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segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28366: Notas de leitura (1963): "Sobretudo a Agonia, Angola, Memórias de uma Guerra Íntima", por Celso Braga Rosa, Edições Afrontamento, 2025 (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 19 de Maio de 2026:

Queridos amigos,
Começa a ganhar velocidade de cruzeiro esta nova dimensão da literatura da guerra colonial em que os filhos de ex-combatentes vão pelos trilhos do passado, evocam o percurso do pai, no caso vertente Celso Braga Rosa consegue dar-nos o ambiente de horror que se viveu em Carmona (hoje Uíge) na guerra travada entre o MPLA e o FNLA, a fuga dramática de brancos e pretos, os raptos, os roubos, os vexames, a agonia vivida até chegar um avião que os transportou para Portugal. E temos aqui uma relação não conseguida entre pai e filho, como o autor dirá na parte final, a originalidade desta obra assenta também em escritos que são memórias dos outros, portanto citações adequadas e ajustadas, há citações de sufoco, até lamentos por termos perdido a memória como escreveu António Lobo Antunes em Os Cus de Judas: "Tudo é real, sobretudo a agonia [...] Tudo é real menos a guerra que não existiu nunca: jamais houve colónias, nem fascismo, nem Salazar, nem Tarrafal, nem PIDE, nem revolução, jamais houve, compreende, nada, os calendários deste país imobilizaram-se há tanto tempo que nos esquecemos deles [...]."

Um abraço do
Mário



Nascido em Angola, filho de ex-combatente, uma dilacerada relação com o pai

Mário Beja Santos

É um livro que manda respeito, não só pelo alto mérito da narrativa, um estupendo carrossel de memórias órfãs de Angola e de conflitos familiares ainda com muito por resolver; como, igualmente, uma peça de grande calibre para esta nova abordagem da literatura da guerra colonial em que os filhos peregrinam e se encaminham para os locais onde as famílias, ou tão somente os pais, ficaram indelevelmente marcados pelas experiências da guerra, à procura de sublimação, pelo claro entendimento do que ali aconteceu, para que haja reconciliação ou perdão.

Celso Braga Rosa
Sobretudo a Agonia, Angola, Memórias de uma Guerra Íntima, por Celso Braga Rosa, Edições Afrontamento, 2025, é um livro de dor na recuperação da memória, dotado de uma hábil construção, não faltam múltiplas citações e obras de outros autores, mas tudo num rendilhado com forte coesão destas diferentes vozes. O autor é antropólogo, nasceu em 1973 num ponto do Quanza Norte, vivia em Carmona (hoje Uíge) quando se deram os terríveis combates entre a FNLA e o MPLA, obrigando muita gente a fugir dessa quadra infernal.

A figura central desta memória de uma guerra íntima é o fantasma/espectro do pai, um jovem que parecia destinado ao seminário, em Mogofores, e que fugiu para Angola ao encontro do pai, fazendeiro em Quiculungo, e depois fez três comissões militares antes de passar à vida civil. Celso Braga rendilha primorosamente a trama narrativa, aquele pai não embarcou no cais da Rocha do Conde de Óbidos, não houve lágrimas nem lenços brancos, o pai partiu jovem, fez várias comissões militares em Angola, foi desmobilizado, conseguiu emprego em Quiculungo, no Banco Pinto e Sotto Mayor, aqui casou, Celso nasce a 23 de setembro de 1973, o pai irá revelar-se violento, mas muito pouco comunicativo e terno com o filho.

Um dos momentos mais vibrantes desta narrativa passa pelos acontecimentos que viveu em Angola depois do 25 de abril, aqui se retratam os horrores da guerra civil, os combates mortais entre a FNLA e o MPLA, estamos no Kwanza norte, no início dos acontecimentos, tudo parece decorrer na normalidade, as viagens entre povoações, sob proteção de colunas militares, vão gradualmente tornando-se um risco demasiado grande. Em 1975, a caminho da independência, sai-se da paz podre entre os três movimentos, o autor irá descrever os acontecimentos vividos em Carmona. Havia acordos entre FNLA e a UNITA, nessa Carmona depois batizada de Uíge, a população branca era obrigada a ter o cartão de membro da FNLA.

No final do ano as forças do MPLA já controlavam Vila Salazar, depois rebatizada como N’Dalatando, caminharam para Carmona, traziam um poderio militar muito superior ao da FNLA, vão começar os combates nas ruas, e começa então uma formidável fuga numa coluna de viaturas. “Viam-se pessoas desesperadas nos passeios e assistia-se a discussões entre condutores no meio da rua, gritos e choro por todo o lado, carros batidos no meio da estrada. E os tiros e bombardeamentos sempre ali a estalar nos tímpanos, como uma banda sonora macabra. Viam-se grupos de pessoas fugindo a pé ou tentando pedir boleia aos condutores das viaturas que passavam na estrada. Ninguém se importava com ninguém, num salve-se quem puder.”

E assim se fez uma viagem até junto à fronteira com o Zaire, três dias com inúmeros incidentes, vai seguir-se o horror das rusgas e das intimidações Zairenses e dos combatentes angolanos, os fugitivos serão esbulhados nas diferentes triagens. E depois um Boeing 747 da TAP traz a família para Portugal.

Será um regresso inacabado, a vida daquele agregado familiar conheceu uma amputação, como escreve o autor o seu passado é uma imensidão de falhas, de perdas, de grandes silêncios. Ele guarda boas recordações da Nazaré, onde chegaram no mês de fevereiro de 1978, o pai tinha lugar no banco. Ele descreve-nos a adaptação, o grupo de pequenada que se formou, a hostilidade manifesta para quem tinha vindo de África. A mãe voltou ao ensino, o pai progrediu na agência do Banco, tornou-se numa figura de tranche bastante simpática no meio. A irmã de Celso nasce em 1980. Quando vai estudar para Coimbra, Celso sente-se perdido e sozinho, é como que uma ausência de identidade.

E depois os pais divorciam-se, o pai praticamente desaparece da sua vida. Celso regressa a Angola em 2007. Na véspera de partir, recebe um telefonema do pai, queria marcar um encontro. Em 2009, Celso perde a sua companheira, faleceu num acidente de viação e estava grávida. Recebe novo telefonema do pai, Celso, depois da perda da sua companheira, entra no quadro depressivo, tudo se passa em Angola, depois regressa. Em 2019 encontra-se com o pai, almoçam. “Ao regressar a casa depois de almoço, já sozinho, acabei a censurar-me por não ter feito as tantas perguntas que lhe queria fazer, por não o ter colocado frente aos tantos silêncios que queria entender.” Ainda falam ao telefone em 2021, nesse ano o pai morre num acidente de automóvel.

É muito tocante o sentir da despedida que este antropólogo de profissão nos oferece na atmosfera da despedida do seu pai:
“A morte social não se compadece com a morte física. E por isso o meu pai vive ainda porque o escrevo, porque o esquecimento é o único modo de morrer para sempre, e porque acredito que de cada vez que alguém diz o nosso nome, tornamos a viver, nem que seja por um breve instante. Porque nem todas as estórias e vidas ficam registadas em livro, o meu pai, cujo corpo de transmutou em cinzas que foram entregues ao mar de Sagres no mês de novembro, vive ainda em memórias que guardo em caixas que só eu conheço o paradeiro. Vai-se afastando devagar o passado, indiferente, sem se despedir de mim, alheio à herança que me deixou nas mãos e nas páginas. Ao meu pai, que fez finalmente caminho comigo nestas últimas horas e dias, dir-lhe-ia se pudesse, olhando-o nos olhos: a ti calhou-te a guerra, e as guerras depois da guerra.
Calhou-te talvez ser marido sem que o quisesses ser, pai sem que o tivesses verdadeiramente desejado, e a mim, calhou-me ser teu filho, fazer traduções literárias, amar uma mulher de olhos castanhos. Que nem chegaste a conhecer. Este foi um esforço íntimo e assumido de criação e construção de memória, relato de uma viagem que não vai parar de acontecer. Escolhi o que recordar tanto tempo o que deveria esquecer, e nas memórias de outros não só me busquei como essa busca não se revelou infrutífera: encontrei-me nessas memórias alheias, como se, sem que o soubessem, tantos e tantos escrevessem sobre mim há tanto tempo.”


