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quarta-feira, 26 de março de 2025

Guiné 61/74 - P26617: História de vida (55): José Álvaro Carvalho (ex-alf mil art, BAC, Bissau, Olossato, Catió, 1963/65), fadista e guitarrista, e depois da "peluda",... "doutorado em metalomecânica pesada"


Guiné > Região de Tombali > Ilha do Como > 1964 > Ilustração, in "Tridente - Memórias de um Veterano", de António Manuel Constantino Vassalo Miranda @ 12Fev2007, 29 pp. (Disponível em formato pdf, no Portal UTW - Dos Veternos da Guerra do Ultramar: https://ultramar.terraweb.biz/Livros/AntonioVassalo/OpTridenteAntonioVassalo.pdf) (com a devida védia...)


1. Nota biográfica do nosso camarada José Álvaro Carvalho, grão-tabanqueiro nº 890:

(i) nasceu há 85 anos, em Reguengo Grande, Lourinhã;

(ii) com 26 meses de tropa, acabou por ser moblizado para o CTIG por volta da primavera de 1963 (não conseguimos ainda apurar a data);

(iii) foi render um alferes de uma companhia de intervenção, de infantaria, sediada em Bissau (QG/CTIG) (não conseguimos ainda identificar qual);

(iv) irá cumprir mais uns 26 ou 27 meses, no TO da Guiné, entre o primeiro trimestre de 1963 e o início do segundo semestre de 1965;

(v) passou por Bissau, Olossato, Catió e a ilha do Como, aqui já a comandar um Pel Art, obus 8.8 (a duas bocas de fogo), com que participou, entre outras, na Op Tridente (jan-mar 1964);

(vi) em Catió esteve adido ao BCAÇ 619 (14 meses);

(vii) Cruz de Guerra, 3ª Classe, por no"período de catorze meses em que esteve destacado no Batalhão de Caçadores nº 619, foi sempre um Oficial zeloso, dedicado e muito competente, salientado-se a sua acção, principalmente, no campo operacional, em que foi utilíssimo o apoio, sempre eficaz, que soube dar com o seu pelotão em todas as operações em que interveio, nomeadamente, nas "Tridente", "Broca", "Macaco", "Tornado" e "Remate", contribuindo assim, dentro do seu âmbito, para o prestígio da Arma a que pertence";

(viii) no CTIG era popularmente conhecido pelo seu nome artístico, "Carvalhinho" (cantava o fado de Lisboa e tocava guitarra no "Cantinho da Saudade"); em Bissau, chegou a fazer espetáculos com o alf médico Luís Goes (que cantaca e tocava o "fado de Coimbra"); 

(ix) depois do regresso à vida civil, trabalhou na empresa metalomecânica 
L. Dargent Lda (onde foi diretor do departamento de trabalhos exteriores, e sócio minoritário), empresa q1ue fez, por exemplo, a montagem da superestrutura metálica e cabos de suspensão da ponte na foz do Rio Cuanza em Angola);

(x) depois do 25 de Abril, também conheceu a Sorefame e outras;

(xi) em 2019 publicou, na Chiado Book, um livro misto de autobiografia, e ficção histórica, de em prosa e em veros, mais de 700 pp. ("Livro de C.") (tem em mãos, uma nova versão, revista):

(xii) é nosso grão-tabanqueiro, desde 26/6/2024;

(xiii) autor da série "Memórias de um artilheiro" de que se publicarm 10 postes, entre julho e setembro de 2024;

(xiv) é também autor de 26 fados,  cantor e guitarrista (

(xv) autorizou-nos a publicar no blogue diversos excertos da versão difital, em revisão,   do "Livro de C", incluindo este que se segue com parte da sua vida profissional.




Angola > Ponte do rio Cuanza (em contrução), projeta pelo prof Edgar Cardoso > c. 1970/73 > O José Àlvaro Almeida de Carvalho, diretor do departamento de trabalhos externos da empresa L. Dargent Lda. Aqui ainda no início da montagem do tabuleiro da ponte...


Foto (e legenda): © José Álvaro Carvalho (2024). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


2. Memórias de trabalho e outras

por José Álvaro Almeida de Carvalho



Capa do "Livro de C",  de
 José Álvaro
Almeida de Carvalho (Lisboa
Chiado Books, 2019, 707 pp.)

(i) L. Dargent Lda


Tenho 78 anos de idade. Estou na reta final.

Depois de sair do serviço militar, entrei na empresa L. Dargent, Lda. uma das mais antigas da metalomecânica pesada, primeiro nos Serviços Administrativos, passando mais tarde para os Serviços Técnicos onde cheguei a director do Departamento de Trabalhos Exteriores.

Esta empresa montou o elevador de Stª. Justa, os guindastes do Porto de Leixões, a Ponte Elevatória de Alcácer do Sal, e construiu dragas de grande dimensão, várias pontes metálicas de caminho de ferro, assim como outras obras grandes e pequenas da sua especialidade. 

Era uma sociedade por quotas inteiramente privada, cheia de crédito 
no sistema bancário que nunca usou.

Tinha em média 150 operários, uma boa sala de desenho apoiada em
 técnicos competentes e uma excelente secção de serralharia mecânica de suporte à oficina.

Ainda nos serviços administrativos, interessei-me pelo que se passava nesta oficina. Em primeiro lugar pela soldadura no que me especializei com a ajuda da Welding Researche Assotiation de Londres a que a empresa se associou e o contacto assíduo com empresas como a multinacional sueca ESAB de Gotengourgo, e outras.

No fabrico e montagem de reservatórios e tubagens aprendi muito com os operários que iam trabalhar para a Chicago Bridge and Iron Company , quando regressavam e entravam de novo no anterior serviço, porque já iam nessa condição, ou com os que não regressavam mas quando vinham de férias visitavam a fábrica.

Deles recebi preciosos conhecimentos através de informações, desenhos de pequenas peças para acerto de montagem, mais evoluídas que as nossas etc.

A empresa americana de que falo, tinha um escritório em Lisboa, onde recrutava pessoal para os seus estaleiros, principalmente soldadores. Tínhamos excelentes soldadores.

Até aquela altura todas as refinarias europeias eram feitas por empresas americanas principalmente por esta, que conheci melhor. Cheguei a deslocar-me a Huelva para ver o trabalho que alguns dos nossos operários faziam na construção da sua refinaria.

Quanto ao trabalho de metalomecânica em geral, adquiri o conhecimento que acabei por ter, com os experientes e conhecedores operários encarregados e técnicos da L. Dargent Lda. que recordo com amizade e agradecimento, principalmente quanto aos trabalhos de caldeiraria, por ser impossível haver escolas para esta arte. As chapas mais pequenas com que se trabalham em caldeiraria têm geralmente 6 m, por 2 e os produtos finais podem ter a dimensão dum porta contentores, dos guindastes que os manuseiam ou dum petroleiro. Mesmo as suas componentes que se trabalham normalmente ao ar livre já são muito grandes.

