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segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28237: Notas de leitura (1946): "Depois da Guerra", de Luís Rosa; edição de autor, 1990 (2) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 4 de Fevereiro de 2026:

Queridos amigos,
É um belo e raro testemunho. Luís Rosa conhece a Guiné em 1964, tudo mudara entretanto na região Sul, o Brigadeiro Arnaldo Schulz tenta reposicionar a situação criando destacamentos na região fronteiriça, a sua última obra será Gandembel, que se revelará um desastre, prontamente desativada por Spínola. Este irá gradualmente abandonando estas posições fronteiriças, Guileje, altamente fortificada, é a derradeira posição na área. Neste testemunho podemos aperceber-nos do que representava Sangonhá numa fase de arranque do PAIGC, melhor armado e com mais minas e abastecimentos para o interior, daí a importância vital que se conferia ao corredor de Guileje. Luís Rosa correlaciona estas posições, e os abastecimentos que dependiam de Gadamael porto. Valeu a pena a releitura, é mais do que recomendável, a despeito de eu considerar o final uma conversa mais do que improvável.

Abraço do
Mário



Recordar o nosso confrade Luís Rosa e o seu livro sobre Sangonhá, perto de Guileje - 2

Mário Beja Santos

Em 2010, publiquei no nosso blogue a recensão do livro recentemente publicado do Luís Rosa Guiné 63/74 - P6137: Notas de leitura (91): Depois da guerra, as recordações da região de Cacine... e algo mais, de Luís Rosa - II (Beja Santos) fazendo o reconhecimento que era uma obra a todos os títulos convidativa da leitura, um documento singular sobre um dos destacamentos acima de Cacine e de Gadamael destinado à proteção fronteiriça junto de uma área vital para o PAIGC, o denominado corredor de Guileje. Acresce que Luís Rosa descreverá a ocupação militar efetiva de Sangonhá, e entre outros acontecimentos relevantes que ele testemunhará é o aparecimento do inferno de Guileje.

Sangonhá ficava a escassos quilómetros da fronteira da Guiné-Conacri, recebia regularmente a visita de gente que procurava medicamento, cuidados médicos ou farmacêuticos; mas, à sombra da proteção do aquartelamento, veio gente que aqui vivia, e fosse qual fosse a razão, deu sinais de querer voltar. Fizeram-se casas, havia o problema da área a defender, que aumentou, e era mais vulnerável; e outro problema de fundo era a exploração da terra. Tornou-se premente o desafio de afastar o fantasma da fome, não chegavam os carregamentos de arroz vindos de Bissau; fizeram-se canoas de troncos de árvores, pois era abundante a pesca do rio Cacine. Luís Rosa conseguiu sacos de arroz e mancarra de semente, o povo gostou, a terra foi-se desbravando. A guerrilha não molestou. E no momento certo a população toda despejou-se no campo, ceifeiros de um ciclo interrompido há anos começaram de madrugada o trabalho que ao fim do dia haveria de ser transformado em fartura. Vieram informar o alferes que o arroz já está, vinha dos tempos de dominação exigir-se uma tributação, foi a resposta que o alferes lhe deu: “O que vocês cultivaram e colheram é vosso, não há nada a dar a ninguém.”

E o autor conta-nos como Guileje, uma terra pacata no caminho de Aldeia Formosa, que ficava no limite entre o território Fula e o chão Nalu, um dia foi ferozmente atacada, as súplicas que vinham pelo rádio eram dramáticas: “Mandem ajuda! Vão entrar no quartel! Está tudo perdido!”. Com o levantar do dia, ouviu-se o ronco peculiar dos aviões, cessaram os combates. De Sangonhá a Guileje era pouco mais de três quilómetros, foi-se acudir. E o que se via metia dó, Guileje folegava na manhã nascente, os de Sangonhá deixaram o que tinham trazido: mantimentos, munições e ânimo. Ninguém duvidava, tudo estava alterado. Nessa mesma noite Guileje voltou a ser atacada. Os de Sangonhá voltaram na manhã seguinte a Guileje, na véspera até lá tinham deixado uma GMC. “Chegámos. O segundo ataca deixara mais plana a imensa clareira da povoação, como se uma colossal força longínqua quisesse varrer aqueles insetos, tenazmente agarrados ao que acreditavam ser o seu dever de ficar. No meio do imenso anel cercado pela vala, como um grito, como um velho búfalo morrendo na madrugada, fumegando das narinas aquilo que já não é, estava a minha GMC, retorcida, carbonizada, esqueleto de ferros sem nexo, supostamente a olhar-me como se fosse pessoa triste no aspeto, fazendo-me experimentar a mágoa de perder algo que fazia parte do nosso convencimento.”

O alferes, naquele pedaço de fim do mundo, era multifuncional: militar e juiz; confessor e mantedor da ordem; gestor de recursos possíveis e impossíveis, e prestador de serviços para destacamentos próximos, no caso vertente Guileje ou Cacoca, organizando colunas de abastecimento a partir de Gadamael; e fadado para manter patrulhamentos de proximidade, e conforme conta Luís Rosa houve mesmo um dia em que se encontrou na fronteira com a autoridade local do lado de lá, foi uma vez sem exemplo, mas os de lado de lá cortaram o capim e a estrada para além fronteira, era hábito que havia antes da guerra, até havia o cuidado de limpar à volta dos matos fronteiriços. Coisas só podiam acontecer a quem combatia naquela extensa fronteira que bordejava de norte para sul.

O autor socorre-se obviamente à sua memória: a primeira flagelação a Sangonhá; o trabalho que deu ir-se desfazendo o que fora feito pela formiga bagabaga, para ter uma boa pista de aviação; o trabalho exaustivo dos picadores para detetarem minas antipessoal e anticarro, preferiam-se os meios mais antigos porque os modernos, detetores em forma de prato na ponta de um cabo e que produziam um som agudo se estivesse metal próximo eram um quebra-cabeças, acusavam tudo o que fosse metal, levando a paragens e precauções por um prego ou cavilha que estivessem enterrados a dois dedos da superfície – usavam-se uns paus finos, com uma ponta de ferro no extremo. E o autor apresenta-nos o cabo Cancela e o seu ajudante Djaló, há habilidade de rebentar os engenhos.

