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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27764: Notas de leitura (1899): "Amílcar Cabral O Africano que Abalou o Império", por José Alvarez, Âncora Editora, 2025 (3) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 5 de Setembro de 2025:

Queridos amigos,
O romance de José Alvarez destaca as atividades de Cabral entre a sua reunião em Bissau (nesta altura ele tem intensa atividade profissional em Angola) em setembro de 1959, reunião determinante para pôr o movimento político de que ele é o cérebro em marcha, já se fala numa direção no exílio (Conacri) e no trabalho clandestino no interior da Guiné liderado pelo Presidente Rafael Barbosa. Cabral revela-se um ideólogo de referência em reuniões africanas, sensibilizando os novos Estados para a luta pela independência das colónias portuguesas. A ida a Londres será muitíssimo importante, quer pelo documento que Cabral elabora e que irá situar na imprensa e nas redes diplomáticas quer pela amizade que fará com Basil Davidson. Será em Tunes que se ouvirá pela primeira vez falar no PAI, à escala internacional. No romance, o autor procura recriar situações de grande tensão no casal, Maria Helena tinha extrema dificuldade no escasso ambiente familiar decorrente das atividades de Cabral. Este conseguirá êxitos diplomáticos com a China e com a URSS. a China assegura um plano de apoio militar, com a formação de elementos do PAIGC em Nanquim, e oferecendo armas. A URSS irá recebê-lo em 1961 e começará por oferecer bolsas de estudo, mais adiante formação e armamento.

Um abraço do
Mário



O primeiro romance histórico sobre a vida e obra de Amílcar Cabral – 3

Mário Beja Santos

Estamos chegados à controversa reunião em Bissau de 18 de setembro de 1956, há quem tenha assegurado que Amílcar Cabral não estava nesse dia em Bissau. Reza a história oficial do PAIGC que ocorreu aqui a data fundacional do partido, estariam presentes Luís e Amílcar Cabral, Aristides Pereira, Fernando Fortes, Elisée Turpin e Júlio de Almeida. Amílcar teria dito que a hora era propícia para a formação de um novo partido, o PAI, teria havido acordo da pequena plateia, e Cabral teria dado o seu pseudónimo, Abel Djassi. Como estava apressado para seguir para Angola. A verdade é que só se falará do PAI em 1960, e é dado como seguro que Amílcar estará em Bissau pouco depois dos acontecimentos do Pidjiguiti, de 3 de agosto de 1959, reunião determinante para estabelecer o arranque da vida partidária.

Amílcar Cabral recebe na sua casa em Lisboa, na Avenida Infante Santo, n.º 8, o nacionalista angolano Viriato da Cruz, 1957. Viera da China, cometera a asneira de vir para Lisboa, a PIDE estava a persegui-lo, conseguira desorientá-los, vinha pedir ajuda, Amílcar pôs-se em contacto com Lúcio Lara, há conversas sobre o Partido Comunista Angolano. Amílcar estará ativo em Lisboa, já tem relatório na PIDE, na sua ficha assinala-se fazer parte de uma rede de articulações políticas e ligações com movimentos clandestinos. Luís Cabral e a mulher visitam Amílcar e a mulher em Lisboa, dão notícias do que se está a passar na Guiné, Amílcar explica o que vai fazer em Angola, fala-se igualmente das eleições presidenciais de 1958. Amílcar volta a África, pago pelo Estado português, mas comparece de 8 a 13 de dezembro em Accra como observador, à 1.ª Conferência dos Povos Africanos, a vaga anticolonialista continuava a alastrar em África, dera-se a independência da Guiné-Conacri, o exército português começa a reorganizar-se, não há ilusões quanto a futuros conflitos entre os nacionalistas e o Estado Novo.

Amílcar Cabral irá conhecer um crioulo natural da Martinica, Frantz Fanon, em abril de 1959, este líder revolucionário, à margem do II Congresso dos Escritores e Artistas Negros, propôs, em nome do Governo Provisório Revolucionário da Argélia a formação de onze jovens angolanos. As relações de Cabral com Fanon não foram das melhores, diferem claramente nas suas estratégias, Fanon andará próximo de Guevara quanto à teoria do Foco, para Cabral inaceitável, pretende a presença de guerrilheiros e tornar a vida impossível aos colonos, garantindo uma continuada guerra de guerrilhas que leve à independência nacional.

Nesse ano de 1959, Cabral ainda trabalhava em Angola, na Companhia Angolana de Agricultura, em setembro chega a Bissau, encontra-se sigilosamente com Fernando Fortes, Aristides Pereira e Rafael Barbosa. É delineada a linha estratégica, a direção irá instalar-se em Conacri, a mobilização no interior da Guiné passará pela mobilização e organização dos camponeses. Amílcar conversará longamente com o irmão sobre os acontecimentos de Pidjiguiti em 3 de agosto, Luís partirá também para a clandestinidade ficará instalado em Ziguinchor. Amílcar moldou do seu espírito que deverá haver a união de Cabo Verde com a Guiné. Regressa a Lisboa via Dakar.

Aqui escreverá a Lúcio Lara:
“Estive na minha terra durante uns dias. Apesar de todas as opressões, de todas as manhas, a luta continua, cada vez mais conscientemente, cada dia mais reforçada. De tal maneira que eu próprio fico admirado de tanta vontade espontânea, de tanto desejo consciente fazer alguma coisa de concreto e consequente em relação à terra. Dado que surgiram outros movimentos (organizações clandestinas) é objetivo fundamental do programa traçado, conseguir uma união sólida, a formação de uma só frente para lutar. A chacina feita pela polícia e civis portugueses teve este balanço: 24 mortos e 35 feridos, alguns deles muito graves. Chegaram a matar alguns africanos dentro de água, quando tentavam fugir à polícia e alcançar os barcos que estavam ancorados perto do cais de Pidjiguiti.”

No final do ano regista-se uma grande atividade da PIDE, há muitas prisões em Luanda. Procurando a maior descrição, em viagens ao serviço do Governo português, Cabral procura reunir-se com elementos do Movimento Anticolonialista. Quando regressa a Angola sabe da prisão dos guerrilheiros selecionados. Saiu precipitadamente de Luanda escolhendo um itinerário a partir do Gana e outros países antes de chegar a Bissau. As atividades de Amílcar em Lisboa são acompanhadas pela PIDE, avisado por um professor do Instituto Superior de Agronomia sobre a vinda de elementos da PIDE ali para obterem informações dele, parte apressadamente para Paris, Maria Helena irá ter com ele, terá havido uma grande discussão no casal. Ela regressará a Lisboa e ele parte para a conferência em Tunes e depois para Londres. Em Tunes, Amílcar estará muito ativo na Conferência dos Povos Africanos, houve a exigência de que os delegados deveriam obrigatoriamente representar movimentos políticos com formação nacional própria. Pela primeira vez, a nível internacional, surge o nome do PAI e o Movimento Anticolonial passa a designar-se por FRAIN – Frente Revolucionária Africana para a Independência Nacional das Colonias Portuguesas. Cabral pede a Hugo Azancot de Menezes que lhe dê auxílio na sua ida a Londres e se o ajudava nas diligências para ter autorização para a instalação de membros do Movimento Anticolonial na Guiné-Conacri.

Em Londres, Cabral encontra-se com o jornalista e escritor Basil Davidson, que se transformará numa grande amizade. Vai aparecer o primeiro documento saído do punho de Cabral que sensibilizará a opinião pública internacional: The Facts about Portugal African Colonies, assinado com o nome de Abel Djassi. Hugo Menezes escreve a Cabral dizendo-lhe que está autorizado a residir em Conacri com a família, irá trabalhar como técnico do Governo. Instalado em Conacri, Cabral encontra-se com diplomatas, o primeiro secretário da embaixada da China mostra-se particularmente recetivo, de contacto em contacto uma delegação de movimentos nacionalistas constituída por Viriato da Cruz, Eduardo M. dos Santos e Cabral recebem o convite para uma visita de estudo e amizade à China.

Em meados de 1960, a PIDE emite uma nota sobre Amílcar Cabral e as suas atividades, nota que inclui falsidades como lhe atribuir responsabilidade na revolta dos estivadores do porto de Bissau, em agosto de 1959. Luís Cabral foge para Conacri. Maria Helena e a filha abandonam Lisboa, vão primeiro a Paris e depois Conacri. Um grupo de jovens, parte para a China, entre eles Nino Vieira e Osvaldo Vieira.

A atividade de outros movimentos anticolonialistas guineenses preocupa Cabral são-lhe hostis, destacam o que eles consideram ser a exploração secular dos guineenses pelos cabo-verdianos. No final do ano de 1960, Cabral recebe o convite para visitar a URSS em março do ano seguinte, a primeira oferta dos soviéticos são bolsas de estudo nas instituições de ensino técnico e superior da URSS. Estimulado por estas ajudas, Cabral prepara uma escola de formação em Conacri e vai confrontar-se com outros movimentos independentistas guineenses.

