávamos a pagar forte e feio a nossa negligência e não possuíamos nem meios nem poder para concorrer com as grandes potências. Houve, é facto, uma comoção nacional face a esta corrida em África, o que levou à formação de uma comissão geográfica africana e à fundação da Sociedade de Geografia de Lisboa.
D. José Maria do Espírito Santo de Almeida Correia de Sá, 6.º Marquês do Lavradio (1874-1945)
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Notas do editor:
Vd. post de 27 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27778: Notas de leitura (1900): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (4) (Mário Beja Santos)
Último post da série de 2 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27787: Notas de leitura (1901): "Amílcar Cabral O Africano que Abalou o Império", por José Alvarez, Âncora Editora, 2025 (4) (Mário Beja Santos)
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026
Guiné 61/74 - P27732: Notas de leitura (1895): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (2) (Mário Beja Santos)
1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 23 de Dezembro de 2025:Queridos amigos,
O Marquês do Lavradio faz um resumo da situação de Cabo Verde, Guiné e S. Tomé e Príncipe em meados do século XIX, lançado-se depois na análise das principais causas da decadência do Império Português. Observa que quando foi descoberto o caminho para a Índia, os portos de África passaram a ser apenas portos de escala para as armadas; e descoberto o Brasil, a colonização encontrou em África o viveiro onde ia procurar os braços necessários para as minas e engenhos americanos, deu-se uma concorrência feroz no comércio negreiro, África despovoou-se. E tece as considerações que se prendem com a dominação espanhola, a ausência de um plano colonial e a abolição das ordens religiosas. Mas também se pode admitir um outro fator: a escolha dos governadores nem sempre se atendeu às qualidades e valor dos nomeados, eram escolhas que obedeciam a influências na corte, tudo se agravou com a guerra fratricida entre miguelistas e liberais. E o Marquês do Lavradio diz também o seguinte: "A péssima administração financeira do Estado, a falta de energia, o fatal hábito de fazer tudo fora de tempo, são outras tantas causas do estado da decadência." É neste quadro que se inicia a Era da Regeneração e a diplomacia portuguesa ir-se-á confrontar com ambições das grandes potências coloniais, será o caso da Questão de Bolama e a Questão de Lourenço Marques, que iremos ver proximamente.
Um abraço do
Mário
Um livro assombroso, o Império Colonial Português no microscópio, na década de 1930, pelo punho do Marquês do Lavradio – 2
Mário Beja Santos
Incúria minha, desconhecia inteiramente a existência desta obra que saiu do punho do 6.º Marquês do Lavradio, que não deixa de causar uma certa estupefação, na data da sua publicação pela Agência Geral das Colónias, em 1936, já corria a torrente do nacionalismo imperial do Estado Novo, feita de glórias, de guerreiros invictos e de feitos estrondosos, nunca se questionando que aquelas parcelas exibidas no mapa tinham verdadeiramente 500 anos de presença portuguesa; e agora o Marquês do Lavradio vinha dizer que não era exatamente assim. Deu-se uma súmula do estado das colónias de Angola e Moçambique em 1851 e a narrativa vai agora prosseguir a partir de Cabo Verde.
“Cabo Verde fora sempre mais pobre e miserável de todas as possessões portuguesas. A sua colonização começou em 1562 com alguns casais do Algarve e Alentejo, a que e juntaram casais da Guiné das tribos Balanta, Papel, Bijagó, Felupe, Jalofo, dando origem a uma raça especial variável de ilha para ilha. Durante longos anos a sua importância resultava principalmente de ser um entreposto de escravos e a ilha de Santiago fora muito florescente quando os navios com escravos eram obrigados a ir ali pagar os quartos e vintenas.
A grande maioria dos terrenos, ainda os mais abundantes de água, e nas ilhas mais saudáveis, como S. Vicente, S. Nicolau e Fogo, estavam incultos; no interior das ilhas não havia estradas e as comunicações entre as diferentes ilhas e com a capital eram morosas e difíceis. João de Fontes Pereira de Mello, assumindo o Governo da Província em 1849, descreve o estado em que a encontrou nas seguintes linhas:
‘Achei exaustos os cofres públicos, o crédito perdido pelo não pagamento em Lisboa das letras sacadas aqui pela Junta da Fazenda; os oficiais e mais empregados públicos com cinco meses de atraso e o clero com treze; devendo-se um mês de pré, quinze dias de pão e onze contos de reis de massas aos soldados. A tropa estava desgostosa pelos descontos que são obrigadas a fazer as praças de pré (militares de baixa patente) para ocorrer à sua maior precisão de vestir e calçar. E finalmente encontrei a necessidade de mandar render os destacamentos da Guiné e a impossibilidade de acudir a este importante serviço’.”
O autor, na sequência de outros depoimentos refere os sacerdotes imorais, ébrios e debochados, homens sem vocação, o maior rendimento da Província, no passado, provinha da urzela.
Passando agora para a Guiné, dirá o autor que estava muito reduzida da sua antiga grandeza, marchava todos os anos para uma decadência total. E conhecia um apertar de cerco de franceses e ingleses. Dependia do Governador-Geral de Cabo Verde. Não tinha fronteiras explícitas, os seus limites só viriam a ser definidos pela Convenção Luso-Francesa de 12 de maio de 1886. É relevada a figura de Honório Pereira Barreto, comprara com o seu próprio dinheiro parcelas do território, fizera convenções que davam exclusivamente aos portugueses o direito de navegar e comerciar em certos pontos. Denunciou a ocupação da região do Casamansa, enviou cartas insistentes ao Governador de Cabo Verde, nada teve andamento. E o autor também explica o comportamento dos ingleses que disputavam a ilha de Bolama, vai referir uma série de peripécias que nós já temos conhecimento.
Falando das ilhas de São Tomé e Príncipe, desfaz-se em elogios:
“São, juntamente com o Brasil a maior coroa de glória da dominação portuguesa. Desde que as ilhas de São Tomé e Príncipe foram bem povoadas, em 1493, começaram logo sendo uma colónia agrícola importante; a primeira cultura experimentada foi a cana sacarina, transplantada para ali da ilha da Madeira; o grande desenvolvimento que essa cultura teve no Brasil aniquilou por completo as duas ilhas, forçando os colonos a experimentar novas culturas. Em 1800, o Governador Lagos mandou ir do Brasil sementes de café; a cultura desenvolveu-se rapidamente, a produção, devido à fertilidade do solo, compensou largamente a iniciativa, a qualidade premiou os agricultores e o café das duas ilhas do Equador em breve as tornou famosas.
Em 1822, foi introduzida a cultura do cacau, que devido a iniciativas particulares se estendeu pelas duas ilhas, transformando-as numa modelar colónia de plantação e dando-lhe o primeiro lugar nas colónias de plantação de toda a costa africana. As medidas repressivas do tráfico de escravos criavam grandes dificuldades ao recrutamento de serviçais para S. Tomé; embora os tratados com a Inglaterra autorizassem a ida de negros livres de Angola, os cruzeiros ingleses originavam conflitos constantes, davam origem a reclamações diplomáticas e impediam que o recrutamento se fizesse com regularidade.