É um fio de histórias, o que ele nos recorda largamente de Sangonhá, pouca atenção dedicará à permanência em Farim. Há momentos de grande dor como aquele ferido por uma mina antipessoal que irá morrendo aos poucos, o helicóptero chegará exatamente quando o ferido deixou de se agarrar à vida. E a água, a epopeia de percorrer a pulso aquele solo gretado, com o terror que ela faltasse na duríssima época seca. Porque antes da guerra era tudo diferente, as gentes viviam em pequenos povoados, espalhando à sua volta poços pequenos, agora todas aquelas pequenas povoações tinham ficado desertas; e a comida, Santo Deus, conservas e bolachas ressequidas, para já não falar daquela água que mesmo fervida, era sempre desconchavada; feridos graves não faltam e haverá um, barbaramente sinistrado, que lhe gritará: “Meu alferes, nunca mais sou homem!”; aquela fronteira é obsidiante, procura-se o marco fronteiriço, ele tinha acreditado que a fronteira era definida por um poilão, um nativo desenganou-o, pesquisou-se no capim, encontrou-se o marco, metro e meio de altura, em cimento, dizendo de um lado República Portuguesa e do outro República Francesa.

Neste livro de memórias, era inevitável a menção à religiosidade, ao fanado, à condição da mulher. E também se recorda aquela duríssima flagelação em que o alferes foi ferido, e também se recorda a tragédia dos agentes duplos, como Zacarias Mambo, que acabou na leprosaria da Cumura.

O último texto da narrativa é um almoço, talvez no Restaurante João do Grão, estão presentes o alferes de Sangonhá e o comandante do PAIGC local, à época. Conversa artificiosa, o comandante revela-se pedante, dizendo coisas como: “Já aprendi que é mais difícil governar a paz do que fazer a guerra”; fala-se do colonialismo e do pós-colonialismo, dizem-se coisas como: “Há muitas formas de independência. E há muitas formas de dependência. Como há muitas formas de os povos se governarem e muitos modos de se relacionarem.” E despedem-se, o autor pensa eu houve um enorme espaço de tolerância, havia para ali um painel de azulejos em que a superfície era coberta por retângulos de espelho nos quais a antiguidade e a humidade fizera sumir o brilho e os muitos anos os tinham ido quebrando. O autor sentiu que as imagens se projetavam como um puzzle, dizendo para si próprio e para o leitor: “Quebráramos há muito as imagens antigas e achávamos desejável procurar um caminho pragmático de nos reencontrarmos.”

Prefiro não comentar a extravagância deste final.

Luís Rosa (Alcobaça, 1939 - Lisboa, 2020): foi alferes miliciano, CART 640 (Sangonhá, 1964/66)
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Notas do editor:

Vd. post de 27 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28218: Notas de leitura (1944): "Depois da Guerra", de Luís Rosa; edição de autor, 1990 (1) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 31 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28230: Notas de leitura (1945): "Uma História da África Lusófona Pós-Colonial", Edições tinta-da-China, 2026 (3) (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 27 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28218: Notas de leitura (1944): "Depois da Guerra", de Luís Rosa; edição de autor, 1990 (1) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 4 de Fevereiro de 2026:

Queridos amigos,
Foi num desses sábados frutuosos que adquiri na Feira da Ladra, "Depois da Guerra", de Luís Rosa, edição de autor de 1990, ainda por cima com dedicatória. Luís Rosa ganhou notoriedade em obras de índole profissional e em romances como "O Claustro do Silênci", "O Amor Infinito de Pedro e Inês", "O Terramoto de Lisboa". Estas memórias do que viveu em Sangonhá foi a sua primeira e única incursão do que viveu na Guiné, temos obras aparentadas, como a do José Brás e as suas "Vindimas no Capim","As Ausências de Deu", de António Loja, "As Noites de Mej", do Luís Cadete, mas há algo de profundamente enriquecedor nesta memória da ocupação de Sangonhá, ficamos com a geografia dos aquartelamentos decididos quer por Louro de Sousa quer por Arnaldo Schulz e que António Spínola mandou abandonar. Estranho muito nunca se falar como Guileje ficou altamente vulnerável depois dos abandonos de Sangonhá, Cameconde e Cacoca e Mejo, por tais decisões. Fala-se muito do que representou o abandono de Madina do Boé e esquece-se de como Guileje ficou entregue a si próprio. Coisas estranhas da historiografia da guerra colonial.

Abraço do
Mário



Recordar o nosso confrade Luís Rosa e o seu livro sobre Sangonhá, perto de Guileje - 1

Mário Beja Santos

Em 2010, publiquei no nosso blogue a recensão do livro recentemente publicado do Luís Rosa Guiné 63/74 - P6137: Notas de leitura (91): Depois da guerra, as recordações da região de Cacine... e algo mais , de Luís Rosa - II (Beja Santos) fazendo o reconhecimento que era uma obra a todos os títulos convidativa da leitura, um documento singular sobre um dos destacamentos acima de Cacine e de Gadamael destinado à proteção fronteiriça junto de uma área vital para o PAIGC, o denominado corredor de Guileje. Acresce que Luís Rosa descreverá a ocupação militar efetiva de Sangonhá, e entre outros acontecimentos relevantes que ele testemunhará é o aparecimento do inferno de Guileje.

A 1.ª edição foi de autor, em 1990, tinha o título "Depois da Guerra"; a 2.ª edição data de 2009, foi quando fiz a recensão, tecendo elogios e o reconhecimento do testemunho, mas deplorando um final de narrativa artificioso, vácuo, descabido. Voltei a adquirir na Feira da Ladra e com uma dedicatória do autor a 1.ª edição, lia de um só fôlego, reconhecendo que a qualidade memorial justificava que aqui a revisitasse.

Tudo começa no cais do Pidjiquiti, a unidade do nosso alferes parte num velho batelão em direção ao sul, conversa-se sobre os acontecimentos do Pidjiquiti de 3 de agosto de 1959, a calamidade que concorreu para o levantamento nacionalista; o batelão viaja perto da ilha do Como, nas semanas anteriores a esta viagem tinham ali decorrido, entre fevereiro e março de 1964, combates ferozes; avista-se ao longe a península do Cantanhez e o canal que a separava da ilha de Melo, assim se chega a Cacine onde o autor nos conta a história do comerciante Costa que tinha um poder soberano sobre a população local, o seu poder despótico acabou mal.

Viaja-se para Sangonhá, quando aqui chegam ouviram três tiros em Canefaque, gente do PAIGC enviara a mensagem na nossa chegada ao Quitafine, a toda a área de Cacine a Cabedu, de Cameconde à ilha de Melo. “A tropa instalava-se precariamente, desesperadamente. Sangonhá era uma bela povoação colonial, situada no meio de um luxuriante pomar de mangueiros, bananeiras e árvore de cola, com uma bela vivenda servindo de enfermaria e casas de colmo e terra batida, alinhadas ao longo de mais de um quilómetro de estrada, que, mais adiante, atravessava a fronteira.” Do outro lado, tropas e população apoiante do PAIGC deslocava-se por Sansalé e Kandiafará, havia por aqui posto médico e armazenamento de armamentos e víveres.

