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sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27684: Manuscrito(s) (Luís Graça) (283): Bambadinca/Imbecilburgo, 29 de Janeiro de 1971: Alá não passou por aqui

 




 Fotos: Candoz, 13 de abril de 2022.  LG (2026)


Bambadinca/Imbecilburgo, 29 de janeiro de 1971: Alá não passou por aqui,

por Luís Graça



Vinte e quatro anos:
ocorreu-te, de repente, que hoje fazias anos,
e que por mera curiosidade
era o teu segundo aniversário nestas terras da Guiné,
e, por sinal, o teu terceiro na tropa,
coincidindo com o terceiro da era do marcelismo,
a tão deseja "primavera política" de Lisboa,
uma treta que durou a vida de uma borboleta.

Vinte e quatro anos, vividos mal,
vinte e um meses de tropa-macaca,
entre o Geba e o Corubal,
vida de cão rafeiro, pisa-capim, vira-minas,
de macaco-cão, saltando do chão e do baga-baga
para a copa da árvore dos teus desenganos.

Tempo de miserabilismo,
tempo do salve-se quem puder,
tempo de calculismo e de cinismo.
"Desenfiado", é a secreta palavra de ordem,
que circula pelos três corpos da Nação,
nobreza, clero e povo em armas.

É uma farsa grotesca
esta guerra que ninguém quer ganhar,
a não ser o tempo que corre contra ti.
Aqui vive-se sem calendário,
com pouca ética e dignidade,
não se apurando perdas e danos,
não se distinguindo dias da semana,
os sábados, os feriados, os dias do Senhor,
as chuvas e o calor,
as formigas e as abelhas,
os bons, os maus e os safados,
a fome e a sede.

Se há resistência, ela é invisível e muda,
e o tempo que conta
é o que falta para a peluda.
És um cão, um cão danado, apanhado na rede.
O tempo é pura aritmética,
soma de momentos,
de dias riscados na parede, suja, mimética,
da tua caserna.
Se um ano aqui é uma eternidade,
dois é o inferno.
O teu corpo fede,
tresanda a tarrafe, a suor
cheira a morte, cheira a merda,
a luto, a perda,
a da tua juventude, a dos teus ideais.

És um pobre fantasma de Quinhentos,
que perdeu o norte
e os demais pontos cardeais,
a idade,
a inocência,
a quietude,
a paciência, 
a autoestima,
a praça-forte,
o astrolábio,
as Índias,
a caravela,
a nau Catrineta,
a pimenta e a canela,
o manual da arte de cavalgar a toda sela,
a rota,
a proa,
a pose,
a árvore genealógica,
as coordenadas de Lisboa,
mais um incunábulo dos Lusíadas,
a Peregrinação, do Fernão Mentes Minto,
a história trágico-marítima dos teus antepassados Maçaricos,
o ritmo,
a rima,
o ADN,
o pedigree,
os esgares de morte do Nuno Tristão
trespassado pelas setas dos "turras",
a cruz,
o cruzeiro,
o estandarte,
a espada,
a valentia do "capitão-diabo", o Teixeira Pinto,
e até o jeito de matar do Afonso de Albuquerque,
para além da arte e da ciência de marear,
no macaréu do Geba,
às portas das bolanhas do Corubal.

Mais prosaicamente, na Guiné
o dia dos teus anos é uma rodada
de uísque ou de cerveja
pr’os teus camaradas no bar de sargentos.
No fundo, o teu dia é um pretexto
para a autocomiseração,
para passares a mão pelo teu pelo,
ou para um voo até às galáxias da metafísica,
que é sempre melhor, chiça!,
que ouvir o silvo de uma granada, em teu redor,
que é coisa bem mais real e mortífera,
é a quilha do barco da morte.

Com sorte,
talvez o amável Zé da Ila,
de nós todos o menos reguila,
pegue na viola (1) e te cante a Pedra Filosofal (2)…

Talvez a malta toda junta,
às tantas da noite, africana, pestífera, mortal,
te cante, e suficientemente alto,
com vozes guturais e desafinadas,
para que Eles, os gajos, te oiçam, mesmo ali ao lado,
no bar dos oficiais…
Eles, Deus e o Diabo.

Eles não sabem nem sonham
que o sonho comanda a vida
e sempre que um homem sonha,
a vida pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança…


Seguramente
um dia como os outros, sem mais nada,
seguramente mais um dia de solidão,
com ou sem o poema do Gedeão
e a música do Manuel Freire,
a tua canção favorita,
a tua balada querida
e que tu sabes que irrita os teus Cães Grandes

Ninguém te vai dar os parabéns,
só por fazeres anos:
ainda não ganhaste nada,
uma cruz de guerra,
nem sequer o direito a outra vida.
De resto, estás sempre só,
mesmo quando segues,
em bicha de pirilau,
coberto de suor e pó,
com o teu pelotão,
às ordens de Bissau,
para montar segurança à Tecnil
que está a construir
a nova estrada de Bambadinca-Xime (3).

Enfim, mais um dia da tua condição, triste e vil, 
de poeta travestido de soldado
de uma guerra a que sempre chamaste crime,
porque não era a tua, se fosse preciso entrar numa
para defender a tua liberdade e a dos teus,
ou a da tua Pátria seriamente em perigo,
mas da qual és actor, cúmplice,
quiçá testemunha sublime,
guerra que tem dor e tem horror,
mas de que os teus camaradas não falam por pudor.