A minha formação académica levou-me a frequentar a faculdade de economia, donde saí para o serviço militar. Tinha portanto conhecimentos de matemática suficientes para estudar Resistência de Materiais, que entretanto comecei a fazer nos livros do mundialmente conhecido engenheiro Timoshenko e me foi de grande utilidade, principalmente no último trabalho, que mais à frente refiro, para me entender com o sr. Professor Edgar Cardoso que o projetou e tinha um profundo conhecimento de engenharia.

Como diretor do departamento de trabalhos exteriores, dirigia no local a montagem das obras importantes como a cobertura da segunda fase da Siderurgia Nacional ou a montagem duma parte do parque de tanques de stocagem da refinaria de Leixões. No que se refere às mais pequenas, visitava semanalmente os respetivos estaleiros.

O último trabalho importante de que falo acima, foi a montagem da superestrutura metálica e cabos de suspensão da ponte na foz do Rio Cuanza em Angola. Tendo estado a residir com a família em Luanda cinco anos por este motivo.

Antes de ir para Angola ensinei a soldar com máquinas semiautomáticas 6 soldadores que já eram bons profissionais em soldadura clássica. Depois de um período de prática fi-los examinar pela Loyd’s Register of Shipping que com o Bureau Vertitas constituíam na altura as mais importantes entidades fiscalizadoras dos trabalhos da nossa especialidade na Europa. Apesar da dificuldade destes exames todos foram aprovados.

Não sabia o nível da fiscalização que ia ter e mais vale prevenir do que remediar. Levei também para Angola uma máquina de Raios X pela mesma razão. Mas a fiscalização era fraca e esta máquina nunca trabalhou. Por outro lado o Professor Edgar Cardoso tinha muita confiança na minha empresa que conhecia de longa data.

Quanto a estes soldadores, com a carta da Loyd’s na mão, começaram a ser solicitados para trabalharem nos estaleiros do Médio Oriente. De quando em quando vinha um pedir para o fazer. Nunca tive coragem para lhes dificultar a vida. Iam ganhar muito mais e possivelmente obter know how diferente do que estavam habituados. Só um ficou, o mais velho, que me fez companhia até ao fim.

Esta situação originou a que já depois de executado um pouco mais de metade do trabalho, sempre que se montava uma viga principal (14 m de comprimento e 14 tons de peso), entregava o estaleiro ao encarregado e passava 3 dias a soldá-la dum lado, com o soldador que ficou no outro. Eram soldadas ainda suspensas do guindaste que as levantava do rio. Assim se fez o trabalho até ao fim.

O encarregado de que falo, era um soldador que em tempos tinha pedido para trabalhar num estaleiro do Médio Oriente, que passados alguns anos regressou e foi promovido a encarregado. Quando fui para Angola acompanhou-me nessa qualidade e foi o meu braço direito durante toda a obra.

As vigas a que atrás me refiro foram fabricadas em Lisboa nas oficinas da empresa a partir de chapa importada da Alemanha.

Este trabalho foi no geral concluído em março de 1974, tendo entrado em acabamentos a partir dessa altura.

(ii) Construtora Moderna

Passei dia 25 de Abril desse ano aí e regressei algum tempo depois.

Andei a ir e vir a Angola até deixar de ser necessário, após o que ingressei na empresa Construtora Moderna,  situada na margem Sul perto da povoação do Fogueteiro.

A empresa a que eu pertencia tinha sido extinta e os seus operários integrados nesta, a qual fora construída e equipada pela Sacor, a grande gasolineira da época, de grande capacidade financeira e que Marcelo Caetano obrigou a vender, por não ter comprovada capacidade para a sua gestão, ficando a Sorefame com a maioria do capital e L. Dargent, Lda. com uma pequena parte.

Fiquei orgulhoso e entusiasmado quando entrei para a equipa de direção desta oficina, que tinha 400 operários incluindo mais de 100 que eu bem conhecia. Mas foi sol de pouca dura.

Tinha 3 halls com 30 metros de elevação e mais de 200 metros de comprimento cada. Havia em cada um, duas pontes rolantes bem dimensionadas, para movimentarem materiais e peças do armazém para os postos de trabalho e entre estes. 

Estava equipada com o que de melhor havia na época para oficinas de caldeiraria (para quem não sabe, caldeiraria deriva do verbo caldear que significa aquecer duas partes de ferro ao rubro e juntá-las uma à outra, batendo-lhes com força a formar uma. Refere-se há muito a todos os trabalhos em aço de espessura superior a 3mm. O trabalho em espessuras inferiores chama-se de serralharia).

As principais obras a decorrer consistiam a primeira, no fabrico de pernas tubulares com 60 metros de comprimento e três de diâmetro em chapa com 30mm de espessura para duas torres de petróleo da Mobil, uma subempreitada da Sorefame.

Esta obra começou a sofrer da particularidade de todas as semanas diminuir o ritmo de produção. Chamava-se a Comissão de Trabalhadores que,  depois de explicada a gravidade do assunto, a importância que a obra tinha para a indústria e para o país, respondia sempre: “Estamos aqui para defender os trabalhadores e não para os atacar”. Nunca entendi este raciocínio.

Quanto à outra obra grande em execução, a construção de vigas em T com 16 m de comprimento de 40 x 20 cm a partir de chapa de 12 mm de espessura, para a reparação dum navio sueco que se encontrava no porto, acontecia o seguinte:

No primeiro dia, vi uma chapa de 16 m x 2.5 m x 0.012 m com o peso aproximado de 5000 kg suspensa de duas pontes rolantes, que a transportavam perigosamente, por cima de vários postos de trabalho.

Conclui que a preparação devia estar mal feita.

Em caldeiraria a preparação é constituída pelas fichas e instruções entregues nos postos de trabalho, onde se descreve o trabalho a fazer. Estas fichas eram feitas nos departamentos de Preparação e Traçagem. Antigamente chamavam-se simplesmente de Traçagem, por ser esse o seu objectivo principal, já que os desenhos provenientes das salas de desenho, não indicam como executar as peças.

Os desenhadores em geral não sabem fazer o trabalho de traçagem, que tem muitas características próprias e métodos empíricos, alguns antigos, como por exemplo a marcação em plano da chapa que depois de enrolada irá formar um tubo que intercepta outro em determinado angulo. O corte dum dos seus lados tem percurso sinusoidal surpreendente.

O primeiro traçador que houve em Portugal veio da Bélgica e foi mais tarde o fundador da empresa onde trabalhei a maior parte da minha vida. Penso que viveu duas gerações antes da minha e o seu nome era Lambert Dargent.

A primeira ficha da obra a que pertencia a chapa referida, indicava que este posto de trabalho traria do armazém uma chapa standard de 12 m x 2,5 m x 0.012 m e uma de 4 m x 2,5 m x 0.012 m , soldava-as uma à outra formando uma que enviava para a máquina de corte.