Amílcar Cabral e Maria Helena, sua mulher, na Guiné, mota com sidecar
Coisa curiosa, a PIDE da Guiné em 1958, não apurou nada em desabono de Cabral, moral e politicamente, o que faz cair por terra, as demissões e expulsões, os impedimentos de visitar a família, etc., têm aparecido na hagiografia mitológica e martirológica de Cabral.
Cabral na China em 1960, delegações do MPLA e do PAIGC

(continua)
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Nota do editor

Post anterior de 16 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27738: Notas de leitura (1896): "Amílcar Cabral O Africano que Abalou o Império", por José Alvarez, Âncora Editora, 2025 (2) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 20 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27754: Notas de leitura (1898): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (3) (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27738: Notas de leitura (1896): "Amílcar Cabral O Africano que Abalou o Império", por José Alvarez, Âncora Editora, 2025 (2) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 1 de Setembro de 2025:

Queridos amigos,
Aqui se relata como Amílcar Cabral, terminado o seu curso de Agronomia, requereu trabalho para a Guiné e foi colocado na granja de Pessubé, trabalho que inicia em setembro de 1952, ganhará rapidamente alguma notoriedade com o seu Boletim Informativo, segue-se o recenseamento agrícola, há muito pedido pela FAO, no romance de José Alvarez dá-se como seguro que Cabral foi demitido pelo Governador Mello e Alvim, não há documentos concludentes e correspondência de Cabral para os amigos nada indicia, Cabral e a mulher estavam fortemente afetados pela malária, isto de acordo com o parecer da Junta Médica. De regresso a Lisboa, empregos não faltam ao engenheiro podólogo. Veremos a seguir como se vai abrir um período internacional de reuniões dos nacionalistas africanos, em Tunes, em 1960, é anunciado pela primeira vez a existência do PAI, mais tarde transformado em PAIGC. E veremos também como a polícia política no Estado Novo vai colhendo informações sobre o ativismo de Cabral. Assim ele irá preparar a saída de Portugal, de Paris seguirá para Conacri. Houvera entretanto em 1959 uma reunião em Bissau, o movimento nacionalista estabelecera os trâmites para a sua organização, Rafael Barbosa ia encaminhando os jovens para Conacri, aqui Cabral iria criar uma escola para lhes dar os rudimentos da formação ideológica, de Conacri partiriam para Nanquim, China, regressariam já com o espírito de guerrilheiros.

Um abraço do
Mário



O primeiro romance histórico sobre a vida e obra de Amílcar Cabral – 2

Mário Beja Santos

No prefácio deste romance histórico, o General Pedro de Pezarat Correia apresenta a obra de José Alvarez [na foto à direita] do seguinte modo:
“É um ensaio biográfico porque o tema é a vida de Amílcar Cabral, sustentada por uma exaustiva investigação de fontes primárias e resultando na caracterização de uma personalidade que, creio, é retratada com justíssima fidelidade. É um romance porque nessa vida sobressai a acidentada e apaixonada vida amorosa de Cabral, traduzida em dois casamentos dominados pelo empenhamento ideológico e político do próprio e das suas companheiras e, por isso, terminados em tragédias. E é ficção histórica porque tratando-se da descrição de um percurso político, de uma época e das suas circunstâncias, da formação e liderança do PAIGC, do envolvimento frentista com os movimentos de libertação das outras colónias portuguesas numa luta comum contra a ditadura colonial, onde se cruzam personagens reais e em situações reais, toda ela é enriquecida com a óbvia imaginação criativa do autor na descrição e reprodução de cenários, da tensão nas reuniões, dos diálogos ideologicamente discordantes, do ambiente na clandestinidade, do risco iminente nas zonas de guerra, da precariedade nos países de acolhimento no estrangeiro, das cumplicidades e traições que ali se cruzam.”


Em síntese, um romance histórico. Vimos alguns elementos preponderantes da vida de Amílcar entre 1924 e 1951, o agrónomo distinto continua a reunir-se com nacionalistas de outras colónias na Rua Actor Vale, n.º 37, reuniões de grande entusiasmo e contestação aos processos colonialistas em curso. Morreu Juvenal Cabral, envia um telegrama ao seu irmão Luís: “Ciente dolorosa fatalidade unidos lutaremos”. Maria Helena é o seu arimo, casam em 20 de dezembro de 1951, após a cerimónia civil, na companhia de amigos como Mário de Andrade e Alda Espírito Santo foram almoçar bacalhau no Café Colonial, na Avenida Almirante Reis.

Refere o autor:
“Amílcar decidiu realizar o estágio para acabar o curso, pelo que ficou em Lisboa a desenvolver o seu projeto no Instituto Superior de Agronomia e na Estação Agronómica Nacional do Alentejo. Passou bastante tempo em Cuba e na Vidigueira em trabalhos de campo, sob a orientação do professor Botelho da Costa (…) Em 1952, terminou o projeto com a classificação de 18 valores. Foi um ano importante para Amílcar, em que se formou e a sua mulher apareceu grávida. Optou pela Guiné. Amílcar sentia que tinha uma missão cumprida. O contacto com outros estudantes das colónias na Casa dos Estudantes do Império fê-lo acreditar que podia ser útil na luta pela emancipação do homem negro e da terra africana. Teve a honestidade, de ao longo do namoro com Maria Helena, lhe mostrar que essa era a sua missão, apesar dela o ter contrariado e rompido a relação, por mais de uma vez.”


Em setembro de 1952, Cabral tem emprego na Guiné, passa por Cabo Verde para visitar a família, foi contratado pela Repartição Provincial dos Serviços Agrícolas e Florestais da Guiné Portuguesa, como Adjunto do Chefe da Repartição Provincial. Instala-se na granja do Pessubé, Mária Helena ainda ficou em Lisboa a acabar a tese, chegou dois meses depois. Informa a mulher que vão viver no meio de quatrocentos hectares de campo, Amílcar pensa em tudo para o conforto da mulher. Criou um Boletim Informativo para divulgar as atividades da granja, tudo redigido para compreensão de destinatários rurais. Irá planificar o Recenseamento Agrícola da Guiné Portuguesa, que se efetivará em 1953, irá percorrer grande parte da colónia, muitas vezes acompanhado da mulher. Continua a jogar futebol, no romance Amílcar irá encontrar Nino Vieira e Aristides Pereira, conversa para estabelecer relação. Fala-se na chegada de novo governador, um homem da Armada, Diogo Mello e Alvim.

É durante um repasto que Cabral comenta que Salazar queria implementar a produção da mancarra, fazer dela o principal produto exportador. Mas os solos já apresentavam alguma erosão, a degradação ir-se-ia acentuar. Fala-se da política na terra, nas condições sub-humanas em que têm sido feitas as estradas, e Amílcar conversando com Aristides Pereira sugere que se forme uma agremiação desportiva, a ideia parece ter pernas para andar, há um grave óbice, a agremiação seria só para negros. Clara Schwarz ensina francês a Amílcar, este seria delegado do Governo português à Conferência Arachide-Mils em Bambey, no centro oeste do Senegal.

Chega o irmão de Amílcar a Bissau, Luís, irá trabalhar na Casa Gouveia. Nasce a filha mais velha do casal, Iva Maria, a avó, Iva Pinhel Évora, ajuda Maria Helena. Começam as operações de recenseamento, tarefa enorme. Em Bissau, o casal que se passara a relacionar com uma farmacêutica que estivera presa em Caxias e obrigada a vir para a Guiné, Sofia Pombo, é convidada para uma reunião em sua casa, comparecem, entre outros, Aristides Pereira, Fernando Fortes, Luís Cabral, Júlio Almeida, debatem-se os ares de independência que sopram em África. No final desse ano de 1953, Cabral e a sua equipa começaram o recenseamento no sul da Guiné.

No início de 1954 chega Mello e Alvim, estão elaborados os estatutos da associação, há discussão na medida em que Cabral inicialmente não devia assinar. Maria Helena começa a ter crises de malária. Dá-se o encontro entre o novo governador e Amílcar, conversa bastante cordial, Cabral faz a crítica à cultura da mancarra, o governador promete visitar a granja de Pessubé. Dentro do romance surge a notícia que Mello e Alvim iria demitir Cabral das suas funções na Estação Agrária e que a sua autorização de residência na Guiné ser-lhe-ia retirada, nova conversa entre o governador e Cabral, dera-se a rutura, Cabral pede para partir para Lisboa o quanto antes, alega que vai aceitar o lugar de assistente do professor Baeta Neves, na cadeira de Entomologia Agrária. De acordo com a historiografia e com a correspondência de Amílcar Cabral na época para vários amigos, não há qualquer menção à demissão por razões políticas, no casal vão ocorrendo sucessivas crises de paludismo.

O casal e a filha regressam a Lisboa, estamos em 18 de dezembro de 1955, Cabral começa a procurar emprego, o professor Botelho da Costa pede-lhe um estudo sobre o cultivo da cana-de-açúcar na Guiné, foi igualmente integrado em vários trabalhos conotados com o estudo de solos. Fala-se no regresso à Guiné, Maria Helena está profundamente reticente. Cabral recebe nova proposta de trabalho, propõem-lhe que seja diretor da Brigada de Estudos Agrológicos da Companhia de Açúcar de Angola. Chegam notícias da Guiné de que há prisões de nacionalistas.