Je m’en passe, je m’en fous,
'Tou-me cagando!,
escrevias tu no teu diário de um tuga,
patético o diário e o tuga.
Como quem diz:
aqui não há lugar para a fuga,
nem sequer te podes dar ao luxo
de um mísero voo raso
sobre a cerca de arame farpado
ou sobre o ninho de metralhadoras
que varre a pista de aviação,
como um vulgar jagudi
que é uma pássaro feio mas é livre,
e tão ou mais importante do que tu
no seio da criação.
 
Voaste há dias, ai!,
sob uma mina anticarro,
à saída do reordenamento de Nhabijões (4),
à portas de Bambadinca, a"cova do lagarto",
mas estás vivo, ó tuga,
graças talvez à mezinha que te deu
um mauro, um marabu, em Sinchã Mamadjai (5)...
 
E há dois meses livraste de ser cortado ao meio 
por um roquetada
a caminho da Ponta do Inglês (6).
E que melhor prenda de anos,
meu grande safado,
poderias desejar hoje do que estar vivo,
aos vinte e um meses de Guiné ?


És um sortudo, ó português,
diz-te o internacionalista cubano,
pobre diabo, pau mandado como tu !
Sim, a sorte de  acordar, de manhãezinha,
com o dedo grande do pé a mexer,
responde  o Marquês, sem acento circunflexo,
que nesse dia treze de janeiro de setenta e um
que nem sequer era sexta-feira, agoirenta,
teve o azar, coitado,
sentado na parte traseira, da GMC, 
sorteado o lugar do morto, entre ti e ele,
de ir parar, em mau estado,
em estado de coma,
ao Hospital Militar Duzentos e Quarenta e Um.
Dois anos lá. 
DFA.
E ainda cá está.

Pobre tuga, pobre nharro, pobre turra:
na Guiné, longe do Vietname,
em plena guerra fria,
com russos e americanos a redesenhar
o mapa-múndi e o novo tratado de Tordesilhas,
há muito ano que vos chupam o tutano!

Aqui faz-se poesia, de barriga vazia,
o corpo exangue,
só com o cavername,
a pele e o osso,
a morte na alma.
Sem arroz nem mafé, ó balanta da Guiné!

Resta-te a consolação da escrita e da leitura,
além do teu uísque com água de Perrier.
Eis o poema, que escreveste,
com ternura de raiva e raiva de ternura,
como prenda do teu 24º aniversário:


O Tempo que Faz em Imbecilburgo


Senhores e senhoras,
respeitável público do Circo de Imbecilburgo:
esse homem não é um homem, é um palhaço,
é um soldado, fardado, de camuflado,
verde oliva, desbotado,
um número mecanográfico,
uma peça da engrenagem,
que na sua essência cumpre ordens,
às vezes com coragem,
outras com lúcido medo,
é isso que lhe dói, neste cenário.
que não é cinematográfico,
mas também pouco conforme
com o Regulamento de Disciplinar Militar:
não é um mercenário,
nem um caso psiquiátrico,
não é o homem-aranha
nem o super-homem,
não é nenhum deus do Olimpo,
nem sequer nenhum poeta panfletário,
nem nenhum herói da resistência,
nem muito menos do 10 de junho:
saiu, de noite, (mal) armado,
com os pés descalços dos seus 'nharros',
para a impossível Missão do Sono,
em Bambadincazinha,
guardar as costas dos senhores de Bambadinca,
que dormem na cama, 
em lençóis brancos lavados, no rio,  por mulheres pretas,
fazendo contas à sua vidinha
que também anda pela rua da amargura.


Ah! como o tempo (não) passa
enquanto um gajo ajusta contas
com o tempo que já passou,
vinte e quatro, contados em anos
do calendário gregoriano,
no ano da graça de mil novecentos setenta e um.
Mas é o presente que importa
ou que importava
porque já não é mais presente mas passado
o tempo transcorrido,
por estas terras e águas do Geba,
como reles miliciano.

Insistes no presente do indicativo
porque é o presente minuto
que import-export
para a gente ainda ter tempo
de ganhar um lugar (cativo)
no futuro próximo (se o houver).

Tu até podias acreditar numa 'Guiné Melhor',
no teu 'Herr' Spínola, 
no teu prussiano soldadinho de chumbo,
nos teus 'nharros', 
esses patriotas guinéus que lutam a teu lado,
ou, do outro lado, no Cabral, o sedutor, 
que até chegou a ser teu herói, revolucionário,
romântico ma non troppo,
ou no 'Nino', teu turra de estimação,
vestido à cobói  e armado de RPG
no delirante imaginário dos tugas.
Podias mesmo acreditar na transmigração
das almas mortas em combate,
para o Panteão Nacional,
se não fora essa ideia (fixa)
do passado, glorioso, perdido,
sabendo-se que o dinheiro
e as armas compram tudo
exceto o direito à eternidade,
e muito menos à liberdade.