Se a preparação estivesse bem feita estas duas chapas deveriam ser cortadas em barras primeiro e soldadas depois no sentido longitudinal para atingirem os 16 m. Acresce que o caminho de rolamento da máquina de corte só tinha 14 m e para cortar uma chapa de 16 m , até aos 14 m o trabalho fazia-se com rapidez mas depois era feito com métodos ancestrais do que resultava que a máquina em vez de cortar 20 chapas por dia, só cortava duas ou três.

(iii) Sorefame

Eu dependia do diretor de produção da Sorefame. Pouco depois, este senhor, acusou-me numa assembleia da direção de não acompanhar devidamente esta obra, já ameaçada com multas de incumprimento pelo cliente.

Esclareci a situação e o que havia a fazer era substituir a preparação existente por uma nova bem feita. Ele afirmou que ou as coisas eram executadas como eu dissesse, ou não punha lá mais os pés.

Isto originou a que fosse chamado a uma assembleia de trabalhadores onde me foi perguntado porque queria alterar coisas que estavam bem feitas. Respondi a esta pergunta anunciando a minha saída da empresa.

Em pouco tempo já tinham acontecido alguns factos que,  somados, me fizeram pensar que ela iria soçobrar a curto ou médio prazo, como aconteceu.

(iv) Mague, Lisnave, Setenave... e tudo o vento levou

Mas, estava longe de saber que iria acontecer o mesmo a toda a indústria metalomecânica, incluindo os grandes estaleiros navais, a Sorefame na Amadora , e várias outras, como a Mague em Alverca, - especializada em aparelhos de elevação, que fez a maior parte dos guindastes para contentores do porto de Lisboa, o enorme pórtico de 300 toneladas da Lisnave, e muitos aparelhos desta especialidade para outros países. Nesta altura, fabricava guindastes de contentores para o Porto de Estocolmo, mas já tinha começado a ter problemas.

Beneficiando destas empresas maiores, havia outras médias e pequenas ligadas por subempreitadas e acordos de trabalho, por terem custos de estrutura menores e praticando preços para obras pequenas ou partes de obra, convidativos.

Desaparecidas as primeiras, começaram pouco depois a desaparecer as segundas. Um castelo de cartas.

A Mague de que falei acima, nasceu da necessidade duma oficina de reparação de equipamentos de construção civil para trabalhos de grande dimensão como a construção de barragens, na empresa “Moniz da Maia & Vaz Guedes”, que construiu a Barragem de Castelo de Bode.

Terminada esta construção, já tinha equipamentos e know how suficientes para se tornar independente e concorrer em construções de engenharia mecânica pesada, como aparelhos de elevação e turbinas, que veio a fabricar para todo o mundo como já disse. Adotou o nome de Mague formado por carateres dos nomes Moniz da Maia e Vaz Guedes.

Chegou a ter milhares de operários e em subempreitadas e ligações de trabalho a ocupar outros tantos.

A soldadura foi descoberta em 1911, passado tempo viu-se que um pingo de soldadura resistia tanto como um rebite e era muito mais barato. A pouco e pouco a construção em aço incluindo a naval deixou de ser rebitada, e passou a ser soldada, ao mesmo tempo as siderurgias começaram a produzir aços mais homogéneos com menos carbono e inclusões de produtos nocivos, como o enxofre, e portanto mais resistentes e soldáveis.

Mas a soldadura não fica capaz se efetuada a 0º C de temperatura e no Norte da Europa esta temperatura é frequente. Em Lisboa solda-se todo o ano.

Foi este motivo, somado à excelente posição estratégica do seu Porto e ótimas condições naturais, que fez com que três estaleiros suecos e dois holandeses se aliassem a três nacionais e a um banco, para construírem o grande estaleiro de reparações navais da Margueira, a Lisnave, que chegou a ser o mais importante do mundo no seu tampo nessa área de atividade. A sua maior doca a doca13 podia por em seco navios com que deslocassem 1 milhão de toneladas.

Foi também o mesmo principio que esteve na origem da instalação no porto de Setúbal da Setenave para a construção naval de petroleiros ou navios de grande dimensão.

A Lisnave foi oficialmente constituída a 11 de Setembro de 1961.

Em 1969 já detinha 39% da reparação mundial de navios até 300 000 toneladas.

Em 1970, 96% dos navios reparados pertenciam a armadores estrangeiros.

Neste ano iniciou um novo tipo de actividades, com a construção de grandes secções, proas e partes centrais de navios.

Entra assim num campo mais elevado de tecnologia, que lhe irá permitir efectuar reparações mais complexas, assim como Jumboizing (termo aplicado ao aumento de capacidade de carga dos navios, por acrescento de uma nova secção).

Ainda neste ano, o estaleiro da Margueira aumentou a sua produção 41% relativamente ao ano anterior.

No ano de 1973, a empresa tinha 7700 trabalhadores. Em 1974 teve inicio a sua decadência até à extinção.

A construção do estaleiro da Setenave começou nos inícios de 1972 e um dos seus administradores, afirmou à imprensa que seria um investimento de 2,5 milhões de contos, para 6.000 trabalhadores na fase plena.

Efectivamente a construção naval arrancou em 1973. Mas no ano seguinte aconteceu o 25 de Abril de 74 e, a partir dessa data, a Setenave passou a ser uma caldeirada politica laboral.

A empresa Sociedades Reunidas de Fabricações Metálicas, S. A. R. L., foi uma sociedade anónima de responsabilidade limitada portuguesa, especializada na construção de componentes eléctricos e mecânicos pesados. Foi fundada em 1943 e dedicou-se, inicialmente, ao fabrico de equipamentos hidromecânicos, cuja procura era elevada devido ao programa de construção de barragens hidroelétricas no âmbito da industrialização do país.

Afirmou-se mais tarde quando essa atividade deixou de ser necessária, como um importante construtor de material circulante ferroviário, em parceria com várias empresas internacionais.

Nos princípios da década de 50, a CP afirmou a sua intenção de adquirir carruagens metálicas de aço inoxidável canelado.

Para responder a tal necessidade, a Sorefame  associou-se à empresa americana Budd Company, que detinha a patente para a construção deste material, tendo recebido uma licença de fabrico e os conhecimentos técnicos necessários. Era a única empresa a fazê-lo na Europa.

Fabricou importantes encomendas de automotoras de vários tipos, normais e triplas, assim como locotratoras, carruagens e locomotivas eléctricas para a CP e mais tarde para o Metro e Carris.

Forneceu também equipamentos destes para a África do Sul.

Chegou a ter, no início dos anos 80, mais de 4.100 trabalhadores e uma base tecnológica e de engenharia própria, conceituada.

Fabricou também 200 carruagens para o material circulante do Metropolitano de Chicago, encomendadas pela Boeing em 1974.

Neste ano, recebeu também uma encomenda da Alsthom para o fabrico de 30 locomotivas, de 2800 CV, para a Rodésia. Tendo realizado a sua montagem com os motores e restantes equipamentos enviados por essa empresa.

A Revolução de 25 de Abril de 1974 veio trazer um clima de instabilidade social e política, que a atingiu fortemente. Começaram a realizar-se greves consecutivas que deram inicio ao seu declínio.

