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terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27676: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte VI: Corista de filosofia e teologia e depois padre


Lisboa > Carnide > Seminário Franciscano da Luz > "O Seminário de Nossa Senhora da Conceição da Luz, vulgarmente conhecido como Seminário da Luz, ou Seminário Franciscano, ocupa um antigo palácio neoclássico, mandado construir em 1878 por Jacinto José de Oliveira. Os frades da Ordem Franciscana adquiriram o palácio em 1939 e, no ano seguinte, iniciaram obras de ampliação e adaptação às novas funções. A fachada principal, virada a ocidente, aberta sobre o Largo da Luz, é densamente decorada"




Francisco Caboz, "alter ego" de Horácio Fernandes
(Ribamar, Lourinhã, 1935 - Porto, 2025).

Horácio Fernandes,  falecido no passado mês de novembro, foi capelão militar em Catió e Bambadinca (1967/69), 
e autor do livro de cariz autobiográfico "Francisco Caboz:  a construção 
e a desconstrução de um padre" (2009)


1. Estamos a reproduzir excertos da dissertação de mestrado em ciências da educação, pela Faculdade de Psicologia e Ciências das Educação da Universidade do Porto (1995), da autoria do Horácio Fernandes, que foi nosso camarada como capelão militar no CTIG ( 1967/69). 


No capº IV daquele trabalho académico, ele narra e comenta a história de vida de Francisco Caboz,  seu "alter ego".  Trata-se, pois, de uma autobiografia, que em 30 páginas, a duas colunas,  cobre a sua infância, adolescência, juventude e idade adulta até 1972, o ano em que, prestes a fazer  37 anos, regressa ao estado laical e constitui família.

Nos  cinco  postes anteriores  já publicados(*), ele fala-nos, 
sucintamente, de:

(i)  a sua terra natal,  "Arribas do Mar" [leia-se Ribamar, da Lourinhã], bem como as 3 figuras da família que o marcaram: o pai (José Fernandes Nazaré), a mãe (Elvira Neto) e o avô materno (nascido por volta de 1875/80, o sacristão da freguesia o Ti João das Velas de Santa Bárbara);

(ii) como foi criando raízes a ideia de ser padre: o avô materno, sacristão, e a professora primária acabaram por ser as pessoas que mais pesaram nessa  decisão;

(iii) a entrada no Colégio Angélico (leia-se, Seráfico, na altura Montariol, em Braga, a mais de 300 km de distância da sua terra, Ribamar, Lourinhã), e os "quatro cenários" onde se vai desenrolar a sua vida de "angélico" (ou seja, até ao 5º ano, correspondente hoje ao 9º ano de escolaridade): a camarata, o refeitório, a sala de aulas, o salão de estudo, e onde vigora o panoptismo;

(iv)   os mecanismos de vigilância dos internos e os rituais de punição por parte dos Prefeitos;

(v) o 6º ano, quando passa a ser noviço (Convento do Varatojo, Torres Vedras);

(vi) segue-se o Coristado de Filosofia  (em Leiria, no seminário de São Francisco / convento da Portela)  e depois de  Teologia (no Seminário da Luz, Carnide, Lisboa), até à ordenação sacerdotal (em 1959).

2. É uma história de vida que merece ser conhecida dos nossos leitores. Testemunho de uma época. Autópsia de uma "total institution".

O Horácio nasceu em 1935. Em 1945/46, completou a 4a. classe e seguiu para o seminário menor dos franciscanos (o colégio seráfico, a que ele chama angélico), em Montariol, Braga. 
.
Até ser ordenado padre,  passará por Varatojo / Torres Vedras, Leiria e Carnide / Lisboa, completando 13 anos de estudo e formação em regime de disciplina apertada.

O Horácio Fernandes seria ordenado padre,  antes de completar os 24 anos.  Lembro-me de ter ido à sua Missa Nova, em 15 de agosto de 1959, na sua terra, Ribamar, Lourinhã. 

É um trabalho académico, relevante não só para a história da capelania castrense como também para o conhecimento do ensino confessional ministrado em seminários diocesanos e regulares, onde se formava o clero católico ao tempo da Ditadura Militar e  Estado Novo (1926-1974).

14 anos depois, ele publicaria o seu livro de memórias "Francisco Caboz: a construção e a desconstrução de um padre" [Porto: Papiro Editora, 2009, 185, (7) pp. ISBN 978-989-636-446-5].(O livro está esgotado.) (Vd. foto capa à direita.)

O nosso grão -tabanqueiro Horácio Fernandes faleceu, recentemente, em novembro de 2025, aos 90 anos.

 
Foi depois alferes graduado capelão, em rendição individual, no BART 1913 (Catió, setembro de 1967 - maio de 1969) e no BCAÇ 2852 (Bambadinca, no 2º semestre de 1969). Chegaria ao CTIG com 32 anos, regressaria com 34.

Andou ainda na marinha mercante (transporte de tropas e navios petroleiros), como capelão, até deixar o sacerdócio em 1972, antes de completar os 37 anos. 

Casou, passou a viver no Porto. Teve 3 filhos. Estava reformado da Inspeção Geral de Educação onde trabalhou 25 anos na zona norte. Em 2006, aos 70 anos, doutorou-se em ciências da educação pela Universidade de Salamanca, Espanha. 

Reencontrei-o por volta de 2015, na Tabanca de Porto Dinheiro. Ainda somos parentes, pelo lado paterno: as nossas bisavós,  paternas, nascidas na década de 1860, eram irmãs, e pertenciam ao clã dos Maçaricos (Ribamar, Lourinhã).

Recorde.se que, além do Horácio Neto Fernandes (nº 42,  de uma lista de 113 capelães militares) houve mais seis da Ordem dos Frades Menores (OFM), que estiveram no CTIG (de 1961 a 1974). Eis os nomes, por ordem alfabética:

  • José António Correia Pereira (nº 84): de 26/3/1972 a 21/3/1974;
  • José de Sousa Brandão (nº 79): de 25/9/1871 a 22/12/1973;
  • José Marques Henriques (nº 97): de 28/4/1974 a 9/10/1974):
  • Manuel Gonçalves (nº 58): de 19/7/1969 a 30/6/1971;
  • Manuel Maria F. da Silva Estrela (nº 11): de 27/9/1963 a 14/8/1965;
  • Manuel Pereira Gonçalves (nº 91): de 28/5/1968 a 29/6/1974)


História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte VI:  Corista de filosofia e teologia e depois  padre 

por Horácio Fernandes


4.3. - Corista de Filosofia

A minha transição do Noviciado para o Coristado foi aos 17 anos [em Leiria, no Convento da Portela ou de Sáo Francisco ].

Na minha qualidade de professo de votos simples, tinha uma cela mais moderna, com uma varanda colectiva, era assíduo ao coro, três vezes por dia, participava nas festas litúrgicas e tinha a obrigação do estudo. 

Embora continuasse a acompanhar os padres em algumas funções religiosas, já era permitido ir a Fátima, a pé, nos dias treze, onde por vezes me encontrava com a família e conterrâneos.

O tempo de lazer também se alterou: às quintas feiras deslocava-me ao campo de futebol, ou a uma quinta próxima e jogava futebol, ou tomava banho no rio. 

- 120 - 

Quanto a férias grandes, no primeiro ano fui 15 dias para o santuário dos Remédios, em Peniche. Era proibido tomar banho individualmente no mar e não podíamos tirar o hábito na povoação, nem falar com pessoas estranhas.

Como alguns não resistissem à tentação de falar com pessoas estranhas e tomar banho às escondidas, fomos daí a pouco proibidos de continuar.

Destes três anos, recordo, sobretudo, o segundo e o terceiro. No segundo fomos todos castigados a passar as férias grandes no Colégio Angélico, bem guardados por um ex-Prefeito, porque no primeiro ano em que fomos passar férias aos Remédios, Peniche,  não cumprimos as determinações superiores, no que respeita ao contacto com estranhos. Alguns falaram, sobretudo com um grupo de enfermeiras católicas que ali perto passava férias. 

Também era proibido tirar o hábito e alguns andavam sem hábito e com calças. Igualmente faltavam ao Coro' que, embora simplificado, não era dispensado.