Nas ilhas havia sossego, tranquilidade e segurança individual. Os naturais das ilhas, descendentes dos negros de Angola e judeus de Espanha, eram ignorantes, fanáticos e corrompidos e viviam de roubo e da rapina.”
O autor vai agora explanar-se sobre as causas principais da decadência: a escravatura, dizendo que o lucro que os negreiros ofereciam não ficavam nas colónias e as receitas que o Tesouro arrecadava estavam muito longe de compensar o prejuízo que resultava da saída de tantos homens válidos que iam enriquecer com o seu trabalho domínios alheios; a dominação espanhola, entrámos em decadência com o desastre da Invencível Armada, fechado o porto de Lisboa ao comércio do inimigo, este foi procurar conquistá-lo nos mares, Castela levou-nos mais de 7 mil peças e havia 900 bocas de fogo que Sevilha guardava nos seus depósitos com as armas de Portugal, e escreve o Marquês do Lavradio:
“Foi sobretudo na Índia e nos últimos dez anos de dominação espanhola que os holandeses e ingleses mais nos perseguiram, mas as duas costas africanas tiveram de sofrer duros ataques, e o nosso domínio no interior foi fortemente abalado.
Em dez anos o nosso comércio do Oriente passou quase por completo para as mãos dos holandeses e quando, em 1669, se assinou finalmente a paz com os Países Baixos, estes guardaram o que nos haviam tomado na Índia, renunciando ao Brasil, donde os havíamos expulsado, mediante uma indeminização de 3 milhões de florins.”
Continuando as causas da decadência, refere o autor a completa ausência de um plano de colonização ou de administração colonial. E simplifica:
“A doação feita a Paulo Dias de Novais (neto de Bartolomeu Dias) de 35 léguas de costa de Angola, do Cuanza para o Sul, sem limite para o interior, com obrigação de ali estabelecer cem famílias e levar quatrocentos homens válidos e seis cavalos (doação feita por El Rei D. Sebastião) não pode ser considerada como obedecendo a um plano de administração colonial, antes deve ser olhada como um ato isolado e como uma mercê arrancada ao Rei com fins bem diferentes daqueles que se encontravam na carta de doação”; e a última causa invocada pelo autor foi a abolição das ordens religiosas; desaparecidas as missões, com elas desapareceu a obra de séculos, caíram em ruína monumentos levantados pelos missionários, morreram plantações por eles feitas, diminuiu o nosso prestígio no sertão, e a falta de missionários portugueses facilitou mais tarde a Livingstone as missões protestantes que tão funestas nos foram.
De seguida o autor vai abordar questões diplomáticas começando pela Questão de Bolama.
D. José Maria do Espírito Santo de Almeida Correia de Sá, 6º Marquês do Lavradio (1874-1945)
(continua)
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Notas do editor:
Vd. post de 6 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27710: Notas de leitura (1893): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (1) (Mário Beja Santos)
Último post da série de 9 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27718: Notas de leitura (1894): "Amílcar Cabral O Africano que Abalou o Império", por José Alvarez, Âncora Editora, 2025 (1) (Mário Beja Santos)
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terça-feira, 10 de fevereiro de 2026
Guiné 61/74 - P27723: Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci... (Jaime Silva, ex-alf mil pqdt, BCP 21, Angola, 1970/72) (15): a minha decisão de não atacar mulheres e crianças
Angola > Moxico > Léua > c. 1970 > O alf mil pqdt Jaime Silva com o menino de Léua
Foto (e legenda): © Jaime Bonifácio Marques da Silva (2025). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]
Jaime Silva (foto ao lado):
(i) ex-alf mil pqdt, cmdt 3º Pel /1ª CCP / BCP 21, Angola, 1970/72;
(ii) tem uma cruz de guerra de 3ª classe;
(iii) membro da nossa Tabanca Grande, nº 643, desde 31/1/2014;
(iv) tem c. 140 de referências, no nosso blogue;
(v) nascido em 1946, em Seixal, Lourinhã, onde reside hoje;
(vi) é professor de educação física, reformado;
(vii) foi autarca em Fafe, com o pelouro de "Desporto e Cultura": viveu lá durante cerca de 4 décadas;
(viii) tem página pessoal do Facebook;
(ix) é autor do livro "Não esquecemos os jovens militares do concelho da Lourinhã mortos na guerra colonial" (Lourinhã: Câmara Municipal de Lourinhã, 2025, 235 pp., ISBN: 978-989-95787-9-1).
Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci (15): a minha decisão de não atacar mulheres e crianças
por Jaime Silva
Lembro-me, bem, duma operação no Leste, em que o meu pelotão tinha sido destacado para detetar e destruir um acampamento de guerrilheiros que, de acordo com as informações da PIDE, estaria localizado algures numa determinada zona, a norte do rio Cassai.
Progredimos durante dois dias na busca do objetivo e, na madrugada do segundo dia, deparámo-nos, a certa altura, com um grande trilho. E, enquanto avaliava a situação, vejo um grande grupo de mulheres e crianças que vinham do rio com as cabaças cheias de água à cabeça, algumas com os filhos às costas, dirigindo-se na direção do acampamento.
O soldado que estava na minha frente dispara uma rajada, sem consequências. Mando parar o fogo. As mulheres atiram os utensílios ao chão, agarram nos filhos, espavoridas de medo, e correm na direção da base, enquanto gritam para alertar os guerrilheiros – “tropa, tropa!”
Os guerrilheiros disparam algumas rajadas…
Uma vez que tínhamos entre nós e os guerrilheiros, as mulheres e as crianças, e, perante a mortandade evidente que ocorreria se atacássemos, decidi não assaltar a base IN.
Os guerrilheiros disparam algumas rajadas…
Uma vez que tínhamos entre nós e os guerrilheiros, as mulheres e as crianças, e, perante a mortandade evidente que ocorreria se atacássemos, decidi não assaltar a base IN.
Em vez disso optei montar uma emboscada no local que, pelas características do terreno e pela minha experiência em situações parecidas, previa que seria o ponto de fuga dos guerrilheiros.
Passado pouco tempo, vejo vir, na nossa direção, um guerrilheiro armado que enquadrava e protegia um grupo com cerca de dez crianças que fugiram do local para se protegerem. Pelas crianças, dei ordens para ninguém abrir fogo e deixar o grupo prosseguir…
______________
Fonte: excertos de Jaime Bonifácio Marques da Silva -"Não esquecemos os jovens militares do concelho da Lourinhã mortos na guerra colonial" (Lourinhã: Câmara Municipal de Lourinhã, 2025, 235 pp., ISBN: 978-989-95787-9-1), pág. 94.95.
