1. Em mensagem do nosso camarada e amigo José Teixeira, ex-1.º Cabo Aux Enfermeiro da CCAÇ 2381 (Buba, Quebo, Mampatá e Empada, 1968/70) com data de 13 de Outubro de 2026:Carlos
Espero que tu e a Dina estejam bem.
Luís e Alice os mesmos votos de saúde e bem-estar.
Por cá, vai-se andando.
Junto uma narrativa curiosa que vivi no dia 10 de junho de 1968 em Ingoré.
Beijos e abraços
José Teixeira
Recordações
10 de junho de 1968. Estava eu em Ingoré na fronteira norte da Guiné. Era dia feriado em todo o mundo português, por ser o Dia de Camões, da Raça e de Portugal. Tinha passado um mês da minha chegada à Província. A enfermaria militar estava fechada, por ser dia feriado e como tinha saído para o mato no dia anterior, estava livre de qualquer tarefa, pelo que decidi, após o pequeno-almoço, dar uma volta pela Tabanca. Era tempo de partir à exploração da localidade e das gentes, sozinho. À minha maneira, observar, a terra, as casas, as pessoas e os seus costumes.
Ouvi, um som de batuque. Estranhei por ser de manhã, mas dispus-me a segui-lo atentamente. Ainda não tinha tido a oportunidade de ver a tão famosa batucada africana de que falavam os que tinham regressado à Metrópole. Localizei um recinto fechado em cana de bambu e entrei. Era uma espécie de discoteca, com muita juventude que dançava e suava por todos os poros da pele. Um cheiro a catinga como nunca tinha sentido. Dois jovens, logo se dirigiram a mim, com palavras e gestos com palavras que não entendi. (o meu crioulo ainda estava muito ferrugento), e delicadamente pegaram-me por um braço e puseram-no no exterior. Continuei, então, o meu caminho pela tabanca, quando vi aproximarem-se de mim dois “lusitos”. Dois pequenos e franzinos miúdos, bem aprimorados com a farda da Mocidade Portuguesa. Para quem não sabe, ou não se lembra, era o nome dado às crianças que andavam no Liceu. Eram obrigadas a inscreverem-se na Mocidade Portuguesa, e usar a devida farda nas atividades da Mocidade, que eram ao sábado à tarde. No dia 10 de Junho havia grandes desfiles de jovens com a farda da Mocidade, em Lisboa e no Porto, nos grandes ajuntamentos e desfiles militares, onde eram condecorados os heróis do Ultramar, muitos dos quais a título póstumo.
Ingoré, 10 de Junho de 1968 > José Teixeira com os lusitos da Mocidade Portuguesa
Esfreguei os olhos para me certificar que não estava a ver fantasmas. Não! Era verdade. Aproximei-me e cumprimentei-os com um – Bom dia! Responderam-me com uma saudação típica da Mocidade e retribuíram com um bom dia, senhor!
Ali ficamos no meio da tabanca, com um sol do caneco a falar em português correto. Vinham da escola primária local, as comemorações do Dia de Camões de Portugal e da Raça, onde eram alunos da quarta classe.
Para testar os seus conhecimentos fui um pouco malandro, revi a minha 4.ª classe, e fiz perguntas, sobre Portugal continental na área de História e Geografia, e descobriu que sabiam, na ponta da língua, os nomes dos Rios; nascentes, afluentes e onde desaguavam; o nome das serras foi cantado na mesma ladaínha que nós usávamos para decorar; das estações da CP em Portugal; dos Reis que nos governaram, etc. no meio da conversa descobri que não faziam ideia do que era e como era um comboio. No seu livro escolar, parece que havia uma fotografia a preto e branco, com uma máquina a vapor envolvida em fumo e umas carruagens, mas como se movimentava aquele monstro? Explicar-lhe não foi fácil, mas o possível, creio eu, para entenderem.
Na primeira oportunidade, fui visitar a escola, conhecer o professor (creio que se chamava Domingos). Da primeira vez estava a dar aulas, com uma sala cheia de crianças em silêncio, muito atentas. Tinha algumas carteiras, se a memória não me falha, mas não dava para tanta criança. Voltei várias vezes, depois do horário escolar para conversarmos sobre o ensino, a aprendizagem das crianças e do futuro daquela gente esmagada pelo medo da guerra. Era um jovem professor de dezasseis anos. Estava ligado à Comunidade Salesiana de S. Domingos, onde tinha feito alguns estudos do Secundário. Fora colocado em Ingoré no princípio do ano escolar e queria seguir a carreira de professor. Esperava que chegasse o fim do mês de julho para ir nas viaturas militares até ao Sedengal e depois, seguir pela mata, até S. Domingos para continuar os seus estudos durante as férias. Caminho que conhecia bem, pois já o tinha feito algumas vezes.
Passado um mês, a minha Companhia foi deslocada para Sul. Foi tal a rapidez da mudança, que nem me deu tempo para me despedir do jovem professor Domingos, que tinha ganho a minha amizade e profunda admiração pela sua força de vontade e dedicação. Voltei a Ingoré em 2011 com o saudoso Pepito, acompanhado dos meus filhos, para visitar o Infantário Pipisa, que quer dizer Flor de Arroz, o qual estava a ser apoiado pela Associação Tabanca Pequena de Matosinhos. Passei uma bela manhã, a conviver com cerca de cinquenta crianças.
Perguntei pelo Professor Domingos. Era um ilustre desconhecido para aquelas jovens que geriam o infantário. A Escola tinha desaparecido. Havia outra, maior e mais atual. Creio que atualmente há um liceu. A Tabanca cresceu imenso. Incorporou Ingorezinho e outras pequenas tabancas existentes no meu tempo. Ingoré é um mundo, como pude constatar em 2013 e 2015, quando lá voltei.
O tempo (cerca de quarenta e três anos) tinha apagado muita coisa das nossa memórias, mas os dois simpáticos e sabichões “lusitos” e o Professor Domingos continuam bem presentes na minha.
Que será feito deles?
José Teixeira
Eu a interagir com as crianças em 2011
O meu filho Tiago a interagir com as crianças em 2011
O meu Tiago e o saudoso Pepito com as crianças, em 2011
_____________Nota do editor
Último post da série de 30 de outubro de 2024 > Guiné 61/74 - P26094: Estórias do Zé Teixeira (65): Da Guiné a Lisboa a pé pelo Saará - O sonho que durou vinte anos a concretizar-se (2) (José Teixeira, ex-1.º Cabo Aux Enfermeiro da CCAÇ 2381)




