Constroem-se as despesas de Sangonhá, uma extensa vala que mais tarde seria substituída pelas espessas paredes de chapa de bidon, com terra a meio, casamatas subterrâneas cobertas de grossos troncos de palmeira. Inevitável, chegou a hora do batismo de fogo. E o palco da guerra vai sendo enxameado de acontecimentos até então impensáveis: o interrogatório a alguém que aparecera, foi espancado até que se descobriu que era um diminuído mental; a sexualidade dos soldados, o descobrimento de que existia o Irã, uma religiosidade, uma crença que toma conta do africano, mesmo quando é islamizado; o novo interrogatório a um velho que fora apanhado a passar informações para os guerrilheiros feito por um alferes que decidiu a sentença de morte, e temos depois o olhar de Luís Rosa sobre aquela geografia da guerra:
“A princípio sente-se mais o isolamento. As estradas estavam cortadas por inúmeros obstáculos, minas e árvores enormes, que nenhuma força parecia capaz de demover. Os vinte quilómetros que ligavam ao braço do rio Cacine, em Gadamael, eram a única ligação a tudo o que ficava para além daquele mundo estranho da guerra. Gadamael servia de ancoradouro e descarga apressada das lanchas e batelões.

A opressão do desamparo tornava-se mais pesada pela certeza que tínhamos da impossibilidade de sermos socorridos e pela sensação de que, se ali acabássemos, apenas algum tempo depois dariam pelo nosso fim. Com o chegar das chuvas, a estrada transformava-se num atoleiro de regos profundos de lama inconsistente, como pântano impedindo que os pesados camiões transitassem, sob o risco de ficarem com o bojo assente no chão. Apenas o avião, à quarta-feira, sobrevoava o quartel fazendo um círculo em volta e deixando cair o saco do correio, afastando-se depois, com o abanar das asas, como ave do paraíso. Se o abastecimento não podia ser trazido pelo rio ou pela estrada, porque não havia meios para o fazer chegar, ou porque o recrudescer da guerra e a inoperacionalidade das estradas tornava a operação uma aventura imprevisível, começávamos a contar os dias para que ainda tínhamos alimentos e o avião era ainda o último alento do socorro esperado. Varria as copas das árvores em voo rasante, lançando sacos, caixas e atados. Tudo caía na clareira do arame farpado. Íamos recolhendo, depois, o que ficara disperso numa grande extensão, ora em mil bocados de caixotes desfeitos, ora suspensas as embalagens no alto dos ramos ficando penduradas como em árvores de Natal retendo as prendas.”


Tomaram-se severas medidas de segurança, abriu-se uma enorme clareira para criar uma pista de aviação, e Luís Rosa conta as façanhas da chegada das primeiras avionetas, cumpriam-se as ordens de Bissau para que a pista tivesse pelo menos 400 metros de comprimento, trabalhou-se a valer para desbastar o arvoredo. Com aquela pista de aviação os militares de Sangonhá sentiram-se mais seguros e menos sós. Saberemos também que Luís Rosa comandava homens de intensa religiosidade, não faltava a hora do terço, era o cabo Aires quem orientava a reza. Disserta-se sobre a religiosidade, o poder das crenças, a fé e como tudo se conjuga com um ambiente de guerra.

E segue-se um episódio de luto, dor e saudade, a história do Braga, homem dos sete ofícios, um artista a trabalhar madeira. “Pedi-lhe um dia que me fizesse uma cadeira de encosto, que se desmontasse toda em ripas, de modo a formar um pequeno molho dentro do saco dos livros e pertences, que levava sempre a um canto do camião. A cadeira ficou bela, em pau rosa, idealizada pelo engenho do Braga, sem um prego ou parafuso, apenas suportado o conjunto pelas espigas, harmoniosamente concebidas.” O Braga foi numa operação a Marela uma pequena povoação além-fronteira, ficava num ponto a meia jornada para os guerrilheiros que no sul se dirigiam para a fronteira, passando por Sansalé. Encontrou-se um local de refúgio da guerrilha, houve matança, seguiu-se intenso tiroteio, procedeu-se ao controlo de mortos e feridos, descobriu-se que tinha morrido o Braga. O alferes não esconde a comoção, ficara-lhe a cadeira, lembrou-se que o Braga lhe tinha dito que havia um acabamento a fazer, e dirige o seu pensamento para este último trabalho do Braga: “A obra está sempre completa no ponto em que a deixamos.”


Luís Rosa (Alcobaça, 1939 - Lisboa, 2020): Alferes Miliciano da CART 640 (Sangonhá, 1964/66)
Para melhor entender os acontecimentos vividos em Sangonhá e narrados por Luís Rosa no seu romance "Depois da Guerra", edição de autor de 1990, reeditado em 2009 na Editorial Presença com o título Memória dos Dias sem Fim. Logo no início da sua comissão, o Brigadeiro António de Spínola decretou o abandono de destacamentos nesta região Sul: primeiro Gandembel, mais adiante Sangonhá, Balana, Cacoca e Mejo, ou seja, preparou-se a prazo a tragédia de Guileje. Infografia do nosso blogue.
Vista aérea do destacamento em Sangonhá, vendo-se nitidamente a pista de aviação, imagem do nosso blogue

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 24 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28209: Notas de leitura (1943): "Uma História da África Lusófona Pós-Colonial", Edições tinta-da-China, 2026 (2) (Mário Beja Santos)

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

Guiné 61/74 - P21367: In Memoriam (371): Luís Rosa (1939-2020), ex-alf mil, CART 640 (Sangonhá, 1964/66), natural de Alcobaça... Passa a integrar a nossa Tabanca Grande, sob o n.º 718. Missa do 7.º dia, na Igreja de São João de Deus, Praça de Londres, Lisboa, amanhã, dia 18, às 19 horas



Luís Rosa  (Alcobaça, 1939 - Lisboa, 2020): foi alf mil, CART 640 (Sangonhá, 1964/66)

1. Mensagem de Luis Rosa, dirgida aos editores do blogue:

Data - 16 set 2020, 08:39
Assunto - In Memoriam 




É com imenso pesar que comunicamos o falecimento de Luis Manuel da Silva Rosa, no passado dia 12 de Setembro, casado com Maria Celeste Nogueira dos Santos Silva Rosa, pai de Luis Rosa, Gonçalo Rosa e Gabriela Rosa.