(Revisão / fixação de texto: LG)
______________Nota do editor LG:
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026
Guiné 61/74 - P27700: Foi há... (5): 65 anos: duas "negas" aos americanos, Fidel Castro e António de Oliveira Salazar (António Rosinha, que tinha então 22 anos, e vivia feliz em Angola)
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1. Mensagem de António Rosinha, ex-colon, ex-retornado de Angola, ex-emigrante no "Brasiu", ex-cooperante na Guiné-Bissau do Luís Cabral e do 'Nino' Vieira, beirão, portuguès dos sete costados, grão-tabanqueiro de pedra e cal (com 162 referências no blogue)... Mesmo tendo sido expulso do paraíso em 1974, não perde o bom humor... mas também não se esquece..
Data - 3 fev 2026 00:26
Assunto :- 1961: duas negas aos amaricanos
Já fui à inteligência artificial e podia transcrever o que ela diz sobre o assunto, mas prefiro usar a minha linguagem e a minha memória dos meus 22/23 anos.
Nunca pensei aos 22 anos que, passados 65 anos, ver os mesmos senhores do mundo com os mesmos propósitos de continuarem a fazerem "obedecer" o mundo aos seus caprichos.
Vamos às duas "negas", em 1961, sendo que as duas, simultâneas no tempo, eram distantes geopoliticamente.
Quem foram os "heróis" que em 1961 disseram Não ao presidente americano Kennedy?
Muita gente ainda se lembra dos barbudos de Fidel Castro e da Baía dos Porcos onde a CIA bateu com a cara na porta, e a Coca-Cola foi buscar açúcar a outra colónia.
Em 1961, e durante muitos anos, não só Cuba funcionava como pura colónia norte-americana, como praticamente toda a América Latina.
E o herói Fidel Castro, embora caísse na boca de outro lobo, Khrushchev, disse "bye bye" a Kennedy! Até hoje! "Embora a luta continue", para azar dos cubanos, mas que Fidel foi único na América Latina, é inegável.
E o segundo herói que neste ano, 1961, disse um redondo Não ao presidente Kennedy foi o português António de Oliveira Salazar.
Mais ou menos, muito perto no tempo da Baia dos Porcos em Cuba, Kennedy propôs a Portugal "ajuda" para resolver o problema colonial que se tinha desenvolvido no Norte de Angola com os ataques terroristas pela UPA no "Congo Português".
Para quem não sabe, esse movimento, a UPA, já era conhecido da CIA e das missões religiosas americanas, onde havia muito disso, que já andavam por ali à muitos anos a dilatar a fé e o império.
E o chefe da UPA, que era cunhado de Mobutu, (em África quando se fala em cunhado quer-se dizer que é da mesma tribo) não iniciou a guerra de libertação de Angola, mas exclusivamente daquela região tribal, que era o Congo Português, irmão dos Congos francês e belga.
Ora os americanos já estavam com a CIA e as Missões religiosas, a financiar e fomentar a luta não só anticolonial, como anticomunista, e já tinham liquidado em janeiro, o Lumumba, tudo dentro da política Kennedy.
Como tinham liquidado o sueco Secretário Geral da ONU que, como sempre, ontem e hoje, um organismo-fantoche, e esse senhor andava a levar por maus caminhos os africanos.
Claro que Salazar só podia dar uma "nega" a esse homem que deixou um nome mítico no mundo mas não passava de um coboi como todos os outros americanos, a lei era o gatilho.
A ajuda norte-americana, só a um povo "perdido" e desesperado e incaracterístico e despersonalizado, talvez para onde hoje a Europa se esteja encaminhando arrastando todos, só assim se deva entregar tal ajuda.
Angola e Moçambique jamais seriam aquilo que conhecemos, não sabemos se angolanos e moçambicanos gostam daquilo que com unhas e dentes Portugal resguardou.
A América conseguiu a paz na Europa, na II Grande Guerra, ajudou o Vietnam, o Chile a Coreia a Somália, agora ajuda a Ucrânia, ajuda sempre quem precisa.
Houve um momento da nossa geração em que na realidade Portugal teve voz própria, com muito sacrifício, foi com um ditador, mas paciência, historicamente o nosso ditador disse Não ao presidente americano que um tiro matou.
Também foi azar, o tiro poderia ter ferido apenas.
Fico por aqui.
Faz agora anos que se diz que seria o MPLA, iniciou a primeira sarrafusca na cidade de Luanda, em 4 de fevereiro de 1961.
Cumprimentos
Antº Rosinha
Ultimo poste da série : 28 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27679: Foi há... (4): 85 anos, o ciclone de 15 de fevereiro de 1941 que deixou um rasto de morte e destruição por todo o país
1. Mensagem de António Rosinha, ex-colon, ex-retornado de Angola, ex-emigrante no "Brasiu", ex-cooperante na Guiné-Bissau do Luís Cabral e do 'Nino' Vieira, beirão, portuguès dos sete costados, grão-tabanqueiro de pedra e cal (com 162 referências no blogue)... Mesmo tendo sido expulso do paraíso em 1974, não perde o bom humor... mas também não se esquece..
Data - 3 fev 2026 00:26
Assunto :- 1961: duas negas aos amaricanos
Já fui à inteligência artificial e podia transcrever o que ela diz sobre o assunto, mas prefiro usar a minha linguagem e a minha memória dos meus 22/23 anos.
Nunca pensei aos 22 anos que, passados 65 anos, ver os mesmos senhores do mundo com os mesmos propósitos de continuarem a fazerem "obedecer" o mundo aos seus caprichos.
Vamos às duas "negas", em 1961, sendo que as duas, simultâneas no tempo, eram distantes geopoliticamente.
Quem foram os "heróis" que em 1961 disseram Não ao presidente americano Kennedy?
Muita gente ainda se lembra dos barbudos de Fidel Castro e da Baía dos Porcos onde a CIA bateu com a cara na porta, e a Coca-Cola foi buscar açúcar a outra colónia.
Em 1961, e durante muitos anos, não só Cuba funcionava como pura colónia norte-americana, como praticamente toda a América Latina.
E o herói Fidel Castro, embora caísse na boca de outro lobo, Khrushchev, disse "bye bye" a Kennedy! Até hoje! "Embora a luta continue", para azar dos cubanos, mas que Fidel foi único na América Latina, é inegável.
E o segundo herói que neste ano, 1961, disse um redondo Não ao presidente Kennedy foi o português António de Oliveira Salazar.
Mais ou menos, muito perto no tempo da Baia dos Porcos em Cuba, Kennedy propôs a Portugal "ajuda" para resolver o problema colonial que se tinha desenvolvido no Norte de Angola com os ataques terroristas pela UPA no "Congo Português".
Para quem não sabe, esse movimento, a UPA, já era conhecido da CIA e das missões religiosas americanas, onde havia muito disso, que já andavam por ali à muitos anos a dilatar a fé e o império.
E o chefe da UPA, que era cunhado de Mobutu, (em África quando se fala em cunhado quer-se dizer que é da mesma tribo) não iniciou a guerra de libertação de Angola, mas exclusivamente daquela região tribal, que era o Congo Português, irmão dos Congos francês e belga.
