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segunda-feira, 13 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28180: Notas de leitura (1938): "Furriel não é Nome de Pai, Os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial", de Catarina Gomes; Tinta da China, 2016 (4) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 16 de Fevereiro de 2026:

Queridos amigos,
Catarina Gomes escreveu um livro de referência. Já nos chamara a atenção com outra obra Pai, Tiveste Medo? - sobre a forma como a experiência da Guerra Colonial chegou à geração de portugueses filhos de ex-combatentes. A primeira edição desta obra está associada a uma série documental Filhos de Tuga (RTP 1). Tudo começou em 2013 quando, em termos jornalísticos, ela partiu para a Guiné-Bissau para contar esta história no jornal Público, os filhos deixados para trás. Foi procurada por muitíssima gente. O testemunho de Fernando Hedgar da Silva, a associação que ele criou destes filhos de tuga estimularam a continuar a sua investigação, percorreu os três países onde houvera guerra, e aqui temos a história do movimento da Guiné, obra deste Fernando, a espantosa história de Óscar de Albuquerque e a sua tia Filomena, a mana Emília, a incansável Rosa Monteiro que tinha imensas saudades do pai sem nunca o ter conhecido. Sim, obra de referência, vale a pena confiar em futuras investigações sobre estas crianças que ficaram em África, filhas de pais desconhecidos.

Um abraço do
Mário



Filhos do inimigo, restos dos portugueses, seres humanos à procura de identidade – 4

Mário Beja Santos

A 1.ª edição de "Furriel não é Nome de Pai, os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial", de Catarina Gomes, data de 2016, a escritora e investigadora foi-se afeiçoando a este tema e esta terceira edição, já publicada em 2026, está substancialmente aumentada, mantém um vigoroso discurso narrativo, muitas vezes pungente, é uma tocante viagem à dignidade humana naqueles territórios onde houve Guerra Colonial e apareceram meninos e meninas tantas vezes repudiados, sujeitos às mais ignóbeis humilhações e que não desistem de lutar pelo direito à identidade.

Não sei se o leitor se recorda que suspendemos esta viagem contando a história de Celestina e o seu irmão gémeo Celestino, filhos de um major reformado que andou por Bambadinca, que até contou à mulher que aqui teve um “deslize”, os gémeos entraram em contacto com a mana branca, de nome Emília, esta vai dando conta das suas diligências em auxiliar os manos guineenses à mãe, Sara Martins Prado. Este nosso major fez várias comissões acompanhado pela mulher e as filhas, mas na comissão na Guiné-Bissau esteve sozinho, e a autora aproveita a circunstância para falar destes militares que tinham encontros com as lavadeiras ou combinavam com outras mulheres idas à tabanca.

Dentro do quartel era tudo difícil para as praças, dormiam em casernas lotadas de homens, os furriéis acomodavam-se em quartos de quatro homens, só de capitão para cima é que tinham quarto privativo. O pai de Emília fora um desses privilegiados. O nosso major reformado, confrontado por Emília, encolheu os ombros. “O pai aceitou falar com o dito Celestino ao telefone, mas percebeu pouco ou nada do que lhe dizia o homem guineense que afirmava ser seu filho. O pai está muito surdo, mesmo com aparelho, passou o telefone à Emília. Mas o filho distante agarrou-se àquele número de telemóvel que agora o aproximava do pai, e passou a ligar com uma insistência que, em vez de os aproximar, os afastou.”

Será Emília quem se encarregará de ir ajudando os irmãos, enviando dinheiro ou roupas. A conclusão é de que aquele pai via a relação da filha com os gémeos de lá, mas não queria falar de afetos ou reconciliação, no fundo uma história com um final como muitas outras.

Catarina Gomes dedica um capítulo aos chamados pais procuráveis, isto é, tomando como verdadeiras as histórias dos filhos, ela procurava os pais putativos para dizer que aqueles filhos existiam, e tentaria apurar se estes pais desejavam saber deles. A primeira dificuldade a superar era localizar os pais com as informações dos filhos, as pesquisas nem sempre são frutíferas, para a investigadora os resultados são mais amargos que agridoces. É neste contexto que ela pega num caso que obteve um grande tantã mediático, a viagem de António Bento que viveu uma relação amorosa com Esperança em Luvuei, leste de Angola, quarenta anos depois viajou para se encontrar com o filho, é um relato emocionante até chegar ao encontro com o seu filho Jorge Paulo Bento, conhecido entre familiares e amigos como o Pula ou o Branco; em Luena, o filho é membro da polícia de intervenção rápida, António Bento fala com os superiores dos filhos, conhece a nora e os netos e depois chega o filho, ele fora mandado de avioneta militar de Luanda para vir conhecer aquele pai, ressuma uma ternura neste encontro, nos abraços e nas lágrimas.

“António veio dizer-lhe a sua data de nascimento, 15 de janeiro de 1975, veio dizer-lhe que nasceu na enfermaria do quartel português e não em casa. Jorge gostou muito de ouvir do pai que o pai gostou da mãe, no livro que António escreveu propositadamente para o filho vem escrito que a mãe esperança é a mulher que eu amei. António diz-lhe que queria muito dar um abraço a Esperança, ‘agradecer-lhe por te ter criado sozinha’. O pai veio dizer-lhe o nome dos seus avós, Maria José Carita Reisinho e Júlio da Graça Bento, que estão na certidão de nascimento que vai usar para registar o nome do seu pai. Veio mostrar-lhe fotos de uma mãe jovem que ele não conhecia, numa delas apontou-lhe para a barriga, dizendo: ‘tu estavas aqui’.”

Se o leitor estiver interessado em conhecer mais pormenores da história, consulte o site https://acervo.publico.pt/sociedade/noticia/quem-e-o-filho-que-antonio-deixou-na-guerra-1699039.

Catarina Gomes fala-nos de Rosa que tinha saudades do pai que não conhecera, o que dele sabia resumia-se ao seu apelido, Monteiro, que ela usa; o pai fora militar em Metangula, no norte de Moçambique, de 1967 a 1968 (Rosa nasceu a 22 de maio de 1968). Metangula era porto militar colonial, dali partiam as lanchas da marinha portuguesa. Há fotografias da mãe tiradas pelo pai, Fátima Ndala com t-shirt de algodão justa ao corpo, mini saia de pregas em tecido de padrão escocês, sapatos claros estilo sabrinas. Rosa vai mostrando tudo a Catarina, queria mesmo apresentar-lhe dezenas de filhos de marinheiros portugueses da base naval de Metangula, é uma das histórias mais emocionantes pela persistência em conhecer o pai, socorrendo-se das redes sociais, até se chegar ao momento culminante de vir a saber que o pai falecera com 67 anos, ela não desfalece, insiste em contactar o irmão branco, este não quer comunicação, a irmã, a mesma coisa, Rosa guarda um álbum completíssimo com a sua família portuguesa, espero que o leitor não perca este capítulo intitulado Saudades do Pai Monteiro.

A investigadora vai colecionando histórias, ouvindo resignações, tomando nota de palavras associadas àquele tipo de relacionamento espúrio e que ganham valor complexo, tais como namoro, conversa, casamento, marido, esposa, e algo mais, matéria que merece a maior reflexão:
“Mal termino de escrever sobre estas mães, vêm-me à mente estes pais acidentais, homens que se deslocavam em bando à procura de mulher, uma qualquer, saídos de um Portugal das décadas de 1960 e 1970, em que as mulheres se queriam virgens até ao casamento, em que as famílias protegiam a castidade das filhas, em que para muitas famílias as filhas terem relações sexuais antes da noite de núpcias significava ‘desgraçarem-se’. Elas deviam vestir-se decentemente, prescreviam-se saias a ¾, das pernas apenas podiam revelar-se os tornozelos.
Longe deste Portugal, tais jovens, a maioria vindos de aldeias, encontravam-se, pela primeira vez, fora do país, num estrangeiro em que havia mulheres que não usavam sutiãs, nem saiotes e combinações, apresentando-se ao mundo estranhamente despidas. Eles podiam até assistir ao mais íntimo dos rituais: o banho.
Aportaram num mundo com uma moral às avessas.”