As exéquias fúnebres realizaram-se dia 14 de Setembro, segunda feira, pelas 14:00 horas no cemitério de Aljubarrota (Alcobaça), de acordo com sua vontade.

Em nome de minha Mãe e meus irmãos, informo que a Missa de sétimo dia terá lugar em Lisboa, na igreja de São João de Deus, Praça de Londres, na próxima sexta-feira, dia 18 de Setembro.

Pelas limitações impostas pela pandemia actual, as cerimónias terão formato em conformidade.

Luís Rosa
 

2. In memoriam, Luís Rosa (1939-2020), escrito pelo filho, Luís Rosa:
 




Guiné > Região de Tombali > Sangonhá > CCAÇ 1477 (1965/67) > O Dacosta (ou "Jacinto") junto ao monumento da CART 640 ["Quartel ocupado e construído pela CART 640, desde 21/5/1964. (CART 640 / RAP2... Há uma outra foto, no nosso blogue, com um monumento semelhante, mas de Cacoca, "quartel ocupado e construído desde 24/6/1964 pela CART 640"].



Guiné > Região de Tombali > Sangonhá > CCAÇ 1477 (1965/67) > c. 1966 > "Benvindos a Sangonhá",,, Fotos do álnum do 1º cabo cripto, CCAÇ 1477 (Sangonha e Guileje, 1965/67)... (**) do José Parente Dacostam, ex-


Fotos (e legendas): © José Parente Dacosta (2017). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


3. C
omentário do José Eduardo Oliveira (JERO); amigo, conterrâneo e contemporâneo (no CTIG) do Luís Rosa (***)

Duas notas:

Ao Beja Santos; Excelente recensão. Parabéns.

Ao Luís Rosa:  Que grande prazer encontrar o teu novo livro num blogue como o "nosso". Se bem te conheço, vais-te juntar brevemente à nossa Tabanca Grande. Recebi hoje o teu livro, que tiveste a gentileza de me enviar.Vou obviamente recordar os velhos de tempos da Guiné em que trocávamos aerogramas semana sim semana não para recordar Alcobaça e Aljubarrota.

Um grande abraço.
J. Eduardo Oliveira
CCaç 675 /Binta/ 1964-66.

PS - Já agora aproveito para recomendar aos "utentes" do nosso blogue os outros livros do Luís Rosa. Quem ler um dos seus livros ficará fascinado com a força da sua narração e com a informação fundamentada até ao pormenor. Depois me dirão.

19 de dezembro de 2009 às 19:03

4. Comentário do editor LG:

Mais uma terrível notícia, mais um camarada nosso que chegou ao fim da sua "picada da vida". Não nos conhecíamos pessoalmente, mas relembro aqui o comentário do JERO, já com mais de 10 anos, saudando o Luís Rosa, pelo seu livro "Memórias dos Dias sem Fim", e convidando-o a integrar a nossa Tabanca Grande. 

O Luís Rosa foi alferes miliciano da CART  640 (Sangonhá, 1964/66).  Certamente por razões da sua atarefada vida profissional e académica, o Luís Rosa não respondeu ao convite do JERO. E foi pena, porquanto não tínhamos na altura (nem até hoje) nenhum representante da CART  640. 

O Luís Rosa tinha já, no entanto, algumas referências no nosso blogue, na sequência das notas de leitura, subscritas pelo Beja Santos, relativamente ao seu livro de 2009, "Memórias dos Dias sem Fim", que fico agora com vontade de ler. Dele só conhecia um trabalho, mais académico, e mais antigo, "Sociologia de empresa : mudança e conflito"  (Lisboa : Presença, 1992, 242 pp.; coleção "Biblioteca de gestão moderna", 57).

Pelo seu currículo, vejo que tínhamos afnidades, interessando-nos por  áreas académcias como a gestão do comportamento organizacional, a sociologia do trabalho e das organizações, etc.

O Luís Rosa é um autor multifacetado, com obra que vai da ficção ao  romance histórico e do ensaio  à poesia.

Tenho hoje pena de não o ter conhecido pessoalmente. Sob minha proposta, homenageamos este nosso ilustre camarada, integrando-o, a título póstumo, na nossa Tabanca Grande, no lugar nº 818. Em meu nome, dos demais editores e colaboradores permanentes do blogue, apresento ao filho, Luís Rosa e demais família, amigos e camaradas da CART 640 os nossos sentimentos de solidariedade na dor pela sua perda. Mas a sua memória será aqui recordada por todos nós, antigos camaradas de armas.

PS - Peço ao filho, Luís Rosa, que aceite este pequeno gesto de homenagem da nossa parte e, se possível, partilhe connosco algumas fotos da álbum do pai, enquanto alferes miliciano da CART  640, que esteve em Sangonhá, região de Tombali, sul da Guiné, em 1964/66. (Sobre Sangonhá temos mais de 4 dezenas de referências no nosso blogue.) 

__________

(**) Vd. poste de 22 de dezembro de  2017 > Guiné 61/74 - P18125: Tabanca Grande (455): José Parente Dacosta, ou 'José Jacinto', ex-1º cabo cripto, CCAÇ 1477 (Sangonha e Guileje, 1965/67)... Natural da Covilhã, vive em Dijon, França... Passa a ser o nosso grã-tabanqueiro nº 764.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Guiné 63/74 - P6380: Agenda Cultural (74): Luís Rosa, autor de Memórias dos Dias sem Fim, dia 14, 6ª feira, às 19h, na Biblioteca-Museu República e Resistência, Benfica, Lisboa



3º Ciclo de Conferências Memórias Literárias Guerra Colonial > Biblioteca-Museu República e Resistência / Grandella > Lisboa, Estrada de Benfica, 419 > 14 de Maio de 2010, às 19h > O Luís Rosa , natural de Alcobaça, tal como o nosso querido amigo Jero, vai falar do seu último livro, "Memórias dos Dias Sem Fim"

Sobre o livro e o autor, já aqui escreveu o nosso camarada Beja Santos (*):


(...) "MEMÓRIA DOS DIAS SEM FIM é o romance mais recente de Luís Rosa (autor de O Claustro do Silêncio, O Terramoto de Lisboa e a Invenção do Mundo, O Amor Infinito de Pedro e Inês, Bocage – A Vida Apaixonada de Um Genial Libertino e O Dia de Aljubarrota), são as suas recordações da Guiné, onde terá combatido entre 1964 e 1966. Terá combatido, na justa medida em que a estrutura da obra não leva o autor a apresentar-se autobiograficamente, há distâncias que são propositadamente confundidas entre o relator e o experimentador das memórias.

