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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27700: Foi há... (5): 65 anos: duas "negas" aos americanos, Fidel Castro e António de Oliveira Salazar (António Rosinha, que tinha então 22 anos, e vivia feliz em Angola)

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1. Mensagem de António Rosinha, ex-colon, ex-retornado de Angola, ex-emigrante no "Brasiu", ex-cooperante na Guiné-Bissau do Luís Cabral e do 'Nino' Vieira, beirão,  portuguès dos sete costados, grão-tabanqueiro de pedra e cal (com  162 referências no blogue)... Mesmo tendo sido expulso do paraíso em 1974, não perde o bom humor... mas também não se esquece..

Data - 3 fev 2026 00:26
Assunto :- 1961: duas negas aos amaricanos


Já fui à inteligência artificial e podia transcrever o que ela diz sobre o assunto, mas prefiro usar a minha linguagem e a minha memória dos meus 22/23 anos.

Nunca pensei aos 22 anos que, passados 65 anos, ver os mesmos senhores do mundo com os mesmos propósitos de continuarem a fazerem "obedecer" o mundo aos seus caprichos.

Vamos às duas "negas", em 1961, sendo que as duas, simultâneas no tempo, eram distantes geopoliticamente.

Quem foram os "heróis" que em 1961 disseram Não ao presidente americano Kennedy?

Muita gente ainda se lembra dos barbudos de Fidel Castro e da Baía dos Porcos onde a CIA bateu com a cara na porta, e a Coca-Cola foi buscar açúcar a outra colónia.

Em 1961, e durante muitos anos, não só Cuba funcionava como pura colónia norte-americana, como praticamente toda a América Latina.

E o herói Fidel Castro, embora caísse na boca de outro lobo, Khrushchev,  disse "bye bye" a Kennedy! Até hoje! "Embora a luta continue", para azar dos cubanos, mas que Fidel foi único na América Latina, é inegável.

E o segundo herói que neste ano, 1961, disse um redondo Não ao presidente Kennedy foi o português António de Oliveira Salazar.

Mais ou menos, muito perto no tempo da Baia dos Porcos em Cuba, Kennedy propôs a Portugal "ajuda" para resolver o problema colonial que se tinha desenvolvido no Norte de Angola com os ataques terroristas pela UPA no "Congo Português".

Para quem não sabe, esse movimento, a UPA, já era conhecido da CIA e das missões religiosas americanas, onde havia muito disso, que já andavam por ali à muitos anos a dilatar a fé e o império.

E o chefe da UPA, que era cunhado de Mobutu, (em África quando se fala em cunhado quer-se dizer que é da mesma tribo) não iniciou a guerra de libertação de Angola, mas exclusivamente daquela região tribal, que era o Congo Português, irmão dos Congos francês e belga.

Ora os americanos já estavam com a CIA e as Missões religiosas, a financiar e fomentar a luta não só anticolonial, como anticomunista, e já tinham liquidado em janeiro, o Lumumba, tudo dentro da política Kennedy.

Como tinham liquidado o sueco Secretário Geral da ONU que, como sempre, ontem e hoje, um organismo-fantoche, e esse senhor andava a levar por maus caminhos os africanos.

Claro que Salazar só podia dar uma "nega" a esse homem que deixou um nome mítico no mundo mas não passava de um  coboi como todos os outros americanos, a lei era o gatilho.

A ajuda norte-americana, só a um povo "perdido" e desesperado e incaracterístico e despersonalizado, talvez para onde hoje a Europa se esteja encaminhando arrastando todos, só assim se deva entregar tal ajuda.

Angola e Moçambique jamais seriam aquilo que conhecemos, não sabemos se angolanos e moçambicanos gostam daquilo que com unhas e dentes Portugal resguardou.

A América conseguiu a paz na Europa, na II Grande Guerra, ajudou o Vietnam, o Chile a Coreia a Somália, agora ajuda a Ucrânia, ajuda sempre quem precisa.

Houve um momento da nossa geração em que na realidade Portugal teve voz própria, com muito sacrifício, foi com um ditador, mas paciência, historicamente o nosso ditador disse Não ao presidente americano que um tiro matou.

Também foi azar, o tiro poderia ter ferido apenas.

Fico por aqui.

Faz agora anos que se diz que seria o MPLA, iniciou a primeira sarrafusca na cidade de Luanda, em 4 de fevereiro de 1961.

Cumprimentos

Antº Rosinha

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Nota do editor LG:

Ultimo poste da série : 28 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27679: Foi há... (4): 85 anos, o ciclone de 15 de fevereiro de 1941 que deixou um rasto de morte e destruição por todo o país

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27694: Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci... (Jaime Silva, ex-alf mil pqdt, BCP 21, Angola, 1970/72) (14): ainda o caso do pide e do guerrilheiro, em Léua, leste de Angola


Guiné > Região do Cacheu > Barro > CCAÇ 3 > 1968> Um "suspeito" do PAIGC... "Turra" não era "prisioneiro de guerra", à luz do entendimento das autoridades político-militares do território...

Foto (e legenda): © A. Marques Lopes (2005). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Jaime Silva (foto ao lado):

(i) ex-alf mil pqdt, cmdt 3º Pel /1ª CCP / BCP 21, Angola, 1970/72;

(ii) membro da nossa Tabanca Grande, nº 643, desde 31/1/2014;

(iii) tem  já 130 de referências, no nosso blogue; 
(iv) nascido em 1946, em Seixal, Lourinhã, onde reside hoje; 

(iv) é professor de educação física, reformado;

(v) foi autarca em Fafe, com o pelouro de "Desporto e Cultura": viveu lá durante cerca de 4 décadas; 


(viii) é autor do livro  "Não esquecemos os jovens militares do concelho da Lourinhã mortos na guerra colonial" (Lourinhã: Câmara Municipal de Lourinhã, 2025, 235 pp., ISBN: 978-989-95787-9-1).


Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci (14):   ainda o caso do pide e do guerrilheiro, em Léua, no Leste de Angola

por Jaime Silva

 
Mensagem do Jaime Silva:

Data - 27 jan 26  , 12:51
Assunto - Léua, interrogatório do PIDE e o mutismo do guerrilheiro

Caro Luís, a propósito do meu testemunho e da tua experiência de guerra na Guiné, escreves que “ Se calhar há mais pormenores que omitiste neste texto. (*)

Não omiti nada, desta vez, e foi assim que se passou:

Nota importante:
 
Ao nível da informação, tudo se passou entre o meu comandante, o comando da FA (Força Aérea) e o comando de Operações do Região Militar Leste (RML) , sediado no  Luso  – eu não pertencia a este patamar de decisão– , só vi, ouvi e participei no contexto operacional que já relatei:

Sintetizando:

(i)  o Comandante da  1ª CCP / BCP 21 recebeu, em Léua, um rádio do comando da RML ordenando para destacar um grupo de combate para fazer um heliassalto, na sequência da informação de um guerrilheiro que tinha sido capturado (como e onde, não sei);

(ii) para o efeito foi destacado o meu pelotão;

(iii) entre esta informação e a chegada dos helis, só houve  tempo de preparar o pessoal e deslocar o pelotão para a zona de embarque;

(iv) logo que aterraram, saíram dos helis, o Pide, o guerrilheiro e o comandante da FA;

(v) este solicitou um espaço reservado para que o Pide pudesse  interrogar o guerrilheiro, sendo-lhe indicado o quintal que ficava nas traseiras da casa que servia de messe aos oficiais paraquedistas;

(vi) desconheço se entre os dois comandantes houve alguma reunião confidencial ou se eles tinham mais informações sobre a situação, nomeadamente, por que razão o Pide teve de vir, ainda para Léua, interrogar o prisioneiro e o não fez no Luso.

Depois, e como relatei:

(vii) o Pide  não se despachava, o tempo escasseava para que os helis pudessem  realizar a operação e, por isso,  sou incumbido de interrogar e alertar o Pide para esse  facto;

(viii) em resultado da incompetência do Pide e da coragem do guerrilheiro desmontou-se a tenda: o meu pelotão foi desmobilizado, os helicópteros com o Pide e o guerrilheiro regressaram ao Luso.

O que aconteceu ao guerrilheiro? Não faço a mínima ideia.

O que fazia eu quando capturávamos algum guerrilheiro ou elementos população?

Não tenho a tua experiência, mas a minha rotina, nesta circunstância era:

a) após o final da operação entregava-o  ao comandante da operação e este despachava-o para o Comando da respetiva Região Militar que, seguramente, o entregava à PIDE/DGS – quase sempre presente em cada operação;

b) o meu pelotão capturou, pelo menos, três ou quatro uerrilheiros; capturámos, ainda, por duas vezes, algumas mulheres.

O procedimento foi sempre o mesmo.

Tenho a consciência descansada, quanto a isto: nunca matámos ou tratámos mal, nem homens ou mulheres.

Caro Luís,

Foram estes os acontecimentos vividos e, nesta circunstância particular em Léua, relato-os com todo o rigor e verdade. 

Eu não esqueci! 

Abraço
Jaime

Lourinhã, Seixal, 27.01. 2026  


2. Comentário do editor LG:

Obrigado, Jaime. Como sempre, lúcido e corajoso.  Temos, todos (as tropas especiais incluídas: páras, fuzileiros, comandos) um certo pudor em  falar  do "back office", das "traseiras", dos "quintais" da guerra, dos prisioneiros, dos interrogatórios, da colaboração com os Pides, etc. Há o lado "sujo" e "animal",  e o lado "nobre" e "heróico" da guerra...

O "pudor" (ou a cultura do silêncio castrense) faz parte do 'habitus' do combatente: podíamos aprender uns com os outros (o que correu bem? o que correu mal?), mas, não, regressávamos à base ou ao aquartelmento, tomávamos um banho, bebíamos uma cerveja ou um uísque com gelo, descansávamos o corpo, jogávamos ao king ou à lerpa, e preparávamo-nos para a próxima (operação)...

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27691: Notas de leitura (1891): "O capelão militar na guerra colonial", de Bártolo Paiva Pereira, capelão, major ref - Parte VII: O "monge-guerreiro", Abel Matias, major graduado 'cmd' capelão, ref, esteve em Angola, de 1965 a 1971


Abel Matias (n. 1937, Póvoa do Varzim)


1. Abel Matias, OSB (sigla latina de Ordo Sancti Benedicti, Ordem de São Bento), não foi apenas um capelão de retaguarda, a viver no relativo conforto e segurança de uma CCS de um batalhão durante a guerra colonial. Ele integrou-se totalmente na unidade de elite onde serviu, os "Comandos", na sua segunda comissão, em Angola, de 1969 a 1971.

É, ao que parece, é o único dos capelães portugueses que serviram a Igreja e o Exército durante a guerra colonial (1961/74) a frequentar, com sucesso, o Curso de Comandos, ganhando o direito de usar o mítico crachá e a boina vermelha.  Aliás, o nosso grão-tabanqueiro cor art ref Morais da Silva, que de resto também é de Lamego, confirmou-me que foi seu instrutor. 


O padre Abel Matias é apontado como uma figura singular e marcante da história contemporânea portuguesa por personificar uma intersecção invulgar entre: (i) a vida monástica; (ii) a mística militar; e (iii) a assistência espiritual em cenário de guerra.

O capelão-chefe graduado em major, Bártolo Paiva Pereira, no seu último livro, "O capelão militar na guerra colonial" (edição de autor, Vila do Conde, 2025, 120 pp)(*), elege-0 como os dos "12 mais" que teriam alcançado notoriedade num universo de cerca de mil capelães mobilizados para os 3 teatros de guerra (Angola, c. 500; Moçambique, c.400; Guiné, 113)... (Como o autor faz questão de escrever, "a publicação dos nomes não serve para elogiar ou esquecer alguém", pág. 53). 

Nesta lista há ainda "dois capelães paraquedistas de peso", os padres Martins e Pinho. Capelães da FAP., fizeram questão de tirar o brevê (pág. 58).




Capa do livro, de Bártolo Paiva Pereira




(In: Bártolo Paiva Pereira, " O capelão militar na guerra colonial", ed. autor, 
Vila do Conde, 2025, pág. 56)


2. Chamaram-lhe o "monge-guerreiro", uma figura algo anacrónica no Portugal do séc. XX, quando já não havia, desde meados do séc. XIII, guerras de "reconquista"... Eis aqui os pontos principais sobre o seu percurso de vida, que recolhemos da Net:


Abel Matias (Moreira da Silva), contrariamente ao que diz a IA sobre ele , não é natural da Panajóia, Lamego, mas sim de São Pedro de Rates,Póvoa de Varzim, onde nasceu em 19 de setembro de 1937 (irá para o ano fazer os 90). Se fosse de Lamego, era muito natural que conhecesse o CIOE (Centro de Instruções Especiais), aquartelado em Penude e criado em 1960.

Em todo o caso, viveu mais de 4 décadas em Lamego, será diretor do famoso Colégio de Lamego, além de capelão do CIOE, uma vez terminada a guerra. Teve também um irmão padre, Justino Matias Moreira da Silva (1936-1999). Era(é, ainda está vivo) uma figura muito popular em Lamego, ligado também ao desporto.

Diz "A Voz de Trás os Montes" que, após a escola primária, ingressou na Escola Claustral do Mosteiro de Singeverga, em Santo Tirso, em 1950. Seis anos depois, tornou-se monge. Foi ordenado sacerdote, na Sé do Porto, em 1963.

É licenciado em Histórico-Filosóficas pela Universidade do Porto (tese de dissertação da licenciatura, hoje equivalente a mestrado: "Marxismo e Doutrina Social da Igreja"). Tem também um bacharelato em Filologia Românica.

Serviu, em Angola, como capelão militar, voluntário, primeiro no BCAÇ 1855 (set65/dez67), e depois no CIC (Centro de Instrução de Comandos) (set69/nov71).

Ficou conhecido por acompanhar (presume-se que de vez em quando, que  os seus 32/33 anos, no final da década de 1960, já pesavam) os militares em operações no mato, saltando de helicópteros e partilhando os mesmos perigos que os soldados, o que lhe terá conferido uma auréola de "monge-guerreiro" e sobretudo um grande respeito entre os comandos. 

Capelão militar, passou à disponibilidade como major. No Colégio de Lamego, foi professor de Filosofia e Psicologia e seu diretor. Após aposentar-se, regressou em 2014 ao Mosteiro de Singeverga.

A sua formação de base, beneditina (focada no lema Ora et Labora, reza e trabalha), terá marcado profundamemnte a sua personaliddae e a sua disciplina pessoal e espiritual.

É autor, entre outros dos livros:

"Angola, paz só com Muxima" (1989);
"Como eram duros os caminhos da guerra" (2019).

3. No portal UTW - Dos Veteranos da Guerra do Ultramar pode ler-se, a seu respeito:

(... ) No teatro de operações de Angola, cumpriu duas comissões de serviço voluntário:

- desde 26Set65 até 11Dez67, alferes graduado capelão da CCS/BCac1855;

- desde 07Set69 até Nov71, como tenente (capitão graduado) 'comando', Capelão do CIC-RMA.

Louvores (transcrição):

  • Tenente graduado capelão (CCS/BCAÇ 1855, 1965/67):

(...) "Louvo o Tenente Graduado Capelão, Abel Moreira da Silva, do BCaç 1855, pela forma como desempenhou as suas funções durante mais de 28 meses, sendo quinze na zona de Nambuangongo onde se processa intensa actividade operacional.


"A sua presença constante nas Subunidades destacadas, que nunca abrandou, embora várias vezes tivesse sido sujeito a emboscadas... Conselheiro e amigo de todos, muito contribuiu para o bom espírito de corpo criado no Batalhão. A forma esclarecida como procurou orientar a sua actividade, não impondo ideias, mas criando as condições mais propícias à sua receptividade natural, permitiu que produzisse trabalho rendoso digno de salientar» (...)

  • Capitão graduado capelão do CIC (1969/71);

(...) "Louvo o Capitão graduado Capelão n.º 51145411, Abel Moreira da Silva, do CIC, porque, desempenhando durante a sua comissão, as muito difíceis funções de capelão do Centro de Instrução de Comandos, de uma forma muito meritória e altamente eficiente, sempre evidenciou acentuada dedicação e esclarecido discernimento na dupla missão de militar e padre.

"Com humanidade, inteligência, perspicácia e superior clarividência deu provas de desassombro e coragem moral sempre que se lhe deparou a defesa de causas ou princípios que se impusessem pela sua justiça.

"Evidenciando acentuado dinamismo e optimismo, sempre se encontrava onde a sua presença se impusesse quer se tratasse de Quarteis ou Zonas de Intervenção, o que o levou a acompanhar as forças destacadas em operações e por largos períodos, não se furtando ao perigo, antes, serenamente, a todos dando o seu permanente apoio e conforto moral, a que não faltou a intensa mentalização para o dever a cumprir.

"Pelas provas de carácter, dignidade e isenção de procedimentos evidenciados, tomou-se o capitão P. Abel merecedor de muita estima e respeito, muito se dignificando e prestigiando o serviço que com tanta dedicação e mérito próprio serviu, creditando-se como precioso auxiliar do Comando, o que muito me apraz, publicamente, apontam! (...)


4. Falta-nos, naturalmente, o "contraditório"...


O Abel Matias não era um combatente, mas um capelão, a sua presença visava levar conforto espiritual em situações-limite, em que se matava e morria. Acreditava que a sua missão era estar onde o sofrimento e o risco de morte eram maiores.

Foi uma figura carismática: após o fim da guerra e a transição para a democracia, manteve-se ligado à memória histórica do conflito e à comunidade de veteranos. É frequentemente recordado em convívios da Associação de Comandos.

Mas também terá sido um capelão controverso: para alguns, a figura de um "monge-guerreiro" não a compaginável com a visão do clero no pós-Vaticano II; para os militares que serviram com ele, era visto como um símbolo de coragem e "humanidade no inferno".

Contrariamente ao que a IA diz a seu respeito, o padre Abel Matias não faleceu em 2008, nem nunca esteve na Guiné; está vivo, recolhido no mosteiro de Singeverga, isolado do mundo.

Para os interessados numa curta estadia: o mosteiro tem uma hospedaria onde recebe hóspedes, apenas homens, e por períodos não superiores a 8 dias; "a hospedaria monástica de Singeverga não firma preços de estadia. As despesas são comparticipadas com donativos."

(...) "Pela hospedaria passam gentes de todas as proveniências sociais, de quase todas as faixas etárias, e mesmo de diferentes crenças religiosas, incluindo agnósticos e descrentes. Há artistas, escritores, padres, médicos, seminaristas, personalidades conhecidas e gente anónima que também decidem passar um tempo em Singeverga, cada um atraído pela liturgia sóbria, ou pelo canto ou pela tranquilidade do lugar.

"Como a hospedaria está dentro do espaço da clausura, só é possível receber homens, e, por norma, o tempo de estadia não poderá ultrapassar os oito dias. (...)".

Contactos:

Mosteiro de São Bento de Singeverga
Rua Mosteiro de Singeverga, 200
4795-309 RORIZ STS
Telefone: 252 941 176; fax: 282 872 947
E-mail: mosteiro@mosteirodesingeverga.com

(Pesquisa na Net, revisão / fixação de texto: LG)
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Nota do editor LG:




segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27671: Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci... (Jaime Silva, ex-alf mil pqdt, BCP 21, Angola, 1970/72) (13): a morte do pastor alemão que salvou a vida de homens e… a minha perna direita!


Guiné _ Região de Tombali > Cufar >  CCAÇ 763, "Os Lassas", Cufar, 1965/67.> Cão de guerra, o "Cadete". Foi formada pela CCAÇ 763 uma secção de caés de guerra, de que o "Cadete" era o chefe. Uma experiência única no CTIG. (*)

Foto (e legtenda) : © Mário Fitas (2016). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné.
 


(

Jaime Silva (foto ao lado):

(i) ex-alf mil pqdt, cmdt 3º Pel /1ª CCP / BCP 21, Angola, 1970/72;
(ii) membro da nossa Tabanca Grande, nº 643, desde 31/1/2014;
(iii) tem já 130 de referências, no nosso blogue;
(iv) nascido em 1946, em Seixal, Lourinhã, onde reside hoje;
(v) é professor de educação física, reformado;
(vi) foi autarca em Fafe, com o pelouro de "Desporto e Cultura": viveu lá durante cerca de 4 décadas;
(vii) tem página pessoal do Facebook;
(viii) é autor do livro "Não esquecemos os jovens militares do concelho da Lourinhã mortos na guerra colonial" (Lourinhã: Câmara Municipal de Lourinhã, 2025, 235 pp., ISBN: 978-989-95787-9-1).



Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci (13):   a morte do pastor alemão que salvou a vida de homens e… a minha perna direita!

por Jaime Silva


Eu não esqueci a única operação do meu pelotão com a ajuda de um cão de guerra (pastor alemão). Foi no Norte de Angola,  na zona dos Dembos.

Após saltarmos dos Hélis, progredimos e, pouco depois, somos confrontados com uma emboscada. Reagimos, tiroteio, silêncio, fase de expetativa e foi o momento de decidir também a atuação do cão:

– Buscs, busca, ataca, ataca ! – ordena o tratador.

Enquanto aguardávamos pelo regresso do cão, protegi-me atrás de uma árvore e, quando olho para o chão, vejo, mesmo encostado ao meu pé direito uma mina antipessoal meia destapada…. Presumivelmente, teria sido pisada pelo cão, aquando da perseguição aos guerrilheiros. 

Entretanto, montámos segurança ao local e o comandante da Companhia, experiente, levanta-a, retira-lhe o detonador, guarda-a no bolso…E continuámos a progressão para assaltar o objetivo.

Já perto da base, o cão deteta uma emboscada e investe sobre os guerrilheiros e no tiroteio é atingido mortalmente. 

á me tinha salvado o pé direito e salvou, certamente, a vida dos paraquedistas que progrediam na frente do pelotão!

De acordo com as normas, o tratador cortou-lhe uma orelha como prova da morte do animal em combate, no regresso ao Batalhão. (**)

Fonte: excertos de Jaime Bonifácio Marques da Silva -"Não esquecemos os jovens militares do concelho da Lourinhã mortos na guerra colonial" (Lourinhã: Câmara Municipal de Lourinhã, 2025, 235 pp., ISBN: 978-989-95787-9-1), pág. 94.

(Revisão / fixação de texto, título: LG)
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sábado, 17 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27641: Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci... (Jaime Silva, ex-alf mil pqdt, BCP 21, Angola, 1970/72) (12): o interrogatório do pide… e o silêncio do guerrilheiro


Capa do livro de John P- Cann, "Os Flechas: os caçadores guerreiros do Leste de Angola, 1965-1974, tr-. do ingl. Carnaxide, Oeiras: Tribuna da História, 2018, 128 pp. 


Jaime Silva (foto ao lado):

(i) ex-alf mil pqdt, cmdt 3º Pel /1ª CCP / BCP 21, Angola, 1970/72;

(ii) membro da nossa Tabanca Grande, nº 643, desde 31/1/2014;

(iii) tem  já 130 de referências, no nosso blogue; 
(iv) nascido em 1946, em Seixal, Lourinhã, onde reside hoje; 

(iv) é professor de educação física, reformado;

(v) foi autarca em Fafe, com o pelouro de "Desporto e Cultura": viveu lá durante cerca de 4 décadas; 


(viii) é autor do livro  "Não esquecemos os jovens militares do concelho da Lourinhã mortos na guerra colonial" (Lourinhã: Câmara Municipal de Lourinhã, 2025, 235 pp., ISBN: 978-989-95787-9-1).


Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci (12):   o interrogatório do pide… e o silêncio do guerrilheiro

por Jaime Silva

Não, não esqueci o interrogatório do pide… e o silêncio do guerrilheiro (*).

Este acontecimento passou-se em Léua, no Leste de Angola. Decorria o mês de abril de 1972. A meio da tarde aterraram, no nosso destacamento, quatro helicópteros, donde, de um deles saiu um agente da PIDE e um guerrilheiro capturado.

A chegada dos Hélis tinha como objetivo transportar um grupo de combate para assaltar uma base guerrilheira. Segundo o pide, o guerrilheiro iria confessar e dizer onde a mesma se situava.

Para esse assalto foi destacado o meu pelotão. Esperámos… esperámos… mas do pide não havia novidades. 

A determinada altura, o comandante da esquadra de Helicópteros chama a atenção ao comandante de companhia para o adiantado da hora, e da dificuldade de teto e luz do dia para efetuar o percurso de ida e volta. Por isso, o meu comandante ordenou-me que fosse perguntar ao agente se demorava muito o interrogatório.

Chego ao local e transmito a mensagem ao pide que, face ao silêncio absoluto do guerrilheiro, não tinha conseguido “sacar-lhe” nenhuma informação. E incomodado pelo seu fracasso, julguei, diz-me:

 – Espere aí, sr. alferes, ele vai, já, bufar tudo. 

De seguida, pergunta-lhe:

   Como te chamas?

Um silêncio absoluto por parte do guerrilheiro e, ato contínuo, o agente rapa de um pau –  tipo taco de basebol – e acerta-lhe com força no nariz e pergunta novamente:

 
– Como te chamas? 

Depois, face ao repetido silêncio daquele homem, repete o mesmo golpe nos joelhos, nas canelas e nos tornozelos

E eu, perplexo saio dali, imediatamente.

Felizmente para o guerrilheiro, homem de grande coragem, que não traiu os seus camaradas.

E, felizmente, também para o meu grupo de combate, pois a operação foi abortada, o que significou “menos uma no pelo”!


Fonte: excertos de Jaime Bonifácio Marques da Silva -"Não esquecemos os jovens militares do concelho da Lourinhã mortos na guerra colonial" (Lourinhã: Câmara Municipal de Lourinhã, 2025, 235 pp., ISBN: 978-989-95787-9-1), pp- 93-94

(Revisão / fixação de texto, título: LG)
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Notas do editor LG:

(*) Vd. poste anterior da série > 5 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27604: Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci (11): o guerrilheiro do MPLA, morto a norte do rio Cassai, no leste de Angola, que era também alfabetizador

(**) Possivelmente capturado pelos Flechas

Sobre os Flechas, há um livro  do historiógrafio militar norte-americano, John P. Cann. Ver aqui excerto Diário de Notícias > Redação DN > 25 de abril de 2018 > "MPLA chacinou um quarto dos "Flechas"após fim da guerra colonial em Angola" (...)

(...) Cerca de 25% dos mais de 2.000 Flechas angolanos, que lutaram ao lado de Portugal, foram "chacinados" pelo MPLA nos primeiros sete meses após o fim da guerra colonial portuguesa em Angola, indicou hoje um historiador norte-americano.

John P. Cann, entrevistado pela agência Lusa a propósito do seu mais recente livro "Os Flechas – Os Caçadores Guerreiros do Leste de Angola – 1965/74", publicado pela editora Tribuna da História, indicou que só numa operação, realizada em Mavinga, na província de Cuando-Cubango (sudeste), as forças do Movime
nto Popular de Libertação de Angola (MPLA) abateram 130 bosquímanos.

Os Flechas, inicialmente conhecidos por Corpo Auxiliar, foram uma força especial indígena criada em 1966 em resposta a uma necessidade da Polícia Internacional de Defesa do Estado 
– Direção Geral de Segurança (PIDE/DGS) para a recolha de informações de interesse político-militar português no Leste de Angola.

No início, a força criada pelo antigo inspetor da polícia política portuguesa António Fragoso Allas, com os "tentáculos" das ações desestabilizadoras portuguesas a estenderem-se também ao Congo, Namíbia, Zaire (atual R D Congo) e Zâmbia, contava com apenas oito homens, mas, até 1974, ultrapassaram os 2.000.

Os bosquímanos, recrutados entre a milenar população de caçadores coletores que residem nas planícies e savanas do leste de Angola, Namíbia e deserto do Karoo (região semidesértica na Africa do Sul), têm uma pequena estatura e rosto de aparência asiática, sendo especialistas em operações de reconhecimento.

Segundo John Cann, que se reformou dos "Marines" em 1992, tendo, então, feito um doutoramento em Estudos de Guerra no Kings College, na Universidade de Londres, os Flechas revelaram "grande competência" em operações conjuntas com forças terrestres regulares, respondendo à PIDE/DGS, que os integrou como organização paramilitar, e também ao comandante local do Exército português.

"Quando a guerra acabou, ficou rapidamente claro que os Flechas eram um grupo em perigo. Famílias atrás de famílias foram assassinadas numa série de massacres. Num só caso, cerca de 130 bosquímanos foram mortos a tiro num genocídio sangrento nos arredores de Mavinga", referiu o antigo Marine norte-americano.(...)

Parece haver aqui um erro ou lapso nos números ou na redação do texto:

(i)  "cerca de 25% dos mais de 2.000 Flechas angolanos [que eram bosquímanos], que lutaram ao lado de Portugal, foram "chacinados" pelo MPLA nos primeiros sete meses após o fim da guerra colonial portuguesa em Angola"; 

ou (ii) "25% do total do bosquímanos do Leste de Angola foram mortos" ?

Continunando:

(...) "Mais tarde, foi estimado que cerca de 25% dos bosquímanos angolanos foram mortos nos primeiros sete meses de poder do MPLA. Como consequência, muitos fugiram para a África do Sul, onde se juntaram às Forças Armadas Sul-Africanas para formar o Grupo de Combate Alfa, que se tornaria, depois, o Batalhão 31", acrescentou.

Questionado sobre se há dados relativamente às baixas entre os Flechas durante o período do conflito em Angola (1961/74), John Cann disse não ter encontrado, ao longo das investigações feitas, quaisquer estatísticas.

"Devem existir em algum lugar. Mas, inicialmente, os Flechas eram utilizados em missões de espionagem, de recolha de informações, uma vez que eram claramente uma força passiva. No entanto, após alguns encontros desafortunados com forças inimigas, ficou claro que o arco e flecha não conseguiriam bater o armamento moderno", afirmou.

John Cann lembrou que as coisas mudaram a partir do momento em que uma pequena patrulha de bosquímanos foi capturada e torturada.

"A partir daí, os Flechas foram armados com uma espingarda automática ligeira. A sua filosofia de combate passava por evitar o confronto direto, o que permitiu manter reduzidas as baixas. Se tivesse de fazer uma estimativa, diria que o número de baixas em combate estará no intervalo entre 1% e 2%, ou seja, entre 20 a 40 mortes", disse.

Hoje em dia, realçou o capitão de mar e guerra aposentado da Marinha dos Estados Unidos, os bosquímanos residem maioritariamente na África do Sul, onde grande parte de se integrou nas forças de segurança locais. (...)

sábado, 10 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27622: S(C)em Comentários (86): "Foi no dia 27 de maio de 1962, numa operação de ataque a um grupo inimigo, na qual eu, capelão, livremente participei. Caímos numa emboscada, na localidade de Sanda Massala, no norte de Cabinda. À minha frente, o Hélder cai atingido e logo morreu" (Bártolo Paiva Pereira, ex-alf grad capelão, BCAÇ 321, 1961/64)


Ilustração: IA generativa (ChatGPT / Open AI),
composição orientada pelo editor LG


O alferes graduado capelão Bártolo Paiva Pereira, no norte de Cabinda, 
na floresta de Maiombe, c. 1962


 1º cabo Hélder Tavares Amaral CCAÇ 323 / BCAÇ 321 (Angola, 1961/64). Morto em combate em 27/5/1962.  Os seus restos mortais foram inumados em Sanda Massala, norte de Cabinda, Angola, a 8 mil km da sua terra natal, Vila Cortês da Serra, Gouveia 





Fonte: Excertos de Bártolo Paiva Pereira - "O capelão militar na guerra colonial". Edição de autor, Vila do Conde, 2025, pp. 13-18.


1. Depoimento do capelão Bártolo Paiva Pereira:

(...) Foi no dia 27 de maio de 1962, numa operação de ataque a um grupo inimigo, na qual eu, capelã0, livremente participei.

Caímos numa emboscada, na localidade de Sanda Massala, no norte de Cabinda. À minha frente, o Hélder, cai atingido e logo morreu. (...) (pág, 17)

São talvez as duas páginas, as 17 e 18, mais pessoais, mais sentidas, do autor do livro "O capelão militar na guerra colonial" (2025): com 26 anos, minhoto, solteiro, sacerdote católico, acabado de ordenar (há ano e meio), "soldado sem instrução" (sic), oferece-se para o serviço religioso do exército em 1961, já em plena guerra de Angola,

Graduado em alferes capelão, segue com o BCAÇ 321 para Angola já no último trimestre de 1961. Descobre uma nova "família", a sua terceira (depois da família biológica e do seminário). E descobre que a sua Pátria é o Hélder...

No dia 27 de maio de 1962, sete meses depois de chegar a Angola, participava voluntariamente numa operação, em Cabinda. O Hélder, que ia à sua morreu, morreu, de um tiro do inimigo.

Como se fora um epitáfio, escreveu: "A minha Pátria é o Hélder" (pp. 17/18).


2. Comentário do editor LG:

Quem disse que os capelães militares não iam à guerra ? Isto é, não podiam "sair para o mato", integrados  ("embebbed") em grupos de combate ? 

 Não era muito frequente, não era normal, nem sequer era desejável... Na verdade, eram recursos raros, escassos, preciosos. Havia, em geral, 1 capelão e 1 médico por batalhão (=600 homens).

Mas foi ali, nesse dia, que o padre Bártolo, natural de Santo Tirso,  descobriu verdadeiramente o que era a Pátria. Não, não é uma figura de retórica, a Pátria são as pessoas, as pessoas que têm uma identidade, um rosto, uma história de vida: a Pátria são os nossos camaradas, antes de mais.

(...) "A minha Pátria andava mal definida no coração (...). O meu patriotismo nunca me levou às terras carismáticas do mundo e dos homens. Nem aos Lugares Santos. Nunca visitei o cemitério de Vimieiro. Nem me sai da cabeça a cova, onde enterrámos o Hélder" (...) (pág. 17).

(...) A cova onde enterrámos o Hélder foi logo ali, após o inimigo nos deixar. O seu corpo, mais tarde, foi recuperado por camaradas, que cumpriram um dever militar" (...) (pág. 18).

 
Foi o único morto do batalhão... Comenta o antigo capelão,citando o filósofo alemão Peter Sloterdijk: 

"A ossatura simboliza o fim que cada ser vivo traz já consigo". 

E acrescenta, agora da sua lavra: "Em teatro de operações, deixar 'essa ossatura' brada aos céus. Aconteceu, infelizmente, com muitos cadáveres, no início da guerra, onde tudo era mais precipitado que arrumado" (pág. 19).
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(**) Último poste da série > 3 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27600: S(C)em Comentários (85): O que é que o PAIGC entendia por "zonas libertadas"? (Zeca Macedo, ten DFE 21, Cacheu e Bolama, 1973/74, a viver nos EUA desde 1977)

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27604: Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci... (Jaime Silva, ex-alf mil pqdt, BCP 21, Angola, 1970/72) (11): o guerrilheiro do MPLA, morto a norte do rio Cassai, no leste de Angola, que era também alfabetizador





Cópia da capa e índice do documento "Guia do Alfabetizador", editado pelo MPLA - Movimento Popular de Libertação de Angola, s/l, 1968, 68 pp. Fonte: Cortesia de Jaime Silva (2026)




Tabanca de Porto Dinheiro / Lourinhã:
4 de agosto de 2012 > Jaime Silva


Jaime Silva (ex-alf mil pqdt, cmdt 3º Pel /1ª CCP / BCP 21, Angola, 1970/72, membro da nossa Tabanca Grande, nº 643, desde 31/1/2014, tendo já 130 de referências, no nosso blogue; nascido em 1946, em Seixal, Lourinhã, onde reside hoje; é professor de educação física, reformado, foi autarca em Fafe, com o pelouro de "Desporto e Cultura": viveu lá durante cerca de 4 décadas; tem página pessoal do Facebook).


Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci (11): o guerrilheiro do MPLA, morto a norte do rio Cassai, no leste de Angola, que era também alfabetizador

por Jaime Silva

Não esqueci que, no decorrer de mais uma operação no Leste, a Norte do Rio Cassai, o meu pelotão foi surpreendido com progressão de um grupo de guerrilheiros do MPLA. Em consequência do confronto entre os dois grupos ficaram tombados alguns corpos (o trivial, durante a guerra!...).

Encontrámos um deles com uma mochila contendo, para além de mantimentos e munições, um manual de economia em língua francesa e dois manuais escolares: a Cartilha do Alfabetizador e o Livro do aluno.

Fiquei surpreendido! Desconhecia este trabalho educativo dos guerrilheiros! Eles ensinavam por uma cartilha que era muito parecida, na metodologia de ensino, com a Cartilha de João de Deus – o meu livro de 1.ª classe! Aí aprendi as primeiras letras, na escola da minha aldeia!

Surpreendido também com os conteúdos, que eram deste género: a 1.ª lição do livro do aluno iniciava com a frase  “Angola é a nossa terra”; a 2.ª lição tinha três frases com objetivo de consciencialização política do povo e das razões por que lutavam:

“O colonialismo é inimigo do povo. O colonialismo português domina a nossa terra. O povo unido luta contra o colonialismo”.

Também, essa Cartilha do Alfabetizador, nas páginas 5/6, tinha uma carta dirigida ao “Camarada Alfabetizador. No seu início dizia:

“Camarada Alfabetizador,

Tu sabes ler e escrever

Nós, no nosso país, em cada cem pessoas, noventa e nove não o sabem.

(…) Ajudando os outros companheiros a ler e a escrever tu estás a cumprir uma tarefa de patriota e de revolucionário.”

Lembro, não posso esquecer que, naquele dia, reforcei ainda mais, a minha convicção de que travávamos uma guerra injusta e sem sentido.


Fonte: excerto de Jaime Bonifácio Marques da Silva, "Não esquecemos os jovens militares do concelho da Lourinhã mortos na guerra colonial" (Lourinhã: Câmara Municipal de Lourinhã, 2025, 235 pp., ISBN: 978-989-95787-9-1), pp. 92/93

(Revisão / fixação de texto, título: LG)
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Nota do editor LG:

Último poste da série > 1 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27591: Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci... (Jaime Silva, ex-alf mil pqdt, BCP 21, Angola, 1970/72) (10): o Flecha que nos conduziu à sua antiga base (do MPLA) e rejubilou de alegria perante o espetáculo dos seus antigos camaradas mortos, no mesmo dia e hora em que o meu soldado Santos se casava por procuração numa igreja de Torres Vedras, perto da minha terra

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27591: Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci... (Jaime Silva, ex-alf mil pqdt, BCP 21, Angola, 1970/72) (10): o Flecha que nos conduziu à sua antiga base (do MPLA) e rejubilou de alegria perante o espetáculo dos seus antigos camaradas mortos, no mesmo dia e hora em que o meu soldado Santos se casava por procuração numa igreja de Torres Vedras, perto da minha terra


 Estudo prévio  para monumento  em memória dos combatentes da guerra cvolonial (2005). Arquiteto Augusto Vasdconcelos (Fafe)

Foto (e legenda): © Jaime Bonifácio Marques da Silva (2025). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Tabanca de Porto Dinheiro / Lourinhã:
4 de agosto de 2012 > Jaime Silva

Jaime Silva (ex-alf mil pqdt, cmdt 3º Pel /1ª CCP / BCP 21, Angola, 1970/72, membro da nossa Tabanca Grande, nº 643, desde 31/1/2014, tendo já 130 de referências, no nosso blogue; nascido e 1946, em Seixal, Lourinhã, onde reside hoje; é professor de educação física, reformado, foi autarca em Fafe, com o pelouro de "Desporto e Cultura": viveu lá durante cerca de 4 décadas;  tem página pessoal do Facebook).


Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci (10): o Flecha que nos conduziu à sua antiga base (do MPLA) e rejubilou de alegria perante o espetáculo dos seus antigos camaradas mortos, no mesmo dia e hora em que o meu soldado Santos se casava por procuração numa igreja de Torres Vedras, perto da minha terra

por Jaime Silva

Decorria o dia 5 de setembro de 1970, quando o meu pelotão foi destacado para assaltar uma base do MPLA. 

A PIDE/DGS entregou-nos um ex-guerrilheiro, pertencente aos Flechas (#), com o objetivo de indicar o caminho que nos levaria à base, onde antes havia combatido a tropa portuguesa, conjuntamente com os seus camaradas,  e que agora entregava. 

Levou-nos direitinho à base. Fizemos a aproximação e, já dentro desta, fomos confrontados com a forte resistência de um grupo bem armado, do qual resultou a morte de alguns guerrilheiros e a captura de várias armas.

 No entanto, apesar ter sido uma das piores situações que o meu pelotão teve de enfrentar e resolver, o que mais me impressionou foi o júbilo e os saltos de satisfação que aquele homem dava, perante os corpos tombados dos seus ex-camaradas com quem já tinha partilhado as dificuldades da luta no mato contra os militares portugueses.

Também quem não se esquecerá desse dia e hora é o paraquedista Sousa, que no momento do assalto estava comigo (conjuntamente com o sargento Santos) na zona de morte.

É que, à mesma hora, decorria o seu casamento “por procuração”, numa igreja perto da minha terra, em Torres Vedras… 

São factos e experiências que, pela sua violência… e perplexidade humana, dificilmente se apagam das nossas memórias.
___________

Nota do autor:

(#) Os Flechas, criados em 1967, eram um grupo paramilitar autóctone que conduzia operações encobertas na dependência direta dos serviços secretos da PIDE/DGS. Atuavam no interior de Angola sobretudo contra o MPLA e eram levados a praticar operações encobertas no interior da Zâmbia, onde o MPLA se encontrava acantonado.

 Os Flexas podiam operar isolados ou integrados em patrulhas militares.

 (Fonte: Fernando Cavaleiro Ãngelo - Os Flechas: a tropa secreta da PIDE/DGS na guerra de Angola. Alfragide: Casa das Letras, 2017).

(Revisão / fixação de texto, título: LG)
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Nota do editor LG:

Último poste da série : 15 de dezembro de 2025 > 21 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27556: Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci... (Jaime Silva, ex-alf mil pqdt, BCP 21, Angola, 1970/72) (9): a última operação do 1º cabo LAntónio José Lourenço

domingo, 21 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27556: Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci... (Jaime Silva, ex-alf mil pqdt, BCP 21, Angola, 1970/72) (9): a última operação do 1º cabo LAntónio José Lourenço



 Estudo prévio  para ,onumento  em emória dos combatentes da guerra cvolonial (2005). Arquiteti Augusto Vasdconcelos (Fafe)

Foto (e legenda): © Jaime Bonifácio Marques da Silva (2025). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Tabanca de Porto Dinheiro / Lourinhã:
4 de agosto de 2012 > Jaime Silva

Jaime Silva (ex-alf mil pqdt, cmdt 3ª Pel /1ª CCP / BCP 21, Angola, 1970/72, membro da nossa Tabanca Grande, nº 643, desde 31/1/2014, tendo já 130 de referências, no nosso blogue; reside na Lourinhã, é professor de educação física, reformado, foi autraca em Fafe, com o pelouro de "Desporto e Cultura": residiu lá durante cerca de 4 décadas): Tem página pessoal do Facebook


Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci (9):  a última operação do 1º cabo Lourenço

por Jaime Silva



Não esqueci o que aconteceu ao 1º Cabo Lourenço, apontador da metralhadora HK 21, pertencente ao 4.º Pelotão,  comandado pelo meu amigo, alferes miliciano Francisco Cruz dos Santos 
[Foto à esquerda. página pessoal do Facebook]
 .

A 1ª CCP / BCP 21 estava destacada no Leste de Angola, sediada na vila de Léua (*) e o Comandante de Companhia nomeou o 3º e o 4º pelotões (o meu e o do meu amigo) para efetuar um assalto a uma base do MPLA, na zona de Kamgama – Chimbila.

Lembro, como se fosse hoje, o momento em que os dois grupos de combate saíam do quartel na direção dos Helicópteros que nos transportariam rumo ao objetivo. Lembro, de forma especial, o momento em que o Cabo Lourenço, caminhando ao meu lado me disse:

 
– Ai, meu alferes, isto nunca mais acaba! Esta é a minha última operação, já terminei a comissão. Quando chegarmos a Luanda,  vou-me embora para o “Puto”. Já chegou quem me vem render.

Lembro de ter dito palavras de circunstância, talvez do género:

– Vai correr tudo bem e daqui a poucos dias já estarás na “peluda”, livre, junto da tua família.

Depois, os dois grupos são lançados próximo do objetivo, mas em pontos distintos, tendo um rio de permeio a separá-los. 

Minutos, depois, do lançamento, somos confrontados com um intenso tiroteio e rebentamento de granadas. O grupo do Cruz dos Santos havia detetado a Base IN, mas, no assalto a esta, confrontou-se com enorme resistência e fogo intenso. 

Nesse tiroteio, o Cabo Lourenço foi atingido e perde a vida… Na sua última missão…

Fonte: excerto de Jaime Bonifácio Marques da Silva, "Não esquecemos os jovens militares do concelho da Lourinhã mortos na guerra colonial" (Lourinhã: Câmara Municipal de Lourinhã, 2025, 235 pp., ISBN: 978-989-95787-9-1), pp. 90-91 (**)

(Revisão / fixação de texto, parênteses retos, notas, edição de imagem: LG)



1º Cabo Pqdt António José Lourenço  (1948-1971)

(i) morto em combate em Angola (na ZML - região de Chimbila-Cazage-Luatxe-Lumeje), no decorrer da Operação CALCAR IH”, no dia 18 de novembro de 1971;

(ii) nasceu a 21 de Outubro de 1948, na então freguesia de São João Baptista, concelho de Tomar, distrito de Santarém;

(iii) frequentou o Curso de Pára-quedismo nº 56, tem o Brevet nº 7871. 



__________________

Notas do editor LG:

(*) Na altura, a vila de Léua (um município e comuna na província do Moxico, Angola) não tinha um nome colonial distinto, uma vez que a localidade de referência na região com um nome colonial alterado é a capital da província.

A capital da província do Moxico, a cidade do Luena, era anteriormente conhecida como Vila Luso durante o período colonial português. O nome foi alterado após a independência de Angola em 1975.

(**) Último poste da série : 15 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27531: Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci... (Jaime Silva, ex-alf mil pqdt, BCP 21, Angola, 1970/72) (8): escapei à terceira mina... mas o sold pqdt Lamas apanhou com um 'balázio' no braço


segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27531: Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci... (Jaime Silva, ex-alf mil pqdt, BCP 21, Angola, 1970/72) (8): escapei à terceira mina... mas o sold pqdt Lamas apanhou com um 'balázio' no braço


Angola > Leste > O alf mil paraquedista Jaime Silva, do BCP 21 (1970/72), em 1970, a norte do Rio Cassai

Foto (e legenda): © Jaime Bonifácio Marques da Silva (2025). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Tabanca de Porto Dinheiro / Lourinhã:
4 de agosto de 2012 > Jaime Silva

Jaime Silva (ex-alf mil pqdt, cmdt 3ª Pel /1ª CCP / BCP 21, Angola, 1970/72, membro da nossa Tabanca Grande, nº 643, desde 31/1/2014, tendo já 130 de referências, no nosso blogue; reside na Lourinhã, é professor de educação física, reformado, foi autraca em Fafe, com o pelouro de "Desporto e Cultura": residiu lá durante cerca de 4 décadas): Tem página pessoal do Facebook


Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci (8): escapei à terceira mina... mas o meu sold pqdt Lamas apanhou com um 'balázio' no braço

por Jaime Silva

Não esqueci que o soldado paraquedista Joaquim da Silva Lamas Júnior apanhou com um “balázio” num braço. Este acidente ocorreu no final da “operação Remover II”, realizada na região do rio Cassai, no Leste de Angola, entre os dias 29 de outubro e 6 de novembro, de 1970.

Participavam na operação dois pelotões de paraquedistas e um pelotão do exército. sediado em Vila Teixeira de Sousa [desde 1975, Luau, hoje província do Moxico Leste]. Este deu-nos apoio em transporte, com duas viaturas Berliet, no trajeto entre o aquartelamento e o rio Cassai e, ainda, na travessia do rio em barco de borracha.

Durante este trajeto, o pelotão do exército, comandado por um alferes miliciano de Operações Especiais, progredia em cada um dos dois lados da picada, montando segurança às viaturas que transportavam os paraquedistas.

Acontece que, nesse trajeto, à frente da primeira viatura em que eu seguia, ao lado do condutor (e em cima de sacos de areia), dois soldados picavam o trilho por onde os pneus das viaturas iriam rodar, a fim de detetar minas anticarro colocadas pelo MPLA. Então, quando a tropa já tinha percorrido quase metade do percurso, o alferes do exército manda parar a coluna, em virtude de um dos soldados, que progredia na frente, ter detetado movimentos de pessoas à distância.

O mesmo alferes aproveita a paragem para revezar os Picas [#], uma vez que lhes era exigida grande concentração para detetar a existência de minas.

O intervalo prolongou-se, em virtude de haver necessidade de verificar se o IN nos tinha preparado alguma emboscada. O Pica do meu lado, que tinha terminado o seu turno, veio falar comigo, encostando-se ao guarda-lamas da roda da frente da Berliet. Enquanto conversávamos, esse soldado picava o terreno junto ao pneu, perto dos seus pés, num gesto mecânico e automático. Em determinado momento, incrédulo, exclama (e foi mesmo assim!):

 − Quer ver, meu alferes?!  quer ver,. quer ver?!... Está aqui uma mina! 

E estava, mesmo junto à roda da Berliet… aos pés do soldado… e do meu lado!

E eu volto a escapar à terceira mina… as minas não quiseram nada comigo.

Nessa altura, o alferes do exército, com experiência nestas circunstâncias, deita-se no chão, de barriga para baixo e, com uma faca de mato, começa a retirar a terra em volta da mina. Uma vez posta a descoberto e, com todos os militares à distância de segurança, ata-lhe uma corda e consegue retirá-la do local. Depois, agarra na mina, que estava dentro de uma caixa de madeira, cujo material explosivo chegava para dar cabo da viatura e da maioria do grupo, e leva-a consigo para o quartel.

A deslocação da tropa continuou; atravessámos o rio num bote. Os militares do exército regressaram ao quartel e os paraquedistas embrenharam-se na mata para cumprir a missão.

Três dias depois, no final da operação e no horário combinado, o exército voltou a aparecer para nos apoiar na travessia do rio e no transporte para Vila Teixeira de Sousa. Porém, no momento em que o primeiro grupo estava a atravessar, acontece que, a determinada altura, ouvimos vozes e vimos um grupo de guerrilheiros a aproximar-se do rio. 

Deu-se um tiroteio… e o confronto do costume. Nesse tiroteio, o Lamas fica ferido com um tiro no braço. Este soldado pertencia à Secção, comandada por mim, que estava responsável por montar a segurança e proteger a retirada e travessia do rio dos nossos camaradas.

Fonte: excerto de Jaime Bonifácio Marques da Silva, "Não esquecemos os jovens militares do concelho da Lourinhã mortos na guerra colonial" (Lourinhã: Câmara Municipal de Lourinhã, 2025, 235 pp., ISBN: 978-989-95787-9-1), pp. 88-90
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Nota do autor:

[#] O Pica era treinado a detetar minas. Caminhava à frente dos rodados das viaturas e picava o terreno com um pau rudimentar com ponta de ferro na extremidade. Pelo impacto do ferro ao cravar-se na terra percebia se algo fora do normal, ferro ou madeira, seria sinal da existência de uma eventual mina.
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