Um belíssimo romance. Uma originalidade na literatura da guerra colonial (haverá quem diga que se trata de literatura da guerra pós-colonial, conceito em que não acredito).

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Nota do editor

Último post da série de 18 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28357: Notas de leitura (1962): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (6) (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28346: Notas de leitura (1960): "O Imenso, Sereno e Doce Rio", de Rui de Azevedo Teixeira; Guerra e Paz Editores, 2023 (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 13 de Maio de 2026:

Queridos amigos,
A literatura da guerra colonial tem uma dívida impagável com o labor de Rui de Azevedo Teixeira, ele organizou congressos internacionais sobre a guerra colonial e a sua literatura, publicou livros como A Guerra Colonial e o Romance Português, é autor de uma biografia de Jaime Neves, oficial dos Comandos que teve um papel preponderante no 25 de novembro de 1975 e como romancista escreveu uma trilogia, aqui se apresenta uma síntese da sua última obra intitulada o Imenso, Sereno e Doce Rio, apresenta-se como o termo de um itinerário que começou na guerra de Angola, Angola a que ele voltará no segundo romance, está agora na meia idade e vai viver uma vibrante paixão com uma militante do PCP, viverão entre os jardins do Éden e os do Inferno, ambos sentiam no outro o fascínio pelo melhor inimigo. O escritor questiona se não se viveu neste romance o triângulo dramático de Circe, Ulisses e Penélope.

Um abraço do
Mário



Oficial dos Comandos em Angola, professor universitário, e agora uma violenta paixão

Mário Beja Santos

A literatura da guerra colonial tem uma dívida impagável com o Rui de Azevedo Teixeira, na foto à direita. Este Doutor em Literatura Portuguesa Contemporânea organizou os dois primeiros congressos internacionais sobre a Guerra de África, bem como os respetivos livros; deve-se-lhe um indispensável estudo sobre a guerra colonial e o romance português, escreveu sobre a guerra em Angola e, mais recentemente, no estatuto de romancista, publicou O Elogio da Dureza, O Longo Braço do Passado e em 2023 O Imenso, Sereno e Doce Rio, Guerra e Paz Editores.

Vamos acreditar que se trata de uma trilogia, em O Elogio da Dureza temos uma mocidade com muitas leituras, uma vida familiar cruenta, sentiu-se impelido pelo fascínio da força, iremos ler o que era a preparação de um Comando, tudo entremeado com passagens daquilo que o autor chama Diário Incerto; fará a guerra em Angola que será um palco revisitado no seu romance O Longo Braço do Passado (não esquecer que o autor foi professor em Angola nos tempos dramáticos da guerra civil). Acabada a guerra lançou-se nos estudos universitários e após a licenciatura ensinou na ilha da Madeira, aqui conhece Iza, haverá casamento “sublime, sólido, sagrado”. E afastamento relacional com os seus pais. No segundo romance, portanto, em Angola, haverá uma paixão que terá triste fim porque Iza é o pilar da vida de Paulo de Trava Lobo.


Estamos agora no terceiro romance, já morreram os pais de Paulo, ele e Iza caminham para a meia-idade, vivem no Porto, ele gosta de estadear umas temporadas na Toca do Lobo, lugar onde passou a sua infância e juventude, continua a dedicar bastante atenção ao seu Diário Incerto, sente-se envelhecer muito devagar, o casal passa férias em antigas colónias e depois recebe convite para vir lecionar em Lisboa. Aqui volta a encontrar Ana Roriz, sua colega e militante comunista no tempo em que ele fora assistente universitário no Porto. Paulo instalou-se perto do Campo Pequeno, a mulher ajudou-o a retocar o ambiente, só que Iza foi convidada a dar aulas em Zurique. Está criada a atmosfera para uma segunda infidelidade, a inevitável tentação e a dita Ana Roriz. Vai agora tecer-se uma tapeçaria em torno de uma relação que se poderia tornar à partida improvável entre uma mulher filiada do PCP e um académico de boa cepa conservadora.

Começam por almoçar juntos, depois passeiam do Saldanha ao Rossio, depois descobrem o Alentejo juntos, vão até Marvão. Muita conversa com muitas tiradas literárias. Iza aparece nos sonhos de Paulo. No seu Diário Incerto, ele apresenta Ana Maria de Jesus Almeida Roriz:
“Licenciada em Clássicas, professora do ensino secundário, requisitada pela universidade para assessorar a vice-reitora. Depois do primeiro divórcio, a senhora dra. Ana Roriz desligou-se um tanto da militância. Regressou em força anos mais tarde. Tão em força que chegou a ser controleira. Os seus dois ex-maridos eram militantes comunistas e o homem com quem vive, um tal João Gomes, também da militância.”

Paulo desabafa, tem uma longa história relacional com os comunistas, como estudante em Coimbra, diz ter apanhado o comunismo nas matas de Angola, apanhou o comunismo no PREC e, sob o comando de Jaime Mendes, tiraram a tosse aos comunas, voltou a apanhar com o comunismo em Angola, considerava-se definitivamente vacinado, não podia deixar de apreciar o idealismo ingénuo de Ana Roriz. Há, contudo, ambivalências e paradoxos comportamentais em Paulo: “O comunismo era um inimigo pelo qual, sem deixar de sentir um ódio consistente, Paulo sentia também curiosidade e, em relação a alguns comunistas mais velhos, respeito e até admiração.” Paulo e Ana personificavam o defeito perfeito.


Em determinados momentos, Paulo via Ana como um robô, engessada na criminosa ideologia marxista-leninista. Têm arrufos momentâneos, há roturas curtas, logo a seguir vibra a paixão, há toques permanentes no telemóvel, separam-se e reconciliam-se. Paulo recorda o seu caso com Diana Sotirova, assunto tratado no segundo romance desta trilogia. Quando a paixão vibra mais forte, evitam-se as discussões políticas. Paula entende que deve dar um quadro da sua formação, ele que foi alferes dos Comandos, “nessa guerra em que uma esmagadora maioria de homens bons lutou por uma ideia, mais do que errada, romântica, fora do tempo”, recorda que o professor da escola primária metia na cabeça dos miúdos a fervente ideia do Império, e fala concretamente de si: “O alferes, o rapaz de vinte anos que, comandando outros rapazes, tinha de se desenrascar mandando matar e matando ele próprio. Um posto bem pior do que o do soldado.” Ana ouve todas estas declarações e já fala em casamento simbólico.

Procuram ter uma habitação para viverem juntos, a solução encontrada foi dececionante, uma autêntica alfurja em Cascais. Paulo viaja até Zurique, regressa e temos novamente os arroubos da paixão. Os meses passam, Paulo já vai dormir a casa de Ana, o tal Gomes vai ficando arredado, um dia será mesmo mandado embora. Temos cenas de ciúmes, aparecem cartas anónimas. Paulo é convidado pela Universidade de Colónia para dar um cursinho sobre temas literários, antes de ele partir viveram a desesperada paixão física, Iza aparece vinda de Zurique, no regresso a Lisboa, Paulo desanca no Diário Incerto a ideologia comunista, não obstante retoma-se o idílio, vivem juntos, aquilo que Paulo chama uma conjugalidade adúltera, há um ciclo de conferências na universidade, Ana tem funções de secretariado, Iza aparece inesperadamente.