"É um livro com uma enorme carga poética e em que se procura responder ao acervo de inquietações de quem combateu e aprendeu a crescer, guardando saudades e regressa ao teatro dos acontecimentos sem rancores nem pedidos de explicação. São sucessivos episódios, balizados pela cronologia de quem parte para a sua viagem no cais do Pidjiquiti e regressa à Guiné reencontrando-se em Lisboa com um comandante de uma unidade de guerrilha do Sul da Guiné. É desse cais do Pidjiquiti que ele partirá para Sangonhá, o seu destino era a fronteira sul, além-Cacine, que ele assim define: 'Um corredor estreito de cerca de três quilómetros, esganado entre o rio Cacine e a linha imaginária da fronteira. Terra de imprevistos, onde a guerrilha se movia à vontade, e se construía uma linha de quartéis, tentando conter a infiltração'..

"Durante a viagem, dá-se uma versão da revolta que ocorreu em 3 de Agosto de 1959, o que historicamente está provado que não foi assim, já havia movimentos independentistas em gestação, o massacre de 3 de Agosto foi mais um detonador de consciências de que o fermento da luta armada. O narrador fascina-se com o relato do comandante Nalu sobre os acontecimentos do Pidjiquiti e rende-se às belezas das florestas, ao rendilhado das águas, ao imputo do tornado e, enfim, a sua embarcação chega a Cacine. Sabemos agora que o narrador é alferes, coube-lhe a missão de construir um quartel em Sangonhá, entre Gadamael e Cacine" (...)


Autor: Luis Rosa (, foto à esquerda)
Título: Memória dos Dias sem Fim: O amor, o sentir das gentes e a crueza da guerra colonial de África
Editora: Presença
Ano: 2009
Colecção: Grandes Narrativas
Nº na Colecção: 453
Nº pp: 268
Preço: c. 15€

Sinopse: 

Com a publicação de Memória dos Dias sem Fim [, clicar aqui para ler um excerto,] o novo livro de Luis Rosa, o romance histórico português rasga novos horizontes, simultaneamente mais vastos e profundos, reveladores da própria dimensão humana. É a realidade da guerra em toda a sua desconformidade e falta de sentido, capaz de denunciar as muitas faces ocultas do homem, desnudando-o e mostrando-o como realmente é - sofredor, idealista, solidário, cruel. 

Mas, patentes nestas páginas de grande intensidade psicológica e sociológica, estão também outras realidades - as culturas, comportamentos e mentalidades da sociedade guineense que permeiam o quotidiano da guerra, a solidariedade que a crueza das circunstâncias comuns faz surgir entre negros e brancos, ou ainda a amizade incondicional que nasce espontaneamente entre irmãos de armas. O sentimento intenso do absurdo da guerra narrado por quem o viveu na primeira pessoa, a manifestação de um homem oculto que se expressa na luta pela sobrevivência no horizonte intenso dos dias sem fim.
_________

Nota de L. G.:

(*) Vd. postes de:

19 de Dezembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5503: Notas de leitura (44): Memória dos Dias Sem Fim, romance de Luís Rosa - I (Beja Santos)

9 de Abril de 2010 > Guiné 63/74 - P6137: Notas de leitura (91): Depois da guerra, as recordações da região de Cacine... e algo mais , de Luís Rosa - II (Beja Santos)

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Guiné 63/74 - P6137: Notas de leitura (91): Depois da guerra, as recordações da região de Cacine... e algo mais , de Luís Rosa - II (Beja Santos)

1. O nosso Camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil At Inf, Comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), enviou-nos, com data de 9 de Abril de 2010:

Queridos amigos,

Graças ao camarada Manuel Joaquim, conheci a primeira edição de “Memória dos Dias Sem Fim”, que se encontra facilmente nas livrarias.

Tenho para mim que há parágrafos deste livro que irão passar à posteridade.

Um abraço do
Mário

Depois da guerra, as recordações da região de Cacine... e algo mais

Referimos aqui, há uns tempos atrás (poste P5503, de 19 de Dezembro de 2009), a obra do escritor Luís Rosa “Memória dos Dias Sem Fim” (Editorial Presença, 2009).
Luís Rosa é hoje um autor conceituado e a literatura da guerra colonial da Guiné fica a dever-lhe páginas sublimes.
Na recensão então feita, houve a preocupação de mencionar parágrafos desta obra que seguramente farão parte das antologias do género, tendo deplorado o final do romance, de um mau gosto enorme pela sua impossibilidade cultural, guineense não é macaco de feira, ocidental de ocasião.
Graças ao nosso camarada Manuel Joaquim, acabo de descobrir que o Luís Rosa já tinha feito uma edição de autor desta mesmíssima obra em 1990, tendo-a intitulado “Depois da Guerra”.
Tudo começa no cais do Pidjiquiti e com uma conversa com o comandante Nalu, ali se aborda o massacre do Pidjiquiti de 1959. As páginas dedicadas a Sangonhá são de uma enorme beleza:
“Tínhamos chegado a Sangonhá na véspera. Ao cair da noite ouvimos para sul três tiros em Canefaque.
Três tiros de arma grossa. Era o sinal.
O percurso para Sangonhá tinha sido difícil. Com os guerrilheiros a emboscarem a coluna.
Os guinchos a puxarem as enormes árvores tombadas na estrada.
As serras mecânicas gemendo num esforço entrecortado.
A ramaria caindo e sendo arrastada. Os sapadores pesquisando as minas no chão poeirento e nas abatizes.