De uma dignidade sem mágoa do início ao fim, esta investigação aborda um dos maiores tabus entre os militares portugueses, as crianças que ficaram para trás quando terminou o conflito e que andam há anos à procura de uma identidade perdida, e onde não deixa de ser chocante a indiferença do Estado português para reconhecer a dimensão desta realidade.
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Notas do editor:

Vd. post de 6 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28161: Notas de leitura (1934): "Furriel não é Nome de Pai, Os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial", de Catarina Gomes; Tinta da China, 2016 (3) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 12 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28177: Notas de leitura (1937): "3x44: Abel e Caim em Contrapé", de António Carvalho (Porto: eVida, 2026, 287 pp.): "O gerúndio famoso sempre existiu no português do Brasil e, pasmem, foi nos navios, diretamente do português europeu para a América." (Angélica Lima, escritora e ediucadora brasileira)

segunda-feira, 6 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28161: Notas de leitura (1934): "Furriel não é Nome de Pai, Os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial", de Catarina Gomes; Tinta da China, 2016 (3) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 4 de Fevereiro de 2026:

Queridos amigos,
Se já estava afeiçoado ao que Catarina Gomes nos oferecera na 1.ª edição deste livro, em 2018, consolidei que esta edição de 2026 comprova como esta investigadora intensifica o vigor e a luminosidade que põe nas suas reportagens, a ponto de a dor sentida por estes filhos de tuga mexerem connosco. É uma nova dimensão dos estudos da história da guerra colonial que Catarina Gomes abriu as portas. Estamos perante factos consumados, não se podem fazer contas a quantos filhos de tuga, uns se resignaram ao abandono, outros buscam a identidade, e a única coisa certa que conhecemos é que tanto o Estado português como Angola, Guiné e Moçambique não se prepararam para reconhecer a dimensão desta realidade que a autora tão meritoriamente veio desvelar, escancarando os tabus, não deixando de nos alertar para as suscetibilidades que envolvem antigos combatentes que não têm coragem de dizer às suas famílias que há "restos de branco", carne da sua carne, a pedir identidade no clamor lá longe.

Um abraço do
Mário



Filhos do inimigo, restos dos portugueses, seres humanos à procura de identidade – 3

Mário Beja Santos

A 1.ª edição de "Furriel não é Nome de Pai, os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial", de Catarina Gomes, data de 2016, a escritora e investigadora foi-se afeiçoando a este tema e esta terceira edição, já publicada em 2026, está substancialmente aumentada, mantém um vigoroso discurso narrativo, muitas vezes pungente, é uma tocante viagem à dignidade humana naqueles territórios onde houve Guerra Colonial e apareceram meninos e meninas tantas vezes repudiados, sujeitos às mais ignóbeis humilhações e que não desistem de lutar pelo direito à identidade.

Depois da história de Óscar Albuquerque e da sua tia Filomena, uma narrativa sublime, onde se cruzam a dedicação, onde subjaz sempre uma forma de ternura e há um pai biológico que se põe a milhas da vida desse filho, tudo entremeado por uma burocracia infernal, temos agora os manos Celestina e Celestino, irmãos gémeos, há também um jovem branco que é o pai destes dois adultos mestiços, por acaso oficial do quadro permanente, saberemos pela narrativa que há um major reformado que tem uma filha chamada Emília, que não ficará indiferente a estes dois filhos de tuga, seus irmãos, residentes em Bambadinca.

A história começa com uma fotografia do pai dos gémeos, que está emoldurada por decisão de Celestino, este escreveu muitas vezes ao pai, não obteve resposta. Os irmãos guineenses entraram em contacto com a irmã branca através de uma carta endereçada à Excelentíssima Mana Emília Martins Prado, pediram-lhe algum dinheiro para os ajudar a viver um pouco melhor e também a fotografia do pai dos três. Emília apresentou-se, professora de Geografia, com três filhas adolescentes, vivendo numa cidade no norte de Portugal. Em nova carta Emília foi muito clara: “Sou só eu que desejo contactar convosco. Como compreendes, não posso enviar uma fotografia de uma pessoa que se recusa a estabelecer contacto convosco.” Um início de história pouco promissor.

Contudo Emília não está propriamente sozinha nesta história, tem a mais improvável das aliadas, a sua mãe, Sara Martins Prado, 82 anos, também professora – a suposta mulher traída pelo militar que já era casado quando fez os filhos gémeos na guerra. Sara sempre desconfiou de qualquer coisa. Aliás, muito interpelado por Sara, o oficial contou a verdade, deixara crianças na Guiné. Em comissões anteriores, Sara e Emília, e depois uma outra irmã, acompanharam o militar em Moçambique e Angola. Ele esteve sozinho depois na Guiné, numa geografia inventada por um qualquer estratega chamada Setor L1, o pai de Emília esteve em Bambadinca, as crianças nasceram de uma relação com a lavadeira.

A história agora ganha intensidade, Celestino corresponde-se com a tia Emília, cada um dos gémeos tem um descendente. A situação de Celestino preocupa Emília. “Celestino é carpinteiro sem carpintaria. O que consegue construir fá-lo usar ferramentas emprestadas por um vizinho, a bancada improvisada debaixo de uma árvore carregada de mangas. Portas e janelas são o que mais sai, mas ele tem competências também para montar tetos falsos. E não só. Um baú de madeira em casa de uma tia está protegido por um pano que Celestino afasta, como uma cortina que protege um quadro numa exposição, para que se veja como o alindou com trevos de quatro folhas gravados na tábua; noutra das arcas da sua lavra cunhou palmeiras, numa terceira um pelicano.”

Vamos conhecendo a família, a discreta Celestina, o seu filho Nadu, o filho de Celestino chama-se Geovane, os gémeos mudam de nome, fazem desaparecer os apelidos da mãe, Gomes Correia, para os substituir por Machado Prado, o nome do pai. Emília vai sabendo de tudo, como funcionam as creches e as escolas, uma parente afastada dos gémeos que vive em Portugal, de nome Carla, aconselha Emília quanto aos critérios da distribuição de dinheiro.

Emília fica atónita quando sabe que Celestina e Nadu estão em Portugal, o rapaz tem um problema nos olhos, toca de ensinar português a Nadu, o português de Celestina também vai melhorando. Nadu vai para uma instituição chamada Casa do Gaiato, em Miranda do Corvo, estuda com aproveitamento, a tia estimula-o. A relação entre irmãos é permanente, Celestino envia um SMS à mana, a mulher dera à luz uma menina, o seu nome é Emília Carla. Emília manda sistematicamente roupa infantil para a afilhada e não só.

E o pai dos gémeos, continua indiferente? A história termina, sabendo nós que tudo irá continuar com as preocupações da mana Emília e os sucessivos percalços na vida dos gémeos, assim:
“Emília e o pai vivem perto e são próximos, ainda há pouco ele saiu de sua casa. Há, dobradas pelos cantos, roupinhas de menina pequena. Não tem qualquer preocupação em escondê-las, pelo contrário, inconscientemente talvez as queira expor, como quando a mãe quis deixar o artigo do jornal no caminho do olhar do pai.
É impossível que o pai não repare nas saiinhas espalhadas pela casa, como uma com galo e galinha bordados em tecido de xadrez colorido. É impossível que não se tenha apercebido da acumulação de meiazinhas, sapatinhos, e que isso não lhe cause estranheza. Não há crianças pequenas na família. ‘Ele vê.’ Emília soa a criança travessa quando diz, algo sonsamente, que cumpre o que o pai lhe pediu. ‘Não falo disso’.”


