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terça-feira, 18 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28268: Manuscrito(s) (Luís Graça) (293): À Alice, oferta do livro "Luuanda: estórias", do José Luandino Vieira, com dedicatória, dactilografada, em francês, e datada de 17 de maio de 1975



Lourinhã > 7 de agosto de 2026 > Luís e Alice, o professor e a aluna, cinquenta anos depois, ainda "just married"...



Capa do livro de José Luandino Vieira, "Luuanda: estórias, 4ª ed. (Lisboa: Edições 70, 1974, 172 pp.). 

O livro foi originalmente publicado em 1963, pelas Edições 70, em Lisboa. E passou despercebido. Os senhores coronéis da censura só deram conta da monumental "gaffe" quando em 1965 foi atribuído, a um "terrorista",  o 1º Prémio do Grande Prémio da Novelística, pela  Sociedade Portuguesa de Escritores, em Lisboa.  

O prémio causou furor e represálias em plena colonial, com o autor, luso- angolano (nascido em Vila Nova de Ourém, em 1935), a cumprir, na altura, no Tarrafal,  uma pena de 14 anos de prisão, por motivos políticos. O livro, de contos, é hoje considerado uma obra maior da literatura em língua portuguesa.


Dedicatória datilografada, em francês, em homenagem à Alice, nascida em 18 de agosto de 1945. Em 17 de maio de 1975, na Lourinhã, era minha aluna...de francês. 

Em 7 de agosto de 1976, quem diria ?!, casei com ela, na Quinta de Candoz, concelho do Marco de Canavez. O primeiro casamento, civil, nesse ano... 

O livrinho (e a folha da dedicatória, que lhe estava apensa, colada na folha de guarda), andou em bolandas, durante anos. Há tempos redescobri-o, no sótão, no meio de outras velharias...Tem, para mim,  valor sentimental e documental.  

Eu escrevia à máquina desde, pelo menos ,  os meus 15 anos. Comprei uma máquina de escrever, portátil, de teclado português (HCESAR), em segunda mão, já não me lembro a marca (Olivetti ?). Não sei o que lhe aconteceu. Com mudanças de casa, desgraçadamente deve ter ido parar ao caixote do lixo! Ou foi à oficina para reparar o teclado e nunca mais a levantei... Enfim, um crime de lesa-património e de lesa-memória!...

Aqui vai uma cópia da dedicatória, para oferecer, juntamenmte com o livro agora recuperado, à minha antiga aluna de francês, e hoje minha companheira de uma vida, mãe de uma filha (Joana) e de um filho (João), e  avó de duas netas (Clara e Rosa)... 

Ao km 81 da sua picada da vida, espero que ela aceite a (re)lembrança. E faço também votos para que o nosso amor, e as minhas palavras, tenham sabido resistir à usura do tempo e às circunstâncias 


17 mai 1975

Pour Alice,
ce cadeau-prétexte.

J’aimerais bien t’écrire une lettre,
une lettre-pomme, une lettre-poème,
tu la mangerais au dessert,
tous les hivers de la famine.

Mais je ne peux que t’offrir
un exercice de français,
sous le prétexte d’un livre africain,
parce que c’était encore la langue étrangère
que nous parlions en exil.

Et c’était drôle de penser
que le soleil se levait et disait bonjour
dans la langue de Rimbaud, Éluard, Aragon,
trois poètes dont tu n’avais jamais entendu parler,
et qui sont descendus à l’enfer de la folie et de la guerre.

Je m’en fous cependant
que le soleil soit un drapeau
rouge, blanc, bleu,
que la lune soit rouge et verte:
il sera toujours pénible pour nous
de franchir à pied le silence,
à cause des montagnes
qui se dressent là-haut, dans notre cœur,
le silence étant la Grande Muraille de Chine des sentiments.

Mais que dirons-nous 
de l’ambiguïté politique de la lune,
cette petite planète
où la liberté est un minéral,
verte le jour, rouge la nuit ?