Os tiros dispersos vindos do mato, levavam a morte num silvo ou morriam nos troncos.
De um lado e de outro uma vontade decidida de avançar ou vender cara a retirada. Mais atrás seguia o grosso da coluna, apenas pelo ruído se apercebendo do que passava à frente...
Assim se entrou de rompante no cruzamento de Sangonhá, blindados à frente, cortando com as rajadas as largas folhas das bananeiras, enquanto os tiros do mato iam rareando, dizendo pela distância e por fim pelo silêncio, a resignação, pela retirada forçada.
Os homens do mato refugiaram-se no Quitafine, enviando mensagens para toda a área de que a tropa ocupara Sangonhá.
Depois tinham surgido aqueles três tiros em Canefaque, no extremo sul. Era o sinal de reunir todos os grupos da guerrilha, da área de Cacine a Cabedu, de Cameconde à Ilha de Melo...
Aqueles três tiros para o lado de Canefaque fizeram-nos prever o pior. Tínhamos dois blindados Fox e dois velhos granadeiros.
Pusemo-los aos cantos, para cruzarem o fogo e imporem respeito. E assim, uns na vala, outros nos carros, passámos aquela noite.
A segunda noite, porém, chegou com a sensação rasgante e densa de que qualquer coisa ia acontecer.
Logo que a escuridão caiu sobre as palmeiras, começaram-se a ver pequenas luzes, como de isqueiros ou pirilampos.
Todas as forças da guerrilha da península do Quitafine se tinham juntado para acabar com a guarnição...
A escuridão e os mangueiros, ajudaram a aproximação. A ponto de um homem do blindado se aperceber de uma sombra a deslocar-se a uns cinquenta metros.
Abriu fogo e o inferno explodiu, escancarando a gorge por todo o lado. Não durou muito. Talvez uma meia hora.
Quando a manhã surgiu ainda embrulhada em trevas, mas já deixando distinguir a nitidez das formas, ouviu-se uma voz seguida de muitas, exclamações de espanto interrogativo.
À volta do quartel viam-se capacetes imóveis, um homem semi-erguido, ainda agarrado ao arame farpado e aquela arma imponente espreitando em desafio por detrás do “mangueiro”. São descrições de uma elevada contenção, a sobriedade que não deixa margens para a lamechice.
Aqui e em muitos pontos da obra, o horror é sempre condicionado pela justa medida, não se dissimula o olhar de África por outra observação que seja a do militar que põe perguntas sóbrias e concretas, que executa sem vanglória ou à procura de ficar no retrato.
Assim fala de um prisioneiro barbaramente tratado, no fundo não passa de um doente, foi preciso um diagnóstico do médico para acabar com a pancadaria selvagem.
Assim fala de uma velha mulher que terá vindo de um acampamento inimigo, que atravessa Sangonhá sem uma palavra e que caminhou para o lado da fronteira, à procura de um destino que ninguém entendia.
Assim se fala da brutalidade das relações sexuais com uma sinceridade que nos recorda a fio-de-prumo o que vimos, ouvimos ou soubemos que existiu.
É um livro que merece ser lido, independentemente do juízo crítico que faço ao final da obra. Há aqui páginas de ouro, aqui se gravou em pedra rija muita dor incontida num encadeamento de relatos de elevado valor literário.

Luís Rosa


Um abraço,
Mário Santos
Alf Mil At Inf Cmdt do Pel Caç Nat 52
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Notas de M.R.:

Vd. também, sobre esta obra e seu autor, o poste desta série publicado em:

19 de Dezembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5503: Notas de leitura (44): MEMÓRIA DOS DIAS SEM FIM, romance de Luís Rosa - I (Beja Santos)

Vd. último poste da série publicado em:

7 de Abril de 2010 > Guiné 63/74 - P6124: Notas de leitura (90): Relação de Bordo, de Cristóvão de Aguiar (I) (Beja Santos)

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Guiné 63/74 - P5519: Notas de leitura (45): Memória dos Dias sem Fim, romance de Luís Rosa - II (Beja Santos)

1. Mensagem de Mário Beja Santos* (ex-Alf Mil, Comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 21 de Dezembro de 2009: 

 Malta, Mais uma vez um santo Natal para todos. Termino a leitura do romance de Luís Rosa, só é pena o final tão desastrado**. Vou aproveitar os próximos dias para reler os “Anos da guerra”, um importante livro do João de Melo, com algumas grandes páginas da literatura da Guerra Colonial que nós vivemos e que vale a pena recordar e registar. 

 Um abraço do Mário
  


De Sangonhá para Farim, depois na Lisboa da reconciliação 

por  Beja Santos 

 
Memória dos dias sem fim – O amor, o sentir das gentes e a crueza da Guerra Colonial de África” é o romance mais recente de Luís Rosa (Editorial Presença, 2009). Trata-se de uma obra que encerra parágrafos lindíssimos, muito provavelmente alguns deles serão acolhidos por antologias. É a narrativa da experiência de alguém que terá vivido no Sul da Guiné (mais propriamente em Sangonhá) e depois no Cacheu, revelando o seu íntimo, dando a sua versão corajosa do sofrimento, da crueldade e da solidariedade que o marcaram indelevelmente. 

Não deixa de ser exorbitante, porém, apresentá-lo como um romance histórico que rasga novos horizontes, reveladores da própria dimensão humana. Para o melhor ou para o pior, dispomos hoje de uma bibliografia apreciável em torno da literatura da Guerra Colonial onde se mostra o homem nesta paleta de sentimentos, onde se fala das culturas, comportamentos e mentalidades da sociedade guineense, das amizades e do absurdo da guerra. 

É uma literatura estimulante, enriquecedora da vasta lista existente, mas às vezes os editores excedem-se nos tons encomiásticos, entrando nas promessas enganosas. Luís Rosa prestou um bom serviço à literatura portuguesa, conta bem o que por lá passámos e a segunda parte do seu livro é seguramente onde ele arrecada o número superior dos tais parágrafos lindíssimos. Fala-nos das colheitas das populações acossadas pela fome do mato e que procuram refúgio na terra que os viu nascer. O alferes de Sangonhá distribuiu sementes, desbravou-se a terra, semeou-se a mancarra, constituíram-se grupos armados que defenderam os agricultores. 

E assim “A população toda despejou-se no campo, numa algazarra indefinida que se confundia com o ruído da bicharada do mato, fugindo para além do mundo do bicho homem. Ceifeiros de um ciclo interrompido há anos...”. Nunca houvera colheita tão abundante. 

 O alferes vai ao inferno que dá pelo nome de Guileje. Em Sangonhá, ele invejava aquela povoação onde, até então, nunca houvera tiros. Mas uma noite (não se sabe se ainda em 1964) veio a primeira flagelação, estarrecedora. De Buba, o alferes recebe instruções para sair em socorro, a força avança ao amanhecer, dos céus os bombardeiros vão semeando a morte entre os sitiantes. Quando chegou a Guileje, o alferes confirmou que nascera um novo tempo: 

Um sopro de fuligem batia-me no rosto e o cheiro que a guerra tem, um cheiro acre, com mistura de óleo, pólvora, suor, fogo, sangue, metal sobreaquecido e ameaça, que estrafega a alma e seca a garganta até um ponto sem limite, medonho, que nos anula ou enraivece a força última que há em nós. Compreendi que um novo tipo de combate ali tinha acontecido”. 