Estamos chegados a setembro de 1956 e à realização da discutível reunião da fundação do PAI. José Ferreira de Lacerda estaria na origem da fundação de um novo partido, o Movimento de Libertação da Guiné, constituía-se em Bissau um grupo de oposição, Cabral via toda esta movimentação com pouco agrado, dizendo que “eram burgueses que se moviam pelos interesses de classe, interessados na ascensão dentro da sociedade colonial e não pelos negros da Guiné, povo anónimo multiétnico. Apoiavam-se em homens fortes como armador de pesca Eugénio Peralta e comerciantes endinheirados como Manuel Spencer e Fernando Lima”; e o autor escreve que Amílcar Cabral aproveitou a sua estadia em Angola para voar até Bissau em 18 de setembro de 1956 (este evento é fortemente contestado pelo historiador guineense Julião Soares Sousa).
Café Colonial, Avenida Almirante Reis n.º 24, aqui se festejou o almoço do casamento de Maria Helena e Amílcar Cabral, a pedido de vários nacionalistas africanos comeu-se uma bacalhauzada, 1951
Maria Helena, Amílcar Cabral e a segunda filha do casal, Ana Luísa

(continua)
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Notas do editor

Vd. post de 9 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27718: Notas de leitura (1894): "Amílcar Cabral O Africano que Abalou o Império", por José Alvarez, Âncora Editora, 2025 (1) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 13 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27732: Notas de leitura (1895): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (2) (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27718: Notas de leitura (1894): "Amílcar Cabral O Africano que Abalou o Império", por José Alvarez, Âncora Editora, 2025 (1) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 28 de Agosto de 2025:

Queridos amigos,
É uma novidade, um romance histórico dedicado à vida e obra de Amílcar Cabral. Romance é romance, mesmo quando o autor apresenta bibliografia condigna assiste-lhe todo o direito de forjar diálogos, recriar ambientes. Tratando-se de um romance de 600 páginas, achei por bem compartimentar por períodos o trabalho de José Alvarez, arrancamos no período que antecede a sua vinda para Lisboa (1924, data de nascimento a 1944, conclusão dos estudos liceais a 1951, ano em que Cabral irá realizar o estágio para acabar o curso, passando bastante tempo em Cuba e na Vidigueira). No próximo texto, Cabral está formado, com alta classificação, optou por ir trabalhar na Guiné, a relação entre ele e a mulher é muito próxima, mas haverá muitas tensões por ele ter escolhido esta missão, que o levará à Granja de Pessubé e depois ao recenseamento agrícola na colónia, era uma exigência da FAO, há muito adiada, ele, e na companhia da mulher, cumprirão cabalmente esta missão.

Um abraço do
Mário



O primeiro romance histórico sobre a vida e obra de Amílcar Cabral – 1

Mário Beja Santos

José Alvarez volta à Guiné, estreara-se na literatura com o romance Dois Amigos, Dois Destinos, isto em 2014. Publica agora algo a que se pode intitular romance histórico Amílcar Cabral O Africano que Abalou o Império, Âncora Editora, 2025.

Em nota prévia, justifica-se ao que vem:
“Por certo haverá leitores que se interroguem os motivos que me levaram a escrever este livro sobre Amílcar Cabral, decorridos mais de cinquenta anos sobre o seu brutal assassinato. Em boa verdade devo-lhes esta explicação. Eu pertenço à geração nascida nos anos 40, que viveu a Guerra Colonial até à queda do regime, a 25 de abril de 1974. O serviço militar era obrigatório e foi em fase de conclusão do meu curso universitário que decidi ingressar na Reserva Naval da Armada, por se tratar de uma alternativa menos penosa e com menos riscos que a do Exército. Concluída a fase de instrução, fui mobilizado para a Guiné, onde cheguei a 30 de julho de 1971, para só regressar à Metrópole no final da comissão, a 6 de outubro de 1973. Comecei por comandar um navio patrulha (LFP), lancha de pequena fiscalização, dotada de uma guarnição de oito militares, que tinha por missão a vigilância das águas territoriais marítimas e dos rios da Guiné, mormente o Cacheu, o Geba, o Rio Grande de Buba, o Tombali, o Cumbijã e o Cacine, para além de coordenar operações logísticas, comboiando batelões de mercadorias para abastecimento das povoações do interior como Bolama, Farim, Buba, Jabadá e Cacine. Participava ainda no transporte de tropas de intervenção, fuzileiros, para-quedistas ou comandos, em operações especiais. Em outubro de 1972, fui transferido para o Comando da Defesa Marítima, passei a ter acesso a documentos secretos e informações da PIDE, apercebendo-me de que Amílcar Cabral era um líder de grande dimensão, não só pela atividade política que desenvolvia no plano internacional, como também pela forma como conduzia as operações armadas do terreno.

Com a queda do Estado Novo, o país conheceu outros rumos, mas a Guerra Colonial deixou marcas profundas nos nossos combatentes. Aqueles anos de África ficaram gravados de forma especial na minha memória. Olhando para a guerra à distância e com os meus conhecimentos sobre Cabral, entretanto ampliados por muito que se foi escrevendo sobre aquela personagem e pela leitura detalhada da documentação do arquivo de Amílcar Cabral da Casa Comum, da Fundação Mário Soares e Maria Barroso, pude compreender melhor as ações do líder guineense, tendo em conta a sua infância, marcada pela influência dos seus progenitores e pelo seu percurso como estudante de Agronomia em Lisboa. Optei por escrever um romance histórico ficcionado sobre Amílcar Cabral baseado na sua bibliografia, dando vida ao Homem, à sua família e aos seus amigos. Preocupei-me em referir as circunstâncias diversas que Cabral viveu no Mindelo, em Lisboa, em Bissau, Conacri e Rabat. Dei ênfase aos acontecimentos contemporâneos, como a II Guerra Mundial, a independência da Guiné-Conacri, a Tricontinental de Havana, a operação Mar Verde, bem como a influência dos seus professores do liceu Gil Eanes e dos pensadores marxistas como Aimé Césaire e Franz Fanon e também do escritor e jornalista Basil Davidson.

Embora as personagens desta obra sejam reais, os seus diálogos são ficcionados com base em documentação consultada em vários arquivos.”


O autor começa por referir a filiação do líder do PAIGC, a transferência dos pais para Cabo Verde, em momentos diversos, a separação de Juvenal Cabral e de Iva Pinhel Évora, a frequência de Amílcar na Escola Central da Praia, a transferência de Iva e de Amílcar para São Vicente, os trabalhos duríssimos de Iva para sustentar a família que Amílcar deixará uma afetuosa evocação no seu livro de curso de Agronomia. No Mindelo, Amílcar observa a presença do Corpo Expedicionário que veio reforçar as defesas no decurso da II Guerra Mundial. Visita o pai na ilha de Santiago, na casa deste em Achada de Falcão, inevitavelmente falar-se-á de política, Juvenal era admirador da obra de Salazar, Amílcar brinca com os irmãos do terceiro casamento do pai. É neste período que vai emergindo a consciencialização nacionalista de Amílcar. Em 1945, ele ganha por concurso uma bolsa de estudos e chega a Lisboa, irá frequentar o Instituto Superior de Agronomia. Apresenta-se à chegada na Casa dos Estudantes do Império, prédio de esquina no Arco do Cego com a Rua D. Estefânia, vai fazer amizades, muda-se para Alcântara, logo procurou dar explicações de matemática, entra na Tapada da Ajuda, cedo revela as suas aplicações no meio universitário, conhece Maria Helena Vilhena Rodrigues, haverá amor transbordante, recíproco, a correspondência de Amílcar para Maria Helena será publicada em 2016, lendo aquela epistolografia manual não deixa de surpreender não haver para ali uma rasura, um desalinhamento, uma extrema sintonia entre a mente e a mão.

José Alvarez vai ficcionando relatos, desvela mentalidades das colegas de Amílcar, este vai-se apercebendo das tensões sociais, o leitor é induzido no relacionamento de Maria Helena com as amigas, cresceu, entretanto, a ligação amorosa, muito mal vista pela diretora do colégio de Maria Helena, Amílcar continua a frequentar a Casa dos Estudantes do Império, a polícia política começa a estar atenta às manifestações dos estudantes nacionalistas africanos. Nas relações de Amílcar surgem Marcelino dos Santos e Mário Pinto Andrade, já se fala na negritude, põe-se em causa o direito de Portugal possuir colónias, critica-se o luso-tropicalismo, considerada uma teoria que dava força à continuação do império português, desfigurando a realidade vivida pelos negros, sujeitos à discriminação social e à ideologia colonialista. Entra neste círculo de relações o angolano Agostinho Neto.

Em agosto de 1948, Amílcar arranjou emprego temporário na secção do Contencioso do Instituto Nacional do Trabalho. Reencontra Maria Helena depois das férias, Amílcar propõe-lhe um futuro comum. Amílcar está de regresso a Cabo Verde nas férias de verão de 1949, também visita o pai, recebe um convite para colaborar na Rádio de Cabo Verde, reencontra um amor da juventude, Rosa, a quem dedicará um poema Rosa Negra. Faz programas radiofónicos, é recebido pelo Governador Carlos Alves Roçadas, conversa calorosa.