Je crois quand même
au pouvoir libérateur et créateur de la parole,
ne pouvant pas subir l’angoisse du silence,
des mots écrasés par le discours quotidien.

Je te dirai encore, Alice,
que nous ne sommes pas au Pays des Merveilles,
et que le rêve deviendra bientôt un cauchemar.
Il faudra alors connaître
les murs et les couloirs de l’enfer.

Mais la vie serait une merde
si nous n’avions pas le sens 
de l’engagement révolutionnaire
et le courage de vivre et de combattre,
comme José Luandino Vieira,
prisonnier du Tarrafal, militant du MPLA.

Très amicalement,
Luís

(Revisão / fixação final de texto, 18/8/2026: LG)
 ____________

 Tradução livre (para português)


17 de maio de 1975


Para a Alice,
este presente-pretexto.

Gostaria de te escrever uma carta,
uma carta-maçã, uma carta-poema,
tu comê-la-ias à sobremesa,
em todos os invernos da fome.

Mas só te posso oferecer um exercício de francês,
com o pretexto de um livro africano,
porque era ainda a língua estrangeira
que falávamos no exílio.

E era engraçado pensar
que o sol nascia e dizia bom dia
na língua de Rimbaud, Éluard, Aragon,
três poetas de quem nunca tinhas ouvido falar,
e que desceram ao inferno da loucura e da guerra.

Mas estou-me nas tintas
que o sol seja uma bandeira 
vermelha, branca, azul,
que a lua seja vermelha e verde:
ser-nos-á sempre penoso
atravessar a pé o silêncio,
por causa das montanhas 
que se erguem lá no alto, no nosso coração,
sendo o silêncio a Grande Muralha da China dos sentimentos.

E o que diremos nós
da ambiguidade política da lua,
esse pequena planeta onde a liberdade é um mineral,
verde de dia, vermelha de noite?

Acredito, no entanto, 
no poder libertador e criador da palavra,
não podendo suportar a angústia do silêncio,
das palavras esmagadas pelo discurso quotidiano.

Dir-te-ei ainda, Alice,
que não estamos no País das Maravilhas,
e que o sonho em breve se tornará um pesadelo.
Teremos então de conhecer 
os muros e os corredores do inferno.

Mas a vida seria uma merda
se não tivéssemos o sentido 
do compromisso revolucionário
e a coragem de viver e de lutar,
como José Luandino Vieira,
prisioneiro do Tarrafal, militante do MPLA.

Com toda a amizade,
Luís

(Tradução, revisão / fixação de texto: LG)

_________________

Nota do editor LG:

Último poste da série > 10 de agosto de 2026  > Guiné 61/74 - P28254: Manuscrito(s) (Luís Graça) (292): talvez um dia

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28055: Efemérides (391): Há 57 anos, a 24 de maio de 1969, partiu o T/T Niassa para o CTIG - Parte II: "o cruzeiro das nossas vidas"




Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.
Fontes iconográficas: fotos de Luís Graça, Humberto  Reis 
e Luís Nascimento / Joaquim Bessa, 
Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné


1. Um velho poema meu... Quando fui para a Guiné no navio misto, de carga e passageiros, "Niassa", com pouco mais de 150 metros de comprimento. e 10,7 mil toneladas de arqueação bruta... Levava 1735 homens para a guerra (fora a tripulação, que era de c. 130)... 