O alferes vai encontrar os seus camaradas atónitos, alguns já sem munições, como se pedissem uma explicação para esta nova forma de apocalipse. Deixaram lá uma GMC e regressaram. Depois nessa mesma noite Guileje voltou a ser atacada. O segundo ataque varrera o resto das infra-estruturas até a GMC ficara retorcida e carbonizada. 

A partir daí Guileje tornou-se um pesadelo permanente, como nenhum de nós ignora. O alferes procura estar atento ao que se passa à sua volta: a condição da mulher e o valor dos casamentos, o pesadelo das colunas de abastecimento, não só entre Sangonhá e Gadamael, mas em todas as localidades. Ele vai entregar um camião de víveres a Cacoca onde já se anda a comer mangos, bananas-de-mato e caça. E há uma emboscada inesquecível. 

O alferes tenta conversar na fronteira com o oficial da República da Guiné, foi um encontro formal em que chegaram a acordo sobre a insensatez da guerra. Nunca mais se voltaram a encontrar. O alferes não esqueceu a baga-baga, onde os guerrilheiros se acobertavam para fazer fogo demolidor. Por vezes, eram os guerrilheiros que por inexperiência se matavam a colocar uma mina. Ouvia-se um estampido, saia uma patrulha, depara-se um espectáculo macabro: 

Reparei então que a vegetação tenha o verde-escuro do mato salpicado de manchas vermelhas e roxas de mil bocados de carne humana, irreconhecíveis, como pequenos frangalhos de irrealidade. O sangue pingava em gotas rosadas misturadas com a humidade que corria das folhas. Como se as árvores estivessem a sangrar uma vida alheia, vestindo de anti-natureza o absurdo, e o horror de aperto interior”. 

Por vezes, a mina leva as pernas do amigo. São os lamentos do ferido, o enfermeiro a fazer o garrote, pede-se um helicóptero que acabará por levar o morto, passara-se demasiado tempo. Ir buscar água também pode ser uma odisseia, por vezes os guerrilheiros emboscam na fonte, capturam gente, armadilham, felizmente nunca envenenam a água. 

 De Sangonhá o alferes parte para Farim. Parecia que ia ser um paraíso de paz, até que um dia tudo mudou com o matraquear de um tiroteio intenso. Estavam aquartelados numa granja chamada Pessubê. Recebem ordem para ir até Farim. Na viagem, um Unimog foi pelos ares no meio de um estrondo seco. Quatro homens tinham ficado sem vida. Um dos feridos grita: “Meu alferes, nunca mais sou homem!”. É muito difícil conter as lágrimas quando se ouve tanto desespero. 

Há momentos em que a curiosidade é muito forte. Por exemplo, quando se anda a descobrir os marcos da fronteira, no fundo linhas imaginárias inventadas por homens que separam gentes com o mesmo credo, a mesma língua, os mesmos costumes. O alferes consolidou amizades, granjeou estimas, estabeleceu cumplicidades com informadores. Um deles, veio a descobrir-se, que estava leproso, foi para Bor. Quando o alferes o visitou, foi recebido por um frade. Muitos anos mais tarde, o alferes vê na televisão um velho bispo católico que procura levar uma mensagem de paz a quem estava desavindo, em plena guerra civil que afundou mais a Guiné. Reconheceu o frade da leprosaria.

 E o romance, que decorre dentro de margens de plausibilidade, dentro de um registo onde se conjugam os diferentes dramas onde se agitam as vidas dos combatentes, culmina num desastre sofisticado, uma conversa impossível. O alferes resolve almoçar em Lisboa, muitos e muitos anos depois do fim da guerra, com um comandante de guerrilha que actuava no Sul da Guiné. Vão comer bacalhau na rua dos Correeiros. O diálogo travado roça o ridículo, põe-se um guineense a falar e a pensar à moda europeia, é patético o que dizem um ao outro, não só por inconsistência mas sobretudo por inverosimilhança à flor da escrita. 

Felizmente que conversam sobre reconciliação e as promessas para um futuro desses portugueses que precisaram de deixar África para estarem em condições de lá voltar. Do mal o menos, a literatura afundou-se mas os homens ergueram-se.

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 Notas de CV:


sábado, 19 de dezembro de 2009

Guiné 63/74 - P5503: Notas de leitura (44): Memória dos Dias Sem Fim, romance de Luís Rosa - I (Beja Santos)

1. Mensagem de Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, Comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 18 de Dezembro de 2009: 

 Malta, Temos finalmente escritores com obra firmada centrados na nossa guerra. Luís Rosa tem vastos créditos, acaba de prestar uma grande homenagem revisitando com boa prosa os tempos que todos nós ali vivemos. Envio o resto da recensão no princípio da semana. 

 Um abraço, Mário 


  Em Sangonhá, entre Gadamael e Cacine 

por  Beja Santos


  "MEMÓRIA DOS DIAS SEM FIM" é o romance mais recente de Luís Rosa (autor de "O Claustro do Silêncio", "O Terramoto de Lisboa e a Invenção do Mundo", "O Amor Infinito de Pedro e Inês", "Bocage – A Vida Apaixonada de Um Genial Libertino" e "O Dia de Aljubarrota"), são as suas recordações da Guiné, onde terá combatido entre 1964 e 1966. 

Terá combatido, na justa medida em que a estrutura da obra não leva o autor a apresentar-se autobiograficamente, há distâncias que são propositadamente confundidas entre o relator e o experimentador das memórias. É um livro com uma enorme carga poética e em que se procura responder ao acervo de inquietações de quem combateu e aprendeu a crescer, guardando saudades e regressa ao teatro dos acontecimentos sem rancores nem pedidos de explicação. 

São sucessivos episódios, balizados pela cronologia de quem parte para a sua viagem no cais do Pidjiquiti e regressa à Guiné reencontrando-se em Lisboa com um comandante de uma unidade de guerrilha do Sul da Guiné. É desse cais do Pidjiquiti que ele partirá para Sangonhá, o seu destino era a fronteira sul, além-Cacine, que ele assim define: “Um corredor estreito de cerca de três quilómetros, esganado entre o rio Cacine e a linha imaginária da fronteira. Terra de imprevistos, onde a guerrilha se movia à vontade, e se construía uma linha de quartéis, tentando conter a infiltração”. 

Durante a viagem, dá-se uma versão da revolta que ocorreu em 3 de Agosto de 1959, o que historicamente está provado que não foi assim, já havia movimentos independentistas em gestação, o massacre de 3 de Agosto foi mais um detonador de consciências de que o fermento da luta armada. 