Foi baseados nestes argumentos que os superiores, no ano seguinte, nos obrigaram a passar as férias grandes no Colégio Angélico [em Montariol, Braga ], o que foi interpretado como um castigo.

Com o Colégio deserto, dávamos longos passeios a pé, e cumpridas as obrigações do Coro jogávamos a bola e líamos. 

Podíamos utilizar a biblioteca dos padres, mas tínhamos que registar o livro. Aconteceu que alguns deram com o armário dos livros proibidos, aberto,  e leram freneticamente os livros que nunca tinham lido, mas só ouvido falar. 

Durante uns dias, até darem por isso, foi um corropio para a biblioteca, buscar os romances de Camilo, Eça, Alexandre Dumas e outros .

Os Coristas começaram a faltar ao Coro e a deitarem-se muito tarde. De manhã, ou não apareciam, ou apareciam cheios de sono. 

Eu também fui dos que aproveitei. Agarrei-me ao «Crime do Padre Amaro» e devorei-o numa noite. Seguiram-se outros do mesmo autor. 

Cheio de remorsos, fui-me confessar a um padre velhinho, que me aconselhou a ir embora, face aos maus pensamentos que não me largavam. Porque estava agarrado aquilo, fui então a outro que me aconselhou a esperar até ver se os maus pensamentos abalavam.

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Entretanto; alguém deu o alarme e  os que registaram os livros, conforme as ordens que tinham recebido, foram severamente castigados e proibidos de gozar férias no ano seguinte.

Eu não cheguei a cumprir o castigo, porque entretanto   adoeci. Estive oito meses de cama, sempre na minha cela, com uma pneumonia e depois com uma osteamilite  , sem poder deslocar-me à portaria, nem poder receber  visita da família.

 Apenas o Director Espiritual me visitava  a miúdo, para me tentar convencer que era uma provação   passageira de Deus, para me purificar. Além dele, só podiam   entrar na minha cela o irmão enfermeiro e esporadicamente   um médico, amigo do Seminário.

Os colegas apenas espreitavam à porta, pois era expressamente proibido entrar nas celas alheias. O meu colega de lado, a quem por vezes incomodava para ir chamar o irmão enfermeiro,  se demorasse mais algum tempo, ouvia o ralhete do Mestre:

- Vossa Caridade não sabe que é proibido entrar nas celas uns dos outros?

Com temperaturas altas e sem poder dessedentar-me por imposição médica, dava largas à imaginação, sonhando com missões e missionários. Vivia angustiado, sobretudo pelo perigo de não poder continuar ou perder o ano. Contudo, acreditava que,  se fora escolhido por Deus, ele me havia de curar, sem deixar sequelas.

Agarrado como estava ao sonho de ser missionário, para mim esse era o maior drama. Afinal consegui passar o ano, embora de muletas, sendo operado à perna esquerda, já no ano  de Teologia, em 1956.

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4.3. Os três anos de Filosofia foram passados já num convento de linhas arquitectónicas mais modernas e panopticamente menos rigoroso.

 Tratava-se de inculcação dos saberes da Filosofia tradicional católica, como fundamento dos estudos de Teologia, a ciência por excelência: Philosophia ancila Theologiae [a Filosofia serva da Teologia, LG ].

Embora as chamadas Ordenações Peculiares continuassem em vigor e se cumprisse as normas de disciplinação e as disciplinas, notou-se uma maior flexibilização. 

O corpo docente, do qual alguns dos quais tiraram a Filosofia nas universidades católicas estrangeiras, estava mais aberto ao exterior. Embora conservando a matriz doutrinária ortodoxa, estavam mais preocupados em esgrimir argumentos contra as posições tomistas e inculcar as especificidades escotistas. Os mais novos faziam gala das suas intervenções no meio intelectual e os mais velhos remoíam sebentas repetitivas.

O sistema panóptico, reforçado no Noviciado, começou a dar mostras de algum abrandamento na Filosofia. Já éramos clérigos professos e de votos simples, feitos por 3 anos. Este facto dava-nos algum status, diante dos irmãos leigos e donatos.

A situação geográfica do convento também favorecia mais os contactos com o exterior. Os pregadores e missionários faziam da casa ponto de passagem obrigatória para o santuário de Fátima.

Esta relativa abertura não nos impedia de viver alheados da situação sócio-política nacional ou internacional. 

Sem acesso aos meios de comunicação, uma das grandes lutas a nível interno era contra a proibição de usar calças, por debaixo do hábito. Os mais «modernos» achavam um costume medieval, desadequado. Argumentavam que a tradução em espanhol da Regra falava em 'panetones' e não tinha tradução directa em português. Por isso, alguns interpretavam como calças e os mais observantes como cuecas ou ceroulas. O mesmo acontecia com a túnica que os mais modernos substituíam por camisa.

Esta luta transbordava nas conversas e nas aulas. Acendia-se, quando algum corista mais atrevido era apanhado pelo Mestre com um par de calças arregaçadas  debaixo do hábito, ou quando passavam pelo   Coristado missionários em férias ou pregadores, que, geralmente, eram menos observantes e mais liberais no trajar. 

Embora  os Mestres evitassem o contacto dos Coristas  com eles, era inevitável, o que me fazia   questionar porque para uns havia uma Regra  e para outros outra. Resposta não a encontrava, mas estas e outras interrogações   não abalavam a confiança na instituição. O  'habitus' estava bem arreigado.

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4.4. Corista de Teologia e Padre

Acometido pela doença, aos 20 anos, novamente o  estatuto de devedor de benefícios me acompanhou.

 Primeiro  aos superiores, por me terem tratado durante a longa doença,  aos professores por me deixarem fazer exame em Setembro  e novamente aos superiores, quando sofri a intervenção cirúrgica   ao fémur, já em Lisboa. 

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Apenas no  2º no de Teologia a minha vida de corista seguiu o seu ritmo de estudo normal, quando recebi a Prima Tonsura (8).

No primeiro ano de Teologia, quase não  saí do Seminário, porque andava amparado em muletas. Por isso,  ocupava todo o tempo no estudo e nas aulas. 

Olhando à distância, recordo algumas impressões deixadas por  professores e Mestres de Coristas. 

Havia o professor de História da Igreja que, sob uma máscara de dignidade, debitava sempre as mesmas anedotas sobre os jesuítas, para Corista rir. Era o professor de Direito Canónico,  que, no seu palmo e meio, não conseguia encarar os alunos de frente. Era o professor de Moral que mandava fechar as janelas e persianas e às escuras, apressadamente, explicava os pecados contra o Matrimónio e as respectivas sanções canónicas.

A partir do 2º ano de Teologia e já quase totalmente recuperado, substituía o passeio semanal pela catequese nas escolas primárias dos bairros sociais próximos. 

Para mais facilmente  captar a atenção das crianças, utilizava projector e diapositivos alusivos aos temas do catecismo a que eles chamavam cinema. Era um trabalho novo e, cheio  entusiasmo como estava, entregava-me a ele com alma e coração.  

O contacto com as crianças das escolas primárias era  uma novidade. Às quintas e sábados, lá ia carregado de pagelas, distribuindo «santinhos» pelos bairros pobres.

A preparação para as ordens menores (9), ordens maiores (10) e votos solenes (11) era concomitante com o estudo  aturado das Disciplinas Teológicas.  

Empenhado nestas tarefas,  vivia as notícias da terra que falavam do entusiasmo de todos os conterrâneos, na minha próxima Missa Nova.

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4.4.  A última etapa da Teologia foi um gradativo caminhar para o sacerdócio (13).

 Não obstante o Curso Teológico ser ministrado em Lisboa, estava completamente arredado da problemática política ou social.  

O rádio só podia funcionar na sala dos padres, a que não tínhamos acesso e,  mesmo  ali, só depois do jantar e da ceia. Terminado o recreio,  era fechada sem contemplações e só se podia abrir com licença expressa do superior 'toties quoties' (Ordenações Peculiares, 1943: 12).(**)

Circunscritos ao microcosmo do Seminário, a mundividência dos Coristas não ultrapassava os altos muros da quinta. 

Acesso aos meios de comunicação social não tinha, e as notícias chegavam-me filtradas pela tripla censura: política, eclesiástica e do próprio 'habitus'.  