Durante anos recusei cruzeiros, aliás só fiz um, à Grécia, antes da pandemia,  para "recordar"... Mas sou "crítico" dos cruzeiros turísticos... Ao primeiro, que fiz, em 24-29 de maio de 1969, no T/T Niassa, chamei-lhe, por ironia,  "o cruzeiro da minha vida"...Já não sou mais o mesmo de há meio século atrás...Nem poderia sê-lo. Mas aqui vai, em jeito de filme do tempo do cinema mudo, com intertítulos, uma evocação "poética" desse cruzeiro, em que "viajaram" também amigos que depois fiz para a vida como o Humberto Reis, o Tony Levezinho,  o António Fernandes Marques, o sargento Piça, o Arlindo T. Roda, o Luciano Severo de Almeida, e tantos outros, alguns dos quais vim aqui a reencontrar no blogue como o Carlos Fortunato, o Eduardo Estrela, o José Nascimento, o Luís Nascimento, etc.

 

Quando o Niassa apitou três vezes

por Luís Graça


Uma estranha maneira de dizer adeus,
um estranho povo este
que vem ajoelhar-se, no cais de partida,
não em oração para aplacar a ira dos deuses, mas vergado,
vergado à toda poderosa razão de Estado.

A tentacular força centrífuga
que, de há séculos, 
te leva os filhos teus, para fora,
paridos e expulsos do ventre da mátria,
para longe, bem para longe, muito para lá do mar.

Uma despedida breve,
com lágrimas salgadas no rosto
e lenços brancos em fundo preto.
Todas as despedidas são breves e tristes:
o momento em que o Niassa apita três vezes
e levanta a âncora,
nunca se poderia eternizar,
diz o capitão de terra, ar, mar e guerra,
lencinho ao pescoço, cheirando a Vat(e) 69, 
ontogenético, fotogénico, cinéfilo,
garboso, charmoso, glamoroso
pronto para a ação
... na mesa do king, do bridge ou da lerpa.

Passado o Bugio,
deixado para trás o velho do Restelo
de que há um pouco em todos nós,
desvanecido o azul da serra de Sintra,
há um briefing às cinco da tarde,
já em velocidade de cruzeiro,
no mar alto que outrora foi português.

O anúncio é do capitão,
muito pouco ou nada miliciano,
que serve de mordomo, pequeno e burguês.
De megafone em punho,
não vá alguém sabotar a instalação sonora do navio.

Vai na segunda comissão, o oficial provinciano,
que nunca ouviu falar da batalha de Dien Bien Phu
nem sabe onde fica a ilha do Como.
Nem o onde nem o como nem o porquê
nem muito menos o até quando.

E o filme da noite é uma comédia, 
do cinema mudo,
acrescenta o nosso primeiro,
que no T/T Niassa faz de porteiro
ao bar Cretcheu, Guiné.
Um gajo bacano, num país de bacanos, fulanos e sicranos,
de soldados rasos, primeiros cabos, furriéis, alguns forcados, 
e segundos sargentos, mangas de alpaca.

Uma tragicomédia, escreverás tu no teu diário.
Cadé os oficiais ?
Cadé a elite da nação ?
Onde estão os filhos-família,
a ínclita geração,
os primeiros, a fina flor, os morgados,
os cavaleiros andantes, os primogénitos,
os palmeirins, os fidalgos, 
a casta, a raça apurada,
o sangue azul, o pedigree, 
os Gamas e os Camões,
os melhores de todos nós ?
... Morreram todos em Alcácer 
Quibir. 

Lisboa revista, revisitada, revistada,
em filme de oito milímetros,
a preto e branco ou a preto e negro, dizes tu, corrosivo,
uma só nação, valente mas ferida mortalmente,
ironiza alguém.
O Niassa colonial na azáfama do seu vai-e-vem
antes de ir parar à sucata,
inglória a sucata da história que tu perdeste
aos dezoitos anos, quando deste o teu nome para as sortes.
Estranha palavra essa, a das sortes,
que rima com desnortes e com mortes e com fortes,
que dos fracos não reza a história.

A despedida breve e triste do Niassa,
o teu primeiro e único cruzeiro da vida,
e ainda mais triste é o filme, sem som,
sem palavras desnecessárias, a preto e branco,
que alguém terá feito no cais das sete partidas,
com a noiva que ia vestida de branco 
e de xaile preto, a louca, por cima dos ombros.
Dizem que levada em ombros, a espernear,
pela polícia militar.