Estamos em Lisboa no início da década de 1950, Amílcar inicia um estágio na Brigada dos Solos de Santarém, saiu, entretanto, do MUD, manifesta o seu desgosto da oposição não ter preocupações anticoloniais. Maria Helena e Amílcar já falam em casamento, chegam mais estudantes africanos, Lúcio Lara, angolano, Alda Espírito Santo, santomense. Nasceu na rua Actor Vale, n.º 37, em casa de Januário da Graça Espírito Santo, pai de Alda, o Centro de Estudos Africanos, espaço que se iria dedicar ao estudo e reflexão de temas africanos. Aqui se reuniram Agostinho Neto, Mário Pinto Andrade, Amílcar Cabral, Francisco Tenreiro, Marcelino dos Santos e Alda Espírito Santo.

Nesse ano de 1951, Amílcar e Maria Helena, entre outros estudantes de Agronomia, partem com o professor Botelho da Costa para o Alentejo, vão estudar a erosão dos solos.

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 6 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27710: Notas de leitura (1893): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (1) (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27629: Notas de leitura (1884): "As Lágrimas de Aquiles", de José Manuel Saraiva, com prefácio de Manuel Alegre; Oficina do Livro, 2001 (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 3 de Julho de 2025:

Queridos amigos,
O romance do José Manuel Saraiva tem a marcada distinção de entrosar do princípio ao fim a história de uma comissão na Guiné e uma paixão que irá desaguar em amor perdido. Há na narrativa um daqueles elementos barrocos que já tenho visto apreciados noutros autores, extensas tiradas envolvendo memórias, numa linguagem incompatível com a preparação de quem ouve, no caso vertente o alferes regressa ao seu aquartelamento, de que naturalmente só restam vestígios, aparece-lhe alguém de outra geração, o antigo combatente aproveita o encontro para falar de si, antes, durante e depois daquela guerra que, afinal, não lhe disse muito, mas ficaram vincadas aquelas memórias dos mortos e feridos, e então ele faz sobressair o clangor do sofrimento do que fora uma paixão avassaladora, como a vida a férias revelara o afastamento da sua apaixonada, e como, a partir daí, aquela Guiné não passara da sensaboria de uma sobrevivência sem lustre. E ele viera agora, àquele mesmo local, verter as lágrimas que então contera, a sua vida transformara-se em amargura, uma criança daquele seu tempo da guerra, é agora o adulto que ouve todo o responso. Registo a singularidade deste romance.

Um abraço do
Mário



Um regresso à Guiné mesmo sabendo que não há reencontro com amor perdido

Mário Beja Santos

O romance As Lágrimas de Aquiles, de José Manuel Saraiva, com prefácio de Manuel Alegre, conheceu a sua primeira edição em 2001; o autor tem o seu nome ligado ao jornalismo, a documentários para a televisão sobre a Guerra Colonial, caso de Madina do Boé – a Retirada e De Guilege a Gadamael – O Corredor da Morte, foi igualmente guionista de telefilme. Este seu primeiro romance tem a originalidade de integrar na comissão militar uma dolorosa história de amor, numa elaboração de discurso narrativo de alguém que volta décadas depois da guerra ao aquartelamento onde viveu e confirma que há memórias da guerra que nunca se apagam e que naquele local lhe foi confirmado que não há ponto de regresso com o amor perdido, ali a vida se cindiu, e para sempre.

Este personagem da literatura de regressos dá pelo nome de Nuno Sarmento, é um tanto alter ego do escritor que ali combateu, foi agora encontrado em estado crítico e deixou uma documentação ao amigo. E de supetão partimos para a viagem de regresso à Guiné: “Aqui fiz a guerra. Aqui aprendi a encarar a imprevisível brutalidade da morte. Aqui pela primeira vez vi morrer e aos poucos fui morrendo. Mas já nada existe de concreto senão marcas dispersas da unidade a que pertenci, das que a antecederam e lhe sucederam no infernal processo de rendições.” Recorda os seus mortos, a correspondência recebida dos pais, a vida enamorada e a paixão que trouxe de Coimbra. E vão assomando ternas lembranças da mulher amada, de nome Catarina, os primeiros desastres da guerra, o primeiro morto, as primeiras cartas enviadas para essa doce companheira.

Numa sucessão de flashbacks, vamos ver Nuno Sarmento a formar a sua companhia em Santa Margarida, a boa impressão que lhe provocou o comandante da companhia; e depois a partida para a guerra, a viagem de comboio até Alcântara, voltamos à Coimbra dos estudantes, o dia da inspeção militar na sua terra natal, o reencontro com gente da sua infância. Agora Nuno está sentado nesse local onde houve o seu quartel na Guiné, chegou o momento de mudarmos o discurso, vai aparecer um guineense a quem ele contará muitos mais do que a sua guerra. “Neste momento em que recordo o meu passado de guerreiro transitório reparo que do outro extremo do quartel, próximo do local onde se situava o abrigo dos soldados do pelotão de artilharia, agora coberto de vegetação rasteira e muito densa, surge um homem em passo lento.” Era Aliú Cassamá, então criança quando por ali passou Nuno, perguntado se viera saudoso, o antigo alferes responde: “Não foram saudades nenhumas. Ninguém tem saudades da guerra. Mas não gostaria de morrer sem voltar aqui, onde deixei perdidos dois anos da minha juventude. Acho que devemos voltar sempre aos lugares que um dia foram nossos, mesmo nas piores circunstâncias.” Aliú diz que tem uma coisa para mostrar a Nuno e vai buscá-la, regressa com um objeto retangular embrulhado num saco de plástico enegrecido, Aliú diz que é uma coisa do alferes Duarte, falecido durante a guerra.

Vem à tona mais memórias da guerra, não falta o sentimento da dor: “A guerra emudece-nos. Rouba-nos as palavras e as ideias. Deixa-nos despidos de nós. Perdemos o nome e a genealogia, a noção do tempo e dos valores. E porque não há espaço para os sentimentos tornamo-nos cruéis e assassinos, nem que seja pela brevidade de um instante. A guerra é um território absurdo e desumano, sem portas de entrada e de saída, um lugar de ódios levado ao extremo de cada homem.” Vem-lhe à mente a decisão que tomou de mandar matar um guerrilheiro em estado agonizante; lembrou-se da estima que guardara do tal alferes Duarte, sem saber bem porquê ocorreu-lhe o modo como conhecera Catarina e com ela aquela paixão que ele considerava tão sublime; vai-nos dando excertos das suas cartas de amor e o anúncio que lhe faz de que vai partir para férias, antevê tempos de felicidade na sua companhia.

Mas este romance é feito de flashbacks, Nuno acompanhado de Aliú percorrem agora outros vestígios do aquartelamento, até lhe aflora a recordação da prisão onde estivera um guerrilheiro que até merecia as simpatias dos soldados, e que um dia se invadiu, o comandante mandou fazer uma batida, sem resultado.

As férias de Nuno transformam-se num desastre, há qualquer coisa de artificioso nos laços de ternura, Catarina está tensa, ambos dizem que o outro está diferente, acabam por se ofender, Nuno sente-se magoado e decide viajar até Lisboa, na véspera do seu regresso à Guiné, Catarina procura-o em Lisboa, voltam a desconversar, a despedida, sem qualquer equívoco, é de uma tremenda frieza. A correspondência que irão trocar deixa bem claro que a relação não tem futuro, Nuno vive num estado de espírito de grande sofrimento.

E voltamos à guerra, um amigo escreve a Nuno dizendo que Catarina vivia agora um outro amor. E retoma-se a conversa entre Nuno e Aliú, vai desfiando os últimos meses da sua comissão militar, chega um novo alferes que vem substituir um oficial morto, quem chega também traz uma história de amor acidentada. Acidentes militares não faltarão não para contar, inclusive uma emboscada em que um furriel e os soldados, num estado de pânico durante uma emboscada, põem-se a milhas e deixam o alferes sozinho, o que dará um processo disciplinar.

E assim chegamos ao que Aliú traz para mostrar a Nuno:
“Quer mostrar-me um poema que o alferes Duarte deixara escrito num pedaço de cartão colado a uma placa de madeira que mantivera preso à cabeceira da cama durante toda a comissão (…). Retiro com todo o cuidado o objeto do saco de plástico e leio:


Com uma lágrima escrevi Maria
teu nome sobre as águas debruado
foi-se o nome na corrente que fazia
aos poucos partindo-se deitado.

Com uma lágrima escrevi saudade
de ti Maria amor, Maria em Paz
com outra escrevi dor, esta verdade,
nas ruas da cidade onde não estás”


Nuno compra o poema a Aliú, vai agora regressar a Bissau. Tudo isto é matéria da carta de Nuno Sarmento deixada a este seu amigo, Valentim Marques de Sousa. Nuno viera da guerra, parecia pronto a reorganizar a vida: foi explicador de português e de inglês, empregado de mesa, intérprete numa agência de viagens, contabilista, revisor no jornal, pastor no Alentejo, motorista do ministro de quem fora colega nos tempos da faculdade. Acabara na miséria, morrera da falta de amor, agora há que apressar o seu funeral. Está tudo bem claro, há guerras que nunca acabam.
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Nota do editor

Último post da série de 9 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27620: Notas de leitura (1883): Uma publicação guineense de consulta obrigatória: O Boletim da Associação Comercial, Industrial e Agrícola da Guiné (8) (Mário Beja Santos)

terça-feira, 6 de maio de 2025

Guiné 61/74 - P26771: Notas de leitura (1795): "Um preto muito português", da luso-angolana e antiga "rapper" Telma Tvon (Lisboa, Quetzal, 2024)... Parte II (Luís Graça): Uma dedicatória que vale um poema: "Para os meus de sangue e coração. Para os meus de rua e coração".