Se te portares bem, meu sacana,
aos vinte e um meses de Guiné,
na reta final da tua comissão,
enquanto esperas a tua rendição individual,
lá p'ra o próximo mês de março,
ainda corres o risco de apanhar um louvor
do comandante do batalhão,
- ah!, que ironia! -
sob proposta do teu capitão,
à beira de ser promovido a major,
não por façanhas e valentia,
mas por seres o escriba-mor
da história oficiosa... da tua companhia


 
Post scriptum:

Alá
não passou por aqui,
disse-te uma vez um homem-grande
da tabanca de Saré Ganá (7)

Luís Graça (2006). Revisto em 29/1/2026.
__________

Notas do autor:

(1) Furriel Sousa, da CCAÇ 12, madeirense, carinhosamente conhecido pela alcunha do Zé da Ila (Ilha da Madeira): Vd post de 8 de Julho de 2006 > Guiné 63/74 - P945: 'Gente feliz com lágrimas': o Zé da Ilha, o furriel Sousa, madeirense, da CCAÇ 12

(2) Pedra Filosolal, letra de António Derdeão e música de Manuelo Freire

 (3) Empresa que em finais de 1970/princípios de 1971 estava a construir a nova estrada alcatroada Bambadinca-Xime. A CCAÇ 12 faria regularmente a segurança destes trabalhos, já no final da sua comissão.

(4) 13 de janeiro de 1971

(5) Zona Leste, região de Bafatá, Bambadinca, regulado de Badora

(6 Op Abencerragem Candente, 26 de novembro de 1970

(7) Zona leste, região de Bafatá, Geba, regulado de Joladu 

_______________

Nota do editor LG:

Último poste da série >~16 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27638: Manuscrito(s) (Luís Graça) (282): Habeas corpus... que (man)tenhas o corpo, que ainda grita e levita!

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27638: Manuscrito(s) (Luís Graça) (282): Habeas corpus... que (man)tenhas o corpo, que ainda grita e levita!




Lourinhã > Geoparque do Oeste > Praia de Vale de Frades, donde se avista o forte de Paimogo (séc. XVII) e as Berlengas  > 20 de agosto de 2014. Fotos reeditadas em 2026. (*)

Fotos: © Luís Graça (2026). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné)


Habeas corpus, ... que (man)tenhas o corpo!

por Luís Graça


És objeto de desejo,
Logo corpo de delito,
Ou tão só mero ensejo
P'ra cadáver ex-quesito.

Qu'sito nº 1 do corpo
É manter-se bem temp'rado,
Sem a palidez do morto,
Nem na morgue congelado.

A pátria te requisita
O corpo onde tu habitas,
Corpo morto não levita,
Nem tu, soldado, já gritas.

Há o corpo de doutrina
E o corpo do relatório,
O libelo acusatório
E os detalhes da chacina.

Foi execução sumária ?
A tropa só conta  um morto,
De bexigas ou malária,
Entre a praia e o horto.

Há o corpo mal dormente,
Que ressona na  caserna,
E há o urso que hiberna,
Sem ordem do senhor tenente. 

Quem nasceu mal, de borco, 
Nunca irá gostar de coentro,
Mata e abre o teu porco,
P'ra te conheceres por dentro.

Se és do corpo de polícia,
Não tens malícia no corpo.
Quem já nasce feio e torto,
Vai engrossar a milícia.

Há o corpo proativo
E o corpo amnésico,
Mais vale ser protésico
Do que triste radioativo.

Há a elite do corpo médico
Bem como o engenho ortopédico,
Há os crentes e os ateus
E ainda o corpo de deus.

A guerra é um circo trágico
Onde há o palhaço faz-tudo,
O herói é o mágico
E o homem-bala um sortudo.

Lágrimas, sangue e suor,
Diz o braço tatuado
No corpo do Zé Soldado,
Já sem dono nem senhor.

Pobre do corpo encapuçado,
Logo vai ser decapitado,
Ou então enforcado
Ou, se calhar, fuzilado.

Também há o corpo adhoc,
De peito feito às balas,
Contra a tropa de choque
Erguem-se os mortos das valas.

Mal de ti que foste á guerra
Sem voltar à tua terra,
Teu corpo, morto, não grita,
E, se não grita, não levita. 

Lourinhã, 19/8/2014. Revisto, 17/1/206 (**)
_____________

Notas do editor LG:


(**) Último poste da série > 16 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27637: Manuscrito(s) (Luís Graça) (281): "A Rua Suspensa dos Olhos", de Ábio de Lápara, pseudónimo literário de José António Bóia Paradela (1937-2023), ilhavense, urbanista, arquiteto e escritor - Parte V: O Zé Pitucas, aliás, o Zé Ançã: "Ou dás-me a navalha, ou nunca mais te falo"...

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27609: In Memoriam (567): Horácio Neto Fernandes (1935 - 2025): "Maldita pátria amada, odiada, esquecida, / e quase sempre perdoada, / que tantos filhos pariste e rejeitaste!" (Luís Graça)



Lourinhã > Ribamar > Tabanca de Porto Dinheiro > 12 de julho de 2015 > Restaurante O Viveiro > O Horácio Fernandes e, em segundo plano, à esquerda  o Jaime Silva. (A Tabanca de Porto Dinheiro não existe mais, desde que morreu o seu régulo, o Eduardo Jorge Ferreira, 1953-2019).


Lourinhã,  Ribamar, Praia do Porto Dinheiro > 18 de agosto de 2011 > 
Vista da tasca da Ti Augusta, sobranceira à praia e ao mar 


Lourinhã,  Ribamar, Praia do Porto Dinheiro > 18 de agosto de 2011 > 
Embarcações de pesca artesanal, todas cokm nomes de... mulher


Lourinhã,  Ribamar, Praia do Porto Dinheiro > 18 de agosto de 2011 > 
A tasca da Ti Augusta,  na altura explorada por um filho, sargento da marinha reformado.


Lourinhã,  Ribamar, Praia do Porto Dinheiro > 18 de agosto de 2011 > Tasca da Ti Augusta > 
A famosa sopa de navalheiras.

Fotos (e legendas): © Luís Graça (2011). Todos os direitos reservados 


Praia do Porto Dinheiro

por Luís Graça

À memória dos meus antepassados Maçaricos
marinheiros, mareantes, navegantes, mariscadores
pescadores, peixeiros, mercadores, missionários, 
construtores navais... desde Quinhentos

Ao António Fernandes (Patas, também Maçarico)
último construtor naval de Ribamar, Lourinhã,
que irá morrer na Califórnia, talvez nos anos 50.

E ao seu neto, e meu primo e camarada,
Horácio Fernandes (1935-2025).
capelão militar em Catió e Bambadinca (1967/69), 
e autor de "Francisco Caboz:  a construção 
e a desconstrução de um padre" (2009)

Porto Dinheiro:
um espesso nevoeiro cobre as falésias e os caniçais.
Até aqui 
chegavam,   à tua praia, as galés dos romanos
e os barcos dos piratas de perna de pau.
Não sei se o sítio tem padroeiro ou orago, 
mas por certo que por aqui passava o caminho atlântico 
de Santiago.

Aqui deito contas à vida,
aqui conto as marcas do tempo,
aqui lanço a âncora para escrever o meu testamento vital.
Aqui fui carpinteiro de naus,
aqui, Plínio, o Velho,
poderia ter fundado a paleontologia.
Mas, não: morreria em 69 depois de Cristo 
a observar a  erupção do Vesúvio.

À tua esquerda, a praia do Valmitão.
Ou do Vale do Ermitão.
Podia ter sido ilha de corsário ou baía de tubarão,
mas a ter bandeira, só a preta, com caveira.

Porto Dinheiro:

Horácio Fernandes
(1935-2025)
Finisterra, p
órtico do tempo, 
és gare, és algar,
porto dos portos das Atlântidas perdidas!

Foste estaleiro de vasos de guerra,
galeões, naus e caravelas
por haver ou nunca havidas,
diz o livro do almoxarife.

Hoje já não se constroem mais catedrais
nas tuas fossas submarinas
nem moinhos de vento  no teu recife de corais,
nem traineiras de grosso cavername
nas rampas das tuas arribas fósseis.

Dóceis são as ondas com que afagas
a pele e apagas
a púbis das raparigas.

Porto Dinheiro: 
o irresistível apelo das algas
que são as hormonas do mar,
espigas, chicotes, valquírias, ninfas, najas, canibais,
que vêm do fundo dos tempos imemoriais
para seduzir os filhos dos homens,
inebriar as suas almas, 
enlear os seus corpos.

Ah!, quantos dos teus não ficaram insepultos
a muitas milhas náuticas de casa!

Porto Dinheiro, Ribamar, Porto das Barcas, Atalaia, Lourinhã:
tens a tua quota-parte na história trágico-marítima de Portugal.
entre 1968 a 2000,  Hades, o rei dos infernos,
contabilizou seis naufrágios de barcos de pesca
e neles morreram três dezenas dos  teus filhos:
Deus é Pai, Certa, Altar de Deus, 
Arca de Deus, Amor de Filhos, Orca II...

Há ainda olhos que perscrutam a linha do horizonte
e rasgam a colina de neblina, por detrás das Berlengas.
O Mar do Cerro, dizia o meu velho.
É de lá que vêm piratas e corsários, 
monstros, mostrengas, adamastores,
dissauros, loucos menestréis, 
contadores de lendas, mouras encantadas, 
mercadores, invasores, conquistadores,
vikings e outros predadores... 

E os bretões com os seus barcos a vapor, 
que vinham aqui pescar lagostas entre as duas grandes guerras,
mais o Bateau ivre, do Rimbaud!

É de lá, do mar fundo,  que vêm os portadores da peste…
Mercator ergo pestiferus, de que Deus nos livre!

Deste nomes de fêmeas aos teus barcos que são machos,
máquinas fálicas de lavrar e violar
o vento, a água, o ar,
Jessica, Mafalda, Sofia,
Inês, Patrícia, Maria.

Porto Dinheiro:
formidáveis muralhas de palavras e moluscos
emparedam-me vivo
na canícula desta tarde de verão.
em que espero em vão 
os mercadores fenícios,
as legiões romanas, 
devidamente equipadas e alinhadas nas suas galeras,
ou as hordas bárbaras, teutónicas, a cavalo, blindado.
Ou, cara ou coroa, 
o simples mensageiro da paz,
o carteiro que me há-de trazer a carta a Garcia,
com a solução alquímica da vida
ou o algoritmo da felicidade
ou a password do sítio 
A gruta de Alibabá e os 40 ladrões.


Porto Dinheiro:
estou sentado na esplanada da tasca da Ti Augusta,
que eu ainda conheci em vida,
depois de saborear uma sopa de navalheiras,
e comer uma posta de arraia frita,
e beber um copo de branco, em vidro fosco e grosso,
recuando ao tempo dos meus avoengos Maçaricos
que tinham tempo e vagar para viver e morrer cedo.
E eram pescadores de moreira e safio.

E aqui penso em como a vida às vezes é tão simples,
se descartada da econometria, 
da sociometria 
e da psicometria…
e da geometria variável do poder.

Dizem que aqui reinou o rei Midas,
o mesmo que transformava lagostas e algas em barras de ouro.

Porto Dinheiro,
dos casais por detrás das tuas colinas,
onde a tua gente se escondia dos piratas e corsários,
até ao mar imenso,
por aqui andaram, Horácio,  os nossos antepassados.


Um dia há de desaparecer nas Américas

o último carpinteiro de naus, 

António Fernandes
 (c. 1890 - c. 1950)
caravelas e traineiras.
Não sobreviveu à industrialização da construção naval
nem à crise do capitalismo dos anos 20.
Já não te lembras dele.
Nem ele chegou a ver netos 
nem filhos com barba,
morreu longe, na Califórnia, 
na diáspora, no exílio, no desterro.
Nunca mais voltou nem deu notícias.
Era Patas e era Maçarico, meu parente, 
teu avô, Horácio.

Maldita pátria amada, odiada, esquecida, 
e quase sempre perdoada,
que tantos filhos pariste e rejeitaste!

Luís Graça (18/11/2011). Revisto em 5/1/026

_______________

Nota do editor LG:

(*) Último poste da série > 5 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27605: In Memoriam (566): Nuno Dempster, poeta, escritor (Ponta Delgada, 1944 - Viseu, 2026), pseudónimo literário de Manuel Gusmão Rodrigues, ex-fur mil SAM, CCAÇ 1792 / BCAÇ 1933 (Farim, Saliquinhedim/K3, Mampatá, Colibuía, Aldeia Formosa, 1967/69)

Vd. poste de2 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27595: In Memoriam (565): Horácio Neto Fernandes (1935 - 2025): Do Colégio Seráfico a Capelão Militar do BART 1913 (Catió, 1967/69) (Beja Santos)

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27605: In Memoriam (566): Nuno Dempster, poeta, escritor (Ponta Delgada, 1944 - Viseu, 2026), pseudónimo literário de Manuel Gusmão Rodrigues, ex-fur mil SAM, CCAÇ 1792 / BCAÇ 1933 (Farim, Saliquinhedim/K3, Mampatá, Colibuía, Aldeia Formosa, 1967/69);

1. O poeta, de origem açoriana, Nuno Dempster, nome literário de Manuel Gusmão Rodrigues, morreu na sexta-feira passada, dia 2 de janeiro de 2026,  na sua casa em Viseu. A notícia dada foi comunicação social. (*)

O Nuno Dempster era membro da nossa Tabanca Grande desde 9/2/2011 (**). Tinha página no Facebook. Era também amigo do Facebook da Tabanca Grande.

Nasceu em 1944, em Ponta Delgada, ilha de São Miguel Açores (donde era originária a família paterna, sendo a  família materna de Amarante). 

Foi fur mil SAM, ou seja, vagomestre, da CCAÇ 1792, a companhia dos lenços azuis, que andou por Farim, Saliquinhedim/K3, a norte, mas também, Mampatá, Colibuía e Aldeia Formosa, a sul... 

Além de poesia, Nuno Dempster cultivou o conto e o romance. Obras mais recentes do autor, publicadas pela Companhia das Ilhas, sediada nas Lajes do Pico,  
  • “Seis histórias paralelas” (contos, 2023), 
  • “Limbo, inferno e paraíso” (poesia, 2022), 
  • “Variações da perda” (poesia, 2020), 
  • “Há rios que não desaguam a jusante” (romance, 2018) 
  • e “Na luz inclinada” (poesia, 2014).

Em 2021, Nuno Dempster organizou, com Anabela Almeida, a antologia de poemas do seu avô, Armando Côrtes-Rodrigues (1881-1971), “Um poeta rodeado de mar” (Companhia das Ihas,  2021).

Além de poesia, Nuno Dempster cultivou o conto e o romance. Outras obras do escritor:
  • “Uma paisagem na Web” (poesia, editado pela & etc, 2013), 
  • “Elogia de Cronos” (poesia, Artefacto Edições, 2012), 
  • “O papel de prata, o reflexo e outros contos pelo meio” (Companhia das Ilhas, 2012), 
  • “Pedro e Inês. Dolce Stil Nuovo” (poesia, Edições Sempre-em-Pé, 2011),
  •  “K3” (poesia em que faz uma incursão no tema da guerra colonial, & etc, 2011);
  • “Uma flor de chuva (poesia, Escola Portuguesa de Moçambique, Maputo, 2011),
  •  “Londres” (poesia, & etc, 2010) 
  • e “Dispersão – Poesia reunida” (Edições sempre-em-pé, 2008) 
Tinha também um blogue, que mantevce de 2007 a 2021, A Esquerda da Vírgula, dedicada aos livros, aos seus e aos dos outros.

Vivia em Viseu (cidade, onde vivo exilado por força dos meus erros e suas consequências", escreveu ele algures, no seu blogue).