A ponte, ainda reluzente, de Salazar, o velho,
o velho abutre que alisa as suas penas,
dirás tu, Sophia, pitonisa de Delphos,
quase morto mas não enterrado.
Os últimos golfinhos do Tejo,
a última fragata de vela erguida,
a última caravela,
a última nau do cais da Ribeira,
o último império que ficou por haver,
o último marinheiro sem terra,
sinal de tempestade,
o último uísque marado
que ficou por beber, de um trago
numa espelunca do  Cais do Sodré, amargo,
o mudo do Cristo Rei em terra
que outrora foi dos infiéis,
o Terreiro que continua do Paço, não do povo…
Lisboa e o seu casario, branco, sujo,
o filme a preto e branco, riscado,
um gato preto à janela,
sinal de mau agoiro.

Lisboa... e lá longe a Guiné,
a 4 mil km de distância, 
Lisboa, enfim, com as suas ruínas, pré-pombalinas,
o poço dos mouros, o poço dos negros,
o lundum, a umbigada,
a procissão da Nossa Senhora da Saúde,
mais a Santa Inquisição,
zelando pela pureza da raça e do sangue,
zurzindo corpos e almas,
o Cemitério dos Prazeres ao alto,
com os seus altos ciprestes negros,
os mastros dos navios da carreira colonial,
o império por um fio, dental,
a vida, ainda curta, que se recapitula, de fio a pavio,
no último comboio da noite
que veio do campo militar de Santa Margarida.

Ah!, e os jacarandás que, em fins de maio, já choram,
de lágrimas lilases,
e as santas das nossas mães que ficaram em casa,
a acender a vela à santa das santas,
a tecer o lenço de enxugar lágrimas,
um fado que tu ouviste numa tasca do Bairro Alto, 
e que já não era batido nem dançado nem cantado,
um fado apenas gemido, sussurrado.

Ordeiros os soldados,
como os cordeiros da matança da Páscoa,
anhos, dizem no Norte, 
alinhados, no Cais da Rocha Conde de Óbidos,
como os elétricos amarelos
que vão para a Cruz Quebrada,
empilhados, aboletados, requisitados
às mães para servir a Pátria,
o pai-patrão que lhes cobra o dízimo
em sangue, suor e lágrimas.

Mudos, agrilhoados, os básicos,
uns refratários, outros desertores,
cozinheiros, magarefes, corneteiros,
apontadores de dilagrama,
municiadores de metralhadora,
desenfiados, traidores, atiradores,
cangalheiros, sacristães, capelães,
barbeiros-sangradores, 
sapadores, pulhas, coirões,
coveiros, escriturários, bazuqueiros,
safados, bufarinheiros, cavaleiros,
trolhas, cavadores de enxada,
infantes, artilheiros, maqueiros,
heróis de torre e espada…

Coitadas das mães que tais filhos pariram,
diz a letra do ceguinho,
subindo o portaló, o cadafalso,
com um nó na garganta mal disfarçado,
os lenços brancos como em Fátima no 13 de maio.
Algumas bandeiras verdes-rubras,
poucas e loucas, que os tempos não são
de exaltação patriótica.
O hino canta-se em voz de cana rachada,
em disco riscado
por senhoras, poucas e roucas,
do Movimento Nacional Feminino.

A mesma atitude, admirável, de patética resignação
perante o arbítrio dos deuses
que tudo pedem e podem, diz o capelão,
cheio de unto e de virtude,
que este é um povo religioso
porque tem o sentido do pathos,
leia-se: da tragédia inelutável,
acrescenta o bispo de merda…suma.