Em contrapartida, este Seminário de Teologia tinha padres muito importantes que tinham um estatuto à parte e quase só apareciam na comunidade, nas festas. 

Os mais «respeitáveis» eram geralmente os mais próximos de famílias importantes da finança, política ou da cultura, e, que, por intermédio deles, eram«benfeitores» do Seminário. 

Estes «benfeitores» tinham direito a missa particular nas suas quintas, não fossem os serviçais cometer o  pecado de faltarem ao preceito dominical, ouvindo as homilias de domesticação.

Geograficamente bem situado, o Seminário era um interposto espiritual entre o poder terrestre e o celestial, para muitas famílias   ricas do regime que ali iam procurar o passaporte para o anti-quotidiano.

- 123 -


 Talvez por  isso estive, quase completamente, alheado do momento quente   das eleições de 1959 (***).

 Lembro-me,  apenas, que me mandaram  e fui votar duas vezes: uma de manhã e outra de tarde na Junta de Freguesia, porque estava em causa o derrube de Salazar pelos «comunistas».

Igualmente me lembro de ter ido de hábito, como era do Regulamento, à Baixa Lisboeta, ver o cortejo, durante a visita da Rainha da Inglaterra a Portugal. Foi das poucas vezes em que não fomos acompanhados pelo Mestre.

Outra recordação que conservo viva,  foi o castigo aplicado pelo Mestre de Coristas, algum tempo antes do retiro para a ordenação sacerdotal, no convento onde tinha feito o Noviciado. 

Admoestado, por estar com um colega a falar nas escadas, em tempo de silêncio, retorqui-lhe que ele estava a espiar-nos debaixo das escadas. Ele não gostou e só fomos fazer o retiro obrigatório para a Ordenação, dois dias depois,  o  que nos nos obrigou  a acabá-lo depois dos outros três colegas.

Felizmente, este percalço não atrasou à Ordenação, pois estava tudo a ser ultimado na minha terra para a Missa Nova (12).

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Notas do autor:

(7) Reza colectiva do Breviário, seis vezes por dia e que tinha a seguinte designação: Matinas, Prima, Tércia, Sexta, Noa, Vésperas e Completas.

(8) Ordem menor que consistia em cortar uma madeixa de cabelo no alto da cabeça, vulgarmente chamada coroa: «Feito o exame do 1º ano de Teologia, devem os alunos requerer a Prima- Tonsura, as ordens menores durante o 2°  ano e o Subdiaconado ao sair do 3º ano, se lho permitir a idade, por forma que possam receber o Presbiterado no fim do 4º ano, tanto quanto deles dependa. (Regulamento do Processo de Ordenação e programa do exame do Cânone 996).

(9) Assim chamadas por não implicarem a incardinação à Ordem, Congregação Religiosa ou Diocese.

(10) Assim chamadas pela excelência das funções, a que dão acesso. São o Subdiaconado, Diaconado e Presbiterado ou Sacerdócio. 

Nenhum ordenando podia receber o Subdiaconado sem ter o chamado título canónico, que era um património suficiente para a sua sustentação. Esta suficiência era aferida pelo correspondente «ao ordenado dum professor de instrução primária, quando provido definitivamente» (Parágrafo 2o do Cânone 479 do cap. Ill das Constituições Sinodais da Diocese de Lamego, 1954).

(11) Os votos solenes era o juramento que os candidatos ao sacerdócio das Ordens e Congregações Religiosas faziam e através dos quais eram recebidos a título definitivo na instituição.

(12) Missa Nova era a primeira missa do Presbítero, depois da Ordenação. Esta designação estendia-se, contudo, a outras missas celebradas solenemente em vários locais para onde estivesse convidado.

(13) Vd. nota (10).


(Continua)

Fonte: Excertos da dissertação de mestrado do Horácio Neto Fernandes, "Francisco Caboz: do angélico ao trânsfuga, uma autobiografia". Porto: Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. 1995, pp. 120-124 (A dissertação, orientada pelo Prof Doutor Stephen R. Stoer, já falecido, está aqui disponível em formato pdf).

(Seleção, revisão / fixação de texto, parênteses retos, links, negritos,  itálicos, título: LG)
_________________

Notas do editor LG:

(*) Vd. postes anteriores: 



17 de janeiro de 2026 Guiné 61/74 - P27642: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte IV: Vigiar e punir

20 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27651: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte V: O noviço

(**) A exressão latina "toties quoties" quer dizer em português  "tantas vezes quantas" ou "tantas indulgências plenárias quantos os terços (ou orações) que rezar".

É uma locução usada principalmente no contexto litúrgico católico para indicar uma indulgência plenária /ou um benefício) que pode ser ganha repetidamente ("tantas vezes quantas" se cumprir a condição).

(***) Lapso do autor,  que trocou o ano; queria referir-se às eleições presidenciais de 1958, a 8 de junho, em que o regime de Salazar foi posto à prova:  num escasso milhão de votos (cerca de 70% dos recenseados), Américo Tomás foi eleito  com 75%, contra Humberto Delgado (23%), graças também à fraude (como o próprio Horácio Fernandes, de resto,  aqui candidamente exemplifica : votou duas vezes, uma de manhã e outra tarde).

Os franciscanos, vítimas do anticlericalismo primário da ( e expulsos pela) República em 1910, eram naturalmente gratos e afetos ao Estado Novo.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27675: O nosso blogue como fonte de informação e conhecimento (115): Comparticipação adicional de 100% da parte não comparticipada pelo SNS nos medicamentos adquiridos pelos Antigos Combatentes Reformados

1. Como vi publicado no Blogue da Tabanca do Centro, a Circular n.º 0008-2026 da ANF (Associação Nacional de Farmácias), com a devida vénia aos camaradas Joaquim Mexia Alves e Miguel Pessoa, copiamo-la para o nosso Blogue, acrescentando algumas notas no sentido de ajudarmos a esclarecer qualquer dúvida entre a tertúlia.

Nas redes sociais aparecem muitas dúvidas sobre a comparticipação dos 100% 
da parte não comparticipada pelo SNS, nos medicamentos adquiridos com receita médica pelos Antigos Combatentes.

 Esta medida entrou em vigor neste mês de Janeiro.

Como se pode ler na Circular abaixo, o cálculo da comparticipação é feito sobre o Preço de Referência (PRef) do medicamento, sendo que sempre que o Preço de Venda ao Público (PVP) for superior ao Preço de Referância (PRef), o combatente pagará a diferença. Na maioria dos casos o custo reduz-se a alguns cêntimos e não justifica os insultos dirigidos às entidades públicas. Há alternativas que podem anular estas diferenças, como por exemplo a escolha de Medicamentos Genéricos (MG), tão eficazes como os medicamentos de marca.

Circular com a devida vénia à Associação Nacional de Farmácias
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Nota do editor

Último post da série de 18 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27436: O nosso blogue como fonte de informação e conhecimento (114): a tábua corânica de Galugada Mandinga (subsetor de Contuboel)

Guiné 61/74 - P27674: Agenda cultural (910): Convite para visitar a Exposição fotográfica de José Veloso de Castro (1869-1945), patente no Museu Militar de Lisboa, Largo do Museu da Artilharia, Lisboa, até ao dia 31 de Janeiro de 2026


José Veloso de Castro

A revelação de um artista

30 setembro 2025 a 31 janeiro 2026


O Museu Militar de Lisboa apresenta A Revelação de um Artista, a primeira grande exposição dedicada à vida e obra do major e fotógrafo José Veloso de Castro (1869-1945).

Com um espólio de enorme relevância histórica, composto por 2355 positivos fotográficos e sete caixas de negativos em vidro, esta mostra reúne 120 provas inéditas, realizadas a partir de negativos originais (1904-1912), preservados desde 1917 no Arquivo Histórico Militar.

As imagens foram captadas em Angola, durante as comissões militares de Veloso de Castro, e revelam muito mais do que documentação colonial: mostram um olhar artístico singular, sensível ao movimento, à paisagem e ao quotidiano humano no início do século XX.