Foi totalmente extinta em 2001.

(v) Listrafego

Algum tempo após sair da metalomecânica pesada,  fui trabalhar para uma pequena empresa que operava no porto de Lisboa especializada na reparação de contentores.

Nessa altura o trafego portuário era intenso e não havia mãos a medir. A empresa embora só com trinta operários faturava mensalmente um valor muito elevado para a sua dimensão.

Tinha o seu escritório principal numa rua perto do Saldanha e um estaleiro com escritório, armazém de peças e ferramentas no grande parque de contentores do porto, a Listrafego, onde passei a trabalhar. Todos os dias o pessoal partia daqui numa carrinha para as zonas de trabalho do porto e por vezes para parques dos arredores da cidade, em Camarate, em Loures, em Sacavém e outros, uma vez que o trafego era muito intenso e estava esgotada a capacidade necessária de armazenamento.

Parecia ser esta a altura de executar finalmente o projecto antigo de ligar o porto de Lisboa ao de Setúbal fazendo um canal entre o Tejo e o Sado. Este canal já se encontrava assinalado nas cartas de navegação e podia ser feito com o dinheiro gasto a construir um troço de autoestrada, formando-se assim a infraestrutura portuária mais importante da Europa.

Mas não foi o que aconteceu. O que aconteceu foi que uma vez por semana havia um plenário de trabalhadores e o porto parava. Os custos aumentaram e obrigaram os navios a procurarem outras paragens.

O espaço começou a ser excedentário. O trabalho a ser reduzido. A empresa para a qual trabalhava ia ficando mais pequena à medida que os trabalhadores pensaram com razão, já não estar ali o seu futuro. Eu disse no escritório do Saldanha que quando houvesse tantos gerentes como operários me vinha embora. Saí quando havia quatro e quatro gerentes.

Foi no meu local de trabalho e de muita outra gente que nasceu a Expo 98, um barrete bonito.

A metalomecânica pesada e uma importante parte da média e ligeira frequentemente suas subempreiteiras, associadas ou subalternas, assim como o Porto de Lisboa, contribuíam com uma quota elevadíssima para a riqueza do país, sendo os seus serviços principalmente pagos em divisas. Sustentavam milhares de famílias.

Quando se despreza o know how como foi desprezado ultimamente no nosso país que não nos pôs na miséria por termos a ajuda da CEE,  não se conhecem situações como a que passei nos meus primeiros anos de metalomecânico quando me interessei por acompanhar as primeiras obras da oficina. 

A primeira foi o fabrico de 3 caldeiras de 600 cv cada para a Sociedade Central de Cervejas de Via Longa. Estas caldeiras como julgo que todas as que se fabricaram foram feitas sob licença duma empresa Norte Americana da especialidade á qual se pagaram os necessários royalties.

Juntamente com os desenhos de fabrico que se receberam, vinham também as necessárias instruções e o tempo em horas necessário para a execução de cada tarefa. O exame destes documentos provocou-me a genial ideia de que como pagávamos 5 vezes menos que os americanos, quando fizéssemos em 5 horas o que eles faziam numa poderíamos colaborar com eles em pé de igualdade, parceria, subempreitada etc.

Por este motivo acompanhei atentamente esta obra. Tínhamos operários muito competentes e experientes, as máquinas principais eram as mesmas, uma calandra boa e um engenho de furar de precisão para furos de 50mm em chapa de 40mm de espessura o qual tínhamos adquirido havia pouco tempo.

No final da obra conclui que tínhamos feito em 16 horas o que eles faziam numa e por qualquer razão não tinham concorrido ao seu fabrico, ou porque consideravam sermos o seu parceiro cá e lhes compensava só os royalties, ou qualquer outra.

Foi este o meu primeiro balde de água fria na metalomecânica. Houve depois muitos outros que me escuso de contar.

É por isso que depois de assistir a ser ignorado e despezado, o know how pacientemente adquirido ao longo de dezenas de anos e a ligeireza com que um tão grande volume de postos de trabalho e correspondente riqueza foi tratado, peço desculpa aos meus amigos socialistas, mas tenho a maior dificuldade em não concordar com as palavras da srª Tatcher quando discursou na greve dos mineiros em Manchester:- “ Os sindicatos em vez de defenderem os postos de trabalho, destroem-nos. Nunca mais nos livramos do maldito socialismo.”

Definir como objectivo acabar com os patrões foi trágico porque havia patrões maus, bons, justos, injustos, que corrompiam e que não, que sobreviviam ou estavam em sério risco, etc. , mas tinham todos duas coisas em comum. A primeira é a de que arriscavam na actividade o seu património, a sobrevivência da família e a segunda é que criavam a parte mais importante da riqueza do país.

Muito do que nós perdíamos era ganho por outros. Penso que houve influências discretas neste processo, que obtiveram os ganhos correspondentes. A história o dirá.

Julgo assim que depois do que se passou nos temos que habituar à escassez generalizada e a praticar níveis de vida mais modestos. Só espero que sejam dignos.

Embora simpatizasse com as ideias socialistas, toda a minha vida lutei pela produção, por isso entendo que quando um posto de trabalho é eliminado leva com ele know how difícil de se voltar a obter.

Um dia, a minha filha mais nova, sabendo-me um mau socialista, perguntou-me com malandrice:

- Ó pai, porque será que a maior parte dos homens cultos são de esquerda?

Ao que respondi no mesmo tom :

- Sabes porquê? Porque são esses que depois de nela caírem, conseguem dar a volta aos erros de que padece.

Fazem falta para a manter viva.

Pensei e penso que acabar com a exploração do homem pelo homem é um objectivo nobre a cumprir.

Mas a inevitabilidade da vida, que obriga a termos que comer, vestir, ter cuidados de saúde, educação, etc., tornou também inevitável a existência de meios de produção. O seu desaparecimento pode pôr-nos a pão e laranjas e ser considerado uma ameaça à sobrevivência. Não ponho aqui a questão de a quem devem pertencer, se aos particulares ou ao Estado, mas no geral, não tenho conhecimento de qualquer Estado capaz de geri-los com eficácia, sendo a meu ver, esta a razão da existência da sociedade de consumo com todas as suas monstruosidades. Posso estar enganado.

Então e agora? Agora é murmurar, gritar espernear, barafustar, etc. Pode ser que resulte, mas um caldeireiro ou um serralheiro mecânico não se fazem numa semana, nem num mês, nem num ano, nem longe duma oficina e uma oficina de caldeiraria ou serralharia mecânica idem idem, aspas aspas a multiplicar por 10.

Para quem for crente e queira ultrapassar dificuldades recomendo uma ida a Fátima a pé.

A destruição irreversível dos meios produtivos não foi só da responsabilidade das esquerdas,  como parece.

Não se pode deixar de falar na política de terra queimada que a direita praticou ou quem por ela se fez passar, alheando-se propositadamente, de tudo e de todos, não explicando que o resultado do processo em curso iria descambar onde estamos agora e no que ainda está para vir.