Senhora Nossa, rogai por nós, pecadores,
protege-nos, das minas e armadilhas,
dos fornilhos e das bailarinas,
das canhoadas e roquetadas,
das morteiradas, dos estilhaços
e dos tiros de "costureirinha",
protege-nos do IN, leia-se inimigo,
dos esquentamentos e das sezões,
da mosca tsé-tsé e do mosquito anapholes,
dos ataques de abelhas e das formigas carnívoras,
mas também do cone de fogo
das nossas bazucas e canhões sem recuo,
das piçadas e dos louvores dos nossos comandantes...
Livrai-nos sobretudo de nós mesmos,
soldados malgré nous, soldados à força,
arrebanhados, arregimentados, requisitados,
condenados, ameaçados, camuflados,
acondicionados no porão como bestas
que vão para o matadouro.
Livrai-nos, Senhora Nossa,
da fome, da peste e da guerra,
e do marechal da nossa terra
que nos manda para tão longe.

Lisboa e as suas sete colinas
perdem-se na linha de água.
Puseste o combate do possível
na tua agenda de expedicionário da Guiné.
Puseste o fio com a medalha de ouro
ao peito, que te deu a tua namorada, coitada.
Não, não usas a cruz, o crucifixo, o amuleto,
não vais para a guerra santa,
não, senhor capelão-mor,
alguém há de rezar por ti, camarada,
para que voltes são e salvo.
Do regulamento é apenas a chapa de zinco,
com o número mecanográfico 13151468,
e o picotado ao meio,
para mais facilmente ser cortada em duas partes
que seguirão caminhos distintos,
tudo isto face ao risco, bem real e concreto,
de tu morreres longe, bem longe
da tua casa, da tua pátria, para lá do mar,
em terra que nunca te viu nascer.

Descansa, camarada,
alguém fará o teu espólio,
cerrará os teus dentes,
fechará os teus olhos,
engraxará as tuas botas,
comporá os atacadores e a boina,
e porá um moeda na boca
para pagares a viagem ao barqueiro Caronte,
no caso de morreres pela Pátria,
ainda jovem, belo e imberbe,
nas bolanhas, rias ou matas da Guiné

Levarás contigo a pedra-chave
que te liga ao além,
uma chapa de zinco, picotada ao meio,
que outrora era de xisto ou de grés,
entre o teu antepassado
calcolítico, castrejo, romanizado.
Ironia da história: 
também já foste escravisado, colonizado,
e nem a língua dos teus avoengos lusitanos chegou até ti.

Respeitaremos a tua última vontade,
lavrada no cimento fresco do teu abrigo:
Camaradas (que colegas é só nas putas!,
diz o pícaro do sargento Piça):
se eu morrer aqui,
que me enterrem,
numa anta do meu país megalítico!



A bordo do T/T Niassa,
a caminho da Guiné,
24-29 de maio de 1969.

Visto, revisto, aumentado e melhorado,
Reino dos Algarves, Portimão, Praia do Vau, 26  de maio de 2026
 
__________________

Nota do editor LG:

sábado, 23 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28048: Manuscritos(s) (Luís Graça) (290): "Palram pega e papagaio, / E cacareja a galinha"... Uma brincadeira poética com sugestões ludopedagógicas para avós e netos...






O manual escolar mais famoso do Estado Novo. Da autoria de Barros Ferreira.4ª edição, Porto Editora, 1958. Reimpressão, Editora Educação Nacional, janeiro de 2008.  Ilustrações do talentoso artista "Emmérico", Emérico Hartwich Nunes, ou Emmérico Nunes (1888-1968), um dos pioneiros da banda desenhada, do humorismo gráfico e do cartunismo em Portugal. Era o manual mais "ideológico" da nossa instrução primária, mas era também aquele de que eu mais... gostava.  A criança é um "livro aberto", à partida sem "preconceitos" (muito menos ideológicos)...



1. Este poema, "Vozes de animais" (ou "vozes dos animais"), faz parte da minha infância, da minha escola, da minha memória escolar: devo tê-lo lido e memorizado aos 8 ou 9 anos... Mesmo com palavras de "sete e quinhentos"!... Aliás, faz parte da memória de todos nós.