A saga de Catarina Gomes vai prosseguir, temos seguidamente pais procuráveis, provavelmente não resistiremos às saudades do pai Monteiro, que a televisão se encarregou também de difundir, e a autora irá despedir-se com uma listagem de filhos que procuram pais portugueses, do género:
“António Urbino Gonçalves Brito. O pai seria 2.º grumete, originário de Câmara de Lobos, na Madeira, nascido a 11 de junho de 1951. Consta que até tentou raptar o filho pequeno para o levar para Portugal, mas que os familiares da mãe o impediram. Vive em Bissau.”
E também:
“Erasmo Fonseca. Engenheiro mecânico agrícola, nasceu em 1969. Os seus estudos levaram-no até Cuba. A sua mãe, Maria Geralda Soares Cassamá, era professora primária em Quinhamel, perto de Bissau. O furriel, de quem usa o apelido, esteve colocado no quartel de Binar, onde conheceu a mãe, numa festa em casa de familiares.”


(continua)
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Notas do editor:

Vd. post de 29 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28144: Notas de leitura (1932): "Furriel não é Nome de Pai, Os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial", de Catarina Gomes; Tinta da China, 2016 (2) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 3 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28152: Notas de leitura (1933): "Retratos de Guerra", desenhos de Cristina Sampaio a partir da obra de Neves e Sousa, uma exposição a não perder na Livraria Municipal Verney, Oeiras, patente ao público até 14 de Novembro (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 3 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28152: Notas de leitura (1933): "Retratos de Guerra", desenhos de Cristina Sampaio a partir da obra de Neves e Sousa, uma exposição a não perder na Livraria Municipal Verney, Oeiras, patente ao público até 14 de Novembro (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 22 de Junho de 2026:

Queridos amigos,
É assim que este evento é apresentado em termos de comunicação pela Livraria Verney, creio que diz o essencial sobre a exposição ‘Retratos de Guerra: Desenhos de Cristina Sampaio’ que vai estar patente na Livraria Municipal Verney, em Oeiras, até ao dia 14 de novembro.
⁠ ⁠‘Retratos de Guerra: Desenhos de Cristina Sampaio’ nasce do diálogo entre a obra documental do pintor Neves e Sousa e o universo gráfico satírico e geométrico de Cristina Sampaio.
⁠ ⁠Partindo dos desenhos do livro Angola a Branco e Preto, Cristina Sampaio confronta-se com a memória da Guerra Colonial, imaginando a realidade paralela às paisagens e figuras retratadas por Neves e Sousa. Em vez de recriar os desenhos originais, utiliza-os como cenários simbólicos para compor retratos de personagens marcadas pela guerra.
⁠ ⁠A exposição estabelece uma ponte entre passado e presente, memória e interpretação, revelando o contraste entre a serenidade aparente das imagens e a violência da guerra colonial. O resultado é um conjunto de obras onde o desenho se transforma em reflexão visual sobre identidade, conflito e memória coletiva.⁠

Um abraço do
Mário


Uma exposição a não perder:
Retratos de Guerra, desenhos de Cristina Sampaio a partir da obra de Neves e Sousa


Mário Beja Santos

Tendo sido confiada uma grande parte da obra de Neves e Sousa ao município de Oeiras, tem a havido a preocupação desta autarquia em tratar este património através de um ciclo de reinterpretações. O artista agora convidado é a Cristina Sampaio. Como observa o presidente da autarquia: “A artista parte de uma constatação simples, mas decisiva: enquanto aquelas imagens de aparente serenidade eram produzidas, decorria em simultâneo a guerra colonial. As paisagens os corpos e os quotidianos retratados por Neves e Sousa coexistiam historicamente com um conflito prolongado. O gesto de Cristina Sampaio é simultaneamente contido e incisivo. Os desenhos originais de Neves e Sousa permanecem, mas recuam. Tornam-se fundo, cenário, memória suspensa. Esbatidos, deixam de ocupar o primeiro plano para passarem a funcionar como espécie de arquivo visual sobre o qual surgem figuras apuradas, imóveis, quase frontais – personagens que parecem pousar diante da História, como nos antigos estúdios fotográficos.”

Esta exposição está patente ao público até 14 de novembro na Livraria Municipal Verney, no centro histórico de Oeiras.

Cristina Sampaio dá explicações do seu trabalho pelo catálogo da exposição:
“Nas pinturas identifiquei pontos com o meu estilo, pois, curiosamente, o traço orgânico dos desenhos de Neves e Sousa, ao passar à tela, transformam-se em geometria. Ao continuar a refletir sobre o que fazer, apercebi-me de que os desenhos eram contemporâneos da Guerra Colonial. Provavelmente, algumas daquelas paisagens ou pessoas, terão sido tocadas pela guerra, que decorreu entre 1961 e 1974. Foi assim que me decidi por esta abordagem da reinterpretação dos desenhos do Neves e Sousa. Iria retratar a realidade paralelamente à realidade por ele retratada. Do ponto de vista formal, eu não via sentido nenhum em redesenhar os desenhos de Neves e Sousa. Eles funcionam, nas minhas imagens, como as paisagens pintadas que existiam nos antigos estúdios de fotografia, à frente das quais as pessoas eram retratadas. A maioria dos meus desenhos são, portanto, pessoas a posar para a câmara. Retratos de Guerra.”

Selecionei um conjunto de desenhos e trabalhos da artista que nos levam claramente a Angola, caso dos diamantes e do petróleo, encheu-me as medidas o trabalho dela intitulado A Chegada é um esquiço seguro e sóbrio de uma situação temível para qualquer entrada na guerra, a chegada um teatro de operações; também encontrei universalidade nas duas imagens seguintes intituladas Travessia do Rio e Emboscada, deixando para último um grafismo que nos toca a todos, mas que foi inegavelmente mais associado a Angola e a todo o seu inferno de guerra civil. São estas, em suma, as razões principais que me levam a convidar-vos a visitar a exposição patente na Galeria Municipal Verney.

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Nota do editor

Último post da série de 29 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28144: Notas de leitura (1932): "Furriel não é Nome de Pai, Os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial", de Catarina Gomes; Tinta da China, 2016 (2) (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28144: Notas de leitura (1932): "Furriel não é Nome de Pai, Os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial", de Catarina Gomes; Tinta da China, 2016 (2) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 2 de Fevereiro de 2026:

Queridos amigos,
É, indiscutivelmente, uma reportagem em dó maior, a Guiné tornou-se um palco de eleição, foi aqui que começou a investigação de Catarina Gomes para o jornal Público, houve depois livro que deu origem ao documentário Filhos de Tuga, emitido pela RTP. Tudo começou com a história de Fernando, vergastado pelo padrasto por ter nascido com a pele mais clara, Fernando não se rendeu e criou um movimento associativo, sendo motorista foi descobrindo filhos de tuga por todo o país, o nome Fernando Hedgar da Silva é o nome que muitos soletram na Guiné-Bissau, uma luz acesa para filhos de guerra, crianças que ficaram para trás em Angola, Moçambique e na Guiné-Bissau, muita gente a buscar uma identidade perdida. São relatos por vezes pungentes, em que a busca da identidade negada se acompanha de uma tocante busca de dignidade. O mais estranho de tudo, como a autora observa, é que nem o Estado nem nenhum de nós se interessa pela dimensão desta realidade.

Um abraço do
Mário



Filhos do inimigo, restos dos portugueses, seres humanos à procura de identidade – 2

Mário Beja Santos

A 1.ª edição de "Furriel não é Nome de Pai, os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial", de Catarina Gomes, data de 2016, a escritora e investigadora foi-se afeiçoando a este tema e esta terceira edição, já publicada em 2026, está substancialmente aumentada, mantém um vigoroso discurso narrativo, muitas vezes pungente, é uma tocante viagem à dignidade humana naqueles territórios onde houve Guerra Colonial e apareceram meninos e meninas tantas vezes repudiados, sujeitos às mais ignóbeis humilhações e que não desistem de lutar pelo direito à identidade.

Quero recordar ao leitor que estamos perante um livro de procuras, tanto há encontros como desencontros, luminosidade e negrume, não falta a mediação de Catarina Gomes, a sua tentativa que pôs filhos e pais em comunicação, os falhanços são mais que muitos, estes velhos antigos combatentes devem entrar em pânico só com a ideia de informar a família constituída que chegou a hora de receber outros descendentes até então completamente desconhecidos. O que a autora nos vai contar sobre Óscar Albuquerque e a sua tia Filomena deixa o leitor estarrecido, a ânsia de Óscar ser recebido pelo pai e a tia Filomena que acaba por fazer as vezes desse pai que não quer sair das suas tamanquinhas.