O narrador fascina-se com o relato do comandante Nalu sobre os acontecimentos do Pidjiquiti e rende-se às belezas das florestas, ao rendilhado das águas, ao imputo do tornado e, enfim, a sua embarcação chega a Cacine. 

Sabemos agora que o narrador é alferes, coube-lhe a missão de construir um quartel em Sangonhá, entre Gadamael e Cacine. A partir de agora, os acontecimentos precipitam-se. Entra em cena o Costa, o mais importante comerciante de Cacine, dono do “Paraíso”, o bordel local. 

Mais tarde, por detrás das defesas sólidas do quartel de Sangonhá, onde se misturavam “soldados, população, galinhas, cabras, crianças correndo inconscientes, armas montadas, camiões e tudo mais da ordenada desordem da guerra”, o alferes vai ver um clarão enorme sobre a floresta para os lados de Cacine, ficará a saber que o “Paraíso” estava a arder, bidões de petróleo e aguarrás, panos e óleos ajudaram ao extermínio rápido. 

Luís Rosa vai desfiando tudo aquilo que nós vivemos: os casamentos entre nativos, a exploração colonial; o corpo jazente de um guerrilheiro com a massa encefálica ao lado; as populações obrigadas ao jogo duplo; as morteiradas vindas da República da Guiné; os abastecimentos e a coexistência entre os barcos de guerra e as embarcações de pesca. Mas também a chegada de grandes contingentes, a apresentação dos outros participantes daquele mesmo palco, os de Ganturé, Buba, os fulas de Gabu, veteranos de cavalaria de Aldeia Formosa, uma vasta força que se movia para criar uma linha de quartéis até Cacine. 

O nosso alferes fica em Sangonhá onde, num frenesim se construíram as defesas, espessas paredes de chapas abertas de bidão, profundas fossas circulares, abrigos. São dias e noites em que os blindados Fox andarão de um lado para o outro, seguir-se-ão flagelações, emboscadas, haverá mortos. Um ferido agonizante será despachado com um tiro de misericórdia. 

O alferes de Sangonhá vai ganhando familiaridade com a morte. Ele vai descobrindo que a guerra é loucura, que entre esta e a normalidade há uma fronteira imprecisa, que há prisioneiros indomáveis e outros resignados, há gente que parte para o mato com a resolução de enveredar pela guerrilha, há gente que regressa e tem que jogar o jogo do bom. O alferes assiste aos impulsos sexuais de quem o cerca, descobre que a intolerância não resolve nada, vê Muçulmanos a beber álcool às escondidas, aprende os temores do Irã, força todo-poderosa venerada pelos animistas. 

O alferes assiste ou tem notícia da brutalidade que vai escorrendo por aqueles que descobrem que são carrascos, verdugos a quem nunca se pedirá contas, como o caso daquele alferes que vai punir um denunciante que levou informações para a guerrilha e que depois confessou tudo: o homem depois vai cavando a pequena vala que haverá depois de ser a sua sepultura, o carrasco manda deitar o condenado na cova, soa depois um tiro, o carrasco corta uma orelha à vítima. 

Por vezes, o alferes sai de Sangonhá, descreve as belezas envolventes, mas também as vicissitudes e os trabalhos quotidianos: 

Gadamael servia de ancoradouro e descarga das lanchas de desembarque e batelões vindos de Bissau com o abastecimento. Uma vez por mês surgiam no horizonte do rio. Os homens das lanchas tinham pavor do mato e ficavam sempre temerosos de que uma emboscada surgisse no imprevisto da floresta... Para além do som arrastado do rádio, apenas o avião de ligação, à quarta-feira, sobrevoava o quartel. Olhávamo-lo como ave que vinha da terra de gente onde não havia tiros. Desenhava um círculo e atirava o saco de correio cheio de aerogramas. Depois fazia um abanar de asas e afastava-se, como ave-do-paraíso regressando ao seu mundo sonhado”. 

 No isolamento, contam-se os dias, rasga-se uma pista de aviação a pensar em melhorar o abastecimento e para evacuar os feridos. O alferes interroga-se sobre a ideia de Deus, sobre a presença do padre, o papel das crenças e as manifestações da religiosidade. Por vezes, o alferes é açoitado pelo destino e marcado pelas perdas irreversíveis. É o caso da morte do Braga, homem de sete ofícios. O Braga fez ao alferes uma bela cadeira em pau-rosa, modelo único: 

Sem um prego ou parafuso, apenas o conjunto suportado por espigas, harmoniosamente concebidas, num equilíbrio e estabilidade perfeitos, desencaixando-se num ápice e ficando reduzida a um molho de pequenas travessas, enroladas num pano, que um alfaiate nativo tinha feito, para servir de assento e embrulho”. 

Depois o Braga parte para uma retaliação com uma força comandada pelo capitão Garcia Leandro. 

Antes, recorda o alferes, houvera um pungente episódio de um morticínio de um bando de macacos-cães, atingido em cheio por uma granada de morteiro:

 “Os corpos aos bocados, às dezenas, espalharam-se em volta. Os outros, os que escaparam e os semivivos, lançavam gritos lancinantes, enchendo o espaço, ecoando na floresta, como se fossem gente”. 

Pois bem, os homens de Sangonhá vão até Marela, um santuário do PAIGC, em manobra punitiva. Os guerrilheiros são apanhados de surpresa, Marela torna-se, na confusão e protecção de um dia que amanhece, um campo juncado de cadáveres. A força comandada por Garcia Leandro retira com o Braga, morto em dia aziago. Ao alferes fica a cadeira do Braga: “A obra está sempre completa no ponto em que a deixamos”. 

 Há ainda muito mais coisas a dizer do alferes e o livro é merecedor da nossa atenção (“Memória dos dias sem fim”, por Luís Rosa, Editorial Presença, 2009). É pena os excessos de quem apresenta o livro dizendo que “Rasga novos horizontes, simultaneamente mais vastos e profundos, reveladores da própria dimensão humana. É a realidade da guerra em toda a sua desconformidade e falta de sentido, capaz de denunciar as muitas faces ocultas do homem, desnudando-o e mostrando-o como realmente é – sofredor, idealista, solidário, cruel”. 

Quem isto escreve nunca deve ter folheado o que já se escreveu sobre a guerra colonial, lança-se impunemente num dislate quem nem serve para vender mais livros. Seja como for, Luís Rosa é um muito digno camarada da Guiné, mesmo que, por hipótese, esteja a escrever pelo seu punho o relato de outro.

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 Nota de CV: