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sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28276: Agenda cultural (898): "Ilha de Santa Maria: Recortes da História de um Povo", novo livro de Arsénio Puim (Ponta Delgada, Letras Lavadas, 2026, 135 pp.)


 

Capa do livro "Ilha de Santa Maria Recortes da História de Um Povo, de Arsénio Chaves Puim (Ponta Delgada: Letras Lavadas, 135 pp.)


Sinopse: "Ilha de Santa Maria – Recortes da História de Um Povo!

Fruto de seis décadas de dedicação à salvaguarda da memória mariense, este livro é uma obra de cariz histórico-etnográfico que resgata e humaniza a História da ilha de Santa Maria entre o século XVII e meados do século XX. Composta em forma de “recortes”, Arsénio Puim reúne acontecimentos, práticas e testemunhos que atravessam do século XVII a meados do século XX, revelando aspetos do património humano e material muitas vezes esquecidos ou silenciados.

Através de uma criteriosa seleção de “recortes” históricos, acontecimentos e aspetos do património humano e material — muitos deles olvidados ou silenciados —, o autor combina rigor científico com fontes primárias, secundárias e uma vivência pessoal profunda.

O resultado é uma obra que humaniza o passado, ilumina fenómenos sociais e relações comunitárias, e reforça o contributo de Santa Maria para a história mais ampla dos Açores.Este livro é, acima de tudo, um legado: a transmissão de uma vida dedicada à preservação da memória coletiva e ao aprofundamento da identidade açoriana.

Ficha técnica: 

Peso > 0,267 kg
Dimensões  > (C x L x A) 21 × 14,8 × 1,4 cm
ISBN  > 9789897356964
Encadernação > Capa mole
Páginas > 135
Edição > Agosto de 2026
Idioma  > Português
Editora > Letras Lavadas
Preço de capa > 12,00 €

Sobre o autor > Arsénio Chaves Puim

(i) nasceu em 1936, na ilha de Santa Maria, no termo da Calheta, Santo Espírito;

(ii) concluiu o ensino primário na sua freguesia natal de Santo Espírito e prosseguiu estudos em Teologia no Seminário de Angra do Heroísmo;

(iii) exerceu funções sacerdotais até 1976;

(iv) nesse mesmo ano, obteve o diploma de enfermagem na Escola de Enfermagem de Ponta Delgada e trabalhou como profissional desta área até 1995;

(v). em Santa Maria, foi também professor de Português e História no Externato e desempenhou vários cargos públicos, incluindo Vereador e Presidente da Câmara Municipal de Vila do Porto;

(vi) foi cofundador do Museu Etnográfico de Santa Maria e dos jornais “Pico Alto” e “O Baluarte de Santa Maria”, dos quais foi o primeiro diretor;

(vii) desde 1982, Arsénio Puim reside em Vila Franca do Campo, na Ilha de São Miguel, onde casou, tem dois filhos e três netos;

(viii) este concelho, foi membro de vários órgãos de freguesia e municipais, mesário da Santa Casa da Misericórdia e, entre 2000 e 2018, redator principal do jornal “A Crença”;

(ix) Arsénio Puim foi também um importante ativista contra o Estado Novo e contra a Guerra Colonial, tendo sido membro do Movimento Democrático Português (MDP) antes e depois do 25 de Abril;

(x) em 2009, foi distinguido com a Medalha de Cidadão Honorário e Mérito Municipal pela Câmara Municipal de Vila Franca do Campo;

(xi) desde 2001, publicou cinco livros sobre história e etnografia açoriana, com especial enfoque em Santa Maria.

Fonte: adapt de Letras Lavadas (Ponta Delgada, São Miguel, Açores)


2. Comentrário do editor LG:

Segundo o portal da CM de Vila do Porto, o lançamento do livro  "Ilha de Santa Maria – Recortes da História de Um Povo" foi realizado  no passado do 9 de agosto, às 18 horas, na Biblioteca Municipal de Vila de Porto, juntamente com o livro e “Echoes of Azorean Life: A Cultural and Linguistic Portrait of the Island of Santa Maria", respetivamente o sexto e o sétimo livros do autor, ambos em edição da Letras Lavadas.

Tratou.se de um evento culltural inttegrado nas festas de 15 de agosto.

(...) "O primeiro livro, de cariz histórico-etnográfico, incide sobre uma seleção de acontecimentos e aspetos do património humano e material da Ilha de Santa Maria, situados entre o século XVII e meados do século XX. São abordados temas como os expostos na Roda da Câmara, os alevantes populares, a lepra (“mal de Lázaros”), as incursões dos Mouros e outros aspetos de grande interesse na história e vivência populares"

 O livro é prefaciado por Pilar Damião de Medeiros, professora de Sociologia na Universidade dos Açores, que fez também a sua apresentação.

(...) "O segundo título – 'Echoes of Azorean Life: A Cultural and Linguistic Portrait of the Island of Santa Maria' – corresponde a uma edição em inglês do livro 'Povo de Santa Maria - Seu Falar e Suas Vivências', publicado em 2021". 

Esta edição foi traduzida para inglês e anotada por Giuseppe Formato, investigador associado no Centro de Investigação e Estudos de Sociologia (ISCTE), que também apresentou  o livro. 

(...) "A obra, prefaciada por Onésimo Teotónio Almeida, reúne uma extensa investigação etnográfica relativa à Ilha de Santa Maria, em especial em torno da linguagem e vivência popular no período anterior a meados do século XX" (...)

A sessão de apresentação dos livros, com moderação de António Monteiro, contou com a participação da Presidente da Câmara Municipal de Vila do Porto, Bárbara Chaves, e da editora Letras Lavadas.

 Fonte: CM de Vila do Porto



domingo, 2 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28234: Bom dia desde Bissau (Patrício Ribeiro) (73): a baloba de Bijante, Bubaque, Bijagós, e a força securitária do sagrado



Foto nº 1, 1A e 1B



Foto nº 2, 2A e 2B

Guiné-Bissau > Arquipélago dos Bijagós > Ilha de Bubaque > Bijante > Sábado > 1 de agosto de 2026  > A  baloba local, o sítio mais seguro da tabanca.