O relato começa no Instituto de Medicina Legal, é ali que se vão fazer os testes de paternidade, a tia não tem dúvidas, para ela o irmão e o sobrinho são iguais no andar, têm as pernas arqueadas. Pai e filho fazem o teste sem trocar uma palavra. “A verdade vai ser extraída do interior de dois líquidos. Em menos de 1mm de sangue e saliva, retirado aos dois homens, está contida uma resposta.” Antes de ser Óscar, chamava-se Abdulai Seidi, assim que a família descobriu que a mãe estava grávida de um militar português casou-a de urgência. Os pais separaram-se, a mãe seguiu para outro marido, Abdulai ficou a cargo do padrasto, foi educado com mais quatro irmãos por um padrasto que o maltratava. Um dia uma vizinha não resistiu contar que ele era filho de um tropa português.

Ele começou a olhar para o antigo quartel português de Ingoré como o quartel do pai. Um guineense ex-camarada de armas do pai que agora era jornalista da Rádio Nacional, confirmou a versão da vizinha, e veio a revelação do nome do pai, Manuel Albuquerque, começaram as pesquisas sobre o pai tuga. Mudou de nome. Na escola tinha ouvido falar em Afonso Albuquerque, um vice-rei da Índia destemido, Abdulai converteu-se em Óscar, processo moroso. No novo registo de nascimento preencheu o campo do pai com Manuel Albuquerque. Inevitavelmente, surgiram as trapalhadas nas datas de nascimento, no novo documento pôs-se a data de nascimento em 1978, não fazia sentido, o pai tinha andado pelo Ingoré em 1972.

Óscar começou a bater às portas: a embaixada de Portugal na Guiné-Bissau, depois o Arquivo Geral do Exército, por portas e travessas, conseguiu a morada da casa do pai, seguiu carta, e depois outra, nada de resposta. Telefonou ao pai: “Lembra de Maimuna Djau? Eu sou filho de Maimuna, o filho que você deixou na barriga. Está a falar com o seu filho, Óscar.” E veio a resposta: “Não leve a mal, não sei de nada, amigo.” Seguiram-se outros telefonemas, inúteis, e assim se passaram dez anos sem Óscar voltar a escrever ou a telefonar. A foto de Maimuna chegou ao conhecimento de Filomena Viegas, a história da existência de uma criança vinha do passado, quando o militar chegou deu notícia à mãe que terá respondido: “manda vir o menino que eu crio-te”.

Filomena herdou os álbuns de família quando a mãe morreu. O irmão de Filomena casou e assim se esqueceu o feto na barriga da adolescente negra. Foi no jornal Público que ela viu a reportagem sobre os restos de Tuga e havia lá a fotografia em meio-corpo de alguém que se chamava Óscar Albuquerque. A partir daí Filomena não parou, conversa com Catarina Gomes, depois escreveu ao rapaz da reportagem, informa o alegado sobrinho de que a data do nascimento não pode ser 1972 pois a comissão do irmão fora em 1967-1968. Impunha-se fazer um teste de paternidade, Filomena traçou os seus planos, pagaria o bilhete de avião e os testes genéticos, o rapaz ficaria em sua casa, pessoas da família acham que ela se está a exceder. No Facebook, Filomena e Óscar conversam intensamente, Óscar tem 44 anos, os problemas de família não preocupam Filomena, a sua mãe era filha de um carpinteiro de Salvaterra de Magos e uma são-tomense; também o seu pai era filho de um beirão de Vouzela e de uma são-tomense.

Filomena anda empolgada: “Sou avó, sou mãe, sou educadora de infância reformada. Se eu ajudo pessoas de fora porque é que não hei de ajudar o meu sobrinho, o meu rapaz". Filomena envia fotos da família a Óscar. Filomena gosta muito do irmão, teme que a relação dos dois possa sofrer com a vinda de Óscar. Problemas não faltam: há sempre dificuldades em obter visto na Guiné para Portugal, foram precisos muitos meses de insistência para que Óscar aterrasse no aeroporto de Lisboa numa noite chuvosa de janeiro, Filomena espera-o com um saco cheio de roupa quente, os seus diálogos são um rico manancial de ternura, e assim se chega à convocatória do Instituto Nacional de Medicina Legal para a colheita de material biológico. O encontro de pai e filho é marcado por distâncias, é uma conversa de circunstância, o pai bem lhe perguntou o que fazia, não se furtou a responder que fazia biscates em pintura.

Há uma espera de semanas, Óscar vai conhecer Lisboa, recebe ternura da tia Filomena, esta não esconde a sua euforia nas redes sociais, o sobrinho nunca tinha provado grão nem frutos secos, engordou dois quilos, depois quatro, a tia ofereceu-lhe um dicionário de português, vestiu-o com aprumo, chega o resultado, o grau de probabilidade de Óscar Albuquerque ser filho do homem que no ofício ainda é identificado como pretenso pai é de 99,999997%. No primeiro aniversário de Óscar com a família portuguesa, Filomena cozinhou bacalhau no forno, comprou champanhe do bom e um bolo de chocolate rodeado de framboesas. O pai de Óscar mantém-se distante, mas acedeu ao pedido da irmã para irem à Conservatória do Registo Civil, mais um imbróglio, o pai esteve na Guiné em 1968, mas a documentação guineense diz que Óscar nasceu em 1978, os papéis têm de voltar para a Guiné. Tudo parecia estar resolvido quando o pai disse à funcionária que era o pai do Óscar. Mas surgiu novo obstáculo, o mais inesperado: Óscar não podia ser perfilhado pelo seu pai biológico porque já estava nos seus documentos. Enfim o que servia na Guiné não servia em Portugal.

Na continuação da saga, enquanto se aguarda a chegada dos documentos corrigidos da Guiné, a tia ensinou-o a cozinhar, o sobrinho arranjou um quarto, foi-lhe recomendado que não andasse na rua a partir das dez da noite para não ser apanhado por uma rusga do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras. Óscar continua a ser assíduo nas reuniões de família que Filomena organiza, o pai nunca comparece. “Filomena diz que aprendeu a gostar de Óscar desde que ele nasceu. O irmão diz que não sente nada por ele, que o rapaz foi um acidente, Filomena suspira que os pais tenham partido, eles poriam aquele filho na ordem.” Óscar pôs-se a trabalhar, ora ajuda a fazer as instalações elétricas ora a rebocar ou a pintar paredes. “Já passou tempo suficiente para se perceber que Óscar e o pai não vão estar unidos sem ser em papel, são dois nomes escritos na mesma folha de papel guineense, onde o grau de parentesco que os deviam unir não os uniu ainda, e talvez nunca os venha a unir.”

Uma história dura de ler pela intensidade a que levou o encontro, os ziguezagues da burocracia, aquela tia que às vezes é tomada de desalento, Óscar está na família portuguesa e não está, quando fala com a tia já não diz “o meu pai”. Os dias e os meses passam, o papel que ainda acalenta a esperança de Óscar é o teste do ADN. “Se for apanhado numa rusga por estar ilegal, só tem aquela folha para mostrar e, se lhe derem tempo, pode contar a sua vida. Óscar bem sabe que o valor legal do papel e da sua história são nulos. Pode ser expulso, apesar deles. Mas foi o que conseguiu, o papel e a tia.”

Que o leitor se prepare, há outras histórias empolgantes ainda para citar.

(continua)

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Notas do editor:

Vd. post de 22 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28122: Notas de leitura (1930): "Furriel não é Nome de Pai, Os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial", de Catarina Gomes; Tinta da China, 2016 (1) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 26 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28134: Notas de leitura (1931): "Morrer no Cacheu", um trabalho do jornalista Rui Araújo, publicado na Revista do Semanário Expresso do dia 31 de Março de 2001 (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28122: Notas de leitura (1930): "Furriel não é Nome de Pai, Os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial", de Catarina Gomes; Tinta da China, 2016 (1) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 28 de Janeiro de 2026:

Queridos amigos,
"Furriel não é Nome de Pai", de Catarina Gomes, é de leitura obrigatória, é uma longa viagem sobre tema sobre o qual se manteve discrição ao longo de décadas, os filhos dos militares portugueses deixados na Guiné, Angola e Moçambique, crianças sovadas, discriminadas, continuam a buscar uma identidade perdida, as autoridades dos países independentes e as de Portugal nem tentam reconhecer a dimensão do problema, parecem ser coisas do destino, ainda por cima os ex-combatentes é uma categoria em vias de extinção, e as crianças deixadas nas antigas colónias, hoje homens e mulheres com mais de 50 anos nem são tema para conversas nos almoços anuais que eles fazem. É uma bela edição revista e aumentada, a narrativa é primorosa, e momentos há, caso do encontro entre Óscar Albuquerque e a sua tia Filomena que temos a convicção do poder radial e luminescente desta moderna literatura portuguesa.

Abraço do
Mário



Filhos do inimigo, restos dos portugueses, seres humanos à procura de identidade – 1

Mário Beja Santos

A 1.ª edição de "Furriel não é Nome de Pai, Os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial", de Catarina Gomes, data de 2016, a escritora e investigadora foi-se afeiçoando a este tema e esta terceira edição, já publicada em 2026, está substancialmente aumentada, mantém um vigoroso discurso narrativo, muitas vezes pungente, é uma tocante viagem à dignidade humana naqueles territórios onde houve Guerra Colonial e apareceram meninos e meninas tantas vezes repudiados, sujeitos às mais ignóbeis humilhações e que não desistem de lutar pelo direito à identidade.

Na introdução, a autora dá-nos conta de outras histórias de filhos de militares, não deixa de impressionar a lista de filhos de guerra, noutras paragens. A momentosa questão dos “filhos de tuga” parece não sensibilizar a sociedade portuguesa, quando os meios de comunicação social afloram esta dolorosa realidade, é o discreto silêncio que prevalece, parece ser praga ou vicissitude dos tempos de guerra sem remédio.

Esta investigação foi iniciada em 2013, na Guiné-Bissau, a própria autora ficou surpreendida pelo dilúvio da procura, partira com quatro contactos de supostos filhos de ex-militares portugueses, a receção foi turbilhonante: “Um passa-palavra descontrolado colocou ao nosso dispor uma torrente de vidas que era impossível recolher no tempo que tínhamos. Alguns filhos tinham de esperar horas para os ouvirmos, as suas histórias eram as mensagens que nunca tinham conseguido enviar aos pais. Os primeiros dias emocionaram-me, mas houve momentos em que me senti como se estivesse num guichê de repartição pública, a preencher folhas e folhas de relatos que, a certa altura, se repetiam no essencial – eu fazia ali as vezes de Portugal.”
Haverá um testemunho, o de Fernando Hedgar da Silva, que a empurrará a escrever este livro, a história da associação que ele criou é qualquer coisa de sublime nos seus percursos de dramatismo que a autora traz ao leitor. Mais adiante, ouviremos falar de Óscar Albuquerque e da sua tia Filomena, creio que são espantosas páginas antológicas que ultrapassam a linha da investigação, é um dos mais luminescentes encontros que a literatura portuguesa nos proporciona.

Ninguém conhece ao certo a dimensão do universo dos “filhos de tuga”, se são centenas ou milhares, na Guiné, Angola ou Moçambique e, francamente, é difícil fazer comparações com estimativas do Vietname ou outros locais de outras presenças coloniais, onde houve belicismos. Atenda-se ao que Catarina Gomes escreve na introdução: “Todos os dias morrem metades desta história. Os pais portugueses estão nas fases finais das suas vidas, e estes filhos, na casa dos 40-50 anos, também podem estrar perto do fim das suas. A esperança de vida dos três países africanos ronda os 30 anos. Se continua a haver todos os anos almoços-convívios de ex-combatentes é porque a guerra ainda vive nestes homens.”

Fernando Hedgar da Silva, como se disse, é um dos fios condutores desta trama. Lembra na sua meninice os fuzilamentos havidos em Canchungo de quem tinha colaborado com as tropas portuguesas, o PAIGC apodava-os de serem “traidores da Guiné”, a população fora obrigada a assistir aos fuzilamentos e do mesmo modo teve de comparecer a um baile noturno, era obrigatório celebrar – mesmo quem acabava de perder familiares. A vida de Fernando mudou no dia em que o vizinho o admoestou dizendo que ele não tinha direito à opinião, era um resto de tuga. Pôs-se nu diante do espelho, ali estava no seu tom de pele a razão pela qual a mãe o chamava em casa “branco” e “tuga”. Assim se iniciou a sua saga à procura de identidade, Fernando pensava que o pai se chamava Furriel, bateu a portas, mesmo à da Embaixada de Portugal, não encontrou saída, um dia tomou a decisão de criar uma associação “os filhos de tuga”.

Como era camionista, ia percorrendo o país à procura de “filhos de tuga”, passados os inúmeros encontros, ganhou corpo a Associação de Solidariedade dos Filhos e Amigos dos Ex-Combatentes Portugueses na Guiné-Bissau – Fidju di Tuga. As primeiras reuniões acabavam em longos convívios. E Catarina Gomes faz entrar em cena outros personagens, retornamos à vida nos quartéis, aos restos de comida dados a mulheres, e de repelão surge-nos a história de Nenedjo Djaló, ela não procurou, foi encontrada. “Foi por acaso: dois ex-combatentes portugueses, em romagem nostálgica à Guiné, cruzaram-se com um primo de Nenedjo, que aproveitou para chamar a atenção para a filha que o capitão Lopes tinha deixado. Conheciam-no e aceitaram levar-lhe a novidade. A primeira vez que Nenedjo e o pai falaram ao telefone choraram, e ele deu-lhe a escolher: ‘Queres vir cá ou vou eu aí?’. Ela não teve dúvidas, era a oportunidade de se vingar: ‘Preciso que você venha cá, as pessoas que me discriminaram, quero que elas o vejam’.” O pai veio, Nenedjo foi até Portugal, mas a relação não teve sequência, o pai gosta, mas não a reconhece.

Acompanharemos outras viagens de Fernando, iremos mesmo ao cemitério de Bissau. “Alguns filhos da Associação já choraram ao ler os nomes que se deixam ler. Os que não sabem bem como se chama o pai, como Fernando, também já se perguntaram se nalgumas daquelas sepulturas estará o pai. E se ele for um dos homens apagados? Nesse sentir há uma tristeza, mas, simultaneamente, uma esperança porque assim o abandono dos filhos não o seria. Os pais não vieram ter com eles porque nunca saíram dali, morreram na Guiné, coitados, tão jovens, pouco depois de os terem feito.”

Discutem-se nomes hipotéticos para os pais desconhecidos, fazem-se aditamentos nas certidões de nascimento, e assim se criou a ilusão de se ganhar uma vida própria. Fernando não para de investigar. Consultou os registos paroquiais na igreja de Canchungo. Encontrou-se a ser batizado na folha 59, certidão n.º 106. Existia há mais tempo do que pensava. Em vez de ter nascido a 24 de dezembro de 1971, como vinha no seu bilhete de identidade, ele era, afinal, de 5 de janeiro de 1968. Na certidão nada da identidade do pai nem dos avós paternos. Mas vinha lá o nome dos padrinhos de batismo, um português que então vivia em Teixeira Pinto, um comerciante que já tinha morrido. A madrinha era parteira, viera para Portugal há muitos anos. O seu nome era Ermelinda Félix Tavares. A autora, depois de longos meses de pesquisa, encontrou-a. Mostrou-lhe a fotografia de Fernando adulto, não se lembrava dele nem da mãe, Sabadozinha Mendes. Houve conversa de mulheres: “São coisas que aconteceram durante a guerra. Se elas precisavam de alguma coisa davam-se aos militares. Não era amor, não, coitadas.”