 


Telma Tvon (aliás, Telma Marlise Escórcio da Silva):
estreia-ase na fição com "Um preto muito português"... Nascida em Luanda em 1980 (em plena guerra civil angolana, que vai de 1975 a 2002), imigra para Lisboa, em 1993 (com a irmã, sendo acolhida pela avó), frequenta o ensino secundário ao mesmo tempo que se integrava, desde os 16 anos, na cultura rap, do soul e do hip hop... Antiga rapper, faz a licenciatura em Estudos Africanos pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, e o mestrado em Serviço Social pelo ISCTE-IUL.(Cortesia da Quetzal Editores)



Capa do livro de Telma  Tvon, "Um Preto Muito Português".  Lisboa: Quetzal, 2024, 184 pp. (Série "Língua Comum") (c. 15 €)

O livro tem uma dedicatória que vale um poema: " Para os meus de sangue e coração. Para os meus de rua e coração"... E uma outra,  manuscrita, no exemplar que estou a ler, oferecido à Biblioteca Municipal da Lourinhã: "Obrigada por me acolher tão amavelmente. Beijos. Telma, Lourinhã, 15/05/24".


Sinopse: 

"Cabo-verdianos que vivem há muito em Portugal e neto de cabo-verdianos que nunca conheceram Portugal. Também é bisneto de holandeses que mal conheceram Portugal e de africanos que muito ouviram falar de Portugal. 

Vive em Lisboa, mas não é considerado alfacinha. Terminou a licenciatura na faculdade e vai trabalhar num call center, com outros negros e brancos, pobres e ricos. Budjurra faz parte de uma minoria que, lentamente, vai sendo cada vez menos minoria. É um preto português, muito português, que, ao longo do livro e das aventuras que relata, levanta questões relativamente a temas como racismo, discriminação, estereótipos, igualdade e humanidade, mas também música, rap, identidade - numa Lisboa morena e colorida que é necessário conhecer

«Posso dizer, sem qualquer orgulho, que sou um homem estranho. Tão estranho como a minha alma. […] E assim como os anos e meses fluem no meu espírito bom e impotente, continuo apenas mais um preto muito português.» 

Com a sua rara humanidade, Budjurra mostra-nos como se vive por dentro da invisibilidade da comunidade africana, como se lida com as narrativas falsas que a envolvem, como se sobrevive aos preconceitos e ao esquecimento". (Fonte: Quetzal Editores)


1. Conheci a Telma Tvon,  na Lourinhã,  no festival literário da Lourinhã,  "Livros a Oeste", há já um ano, em 15/5/2024. E gostei da maneira como ela falou do seu livro de estreia ("Um Preto Muito Português"),  com  simplicidade, graça, humor, espontaneidade, frontalidade,  inteligência emocional, empatia, capacidade de comunicação... 

O livro já tinha sido publicado em 2017 sob a chancela da Chiado Books, numa edição infelizmente descuidada,   sem revisão de texto, com muitos erros e gralhas... O editor da Quetzal, Francisco José Viegas, em boa hora, deu-lhe outra vida e visibilidade, publicando o livro na série "Língua Comum", e com uma capa graficamente atraente.

 A autora, até então desconhecido (ou conhecida no mundo mais restrito dos "rappers"),  acabou por ser solicitada, mais recentemente, a falar do seu livro, a aparecer em festivais literários (como o da Lourinhã, "Livros a Oeste", 2024) e a dar entrevistas na imprensa escrita e digital, ou a ser objeto de tema de cronistas conceituados, como por exemplo Diogo Ramada Curto (Expresso).... Eis alguns links:

Facebook > Antena 1 > 30 de novembro de 2024 > Sou Pessoa Para Isso - Telma Tvon
 

Afinal, ela nasceu e viveu em Angola, até aos 13 anos  e tem a desenvoltura e a desinibição dos/das MC ou "rappers", e sobretudo da malta nada e criada em Luanda.  De resto, a dedicatória que consta do seu livro, diz muito: 

"Para os meus de sangue e coração. Para os meus de rua e coração". 

Mas vamos  continuar a falar deste seu primeiro livro (que nasceu de uma tentativa de criar uma letra para uma canção de rap), e onde ela de resto usa (e abusa...) do "calão" falado por estes jovens portugueses, afro-descendentes: contei até agora umas seis ou mais  dezenas de vocábulos e expressões idiomáticas, que vieram enriquecer o meu léxico (é evidente que um "glossário" no fim do livro dava jeito e era simpático para um "cota" como eu, mesmo que "tuga",  "bué fixe", e não propriamente um "pula de merda").

A Telma Tvon tem talento para a escrita e espero que não se fique por este seu primeiro romance, um  "Um Preto Muito Português",  livro de grande atualidade que aborda temas que estão na berra, hoje (para não dizer sempre..), como identidade, pertença, racismo, xenofobia,  discriminação,  minorias, e que fala  da experiência de ser luso-.africano em Portugal (e na Europa),  a exclusão / inclusão, a equidade, etc.  Temas, enfim, que a extrema-direita quer ver abolidos da agenda não só política e mediática como até científica... Mas dá-nos também da cultura "rap"... de que, afinal, também sabemos pouco.

Fiquemos para já com a última das 49 "entradas" do livro em que o "bom do Budjurra" (um "alter ego" da escritora ?)  depois de dar a volta ao bilhar grande (o mesmo é dizer, ao pequeno Portugal retangular onde nasceu)  interrogando-se sobre a sua origem e identidade, acaba por se convencer (e convencer-nos) que afinal é "apenas mais um preto muito português" (pp. 175/716) (**).

Eu confesso que achei o livro divertidíssimo, doce, de  fina ironia, com algumas "cenas" mais duras, feias, pícaras ou dramáticas:

  • o "arrastão em Carcavelos" (5. Tu agora chamas-te Arrastão, Budjurra, pp. 29-33);
  • o "call center" (9. No call center, licenciado, pp. 42-45);
  • a criança com Sida (17. Ela, ele e eu, o Budjurra, no nosso silêncio, pp. 72/73);
  • a morte do amigo (20. O teu amigo morreu, Budjurra, pp. 81/86);
  • a primeira viagem por Portugal: Serra da Estrela (31. O Budjurra a viajar, quem diria, pp.112/113);
  • os putos e os diferentes destinos (32. Entendendo-me, pp.114-118);
  • as ganzas (39. Budjurra, esse stonado, pp. 137/141);
  • pretos, voltem para a vossa terra (41. Os suspeitos do costume, pp.145/151);
  • a rapariga maquiavélica (47. Não estás a bater, Budjurra, pp. 167/171).

Li de um fòlego e, pondo-me na pele do Budjurra, revi(vi) algumas "cenas" em que também já fui "vítima de racismo ou preconceito", quer na Irlanda, quer nos Países Baixos, por exemplo no Aeroporto de Amesterdão-Schiphol: lembro-me de há 35 anos um gajo com 1,90 de altura, louro, de olhos azuis e gabardine bege,  me mandar apartar e me vasculhar o passaporte e bagagem, só por que não deve ter gostado do meu cabelo comprido, barba cerrada e tez morena... Não era a primeira vez que me confundiam com um palestiniano...E eu vinha já de um país "europeu", embora "periférico" (ainda não era a UE, ainda era a CCE, estamos a falar de 1990 ou 1991)..

Mas o mesmo acontece, infelizmente, noutros aeroportos da hoje União Europeia, de Lisboa a Budapeste... Ou por esse mundo fora, de Luanda a Washington, de Moscovo a Pequim. O racismo não tem cor nem pátria.



PS - O pai do Budjurra é da ilha de Santiago. A mãe é da ilha de Santão. Budjurra, Joáo Moreira Tavares, é o mais velhos dos 3 filhos. O Carlos é "calado mas tem bué de miúdas", a Sandra é uma "fala-barato"...Nasceram todos no "gueto" (talvez Cova da Moura, a décima ilha de Cabo Verde ?)...Mas os pais  decidiram que eles fossem, desde muito cedo, "viver nos prédios com uma tia da minha mãe"... "Os miúdos dfos prédios não queriam brincar connosco. Normal, nós éramos pretos"... Os outros múidos do "gueto", quando eles visitava,m os pais (que lá ficara,m a viver). "achavam bué fixe nós estarmos a viver nos prédiso0"...

Ela, a Sandra, "só namorava com rapazes brancos, só tinha amigas brancas, só ia lugares  onde ela tinha a certeza de que seria a única preta", e odiava falar em crioulo... "O meu irmão, assim  que se tornou adolescente, começou a detestar brancos" (pp. 12/13).

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Notas do editor:


(*) Vd. poste de 12 de fevereiro de 2025 > Guiné 61/74 - P26487: Notas de leitura (1771A): "Um preto muito português", da luso-angolana e antiga "rapper" Telma Tvon (Lisboa, Quetzal, 2024)... Quem somos nós, "pretugueses" ? - Parte I (Luís Graça)

(**) Último poste da série > 5 de maio de 2025 > Guiné 61/74 - P26768: Notas de leitura (1794): Memórias Minhas, por Manuel Alegre; Publicações Dom Quixote, Março de 2024 (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 24 de novembro de 2023

Guiné 61/74 - P24881: Notas de leitura (1636): "A Última Lua de Homem Grande", por Mário Lúcio Sousa, romance finalista do Prémio Leya, publicações Dom Quixote, Maio de 2022 (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 26 de Maio de 2022:

Queridos amigos,
Trata-se de um lançamento recente, recebo das editoras livros solicitados para fazer recensões, que envio para a imprensa escrita. Contudo, tratando-se de matéria que a todos interessa no nosso blogue, atrevo-me a pôr à vossa disposição esta recensão. Romance é romance, Mário Lúcio Sousa é nome conceituado da literatura cabo-verdiana e nosso orgulho na lusofonia, resolveu, em termos de arquitetura da escrita, fazer um registo ficcionado, com muitos dados plausíveis e confirmados, outros puramente fictícios, do último dia de vida de Amílcar Cabral, como num filme rebobinado somos induzidos a percorrer a sua vida, da infância à morte, os seus amores, os seus ideais, as suas desilusões. Pouco apreciador do acolhimento de inverdades, hoje sem qualquer sentido, como a ligação portuguesa ao seu assassinato, de que não ha uma só folha comprovativa de ligação ao complô guineense, rendo-me a esta linguagem portentosa, os sabores de África, a mestria de compor, recompor, torcer e distorcer para que as palavras ganhem vibração e luminisciência, recomendo vivamente esta leitura.

Um abraço do
Mário



Um belíssimo romance, a crónica de uma morte anunciada

Mário Beja Santos

Não há escritor que não seja tentado em comprimir num dia do calendário a vida de um homem, casos há em quem se lança em tal empreendimento produz revolução na escrita, foi o que aconteceu com James Joyce e o seu "Ulysses". Mário Lúcio Sousa também não quis fugir a esse desafio da compressão do tempo e forja a vida de Amílcar Cabral no dia em que passou ao limiar da eternidade, 20 de janeiro de 1973, data do seu assassinato, e assim temos "A Última Lua de Homem Grande", romance finalista do Prémio Leya, publicações Dom Quixote, maio de 2022.

É um enternecimento imiscuirmo-nos em arquitetura só possível na lusofonia, Mário Lúcio Sousa vem na esteira de outros mestres, como Luandino Vieira, Manuel Rui, Pepetela, Paulina Chiziane ou Mia Couto, que nos ensinaram que a língua portuguesa é desdobrável, pode ser desossada e enxertada de sangue novo, há lavores da sua escrita em todos os continentes, não se pode falar de Amílcar Cabral, um construtor de países, dispensando a matriz cabo-verdiana, nem os referentes daquele território em que se viveu uma tenaz luta armada, tão bem sucedida que ajudou a preparar a libertação de povos, a começar pelo colonizador.

O líder está em Conacri, é visível o seu cansaço extremo, obra do romance antevê ser o seu último dia, cogita diante do espelho: “É hoje que me matam, só me falta saber a hora, o lugar, quem vem, e se me tratarão melhor do que um cão”. Não teme o dia fatídico, por fantasia da escrita, o líder do PAIGC, a quem um coletivo de historiadores de todo o mundo reconhece-o como um dos 20 maiores líderes da História da Humanidade, tem pela frente uma derradeira tarefa, “talvez a mais pessoal, escrever os últimos acontecimentos, na fé de que o universo também conspire e, um dia, lhe traga um imparcial e amoroso cronista, para compendiar todas as alegrias, os sofrimentos, os altos e baixos, as traições e as cumplicidades, as verdades e as desmentiras, para que as gerações vindouras possam conhecer a verdadeira história deste homem e o verdadeiro homem desta história. É tudo quanto almeja”.

Adverte-nos o autor que o romance não é um livro de História, “Verdade é tudo aquilo que o autor consegue provar; no romance, verdade é tudo a que o escritor teve acesso”. E diz estar documentado, mas romance é romance, e neste até se poderão proferir insinuações sem base nenhuma, é ressuscitado o mantra do conluio dos matadores com os portugueses, pôde dar jeito nos tempos subsequentes ao assassinato, hoje, com os arquivos disponíveis, nada consta das propaladas ligações, Spínola não mandou matar, Spínola só dispunha das informações do que se passava em Conacri, a crescente crispação entre guineenses e cabo-verdianos, informações que constam dos arquivos da PIDE/DGS, não há nenhum documento nos arquivos do Ministério da Defesa ou do Ultramar, é rotunda mentira que a Marinha portuguesa aguardava a chegada de um barco com os líderes do PAIGC no limite das águas territoriais da Guiné-Conacri.

E como o próprio romance dá conta que estavam envolvidos, direta ou indiretamente, centenas de guineenses, há quem chegue ao cúmulo do disparate de dizer que Momo Touré era o coordenador do complô, complô esse que o próprio autor diz ser um mistério de quem era o mandante, fizeram-se inquéritos, “testemunharam os embaixadores: uma amnésia corrosiva caiu sobre as Guinés, as páginas da inquirição desapareceram, as gravações foram apagadas, os presos foram a bando dados à guerrilha”. Novo inquérito, coordenado pelo PAIGC, o povo perguntou-se para quê mais um se já se sabia quem morreu, quem matou, quando foi e onde. “Mas, o mesmo povo, revoltado e atento, concluiu que sim, que era mistério saber quem eram os assassinantes de punho e letra, porque os carrascos nominados tinham cérebro para matar, mas ciência para argumentar e esconder uma morte não, nem de uma folha, nem de um bicho, quanto menos de um homem que, vivo, era uma lenda e, morto, estava a galopar sem precedente para o seleto limbo dos espíritos sapientes”.

É a crónica de uma vida, dentro desta simulação de que Amílcar Cabral pressagiava tal morte anunciada, é a sua infância, a adoração pela Mãe Iva, como estudou afincadamente em Cabo Verde e ganhou bolsa para Lisboa, com quem aqui conviveu e os seus dilatados amores por Maria Helena, o seu trabalho na Guiné, e até se inventa que dela foi expulso, elemento útil para martirológio, mas nada comprovado, e depois o sonho de libertar Guiné e Cabo Verde, os desafios postos por Conacri pelos partidos rivais, a fundação da Escola Piloto, a preparação dos guerrilheiros, a chegada do armamento, o líder grato pelo acolhimento de Sékou Touré, de repente aparece-nos o responsável pela segurança, Mamadu Ndjai com a preocupação de avisar o major Silva Pais, pois os insurretos dele receberam algures um plano para fazer desaparecer Cabral sem deixar manchas, outro delírio incomprovado, mas que cabe bem na trama do romance. As horas escoam-se, somos instados a acompanhá-lo na sua vida familiar, com a sua mulher e os seus filhos, nesse entardecer o casal irá a uma receção na Embaixada da Polónia.

Súbito, já estamos 8 meses depois do seu assassinato, lá para as bandas do Boé há a cerimónia da declaração unilateral da independência da Guiné-Bissau, uma das etapas do plano elaborado por ele para encostar definitivamente a potência colonial à parede. E nesta sarabanda de datas estamos no fim do ano de 1973, como habitualmente ele discursou e anunciou o futuro, é um livro que se intermeia de profecias, de avisos, de solilóquios, há até uma misteriosa agenda azul digna de uma intriga da literatura de crime e mistério, jamais se saberá o seu conteúdo, mas fica no ar a sugestão de que ela continha, qual profecia, a matéria do complô e o rol dos matadores e quem coordenava a operação, hoje investigação insondável, tudo parece rasurado e muito provavelmente o(s) cabecilha(s) viajam pelas estrelas.

É uma empolgante viagem de vida, já estamos na receção da Embaixada da Polónia, fazem-lhe perguntas atrevidas, em flashback ele rememora o período em que se pedia a gente amiga armamento, a chegada deste vindo de Marrocos a Conacri e o pânico que se instalou em Sékou Touré de que era armamento para o derrubar em golpe de Estado.

E como na tragédia grega somos encaminhados para o palco do seu assassinato, à porta de casa, é uma narrativa de fúria a que se interpola recordação daquele líder que vai morrer e que amava as crianças, lembra os amores que teve na vida, só espera que os matadores não lhe matem o povo que ele quis libertar, sabe que carregou uma cruz, andou a amainar a divisão entre os guineenses e os cabo-verdianos, está varado no chão com o primeiro tiro, despede-se da vida em vertigem, é um filme que por ali passa, e antes do tiro fatal recita em silêncio o poema que dedicou à Mãe Iva, constante do livro de curso de Agronomia, é o momento do desenlace: “O soldado Bacar dá mais um passo seco para trás. Ele, Homem Grande, sustém o fôlego. O soldado ombreia a arma. Ele, Homem Grande, levanta a cabeça, despede-se do seu amor, dos seus amores”.

A um belíssimo romance como este muito se pode perdoar de insinuações e de mantras que só podem ser úteis na ficção. E Amílcar Cabral é merecedor desta joia literária da lusofonia.

Mário Lúcio Sousa
Amílcar Cabral, pintura de Noronha da Costa
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Nota do editor

Último poste da série de 20 DE NOVEMBRO DE 2023 > Guiné 61/74 - P24868: Notas de leitura (1635): Um dos patrimónios mais valiosos da cultura africana: Como exemplo, um olhar sobre os contos mandingas (2) (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 10 de novembro de 2023

Guiné 61/74 - P24839: Notas de leitura (1632): "No Limiar da Guerra", por José Manuel Barroca da Cunha; RARO, Tomar, 2021 (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 9 de Maio de 2022:

Queridos amigos,
Já sabemos que aquele ano de 1961 foi caracterizado por muita ação subversiva, por um lado Rafael Barbosa ia encaminhando centenas de jovens para Conacri e daí para a formação militar, eram distribuídos panfletos, agiam vários grupos políticos, rivais ferozes do PAIGC. Um deles, constituído por Manjacos residentes no Senegal, orientados por François Mendy, provocará alguma turbulência em São Domingos, Suzana e Varela, e mais tarde juntos dos madeireiros da região Norte, foi tempestade de pouca dura. Mas é verdade temos inventariados documentos que abonam as hostilidades a partir do 2º semestre de 1962, na região Sul, que entra numa verdadeira efervescência, não havia de facto um romance como este, descrito por alguém que desembarcou do navio Alfredo da Silva no cais do Pidjiquiti em 19 de fevereiro de 1961. O autor assegura que esta história é muito real, é um ribatejano que se radicou na região tomarense, figura muito estimada pela sua dedicação às atividades desportivas, a um verdadeiro benevolato. Bom seria que Barroca da Cunha, que parece estar cheio de genica, entrasse na nossa tabanca grande e nos contasse tudo quanto viveu entre 1961 e 1963.

Um abraço do
Mário



Um tomarense de coração que chegou à Guiné no limiar da guerra

Mário Beja Santos

Barroca da Cunha é natural da Praia do Ribatejo mas vive há décadas em Santa Cita. Segundo o autor, o livro baseia-se em factos reais, chegou a bordo do navio Alfredo da Silva a Bissau em 19 de fevereiro de 1961, ano já de grande efervescência subversiva, o núcleo do PAIGC coordenado por Rafael Barbosa já está a recrutar muitos jovens que vão para Conacri ou já partiram para a formação revolucionária armada, nesse mesmo ano grupos de etnia Manjaca procurarão atacar a povoação de São Domingos, com pouco sucesso, e vandalizarão em Suzana e Varela, manter-se-ão ativos a aterrorizar na fronteira norte, nada tinham a ver com o PAIGC. Barroca da Cunha encontra no cais do Porto de Bissau um amigo de longa data, ele é natural da Guiné, é o grande homenageado neste livro.

Tudo começa no Colégio Nun’Álvares de Tomar, fazem amizade Simão Galhardo, alentejano do Crato, ligado a uma família de grandes proprietários, com António Jorge Barbosa Gonçalves, o Tojó, natural da Guiné. Temos aqui a narrativa de dois jovens nascidos à volta de 1940 a viver em internamento, iremos saber as razões por que a família de Simão lhe impôs tal castigo, houve para ali uma série de aventuras amorosas com a empregada Rosinda que vivia com o Joaquim Pinoia enquanto este fazia a tropa num quartel do norte, o Simão tem tal castigo que nem aos fins-de-semana pode ir a casa, ora a sua amizade com o Tojó agradou à família, este agora é visita regular ao Crato, temos a descrição dos bailes e festas como era prática do tempo, aqueles dois amigos quase inseparáveis andam sempre na folia. O pai de Tojó é um colono um tanto diferentes dos outros, trata os seus trabalhadores indígenas com muita dignidade, os outros colonos não gostam de tais liberalidades.

Estes jovens de 20 anos vão parar à Guiné, Simão não quer cunhas dos pais junto dos governantes, Tojó tem saudades dos pais e da irmã, vamos ver o seu enquadramento na vida militar de Bissau, há muito marasmo, desconhecimento da dura guerra que se avizinha, o armamento é mais do que antiquado, ambos fazem amizades, Simão vive na mesma casa com Trigo Vargas, um franzino que enjoou durante toda a viagem, dá gosto ler estes frescos de alguém que reteve conversas possíveis entre jovens, sempre prontos para o bailarico, é nisto que entram em cena dois agentes da PIDE que têm como missão aperceber-se se junto daquela tropa branca há comunistas a trabalhar junto do descontentamento ou a aliciar outros jovens. Aparece também uma médica de família goesa, a delegada de saúde, uma trintona amadurecida, que se atira a Simão Galhardo, a relação não faiscou. A trama do romance traz para o tempo presente gente do passado, Rosinda casou com um dos PIDES, o agente Saraiva, Rosinda tenta reatar a relação com Simão, este nega-se a infidelidades, Rosinda promete vingança, Joaquim Pinoia tem o seu negócio, sente-se feliz com a mulher e filhos. O chefe dos PIDES alerta os seus agentes para a importância dos cabo-verdianos, é gente com maiores conhecimentos académicos, estão nos lugares do topo, cuidado com eles, é preciso muita vigilância.

Simão dá-se bem com o major Frutuoso, o seu chefe, natural de Alpalhão, é o seu ajudante, têm que preparar informações sobre o que se está a passar na Guiné. Os amigos encontram-se com muita regularidade, há inclusivamente um comissário daquele navio que trouxe Simão que quando vem até Bissau é uma gostosa companhia, as reuniões entre PIDES prosseguem, há festas para aqui e para ali, os agentes confessam ao chefe local da polícia política que aqueles militares é tudo gente inocente, falam unicamente de garotas, bailes e de fugazes encontros, o chefe exige persistência, há perigos que se avizinham. E abruptamente tudo se altera, lá no grupo há quem fale que houve baladas, está presente um agente da PIDE, Trigo Vargas será detido e bem maltratado, surpreendentemente irá fugir para o Senegal e acompanhado. No norte da Província alguém foi degolado, há deserções, desapareceram armas. Simão veio de férias, o seu amigo Tojó informa-o do que se está a passar com Trigo Vargas, Simão será interrogado pela PIDE, é uma dimensão interessantíssima deste livro os interrogatórios a que ele vai ser sujeito, fala-se em livros e revistas proibidos, música do Zeca Afonso, Simão completamente siderado com os aspetos disparatados das perguntas, iremos a saber que Rosinda também mete o seu veneno e iremos ser surpreendidos quando aparecer o nome do chefe.

A agitação no Norte, aquelas deserções e o cabo degolado levam a que se mande um pelotão para a fronteira com o Senegal, o major, Simão e Tojó viajam para ter conhecimento do que ali se passa, vão no jipe, haverá para ali uma perseguição, um militar impreparado pega numa pistola-metralhadora FBP e acidentalmente atinge Tojó, Simão esforça-se por o manter vivo e vêm à procura de ajuda no hospital de Bissau, nesse tempo o hospital militar ainda está em construção. Se a viagem para cima não fora fácil, o regresso foi pior, só havia alcatroado até Mansoa, a picada sofria as consequências da época das chuvas, foi o cabo dos trabalhos, Tojó morrerá no hospital, Simão revela-se inconsolável.

Caminhamos para o termo do romance, temos as exéquias de Tojó na Sé Catedral, um mar de gente acompanha-o até ao cemitério, negros simples prestam-lhe a sua homenagem, nas melhores vestimentas de cores aguerridas, compareceu o Governador, o Chefe de Estado-Maior, o Presidente da Câmara de Bissau, o Gerente do BNU. No regresso o major Frutuoso conversa com Simão: “De uma vez por todas, é necessário que se alerte de forma firme quem toma decisões. O aviso está feito, já houve mortes, os indicadores de todas as guerras. Esta última ainda não se apresentou muito a sério, mas não tarda a guerra, ela chegará. É preciso organização, preparação. Que todos se consensualizem que é preciso ação, é preciso atuar.” E deixa no ar que a única maneira de honrar Tojó seria a de evitar que muitas mais se deem. Que a morte do Tojó não tenha sido em vão. É este o surpreendente teor do romance de Barroca da Cunha, um tomarense de coração que assistiu ao limiar da guerra da Guiné.
Barroca da Cunha a assinar o seu livro No Limiar da Guerra, em 31 de março passado, na Secção Regional de Tomar do Sindicato dos Bancários
A Associação Cultural e Recreativa de Santa Cita atribuiu o nome de Barroca da Cunha ao Pavilhão Polivalente
Lançamento do livro No Limiar da Guerra, na Informação da Associação dos Pupilos do Exército
O arquiteto Schiappa Campos a mostrar a Felupes o catálogo de fotografias A Família do Homem. O registo data do seu trabalho na Guiné entre 1956 e 1960. Imagem doada pelo autor ao Instituto de Investigação Científica Tropical em 2014 e apresentada na exposição “Moranças - habitações tradicionais da Guiné Bissau”, que decorreu no Museu Nacional de História Natural e da Ciência
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Nota do editor

Último poste da série de 6 DE NOVEMBRO DE 2023 > Guiné 61/74 - P24826: Notas de leitura (1631): Uma nova leitura da incontornável entrevista de Carlos de Matos Gomes sobre a descolonização da Guiné (2) (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 11 de agosto de 2023

Guiné 61/74 - P24549: Notas de leitura (1605): "O Elogio da Dureza", por Rui de Azevedo Teixeira; Gradiva Publicações, 2021 (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 9 de Agosto de 2021:

Queridos amigos,
Trata-se inegavelmente de uma surpresa, pelo assombro como desvela a intimidade, por descrições duríssimas, é muito difícil não acreditar que tudo isto que ali se escreve não vem da experiência vivida. Sabe-se que Rui de Azevedo Teixeira combateu em Angola, é doutor em Literatura Portuguesa, ensinou em universidades europeias e africanas e no seu currículo há obras de grande importância como A Guerra Colonial e o Romance Português: Agonia e Catarse ou O Fim do Império e a Novelística Feminina e também A Guerra de Angola: 1961-1974. Não custa crer que o autor entendeu que este legado de crueza e terror é importante para que as novas gerações recebam agora o que nos aconteceu há mais de 50 anos.

Um abraço do
Mário



O terror puro e duro para iluminar a noite interior

Mário Beja Santos

Rui de Azevedo Teixeira nasceu em Argivai, Póvoa de Varzim. Combateu em Angola. É doutorado em Literatura Portuguesa e ensinou em universidades europeias e africanas. Organizou os congressos internacionais sobre a Guerra Colonial (Instituto de Defesa Nacional, 2000) e a Guerra do Ultramar (Fórum Cultural do Seixal, 2001). Sobre o conteúdo do livro, Rui de Azevedo Teixeira deixa no ar: 

“Será Vila Velha do Mar a Póvoa ficcionada? E qual é a aldeia? E as personagens da vila e da aldeia, transfigurados pela ficção, serão alguns dos professores e estudantes do Liceu do fim dos anos 60 ou princípios de 70? São reconhecíveis? O jogo literário de quem é quem puxa pelas memórias saudosas dos leitores”, explica.

É um romance singular no amplo contexto da literatura da guerra colonial este "O Elogio da Dureza", Gradiva Publicações, 2021. Paira a sombra da autobiografia, o rasgar da intimidade de alguém que descobre que é filho ilegítimo de pai incógnito. 

Sabemos que na juventude muito leu, autores de diferentes proveniências e que cedo começou a escrever um diário incerto, mau aluno até chegar ao fim do Liceu, aí desabrochou; os estudos em Coimbra não o mobilizaram, Paulo de Trava Lobo Ferreira oferece-se como voluntário, lega-nos páginas manuscritas onde fala do padrasto, gente com quem se relacionou, as obras que leu. Salta no tempo, já regressou da guerra em Angola, onde viveu o último capítulo.

“Vivia entre dois tempos e dois espaços, entre o recentíssimo passado angolano e o presente português. Um tempo misturado em que a componente angolana dominava. Mesmo com as obsessivas leituras, mesmo com o processo revolucionário em curso, ainda assim eram as recordações de Angola que mais lhe ocupavam a cabeça. Pensou até em voltar lá como mercenário, numa empresa de um almirante comunista, para lutar pelo MPLA. Um mercenário marxista leninista?! Baralhado, largou a ideia, substituindo-a por outra, por uma vida também dedicada à violência”.

Os problemas familiares acentuam-se, reencontra-se com gente dos Comandos, convém não esquecer que estamos perante um oficial Comando, com prestação assinalável na contraguerrilha. E de novo regressamos a Luanda, salto diacrónico, Paulo está a chegar à guerra, fala-nos do violentíssimo curso de Comandos, provas brutais, tudo minuciosamente contado para se perceber como se cria um militar disciplinado, uma máquina de combate. Nos momentos de ócio, desce até à cidade de Luanda, anota o seu fervilhar:

“Circulavam miúdas e miúdos pretos com olhos brilhantes como refletores e sorrisos imensos. A estragar a alegria do quadro, os pretos descalços e os pretos de calções e os pretos de roupa rota e os pretos servis e os pretos com medo. Mas havia também um ou outro preto bem vestido e integrado no sistema colonial. E tropa e mais tropa. Soldados da pacaça em grupos de três e quatro, sem aprumo, com mal ajangadas fardas número dois e até com camisas de camuflado. E, de vez em quando, passavam os raros e orgulhosos Comandos de farda número dois, com cinturão, crachá ao peito e dístico no ombro esquerdo, calças e camisa de manga curta bem passadas e as mãos atrás das costas”.

Fala-se de comezainas, de sexo, caminhamos para a vida operacional, já temos os Comandos formados. Volta-se inopinadamente ao processo revolucionário, sabe-se que Paulo detesta os comunistas e esquerdistas e dentro deste processo diacrónico voltamos ao Paulo operacional, e aqui o autor esmera-se, a partir do Luso entramos diretamente na Operação Empurra Tudo, vamos assistir a homicídios com faca, escalpes, chegou a hora do puro horror: 

“Meteu então a faca na barriga do velho e fê-la girar lá dentro como o corno do motor numa colhida. O velho gritou. Paulo e Ferro viraram-se e ainda o viram a ser degolado. O meio bóer deu um pontapé no cadáver fresco do velho, antes de se dirigir para a bicicleta. Enlouquecido de violência, esfaqueou o selim, os pneus e até o farol. Paulo viu, então, junto a uma árvore, sentado, imóvel, uma mulher com um bebé que mamava regaladamente. Ambos miraculosamente ilesos. Paulo ordenou a Ferro que acabasse com os feridos graves. Antes da saída do quartel, tinha visto o furriel a raspar a ponta das balas no chão de cimento à entrada da secretaria. Em segundos, três tiros. As balas atravessaram as cabeças aos trambolhões e saíram levando pedaços de cada uma. Miolos à mostra”.

A operação prossegue, dão-se mais tiros de misericórdia a moribundos, descobrimos que há uma ética: 

“Os Comandos não abandonavam inimigos feridos. Deixados vivos, ficariam a morrer aos poucos, gritando de dor, antes de serem comidos e passados a esqueleto e a fezes de animais”. Havia, pois, tiros de misericórdia. Entre as operações Paulo leva uma rica vida com a amante e a criada da amante, tudo isto na zona militar leste. Ficamos a saber que nas dez operações dos primeiros quatro meses o corpo de combate de Paulo e os vinte e cinco mortos confirmados. Por vezes as coisas correm para o torto, mas mata-se muito mais do que se sofre. Mas Paulo está a mudar. “Paulo começava a dividir-se, a cindir-se mesmo, entre o idealismo imperial e a justiça histórica. Amava criticamente a História de Portugal e o Império, mas os angolanos já eram crescidos, tinham todo o direito a sair de casa. Todo o direito a serem independentes”. Do Leste irá partir para outro local, o Mayombe, mas, entretanto, damos outro salto diacrónico, voltamos ao processo revolucionário em curso, virá o 25 de novembro, Paulo volta aos estudos, torna-se bacharel, percorrerá vários lugares a dar aulas.

"O Mayombe, floresta equatorial ainda mais impenetrável do que as florestas tropicais, era o absoluto oposto à que agora parecia a Paulo a simpática savana”. Numa operação descobre-se um depósito de armamento, Paulo não sentiu orgulho, apenas sorte, e depois vem o grande combate, o inimigo atacava, eram da FLEC. 

“Chamou a atenção de Paulo um carregador furado e um cadáver de barriga para baixo. Pegou no carregador e foi tirando as balas. Encontrou o que procurava – a bala furada por uma bala dos Comandos. A bala da G3 acertara em cheio fazendo um buraco perfeito no cartucho da bala de Kalashnikov. Paulo guardou a bala furada, passou a ser o seu talismã”.

Veio o 25 de Abril, o bacharel irá fazer mais estudos, o professor Paulo Lobo tem destino universitário. De novo saltamos para o fim da guerra, quando ele se encontrava especificamente em pré-desagregação, regressa à pátria. Toda esta noite interior parece chegar à irradiação da luz, conhece o amor, dá-se a doce domesticação de Paulo, é já assistente estagiário do porto e acaba por descobrir, graças à mulher, que era filho de sangue do capitão Antero Gomes Ferreira. Não fica contente com aqueles pais que nunca se interessaram pelo seu sofrimento. E decidiu nunca mais voltar a falar com os pais. É uma irradiação de luz feita de trevas. 

Romance singular, está comprovado, percebe-se este elogio da dureza, é memória que não se apaga, talvez por isso a catarse da escrita, de indiscutível qualidade.
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Nota do editor

Último poste da série de 7 DE AGOSTO DE 2023 > Guiné 61/74 - P24538: Notas de leitura (1604): Uma nova biografia de Amílcar Cabral, de Peter Karibe Mendy (Mário Beja Santos)