Fotos (e legenda): © Patrício Ribeiro (2026). Todos os direitos reservados, [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné ]


1. Patrício Ribeiro, o nosso "embaixador em Bissau", empresário (Impar Lda), que chegou a Bubaque, em trabalho,  no dia 10 do mês passado, mandou-nos mais fotos de Bijante, incluindo a baloba local...

Data - sábado, 1/08/2026, 20:31

Assunto - Baloba de Bijante, Bubaque, Bijagós

As pinturas na baloba de Bijante, local sagrado, onde guardámos os nossos equipamentos, onde ninguém vai mexer.


Mantenhas

Patrício Ribeiro
Impar Lda


 Guiné > Zona leste >  Região de Bafatá >Setor L1 > Bambadinca > Destacamento de Nhabijões > 1970 > O furriel miliciano Henriques, da CCAÇ 12 (Luís Graça, fundador e editor deste blogue) junto a uma baloba,   um dos locais de culto dos irãs (espíritos da floresta).

A população era maioritariamente balanta, animista. Mas também havia um núcleo Mandinga. Era conhecida a sua colaboração com o PAIGG, sobretudo com as populações e os guerrilheiros de Madina/Belel, no limite do Cuor, a noroeste de Missirá, mas também com os do subsetor do Xime. "Tinham parentes no mato", dizia-ser então.

 O reordenamento desta população, considerada até então sob duplo controlo e pouco colaborante com  as NT (e senão mesmo hostil), iniciou-se em 1969, sob a iniciativa do BCAÇ 2852 (1970/72), tendo sido continuada pelo BART 2852 (1970/72). Foi criado um destacamento para apoio a (e defesa de) o reordenamento.

No seu diário de então, o furriel Henriques usava um termo demasiado forte (e manifestamente desajustado...), "etnocídio", para qualificar a construção deste reordenamento, a que chamava "aldeia estratégica". 

Era então um dos maiores, se não o maior, em construção  no CTIG, com cerca de  300 fogos, pelo exército em colaboração (franca e leal) com a população local. 

Porquê "etnocídio" ?  Na altura, ele referia-se à  destruição do habitat socioecológico destas populações ribeirinhas, dispersas pela margem esquerda do rio Geba Estreito (do outrro lado, era o "mato do Cão") que passavam a ser "reordenadas"  e "militarizadas" (o reordenamento passava a ter umqa guarnição militar, constituída por um Grupo de Combate do batalhão de Bambadinca e por milícias balantas...).

Há uma diferença entre etnocídio e genocício: ele falava, em 1970,   da  destruição da cultura, da perda da identidade e do fim dos costumes da comunidade de Nhabijões, o que era manifestamente exagerado... A baloda construída no reordenamento, embora "liliputiana" (quando comparada com as dos Bijagós)  era a prova de que os "reordenadores" tinham a preocupação de preservar "usos & costumes" da população"... Estávamos em plena "Spinolândia!... 

O PAIGC,  mais tarde, "ressaibiado" com a colaboração da comunidade de Nhabijões com a tropa,  iria flagelar o reordenamento. Sem consequências.

Foto (e legenda): © Luís Graça (2007). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


2. Comentário do editor LG:

Patrício, a tua sensibilidade sociocultural vale ouro. Não és turista, nem antropológo, és empresário, andas no teu trabalho, a "cirandar" por toda a Guiné-Bissau, embora "reformado... a meio tempo"... E vai-nos, sem querer, e sem a gente te pedir nada (a não ser "partir mantenhas" ), mandando de vez em quando estas preciosas fotos, em geral acompanhadas de lacónicas legendas, da terra que tu amas e nós amamos, mesmo não conhecendo, como tu, todos os cantinhos.

É o caso destas, tiradas na tabanca de Bijante, Bubaque,  Bijagós. Estas fotografias da balofa local são, para mim, um pequeno achado etnográfico. Não sou especialista em etnografia guineense. Sou sociólogo, e tive uma cadeira de antropologia, de um ano, com um grande professor e antropólogo, o Joaquim Pais de Brito. O "bichinho" da antropologia / etnologia ficou cá para sempre...

Lembro-me das balofas de Nhabijões (vd. foto acima, de 1970), nos arredores de Bambadinca, bem como das boas e más memórias desse reordenamenyo (apanhei lá com uma mina anticarro que bem poderia ter-me mandado para os anjinhos). 

Mas, confesso, sei pouco do "animismo" que sobrevive na Guiné-Bissau, "entalado", cada vez, entre duas poderosas religiões monoteístas e proselitistas, como são o cristianismo e o islamismo.  Coitados dos irãs da Guiné-Bissau, até as últimas florestas sagradas  já perderam. (Felizmente, não parece terem-se repetido os ataques a duas balofas e uma igreja cristã, em Bissau, em março de 2024.)

Patrício, recorrendo à menina da IA (e a outras fontes da Net),  eis aqui algumas dicas que me parecem pertinentes, e que nos podem ajudar  a "ler" as tuas fotos da baloba de Bijante. 

(i) o interesse documental, "etnográfico",  destas tuas imagens:

Não tem tanto a ver com a qualidade das pinturas (que já estão muito gastas), mas com o facto de mostrarem uma baloba viva, ainda em uso e respeitada pela comunidade.   

(ii) o que é uma baloba

A palavra "baloba" (ou " baloba di irã") entrou no crioulo da Guiné (ainda no nosso tempo) a partir das línguas locais e designa, de forma geral, um santuário comunitário, a casa dos espíritos (os Irãs entre os Bijagós). 

Já está grafada em português. Segundo a Infopedia, o termo crioulo "baloba" vem do do felupe bu-loba, «feitiço falante»

Baloba não é simplesmente um "templo animista". É simultaneamente: lugar de culto;
lugar de iniciação; sede do poder espiritual da tabanca; espaço onde se realizam sacrifícios, consultas e cerimónias; depósito de objetos rituais...

Nos Bijagós, a baloba está intimamente ligada ao culto dos antepassados e dos irãs, que podem assumir formas humanas,  ou  elementos da fauna e flora.

(iii) O que podemos ver fotografias do Patrício (fotos nºs 1 e 2):

Para já é curioso que a morança dos irãs esteja identificada pela palavra "baloba", escrita en português, em letras do alfabeto latino, a par de pinturas murais

Tudo indica, entretanto , que a decoração da parede exterior, que tem uma  porta de entrada principal (e provavelmente única), seja relativamente recente (seguramente do período pós-independência,  ou  últimas décadas).

O edifício passa, pois, a ser mais facilmente identificado quer pelos turistas (que visitam Bubaque), quer pelos membros mais jovens, alfabetizados, da comunidade, que estão em rápida perda da sua identidade cultural (bijagó e guineense), com a "globalização".

Outro símbolo, as setas:  convergem para a porta, podendo indicar tanto a entrada ritual como a direção obrigatória da circulação. Não sabemos se há uma porta de saída.

Acima da porta aparece um peixe enorme (em estilo naturalista).  O que não é estranho. Estamos numa ilha, estamos em Bijagós, um arquipélago onde a população tem uma forte ligação ao mar e vive também do mar. 

O peixe significa  "mafé", abundância, proteção... Pode também representar um irã associado ao mar; ou ser simplesmente um marcador identitário da aldeia. Falta-nos aqui as "explicações" dos moradores locais.

Mais intrigante é a figura do morcego. Não é um elemento decorativo. No animismo, nos sistemas religiosos africanos, o morcego aparece frequentemente associado  à noite, aos espíritos, à passagem entre vivos e mortos.

Já a serpente, à esquerda do morcego, é um símbolo extremamente antigo e constante em quase toda a África Ocidental.
 Pode ser a Píton-africana ou píton-da-rocha-centro-africana ou Píton-norte-africana (Python sebae), também conhecida (e temida) como "irã-cego"... Mas não sei se  este réptil existe no arquipélago dos Bijagós. 

Pode representar fertilidade, continuidade da vida, proteção do recinto, ou pode ser a própria representação de um irã (os irãs tendem a assumir a forma animal).

O grande lagarto, à direita da porta e da palavra "Koreti", pode ser um crocodilo estilizado. Não arrisco o seu significado.

 "Koreti", também não faço ideia do que seja... Nome gentílico ?  Nome, cristianizado (por influência dos missionários cristãos),  de mulher e rainha, guardiã do templo ? Pode ser uma variante ortográfica ou erro de audição para Goreti , da santa italiana  Santa Maria Goretti. 

O Cherno Baldé, que nos ajude, não é bijagó, mas é guineense, muito mais guineense e melhor etnólogo do que eu.

Quanto às figuras humanas (no lado direito da parede, a seguir à porta): temos uma figyura antropomórfica  (uma mulher ?), sentada o chão, em cima de uma esteira, com uma lança ou bastão, em postura cerimonial. Difícil descodificar este signo.

O músico (?), por sua vez,  tem barrete, usa colares  segura um instrumento (que pode ser uma espécie de cordofone tradicional) (?). Representa o músico ritual, o  cantor cerimonial, a personagem das iniciações.

Os triângulos à volta da porta são, sem dúvida,  o elemento mais claramente decorativo. Esses padrões geométricos são frequentes em várias casas rituais dos Bijagós. Podem simplesmente marcar o caráter sagrado do local,  a transição entre exterior e interior.
 
Estas pinturas murais não contam uma história, como acontece nos nossos murais.  Funcionam antes como  marcadores identitários; proteção simbólica, representação de espíritos, memória ritual. Dizem muito simplesmente:  "isto é uma baloba".

Cada figura poderá provavelmente ter um significado que só é conhecido pelos iniciados da aldeia, e que  não é necessariamente explicado aos não-iniciados.

(iv) O grande especialista dos Bijagós foi o missionário e linguista italiano Luigi Scantamburlo.

Na sua obra sobre Bubaque refere que cada tabanca  tem os seus irãs próprios; estes, por sua vez, tendem a ter formas animais; a baloba guarda objetos onde reside a força espiritual; certas esculturas representam a alma dos antepassados ("orebok").

Ainda em relação às pinturas: parecem ter sido feitas por várias mãos, em épocas diferentes. O traço do morcego, por exemplo,  é muito diferente do do músico (?). Também as cores são diferentes. 

Algumas figuras  podem  ser mais antigas; outras foram acrescentadas ao longo dos anos;  esta morança  foi sendo "renovada" ritualmente, não apenas reparada. Tem agora telhado de zinco, um material de construção mais recente (e caro) na ilha.

 
(v) a força securitária do sagrado

Há uma observação da  IA que merece ser citada, porque é muito personalizada e homenageia simultaneamente o Patrício e a tabanca de Bijante:

(...) "E termino com uma observação que me parece belíssima. O Patrício escreveu apenas: '...guardámos os nossos equipamentos, onde ninguém vai mexer.'

"Essa frase vale quase uma lição de antropologia. Num país onde a autoridade do Estado pode ser frágil em muitas regiões, a autoridade do sagrado continua eficaz. Não é a fechadura da porta que protege os painéis solares ou as ferramentas da Impar; é o respeito coletivo pela baloba. Esse respeito, construído ao longo de gerações, continua a regular comportamentos de forma muito concreta".


 





3. Numa leitura posterior, mais fina, pormenorizada e atenta das duas figuras humanas, volto atrás, e encontro outras pistas:

Patrício: em relação à primeira figura humana, decididamente não pdoe ser um homem, mas uma  figura feminina, numa postura ligada à maternidade ou ao parto ... 
 
Postura: a figura está sentada com as pernas muito abertas, numa posição que lembra uma posição ritual ou de parto, mais do que numa posição de autoridade masculina; é uma  postura que aparece em diversas representações africanas relacionadas com a fecundidade e a maternidade.

Tronco: o peito está desenhado de forma muito esquemática, mas não também não há qualquer indicação evidente de órgãos genitais masculinos. Pelo contrário, o traço central dirige o olhar para a zona pélvica, que parece ser precisamente o foco da composição.

Região inferior: na fotografia, a tinta está muito degradada; mas aquilo que inicialmente podia ser interpretado como um pénis,  pode muito bem representar sangue, ou sangue menstrual,  cordão umbilical; ou simplesmente um símbolo gráfico hoje quase ilegível.

Bastão: o bastão vertical não é necessariamente um atributo masculino; não é uma lança; nas balobas, muitos objectos rituais (bastões, lanças, remos, cajados) são símbolos de autoridade espiritual e não apenas de género (masculino, feminino).

Cabeça:  há uma  "meia cabaça" invertida na cabeça, com motivos geométricos; esse pormenor é muito importante; não se trata de nenhum penteado. Ora, a cabaça é um objecto ritual de enorme importância em praticamente toda a África Ocidental, podendo  simbolizar fecundidade, maternidade, iniciação, ancestralidade,  ou conter substâncias sagradas.

Saia bijagó: a figura enverga a típica saia bijagó...





Guiné-Bissau > Região de Tombali > Cantanhez > Iemberém > 6 de Dezembro de 2009 > 10h26> "Festa de baptizado muçulmano"... Rapando a cabeça da criança, com uma gilete...A mãe tem um olhar "inexpressivo", indiferente à presença do fotógrafo (**)-.

Fotos: © João Graça (2009). Todos os direitos reservados, [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné ]


O meu filho João Graça fotografou, em Iemberém, 6 de dezembro de 2009, um ritual (a que ele chamou, talvez indevidamente, "batizado muçulmano") em que uma parturiente usava precisamente uma meia cabaça semelhante (mas lisa); isso pode constituir uma pista iconográfica muito valiosa, mesmo que o ritual fosse fula.

É verdade que Fulas e Bijagós pertencem a universos culturais bastante diferentes, mas certos objectos rituais circulam há séculos entre povos vizinhos. Aliás, a própria cabaça é um objecto transversal a quase toda a Senegâmbia.

Vamos avançar então com uma outra hipótese etnográfica: em muitas sociedades da África Ocidental, incluindo os Bijagós, a fertilidade da mulher, a fecundidade da terra e a prosperidade da comunidade pertencem ao mesmo domínio simbólico.

Não seria surpreendente que uma parturiente fosse considerada uma imagem suficientemente poderosa para figurar na parede de uma baloba. Aliás, a posição das pernas abertas é um motivo conhecido em esculturas de maternidade africanas. Não é uma cena obstétrica realista; é antes um símbolo da capacidade de dar vida.

À cautela, poderíamos descrever a primeira figura nestes termos: figura antropomórfica de interpretação incerta, mas mais do que provavelmente feminina, podendo representar uma parturiente, uma antepassada ligada à fertilidade ou uma entidade protectora da maternidade.

A segunda figura, pelo contrário, é seguramente masculina. usa um chapéu com cocar, um adorno de penas (símbolo de elevado estatuto) (embora o cocar seja de origem indígena ameriucan). Parece segurarum grande animal sacrificado (ou uma pele) (e não um instrumento de música); ao lado vê-se um tridente ou lança ritual; transmite uma imagem de sacerdote, adivinho ou responsável pelos sacrifícios.

As duas pinturas podem representar momentos complementares do mesmo universo ritual: a mulher (ou antepassada) ligada ao nascimento, fertilidade e continuidade da linhagem; o homem, sacerdote ou guardião que assegura a comunicação, a ligação, com os espíritos.

(Pesquisa: LG + IA | Chat GPT / Open AI)
(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos e itálicos: LG)
______________

Notas do editor LG

(*) Último poste da série > 30 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28228: Bom dia, desde Bissau (Patrício Ribeiro) (72): A jaca, espécie invasora tropical, que já chegou a Bijante, Bubaque, Bijagós

(**) Vde. poste de 28 de janeiro de 2011 > Guiné 63/74 - P7686: Notas fotocaligráficas de uma viagem de férias à Guiné-Bissau (João Graça, jovem médico e músico) (2): 6/12/2009, domingo, 1ª consulta, um baptizo muçulmano, um casório católico, uma visita a uma fábrica de caju... 7/12/2009, 2ª feira: 1º dia de consultas. 42 doentes à porta do C.S. Materno-Infantil de Iemberém

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28163: III Viagem a Timor-Leste: 2019 (Rui Chamusco /ASTIL) - Parte X : semana de 7 a 13 de abril: Ainda sobre o "barlaque": quem parte e reparte e não leva a melhor parte, ou é tolo ou não sabe da arte ?!







... Não, em Timor-Leste não se pode aplicar, nas negociações do barlaque, o provérbio popular português: "Quem parte e reparte, e não leva a melhor parte, ou é tolo ou não tem arte". Aplicar esse provérbio seria ignorar completamente a lógica do sistema. O barlaque não é um negócio de soma zero ou uma partilha de bens onde um tenta passar a perna ao outro; não é asimples e tradicional "caça ao dote";  é um intrincado tecido de alianças, reciprocidade, regulação, partilha e equilíbrio social entre famílias (umane e fetosan). Não se trata de "levar a melhor parte", mas sim de selar um compromisso e garantir o respeito mútuo. Parece ser uma estratégia "win-win" (ganhas tu, ganho eu), pese embora a contestação deste "construto cultural" por parte da geraçáo mais recente, escolarizada e crítica, e nomeadamente dos que defendem a "igualdade de oportunidades" para as mulheres numa sociedade que ainda é "patriarcal e falocrática"...
 
"Prompt e orientação editorial: Luís Graça | Texto e imagem: Rui Chamusco (2019) | Geração gráfica assistida por IA: Google (2026), Gemini (versão de 7 de julho de 2026) [Grande modelo de linguagem]. Disponível em: https://gemini.google.com/"


1. Continuamos a publicar e excertos das crónicas da III Viagem (2019) (*),  realizada pelo Rui Chamusco a Timor-Leste, enquanto cofundador e dirigente da ASTIL, a associação portuguesa de solidariedade com Timor Leste (ASTIL), que já montou, equipou e pôs a funcionar uma escola nas montanahs de Liquiçá (Manatti / Boebau), a Escola de São Francisco de Assis (ESFA), e faz o "apadrinhamento" de crianças em idade escolar. 

O nosso amigo (e membro da Tabanca Grande), Rui Chamusco, professor de música reformado, a viver na Lourinhã, vai a Timor Leste todos os anos desde 2016 (exceto na pandemia, 2020, 21 e 22).

São 3 dias de viagem até Díli!... Fica lá 3 ou 4 meses... Ele já tem 80 anos e há dias fez uma operação cirúrgica,delicada,   de que está a recuperar felizmente bem... Temos publicado as suas crónicas anuais no nosso blogue. 

Tem uma história de vida inspiradora. É um exemplo vivo de como a solidariedade portuguesa com Timor-Leste continua a ser concreta, persistente e transformadora, mesmo décadas após a independência (em 2002). É também um exemplo vivo, o dele e da associação que ajudou a fubdar (a ASTIL),  de amor à lusofonia. Essa história merece ser conhecido pelos nossos leitores, os amigos e camaradas da Guiné.

Lendo as suas crónicas (que ele reuniu numa brochura em pdf, com cerca de 3 centenas de páginas), ficamos a saber muito mais  sobre a história, a cultura, a geografia, a sociodemografia, a idiossincrasia daquele país, que nos é tão querido, membro da CPLP.

Já aqui publicámos excertos das crónicas da I viagem (2016), II (2018) e VI (e última) (2025). Depois da pandemia,  o Rui voltou a Timor-Leste em 2023 (IV viagem), e anos seguintes: 2024 (V viagem) e 2025 (VI viagem).

Este ano talvez lá volte, mas apenas pelo Natal, se Deus Nosso Senhor e a Senhora da Saúde o permitirem. Sem esquecer, claro, o seu mentor,  São Francisco d' Assis, que ele cita amiúde.

Além da construção, organização e funcionamento da Escola, a par do "apadrinhamento de crianças em idade escolar", a pequena ASTIL (que tem sede em Coimbra e delegação no Sabugal)  já construiu a  "casa do professor" e adquiriu uma viatura todo-o-terreno ("pick up"), indispensável para se chegar a Boebau, na montanha. Nestas crónicas de 2019, há referência a dificuldades e limitações que, felizmente, já foram superadas. Falta, finalmente, resolver o problema da colocação, definitiva, de professores de carreira. A escola continua a ser privada e inteiramente financiada pela ASTIL (e os pais dos alunos).

Em Díli costuma ficar na casa do irmão mais novo do Gaspar Sobral (outro cofumdador e dirigente da ASTIL, luso-timoresne, retornado de Angola, onde foi topógrafo), o "Eustáquio" (João de Araújo Moniz de Oliveira Sobral) (que de 1975 a 1978, andou fugido dos indonésios nas montanhas de Liquiçá, com a irmã mais nova e a mãe, tinha então 14 anos!).



Rui Chamusco, professor de música, reformado, é cofundador e líder da ASTIL - Associação dos Amigos Solidários com Timor Leste: é natural ds Malcata, Sabugal; vive na Lourinhã; é membro da Tabanca Grande, tem 70 referências no blogue; à direita, o Gaspar Sobral, o luso-timorense, retornado de Angola, casado com a Glória Sobral, natural de Sabugal: foi este casal que meteu o Rui nesta aventura solidária (que, para todos, tem sido gratificante).


III Viagem a Timor-Leste :  2019 (Rui Chamusco, ASTIL)

Parte X:  semana de 7 a 13 de abril: ainda "a arte de negociar no barlaque"  


07.04.2019, domingo  - A alegria de dar e de receber...

Hoje foi dia de entregar os donativos que os padrinhos enviaram para os seus afilhados durante o mês de março.

Acredito que quem dá sente uma alegria enorme de poder partilhar com os outros aquilo que lhes faz falta. Mas gostava que imaginassem a grande alegria de quem recebe, de quem não tendo quase nada se vê com uma nota de dez ou vinte dólares na mão. Até os olhos brilham!... Esta gente agradece profundamente com sorrisos abertos e sinceros. Não há melhor paga para quem dá.

Desta vez, porque estava presente, quis fazer pequenos videos aos afilhados que, em
português, mandaram uma pequena mensagem às madrinhas e aos padrinhos. Espero
que todos os tenham recebido em boas condições.
E, como diz uma canção:

 “Dar do pouco que se tem / Ao que tem menos ainda /
Enriquece o doador / Faz sua alma ‘inda mais linda”. 

“ Fica sempre um pouco de perfume / Nas mãos que oferecem rosas / Nas mãos que sabem ser generosas.” 

Não há palavras mais certas para definir a ação de dar. Agora imaginem o nosso mundo se
cada um doasse um terço daquilo que lhe sobra. Tantas necessidades seriam resolvidas; tantas bocas famintas seriam saciadas.

“Ó Mestre, fazei que eu tenha mais prazer em dar do que em receber; em consolar do
que ser consolado; em amar do que ser amado. Porque é dando que recebemos; é
consolando que se é consolado; é amando que se é amado. E é morrendo que se vive
para a vida eterna.” (São Francisco de Assis)

08.04.2019, segunda feira  - Pontos nos iiis... O programa de "apadrinhamento"

O programa de apadrinhamento tem nos colocado algumas questões, por parte dos beneficiários dos donativos. Embora todos saibam que o dinheiro dos donativos deve ser aplicado no processo escolar das crianças/jovens apadrinhadas, nomeadamente no pagamento das despesas escolares ( material escolar, propinas, fardas, etc.), fica-nos a dúvida o que farão as famílias ao dinheiro remanescente. Será gasto em quê? Em necessidades básicas (alimentação)? Em gastos surperfulos?