O ambiente na universidade não é favorável aos dois, Paulo parte para a Universidade Eduardo Mondlane, Maputo, já se sente em rotura final com Ana. Paulo organiza com Iza quinze dias de férias na África do Sul, o comboio é assaltado por elementos da RENAMO, consegue escapar são e salvo. Em Lisboa, Paulo vê Ana à distância, encontra-se com outros elementos dos Comandos, temos aqui um outro quadro ideológico, falando da situação mesquinha e sem grandeza nenhuma em que vive o país, eles consideram-se os leopardos, os leões, a seguir a eles vieram os chacais, as hienas, tipos que tiraram licenciaturas trafulhadas e pedófilos e condecorações para ladrões. E depois destas jaculatórias de exaltação nacionalista vão pelos bares, como o Procópio e o Hipopótamo.

Paulo acusa os sinais de envelhecimento, passou a viver sob a ditadura das análises clínicas, amolecia com a idade, passou a estar muito mais atento ao sofrimento dos velhos e dos pobres. Iza e Paulo voltam para o Porto, aparece Ana desvairada a querer apunhalar Paulo, o casal Iza e Paulo sai reforçado desta horrível contenda, é um casal que constitui a unidade de contrários, dois rios de vida que, após se terem colado na paixão formaram um imenso rio único. E aqui finda a terceira e porventura última obra deste ciclo romanesco, Paulo de Trava Lobo e Iza Maria Possolo d’Ornellas de Trava Lobo parecem ter pela frente uma velhice pacata, sem sombra de novas infidelidades.

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Nota do editor

Último post da série de 11 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28341: Notas de leitura (1959): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (5) (Mário Beja Santos)

terça-feira, 8 de setembro de 2026

Guiné 71/74 - P28331: Manuscrito(s) (Luís Graça) (294): Parabéns, Zé, ao km 78 da tua picada da vida, que também tem tido minas e armadilhas como a de todos nós...



José Ferreira Carneiro, n. 8/9/1948.
Candoz, Paredes de Viadores,
Marco de Canaveses


Região do Vinho Verde,  
Subregião de Amarante,
Quinta de Candoz


Começou a trabalhar cedo, 
aprendiz de ramadeiro, com o pai,
construtor de ramadas


Mobilizado para Angola, em rendição individual, em 1970/72, numa companhia, que guardava os cafezais,  em Camabatela, no norte de Angola, perto de Negage e de Quitexe (CCAÇ 313, do BCAÇ 13, sedeado em Vila Salazar)


Reformado, dedica dois dias por semana 
à Quinta de Candoz


Casada, em segundas núpcias, com a Teresa,
vive em Matosinhos, Padrão da Légua


As cubas para o vinho há muito que são de inox, 
mas ainda há velhos depósitos de cimento armado...


No outono adora apanhar cogumelos


Velha foto estilizada da família: pais (José Carneiro e Maria Ferreira, já falecidos) e irmãos, segundi a ordem de idade  (António, Rosa, Manuel; Nita, Zé e Alice)... O António esteve no Brasil, foi mobiizado para Moçambique, em 1964, onde foi gravemente ferido... A Nita, faleceu em 2023.


Sócia da Quinta de Candoz, com mais 3 irmãos (Rosa, Alice e Zé), a Nita foi em vida a alma da "casa"

A Quinta de Candoz tem  página na Net

A Alice ("Chita") sempre gostou muito deste maninho...


Na festa dos seus 70 anos, pai e filho (a mãe, a Carmen, morreu cedo)


A família também um blogue, A Nossa Quinta de Candoz



Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto: Luís Graça (2026)
Imagens: Arquivo dos Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné e A Nossa Quinta de Candoz
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


 
Ao Zé, no seu 78º aniversário


Nascido em Candoz, em Entre-Douro-e-Minho,
De empresa de seguros foi tesoureiro,
Mas começou por aprendiz de ramadeiro,
E agora engarrafador-produtor de vinho.

Técnico de gás, profissional liberal...
Homem dos sete ofícios, é um jeitosinho,
José Ferreira Carneiro, nosso maninho,
Também foi parar à guerra... colonial.

E esquecidas, do trabalho, as mazelas,
Setenta e oito anos já foram passados,
Nunca se queixando da perna nem das costelas.

... E tudo fazes por amor, a todos nós,
Os pais e a mana Nita sempre lembrados,
Mas  hoje, Zé, é tua a festa  em Candoz.

Quinta de Candoz,
8 de setembro de 2026, 
dia da festa de Nossa Senhora da Natividade do Castelinho,
Padroeira do concelho de Marco de Canaveses.


A família de Candoz, Porto, Matosinhos, Lourinhã e Lisboa




1. Não fala da guerra colonial. Não fala com emoção desse tempo. Passou, passou, o tempo da tropa e da guerra. Nunca se encontrou com nenhum camarada daquele tempo. Perdeu todos os contactos. Era de rendição inidvidual. Mas gostou de Camabatela e de Luanda.

Era 1º cabo de transmissões de infantaria, Andou na região do café, com a sua companhia mista de metropolitanos e angolanos (CCAÇ 313 / BCAÇ 13) a guardar as costas dos grandes fazendeiros do café. 

Nunca veio de férias. Pelo SPM, a mãe mandava-lhe os salpicões com que matava saudades de casa, a 8 mil quilómetros de distância.  

Mas não ficou na terra, Candoz, Paredes de Viadores, o apelo da cidade grande era maior. Mudou-se para o Porto. Lá podia estudar e fazer-se homem. Nunca gostou da escola. A professor estava alojada na casa dos pais. E batia-lhe à frente deles, e com a cumplicidade deles. Como é que ele haveria de gostar da escola ? Só depois da "peluda" é que fez o segundo ano da escola comercial (regime noturno).

Hoje já tem gmail, como qualquer português que se preze. Mas não faz parte da Tabanca Grande, até porque não esteve na Guiné. Por sorte, é cunhado do editor do blogue (e seu sócio... por estar casado com a Alice).

E é legalmente o produtor-engarrafador do nosso vinho "Nita".  Ele é o mais novo de seis. O caçula.

É trabalhador, é leal, é alegre, é efusivo, é generoso.  É uma "besta de trabalho". Tem às vezes azar com o "esqueleto". Já foi operado à coluna. Já partiu uma perna. E já teve uma ameaçozinho de AVC. 

Aqui vai, com todo o carinho que temos por ele,  eu, a Alice e demais família, um soneto para o nosso Zé, que só amanhã vai ter direito a festa e a rancho melhorado. Mesmo em dia de anos, há imprevistos.  E Candoz fica a 70 km do Padrão da Légua, já nio limte do distrito do Porto. 

Amanhã, é quarta feira, é dia de trabalho. É preciso preparar tudo para as vindimas, marcadas para os dois próximos fins-de-semana.  Mas vou ler-lhe, comn todo o gosto, este soneto e beber comn ele uma "champanha".

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 18 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28268: Manuscrito(s) (Luís Graça) (293): À Alice, oferta do livro "Luuanda: estórias", do José Luandino Vieira, com dedicatória, dactilografada, em francês, e datada de 17 de maio de 1975

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28329: Notas de leitura (1958): “Pai, tiveste medo? A guerra contada é muito diferente da que foi vivida”, por Catarina Gomes; Matéria Prima Edições, 2014 (3) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 12 de Maio de 2026:

Queridos amigos,
Creio de ser muito de salutar esta emergência de novas dimensões da literatura da guerra colonial, temos um acervo de décadas com romances, novelas, contos, poesia (incluindo a popular), as obras memorialísticas, a historiografia; gradualmente, foram aparecendo narrativas sobre as mulheres que acompanharam os seus maridos nas comissões militares, as enfermeiras paraquedistas, os retornos de ex-combatentes aos locais onde tinham vivido; mais recentemente, entram em cena os filhos desses ex-combatentes e episódios colaterais, como Catarina Gomes nos conta neste seu magnífico trabalho de investigação em que há filhos que vêm depor sobre o stress pós-traumático dos pais, histórias mirabolantes de correspondência com muitas madrinhas de guerra, até chegarmos à tocante adoção de Pedro Luqueia de Santarém, uma criança encontrada numa operação no norte de Angola, em outubro de 1962 e que foi adotada por um Esquadrão de Cavalaria. É uma nova forma de rever o passado em que os atores são os filhos que se debruçam com o que há de fascinante sobre tais comissões militares que tiveram a virtualidade de mexer com a vida das famílias, para todo o sempre.