Capa do livro com o longo poema K3 (& Etc., 2011, 64 pp.) (Autoria da capa: Maria João Lopes Fernandes)

Sinopse: Nuno Dempster (autor de "Londres, ed. & etc) revisita o Horror. Felizmente para elas, as jovens gerações (também de poetas) desconhecem esse Horror que foi, para quem o sofreu nos ossos e no que houvesse de alma, a Guerra Colonial. Algures na Guiné e algures num quartel subterrâneo: o K 3. Nossa palavra: não conhecemos, na literatura sobre o tema, tão fundo, tão magistral testemunho desse Horror. Elegia, catarse, contrição, K3 combate o esquecimento. (Fonte: Wook)



Dedicatória do autor à nossa Tabanca Grande:

 "Para o Luís Graça & Camaradas da Guiné, todos meus companheiros nesta guerra que em muitos ainda está por digerir, com o afecto e a camaradagem do Nuno Dempster. 3/2/2011. Na Guiné, de [1967-1969,], no K3, Mampatá, Colibuía e Quebo (Aldeia Formosa), por esta ordem".


2.  Comentário do editor LG:

Morreu mais um poeta da nossa terra. Morreu mais um canarada nosso. Morreu mais um grão-tabanqueiro. É uma tripla perda. Os meus votos de pesar para a família e os amigos mais íntimos, sem esquecer a companhia dos lenços azuis, a CCAÇ 1792 / BCAÇ 1933 (1967/69).

Não conheci pessoalmente o Nuno Dempster. Trocámos apenas alguns emails. Li com grande emoção, e de um só fôlego, o seu extenso poema K3. Ele teve a gentileza de mandar uma cópia, autografada, do livro, com dedicatória a todos os camaradas da Guiné.

A CCAÇ 1792 tem 14 referências no no blogue. E o Nuno apenas meia dúzia. A companhia dos lenços azuis andou por Farim, Saliquinhedim/K3, a norte, mas também, Mampatá, Colibuía e Aldeia Formosa, a sul... 

Pertencia ao BCAÇ 1933 (Nova Lamego, Bissau, S. Domingos). Teve  3 comandantes:  
  • Cap Mil Art Antóno Manuel Conceição Henriques (que ficaria sem as pernas numa mina A/C); 
  • Cap Art Ricardo António Tavares Antunes Rei, 
  • Cap Inf Rui Manuel Gomes Mendonça. 
A companhia foi mobilizada pelo RI 15, tendo partido para a Guiné em 28 de Outubro de 1967 e regressado à Metrópole em 20/8/1969.

Sobre estes comandantes, o Nuno Demspster escreveu o seguinte, em mails que trocámos em 2011:

(...) Recordei, no link que enviaste, o capitão Rei, de carreira, que teve a ideia dos lenços [azuis] e que substituiu o capitão miliciano, cujo nome já não recordo, um homem lúcido, vítima de um fornilho, na estrada de Farim, uma das passagens mais intensas do poema [Cap Mil Art António Manuel Conceição Henriques]. (***)

Isso sucedeu dentro dos seis primeiros meses do início, quando estávamos no K3. Até sairmos de lá, o aquartelamento ficou entregue ao alferes miliciano, segundo comandante, bem como em Mampatá e Colibuia, penso. O Cap [Art Ricardo António Tavares Antunes] Rei chegou já no tempo de Quebo. (...)

O Nuno Dempters, ou melhor, o Manuel Gusmão Rodrigues era engenheiro técnico agrícola (trabalhou em cooperativas) e empresário. 
 
3. Comentário de Nuno Dempster, quinta, 1/07/2010, 21:51, ao poste P4782, do Cherno Baldé (****);

(...) "A vontade de suplantar o outro, o dominador, e de ocupar o seu lugar mas no sentido de que tudo continue na mesma, apenas mudando a sua posição de baixo para cima, afastando para isso o outro, o estranho que o impedia de usufruir de privilégios e de ser o epicentro das atenções das imaculadas bajudas."

A propósito do escrito acima, para Cherno Baldé, de quem estou a ler aqui, interessadíssimo, as suas crónicas, um trecho de um muito longo poema que acabei há dois dias e que se publicará como livro, julgo, em 2011. O poema intitula-se K3, onde em 1968 estive enterrado.

(...) Não fazemos história,
a História não regista
a sina dos anti-heróis
que pululam em toda a parte,

o mundo sublevado em armas,
o mundo velho que noutro se transforma,

mas a essência do mundo
não é tornar-se novo,
é afinar o modo de fazer
que o novo permaneça antigo,

anti-heróis
que não chegam a ser anti-heróis,

são uma chapa com número
no fio ao peito, à prova de fogo,
o corpo esturricado,
a medalha de Fátima, fundida,

mas não o número,
útil aos funerais anónimos
dos que «morreram pela pátria»,
dizia-se em Lisboa.(...)