Vamos ver seguidamente um dos episódios espantosos (senão o mais espantoso, pelo nível de ternura e meandros de encontros e desencontros) desta pesquisa, Óscar Albuquerque e a sua tia Filomena, prestem atenção.

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 19 de Junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28115: Notas de leitura (1929): A biografia de um combatente: O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História (4): VII - A Viagem do Tangomau e VIII - As investigações sobre a Senegâmbia e algo mais (Mário Beja Santos)

quinta-feira, 11 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28089: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (6): quando a cultura reforça a desigualdade de género e a violência (física, psicológica, simbólica) sobre as mulheres: neste caso o barlaque em Timor-Leste ou o alambamento em Angola ou o "pidi noiva" na Guiné-Bissau




Prompt original e composição editorial: Luís Graça.

Texto: LG + RC

Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


1. Na sua última crónica, da viagem e estadia de 2019, em Timor-Leste, o nosso grão-tabanqueiro Rui Chamusco escreveu o seguinte apontamento sobre a tradição (cultural) do Barlaque (*):


31.03.2019, sábado - “Barlak” (ou barlaque) e cultura timorense...

Hoje o Eustáquio [irmão mais novo do Gaspar Sobral, o luso-timorense, casado com a Glória Sobral, cofundadores da ASTIL, juntamente com o Rui Chamusco] foi fazer de negociador no “barlak”  [termo já grafado em português como "barlaque"] de um sobrinho. 

Quando chegou a casa, contou-nos como se tinha passado. Já não é a primeira vez que o Eustáquio faz este trabalho. As famílias dos noivos confiam nele porque, para além de ser um homem sensato, é um grande conhecedor e praticante da cultura e da tradição timorense.

Então, o que é o barlaque ?

 O  barlaque é uma festa, uma cerimónia entre as famílias dos noivos em que o “manefon” (o homem que pede a mão da noiva,  passando assim a fazer parte desta família) e particularmente a sua família negoceia com a família da noiva  os "dotes” para que se realize o casamento. [Em tétum, "manefon" quer dizer homem (mane) novo (foun, fon), o que passa a fazer parte de uma nova família ].

Os "dotes” envolvem dinheiro e bens. 

Neste barlaque  foram 2.500 dólares em dinheiro que o pai do noivo tem de dar à família da noiva, sendo que: 

  • 500 dólares para a compra de um “krau” (boi ou vaca) e temperos; 
  • mais 15 caixas de cervejas, 
  • 10 caixas de coca cola e outras bebidas.  [Um timorense ganha em média 125 dólares por mês, para economizar 2500 dólares tem de trabalhar e poupar muito; pode ser ruinoso casar um filho.]

A família da noiva (creio que duas irmãs) serão as cozinheiras. 

Oferecerá também um porco e uma saca de arroz de 30kg, que serão partilhados pelas famílias e pelo negociador que terá direito a,  mais ou menos, 3kg do animal abatido. 

Uma semana antes do casamento reunir-se-ão de novo as famílias para fazerem o balanço de como estão as responsabilidades atribuídas, e para acertarem os pormenores da festa de casamento que será no próximo mês de Junho.

A par desta tradição cultural, está a preparação que os noivos fazem através de cursos e reuniões de preparação para o casamento que cada paróquia organiza. Estou a falar, claro está,  de casamentos católicos.(*)

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos, título: LG)


 2. Enquanto aguardamos, por parte do Rui Chamusco,  mais esclarecimento sobre a prática do Barlaque, hoje, em Timor-Leste, passados já sete anos sobre aquela crónica, fizemos uma rápida pesquisa sobre o tema através de uma ferramenta de IA (a francesa Vibe,  da Mistral AI).

 Eis o que apurámos, muito sumariamente:

O barlaque é, de facto, uma cerimónia tradicional timorense central no processo de casamento, onde as famílias dos noivos negoceiam os dotes, como parte do acordo pré -matrimonial. (É uma pratica que também se faz no Ocidente...)

A descrição que o Rui Chamusco faz parece estar muito alinhada com o que se sabe sobre esta prática, que é uma das mais importantes e simbólicas nas comunidades timorenses, especialmente nas zonas rurais.

(i) Significado e contexto cultural

  • o barlaque é uma negociação formal entre as famílias do noivo (representado pelo  manefon ou manu-foun) e da noiva, onde se discutem os termos do casamento, incluindo os dotes (dinheiro, adornos, outros bens, animais, comida, bebidas) que a família do noivo deve oferecer à família da noiva; 
  • não é apenas uma transação económica: é um rito de aliança entre famílias, que reforça laços sociais e comunitários; 
  • o  valor e a composição do dote variam conforme a região, a situação económica das famílias, o estatuto social, etc.:
  • em muitas comunidades, o barlaque é também uma forma de "compensar", de algum modo, a família da noiva pela "perda" de um membro (a filha) e pelo seu contributo para a nova família (em sociedades camponesas é, antes de mais, a perda de "dois preciosos braços").

(ii) Composição típica do dote (barlaque)

A descrição do Rui Chamusco é muito detalhada e reflete práticas comuns ainda em vigor na sociedade timorense, mais de 50 anos depois da descolonização e mais de duas décadas depois da independência (em 20 de maio de 2002) (e com mais 2 décadas de ocupação indonésia, entre 1975 e 1999):
  • dinheiro: o valor pode variar muito, mas 2.500 dólares (ou mais) não é invulgar em casamentos mais abastados ou em zonas urbanas; 
  • em áreas rurais, os valores podem ser menores, mas a estrutura e o significado são semelhantes;
  • animais: o búfalo, o boi ou a vaca (krau) é um elemento central, muitas vezes abatido para a festa de casamento; 
  • o seu valor simbólico é enorme: representa fertilidade, riqueza e status; em algumas regiões, o número de bois pode ser negociado (por exemplo, 1, 3 ou até 5, dependendo da importância da família);
  • comida e bebidas: (a) arroz: uma saca de 30 kg (ou mais) é comum, e é partilhada entre as famílias e os mediadores; (ii) bebidas: cerveja (15 caixas ou mais), refrigerantes (como Coca-Cola, 10 caixas), e por vezes tuak / tuaque (vinho de palma, tradicional em Timor); (c) porco: outro animal frequente, abatido e partilhado durante a cerimónia;
  • outros bens: podem incluir tecidos (tais), joias (adornos, com o balaque, o carbauque), ou até eletrodomésticos, dependendo da modernização da prática.

(iii) O papel do negociador (em nome do pretendente ou noivo, manefon, "homem novo"):

  • o manefon (ou manu-foun) é o vem de fora, de outra família, que para pedir a mão da noiva precisa de um intermediário, um mediador, em  geralmente um familiar próximo (em geral, o tio);
  • o negociador tem um papel-chave na discussão do dote e na mediação entre as famílias, como referido pelo Rui,  recebe uma parte simbólica dos bens (como os 3 kg do porco), como reconhecimento pelo seu trabalho.

(iv) Festa e partilha:

  • a família da noiva (geralmente as mulheres, como as irmãs) é responsável por cozinhar a comida para a cerimónia, que pode durar vários dias;
  • a partilha dos bens (carne, arroz, bebidas) é um momento de união entre as famílias e a comunidade; 
  • em algumas regiões, a carne do boi, da vaca  ou do porco é distribuída pelos vizinhos como gesto de generosidade e de alegria.

(v) Variações regionais e modernização:
  • na capital  Díli ou outras zonas urbanas, o barlaque  pode ser mais simplificado, com menos ênfase em animais e mais em dinheiro ou bens modernos (eletrodomésticos, etc.);
  • em áreas rurais (como Aileu, Manatuto, Baucau ou Same), a tradição mantém-se mais forte, com negociações longas e dotes mais elaborados;
  • nos últimos anos, tem havido  um debate sobre o custo elevado do barlaque, que pode ser um fardo para famílias mais pobres, e que ficam endividadas;
  • algumas comunidades tentam adaptar a prática para a tornar mais acessível.