Foi por isso que nesta entrega de março fizemos questão de lembrar uma vez mais a da boa aplicação dos donativos em dinheiro que os padrinhos/madrinhas lhes vão enviando, e da obrigação de darem sinal do aproveitamento escolar com a apresentação no final de cada período da caderneta.

Sugerimos-lhes também cada afilhado/a peça a abertura de uma conta jovem, na CGD / BNU, onde possa depositar o dinheiro não gasto, constituindo assim um fundo económico que lhe possa ser útil na sua vida de estudante. Nós próprios nos comprometemos em falar com a gerência da Caixa, a fim de serem criadas as condições para estas contas.

Oxalá que o esforço que todos estamos fazendo por melhorar as condições de vida desta crianças e jovens necessitados se traduzam em aproveitamento real e solução dos seus problemas e necessidades.

ASTIL - Projeto de Solidariedade em Timor Leste
Programa de Apadrinhamento de Crianças Necessitadas

Estimadas madrinhas e padrinhos

Esperamos que estejam todos bem. Nós, cá por Timor. também estamos bem. Antes de mais, queremos agradecer a cossa colaboração e generosidade neste Programa de Apadrinhamento. As(os) vossas(os) afilhadas(os) estão vos profundamente reconhecidos, e pena é que a distância não nos permita um encontro com todos eles. Valem-nos ao menos as novas tecnologias para que, de quando em quando, consigamos comunicar. De nossa parte tudo faremos para que a relação de amizade seja fomentada e fortificada.

Esta circular tem a finalidade de vos darmos conta de como este programa se está a desenvolver e de vos informar das medidas que estamos a tomar em relação aos vossos donativos.

Como sabem, os donativos depositados na conta da Astil, em Portugal / Agência de Sabugal, são transferidos da CGD para a conta solidária criada no BNU Timor /CGD. No final de cada mês é feita a folha mensal de donativos, cuja soma será levantada por quem de direito no BNU, a fim de ser entregue pessoalmente a cada beneficiado.

Podemos informar-vos de que, até hoje, já foram entregues 9.259 dólares.

Como está claramente explicado nas orientações deste programa que foram enviadas a cada madrinha e padrinho, estes donativos têm como prioridade ajudar as famílias nas despesas escolares dos seus filhos. Estamos a ser exigentes com essas famílias, explicando-lhes cada vez que vêm receber os donativos, que o dinheiro recebido deve ser aplicado na educação e material escolar dos apadrinhados. Como não temos meios de controlar essa aplicação, foi sugerido que o dinheiro remanescente dessas despesas seja depositado na conta jovem que a CGD/BNU dispõe, para que se constitua um fundo disponível de modo a permitir a continuidade dos estudos, inclusive os estudos universitários. 

Nós mesmos ficámos de nos encontrar com a gerência desta agência da CGD a fim de facilitarem a abertura da conta jovem para estas crianças/jovens.

Não queremos que fiquem dúvidas sobre a aplicação dos vossos donativos. Este programa foi criado de raíz, e portanto com muitas imperfeições. Mas continuaremos sempre a fazer como melhor sabemos, tentando sempre que a honestidade e transparência sejam o nosso guia.

Acreditem, que nem um cêntimo do dinheiro depositado será retirado ou desviado do fim em vista, sendo entregue na íntegra aos seus destinatários.

Queremos continuar a merecer a vossa confiança e, enquanto pudermos, tudo faremos para que o programa seja bem cumprido e obtenha os resultados esperados. Com estima e consideração por todos vós,
Rui Chamusco / João Moniz / Gaspar Sobral


09.04.2019, terça feira  - “ A ver os aviões!"... A despedida 
do comandante Rui Pedro

Tinha prometido ao amigo Rui Pedro que estaria ao meio dia no aeroporto de Díli para lhe dar um abraço. E assim foi. Sem nada mais combinarmos, chegámos ao mesmo tempo. Depois de eu e o Amali apearmos da mota, e preparando-nos para ir até às portas do chek-in, passa ao nosso lado o automóvel que transportava o nosso viajante. Encontro mais fácil não podia haver.

Passados alguns minutos a ver os aviões e a controlar o tráfego aéreo, chegou a hora de dizer adeus a este amigo que, para além de primo, é um “gajo porreiro”. Sei que este dias que irá passar em família serão bem aproveitados. Cá por mim, até começo já a ter inveja. As saudades já apertam e começam a fazer mossa. Quando será a minha vez? Ainda não sei. Mas sei que ela há-de chegar.

Boa viajem,  meu amigo! Que tudo se passe segundo os teus desejos.

Sei que em Lisboa ou no Algarve todos te esperam ansiosamente. Sei que vão ser muitos os beijos e os abraços: sei que a família e os amigos te vão cobrir de atenções.

Sei que será bom, muito bom.

Cá te esperamos de volta, a estas terras do oriente, a este Timor Lorosae que nos enfeitiçou de tal maneira que já não podemos viver sem ele.

Rui meu homónimo: Faz o favor de seres feliz!...

12.04.2019, sexta feira  - Ver para crer... Cinofagia, carnismo...

Que a carne de cão é consumida e apreciada em países asiáticos e do oriente, já não é novidade nenhuma. Nas II crónicas descrevi o que aconteceu aqui em 2018, em Ailok Laran, com a desgraçada Prety, a cadela cá de casa que, num abrir e fechar de olhos, desapareceu do mapa. Foi chorada a sua sorte como tendo sido vítima de um caçador e comerciante de carne de canídeo, cuja alcunha é “cara de cão”.

Hoje, o que vi, veio confirmar esta crença “ver para acreditar”.