Podemos portanto dizer adeus aos trabalhos de construção naval, de guindastes , de pontes, de comboios, etc., assim como de fazer da infraestrutura portuária dos Portos de Lisboa e Setúbal a maior e melhor da europa.

Esta promissora e comprovada competência da nossa terra e da nossa gente é já só o sonho duma noite de Verão, chão que deu uvas.

(vi) O regresso às origens


Finalmente acabei por vir prá região onde nasci e dediquei-me algum tempo a elaborar projetos de construções pecuárias e depois turísticas que me ocuparam alguns anos.

Mais tarde comecei a elaborar projetos técnicos de betão armado para vivendas e pequenos prédios, ao serviço dum gabinete de engenharia.

Entretanto pouco depois reformei-me, mas continuei a trabalhar no mesmo durante anos. Elaborava em média a estrutura de betão armado de duas vivendas ou um pequeno prédio por semana.

A certa altura comecei a achar estranho que se construíssem tantas casas e o preço das mesmas aumentasse exponencialmente de ano para ano. Parecia-me que isto contrariava as velhas leis económicas da oferta e da procura, mas como tinha poucos conhecimentos da matéria e a vida me corria bem, fiz aquilo que os ingleses recomendam nestes casos, “wait and see”.

Mais tarde, refletindo melhor conclui que as bolhas imobiliárias tinham sido originadas pelas promessas dos políticos antes de ascenderem ao poder que depois não cumpriam na totalidade mas só em parte a qual já era suficiente para, com a constante subida de impostos e outros malefícios,  pôr as economias em derrapagem, as receitas dos governos inferiores às despesas. 

Na nossa terra houve ainda a preciosa ajuda dos sindicatos com a rápida destruição do tecido económico.

Os bancos cuja atividade começou a ser fortemente afetada, para se defenderem e manterem as altas regalias que tinham, começaram a investir com abundância no sector imobiliário, o mais fácil, garantidos pela 1ª hipoteca dos imóveis,  mais tarde também pela 2ª e até pela 3ª. Como investiam com a mesma facilidade tanto na construção como na aquisição, o valor das casas não descia. 

Nas bolsas de valores começaram a aparecer produtos tóxicos com base nestes comportamentos até que os credores em presença dos elevados encargos com que acabaram por ficar, deixaram de cumprir no todo ou em parte e as bolhas rebentaram com as muitas consequências negativas conhecidas

O milionário George Soros que se formou em economia na Inglaterra e fez fortuna na bolsa de Nova Yorque, num dos livros que escreveu (2008), criticou fortemente a atuação dos governos do Senhor Bush e da Senhora Tatcher e seus conselheiros, que recomendavam a não intervenção nos mercados, porque estes se autorregulavam de acordo com as leis da teoria económica clássica.

Na opinião deste senhor, ou os governos intervinham, ou a economia global dava uma cambalhota. Parece que está aí.

Aqui na minha terra tenho tido mais tempo para meditar. Lembro-me dum amigo do meu pai lhe dizer que quem trabalha muito não tem tempo para ganhar dinheiro.

Acho que o atual generalizado desprezo pelo trabalho se fundamenta nesta máxima.

Não era preciso que atualmente existissem junto do poder conselheiros tão bons como houve junto do rei D. João II, mas há mínimos a atingir seja no que for.

Também nunca mais soube nada do enorme tesouro que existia no Banco de Portugal em depósito ou crédito, que constava no relatório mensal do Banco Português do Atlântico de Março de 74 e era constituído por 800.000 barras de ouro de 1 kg e mais o equivalente em divisas.

segunda-feira, 24 de março de 2025

Guiné 61/74 - P26611: Notas de leitura (1783): "Futuros Criativos"; edição da Associação para a Cooperação Entre os Povos, Fundação Portugal-África e Instituto Camões, 2019 (1) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 8 de Dezembro de 2023:

Queridos amigos,
Aconteceu andar a passear pelo Campo dos Mártires da Pátria e resolvi entrar no Goethe-Institut, aqui se promove a língua e cultura alemãs, tem permanentemente livros em saldo, dirigi-me em primeiro lugar à biblioteca, se tinha vindo alguma coisa sobre a Guiné-Bissau, que não, mas lembrava-se que havia ali uns expositores de livros em segunda-mão qualquer coisa que falava da Guiné-Bissau. Matei a barriga de misérias, encontrei um cd com os concertos de flauta de Georg Philipp Telemann, interpretações prodigiosas, livros de fotografia e, cá está, este Futuros Criativos que me encheram a alma, naquele dia em que vinham notícias tão sombrias de uma terra que tanto amo, e aqui fica esta minha homenagem àquele povo que não desfalece com sucessivos piratas em lideranças políticas, são a estes futuros criativos que mando o meu abraço e votos de resiliência, haverá um dia em que este povo amável encontrará lideranças justas.

Um abraço do
Mário



Futuros Criativos da Guiné-Bissau (1)

Mário Beja Santos

Futuros Criativos tem a ver com economia e criatividade em Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, S. Tomé e Príncipe, e Timor-Leste, acolhe um conjunto de atividades desenvolvidas pela ACEP – Associação para a Cooperação Entre os Povos, edição da ACEP, Fundação Portugal-África e Instituto Camões, 2019. Aqui são repertoriadas atividades em parceria com organizações e pessoas destes países de língua portuguesa ao longo dos últimos quatro anos, com o objetivo de conhecer e valorizar a inovação e a criatividade como fatores de desenvolvimento.

A criatividade e inovação estão cada vez mais na base da valorização de recursos endógenos e até identitários, de descoberta de novas soluções para uma multiplicidade de desafios, assistimos à criação de oportunidades para jovens, uma maior igualdade na inserção das mulheres no trabalho e nas comunidades, inclusão de populações rurais envelhecidas, uma gestão de recursos de forma sustentada, valorização de culturas nacionais, com o recurso a inovações da ciência e da técnica. A economia criativa é um conceito baseado nos recursos criativos que potencialmente geram crescimento e desenvolvimento económico. Aqui se passam em revista experiências em território da Guiné-Bissau que abarcam diferentes áreas, mas que certificam que a economia criativa permite o desenvolvimento de atividades económicas suportadas pelo capital cultural, criativo e artístico, transversal aos contextos culturais, artísticos, sociais e económicos e que conferem um caráter único aos bens e serviços gerados.

Escrevo este texto numa ocasião uma vez mais tão dolorosa para o povo da Guiné-Bissau, o que aqui mostro, retirado deste esplêndido livro, é a minha rendida homenagem a um povo que tanto amo, tem a sorte madrasta de ser dirigido por classes políticas cúpidas, dominadas pela agiotagem, expedientes de corrupção, tenebrosos compadrios de negócios, incluindo os da droga. Um povo que nos deslumbra pela capacidade de superara adversidade e de usar a inovação e o criativo como recursos ilimitados.