(vi) Comparação com outras culturas lusófonas:

  • o barlaque lembra outras tradições de dote na África lusófona (como o lobolo em Moçambique ou o alembamento / alambamento em Angola), onde também se negociam bens e dinheiro entre famílias; na Guin~e-Bissau,. o equivalemnte é o "pidi noiva"  ( k'mari, entre os papéis)
  • em Cabo Verde, por exemplo, não há uma prática idêntica, mas a cachupa é muitas vezes servida em casamentos como prato de união, um paralelo interessante com a partilha de comida no barlaque (sobre o casamento tradicional nas ilhas, vd. aqui aqui).
(vii) Fontes e aprofundamento

Infelizmente, não encontrámos fontes académicas recentes em português ou tetum que detalhassem o barlaque com a profundidade que merece. 

Há, todavia, um artigo relativamente recente do jornal digital "Divergente" que merece ser analisado num próximo poste, à parte.

No entanto, o apontamento feito pelo Rui Chamusco (em 2019) está totalmente alinhado com relatos de antropólogos e missionários que estudaram os costumes timorenses, como Armando Pinto Corrêa (autor de Gentio de Timor, 1935) ou Ruy Cinatti (que documentou tradições timorenses durante a época colonial).

Talvez o Rui Chamusco (e o Cherno Baldé, no caso da Guiné-Bissau)  nos possa ajudar a:

  • procurar mais informação e conhecimento sobre o barlaque em fontes históricas ou etnográficas;
  • comparar esta prática com outras formas de casamento tradicional na Ásia ou em África, e em especial na Guiné-Bissau;
  • explorar o papel da mulher nestas negociações (por exemplo, como as irmãs da noiva participam);
  • e, por fim, as implicações que estes "usos & costumes" (tal como o casamento infantil e o casamento  forçado na Guiné-Bissau) têm na persistência das desigualdades de género e da violência (física, psicológica e simbólica) sobre as mulheres. (**)

PS - Mandámos ao Rui Chamusco, que está recuperar de uma operação cirúrgica na sua casa na Lourinhã, a seguinte mensagem (com conhecimento ao João Crisóstomo, em Nova Iorque, também ele membro da ASTIL - Associação dos Amigos Solidários Com Timor-Leste, com sede em Coimbra):

Luís Graça <luis.graca.prof@gmail.com>
10 jun 2026, 19:36
para Rui, Joao

Rui: como é que vão, anos depois, estes "usos & costumes"  ? O barlaque cheira-me a "casamento forçado", como na Guiné do meu tempo (e ainda hoje)...

Ainda há "casamentos forçados", hoje, em Timor-Leste ? Parece que o barlaque é cada vez mais contestado, sobretudo pelas mulheres. E percebe-se porquê.

Tem havido casos de infanticídio e abandono de crianças. Como de resto, noutros países, como a Guiné -Bissau, sem esquecer o nosso querido Portugal (que no passado criou a famigerada "roda dos expostos", á porta dos conventos e hospitais das misericórdias).

Sabe-se que a igreja católica timorense é bastante conservadora. Pelo menos, em matéria de educação sexual nas escolas, planeamento familiar, contracepção, etc.

E a propósito, um jornal que merece ser lido, ajudado, divulgado é o "Diligente"...Parece um projeto fantástico! (...)


(Pesquisa: LG + Diligente + IA (Vibe / Mistral AI | ChatGPT / Open AI)
(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos, parênteses retos, título: LG)

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28064: In Memoriam (580): Major-general Paraquedista Heitor Hamilton Almendra (1932-2026): cerimónias fúnebres hoje, às 13h00, na Igreja da Força Aérea, em São Domingos de Benfica, seguindo depois o funeral para o crematório dos Olivais

1. Faleceu,  no passado dia 28 de maio, o major-general paraquedista Heitor Hamilton Almendra (1932-2026), oficial de Cavalaria e uma das figuras mais marcantes da história das Tropas Paraquedistas portuguesas. Tinha 93 anos. Com ele desaparece toda uma geração de grandes combatentes portugueses.

Nascido em Zoio, concelho de Bragança, em 18 de dezembro de 1932, integrou a geração de militares que construiu e consolidou a arma paraquedista portuguesa, distinguindo-se tanto em campanha como em funções de comando. 

Tem uma brilhante carreira militar (fez cinco comissões de serviço no ultramar, incluindo Timor, Angola, Guiné e Moçambique).

Fexuma comussão no CTIG (julho de 1966 / maio de 1968).

Na 2ª comissão  em Angola, foi 2.º comandante e depois comandante do BCP 21 (Batalhão de Caçadores Paraquedistas n.º 21), tendo participado em numerosas operações no norte e leste do território. 

 Os louvores e condecorações que recebeu testemunham as qualidades de coragem, liderança e capacidade operacional que lhe eram reconhecidas pelos seus superiores e subordinados (como foi o caso do nosso amigo e camarada, e membro da nossa Tabanca Grande, ex-alf mil pqdt Jaime Bomifácio Marques da Silva,  que serviu sobre as suas ordens em Angola, em 1970/72). A antiga enfermeira paraquedista Rosa Serra também conheceu e conviveu, em Luanda, com o ilustre militar. Foi, de resto, ela que nos fez chegar a triste notícia do seu falecimento. 

Após o 25 de Abril, desempenhou funções de elevada responsabilidade militar, comandando a Escola e o Corpo de Tropas Paraquedistas, e teve papel relevante nos acontecimentos de 25 de Novembro de 1975. 

A sua carreira culminaria com o posto de major-general, deixando uma forte memória entre várias gerações de paraquedistas.

Segundo nota do sítio oficial da Presidência da República, "o Major-General Almendra foi o primeiro Oficial-General Paraquedista e goza de enorme prestígio no seio nas Forças Armadas, em especial junto das tropas paraquedistas. Ao longo da sua ilustre carreira militar recebeu inúmeras condecorações, destacando-se o grau de oficial da Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito e duas medalhas de valor militar com palma, uma grau ouro e outra grau prata".

As cerimónias fúnebres completam-se hoje, com missa de corpo presente às 13h00, na Igreja da Força Aérea (antigo convento de São Domingos de Benfica, Pupilos do Exército, Lisboa), seguindo o funeral às 14h00 para o Crematório dos Olivais.

Os votos de pesar da Tabanca Grande para a família enlutada e os antigos camaradas de armas.

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28010: Notas de leitura (1921): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (7) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 22 de Dezembro de 2025:

Queridos amigos,
Agora que chegamos ao término da viagem, importa realçar que não estamos perante uma história da guerra nem mesmo história oral de valor memorial sobre a guerra. Trata-se de uma abordagem onde se procura analisar a estratégias desenvolvidas pelas famílias no tocante à relação entre pais e filhos durante a guerra. Há uma linha de conduta dos militares lá longe apelando aos filhos perseverança nos estudos e coesão familiar, como se houvesse a antevisão de que eles viriam mudados e se impusesse um esforço de adaptação. Estes filhos dos militares, em conversa com as autoras, falavam por vezes como se ainda fossem pequenos; e o terem retomado as memórias da infância e da adolescência, as estadias do Colégio Militar e do Instituto de Odivelas, a necessidade dos irmãos se terem reunido para relerem cartas e aerogramas traz leituras por vezes bem curiosas sobre a relação dos pais depois dos militares terem definitivamente regressado a casa. Nestas reuniões com as autoras também houve assombros a escutar de novo as fitas magnéticas onde não faltam cantigas, conversas sobre os estudos e até músicas do Festival da Canção. Na verdade, os pais voltaram outros, em muitos casos houve a necessidade de deixar passar o tempo para depois descobrir que tudo tinha mudado na sociedade, nos valores e nos contextos sociais.

Um abraço do
Mário



Olhe que o pai faz muita falta. Foi com a sua comissão que eu aprendi o quanto custa o estar longe e só e para nós o sofrimento não se compara com o seu – 7

Mário Beja Santos

Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975, por Ana Vargas e Joana Pontes, Tinta da China, 2025, é um livro arrebatador, profundamente terno, e, tanto quanto me é dado de saber, preenche uma lacuna no campo da investigação.