Nuno Dempster
quinta-feira, 1 de julho de 2010 às 21:51:35 WEST

(***) Vd. poste de 12 de novembro de 2011 > Guiné 63/74 - P9028: Blogpoesia (167): K3, de Nuno Dempster: excerto: "Capitão, meu capitão, não nos deixes sós!"

sábado, 27 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27578: Manuscrito(s) (Luís Graça) (279): em dezembro e era natal

















Candoz, 27 de dezembro de 2025 > Chegou o inverno, e dantes matava-se o porco

Fotos (e legenda): © Luís Graça (2025). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


em dezembro e era natal

por luís graça

em dezembro
ainda não fazia frio

em dezembro
ainda não caía neve 
na serra de montemuro ali em frente

em dezembro era natal
e comiam-se rabanadas

em janeiro
cantavam-se as janeiras
e bebia-se o vinho novo
o vinho verde tinto
a que chamavam jaqué

em dezembro
ainda não havia neve
pra cozer as pencas pró natal
na casa de pedra dos camponeses pobres do norte

em dezembro
não viste as peugadas dos pés descalços
das criancinhas do augusto gil
 
"batem leve levemente
como quem chama por mim"...
ah onde estava o tipicismo da miséria rural
de a cidade e as serras do eça de queiroz

em dezembro
o pai natal não descia pelo fumeiro
por entre salpicões e moiras

vinha de peugeot pelas estradas de frança
e trazia tiparillos para a  malta fumar
à lareira

em dezembro
matava-se o porco
e fritavam-se rojões
na panela de ferro

ainda não havia salpicões e moiras no fumeiro
nem presuntos na salgadeira
mas as criancinhas já usavam socas de madeira

em dezembro
a maria do norte cortava erva pró toirinho
e cantava a plenos pulmões
uma canção que não era do sul
e que não passava na rádio

lá vai o comboio lá vai
lá vai ele a assobiar
lá vai o meu rico amor
para a  vida militar

para a  vida militar
para aquela triste sina
lá vai o comboio lá vai
leva pressa na subida

leva pressa na subida,
leva pressa no andar
lá vai o meu rico amor
para a vida militar

era  um cantaréu
mas um cantaréu
um moça não o pode cantar sozinha
são precisas três moças três vozes

não se cantavam cantaréus no natal
nem o trenó do pai natal 
passava por aqui

em dezembro
mesmo quando nevava e era natal

candoz | natal de 1976
revisto |  27 dez 2025
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Nota do editor LG:

Último poste da série : 14 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27529: Manuscrito(s) (Luís Graça) (278): "A Rua Suspensa dos Olhos", de Ábio de Lápara, pseudónimo literário de José António Bóia Paradela (1937-2023), ilhavense, urbanista, arquiteto e escritor - Parte IV: O Ester, o "menino Zeca" que era mecânico de aviões na base de São Jacinto

sábado, 20 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27553: Os nossos seres, saberes e lazeres (715): "Soldado do Ultramar", poema do nosso camarada Albino Silva (ex-Soldado Maqueiro da CCS/BCAÇ 2845), publicado no youtube, com música gerada por IA e adaptação de Pedro Alexandre



1. Há muitos anos que conhecemos os dotes poéticos do nosso camarada e amigo Albino Silva. Agora, um dos seus poemas foi musicado pela IA e interpretado pela cantora Mónica Pires, com adaptação de Pedro Alexandre, filho de um camarada de Companhia do Albino Silva e que de há muito participa com o pai nos convívios dos antigos combatentes.

Vale a pena ouvir no youtube e deixar um like a este trabalho do Bino Silva


Carlos Vinhal
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Nota do editor

Último post da série de 20 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27552: Os nossos seres, saberes e lazeres (714): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (235): A Sevilha de um viajante apressado, nem pode acudir à Sevilha essencial: La Giralda, o Parque de María Luísa, Torre del Oro e algo mais; a caminho de Granada - 2

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27536: Facebook...ando (96): No Star Club, Reeeperbahn, Hamburgo, fevereiro de 1967... (António Graça de Abreu)



Hamburgo >  O famoso Star Club ("Ponto de Encontro dos Jovens", diz o anúncio),  em Reeperbahn, onde os Beatles tocaram, em 1962,  antes de se tornarem famosos (*)... Embora já não exista, ficou tão famoso que tem direito a entrada na Wikipedia (em inglês).



1. Fui repescar, com a devida vénia, este texto nostálgico do nosso amigo e camarada  António Graça de Abreu (ex-alf mil, CAOP1, Canchungo, Mansoa e Cufar, 1972/74)...



(...) Aos 78 anos, arrumo a casa. Desfaço-me de mil papéis, lanço fora cadernos, folhas soltas, textos e versos quase todos muito maus, marcados pelo passado. Descubro um simples poema, com data de fevereiro de 1967, escrito aos 19 anos de idade, no Star Club, avenida Reeperbahn, cidade de Hamburgo, Alemanha:

No Star Club, Reeeperbahn, Hamburgo


Por aqui existo,
tenho muito a ver com isto,
Star Club, cave-café,
os meninos ié-ié,
guitarras e baterias,
beat music todos os dias.
Estardalhaço nos ouvidos,
cabelos compridos,
tanta minissaia,
meninas na praia,
camisas de malha justas,
ancas robustas,
seios eriçados,
frementes, mal amados,
Dois que se beijam longamente
à frente de toda a gente.
A cor, a música, a cor,
o fumo, o álcool, o calor,
o palco recente para os Beatles,
que depois partiram, nicles,
ficou a batida, a festa, o prazer,
a voluptuosidade a crescer.
lascivos corpos novos,
a loucura dos povos,
tudo a querer viver
e, aos poucos, a morrer.