Os Netos de Bandim: amigos das crianças e das artes

São crianças e jovens entre os 4 a 30 anos de idade e todos têm uma paixão pelas artes culturais e tradicionais dos diferentes grupos étnicos que representam a cultura guineense. Surgem da iniciativa da organização não-governamental guineense Amigos das Crianças, em 2000, com o objetivo de sensibilizar para a maior promoção da cultura guineense, recolhendo e divulgando elementos de expressão dos diversos grupos étnicos do país. Rapidamente se transformou também em instrumento de sensibilização através da dança, música e teatro, reunindo cerca de 120 associados jovens, do bairro de Bandim, em Bissau. As receitas provenientes das atuações revertem para a educação dos seus associados e para o apoio em despesas de saúde. Os Netos de Bandim são uma presença assídua no Carnaval e já representaram o país na maior manifestação de Carnaval do mundo – o Carnaval do Brasil.
Imagens dos Netos de Bandim

Irmão Unidos, pelo sangue e pelas artes plásticas

Começaram por pintar cabaças, no início dos anos 2000. Criaram então o grupo “Irmãos Unidos”. A pintura foi-se tornando uma forma de contribuir para a dinamização da cultura guineense. Neste sentido envolveram-se na Associação de Artistas Plásticos, onde Lemos Djata tem exercido funções como presidente. Já apresentaram o seu trabalho em exposições individuais e coletivas na Guiné-Bissau, Cabo Verde, Senegal e Egipto, Portugal, França, Bélgica e Espanha. Foram galardoados como os melhores pintores do ano em Bissau, em 2005, tendo recebido prémios e distinções por organizações da Polónia, de Portugal e da diáspora guineense. Sentido que as artes plásticas têm ainda pouco espaço na Guiné-Bissau, procuram divulgar o seu trabalho num espaço de exposição coletiva em Bissau, onde apresentam o seu trabalho, com outros artistas plásticos nacionais.
Os Irmãos Unidos, Ismael e Lemos Djata
Imagem de um dos seus trabalhos

A deslumbrante panaria que sai dos panos de pente

Fundada em 2004, a Artissal é uma associação guineense que trabalha na recuperação e valorização da panaria guineense. Os panos de pinti (de pente, o tipo de tear utilizado) são tradicionalmente utilizados nas mais importantes cerimónias das pessoas e comunidades, principalmente das etnias Papel e Manjaca, e a sua produção é habitualmente realizada por homens, a partir de conhecimentos e técnicas ancestrais, transmitidos entre gerações. A associação tem desenvolvido um trabalho de pesquisa e recuperação de materiais e padrões antigos, de práticas de tecelagem e de modelos de teares, introduzindo elementos de melhoria, quer na qualidade das matérias-primas quer na qualidade dos processos de trabalho. Tem igualmente dinamizado grupos de mulheres tecelãs, de etnia Papel, que participam de grupos de formação com artesãos, abrindo assim esta atividade às mulheres. Com o propósito de melhorar a dinâmica de produção e a geração de rendimento para os artesãos e artesãs, estes estão organizados em cooperativas e numa federação: a Cooperativa Bontche, em São Paulo, Bissau, a Cooperativa Djaguimobilar, em S. Domingos, e a Federação Sitna Bissif, em Cacheu. A Artissal procura integrar estes grupos em redes nacionais e internacionais de comercialização solidária, contribuindo para a divulgação da panaria tradicional guineense e para a comercialização dos produtos por um preço justo. A qualidade desta panaria tem sido alvo de reconhecimento que permite a continuidade do projeto, pelos apoios que estimulam a continuidade.
Artissal, os maravilhosos panos de pente

B&F, a engenheira que se dedica à moda

Nérida Fonseca é uma jovem engenheira informática que trabalha para uma grande empresa internacional de telecomunicações. Em 2014, decide criar a sua própria empresa, a Batista & Fonseca, que se dedica à produção e comercialização de acessórios de moda e decoração a partir de elementos tradicionais da cultura guineense – o pano de pinti. Este artigo, tradicionalmente associado às cerimónias fúnebres e matrimoniais das etnias Papel e Manjaca, adquire novas formas e funções nas criações de Nérida. O que é que faz correr esta engenheira informática? A paixão pela moda e pelo seu país, a que se aduz a sua capacidade enquanto autodidata, o que lhe permitiu aliar o design contemporâneo ao saber tradicional pano de pinti. Inicialmente, tudo o que confecionava era ou para uso exclusivo na própria casa ou para dar presentes aos amigos e conhecidos. A receção que as diferentes peças tiveram no mercado foi determinante para a formação da dimensão comercial. E o aeroporto de Bissau tem sido a sua rampa de lançamento.
B&F, acessórios de moda e decoração a partir de elementos da cultura guineense

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 21 de março de 2025 > Guiné 61/74 - P26603: Notas de leitura (1782): Philip J. Havik, um devotado historiador da Guiné: Negros e brancos na Guiné Portuguesa (1915-1935) (4) – 3 (Mário Beja Santos)

domingo, 16 de março de 2025

Guiné 61/74 - P26590: Caderno de notas de um mais velho (Antº Rosinha) (57): O "15 de Março de 1961": quem ganhou, quem perdeu ? Quem ficou na pior, previsivelmente, foram mesmo duas ou três gerações de angolanos.


1. Mensagem do nosso camarada António Rosinha (foto à esquerda, em Pombal, 2007, por ocasião do II Encontro Nacional da Tabanca Grande; foi fur mil, ainda do tempo da farada "amarela", em Angola, 1961/62; t
opógrafo em Angola, para onde foi adolescente, africanista de alma e coração, regressou a Portugal em novembro de 1974, emigrou para o Brasil da ditadura militar (que vigorou de 1964 a 1985), e mais tarde para a Guiné-Bissau do partido único, onde trabalhou, de 1978 a 1993,  na empresa TECNIL, ao tempo do Luís Cabral e do 'Nino' Vieira, "camaradas", "heróis da liberdade da pátria",  que ele conheceu bem no poder; entrou para o nosso blogue,  em 29/11/2006, é um histórico da Tabanca Grande; é autor da série "Caderno de Notas de Um Mais Velho"; tem cerca de 150 referências no blogue).

Data - 16 mar 2925, 00:39 

Assunto - 15 de Março de 1961


Faz nesta data, 64 anos, aquele massacre do norte de Angola com que a UPA  (União dos Povos de Angola) tribalmente iniciou o chamado terrorismo, termo absolutamente correto, e que deu início à chamada guerra do Ultramar.

Hoje essa guerra tem muitos nomes.

A partir desta data o mundo ficou todo contra Portugal e contra Salazar, em particular.

Na ONU, essa coisa, hoje mais ou menos desrespeitada, votou contra Nós,  Portugal nas colónias africanas, entre todos os "amigos" de África, EUA e URSS, e abstiveram-se Inglaterra e França.

Estes dois já sentiam alguma vergonha, escondida, dos briosos golpistas que iam impondo nas suas ex-colónias,  e que iam protegendo à base de conselheiros mercenários.

Mas Portugal e Salazar tinham um grande amigo que disfarçadamente, sem a URSS se aperceber, mandou o seu embaixador oferecer os seus préstimos a Salazar e este agradeceu: «Ouvi-o atentamente e agradeço-lhe a sua visita. Muitos cumprimentos ao Presidente Kennedy. Muito boas tardes, senhor embaixador.» (Franco Nogueira)

Passados 13 anos a URSS levou a melhor, viu-se, pelo menos pareceu.

Quem ficou na pior, previsivelmente, foram mesmo duas ou três gerações de angolanos.

E a Europa ficou com inúmeros países vizinhos que criou, a pedir "explicações".

O Salazar não queria este fim para a Europa e para África.

Cumprimentos, Antº Rosinha.

PS - Mas a Europa já nessa altura, já não podia com uma gata pelo rabo!


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sábado, 15 de fevereiro de 2025

Guiné 61/74 - P26499: Os 50 Anos do 25 de Abril (36): Lisboa, Belém, Museu de Etnologia, até 2/11/2025: Exposição "Desconstruir o Colonialismo, Descolonizar o Imaginário. O Colonialismo Português em África: Mitos e Realidades" - Parte II










Exposição > “Desconstruir o Colonialismo, Descolonizar o Imaginário. O Colonialismo Português em África: Mitos e Realidades”


Museu Nacional de Etnologia, Lisboa, Belém,
30 out 2024 / 2 nov 2025 (*)



1. Continuamos a visitar esta exposição, que pode ser vista até 2 de novembro de 2025. E que requer "tempo, vagar e distanciamento crítico"... Merece pelo menos duas visitas. 

O seu objetivo é "pedagógico e didático", reune a colaboração de 3 dezenas de especialistas mas não deixa de ter o cunho muito pessoal e profissional da sua curadora, Isabel Castro Henriques (n. 1946) (*).


Painel I
Recorde-se que a exposição é organizada pelo CEsA Centro de Estudos sobre África e Desenvolvimento (do Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade de Lisboa, ISEG/UL)  e pelo Museu Nacional de Etnologia,  e integra as comemorações dos 50 anos do 25 de Abril.

É uma pena que a exposição não possa chegar a todo o lado... E,  tal como foi concebida, não pode mesmo, por incorporar valiosos artefactos culturais, alguns deles produzidos em territórios que foram colonizados por Portugal ...e que hoje fazem parte das coleções do Museu Nacional de Etnologia (criado em 1965 pelo nosso grande antropólogo Jorge Dias). (Acrescente-se que essas peças foram legitimamente adquiridas na sequência de projetos de investigação científica.)

Feita esta introdução, prosseguimos a visita ao primeiro painel (*) que é  dedicado ao tema "Estamos em África Há 500 Anos" (tema, recorrente, da propaganda que veio da Monarquia Constitucional ao Estado Novo, passando pela República, e que chegou aos nossos dias).

Toda a exposição se propõe confrontrar-nos (e  ajudar a confrontarmo-nos) com os "mitos e realidades" da presença portuguesa em África e com o nosso próprio imaginário.





"Cronologia das campanhas de ocupação e resistências africanas"


  • 1885/87: Ocupação portuguesa do distrito do Congo (Angola), incluindo o enclave de Cabinda  e a margem esquerda do rio (atribuídas a Portugal na sequência da conferência de Berlim);
  • 1886: Definição da fronteira da Guiné;
  • 1898/1902: Ações militares portugueses contra populações revoltadas  do centro de Moçambique (costa de Maganja, Angónia, Macanga e Barué);
  • 1902: Revolta dos Ovimbundo do planalto central angolano;
  • 1904/1915: Esforço militar português no sul de Angola e resistências africanas (Nhaneca, Cuamata, Cuanhama e Herero);
  • 1907/1914: Ações de efetivação do domínio português no litoral norte, no centro e centro-leste de Angola e resistências africanas (Bacongo, Dembo, Quissama, Ganguela, Quioco);
  • 1908/1912: Operações portuguesas e resistências africanas (Ajaua, Maconde,Macua) no norte de Moçambique;
  • 1908/1915: Operações portuguesas e resistências africanas na Guiné (Bijagó, Balanta, Mandinga, Manjaco,Papel, Grumete, Felupe);
  • 1914/1918: Primeira Guerra Mundial;
  • 1914/1920: Intensificação das operações militares portuguesas e efetivação da ocupação territorial contra as resistências africanas em Angola, Guiné e Moçambique;
  • 1915: Ocupação portuguesa do planalto dos Macondes (Moçambique);
  • 1917/1918: Revolta dos Barué (Zambézia, Moçambique);
  • 1920: Secas, fomes e epidemias (Angola);
  • 1926: Última ação militar contra os Quioco, no nordeste de Angola;
  • 1936: Últimas ações militares na Guiné e dominação do território.





Aprisionamento de Gungunhana por Mousinho de Albuquerque em Chaimite, em 28 de dezembro de 1895. Pintura de Morais Carvalho, Museu Militar, foto de Salvador Amaro.



(Imagens obtidas da exposição "in situ",  sem flash, com a devida vénia, e aqui reproduzidas com propósito meramente informativo...)

(Seleção, fotos e  fixação de texto: LG)


(Continua)

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Nota do editor:

Último poste da série > 3 de fevereiro de 2025 > Guiné 61/74 - P26456: Os 50 Anos do 25 de Abril (35): Lisboa, Belém, Museu de Etnologia, até 2/11/2025: Exposição "Desconstruir o Colonialismo, Descolonizar o Imaginário. O Colonialismo Português em África: Mitos e Realidades" - Parte I

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

Guiné 61/74 - P26487: Notas de leitura: "Um preto muito português", da luso-angolana e antiga "rapper" Telma Tvon (Lisboa, Quetzal, 2024)... Quem somos nós, "pretugueses" ? - Parte I (Luís Graça)



Telma Tvon (aliás, Telma Marlise Escórcio da Silva
(cortesia da Quetzal Editores)


(i)  nasceu em Luanda em 1980 (portanto, em plena guerra civil angolana, que vai de 1975 a 2002);

(ii) imigrou para Lisboa, em 1993 (com a irmã, sendo acolhida pela avó); 

(iii) frequentou o ensino secundário ao mesmo que tempo se integrava, desde os 16 anos,  na cultura rap, do soul e do hip hop;

(iii) pertenceu aos grupos Backwordz, Hardcore Click e Lweji, sendo os três grupos compostos por MC  femininas;

(iv) mais recentemente colaborou com o brasileiro  Luca Argel no projeto Samba de Guerrilha;

(v) licenciou-se em Estudos Africanos pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa;

(v)  fez  mestrado em Serviço Social pelo ISCTE-IUL.


Capa do livro de Telma  Tvon, "Um Preto Muito Português". 
Lisboa: Quetzal, 2024, 184 pp. (Série "Lígua Comum") (c. 15 €)



Sinopse > Um Preto Muito Português

João, aliás, Bidjura, como é conhecido, é filho de cabo-verdianos que vivem há muito em Portugal e neto de cabo-verdianos que nunca conheceram Portugal. Também é bisneto de holandeses que mal conheceram Portugal e de africanos que muito ouviram falar de Portugal. Vive em Lisboa, mas não é considerado alfacinha. Terminou a licenciatura na faculdade e vai trabalhar num call center, com outros negros e brancos, pobres e ricos. 

Budjurra faz parte de uma minoria que, lentamente, vai sendo cada vez menos minoria. É um preto português, muito português, que, ao longo do livro e das aventuras que relata, levanta questões relativamente a temas como racismo, discriminação, estereótipos, igualdade e humanidade, mas também música, rap, identidade - numa Lisboa morena e colorida que é necessário conhecer: 

«Posso dizer, sem qualquer orgulho, que sou um homem estranho. Tão estranho como a minha alma. […] E assim como os anos e meses  que4 passam em redor, continuo apenas mais um preto muito português.» 

Com a sua rara humanidade, Budjurra mostra-nos como se vive por dentro da invisibilidade da comunidade africana, como se lida com as narrativas falsas que a envolvem, como se sobrevive aos preconceitos e ao esquecimento. (Fonte: contracapa)


1.  Não sei se vamos ter um nova grande escritora da língua portuguesa. Esta é a sua primeira incursão no romance.  Nem sei se é um romance. É uma espécie de "diário de bordo" de um "pretuguês" que na sua viagem pelo seu quotidiano  da Grande Lisboa se interroga sobre a sua identidade, a sua relação com os outros, a começar pela sua família, os amigos, os colegas de trabalho, as mulheres e os homens com quem se cruza na vida, e que tem de lidar com o rascismo, o preconceito, a ignorância, a estupidez, o estereótipo, a discriminação, na escola, na rua, na esquadra de polícia, na agência de emprego,  no local de trabalho, na cama, na comunicação social, na política...

Longe de ser panfletário, é um livro que dá voz a muitos portugueses que tem raízes em África. Uma minoria até agora silenciosa, para além de alguns cantores e "rappers" de sucesso como o Gutto (nascido em Luanda em 1972,  "retornado" em Portugal, com  2 anos)... 

O mérito do livro, para já,  é o de dar voz a uma juventude que nem sempre está bem na sua pele, com a sua pele, e no país  onde nasceu, de pais em geral "imigrantes".

(...) " Telma Tvon trouxe a voz da juventude negra portuguesa para o romance. Amante de literatura, não encontrava obra que reflectisse a sua realidade. E assim nasceu Um Preto Muito Português, retratos da juventude negra dos subúrbios de Lisboa e de quem passa a vida a ser questionado: “De onde és?” (...) (Joana Gorjão Henriques, Públioc. 5 de Junho de 2018, 9:50

O protoganista não é sequer  a autora, bem podia ser uma espécie de "alter ego".  Mas teve "pudor" em escrever a sua própria história. Não, ela escreveu um livro na primeira pessoa, em discurso direto, dando voz a um homem, ao João, aliás, Badjurra, português nascido em Lisboa, filho de pais cabo-verdianos que emigraram em tempos "à procura de uma vida melhor": ele, de Santiago, ela de Santo Antão... 

E que até nem vivem na... Cova da Moura, ou naqueles "bairros problemáticos", ou nos chamados "bairros sociais"...Ele, João Moreira Tavares, o irmão Carlos e a irmã Sandra, nasceram ainda no "gueto", mas já não vivem no "gueto", desde cedo foram "viver nos prédios" (sic) com uma tia da mãe, já melhor integrada socialmente... 

Na cabeça de quem "imigra", também há a imagem do famoso "ascensor social" que leva os pobres das "subcaves" até pelo menos ao "1º andar", onde já se pode respirar fundo e ver a luz do sol...

No livro não dá perceber onde e quando, exatamente onde e quando, mas é na periferia de Lisboa, na "linha de Sintra", na primeira década do século XXI... 

Apesar de até nem ser muito "escuro", o  João, aliás Budjurra,  é preto mas "muito português"... E até licenciado, com estudos superiores:  licencidado em gestão ambiental, a trabalhar num "call-centre", e num segundo emprego, como muitos outros jovens...

2. Conhecia-a, à Telma Tvon,  na Lourinhã, nos "Livros a Oeste", em 15/5/2024. E fiquei encantado com a sua simplicidade, graça, espontaneidade, frontalidade,  inteligência emocional, capacidade de comunicação... 

Afinal, ela nasceu e viveu em Angola, até aos 13 anos  e tem a desenvoltura e a desinição dos/das MC ou "rappers", e sobretudo da malta nada e criada em Luanda.  De resto, a dedicatória que consta do seu livro, diz muito: "Para os meus de sangue e coração. Para os meus de rua e coração". 

Mas vamos  continuar a falar deste seu primeiro livro, onde ela resto usa (e abusa...) do "calão" falado por estes jovens portugueses: contei até agora umas boas 6 dezenas de vocábulos e expressões idiomáticas, tais como 
  • pretugueses,
  •  xaxar, 
  • bazar,
  •  estigar, 
  • bazeza, 
  • metal, 
  • metaleiro, 
  • wannabe, 
  • canucas, 
  • castanhas, 
  • latons (mulatos), 
  • brownskin,  
  • curtir bué, 
  • madie, 
  • nha kamba, 
  • sista, 
  • boelo, 
  • pula, 
  • ganda filme, 
  • beber uma jola,  
  • birra,
  • bater mal, 
  • desconseguir, 
  • desligar a ficha,  
  • playa,  
  • baggy, etc.

Mekié, mana ?... Romance, diz o editor. Diário, dário de bordo de um "pretuguês", acrescento eu.  Para já citemos algumas das 49 entradas ou pequenos capítulos do livro que lá li e reli (entre parènteses, o níumero da página):

(...) Quem sou eu (9) | 
O Budjurra até é bacano (16) | 
Nem és muito escuro (18) | 
Tu agora chamas-te Arrastão, Budjurra (29) | 
No call-center, licenciado (42) | 
Querias tu ser cabo-verdiano, Budjurra (50) | 
Desmistificar o Black Power (56) | 
O teu amigo morreu, Budjurra (81) | 
Achas que sabes dançar, Budjurra ? (89) |  
Senhor sénior Budjurra (103) | 
O teu Escuro tem tanta Luz, Budjurra (127) | 
As tuas pequenas coisas, Mwafrika (135) | 
Tu não tens humor negro, Budjurra (142) | 
Os suspeitos do costume (145) | 
Voltar para onde nunca estiveste, Budjurra (160) | 
"Ser negro" - Gutto (172) | 
De Cabral a Budjurra (175). (...)

(Continua)

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Nota do editor:

Último poste da série > 10 de fevereiro de 2025 > Guiné 61/74 - P26481: Notas de leitura (1771): A colonização portuguesa, um balanço de historiadores em livro editado em finais de 1975 (5) (Mário Beja Santos)