Vamos hoje despedir-nos destas conversas entre filhos e pais em tempos de guerra falando de Joaquim Pires Afreixo e Fernando Manuel Saraiva. Joaquim era funcionário dos CTT quando foi requisitado em 1961 para o Serviço Postal Militar (SPM), tinha 36 anos e foi graduado em alferes. Constituído o teatro de operações de Angola havia que organizar a distribuição do correio aos militares em campanha. Os CTT em Angola não dispunham de meios para fazer face ao crescente volume da correspondência. Deu-se o caso de a correspondência entre os combatentes e as suas famílias se ter acumulado em Luanda por mais de três meses. Determinou-se que essa correspondência seria enviada para o Quartel-General da Região Militar de Angola, mas o problema não ficou resolvido.

Foi então que o ministro do Exército determinou a organização do SPM, o objetivo era criar uma estrutura que fizesse chegar ao seu destino, o mais rapidamente possível, a correspondência e as encomendas. Joaquim fez quatro comissões, sempre neste serviço, em Moçambique, em Macau, na Guiné, de novo em Moçambique. Joaquim permaneceu muito tempo afastado dos filhos. José, o mais velho, nasce em 1955, e Lucinda em 1962. Quando Joaquim regressa dois anos depois, José não o reconheceu. Até ao seu regresso em 1965, Joaquim passará apenas curtos períodos em Lisboa com a família. A mulher de Joaquim trabalhava como bibliotecária e arquivista, manifestamente não quis ir para os locais onde o marido procurava manter o SPM em bom andamento.

Lucinda vai com dez anos para o Instituto de Odivelas e o irmão para a Faculdade de Medicina. Na correspondência Joaquim nunca fala da guerra, mas em Lisboa aborda-a, à luz do que vê e ouve. Ele comprara um gravador de cassetes para poder enviar à família notícias suas e canções românticas; nas cartas remetia fotografias. O pai pede aos filhos notícias. Com o passar do tempo, Joaquim vai revelando um outro olhar sobre o lugar onde está. Na troca de cartas o tema da escola é recorrente.

Finda a guerra, Joaquim regressa em 1975, depois da independência de Moçambique, é integrado no Exército e chega a Tenente-coronel. A guerra raramente esteve presente nas conversas da família. O tempo foi passando e o que ficou desses tempos está na correspondência que se salvou da fogueira.

Agora Fernando Manuel Saraiva. Nuno tem três anos e oito meses quando o pai, o Capitão Miliciano Fernando Saraiva parte para Moçambique, mobilizado para comandar a 1.ª Companhia do Batalhão de Caçadores n.º 4811, partiu em abril de 1973, vai de avião com 165 homens, entre os quais um médico, um enfermeiro e dois auxiliares de enfermagem, quase todos os militares são originários dos Açores. Ao chegar a Moçambique, o Batalhão assume a responsabilidade por uma zona de atuação no distrito de Niassa com uma superfície aproximada de 14 mil km2.

Antes da mobilização, Fernando era estudante de Engenharia e havia entrado na carreira de Despachante. Quando soube que ia ser mobilizado, preparou a saída de Portugal com destino a Paris, mas o pai impediu-o. Nuno fica com a mãe, de nome Maria José, era doméstica. Maria José escreve todos os dias a Fernando, lamentando a sua ausência. Nos aerogramas que envia ao filho, Fernando faz desenhos para Nuno colorir ou copiar.

Nuno recorda às autoras: “As cartas que escreve para a minha mãe é para a descansar. É o paraíso. A forma como ele fala comigo é por vezes autoritária, outras vezes como se fala com um bebé. Nas cartas em que enviava ao meu avô a forma é um pouco mais dura. A partir de uma certa altura, o meu avô deixa de escrever, era a minha tia que escrevia em nome dele. A escrita do meu avô era muito certinha, escrevia autênticos testamentos onde ele dava conta do que estava a acontecer ao país real.”

Em 1 de abril de 1974 Nuno e a mãe chegam a África, comenta o filho: “Muita insistência dela, o meu pai não queria.” Mãe e filho chegaram a Muembe, local onde estava a Companhia de Caçadores que o pai comandava. Nuno não o reconhece. A família fica alojada no aquartelamento juntamente com outros oficiais e as respetivas mulheres. A companhia encontrava-se instalada numa zona montanhosa, cortada por inúmeros rios e linhas de água. Não há população branca na zona de atuação do Batalhão, apenas dois cantineiros. A população vive em aldeamento para onde foi deslocada. Muitos fugiram para o Maláui e para a Tanzânia, e aldeias que se sabe estar sob controlo do inimigo. A população é maioritariamente muçulmana e não fala português.

A conversa de Nuno com as autoras recolhe muitas informações do livro da Unidade. Chegou-se ao 25 de abril e Nuno lembra-se da agitação e da alegria dentro do quartel, veio depois uma grande tensão, pela indefinição relativa ao futuro dos militares. O Batalhão inicia o seu regresso a partir de novembro de 1974. A família regressa a casa. Nascem mais duas filhas. Não se fala da guerra. A mãe não esconde as boas memórias da passagem por África. Com o pai foi diferente, como Nuno relata: “O meu pai tornou-se extremamente violento comigo, e eu atribuo isso também um bocado à cabeça meio esfrangalhada com que ele veio. Houve episódios de violência muito, muito grandes. O meu pai também se reencontrou, mas muito mais tarde.”

Depois da sua morte, Nuno tem participado nos almoços de confraternização da Companhia. “O meu pai destruiu tudo o que tinha a ver com a guerra ou com a memória da guerra.” Dos poucos aerogramas que sobraram, Nuno lê um excerto:
“E por saber que tens ido à praia o pai fez hoje um desenho para colorires. Trata-se de um marinheiro, que está a passear numa praia e tem uma gaivota com um peixe na boca em cima do chapéu. Quando a mamã escrever diz-lhe para ela contar como o Nuno passa os dias, como costuma brincar. E também se desenhas e pintas bonecos.”
E a conversa com as autoras termina assim: “Eu tinha sempre de participar, sempre, o que me faz pensar que também esse exercício, esse jogo contínuo, me levou a ser o que sou hoje, um desenhador.”

No epílogo da obra, as autoras reafirmam que o seu objetivo era de contribuir para um melhor conhecimento deste período. “A separação familiar revelou-se uma experiência avassaladora, com repercussões nos laços entre o casal e os pais com os filhos. Esta vivência torna-se consciente muito mais tarde na vida das crianças envolvidas, hoje adultos.” Consideram que este recuo a memórias da infância, a descoberta de novas fotografias, a reunião com irmãos para falar desses tempos resultou num visível alívio para quase todos. Há filhos que fizeram perguntas ao pai sobre a guerra, as respostas foram raras, por vezes evasivas. E nos relatos onde se usa a crueza de narrar o acontecido, como observam as autoras, mais parecem desabafos escritos para si próprios do que para os filhos, que não podiam compreender do que falava o pai. Falava-se por vezes da fuga das populações, das aldeias dispersas permeáveis à influência do inimigo, há militares que falavam das crianças órfãs então escrevem sobre elas, alguns pensando nos próprios filhos.

O epílogo termina de modo muito poético:
“No regresso, os pais voltaram outros. Como só a poesia, nas palavras de Fiama Hasse Pais Brandão, sabe exprimir:
Outras andorinhas voltam, não as que
partiram dos beirais, no outono.
Mudaram no deserto as suas imagens,
e as que volteiam hoje sobre esta água
no passado conheceram outro destino.
Que lugar trarão na memória dos olhos?”

Terna e estrénua foi a pesquisa, o resultado é este livro esplendente.

Ana Vargas e Joana Pontes
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Notas do editor:

Vd. post de 4 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P27987: Notas de leitura (1919): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (6) (Mário Beja Santos)

Último post da série de8 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28001: Notas de leitura (1920): A biografia de um combatente: O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História (1): I - À guisa de apresentação do ex-combatente e II - Foi assim que cheguei ao Cuor (Mário Beja Santos)