Ora os americanos já estavam com a CIA e as Missões religiosas, a financiar e fomentar a luta não só anticolonial, como anticomunista, e já tinham liquidado em janeiro, o Lumumba, tudo dentro da política Kennedy.
Como tinham liquidado o sueco Secretário Geral da ONU que, como sempre, ontem e hoje, um organismo-fantoche, e esse senhor andava a levar por maus caminhos os africanos.
Claro que Salazar só podia dar uma "nega" a esse homem que deixou um nome mítico no mundo mas não passava de um coboi como todos os outros americanos, a lei era o gatilho.
A ajuda norte-americana, só a um povo "perdido" e desesperado e incaracterístico e despersonalizado, talvez para onde hoje a Europa se esteja encaminhando arrastando todos, só assim se deva entregar tal ajuda.
Angola e Moçambique jamais seriam aquilo que conhecemos, não sabemos se angolanos e moçambicanos gostam daquilo que com unhas e dentes Portugal resguardou.
A América conseguiu a paz na Europa, na II Grande Guerra, ajudou o Vietnam, o Chile a Coreia a Somália, agora ajuda a Ucrânia, ajuda sempre quem precisa.
Houve um momento da nossa geração em que na realidade Portugal teve voz própria, com muito sacrifício, foi com um ditador, mas paciência, historicamente o nosso ditador disse Não ao presidente americano que um tiro matou.
Também foi azar, o tiro poderia ter ferido apenas.
Fico por aqui.
Faz agora anos que se diz que seria o MPLA, iniciou a primeira sarrafusca na cidade de Luanda, em 4 de fevereiro de 1961.
Cumprimentos
Antº Rosinha
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Nota do editor LG:
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026
Guiné 61/74 - P27694: Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci... (Jaime Silva, ex-alf mil pqdt, BCP 21, Angola, 1970/72) (14): ainda o caso do pide e do guerrilheiro, em Léua, leste de Angola
Guiné > Região do Cacheu > Barro > CCAÇ 3 > 1968> Um "suspeito" do PAIGC... "Turra" não era "prisioneiro de guerra", à luz do entendimento das autoridades político-militares do território...
Foto (e legenda): © A. Marques Lopes (2005). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]
Jaime Silva (foto ao lado):
(ii) membro da nossa Tabanca Grande, nº 643, desde 31/1/2014;
(iii) tem já 130 de referências, no nosso blogue;
(iv) nascido em 1946, em Seixal, Lourinhã, onde reside hoje;
(iv) é professor de educação física, reformado;
(v) foi autarca em Fafe, com o pelouro de "Desporto e Cultura": viveu lá durante cerca de 4 décadas;
(vii) tem página pessoal do Facebook;
(viii) é autor do livro "Não esquecemos os jovens militares do concelho da Lourinhã mortos na guerra colonial" (Lourinhã: Câmara Municipal de Lourinhã, 2025, 235 pp., ISBN: 978-989-95787-9-1).
Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci (14): ainda o caso do pide e do guerrilheiro, em Léua, no Leste de Angola
por Jaime Silva
Mensagem do Jaime Silva:
Data - 27 jan 26 , 12:51
Assunto - Léua, interrogatório do PIDE e o mutismo do guerrilheiro
Caro Luís, a propósito do meu testemunho e da tua experiência de guerra na Guiné, escreves que “ Se calhar há mais pormenores que omitiste neste texto. (*)
Não omiti nada, desta vez, e foi assim que se passou:
Nota importante:
Ao nível da informação, tudo se passou entre o meu comandante, o comando da FA (Força Aérea) e o comando de Operações do Região Militar Leste (RML) , sediado no Luso – eu não pertencia a este patamar de decisão– , só vi, ouvi e participei no contexto operacional que já relatei:
Sintetizando:
(i) o Comandante da 1ª CCP / BCP 21 recebeu, em Léua, um rádio do comando da RML ordenando para destacar um grupo de combate para fazer um heliassalto, na sequência da informação de um guerrilheiro que tinha sido capturado (como e onde, não sei);
(ii) para o efeito foi destacado o meu pelotão;
(iii) entre esta informação e a chegada dos helis, só houve tempo de preparar o pessoal e deslocar o pelotão para a zona de embarque;
(iv) logo que aterraram, saíram dos helis, o Pide, o guerrilheiro e o comandante da FA;
(v) este solicitou um espaço reservado para que o Pide pudesse interrogar o guerrilheiro, sendo-lhe indicado o quintal que ficava nas traseiras da casa que servia de messe aos oficiais paraquedistas;
(vi) desconheço se entre os dois comandantes houve alguma reunião confidencial ou se eles tinham mais informações sobre a situação, nomeadamente, por que razão o Pide teve de vir, ainda para Léua, interrogar o prisioneiro e o não fez no Luso.
Depois, e como relatei:
(vii) o Pide não se despachava, o tempo escasseava para que os helis pudessem realizar a operação e, por isso, sou incumbido de interrogar e alertar o Pide para esse facto;
(viii) em resultado da incompetência do Pide e da coragem do guerrilheiro desmontou-se a tenda: o meu pelotão foi desmobilizado, os helicópteros com o Pide e o guerrilheiro regressaram ao Luso.
O que aconteceu ao guerrilheiro? Não faço a mínima ideia.
O que fazia eu quando capturávamos algum guerrilheiro ou elementos população?
Não tenho a tua experiência, mas a minha rotina, nesta circunstância era:
a) após o final da operação entregava-o ao comandante da operação e este despachava-o para o Comando da respetiva Região Militar que, seguramente, o entregava à PIDE/DGS – quase sempre presente em cada operação;
b) o meu pelotão capturou, pelo menos, três ou quatro uerrilheiros; capturámos, ainda, por duas vezes, algumas mulheres.
O procedimento foi sempre o mesmo.
Tenho a consciência descansada, quanto a isto: nunca matámos ou tratámos mal, nem homens ou mulheres.
Caro Luís,
Foram estes os acontecimentos vividos e, nesta circunstância particular em Léua, relato-os com todo o rigor e verdade.
Eu não esqueci!
Abraço
Jaime
Lourinhã, Seixal, 27.01. 2026
2. Comentário do editor LG:
Obrigado, Jaime. Como sempre, lúcido e corajoso. Temos, todos (as tropas especiais incluídas: páras, fuzileiros, comandos) um certo pudor em falar do "back office", das "traseiras", dos "quintais" da guerra, dos prisioneiros, dos interrogatórios, da colaboração com os Pides, etc. Há o lado "sujo" e "animal", e o lado "nobre" e "heróico" da guerra...
O "pudor" (ou a cultura do silêncio castrense) faz parte do 'habitus' do combatente: podíamos aprender uns com os outros (o que correu bem? o que correu mal?), mas, não, regressávamos à base ou ao aquartelmento, tomávamos um banho, bebíamos uma cerveja ou um uísque com gelo, descansávamos o corpo, jogávamos ao king ou à lerpa, e preparávamo-nos para a próxima (operação)...
De algum modo, salvas a honra do convento: "eu não ma(ltra)tei prisioneiros".
Até 6ª feira. LG
(*) Vd. poste anterior da série > 26 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27671: Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci... (Jaime Silva, ex-alf mil pqdt, BCP 21, Angola, 1970/72) (13): a morte do pastor alemão que salvou a vida de homens e… a minha perna direita!
(Revisão / fixação de texto, título: LG)
________________
Notas do editor LG:
(**) Vd. poste anterior da série > 17 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27641: Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci... (Jaime Silva, ex-alf mil pqdt, BCP 21, Angola, 1970/72) (12): o interrogatório do pide… e o silêncio do guerrilheiro
domingo, 1 de fevereiro de 2026
Guiné 61/74 - P27691: Notas de leitura (1891): "O capelão militar na guerra colonial", de Bártolo Paiva Pereira, capelão, major ref - Parte VII: O "monge-guerreiro", Abel Matias, major graduado 'cmd' capelão, ref, esteve em Angola, de 1965 a 1971
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Abel Matias (n. 1937, Póvoa do Varzim) |
1. Abel Matias, OSB (sigla latina de Ordo Sancti Benedicti, Ordem de São Bento), não foi apenas um capelão de retaguarda, a viver no relativo conforto e segurança de uma CCS de um batalhão durante a guerra colonial. Ele integrou-se totalmente na unidade de elite onde serviu, os "Comandos", na sua segunda comissão, em Angola, de 1969 a 1971.
É, ao que parece, é o único dos capelães portugueses que serviram a Igreja e o Exército durante a guerra colonial (1961/74) a frequentar, com sucesso, o Curso de Comandos, ganhando o direito de usar o mítico crachá e a boina vermelha. Aliás, o nosso grão-tabanqueiro cor art ref Morais da Silva, que de resto também é de Lamego, confirmou-me que foi seu instrutor.
O padre Abel Matias é apontado como uma figura singular e marcante da história contemporânea portuguesa por personificar uma intersecção invulgar entre: (i) a vida monástica; (ii) a mística militar; e (iii) a assistência espiritual em cenário de guerra.
O capelão-chefe graduado em major, Bártolo Paiva Pereira, no seu último livro, "O capelão militar na guerra colonial" (edição de autor, Vila do Conde, 2025, 120 pp)(*), elege-0 como os dos "12 mais" que teriam alcançado notoriedade num universo de cerca de mil capelães mobilizados para os 3 teatros de guerra (Angola, c. 500; Moçambique, c.400; Guiné, 113)... (Como o autor faz questão de escrever, "a publicação dos nomes não serve para elogiar ou esquecer alguém", pág. 53).
Nesta lista há ainda "dois capelães paraquedistas de peso", os padres Martins e Pinho. Capelães da FAP., fizeram questão de tirar o brevê (pág. 58).

Capa do livro, de Bártolo Paiva Pereira

(In: Bártolo Paiva Pereira, " O capelão militar na guerra colonial", ed. autor,

Capa do livro, de Bártolo Paiva Pereira

(In: Bártolo Paiva Pereira, " O capelão militar na guerra colonial", ed. autor,
Vila do Conde, 2025, pág. 56)
2. Chamaram-lhe o "monge-guerreiro", uma figura algo anacrónica no Portugal do séc. XX, quando já não havia, desde meados do séc. XIII, guerras de "reconquista"... Eis aqui os pontos principais sobre o seu percurso de vida, que recolhemos da Net:
Abel Matias (Moreira da Silva), contrariamente ao que diz a IA sobre ele , não é natural da Panajóia, Lamego, mas sim de São Pedro de Rates,Póvoa de Varzim, onde nasceu em 19 de setembro de 1937 (irá para o ano fazer os 90). Se fosse de Lamego, era muito natural que conhecesse o CIOE (Centro de Instruções Especiais), aquartelado em Penude e criado em 1960.
Em todo o caso, viveu mais de 4 décadas em Lamego, será diretor do famoso Colégio de Lamego, além de capelão do CIOE, uma vez terminada a guerra. Teve também um irmão padre, Justino Matias Moreira da Silva (1936-1999). Era(é, ainda está vivo) uma figura muito popular em Lamego, ligado também ao desporto.
Diz "A Voz de Trás os Montes" que, após a escola primária, ingressou na Escola Claustral do Mosteiro de Singeverga, em Santo Tirso, em 1950. Seis anos depois, tornou-se monge. Foi ordenado sacerdote, na Sé do Porto, em 1963.
É licenciado em Histórico-Filosóficas pela Universidade do Porto (tese de dissertação da licenciatura, hoje equivalente a mestrado: "Marxismo e Doutrina Social da Igreja"). Tem também um bacharelato em Filologia Românica.
Serviu, em Angola, como capelão militar, voluntário, primeiro no BCAÇ 1855 (set65/dez67), e depois no CIC (Centro de Instrução de Comandos) (set69/nov71).
Ficou conhecido por acompanhar (presume-se que de vez em quando, que os seus 32/33 anos, no final da década de 1960, já pesavam) os militares em operações no mato, saltando de helicópteros e partilhando os mesmos perigos que os soldados, o que lhe terá conferido uma auréola de "monge-guerreiro" e sobretudo um grande respeito entre os comandos.
Capelão militar, passou à disponibilidade como major. No Colégio de Lamego, foi professor de Filosofia e Psicologia e seu diretor. Após aposentar-se, regressou em 2014 ao Mosteiro de Singeverga.
A sua formação de base, beneditina (focada no lema Ora et Labora, reza e trabalha), terá marcado profundamemnte a sua personaliddae e a sua disciplina pessoal e espiritual.
É autor, entre outros dos livros:
"Angola, paz só com Muxima" (1989);
"Como eram duros os caminhos da guerra" (2019).
3. No portal UTW - Dos Veteranos da Guerra do Ultramar pode ler-se, a seu respeito:
(... ) No teatro de operações de Angola, cumpriu duas comissões de serviço voluntário:
- desde 26Set65 até 11Dez67, alferes graduado capelão da CCS/BCac1855;
- desde 07Set69 até Nov71, como tenente (capitão graduado) 'comando', Capelão do CIC-RMA.
Louvores (transcrição):
- Tenente graduado capelão (CCS/BCAÇ 1855, 1965/67):
(...) "Louvo o Tenente Graduado Capelão, Abel Moreira da Silva, do BCaç 1855, pela forma como desempenhou as suas funções durante mais de 28 meses, sendo quinze na zona de Nambuangongo onde se processa intensa actividade operacional.
"A sua presença constante nas Subunidades destacadas, que nunca abrandou, embora várias vezes tivesse sido sujeito a emboscadas... Conselheiro e amigo de todos, muito contribuiu para o bom espírito de corpo criado no Batalhão. A forma esclarecida como procurou orientar a sua actividade, não impondo ideias, mas criando as condições mais propícias à sua receptividade natural, permitiu que produzisse trabalho rendoso digno de salientar» (...)
- Capitão graduado capelão do CIC (1969/71);
(...) "Louvo o Capitão graduado Capelão n.º 51145411, Abel Moreira da Silva, do CIC, porque, desempenhando durante a sua comissão, as muito difíceis funções de capelão do Centro de Instrução de Comandos, de uma forma muito meritória e altamente eficiente, sempre evidenciou acentuada dedicação e esclarecido discernimento na dupla missão de militar e padre.
"Com humanidade, inteligência, perspicácia e superior clarividência deu provas de desassombro e coragem moral sempre que se lhe deparou a defesa de causas ou princípios que se impusessem pela sua justiça.
"Evidenciando acentuado dinamismo e optimismo, sempre se encontrava onde a sua presença se impusesse quer se tratasse de Quarteis ou Zonas de Intervenção, o que o levou a acompanhar as forças destacadas em operações e por largos períodos, não se furtando ao perigo, antes, serenamente, a todos dando o seu permanente apoio e conforto moral, a que não faltou a intensa mentalização para o dever a cumprir.
"Pelas provas de carácter, dignidade e isenção de procedimentos evidenciados, tomou-se o capitão P. Abel merecedor de muita estima e respeito, muito se dignificando e prestigiando o serviço que com tanta dedicação e mérito próprio serviu, creditando-se como precioso auxiliar do Comando, o que muito me apraz, publicamente, apontam! (...)
4. Falta-nos, naturalmente, o "contraditório"...
O Abel Matias não era um combatente, mas um capelão, a sua presença visava levar conforto espiritual em situações-limite, em que se matava e morria. Acreditava que a sua missão era estar onde o sofrimento e o risco de morte eram maiores.
Foi uma figura carismática: após o fim da guerra e a transição para a democracia, manteve-se ligado à memória histórica do conflito e à comunidade de veteranos. É frequentemente recordado em convívios da Associação de Comandos.
Mas também terá sido um capelão controverso: para alguns, a figura de um "monge-guerreiro" não a compaginável com a visão do clero no pós-Vaticano II; para os militares que serviram com ele, era visto como um símbolo de coragem e "humanidade no inferno".
Contrariamente ao que a IA diz a seu respeito, o padre Abel Matias não faleceu em 2008, nem nunca esteve na Guiné; está vivo, recolhido no mosteiro de Singeverga, isolado do mundo.
Para os interessados numa curta estadia: o mosteiro tem uma hospedaria onde recebe hóspedes, apenas homens, e por períodos não superiores a 8 dias; "a hospedaria monástica de Singeverga não firma preços de estadia. As despesas são comparticipadas com donativos."
(...) "Pela hospedaria passam gentes de todas as proveniências sociais, de quase todas as faixas etárias, e mesmo de diferentes crenças religiosas, incluindo agnósticos e descrentes. Há artistas, escritores, padres, médicos, seminaristas, personalidades conhecidas e gente anónima que também decidem passar um tempo em Singeverga, cada um atraído pela liturgia sóbria, ou pelo canto ou pela tranquilidade do lugar.
"Como a hospedaria está dentro do espaço da clausura, só é possível receber homens, e, por norma, o tempo de estadia não poderá ultrapassar os oito dias. (...)".
Contactos:
Mosteiro de São Bento de Singeverga
Rua Mosteiro de Singeverga, 200
4795-309 RORIZ STS
Telefone: 252 941 176; fax: 282 872 947
E-mail: mosteiro@mosteirodesingeverga.com
(Pesquisa na Net, revisão / fixação de texto: LG)
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Nota do editor LG:
Último poste da série > 30 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27687: Notas de leitura (1890): Apontamentos para a história contemporânea da informação na Guiné Portuguesa (Mário Beja Santos)
Vd. poste de 7 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27613: Notas de leitura (1882): "O capelão militar na guerra colonial", de Bártolo Paiva Pereira, capelão, major ref - Parte VI: "Apenas dois capelães foram expulsos do Exército"
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segunda-feira, 26 de janeiro de 2026
Guiné 61/74 - P27671: Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci... (Jaime Silva, ex-alf mil pqdt, BCP 21, Angola, 1970/72) (13): a morte do pastor alemão que salvou a vida de homens e… a minha perna direita!
Guiné _ Região de Tombali > Cufar > CCAÇ 763, "Os Lassas", Cufar, 1965/67.> Cão de guerra, o "Cadete". Foi formada pela CCAÇ 763 uma secção de caés de guerra, de que o "Cadete" era o chefe. Uma experiência única no CTIG. (*)
Foto (e legtenda) : © Mário Fitas (2016). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné.
Jaime Silva (foto ao lado):
(i) ex-alf mil pqdt, cmdt 3º Pel /1ª CCP / BCP 21, Angola, 1970/72;
(ii) membro da nossa Tabanca Grande, nº 643, desde 31/1/2014;
(iii) tem já 130 de referências, no nosso blogue;
(ii) membro da nossa Tabanca Grande, nº 643, desde 31/1/2014;
(iii) tem já 130 de referências, no nosso blogue;
(iv) nascido em 1946, em Seixal, Lourinhã, onde reside hoje;
(v) é professor de educação física, reformado;
(vi) foi autarca em Fafe, com o pelouro de "Desporto e Cultura": viveu lá durante cerca de 4 décadas;
(vii) tem página pessoal do Facebook;
(viii) é autor do livro "Não esquecemos os jovens militares do concelho da Lourinhã mortos na guerra colonial" (Lourinhã: Câmara Municipal de Lourinhã, 2025, 235 pp., ISBN: 978-989-95787-9-1).
Eu não esqueci a única operação do meu pelotão com a ajuda de um cão de guerra (pastor alemão). Foi no Norte de Angola, na zona dos Dembos.
Após saltarmos dos Hélis, progredimos e, pouco depois, somos confrontados com uma emboscada. Reagimos, tiroteio, silêncio, fase de expetativa e foi o momento de decidir também a atuação do cão:
– Buscs, busca, ataca, ataca ! – ordena o tratador.
Enquanto aguardávamos pelo regresso do cão, protegi-me atrás de uma árvore e, quando olho para o chão, vejo, mesmo encostado ao meu pé direito uma mina antipessoal meia destapada…. Presumivelmente, teria sido pisada pelo cão, aquando da perseguição aos guerrilheiros.
(v) é professor de educação física, reformado;
(vi) foi autarca em Fafe, com o pelouro de "Desporto e Cultura": viveu lá durante cerca de 4 décadas;
(vii) tem página pessoal do Facebook;
(viii) é autor do livro "Não esquecemos os jovens militares do concelho da Lourinhã mortos na guerra colonial" (Lourinhã: Câmara Municipal de Lourinhã, 2025, 235 pp., ISBN: 978-989-95787-9-1).
Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci (13): a morte do pastor alemão que salvou a vida de homens e… a minha perna direita!
por Jaime Silva
Eu não esqueci a única operação do meu pelotão com a ajuda de um cão de guerra (pastor alemão). Foi no Norte de Angola, na zona dos Dembos.
Após saltarmos dos Hélis, progredimos e, pouco depois, somos confrontados com uma emboscada. Reagimos, tiroteio, silêncio, fase de expetativa e foi o momento de decidir também a atuação do cão:
– Buscs, busca, ataca, ataca ! – ordena o tratador.
Enquanto aguardávamos pelo regresso do cão, protegi-me atrás de uma árvore e, quando olho para o chão, vejo, mesmo encostado ao meu pé direito uma mina antipessoal meia destapada…. Presumivelmente, teria sido pisada pelo cão, aquando da perseguição aos guerrilheiros.
Entretanto, montámos segurança ao local e o comandante da Companhia, experiente, levanta-a, retira-lhe o detonador, guarda-a no bolso…E continuámos a progressão para assaltar o objetivo.
Já perto da base, o cão deteta uma emboscada e investe sobre os guerrilheiros e no tiroteio é atingido mortalmente.
Já perto da base, o cão deteta uma emboscada e investe sobre os guerrilheiros e no tiroteio é atingido mortalmente.
á me tinha salvado o pé direito e salvou, certamente, a vida dos paraquedistas que progrediam na frente do pelotão!
De acordo com as normas, o tratador cortou-lhe uma orelha como prova da morte do animal em combate, no regresso ao Batalhão. (**)
De acordo com as normas, o tratador cortou-lhe uma orelha como prova da morte do animal em combate, no regresso ao Batalhão. (**)
Fonte: excertos de Jaime Bonifácio Marques da Silva -"Não esquecemos os jovens militares do concelho da Lourinhã mortos na guerra colonial" (Lourinhã: Câmara Municipal de Lourinhã, 2025, 235 pp., ISBN: 978-989-95787-9-1), pág. 94.
(Revisão / fixação de texto, título: LG)
________________________
Notas do editor LG
(*) Sobre cães de guerra, vd. postes de:
18 de março de 2008 > Guiné 63/74 - P2664: Os Cães de Guerra (Mário Fitas e Carlos Filipe, ex-Fur Mil, CCaç 763, Cufar, 1965/66)
17 de fevereiro de 2019 > Guiné 61/74 - P19502: Álbum fotográfico de João Sacôto, ex-alf mil, CCAÇ 617 / BCAÇ 619 (Catió, Ilha do Como, Cachil, 1964/66) e cmdt da TAP, reformado - Parte III: O meu cão Toby, que fez comigo uma comissão no CTIG, e que será depois ferido em combate no Cantanhez
(*) Último poste da série > 17 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27641: Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci... (Jaime Silva, ex-alf mil pqdt, BCP 21, Angola, 1970/72) (12): o interrogatório do pide… e o silêncio do guerrilheiro
(*) Sobre cães de guerra, vd. postes de:
18 de março de 2008 > Guiné 63/74 - P2664: Os Cães de Guerra (Mário Fitas e Carlos Filipe, ex-Fur Mil, CCaç 763, Cufar, 1965/66)
17 de fevereiro de 2019 > Guiné 61/74 - P19502: Álbum fotográfico de João Sacôto, ex-alf mil, CCAÇ 617 / BCAÇ 619 (Catió, Ilha do Como, Cachil, 1964/66) e cmdt da TAP, reformado - Parte III: O meu cão Toby, que fez comigo uma comissão no CTIG, e que será depois ferido em combate no Cantanhez
(*) Último poste da série > 17 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27641: Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci... (Jaime Silva, ex-alf mil pqdt, BCP 21, Angola, 1970/72) (12): o interrogatório do pide… e o silêncio do guerrilheiro
sábado, 17 de janeiro de 2026
Guiné 61/74 - P27641: Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci... (Jaime Silva, ex-alf mil pqdt, BCP 21, Angola, 1970/72) (12): o interrogatório do pide… e o silêncio do guerrilheiro
Capa do livro de John P- Cann, "Os Flechas: os caçadores guerreiros do Leste de Angola, 1965-1974, tr-. do ingl. Carnaxide, Oeiras: Tribuna da História, 2018, 128 pp.
Jaime Silva (foto ao lado):
(ii) membro da nossa Tabanca Grande, nº 643, desde 31/1/2014;
(iii) tem já 130 de referências, no nosso blogue;
(iv) nascido em 1946, em Seixal, Lourinhã, onde reside hoje;
(iv) é professor de educação física, reformado;
(v) foi autarca em Fafe, com o pelouro de "Desporto e Cultura": viveu lá durante cerca de 4 décadas;
(vii) tem página pessoal do Facebook;
(viii) é autor do livro "Não esquecemos os jovens militares do concelho da Lourinhã mortos na guerra colonial" (Lourinhã: Câmara Municipal de Lourinhã, 2025, 235 pp., ISBN: 978-989-95787-9-1).
Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci (12): o interrogatório do pide… e o silêncio do guerrilheiro
por Jaime Silva
Este acontecimento passou-se em Léua, no Leste de Angola. Decorria o mês de abril de 1972. A meio da tarde aterraram, no nosso destacamento, quatro helicópteros, donde, de um deles saiu um agente da PIDE e um guerrilheiro capturado.
A chegada dos Hélis tinha como objetivo transportar um grupo de combate para assaltar uma base guerrilheira. Segundo o pide, o guerrilheiro iria confessar e dizer onde a mesma se situava.
Para esse assalto foi destacado o meu pelotão. Esperámos… esperámos… mas do pide não havia novidades.
A determinada altura, o comandante da esquadra de Helicópteros chama a atenção ao comandante de companhia para o adiantado da hora, e da dificuldade de teto e luz do dia para efetuar o percurso de ida e volta. Por isso, o meu comandante ordenou-me que fosse perguntar ao agente se demorava muito o interrogatório.
Chego ao local e transmito a mensagem ao pide que, face ao silêncio absoluto do guerrilheiro, não tinha conseguido “sacar-lhe” nenhuma informação. E incomodado pelo seu fracasso, julguei, diz-me:
Chego ao local e transmito a mensagem ao pide que, face ao silêncio absoluto do guerrilheiro, não tinha conseguido “sacar-lhe” nenhuma informação. E incomodado pelo seu fracasso, julguei, diz-me:
– Espere aí, sr. alferes, ele vai, já, bufar tudo.
De seguida, pergunta-lhe:
– Como te chamas?
Um silêncio absoluto por parte do guerrilheiro e, ato contínuo, o agente rapa de um pau – tipo taco de basebol – e acerta-lhe com força no nariz e pergunta novamente:
– Como te chamas?
– Como te chamas?
Um silêncio absoluto por parte do guerrilheiro e, ato contínuo, o agente rapa de um pau – tipo taco de basebol – e acerta-lhe com força no nariz e pergunta novamente:
– Como te chamas?
Depois, face ao repetido silêncio daquele homem, repete o mesmo golpe nos joelhos, nas canelas e nos tornozelos
E eu, perplexo saio dali, imediatamente.
Felizmente para o guerrilheiro, homem de grande coragem, que não traiu os seus camaradas.
E, felizmente, também para o meu grupo de combate, pois a operação foi abortada, o que significou “menos uma no pelo”!
E eu, perplexo saio dali, imediatamente.
Felizmente para o guerrilheiro, homem de grande coragem, que não traiu os seus camaradas.
E, felizmente, também para o meu grupo de combate, pois a operação foi abortada, o que significou “menos uma no pelo”!
Fonte: excertos de Jaime Bonifácio Marques da Silva -"Não esquecemos os jovens militares do concelho da Lourinhã mortos na guerra colonial" (Lourinhã: Câmara Municipal de Lourinhã, 2025, 235 pp., ISBN: 978-989-95787-9-1), pp- 93-94
(Revisão / fixação de texto, título: LG)
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Notas do editor LG:
(**) Possivelmente capturado pelos Flechas
(...) Cerca de 25% dos mais de 2.000 Flechas angolanos, que lutaram ao lado de Portugal, foram "chacinados" pelo MPLA nos primeiros sete meses após o fim da guerra colonial portuguesa em Angola, indicou hoje um historiador norte-americano.
John P. Cann, entrevistado pela agência Lusa a propósito do seu mais recente livro "Os Flechas – Os Caçadores Guerreiros do Leste de Angola – 1965/74", publicado pela editora Tribuna da História, indicou que só numa operação, realizada em Mavinga, na província de Cuando-Cubango (sudeste), as forças do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) abateram 130 bosquímanos.
John P. Cann, entrevistado pela agência Lusa a propósito do seu mais recente livro "Os Flechas – Os Caçadores Guerreiros do Leste de Angola – 1965/74", publicado pela editora Tribuna da História, indicou que só numa operação, realizada em Mavinga, na província de Cuando-Cubango (sudeste), as forças do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) abateram 130 bosquímanos.
Os Flechas, inicialmente conhecidos por Corpo Auxiliar, foram uma força especial indígena criada em 1966 em resposta a uma necessidade da Polícia Internacional de Defesa do Estado – Direção Geral de Segurança (PIDE/DGS) para a recolha de informações de interesse político-militar português no Leste de Angola.
No início, a força criada pelo antigo inspetor da polícia política portuguesa António Fragoso Allas, com os "tentáculos" das ações desestabilizadoras portuguesas a estenderem-se também ao Congo, Namíbia, Zaire (atual R D Congo) e Zâmbia, contava com apenas oito homens, mas, até 1974, ultrapassaram os 2.000.
Os bosquímanos, recrutados entre a milenar população de caçadores coletores que residem nas planícies e savanas do leste de Angola, Namíbia e deserto do Karoo (região semidesértica na Africa do Sul), têm uma pequena estatura e rosto de aparência asiática, sendo especialistas em operações de reconhecimento.
Segundo John Cann, que se reformou dos "Marines" em 1992, tendo, então, feito um doutoramento em Estudos de Guerra no Kings College, na Universidade de Londres, os Flechas revelaram "grande competência" em operações conjuntas com forças terrestres regulares, respondendo à PIDE/DGS, que os integrou como organização paramilitar, e também ao comandante local do Exército português.
"Quando a guerra acabou, ficou rapidamente claro que os Flechas eram um grupo em perigo. Famílias atrás de famílias foram assassinadas numa série de massacres. Num só caso, cerca de 130 bosquímanos foram mortos a tiro num genocídio sangrento nos arredores de Mavinga", referiu o antigo Marine norte-americano.(...)
Parece haver aqui um erro ou lapso nos números ou na redação do texto:
(i) "cerca de 25% dos mais de 2.000 Flechas angolanos [que eram bosquímanos], que lutaram ao lado de Portugal, foram "chacinados" pelo MPLA nos primeiros sete meses após o fim da guerra colonial portuguesa em Angola";
ou (ii) "25% do total do bosquímanos do Leste de Angola foram mortos" ?
Continunando:
(...) "Mais tarde, foi estimado que cerca de 25% dos bosquímanos angolanos foram mortos nos primeiros sete meses de poder do MPLA. Como consequência, muitos fugiram para a África do Sul, onde se juntaram às Forças Armadas Sul-Africanas para formar o Grupo de Combate Alfa, que se tornaria, depois, o Batalhão 31", acrescentou.
Questionado sobre se há dados relativamente às baixas entre os Flechas durante o período do conflito em Angola (1961/74), John Cann disse não ter encontrado, ao longo das investigações feitas, quaisquer estatísticas.
"Devem existir em algum lugar. Mas, inicialmente, os Flechas eram utilizados em missões de espionagem, de recolha de informações, uma vez que eram claramente uma força passiva. No entanto, após alguns encontros desafortunados com forças inimigas, ficou claro que o arco e flecha não conseguiriam bater o armamento moderno", afirmou.
John Cann lembrou que as coisas mudaram a partir do momento em que uma pequena patrulha de bosquímanos foi capturada e torturada.
"A partir daí, os Flechas foram armados com uma espingarda automática ligeira. A sua filosofia de combate passava por evitar o confronto direto, o que permitiu manter reduzidas as baixas. Se tivesse de fazer uma estimativa, diria que o número de baixas em combate estará no intervalo entre 1% e 2%, ou seja, entre 20 a 40 mortes", disse.
Hoje em dia, realçou o capitão de mar e guerra aposentado da Marinha dos Estados Unidos, os bosquímanos residem maioritariamente na África do Sul, onde grande parte de se integrou nas forças de segurança locais. (...)
(...) "Mais tarde, foi estimado que cerca de 25% dos bosquímanos angolanos foram mortos nos primeiros sete meses de poder do MPLA. Como consequência, muitos fugiram para a África do Sul, onde se juntaram às Forças Armadas Sul-Africanas para formar o Grupo de Combate Alfa, que se tornaria, depois, o Batalhão 31", acrescentou.
Questionado sobre se há dados relativamente às baixas entre os Flechas durante o período do conflito em Angola (1961/74), John Cann disse não ter encontrado, ao longo das investigações feitas, quaisquer estatísticas.
"Devem existir em algum lugar. Mas, inicialmente, os Flechas eram utilizados em missões de espionagem, de recolha de informações, uma vez que eram claramente uma força passiva. No entanto, após alguns encontros desafortunados com forças inimigas, ficou claro que o arco e flecha não conseguiriam bater o armamento moderno", afirmou.
John Cann lembrou que as coisas mudaram a partir do momento em que uma pequena patrulha de bosquímanos foi capturada e torturada.
"A partir daí, os Flechas foram armados com uma espingarda automática ligeira. A sua filosofia de combate passava por evitar o confronto direto, o que permitiu manter reduzidas as baixas. Se tivesse de fazer uma estimativa, diria que o número de baixas em combate estará no intervalo entre 1% e 2%, ou seja, entre 20 a 40 mortes", disse.
Hoje em dia, realçou o capitão de mar e guerra aposentado da Marinha dos Estados Unidos, os bosquímanos residem maioritariamente na África do Sul, onde grande parte de se integrou nas forças de segurança locais. (...)
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