Terça a domingo, das 10h às 17h (última entrada 16h)

Visita guiada: 31 janeiro, às 10h

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(Com a devida vénia a agendalx.pt)
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Nota do editor

Último post da série de > Guiné 61/74 - P27602: Agenda cultural (909): Lisboa, Panteão Nacional, Concerto de Ano Novo, domingo, 4 de janeiro de 2026, 18h00: Kimi Djabaté (balafon e voz) e Iaia Galissá (cora)

Guiné 61/74 - P27673: Notas de leitura (1889): "Vida e Morte na Grande Bolanha do Rio Mansoa", por Albano Dias da Costa; primeiro Prémio Literário Antigos Combatentes, atribuído pelo Ministério da Defesa Nacional, 2022 (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 27 de Agosto de 2025:

Queridos amigos,
Faz todo o sentido uma breve recapitulação da trajetória da literatura da guerra colonial. Primeira fase: a exaltação das façanhas do soldado português, lembre-se Armor Pires Mota, as reportagens propagandísticas, a literatura encriptada de Álvaro Guerra. Segunda fase: o 25 de abril, os ajustes de contas, a procura da certidão da verdade sob a forma de romance, poesia, novela, conto, entra em cena a literatura memorial. Terceira fase: a matura idade, o período dos grandes romances, caso de Nó Cego, de Carlos Vale Ferraz, as obras de Lobo Antunes, de João de Melo. Quarta fase: as investigações, a manutenção de um quadro caleidoscópico para toda esta literatura, algo que se irá prolongar até aproximadamente década de 2010; daí em diante, vai pontificando a literatura memorial, pode bem acontecer que haja inéditos guardados nas gavetas, mas está praticamente tudo inventariado, resta o rodopio da memória. É o que faz Albano Dias da Costa com a sua prosa narrativa, andou pela Guiné nos primórdios da guerra, reduz ao essencial as atribulações e as perdas humanas, inesquecíveis; regressa à infância e dá-nos alguns parágrafos luminescentes do Alto Douro Vinhateiro. Não sou de profecias, mas estamos a voltar à guerra com os cartuchos que nos restam, não se pode subestimar o antes e o depois.

Um abraço do
Mário



A literatura memorial destronou todo o processo ficcionista da guerra colonial

Mário Beja Santos

Vida e Morte na Grande Bolanha do Rio Mansoa, prosa narrativa, por Albano Dias da Costa, primeiro Prémio Literário Antigos Combatentes, atribuído pelo Ministério da Defesa Nacional, 2022, é mais uma evidência de que a literatura memorial deixou muito para trás todos os processos de ficção, desde o romance ao diário. O protagonista e narrador, o Tenente Miliciano Luís Lapa, é o alter ego de Albano Dias da Costa, como ele próprio escreve: “Na presente narrativa, o autor transpõe temas de uma reflexão ensaística para uma narrativa ficcionada; procura exprimir numa diegese (realidade própria da narrativa) memorialística, o testemunho de quem também a viveu e padeceu.” Temos um prologo com o regresso de Luís Lapa da Guiné até à terra natal, a Folgosa, no Alto Douro, que ele escreve com o sobrepeso da emoção, envolvendo-nos com o colorido dos detalhes.

O primeiro episódio narra a sua partida para a Guiné, ele pertence à CCAÇ 413, bolanha do rio Mansoa, vai experimentar-se os horrores da guerra. Segundo episódio temos a tormentosa viagem numa operação em que ele irá desativar uma mina, voltaremos a tal ambiente, Lapa conhecerá os ferimentos. No terceiro episódio, no regresso a casa, agraciado com uma Cruz de Guerra, haverá uma extensa reflexão acompanhada de uma conversa com um Major no comboio, temo-lo em Coimbra, na retoma dos seus estudos. E o epílogo, o reencontro com a mãe, acompanhado de um poderosíssimo texto de amor à terra onde nasceu e se criou, aquele ponto do Alto Douro.

O regresso a casa é feito das lembranças: “Quando, antes, se deslocava ao Porto, recordava ele, a viagem era feita nos bancos duros de madeira das carruagens da terceira classe. Respirava-se o cheiro doloroso das merendas e o odor acre do vinho à mistura com discussões intermináveis intercaladas de impropérios.” Nessa viagem irá conhecer Maria Inês, encontro decisivo para o futuro dos dois. No apeadeiro toma a barca que o vai levar a casa, rememora o caminho poeirento que calcorreara para apanhar o comboio para ir à Régua, a Lamego, aos estudos em Coimbra, vem-lhe à mente mais recordações deste Alto Douro Vinhateiro, chega a casa: “A Folgosa era uma rua. Nascia lá em baixo, à beira do rio, junto da paragem da carreira de Tabuaço. Subia, depois, íngreme, estreita e sinuosa, até morrer lá em cima, junto da igreja. Aí, acabava o mundo.” Mais recordações da escola, dos exames, das brincadeiras, a dureza das caminhadas. O tenente miliciano Luís Lapa não gostou do acolhimento, perguntas incómodas. “Depois da guerra, os combatentes desmobilizados tinham ainda de suportar as agruras e as incompreensões de um país rural à deriva, alheado do conflito interminável que se desenrolava nas colónias da África distante.”

Chegou à Guiné ainda a guerra mal começara, a sua unidade é lançada na grande bolanha do rio Mansoa. Lança-se em profundas meditações, não faltam os filósofos gregos nem a pensadora Hannah Arendt, nem Santo Agostinho. Ouve no seu gira-discos a pilhas a Missa Solene de Beethoven. Esteve destacado na povoação de Encheia, localizada na margem noroeste da bolanha do rio Mansoa. “Lá chegado, em finais de junho do ano anterior, encontrou uma pequena povoação perdida no meio de cajueiros, constituída apenas por três habitações edificadas no alto de uma pequena elevação sobranceira à extensa bolanha serpenteada pelo rio Mansoa: a casa do chefe do posto, o celeiro anexo e o pequeno estabelecimento de um comerciante libanês, uma construção rudimentar de paredes de adobe cobertas de chapas de zinco. Adiante, de um lado e de outro da estrada de Bissorã, alinhavam-se algumas palhotas com uma ampla varanda onde homens de balandrau branco exerciam ofícios vários, de ferreiro, de alfaiate, de cesteiro.” E experimentam-se as flagelações.

Prometi voltar ao episódio em que Luís Lapa desmonta uma mina anticarro: “Pousou a arma no chão. Com o sabre, começou a afastar lentamente a terra que a envolvia. E, de repente, surgiu a cabeça da espoleta do temível engenho. Muito devagar, retirou as pedras que restavam à sua volta. A seguir, soprou para afastar a poeira que ainda a ocultava. E ei-la, brilhante e desafiadora, feita atração do abismo! Por breves instantes, contemplou-a, emudecido, sentia-se como se estivesse hipnotizado diante da cabeça de uma serpente que ia atacá-lo a todo o momento com a língua bífida.” A dureza do momento merece-lhe um digno desenvolvimento, o episódio acaba bem, mas a continuação da operação é manchada por o Cabo Serafim, moleiro de Temilobos, ter pisado uma mina antipessoal, não resistirá aos sofrimentos. A marcha prossegue, inesperadamente a coluna é sacudida por uma emboscada, o Sargento Santos atingido mortalmente na cabeça, há feridos, Luís Lapa incluído, ficará longo tempo internado no Hospital Militar de Bissau.

Dá-se a rendição da CCAÇ 413, ansiosamente esperada perante 751 infindáveis dias e noites. O texto polvilha-se de muitas considerações à posteriori, a conversa com o sr. Major no comboio só pode ser aceite ao nível da ficção, era totalmente impensável em 1965.

O texto tem agora parágrafos magníficos, já Luís Lapa despiu a farda, e ao som da missa solene vamos acompanhar uma esplêndida ode ao Douro de Cima-Corbo, terra de bom vinho, espesso e rijo. A mãe falece, o tenente na disponibilidade volta para Coimbra, de onde não alberga recordações amigáveis, vem ao encontro de Maria Inês, toda a missa solene de Beethoven irá acompanhar o derradeiro escrito. “Apenas iria persistir dentro de si, transfigurada pelo distanciamento no tempo, a Guiné dos Balantas fiéis ao barrete vermelho com que coroavam as suas cabeças, algumas paisagens ainda com a virgindade deslumbrante com que o criador lhes ofereceu aquando do Génesis e o cheiro da terra quente e avermelhada da grande África.”

Esta prosa narrativa é precedida de uma apresentação pelo General Chito Rodrigues, tece considerações sobre a guerra e enfatiza o trabalho de Albano Dias da Costa, sobretudo a magnífica descrição dos cinco momentos do ciclo da vinha, texto entremeado pelo reencontro com a mãe que irá falecer.

Estou em crer que o leitor não contestará quando digo que depois de décadas estuantes de romance, conto, novela, poesia, diarística, reportagem e afins, a idade confina o combatente aos escaninhos da memória, à trajetória que vai do antes ao durante, até ao peso maior do remanescente que fica como saudade, resquício de solidariedade, mágoa pela indiferença dos outros, talvez culpa por acontecimentos em que interveio e em que se pensa que podiam ter decorrido de outra maneira, agora só resta o apaziguamento.

Quartel de Mansoa. Imagem do Padre José Torres Neves, publicada no nosso blogue, com a devida vénia
Ponte sobre o rio Mansoa. Imagem do Padre José Torres Neves, publicada no nosso blogue, com a devida vénia
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Nota do editor

Último post da série de 23 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27663: Notas de leitura (1888): "Porto, 1934 a Grande Exposição", por Ercílio de Azevedo; edição de autor, 2003 (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P27672: O nosso blogue em números (113): Em 2025, o Chrome como navegador (51%) e o Windows como sistema operativo (66%) continuam a ser reis e senhores (considerando os mais de 16 milhões de visualizações, acumulados, desde meados de 2010)





Fonte: Blogger (2026) |  Infografias: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)



1. Os três principais navegadores usados pelos nossos leitores, os que visitaram o nosso blogue desde junho de 2010  até ao final de 2025, são (entre parênteses, os valores de 2024)
  • Chrome > 51 % (45,1%)
  • Firefox > 21,2 %  (24%) 
  • MSIE  (Microsoft Internet Explorer) > 15,2 %(17,4%) (Gráfico nº 9)
O  Safari vem em quarto lugar: 7,7 % (8,1%, em 2024) ... O Chrome sobe 6 pontos percentuais à custa de todos os demais... Os outros incluindo o Opera  continuam a não ter expressão: 4,9 % (5,4%, em 2014) (Gráfico nº 9).


2. O Windows, por sua vez, continua, destacado  à frente dos demais sistemas operativos, mas claramente a perder pontos (entre parênteses, os valores do ano anterior):
  • Windows: 65,8% (68,4%)
  • Macintosh: 14,3 %  (12,5%)
  • Android: 8,9 %  (8,5%)
  • Linux: 4,6 %  (4,6 %)
  • iPhone: 1,9 % (1,9%)
  • Outros: 4,1%  (4,1) (Gráfico nº 8).

Cerca de 12,2 % dos acessos ao nosso blogue são feitos agora através de telemóvel / smartphone, usando o sistema operativo Android, iPhone, iPad...


3. Em 11 anos muita coisa acontece na Net. (E nós que estamos a envelhecer, ocupados, preocupados, distraídos...). 

 Comparando com os números de 2025, com os números de  agosto de 2014, há tendências a registar:

  • por navegador, o Internet Explorer ia à frente (41%), seguido do Chrome (27%) e do Fire Fox (22%) (o Fire Fox manteve a sua proporção, e passou para 2º lugar);
  • os restantes  juntos somavam 10% do total das visualizações (hoje, 12,6%);
  • por sistema operativo, o Windows em 2014 era o rei e o senhor absoluto (84%), destacadíssimo da concorrência: McIntosh (6%), Linux (5%) e outros (5%)....Perdeu em 11 anos, mais de 18 pontos percentuais.
Estes números devem merecer uma reflexão mais aprofundada. O futuro do nosso blogue também passa por aqui...
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Nota do editor LG:

Último poste da série > 19 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27649: O nosso blogue em números (112): Em 20 anos, estamos a cminho dos 110 mil comentários... Em 2025, publicámos 3,6 comentários por poste... Nos 19 primeiros dias de janeiro de 2026, já vamos em 6, em média, o que é encorajador

Guiné 61/74 - P27671: Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci... (Jaime Silva, ex-alf mil pqdt, BCP 21, Angola, 1970/72) (13): a morte do pastor alemão que salvou a vida de homens e… a minha perna direita!


Guiné _ Região de Tombali > Cufar >  CCAÇ 763, "Os Lassas", Cufar, 1965/67.> Cão de guerra, o "Cadete". Foi formada pela CCAÇ 763 uma secção de caés de guerra, de que o "Cadete" era o chefe. Uma experiência única no CTIG. (*)

Foto (e legtenda) : © Mário Fitas (2016). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné.
 


(

Jaime Silva (foto ao lado):

(i) ex-alf mil pqdt, cmdt 3º Pel /1ª CCP / BCP 21, Angola, 1970/72;
(ii) membro da nossa Tabanca Grande, nº 643, desde 31/1/2014;
(iii) tem já 130 de referências, no nosso blogue;
(iv) nascido em 1946, em Seixal, Lourinhã, onde reside hoje;
(v) é professor de educação física, reformado;
(vi) foi autarca em Fafe, com o pelouro de "Desporto e Cultura": viveu lá durante cerca de 4 décadas;
(vii) tem página pessoal do Facebook;
(viii) é autor do livro "Não esquecemos os jovens militares do concelho da Lourinhã mortos na guerra colonial" (Lourinhã: Câmara Municipal de Lourinhã, 2025, 235 pp., ISBN: 978-989-95787-9-1).



Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci (13):   a morte do pastor alemão que salvou a vida de homens e… a minha perna direita!

por Jaime Silva


Eu não esqueci a única operação do meu pelotão com a ajuda de um cão de guerra (pastor alemão). Foi no Norte de Angola,  na zona dos Dembos.

Após saltarmos dos Hélis, progredimos e, pouco depois, somos confrontados com uma emboscada. Reagimos, tiroteio, silêncio, fase de expetativa e foi o momento de decidir também a atuação do cão:

– Buscs, busca, ataca, ataca ! – ordena o tratador.

Enquanto aguardávamos pelo regresso do cão, protegi-me atrás de uma árvore e, quando olho para o chão, vejo, mesmo encostado ao meu pé direito uma mina antipessoal meia destapada…. Presumivelmente, teria sido pisada pelo cão, aquando da perseguição aos guerrilheiros. 

Entretanto, montámos segurança ao local e o comandante da Companhia, experiente, levanta-a, retira-lhe o detonador, guarda-a no bolso…E continuámos a progressão para assaltar o objetivo.

Já perto da base, o cão deteta uma emboscada e investe sobre os guerrilheiros e no tiroteio é atingido mortalmente. 

á me tinha salvado o pé direito e salvou, certamente, a vida dos paraquedistas que progrediam na frente do pelotão!

De acordo com as normas, o tratador cortou-lhe uma orelha como prova da morte do animal em combate, no regresso ao Batalhão. (**)

Fonte: excertos de Jaime Bonifácio Marques da Silva -"Não esquecemos os jovens militares do concelho da Lourinhã mortos na guerra colonial" (Lourinhã: Câmara Municipal de Lourinhã, 2025, 235 pp., ISBN: 978-989-95787-9-1), pág. 94.

(Revisão / fixação de texto, título: LG)
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domingo, 25 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27670: Tabanca Grande (578): António Brito Ribeiro, ex-Alf Mil TRMS da CCS/BART 2857; GA 7; COP 6; CAOP1 e BCAÇ 3884 (1970/72), senta-se à sombra do nosso poilão, no lugar 912

1. Apresenta-se à tertúlia António Brito Ribeiro, ex-Alf Mil TRMS da CCS/BART 2857 (Piche); GA7 (Bissau); COP 6 (Mansabá e Farim); CAOP 1 (Teixeira Pinto) e BCAÇ 3884 (Bafatá):

O Alf Mil TRMS António Brito Ribeiro, nosso novo amigo e camarada de armas, que se vai sentar no lugar 912 da tertúlia


Percurso Militar de António de Brito Ribeiro,

- Recruta para o COM (Curso de Oficiais Milicianos), na EPI em Mafra, no 3.º turno de 1969

- Especialidade de Transmissões de Infantaria do COM, na EPI em Mafra, no 4.º turno de 1969

- Como Aspirante a Oficial Miliciano dei instrução de Transmissões a um pelotão de cabos milicianos, no CISMI (Centro de Instrução de Sargentos Milicianos de Infantaria) em Tavira, nos primeiros 2 turnos de 1970

- Em junho de 1970, fui mobilizado para a Guiné, em rendição individual e promovido a Alferes

- Fiz a viagem para a Guiné no navio Ana Mafalda, tendo feito escalas em Cabo Verde, nas ilhas de S. Vicente (Mindelo) e S. Tiago (Praia) cerca de 10 dias

- Chegado à Guiné em 2 de julho de 1970, passei uma semana em Bissau a aguardar transporte para PICHE no leste da Guiné, para desempenhar a função de Oficial de Transmissões na CCS do BART 2875, em rendição individual do anterior Alferes. Em Piche encontrei e convivi com o Zé Gouveia (Zé Bentinha) que prestava serviço no STM. Loriguense e também da minha idade, deu-me dicas importantes para a comissãoque estava a iniciar.
Vista parcial de Piche. Foto com a devida vénia ao blogue do BART 2857. Editada por Carlos Vinhal

- Regressado a BISSAU em outubro, após a rendição e regresso à metrópole do BART 2857, fui integrado no GA 7 (Grupo de Artilharia n.º 7), com as funções de Oficial de Transmissões e de Oficial da PJM (PolíciaJudiciária Militar).

- Em 10 de dezembro de 1970, fui punido com 5 dias de prisão disciplinar, por me ter negado a punir o motorista do comandante, adulterando e simulando falsas acusações, num auto que o mesmo mandou abrir para o efeito. Apesar de ter reclamado e depois recorrido da punição, foi a mesma reduzida para repreensão, pois apesar de me ter sido dada razão, ficou registado que me neguei a cumprir uma ordem de comando, infringindo assim os deveres do n.º 1, do Art.º 4, do RDM.

- Na sequência desta situação, fui transferido para o COP 6 (Comando Operacional 6), em MANSABÁ, no meio das matas do Morés e Oio (zona de guerrilha intensa), desempenhar a função de Oficial de Transmissões e de Operações. Este Comando Operacional, coordenava a proteção aos trabalhos da estrada entre Mansabá e Farim, contando para o efeito com as seguintes forças: Companhias de Caçadores Paraquedistas CCP 121 e CCP 122, 27ª Companhia de Comandos, CCAV 2721 (comandada pelo capitão Mário Tomé), CCAÇ 2753 (Açorianos), CART 2732 (Madeirenses), EREC 2641, 21.º PELART (10,5), 27.º PELART (14), PELART 8,8, PELSAP BCAÇ 3832. Quando a construção da estrada se aproximou de Farim (+/- 3 Km), o comando do COP 6 mudou-se para FARIM, nas margens do rio Cacheu, localidade com uma dimensão e população muito razoáveis.

- Após a conclusão das obras e do COP 6, já no final de 1971, fui transferido para o CAOP 1 (Comando de Agrupamento Operacional 1), em TEIXEIRA PINTO, comandado pelo Coronel Rafael Durão, que liderava toda a Intervenção Operacional naquela zona, desempenhar a função de Oficial de Transmissões. Teixeira Pinto já era uma localidade de grande dimensão para a Guiné, com muito comércio e, uma sala de cinema e de festas.
Vista aérea de Mansabá. Foto: Carlos Vinhal

- Quando em março de 1972, estava a terminar a comissão e preparar para regressar ao continente, apenas aguardava a guia de marcha, fui requisitado para ir dar a instrução e tirocínio ao BCAÇ 3884, com destino a BAFATÁ, atendendo à fuga do Oficial de Transmissões para o estrangeiro. Após o tirocínio em Nhacra (+/- 3 semanas), próximo de Bissau, o Batalhão seguiu em lancha e coluna até Bafatá, onde estive até junho de 1972, a instruir e comandar o pelotão de Transmissões da CCS e, acompanhar a rendição do anterior Batalhão, que por curiosidade tinha sido rendido em 1970, quando da rendição do meu Batalhão de Piche. BAFATÁ era uma localidade de grande dimensão para a Guiné, onde havia muito comércio e uma ótima piscina fluvial.

- Terminei a comissão e regressei à metrópole em 23/junho/1972
O Alf Mil TRMS António Brito Ribeiro em Bissau
O Alf Mil TRMS António Brito Ribeiro em Piche
O Alf Mil TRMS António Brito Ribeiro em Piche
O Alf Mil TRMS António Brito Ribeiro em Mansabá
O Alf Mil TRMS António Brito Ribeiro em Mansabá
O Alf Mil TRMS António Brito Ribeiro em Mansabá
O ex-Alf Mil TRMS António Brito Ribeiro actualmente

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2. Comentário do editor CV:

Caro amigo Brito Ribeiro,
Sê bem aparecido na tertúlia. Um dos lemas do nosso blogue é "o mundo é pequeno e a nossa Tabanca... é grande". Talvez por isso, tenho vivido aqui algumas agradáveis surpresas, vendo aparecer camaradas que jamais imaginaria voltar a "ver". No nosso caso particular, já nos tínhamos encontrado em 2009 em Arruda dos Vinhos, mas com a nossa idade, cada reencontro pode ser o último, principalmente, quando como é o nosso caso, estamos geograficamente distantes.
Arruda dos Vinhos, 18JAN2009 > 1.º Encontro da CART 2732 > Na foto, a partir da esquerda: Cor Art Ref Carlos Marques Abreu; António Brito Ribeiro; Cor Art Grad DFA Ref Américo Almeida Nunes Bento, Carlos Vinhal e João Malhão, organizador do Encontro.

Há na tertúlia um bom grupo de camaradas que passaram por Mansabá, um dos melhores resorts da Guiné, onde até nem faltavam sessões de fogo de artíficio, incluídas na diária.


Referes e eu confirmo, que em meados de Março de 1971, o COP 6 foi deslocado para Farim, mas regressou em fins de Abril à base, Mansabá, onde permaneceu até ser desactivado em 20 de Julho de 1972. A actividade operacional naquela zona exigia um COP. Julgo que ainda foste contemporâneo do Major (ou TenCoronel?) Correia de Campos, que a determinada altura foi deslocado para a Península de Gampará onde havia muito barulho. Em Maio de 1973 vamos voltar a ouvir falar dele, agora em Guidaje, onde segundo os relatos, foi um herói, incentivando e comandando a guarnição daquele quartel num dos momentos mais difíceis da nossa guerra.

Ainda hoje mantenho contacto com o senhor Coronel Carlos Alberto Marques de Abreu, Comandante do COP 6 e com o senhor Coronel António Carlos Morais da Silva, que faz parte da nossa tertúlia, que como Adjunto também passou pelo COP 6.

Falei do nosso tempo comum em Mansabá, de ti e das tuas vivências por terras da Guiné falarás tu melhor que ninguém. É um convite.

Fico ao teu inteiro dispor para o que achares útil.

Em nome da tertúlia, deixo-te um abraço de boas-vindas.
Carlos Vinhal

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Nota do editor:

Último post da série de 21 de outubro de 2025 > Guiné 61/74 - P27339: Tabanca Grande (577): Timóteo da Conceição dos Santos, ex-Fur Mil Inf Minas e Armadilhas da CCAÇ 2700 / BCAÇ 2912 (Dulombi, 1970/72), que se senta à sombra do nosso poilão no lugar nº 909

Guiné 61/74 - P27669: Os 50 anos de independência de Cabo Verde (19: E se o Porto Grande e o Mindelo tivessem sido invadidos e ocupados pelos Aliados, em 1942?... Uma brincadeira da História Contrafactual...


Ilustração: IA generativa (ChatGPT / OpenAI), composição orientada pelo editor LG, que forneceu à "artista" várias fotos... Trata-se de um mau exemplo do que é a História Contrafactual...

1. Agora que se passaram 50 anos da independência de Cabo Verde... Que ninguém contesta, embora o processo pudesse ter sido mais "maneirinho", "amigável", com mais "morabeza", com fado, morna, coladera, grogue e vinho verde à mistura... Uns anos antes.

Que pena termos perdido, na devida altura, essa oportunidade histórica de dar ou reconhecer aos cabo-verdianos o direito à autodeterminação.  

Enfim, a história nos julgará, a todos, aos "mandrongos" e aos filhos da terra, ou "patrícios"... onde temos muitos e bons amigos.

Bom, valha-nos ao menos a consolação de hoje sermos países democráticos, "irmãos" e "amigos", falando a mesma língua, sem contencioso... Que as "pedrinhas nos sapatos" que ficaram na memória dos bons e maus momentos da nossa convivência passada, não nos impeça hoje de continuar a celebrar os 50 anos da independência do arquipélago (1975-2025), terra da morna, da coladera, da morabeza, do doce crioulo, do sol, do sal, do sul do nosso imaginário... Terra do Travadinha,  do Bana, da Cize... De grandes poetas e músicos.

Pessoalmente, tenho orgulho em Cabo Verde, onde o meu pai foi, por dever patriótico, expedicionário, em 1941/43. O meu pai e o pai dos nossos amigos e camaradas Hélder Sousa, Luís Dias, Augusto Silva Santos, Nelson Herbert... 

E há tanto ainda para saber e contar... Da nossa história comum 

Claro, já estou a ouvir ao longe os mais críticos e radicais (de ambos os extremos do espetro político): "pedrinhas"... ou "pedregulhos" ? 

Não, nos compete, a nós, antigos combatentes, portugueses, cabo-verdianos, guineenses, entrar nesse jogo de "ajustes de contas"...  Os regimes políticos passam, os povos ficam. De pé, como as árvores, com as suas fundas raízes, os seus ramos, as  suas flores, os seus frutos... Ramos que também têm de ser podados.

Lembrei-me , isso, sim, de apresentar à "menina IA" (aliás, a duas, uma "americana" e outra "europeia, francesa"), mais uma questão do domínio do  "sexo dos anjos", neste caso da "história contrafactual":  "E se...?"

E se... Cabo Verde tivesse sido invadido ?

Não foi, felizmente, nem foi invadido nem ocupado nem atacado  por nenhum dos beligerantes durante a II Guerra Mundial. Os que morreram lá (6 dezenas de "expedicionários", "nossos pais, nossos velhos, nossos camaradas"), foi por doença, acidente, desgosto, saudade, tristeza, fome, sede,  paixão, morabeza... 

E ainda bem que não foi atacado, invadido e ocupado (falo por mim, que tinha lá o meu futuro progenitor, entre 1941 e 1943; se o 1o. cabo  Luís Henriques tivesse morrido ou sido aprisionado, talvez eu não tivesse nascido, em 1947, nem muito menos conhecido a "cova do lagarto", que era Bambadinca, na antiga Guiné portuguesa...).

Mas se fosse, ou tivesse sido.... atacado, invadido, ocupado durante a II Guerra Mundial ? Poderia, sim,  forma condicional do verbo poder. Felizmente não o foi. Mas,  pelo menos, essa possibilidade foi seriamente ponderada tanto pelos Aliados como pelo Eixo, sobretudo devido ao valor estratégico das ilhas de São Vicente e Sal. 

Bom, o resto do arquipélago poderia ser vendido em leilão aos ratos da especulação imobiliária, com exceção talvez de Santo Antão que tinha água e milho, e Santiago, onde já havia um campo de concentração, no Tarrafal, coisa que dava sempre jeito aos novos senhorios...

O que é  que as meninas da  IA (ChatGPT/OpenAI e Le Chat/Mistral) dizem sobre isto ?

Aqui vai uma "condensação" do que apurei da minha amena  conversa com elas, as "meninas  da IA" (a americana, e a francesa)... Sobre a Gronelândia, não sei o que pensam (se é que elas "pensam mesmo")...Mas sobre a hipótese pouco provável de uma invasão duas ilhas em causa (São Vicente e Sal), elas parece que estão de acordo. 

Muito doutoralmente, dizem-me  o que eu já sabia:  que "há vários factores políticos, militares e geoestratégicos" (sic) que fizeram com que "isso nunca se concretizasse". 

E a acontecer, seria mais provável que a iniciativa pudesse vir do lado... dos Aliados. Imaginem!...Logo os "democratas". (Agora, percebo por que é que o Salazar, que era bimbo, e pouco ou nada,  republicano, e muito menos laico,  não gostasse mesmo nada dos americanos, protestantes, capitalistas e demoliberais!)... 

Mas vamos por pontos.


(i) Valor estratégico (relativo) de Cabo Verde

Cabo Verde ocupava (e ocupa ainda) uma posição crítica no Atlântico médio, particularmente relevante durante a guerra naval e aérea (e, nomeadamente, durante a II Guerra Mundial, em plena Batalha do Atlântico, quando ainda não havia misseis balísticos hipersónicos, intercontinentais..com ogivas nucleares.

  • São Vicente (leia-se: Porto Grande – Mindelo): um dos melhores portos naturais do Atlântico; importante ponto de reabastecimento de carvão, desde meados do séc. XIX, com a navegação a vapor, mais tarde, com combustíveis líquidos, como a nafta e o fuelóleo; nó de cabos telegráficos submarinos, vitais para comunicações internacionais, e nomeadamente de ligação entre a Europa, a África e o Novo Mundo;

  • Ilha do Sal: uma ilha plana, sem montes,  mas também sem água doce, excelente para a aviação de longo curso; potencial base aérea para controlo de rotas entre a Europa e a África, e a Europa e a América do Sul; valor acrescentado com a evolução da guerra aérea, e já dotada de um aeródromo construído antes da guerra pelos italianos, em tempo recorde;
  • está bem, amigos e manos mindelenses,  o Porto Grande não era assim tão grande, visto pelos olhos dos beligerantes,  era um porto importante, sim, mas a sua ocupação não traria vantagens decisivas para nenhuma das partes; as infraestruturas em Cabo Verde não estavam preparadas para suportar uma grande operação militar, o que reduziria o seu interesse estratégico; enfim,  eram "peanuts";
  • e depois as ilhas eram, naquele tempo, pobrezinhas, nem uma couve nem uma alface, enfim, ausência de recursos críticos: ao contrário de outras colónias (com "pitróleo", no Norte de África, sem falar das matérias-primas do Congo Belga, . Seetc.); a vossa santa terrinha não possuía recursos naturais que justificassem uma invasão de grande envergadura; e já bastava a fome de criar bicho, que lá se passava em anos de seca, desgraça e mortandade como foram os de 1942/43;
Mesmo assim,  Cabo Verde estava "debaixo de olho" dos beligerantes, ou seja,  no radar estratégico de Alemanha, Itália, Reino Unido e EUA. Porque quando um gajo começa uma guerra, não gosta de perder (nem que seja a feijões!)


(ii) Interesse das potências do Eixo

  • Alemanha nazi: a Kriegsmarine e a Luftwaffe viam Cabo Verde como uma possível base de apoio aos U-boots (submarinos), a famigerada alcateia  dos "lobos cinzentos" mais temidos da história; ponto de interdição / interceção das rotas marítimas dos Aliadas; enfim, parece terem existido estudos preliminares (no papel) sobre ocupações de ilhas atlânticas (os alemães, nazis,  não brincavam em serviço, e eram duros de roer);
  • Itália fascista: interesse mais teórico e dependente do apoio do poderoso aliado alemão; ao Mussolini garganta, bravata, fanfarronada,  blá-blá, não lhe faltava, mas a "Grande Itália" também era um império de papel, de opereta,  como o de Salazar,   sem capacidade naval e muito menos aérea para uma operação autónoma tão distante (de Roma ao Mindelo eram mais de 5 mil quilómetros, hoje é tudo ao virar da esquina com o GPS, o Google Earth, a IA);
  • limitações decisivas do Eixo: falta de superioridade naval no Atlântico; ausência de bases próximas (África Ocidental); dificuldade extrema em manter linhas de abastecimento; risco de resposta imediata britânica; a Kriegsmarine estava já sobrecarregada com a Batalha do Atlântico e a Regia Aeronautica italiana tinha limitações operacionais fora do Mediterrâneo, o "Mare Nostrum" dos romanos.
Na prática, uma invasão do Eixo era altamente improvável, embora fosse temida (em Lisboa e em Londres) (Afinal, "quem tem cu, tem medo".)

(iii) Interesse dos Aliados (Reino Unido e EUA)

Paradoxalmente, o maior risco para a soberania portuguesa em Cabo Verde vinha dos... Aliados, não do Eixo.

  • Reino Unido: tinha "planos de contingência" para ocupar "preventivamente" Cabo Verde, evitando que caísse nas mãos do megalómano do Hitler que queria construir o "Reich dos Mil anos" e de quem de resto o Salazar não gostava muito, por não ir à missa nem se confessar na Quaresma, aliás achava que era uma bárbaro,  identificando-se muitio mais com o Mussolini, embora este fosse demasiado histriónico, espalhafatoso e  demagógico para o seu gosto (e estragava a sagrada tríade, Deus, Pátria e Família: tinha uma  amante);
  • era uma estratégia, a britânica,  semelhante portanto à da ocupação, em 1940, da Islândia e das ilhas Faroé; 
  • os Aliados, especialmente o Reino Unido, tinham interesse em manter Portugal neutro para garantir o acesso aos Açores (e às rotas aéreas e marítimas do Atlântico Norte), de maior valor estratégico que Cabo Verde (que não tinha vacas leiteiras); uma invasão deste arquipélago, de resto disperso, poderia comprometer essa relação, mesmo que fosse "paternalista" e "enviesada" (para invocar quando desse jeito aos "bifes");
  • Estados Unidos: após 1941, os EUA consideraram Cabo Verde (e mais ainda os Açores) crucial para a protecção de comboios; patrulhamento anti-submarino; enfim, havia planos (não executados) para ocupação caso Portugal não cooperasse com os Aliados, e sobretudo com os EUA;
  • os americanos (ainda o Trump não era nascido...) exerceram pressão diplomática sobre Salazar para que Portugal não cedesse bases aos "boches"; em troca, prometiam apoio económico e militar, o que, garantem as meninas da IA,  desincentivou qualquer eventual movimento do Eixo sobre Cabo Verde (e os Açores);
  • medo de uma reação em cadeia: uma invasão de Cabo Verde poderia levar a uma escalada indesejada, com Portugal a alinhar-se formalmente com o Eixo ou a permitir a utilização de outras bases (como as de Angola ou Moçambique, riscos em sais minerais, desculpem, em diamantes, minérios, petróleo, gás natural);
  • mas havia outras prioridades (tal como no caso de Timor): os EUA e o Reino Unido focaram-se em teatros de operação mais críticos, como o Norte de África, a invasão da Itália e a preparação para o Dia D; uma operação em Cabo Verde seria um desvio de recursos sem um ganho estratégico claro, significativo; "o quê, ir fazer uma operação anfíbia no Porto Grande, só para beber um grogue e ouvir a Césaria Évora cantar uma morna ?!... Ah, I'm sorry, pensava que a Cize já tinha nascido nessa época...Desculpem, nasceu em 27 de agosto de 1941, vou tomar boa nota", diz a menina da ChatGPT.
(iv) Porque é que, afinal,  Cabo Verde nunca foi ocupado? Ou pelo menos Mindelo e o seu "Porto Grande" ?

  • Neutralidade portuguesa: Salazar, que não era "saloio" mas beirão,  manteve uma "neutralidade pragmática"; essa neutralidade era mais favorável aos Aliados, mas cuidadosamente equilibrada.
  • Aliança Luso-Britânica: a mais antiga aliança diplomática do mundo ainda em vigor (Tratado de Windsor, 1373) funcionou como forte travão político a uma ocupação aliada directa: uma invasão de território português poderia arrastar Portugal para o conflito, cenário que nem os Aliados nem o Eixo afinal desejavam;
  • a Alemanha e a Itália não tinham interesse em violar essa neutralidade, o que levaria a uma reação britânica ou mesmo à entrada de Portugal na guerra do lado dos Aliados, complicando ainda mais o raio do "tabuleiro de xadrez"  da II Guerra Mundial;
  • os Aliados, especialmente o Reino Unido, tinham interesse em manter Portugal neutro para garantir o acesso aos Açores (e às rotas aéreas e marítimas do Atlântico Norte); para quê estragar uma relação que até nem funcionava mal de todo (tirando a "magna questão do volfrâmio", vendido aos alemães para fabricar bombas!);
  • diplomacia: Portugal acabou por permitir o uso de bases nos Açores (em agosto de 1943, com efeitoa a partir de outubro,  quando o Salazar, que não era parvo, viu que a sorte das armas estava traçada), e isso reduziu drasticamente a necessidade de ocupar Cabo Verde; permitiu aos Aliados controlar as rotas do Atlântico Norte e monitorizar os movimentos da Kriegsmarine (marinha alemã);
  • custos militares: a ocupação das ilhas atlânticas portuguesas violaria a neutralidade portuguesa, criaria problemas diplomáticos desnecessários, exigiria forças que os Aliados (ou as potências do Eixo) preferiram empregar noutros teatros, teria custos militares e humanos acrescidos, enfim, era mais uma "chatice";
  • lealdade das populações: a população local era leal a Portugal, garante a menina da IA francesa, apesar de a Pátria portuguesa ser mais "madrasta" do que "mãe" para os cabo-verdianos;  e, além disso, havia uma força militar, não negligenciável de 6 mil e tal homens (mal equipada, é verdade, mas sempre era um regimento, com porta-estandarte, corneteiro e tudo!), que ofereceriam alguma resistência a uma eventual invasão, implicando sempre um acréscimo de custos humanos e logísticos para qualquer potência invasora;
  • falta de infraestruturas: embora Mindelo fosse um porto natural relevante, as infraestruturas em Cabo Verde não estavam preparadas para suportar uma grande operação militar, o que reduziria o interesse estratégico; a engenharia militar teria que trabalhar no duro, a fazer horas extraordinárias, sem  cerveja, só "grogue", mornas e coladeras...

(v) Conclusão

Sim, teoricamente, Cabo Verde podia ter sido invadido ou ocupado durante a II Guerra Mundial, especialmente São Vicente e e até o Sal (sem falar em Santo Antão, que era a "horta" do Mindelo). Houve planos no papel e receios reais, sobretudo por parte dos Aliados. Mas o Eixo não tinha capacidade real para o fazer, embora não se importasse nada de "abocanhar" tanto os Açores como Cabo Verde.  A diplomacia (portuguesa, britânica, americana...) foi decisiva para evitar esse cenário.

Cabo Verde era, afinal, uma alternativa menos crítica: embora fosse importante para a navegação e a aviação, a sua localização mais a sul do Atlântico tornava-a menos prioritária do que os Açores para o controle das rotas entre a Europa e a América do Norte. 

Cabo Verde acabou por ser um exemplo clássico de território estratégico, protegido mais pela diplomacia do que pela força militar. 

Concluindo o nosso TPC (que deu um trabalho do caraças): meninos e meninas do Mindelo, a não-invasão de Cabo Verde pode ser explicada  por um conjunto de factores:  

  • neutralidade portuguesa e o respeito por essa neutralidade (que o respeitinho naquele tempo ainda era muito bonito); 
  •  prioridades estratégicas dos Aliados e do Eixo noutros teatros de operação (a tropa deles tinha mais que fazer); 
  • limitações logísticas e militares; 
  • diplomacia e negociações que evitaram a escalada do conflito; 
  • valor estratégico relativo das ilhas face a outros territórios.

Cabo Verde acabou por ser um "ponto cego" estratégico (gosto desta metáfora!), onde nenhuma das partes viu vantagem suficiente para justificar uma invasão.  

Desculpem lá, se dececionamos os "mandrongos" e os "patrícios"...

Pesquisa: LG + ChatGPT / OpenAI | Le Chat / Mistral

Condensação, revisão / fixação de texto, negritos: LG
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Nota do editor LG:

Último  poste ds série > 24 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27665: Os 50 anos de independência de Cabo Verde (18): Quando Hitler e Churchill cobiçaram o Porto Grande, Mindelo, São Vicente, que Salazar mandou transformar em fortaleza do Atlântico Médio (Texto: Memórias d'Mindel, página do Facebook de Luís Leite Monteiro) - Parte II