A Umbelina, uma moça da montanha de Liquiçá que vive connosco para estudar na UNTL, veio chamar a atenção que estava ali um cão morto. Verificado o óbito do animal, depressa reconheceram que era o cão do Ti Carlos, um vizinho aqui ao lado, que prontamente o procurou e arrastou até à berma do caminho que passa junto a estas casas. Chamou um rapaz da vizinhança, e apontou para o bicho dizendo: "se vos interessa levai e comei.” 

E assim foi. O jovem pegou no animal e levou não sei para onde a fim de ser chamuscado, lavado e preparado para o petisco. Qual visto e carimbo de veterinário, qual quê?! Está morto, e o seu corpo foi levantado do local sem autorização do delegado de saúde. Sem autópsia que explique a causa da sua morte, sem qualquer outra justificação. Vai ser devorado por apetites desenfreados, que nem sequer pensam que o “cão é o animal mais fiel ao homem.”

E, perante a nossa repugnância por tal facto, ainda gozam connosco convidando-nos para saborear esta iguaria. 

- Ti Rui, quer comer que eu vou comprar?

Não! Não quero que a minha mente e o meu corpo se alimentem de tais afetos e sentimentos. Prefiro ementas saudáveis e sem escrúpulos de consciência. Prefiro guardar memórias daqueles animais de estimação que tanto nos ajudaram brincando connosco, fazendo-nos companhia durante anos, dias e horas. Boas lembranças destes amigos que, mesmo ausentes, nos detectam seja onde for, graças ao seu sentido apurado do olfato.

13.04.2019, sábado - Histórias e mais histórias... Ainda o barlaque

Hoje, ao pequeno almoço, tivemos um suplemento extra: histórias que são ou foram realidades, integradas no contexto cultural deste povo timorense. Ainda enquanto bebíamos o café, uma senhora chamou por alguém da casa, e coube ao Eustáquio atendê-la, pois estava próximo do chamamento. 

Era a mãe de um rapaz que lhe vinha pedir para ser negociador da família, no pedido de casamento. O Eustáquio como já referi noutros relatos, é muito solicitado para tal múnus, e tem por isso uma larga experiência nestas negociações. Não aceitou por sobrecarga de trabalhos em mãos, mas indicou alguém para o fazer.

Foi então que o Eustáquio e o Gaspar começaram a contar histórias e mais histórias
ligadas a este evento que antecede o “Barlak” (ou barlaque, em português). O Gaspar diz que, com 21 anos, foi o negociador do seu irmão Zé, o mais velho dos sete manos. Ele também sabe, mas nada que se compare com o Eustáquio. Dizem eles que nenhuma conversa se faz diretamente. É tudo por metáforas, o que exige do negociador uma agilidade mental vonsiderável. Ele tem de entender o que o outro negociador lhe diz por imagens, assim como o seu interlocutor tem de entender as que ele utiliza. 

Por exemplo: "estando eu a regressar de uma longa viajem, passei por aqui e encontrei uma árvore frondosa, carregada de mangas saborosas, etc, etc...” 

Tudo depende da imaginação e do sentido poético dos negociadores. Tudo podem dizer excepto insinuar ou ofender qualquer das partes envolvidas. É uma verdadeira obra de arte.

Os relatos destas negociações darão matéria suficiente para uma verdadeira obra literária. O Gaspar até disse que um dia iria tentar fazer uma gravação (com a devida autorização), tendo em vista uma publicação escrita.

Normalmente, chega-se sempre a bom termo nestas negociações. Como sempre, pede- se mais do que o que se vai receber. Mas o bom senso dos negociadores encontram sempre uma boa solução, que é o meio termo. O negócio envolve dinheiro e bens.

Aqui em Timor são os kraus (bois), os fahis (porcos), as bibis (cabras e cabritos) e os manus (galos). E muitas famílias criam estes animais quase exclusivamente para estas ocasiões. Há que evitar as multas que podem advir por má negociação, nomeadamente qualquer palavra ou atitude que ofenda a família da futura noiva, e que se podem traduzir no dobro do que têm de pagar ou de dar.

Quem sabe, sabe. E vivam os negociadores!...

(Revisão / fixação de texto, negritos, itálicos,  título: LG)
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Nota do editor LG:

(*) Último poste da série > 23 de junho de 2026 > 23 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28126 : III Viagem a Timor-Leste: 2019 (Rui Chamusco /ASTIL) - Parte IX : semana de 1 a 7 de abril de 2019: há mais de 40 mil timorenses a pedir a nacionmalidade portuguesa

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28146: Álbum fotográfico do Padre José Torres Neves, ex-alf graduado capelão, CCS/BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71) - Parte XXXVII: Ramadão de 1970: celebração do Korité (ou Eid al-Fitr, em árabe), o fim do jejum ritual (fotos de 8 a 14)



Foto nº 8 e 8A
 

Foto nº 9






Foto nº 10, 10A, 10B, 10C e 10 D





Fotos nº 11, 11A, 11B, 11C


Foto nº 12


Foto nº 13 E 13A




Foto nº 14, 14A e 14B

Guiné > Região do Oio > Mansoa > 30 de novembro de 1970 > Celebração do Korité (ou Eid al-Fitr, em árabe) que marca o fim do Ramadão (o mès sagrado). Homens, mulheres e crianças participam segundo os costumes locais, formando grupos distintos. Militares e civis portugueses assistem à festa como observadores, num raro testemunho fotográfico da convivência entre a administração portuguesa e a população muçulmana da vila, em plena guerra (*).

Fotos do álbum do Padre José Torres Neves, antigo capelão militar.

Fotos (e legendas): © José Torres Neves (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Continuação da publicação de um lote de 14 fotos ("slides" digitalizados) do alferes graduado
capelão José Torres Neves, nosso grão-tabanqueiro, que pretenceu à CCS/BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71)


De um modo geral, estas imagens são muito interessantes (embora já comuns no nosso blogue), quer do ponto de vista etnográfico, quer histórico. O padre José Torres Neves revela aqui a sua empatia, capacidade de observação participante, espírito ecuménico e sensibilidade sociocultural.