Um abraço do
Mário



Pode um filho ter memórias de uma guerra que nunca viveu? - 3

Mário Beja Santos

Multiplicam-se os casos em que a literatura da Guerra Colonial revela uma nova dimensão: são os filhos a visitar os locais onde os pais combateram, os filhos de uma relação entre ex-combatentes e mulheres de Angola, Guiné e Moçambique à procura dos pais e de uma identidade; memórias e testemunhos de mulheres e filhos, e sobretudo estes que querem entender o que o pai viveu na guerra, fazem perguntas depois de ler as cartas que eles trocaram com as suas mulheres ou namoradas, isto sem já falar em recordações de infância marcadas pela violência da guerra. Catarina Gomes é hoje um nome firmado neste tipo de investigações, o que vem conferir uma abordagem diferente àquela literatura em que a memória ou a ficção do ex-combatente estava no primeiro plano.

O livro de que estamos a falar intitula-se Pai, tiveste medo? A guerra contada é muito diferente da que foi vivida, Matéria-Prima Edições, 2014. Em textos anteriores já foram expostas situações do stress de guerra e violência familiar, doença que dá pelo nome de Perturbação Pós-Stress Traumático de Guerra, de um militar que dedicava o seu tempo livre a escrever às madrinhas de Guerra, de uma menina nascida na Guiné cujo pai, à viva força a trouxe para Portugal e foi educada pela avó, falou-se de heróis de militares que refizeram a sua vida em ambiente colonial, de um aviador desaparecido em combate em Moçambique que levou uma viúva ao desespero, sempre na esperança de reencontrar o seu marido.

Hoje mudamos de azimute. Tiago Teixeira, nascido em 1978, é médico voluntário no hospital de Cumura, tenta salvar doentes com tuberculose e VIH/Sida. “Tiago andou por esse país na infância, numa sala de estar no Porto, aos sábados de manhã, sentado ao colo do pai, a olhar aquelas fotos a preto e branco que vinham acompanhadas de nomes de sítios estranhos, como Empada, Mampatá, Bolama.” O filho pensa que o pai nunca lhe escondeu nada, que lhe contava tudo, ele acha que era mais por ele do que pelo filho. Em adolescente, começou a atender telefonemas dos colegas do pai, iam estar presentes com a família nos convívios dos ex-combatentes. Em 2005, o pai e dois colegas seguiram num jipe para a Guiné, anos depois, com um grupo de ex-combatentes criou uma Organização Não Governamental para o Desenvolvimento, a Tabanca Pequena Grupo de Amigos da Guiné-Bissau.

Apareceram melhoramentos na vida dos guineenses, poços de água, canoas a motor. Tiago conta que aquele álbum da infância foi também ganhando vida na mão de pessoas que o pai visitava nas suas idas à Guiné. Uma noite Tiago escreveu, depois de regressar do hospital de Cumura: “Acho que é um regresso em nome do meu pai, da sua fidelidade a esta terra e a esta gente, que o marcaram para a vida, que me marcaram para a vida… É como se um fio me unisse à história do meu pai com este povo há muitas décadas, e eu viesse para aqui para continuar essa história.” O pai de Tiago Teixeira é o nosso confrade José Teixeira.

João Fernandes Saido Jaló lembra o seu pai, o Capitão João Bakar Jaló, um herói militar guineense que combateu do lado português, condecorado com a Torre e Espada. João tem plena consciência das mudanças que ocorreram com a morte do pai, tinha ele oito anos, morto o herói, cresceram as dificuldades, conheceu os calções rotos, andou com os pés descalços, passou a ir buscar lenha ao mato. Com o fim da colónia, seguiram-se os ajustes de contas, os fuzilamentos, o tio, por ser irmão do pai, foi torturado. Em 1976, ele e a família foram expulsos da casa em Catió, as medalhas e as fotos do pai foram confiscadas. João pediu a um professor que lhe redigisse uma carta em português, a pedir para ir para Portugal estudar, entregou-a na Embaixada de Portugal em Bissau, seguiram-se as tentativas de correspondência para Portugal, em 2002 João aterrou em Lisboa a primeira vez; em 2009 foi-lhe concedida a nacionalidade portuguesa. Estuda, acabou o décimo segundo ano, é vigilante na zona de Torres Novas, sonha licenciar-se em Direito.

Trinta e três anos depois de ter voltado da guerra colonial em Moçambique, 29 anos depois de Joana ter nascido, ela e a irmã receberam do pai, como prenda de Natal, um volume cuidadosamente encadernado, mas que devia ser de fabrico caseiro, tinha como título Cacimbo. Sabia que o pai tinha estado na guerra, tinha pisado uma mina, ficou a saber como tudo se tinha passado. O volume tem sublinhados da Joana, há desabafos do pai, tais como: “estarei condenado a ser um limitado descrente onde não cabe a transcendência divina.” E “o mundo não tem poesia nenhuma. Estética nenhuma. O mundo é um acumulado de ocorrências avulso.” Há lembranças da enfermeira-paraquedista que o socorreu depois da explosão da mina; mas para Joana o livro e o blog onde o pai colabora ajudam-na a descodificar o que o pai é por causa da guerra.

“Apesar de uma experiência tão longínqua, num continente onde Joana nunca esteve, há pontes que consegue fazer com ele, como quando o pai se transporta no livro, do chão do pó da picada, onde pisou a mina, para o chão de pó do Largo do Sobreirinho, onde jogava futebol na infância, na aldeia de Aguim. É nesse sítio onde a infância do pai se cruza com a sua que foi implantado um memorial, ‘um paralelepípedo em homenagem aos da aldeia que combateram na guerra colonial’, erigido por iniciativa dos próprios. Para não ferir suscetibilidades, o pai contribuiu. Joana sabe que para o pai não faz sentido que sejam as próprias pessoas a ergueram estátuas às suas memórias. Na escola, Joana não se lembra de ter aprendido sobre a guerra colonial; o que sabe é o que lhe vem do pai e é tudo quanto quer saber sobre o tema.”

Era inevitável, Miguel fala da sua mãe a então furriel enfermeira paraquedista Maria Emília Carvalhinho, seu nome de casada. Os pais do Miguel conheceram-se na base de Tancos. O álbum da mãe fala por milhentas palavras, está ali a referência explícita àquela geração de mulheres que teve a experiência única da emancipação. “Olho para a minha mãe como uma pessoa corajosa, que trocou um percurso previsível por um percurso novo, de algum modo assustador. O facto de ter tido esta mãe abriu-me a mente. Há muita coisa na sociedade atual em que não avançámos. As mulheres sacrificam carreiras para ter família, as mulheres grávidas são discriminadas e podem perder o emprego.” Para Miguel aquela história da mãe pioneira como enfermeira paraquedista ensinou-lhe que as mulheres podem fazer o que bem entenderem com as suas vidas.

Temos por último a história de Pedro Luqueia de Santarém. Tudo começou com a Operação Golpe Baixo, a 16 de outubro de 1962, na povoação de Bembe, no norte de Angola, esteve envolvido o Esquadrão de Cavalaria 122. No regresso, vem uma criança a quem se pôs o nome de Pedro Luqueia de Santarém, porque era o que tinham em comum os homens que o adotaram. Passou a ter identidade e foi batizado. Foi encontrado na operação todo nu, teria cerca de 4 anos. Tornou-se na mascote da companhia, aprendeu a falar português, passou a fazer parte da vida dos militares, veio com eles para Portugal, foi acolhido pela mãe do alferes Sá, numa vilinha no norte de Portugal.

Pedro ingressou como interno nos Pupilos do Exército, entrou depois no Instituto Superior Técnico, onde se formou em Engenharia Eletrotécnica. “Há uns anos Pedro foi a um almoço-convívio do Esquadrão de Cavalaria 122, com a sua mulher e os dois filhos, e esteve tempos infinitos só a cumprimentar familiares de militares.” Mas a história não fica só por aqui. “Pedro tem de Angola, de África, o nome do local de nascimento que lhe vem escrito no bilhete de identidade, o nome do rio angolano que é o seu apelido do meio e a cor preta que é só a da pele, o que ele diz que em Portugal foi ficando branco. Gostava muito de ter a nacionalidade angolana, mas é preciso provar que nasceu lá. Já foi à Embaixada, mas teria de ir ao registo em Angola. Acha que nunca vai conhecer ninguém da família que o ajude a interpretar o que a sua memória entendeu reter, mas continua a colher indícios que o ajudem a perceber quem é, a preencher os vazios de um filme de que só conhece pedaços. Tenta não pensar no que podia ter sido a sua vida.” E conclui com um pensamento positivo: “Estás aqui, não vale a pena. És feliz, apesar de tudo, não há outra hipótese de ser feliz.”

Assim se põe termo a este belíssimo trabalho de investigação de Catarina Gomes.
Catarina Gomes, imagem do Público, com a devida vénia
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Notas do editor

Vd. post anterior de 31 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28309: Notas de leitura (1956): “Pai, tiveste medo? A guerra contada é muito diferente da que foi vivida”, por Catarina Gomes; Matéria Prima Edições, 2014 (2) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 4 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28320: Notas de leitura (1957): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (4) (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28309: Notas de leitura (1956): “Pai, tiveste medo? A guerra contada é muito diferente da que foi vivida”, por Catarina Gomes; Matéria Prima Edições, 2014 (2) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 23 de Abril de 2026:

Queridos amigos,
Temos aqui recordações de filhos, Maria Júlia de Sá da Costa Deitado, filha de um fuzileiro português e de mãe guineense, o pai trouxe a menina à viva força, ela foi educada no Barreiro pela avó, o pai sempre ausente, conheceu a mãe tardiamente, mas o seu afeto profundo é pela sua avó-mãe; em casa do André Fernandes há uma cabeça de veado embalsamada que o remete para a vida feliz da sua família em Luanda, os pais casaram em julho de 1975, fugiram para Portugal, onde André nasceu em 1980, o pai combateu em Angola de 1965 a 1968, mas Angola ficou como um cenário de vida, não como um cenário de guerra; Mariama Sambú é filha de dois combatentes do PAIGC, nasceu em 1973 no mato, o pai foi piloto-aviador guineense, distinto, morreu num acidente aéreo, Mariama vive em Massamá com três filhos, quando entra em casa dá sempre com a fotografia do pai; Pedro Ventura é filho de outro piloto que desapareceu em Moçambique, terá sido atingido e caiu no Rovuma, conta-se a história das múltiplas diligências da mãe que acreditava que o marido tinha sobrevivido, Pedro tinha dois anos quando o pai desapareceu. Foi a partir do momento em que foi pai que um pai mais lhe fez falta. Este livro de Catarina Gomes é mesmo uma porta de entrada para dimensões da guerra colonial que permanecem nos corações dos filhos de ex-combatentes.

Um abraço do
Mário



Pode um filho ter memórias de uma guerra que nunca viveu? - 2

Mário Beja Santos

Multiplicam-se os casos em que a literatura da Guerra Colonial revela uma nova dimensão: são os filhos a visitar os locais onde os pais combateram, os filhos de uma relação entre ex-combatentes e mulheres de Angola, Guiné e Moçambique à procura dos pais e de uma identidade; memórias e testemunhos de mulheres e filhos, e sobretudo estes que querem entender o que o pai viveu na guerra, fazem perguntas depois de ler as cartas que eles trocaram com as suas mulheres ou namoradas, isto sem já falar em recordações de infância marcadas pela violência da guerra. Catarina Gomes é hoje um nome firmado neste tipo de investigações, o que vem conferir uma abordagem diferente àquela literatura em que a memória ou a ficção do ex-combatente estava no primeiro plano.

O livro de que estamos a falar intitula-se Pai, tiveste medo? A guerra contada é muito diferente da que foi vivida, Matéria-Prima Edições, 2014. Já aqui fizemos referência a um prisioneiro de guerra, a um fuzileiro a padecer da Síndrome da Perturbação Pós-Stress Traumático de Guerra, da curiosidade de uma criança que foi remexer numa mala do pai, dos tempos da sua comissão em África e encontrou uma imensidão de correspondência com madrinhas de guerra, uma delas, de nome Mimi, era a sua mãe.

Por portas e travessas iremos de novo até ao fuzileiro que tinha manifestações violentas com a família, ele era pai de Maria Júlia de Sá da Costa Deitado, nascida em 29 de março de 1965. A menina foi educada no Barreiro, fazia perguntas sobre a mãe, o pai respondia que era bonita, simpática e jovem e um nome que soava a português, Maria Augusta de Sá. Maria Júlia guardou esta mágoa do pai que lhe omitia o outro lado da sua ascendência, sentia-se incompleta, mesmo tendo uma vida confortável com a sua avó paterna a fazer as vezes de uma mãe. O pai voltou a casar, teve mais três filhos, mas a Júlia nunca viveu com ele, permaneceu sempre com a avó. Até que um dia, tinha ela dezassete anos, apareceu lá em casa um primo da mãe, ofereceu-se para estabelecer as pontes de ligação.

E um dia Júlia viajou para a Guiné, houve um desacerto para o encontro, Júlia não esmoreceu, passou dois anos a planear uma nova oportunidade, e deu-se a felicidade de se abraçarem, emocionadas, a mãe falando crioulo, a filha falando com o coração; “soube-lhe bem saber pela mãe que não nasceu do acaso, que o pai era bem aceite e acarinhado pela família da mãe, que a mãe tinha gostado muito do pai, soube que o pai chegou a propor à família da mãe de Júlia trazê-la a ela e à bebé para Portugal, os pais recusaram, ela fora roubada, o pai entregara-a à sua mãe, a avó quis que o pai a trouxesse para Portugal.” E houve desaparecimentos, morreu o tal primo num desastre aéreo e pouco depois a mãe. A morte da mãe acendeu em Júlia a vontade de ser mãe. Nunca aconteceu.

Temos agora outra história intitulada Cabeça de Veado, porque tudo começa com uma cabeça de veado embalsamada na parede da cozinha. André sabia que o pai conhecera aquele veado vivo. O pai vivera em Angola, levara uma vida feliz, tinha ido para lá com 13 anos, os pais casaram em julho de 1975, em Luanda, no meio do tiroteio da guerra civil. André nasceu em 1980, o pai teve uma perda crescente de audição, já reformado decidiu criar o núcleo de Sintra da Associação Portuguesa de Deficientes das Forças Armadas. Resta esclarecer que o pai teve dois anos de comissão, de 1965 a 1968, mas para André, Angola é o cenário de vida, não é cenário de guerra. Sem nunca lá ter estado, com aquelas recordações da cabeça de veado e de uma pele de onça que chegou a haver no corredor, ele um dia quer voltar a essa Angola onde o pai fora manifestamente feliz.

Nova história, envolve Mariama Sambú, a filha de um herói. Falamos de um herói do PAIGC, os pais foram combatentes, Mariama era transportada às costas enquanto bebé, tinha poucos meses quando, um lugar remoto de Boé, foi declarada unilateralmente a independência da Guiné-Bissau. O pai recebeu uma bolsa para estudar na ex-União Soviética, voltou à Guiné quando Mariama tinha 9 anos, ela foi viver com o pai na base aérea. Ela sentia que o pai, Serifo Sambú, era admirado. Viveu com ele dos 13 aos 15 anos. O pai tinha 38 anos quando morreu num acidente de viação. A sua fotografia está pendurada na casa de Mariama em Massamá, concelho de Sintra, ela é guineense e portuguesa, tem três filhos nascidos portugueses. Sente a discriminação, sempre que há discussões, há um dito insidioso “volta para a tua terra” e ela a responder “sou de cá, tenho muita pena”. Ela tem a mesma idade que a Guiné, nasceram as duas no mato, em 1973.

Passamos agora para o dossiê do Capitão Ventura. Desde pequeno que Pedro Ventura tinha acesso a um dossiê preto malhado, nele estava inserido um louvor ao seu pai, era tratado como um valoroso piloto de combate, e foi em combate que desapareceu. Há duas fotografias em que ele está com o pai, tinha dois anos de idade, foram tiradas no ano em que o pai desapareceu, 1973, o pai e a mãe estavam na base aérea de Mueda, Pedro ficou com os avós maternos. A mãe iniciou uma busca, guardava a esperança de que, mesmo tendo sido abatido o avião, o marido não perdera a vida. Naquele mesmo dossiê preto-malhado guarda-se o formoso cortejo de diligências, a mãe disparou em todas as direções. Em dado momento, o Estado português deu o caso como encerrado, houve funeral com honras, mas a mãe mantinha-se obstinada, chegavam-lhe cartas pondo a hipótese de o marido ter sido fuzilado após o 25 de abril. Uma mãe que foi de uma dedicação extrema, Pedro agradece-lhe a capacidade de lhe ter dado equilíbrio emocional, ela e os avós.

Decorreram várias décadas, o dossiê que reabriu para mostrar a Catarina Gomes estava há anos fechado numa arrecadação. Uns bons anos atrás chegaram-lhes as imagens de um casamento para o qual os pais tinham sido convidados, imagens que ele guarda no computador, o pai um mês antes de ele nascer. “Para mim é um momento histórico. É a única imagem que tenho dele em movimento.” São escassos segundos, seis, Pedro sente que é a cópia do pai. “Emociona-se? Não há emoção, porque o pai é uma personagem, é o piloto-aviador Ventura de quem a mãe andou toda a vida à procura. Tem dele a descrição das características de um herói. Nunca lhe ouviu a voz, no filme do casamento ainda não havia som. Foi a partir do momento em que foi pai que um pai mais lhe fez falta.”

Vamos continuar, ainda há mais relatos emocionantes, são histórias que constituem uma porta de entrada para diversas dimensões da história da guerra colonial que permanece na vida de outros. Até hoje.


Catarina Gomes, imagem do Público, com a devida vénia

(continua)
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Notas do editor

Vd. post de24 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28288: Notas de leitura (1954): “Pai, tiveste medo? A guerra contada é muito diferente da que foi vivida”, por Catarina Gomes; Matéria Prima Edições, 2014 (1) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 28 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28303: Notas de leitura (1955): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (3) (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28236: Contos com mural ao fundo (Luís Graça) (45): O último candando

Portugal > s/ l > s/ d>  Tasca do Jacinto, retornado. Início da primavera, tempo de favas. Dois homens na casa dos setenta e muitos anos conversam à mesa, um copo de vinho tinto, um cesto de pão e um prato fumegante de favas suadas com chouriço e coentros. A luz entra pela janela, criando um ambiente quente e nostálgico. Ao fundo, uma parede caiada com fotografias antigas e um relógio parado. Estilo de aguarela realista, cores suaves, atmosfera de memória, amizade e passagem do tempo.

Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto: O último candando (conto de Luís Graça, 2026)
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


O último candando

por Luís Graça


− Eu era capaz de oferecer o meu lugar no reino dos céus por um prato de favas suadas!... Antes que se faça tarde…

− Tarde ?!... Estás com maus pressentimentos, ou quê  ? O que queres dizer com isso, Arsénio?... E, por favor, não blasfemes…

− Calma, senhor provedor, não invoquei o nome de Deus em vão… Também andei na catequese como tu, embora em África…

− Mas o teu catecismo não era o mesmo que o meu, aposto… 

− Olha, a mim quem me dera saber se tenho um lugar reservado no céu…

− É com essa que Deus nos trama… Mantém o suspense até ao fim… 

− Ah!, ah!, para ti, António, está mais do que reservado!... Vais lá estar  de pedra e cal,  à direita de Deus Pai!...  

− Obrigado, Arsénio, mas não gosto falar dessas coisas... Que história é essa, afinal,  das favas ?!

− É o que me estava mesmo a apetecer agora, um prato de favas suadas…

− Abriste-me o apetite. Também já ia… E estamos em março, é a altura delas. Vamos almoçar ao Jacinto... 

− Boa ideia, alinho nessa... Pode ser que a santa da Bia nos arranje favas.

−  Nem que seja um pires de favinhas, como entradinha, com coentros e chouriço de porco preto alentejano…

− Sabes, tenho medo de me esquecer como se chamava o prato de favas suadas feitas pela minha mãezinha, com tanto amor e carinho…

− Ah! , a nha Bertinha, de saudosa memória…

− … E sobretudo medo de esquecer a delícia do seu sabor, os cheiros do almofariz da nossa cozinha, enfim, as memória que me vêm dos tempos da meninice em Angola.

− Ó engenheiro!..., estás com a doença do Alemão, ou quê ?!...

−  Só Deus e os médicos é que sabem… A tal doença que nenhum de nós ousa nomear. Mas acho que ainda não a tenho, meu caro António…  Os neurónios  por enquanto estão no sítio...

− Mas quem te pode garantir que a não vais apanhar, a dita cuja?...

− Cruzes, canhoto!... A única coisa que me aterroriza, mais do que a morte, é perder a memória, a identidade... e alguns dos cinco sentidos, como o gosto, o olfato, o tato... E, já agora, a tusa...

− Terror por antecipação, Arsénio… Mas essas reminiscências da infância, quando recorrentes, dizem os entendidos, podem muito bem ser o primeiro sintoma precoce da doença do Alemão…

− Achas ?!...

− Disse-me há tempos a neurologista do Santa Maria, que me acompanha...  Lembras-te das favas suadas da senhora tua mãe que Deus já lá tem, mas não do que comeste ontem…

− Tens razão… E não me lembro mesmo!... Fora de brincadeira, dizem que para lá caminhamos todos…

− As demências ?!... A menos que apareça, um dia destes, a tal droga milagrosa que nos há de salvar da amnésia total…

− Já não será para os dias que me restam…

− Não sejas tolo, Arsénio... E depois, não vês o cancro ?!... Todos os anos saem novos medicamentos inovadores.  Confia em Deus e na Ciência.

− Ah!, a indústria da doença: quem entra num hospital, já de lá não sai… Há um cerco médico, vê o meu irmão: já não lhe bastava ter que fazer hemodiálise três vezes por semana… E quando estava para fazer o transplante, zás!, tocou o gongo dos setenta anos!.. Tiraram-no logo  da lista.... 

− ... e ele desistiu de viver. Uma crueldade...  

− Porra, António, morreu aos setenta, à espera de um rim!... Velho, com bilhete de identidade vitalício!... 

− É agora o que nós somos, meu amigo. Duplos VV,  velhos vitalícios...A mim também me puseram o carimbo, quando arrumei as botas aos setenta!

− Mas a ti ainda te fizeram uma festinha…com direito a uma salva de prata e uns versinhos recitados pelas criancinhas…  

− Até houve balões, coisa que eu sempre detestei.

− E o que é que tu querias mais, meu velho e caro amigo, dr. António Queiroz, agora dedicado e piedoso provedor da Santa Casa da Misericórdia da nossa parvónia ?!

− Gratidão, verdadeira gratidão… E não reverência cínica!...  No último dia de trabalho, dão-te um chuto no rabo.

− Mas ergueram-te um busto, em bronze, ah!, ah!..

− …um mamarracho, piroso, que está lá no átrio… Por mim, bem o mandava para o ferro-velho!

− Não sejas tonto, António, custou uma nota preta!… A mim, nem isso, nem salva de prata, nem versinhos, nem balões…  

− Oh!, pá, mas ainda não morreste, que eu me tenha dado conta!... Ou sou eu que já estou com a doença do Alemão ?!

− Não, ainda não morremos, nem tu nem eu!...Felizmente!... Ou melhor, eu já morri, da minha primeira vida. Morte social, que não é menos cruel que a morte física que me espera, um dia destes…

− Morte social ?!... Dizes bem. Foi por isso que eu também nunca mais lá voltei, à  IPSS que ambos ajudámos a criar, a acarinhar,  a crescer. E tu ainda mais, Arsénio, que andavas na política, tinhas bons contactos em Lisboa e puxavas os cordelinhos, quando era preciso mais umas c'roas...

− Sempre a pensar no interesse da terra do meu querido pai... Mas poucos já se lembram desses tempos!… E, sem memória, não há gratidão!

− Dizes bem:  sem memória, não há gratidão!... Essa é outra forma de doença do Alemão, a que dá no povo…

− … ingrato,  abusador,  cobarde, 
o Zé Povinho. Ao vilão dá-lhe o pé, toma-te a mão... É incapaz de um candando, um abraço de gratidão! Só sabe fazer um manguito... nas tuas costas.

− Mas tu também não tens lá ido, à nossa IPSS, nem na festa de Natal ?!...

− Nunca mais lá pus os pés. A minha vida social acabou há muito, desde que larguei a política.  

− Lembro-me sempre do tipo que eu fui substituir, o dr. Veloso, o professor do Colégio… No dia seguinte, depois de deixar o cargo, deu-lhe a veneta, quis ir matar saudades e foi lá cumprimentar a criançada, a velhada, a gajada… Ele era a delicadeza em pessoa. 

− Quem, esse palerma ?!... Desculpa lá, já estava xexé...

− Sabes o que é que eu ouvi, sem querer (a porta do gabinete estava entreaberta), da parte de um grupinho de senhoras (educadoras, auxiliares e até a nossa antiga secretária e assistente social) ?

− Não, mas imagino…

− Estavam na galhofa, e a cochichar entre elas, deu para ouvir: “O que é que o filho da puta do velho está aqui a fazer?!”…

− Assim, sem mais nem ontem ?! Filho da puta ?!

− Isso mesmo, e ainda dizem que nós, os homens, é que somos ordinários… E toda a gente a saber que tinha sido ele, o meu antecessor, quem estabeleceu (ou melhor, propôs, em Assembleia Geral) o limite dos setenta anos para o exercício de cargos diretivos. 

− Das catraias era de esperar tudo, mas logo da nossa querida assistente social! … Afinal, António, quem vê caras, não vê corações…

Neste cenário faltava aqui eu, o terceiro pé da tripeça. Costumava encontrá-los, a estes "dois velhos marretas"  nos sítios habituais da pacata cidade de província onde então vivia: o barbeiro que falava mal de todos os governos, a tasca do Jacinto, o Café Central, o Museu Municipal, a Universidade Sénior, o Clube Náutico  e, claro, a IPSS, a associação privada de solidariedade social que era o orgulho da terra, e a que eles, os dois,  estiveram ligados desde a sua fundação.

Eu sabia da história de vida de ambos, mesmo sendo um estranho, para não dizer um “outsider”, chegado entretanto  do estrangeiro, mais exatamente do Luxemburgo, a minha segunda pátria.

O homem, o engº. Arsénio Marques, que temia a "doença do Alemão", o Alzheimer (sem nunca o nomear), morreu há pouco tempo. Não teve "funeral de Estado" mas o município  acabou por fazer-lhe uma discreta e cínica homenagem,  a título póstumo: numa sessão da assembleia municipal, foi aprovado por unanimidade  um voto de pesar pelo seu falecimento e foi-lhe atribuída  a medalha de ouro de mérito municipal.

  Tarde e a más horas, como se costuma dizer. Mas em Portugal é assim: a besta, na hora da morte, passa a bestial...

O outro, o dr. António Queiroz, que fora diretor da IPSS que geria várias creches, jardins de infância e lares de idosos em todo o concelho, e depois provedor da misericórdia local (o último cargo que exerceu, numa instituição mais virada para a saúde), está agora doente.  Sabia que sofria da doença de Parkinson, mas deixei-o de o ver, depois que passou a  residir  em Lisboa,  num lar da Misericórdia.

Ambos, o Arsénio e o António, eram do mesmo partido, mas com sensibilidades e experiências de vida muito diferentes.  O António era um típico advogado de província. E o Arsénio, bom...  É dele, de resto,  que eu quero falar: retornado, engenheiro técnico, empresário, autarca, dirigente partidário, figura grada da terra. 

Os seus mandatos como autarca a seguir ao 25 de Aril não terão sido pacíficos ou consensuais. A avaliação dependia muito das simpatias ou antipatias pessoais e partidárias. Diabolizado por uns, santificado por outros, não deixava ninguém indiferente.

A seu favor tinha a construção de todas as infraestruturas e equipamentos sociais que fizeram a terra dar "um salto para o século XX"… 

Abriu estradas e vias pedonais, pôs rotundas em todos os cruzamentos, construiu em altura na orla costeira, fez  a rede de saneamento básico, criou o parque industrial, ofereceu terrenos aos investidores de fora,  etc.  Ah!, e deu emprego a muita gente, na câmara e nos serviços municipalizados,  desenvolveu o turismo, etc. Em suma, "pôs a terra no mapa"... 
 
Os insultos grafitados nas paredes da câmara municipal irritavam-no solenemente… Chegou a contratar uma empresa de segurança para apanhar em flagrante delito os autores dos grafitos… 

Até tinha uma família, decadente mas ainda com brasão, de alcunha os "Távoras", que concitava os seus ódios de estimação por causa de um polémico processo de expropriação de terrenos.

 E com o padre da terra as suas relações também também eram de cortar à faca.  Um dia, o padre, que era dos tesos,    ostensivamente recusou  dar-lhe a comunhão quando soube que ele mantinha uma amante, mãe solteira, no concelho vizinho.

Só o conheci no ocaso da sua vida política. Era ainda um cacique à moda antiga... e perdia-se por um rabo-de-saia ou uma carinha laroca, diziam as más línguas.  Personalidade truculenta,  tinha uma frase lapidar, reveladora da sua repugnância quase atávica para o compromisso, a negociação e o consenso:

− Não se pode agradar a gregos e troianos, e quem os seus inimigos poupa, às mãos lhe morre.

Os pais do eng.º Arsénio Marques haviam-se conhecido em Cabo Verde. O pai fora expedicionário em São Vicente, durante a II Guerra Mundial. Cavador de enxada, tocador de concertina e poeta popular. A mãe era de Santo Antão, filha de pequenos comerciantes, neta de padre excomungado, e bisneta de um desterrado. 

Depois de cumprido o serviço militar, o pai do Arsénio fixou-se em Angola, empregando-se nos caminhos de ferro de Benguela. A mãe, depois de uns tempos no Continente,  aguardando a "carta de chamada", seguiu-lhe os passos. Ele nasceu em 1944. Foi a avó paterna, estremenha, que transmitiu à mãe, crioula, os segredos gastronómicos da família do continente, incluindo as famosas favas suadas.

Não sei muito da sua vida em África. Mas, perguntará o leitor: onde e como nos conhecemos, eu e o Arsénio Marques ?

Eu explico… mas primeiro tenho que falar um pouco de mim… Sou ribatejano da beira rio. Emigrei, "a salto", para o Luxemburgo, em meados dos anos 60, como outros jovens da minha geração, para fugir à tropa e à guerra colonial.  

Confesso que ainda hoje não sei por que razão é que escolhi uma  terra que não era minha, para voltar ao meu país natal e viver o meu último terço ou quarto de século de vida. Tinha sessenta e tal anos em 2009, uma razoável reforma (por comparação com os padrões portugueses da época) e umas boas economias (para quem tinha começado como eu a ganhar a vida como ardina…). Com isso comprei um apartamento à beira-mar, um T3  para receber filhos, netos e amigos e sobretudo poder contemplar o pôr-do-sol à beira do Atlântico com as Berlengas e o cabo Carvoeiro no horizonte.   

Fiquei viúvo relativamente cedo, aos 50 e tal anos. A mulher da minha vida morreu de cancro da mama. Era italiana, ou melhor napolitana.  

Tudo isto para explicar por que é que eu sou mais espetador do que ator, na terra que me acolheu, depois de regressar do Luxemburgo. Aqui estive ligado à animação sociocultural. E exerci, nos primeiros tempos, os mais diversos ofícios, tópicos do "imigra'  até chegar ... a autarca! 

Fixei-me nesta cidadezinha do Oeste Estremenho... Um dia, há muitos anos, vim cá com uma representação municipal e uma banda filarmónica.  Do meu município luxemburguês (que não  identifico, porque o país é uma aldeia). Na altura era aqui presidente da Câmara, o engº. Arsénio Marques. Estava no auge da fama, da glória e do proveito. 

Ele tratou-me muito  bem (a mim e aos meus munícipes). Ficámos amigos. Ou melhor, simpatizámos logo um com o outro. Desafiou-me a ficar ou a voltar, quando me reformasse. Ou sempre que me apetecesse.

No Luxemburgo sempre o tratei também muito bem,  fazendo jus à  tradição de hospitalidade do grão-ducado. Uma terra que ele também aprendeu a amar.  Sempre pusemos de lado as nossas diferenças políticas, ele situava-se mais à direita, eu mais à esquerda. Mas era um "charmoso", como dizia a minha mulher que ainda o chegou a conhecer.

Depois ele perdeu as eleições (ou já não podia legalmente concorrer a novo mandato, não sei ao certo). Ainda tentou uma carreira política a nível nacional, mas puseram-no na prateleira. 

Zangado com o seu partido, bateu com a porta e continuou a dedicar-se aos seus negócios.  E a comenda de Belém, que lhe haviam prometido,  nunca chegou em tempo útil, ter-lhe ia feito muito bem ao ego (e à saúde mental)...

No bom tempo, e graças aos amigos de Benguela, do Huambo e de Luanda, matou o galo da UNITA e engoliu o sapo do MPLA (quer dizer, a estrela,  que é bem  mais  indigesta)... Tinha amigos de um lado e do outro, gabava-se ele.

Fez alguns bons negócios, na área da engenharia, planeamento urbano e arquitetura, com um conhecido general que era do seu tempo de liceu, e considerado  um dos heróis da batalha do Cuito Canavale.

Também chegou a ter, a meias, com esse general, uma empresa de construção civil e obras públicas. Nunca falei muito com ele sobre esses tempos. Mas sei que o sócio passou-lhe a perna. E o capítulo de Angola acabou também por fechar-se na vida dele. 

Para mais, e para seu grande desgosto,  ele nunca chegara a conseguir obter a nacionalidade angolana,  apesar de lá ter nascido e vivido. Falava da sua terra com grande paixão e saudade.  

Sei que fez a tropa (e a guerra) na Guiné.  Não posso dar muitos pormenores, porque sou um zero à esquerda nessas matérias.  Julgo que  fora alferes miliciano e pertencera à arma da engenharia militar. 

Tanto quanto me lembro das nossas conversas, ele não deixava de simpatizar com o Amílcar Cabral, filho de pai cabo-verdiano. Mas achava um disparate a ideia de unidade entre a Guiné-Bissau e Cabo-Verde. 

 O Arsénio tinha uma costela cabo-verdiana, pelo lado da mãe que, garantia ele, era bisneta de uma escrava e de um desterrado... 

− E eu trisneto, com muita muita honra, sem qualquer complexo... Tive pena que Cabo Verde tivesse entrado, em 1975, na  paranoia da dipanda (#), a reboque  da demagogia do PAIGC. Arrepiaram caminho, anos mais tarde, que a euforia revolucionária  não enche barriga...
 
Eu aqui não quis comentar, nem nunca disse que tinha tido amigos cabo-verdianos que apoiavam o PAIGC no Luxemburgo... Depois meteram a viola no saco, quando se deu o golpe de Estado do 'Nino' Vieira, em 1989, se bem recordo... Foi o fim de muitas ilusões... "A segunda morte do pai das nossas nacionalidades", chorava um dos meus amigos que era cantor, com discos editados  na Holanda... 

Nos últimos anos, senti o meu amigo Arsénio Marques mais alquebrado, para não dizer deprimido:  o fogo do seu vulcão havia-se extinguido, e "a terra do seu pai" já não era mais a mesma para ele...  

Queixava-se que, no fundo, havia uma velha e surda discriminação contra os retornados e os mestiços, como ele. O seu antigo partido nunca mais recuperara o poder local, nem o antigo autarca era chamado para nada... O sonho de voltar a Angola estava cada vez mais distante, e em Cabo Verde também já não se sentia em casa, embora um dos seus filhos explorasse lá um pequeno hotel de charme.    Tinha outro filho, esse com uma prole numerosa, a viver em Roterdão, nos Países Baixos. 

O nosso convívio, por outro lado,  também se foi espaçando,  com o tempo, e com as viagens, a visitar filhos e netos... Mas a amizade ficou.  Pertencíamos a mundos muito diferentes, mas respeitávamo-nos.  Incentivei-o a escrever as suas memórias. Mas a escrita não era o seu forte. 

− Escrever, o quê ? Para quem ?... Sempre fui um homem de ação, não de  pensamento... Tu é que és um homem de letras... Sei fazer contas, de somar, subtrair e pouco mais...

Vi-o, pela última vez, na festa dos seus 80 anos. Moeu o juizo do Jacinto, e obrigou a Bia a fazer-lhe um muamba de galinha e um calulu. Tiveram que ir a Lisboa, ao Martim Moniz, abastecer-se dos produtos angolanos, que não havia na terra. Éramos uns vinte e tal à mesa. A tasca ficou por nossa conta.  E nada de gente graúda. Houve música de Cabo Verde, de Angola e até da Guiné-Bissau. Discursos, no fim, muito contidos. Nada de política. Fiquei com pele de galinha. E dei-lhe um caloroso candando, à despedida. Um "quebra-costelas", como dizem os alentejanos.

Divorciado, não tinha muitas amizades no fim da sua vida. O irmão caçula, antigo professor primário, esse, também já tinha partido. Para minha grande surpresa e desgosto, o Arsénio  suicidou-se com um tiro nas têmporas, na casa da amante.  Uma coisa premeditada. Na véspera, ainda me mandara uma mensagem, premonitória, por telemóvel: "Gostei de te conhecer. Um último candando" (##). 

Devia ter desconfiado. E ter-lhe telefonado. Não quis incomodá-lo. Nunca imaginei que ele pudesse fazer uma coisa dessas. Afinal, não foi a doença do Alemão que o matou. Prefiro, em todo o caso, pensar que  ele partiu para a sua última viagem, desencantado mas lúcido... Foi cremado, nos arredores de Lisboa. Eu e mais uns tantos amigos e conhecidos (um dúzia, se tanto) fomos-lhe retribuir o candando. O último.

Luís Graça
Agosto de 2026

Nota do autor: Qualquer semelhança com a realidade, é mera coincidência

(#) Dipanda, corruptela de indepência (de Angola).

(##) Candando, do quimbundo = abraço.
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Nota do editor LG:

(*) Último poste da série > 11 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28171: Contos com mural ao fundo (Luís Graça) (44): O país que via passar os comboios