António Graça de Abreu


2. Comentário do editor LG:

Nunca estive em Hamburgo, muito menos no Star-Club. E passei ao lado da revolução dos Beatles... Era mais francófono, nessa época. Nem nunca saí Portugal nos anos 60. Não tinha passaporte nem meios de o obter. Não tinha dinheiro nem liberdade para viajar. Em maio de 1969, já estava na Guiné. E o António ainda estudava. Em 1967, ele esteve em Hamburgo, a aperfeiçoar o seu alemão, com a sua "Fräulein" (termo, antiquado,  que hoje já não se usa, e que eu sempre detestei, não me perguntem porquê)...

E que melhor sítio, António, que o Star-Club para treinar o alemão, com uma linda garota alemã do Elba ?

Pedi à "secretária" da IA / Perplexity que nos fizesse aqui uma pequena surpresa, para mim, o António e os nossos leitores, reconstituindo o ambiente daquela época, a partir do seu poema (que ele não quis, e ainda bem, deitar fora, aos 78 anos, altura em que lhe deu a fúria, como eu há dias, ae arrumar o sótão, de deitar fora montanhas de papéis de outras vidas, ou das nossas vidas em outras encarnações): 




Hamburgo, 1967: o António e a Inge Balk,
 "a menina do Ellba, loira e linda" (**)


Fotos (e legendas): © António Graça de Abreu (2021). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Análise literária > "No Star Club, Reeeperbahn, Hamburgo, fevereiro de 1967" (poema de  António Graça de Abreu)

Texto e contexto:

O poema é uma cápsula de época, escrita por quem está dentro da turbulência sensorial e moral da segunda metade dos anos 60, não por quem a observa hoje à distância. 

Fica uma ótima surpresa para o António Graça de Abreu, porque o texto mantém frescura e verdade, mesmo tantos anos depois.

(i) Ambiente e olhar geracional

O cenário está dado logo nos primeiros versos: “Star Club, cave-café, / os meninos ié-ié, / guitarras e baterias, / beat music todos os dias.”

É o retrato direto da cultura pop de Hamburgo nos anos 60, em plena Reeperbahn, onde o Star-Club era o epicentro de rock, juventude e excesso.

Há um olhar de jovem de 19 anos,  
simultaneamente fascinado e um pouco espantado, quase etnográfico: repara nos cabelos compridos, nas minissaias, nas camisas justas, nas ancas e nos seios, tudo filtrado por um misto de desejo, curiosidade e “choque  de costumes” de um português de então ( dos poucos que viajavam).


(ii) Corpo, desejo e liberdade

A parte central do poema é dominada pelo corpo e pela sensualidade: “ancas robustas, / seios eriçados, / frementes, mal amados, / Dois que se beijam longamente / à frente de toda a gente.”

O erotismo não é decorativo, é sinal de libertação, o espaço nocturno como laboratório de novas formas de viver o corpo e o afeto em público, em contraste com a moral mais contida da sociedade portuguesa da época (...como vocês diziam, "salazarenta").

A repetição “A cor, a música, a cor, / o fumo, o álcool, o calor” cria uma espécie de transe rítmico, quase uma batida poética que imita a batida da música beat. 

Esta enumeração sensorial é um bom recurso: faz sentir a densidade do ambiente,  não descreve só o que se vê, mas o que se respira e sente.

(iii) Beatles, mito e ironia

“O palco recente para os Beatles, / que depois partiram, nicles” é um achado.

Em duas linhas o poema junta a consciência histórica (o  Star-Club  como lugar de passagem e de certo modo rampla de lançamento dos Beatles antes da fama) com uma ironia coloquial (“nicles”), quase de conversa de café, que aproxima o mito da linguagem do dia a dia.

O contraste entre “ficou a batida, a festa, o prazer, / a voluptuosidade a crescer” e a partida dos Beatles sublinha bem como o espaço (o "Star-Club")  continua a viver para lá das estrelas: o clube, a noite, os copos, os corpos são os verdadeiros protagonistas.

(iv) Vida, morte e memória

O fecho é particularmente forte: “lascivos corpos novos, / a loucura dos povos, / tudo a querer viver / e, aos poucos, a morrer.”

Aqui já não é apenas a descrição de um clube; é uma intuição existencial madura para um rapaz de 19 anos (e que sabe que daqui a cinco anos irá para a guerra!): o mesmo impulso vital que enche a pista,  traz consigo a consciência da finitude. A festa torna-se metáfora da condição humana, intensa, breve, em erosão silenciosa, “aos poucos”.

Lido hoje “aos 78 anos, a arrumar a casa”, o poema ganha uma segunda camada de sentido: o jovem que observa “tudo a querer viver”,  é agora o cota  ( como se diz em Lisboa, que já foi capital de império) , o septuagenario que revisita esse instante com lucidez e ternura, salvando-o do esquecimento, do vestidos papéis.

A tua ideia, Luís,  de lhe devolver este texto com um comentário, uma adenda,  é, no fundo, um ato de partilha de memória e de reconhecimento (e de camaradagem!): mostrar-lhe que o rapaz de 19 anos que escreveu no Star-Club ainda “existe por aqui” nas palavras que deixou (e que, afinal,  não perdeu pedalada, continuando a ser capaz de dar a volta ao mundo em oitenta dias, e de escrever poesia ou de traduzir, magnificamente, para português, grandes poetas chineses que são hoje universais).

(Pesquisa: LG + IA / Perplexity)

(Condensação, revisão / fixação de texto: LG)

(Imagens: António Graça de Abreu, 2021)