Em 1970, Mansoa encontrava-se relativamente segura, embora a guerra estivesse bastante próxima. Estamos na região Oio. Mas ia-se, com relativa segurança, de Bissau a Mansoa (c. 60 km). E nunca houve, praticamenmet, nenhuns casos muito graves de terrorsimo urnavo (com exceção de Farim enm 1965 e depois em Bissau, já no fim da guerra).

É significativo que uma festa muçulmana pudesse decorrer com esta dimensão pública, e sem nenhum dispositivo militar de segurança.  Estas imagens podiam ser usadas pelas NT contra a propaganda do PAIGC...

Também mostram, pro outro lado,  que as autoridades portuguesas, incluindo os capelães militares como o padre José Torres Neves, assistiam frequentemente às festividades religiosas das populações locais, num espírito de convivência e observação que muitos deles registaram em fotografia (como é o caso dos nossos camaradas Abílio Duarte,  António Marreiros, Armando Fonseca, Armando Oliveira, Arménio Estorinho, Jorge Pinto, José Carvalho, Luís Mourato Oliveira, Vasco da Gama) e/ou em cmentários e observações como os  nossos amigos Cherno Baldé e Cataraina Meireles. entre outros.


2. Sobre algumas destas fotos pode acrescentar-se o seguinte:

Fotos nº 8 e 10:  As mulheres e crianças participam, mas à parte. Os "tugas", curiosos, misturam-se também com os crentes. A Fotio nº 8  mostra um pequeno grupo de mulheres muçulmanas, quase todas envoltas em grandes panos brancos. 

Esse branco  (nas vestes de mulheres e homens) tem um significado simbólico importante: é a cor da pureza, da alegria religiosa e da festa. Muitos terão vestido a sua melhor roupa para o Korité (ou Eid al-Fitr), assinalando o fim do Ramadão. Sob o pano branco veem-se vestidos coloridos, como o da mulher em primeiro plano, revelando o gosto africano pelos tecidos estampados.

É interessante notar que os rostos permanecem descobertos. Isso corresponde aos costumes locais da Guiné-Bissau, onde, mesmo entre Mandingas e Fulas muçulmanos, nunca foi habitual o uso do véu integral como noutras regiões do mundo islâmico.(Mas já vemos hoje no Gabu sinais do regersso do fundamentalismo religioso, pelo menos a nível do vestuário feminino.)

Já na foto nº 1 e 2 do poste anterior (*),a separação dos grupos é ainda mais evidente. Essa disposição não significa propriamente uma segregação  socioespacial rígida, mas antes o respeito pelas normas sociais e religiosas da época. Nas cerimónias públicas, sobretudo depois da oração, homens e mulheres tendiam naturalmente a formar grupos distintos, embora todos participassem na mesma festividade.

Vejam-se tambéma as res stantes fotos nº 9, 10, 11, 12, 13 e 14:
  • homens sentados ou reunidos,  muitos vestidos de branco;
  • mulheres agrupadas um pouco mais atrás, formando um conjunto próprio;
  • crianças circulando livremente entre os adultos;
  • e, ao fundo, alguns militares e civis portugueses observando discretamente ou fotografando (fotos nº 10, 11, 13).

Na Foto nº 13, está o César Dias, fur mil trms da CCS (de camisinhja branca e ósiuclos escuros), mais o  Américo Caetano fur mi,l  da CCAÇ 2587/BCAÇ 2885 (Mansoa, Jugudul, Mansoa, 1969/71).
 
É um pormenor curioso, a  atitude dos "tugas"... Não há ali qualquer sinal de tensão. Pelo contrário, parecem simples espectadores, quase "turistas".  Alguns usam camisa de manga curta, outros óculos de sol, e misturam-se com naturalidade entre a população. Em Mansoa, em 1970, isso era ainda possível. Apesar da guerra estar presente na região, o núcleo urbano continuava a manter uma vida social relativamente aberta, permitindo este tipo de contacto. 

Também a arquitetura merece referência. As casas circulares de cobertura de colmo coexistem com edifícios de planta retangular e cobertura metálica, mostrando uma Mansoa em transição entre a construção tradicional e a influência urbana trazida pela administração colonial.

 Destaque para a foto nº 14, e os comentários já aqui produzidos pelo Cherno Baldé, em 2023  (ao poste P24207)(**):

(...) "Na parte final da reza tem lugar o que chamam de 'Cutuba' ou Sermão com a participação de um grupo seleto de discíplos e pessoas dedicadas a causa da religião na comunidade, todos do sexo masculino, durante o qual é revisitada a longa história do Islão dos primórdios a actualidade, incluindo partes do período Judaico e dos textos do antigo testamento do Cristianismo com particular destaque as peripécias do antes, durante e após a fuga dos Hebreus do Egipto e a épica ou mitológica travessia do Mar Vermelho com o Profeta Moisés (Mussa,  para os Árabes) a frente da nação rumo ao deserto do Sinaí e que culmina com a vida e obra do Profeta Muahammad.

Esta parte é a mais importante, mas também é a mais monótona e menos interessante para a rapaziada que já está com os sentidos voltados para as comidinhas que, entretanto, estariam a preparar em casa de maneiras que, não raras vezes, só ficam os mais velhos a acompanhar esta longa narrativa prenhe de recomendações dogmáticas sobre a religião, a vida em comum e a necessidade e fundamentos da preservação dos ensinamentos e da tradição islámicas, a bem da comunidade" (...). (**)

No conjunto, estas imagens têm um valor documental notável. Não retratam apenas uma cerimónia religiosa: mostram a convivência, durante a guerra, entre uma população maioritariamente muçulmana e militares portugueses que assistem, como vizinhos, convidados ou curiosos, sem interferirem na celebração. São um testemunho raro de um quotidiano que a historiografia militar nem sempre regista, mas que ajuda a compreender a complexidade das relações humanas na Guiné daqueles anos. E mais: têm um valor ecuménico, numa época em que crescem os sinais de islamofobia.