É de um poeta (menor...) do séc. XIX, português, da escola romântica.

Fiz questão de oferecê-lo, à minha minha neta, Rosinha, que hoje faz 16 meses...  e adora ouvir o avô a imitar as vozes dos animais... Quero que ela, aos 6/7 anos, já o saiba recitar de cor... (Eu nunca fui bom a recitar poesia, de cor... Tenho que ter a cábula, o papel...(

Acho este poema uma pequena relíquia da nossa velha escola primária, que atravessou regimes (Monarquia, República, Ditadura Militar, Estado Novo...).

A malta da nossa geração, nascida já no pós-guerra, aprendeu-o de cor, como uma verdadeira cantilena iniciática da nossa bela língua portuguesa. E os "burros" (coitados!), de pé descalço, os que ficavam, por discriminação, nas carteiras de trás, esses, tinham que o aprender de cor,  à força de reguadas, puxões de orelha ou vergastadas com o ponteiro da senhora professora...

O poema "Vozes dos animais" é da autoria de  (ou é atribuído a) Pedro Dinis (c. 1829–1896), de quem se diz que foi  professor e pedagogo, além de diretor da Biblioteca Nacional de Lisboa. 

De seu nome completo, Pedro Guilherme dos Santos Diniz, este poema terá sido publicado no" Livro de Ouro para Uso das Escolas de Educação (s/l, 1855). O autor também foi tradutor de obras do Júlio Verne. Terá igualmente usado o pseudónimo literário Amaro Mendes Gaveta. Estudou em Coimbra, na época ainda não havia a Universidade de Lisboa (criada, tal como a do Porto, em 1911).

Os versos foram depois recolhidos por Antero de Quental,  no "Tesouro Poético da Infância" (1883). E passou a integrar os manuais escolares da época, como o Livro de Leitura da 3ª Classe, livro único, no Estado Novo.

Qual a razão do seu sucesso ? Não foi tanto pelo seu “valor literário” como pelo seu extraordinário valor ludopedagógico. Há nele várias coisas nossas, da pedagogia portuguesas, do João de Deus: o gosto antigo pela enumeração; a musicalidade, a lengalenga dos contos e romances tradicionais; o prazer das palavras raras, eruditas, difíceis, a que chamávamos, no meu tempo de escola, "palavras de sete e quinhentos" (sete escudos e cinquenta centavos), como “crocita”, “regouga”, “chilrar”, “balidos”, “vagidos", "libando", etc.)

Estes versos reforçam a ideia de que a língua materna é um tesouro sonoro. E que para ser viva tem de ser falada. Tal como a poesia, que tem de ser partilhada, dita em voz alta, para pequenos auditórios (como aconteceu há dias, na minha terra, no "festival do leitor", "Livros a Oeste 2026").

O poema "Vozes dos Animais" remete também para o "saber enciclopédico": estão lá os principais animais "domésticos" e "selvagens" do nosso imaginário. E as diferentes e espantosas vozes animais. De uma penada, com umas tantas quadras, ensinava-se,  à criançada,  zoologia, vocabulário, fonética e memória.

Além disso, o poema funciona muito bem porque nasce do jogo da imitação. Não vou “explicar” à Rosinha o que é um animal ruminante, como a vaca, imito ou reproduzo a sua voz. E isso toca diretamente o mundo da infância. Antes da criança compreender conceitos (abstratos) (vaca e animal ruminante), reconhece sons (concretos), a onomatopeia: "muuuu"...

A Rosinha, aos 16 meses, já "pintainha": está exatamente nessa idade mágica em que o mundo entra pelos ritmos, pelas vozes, pelos sons, pela onomatopeia, pelas repetições.  O "vovô" que “mia”, "pia", “muge”, “zurra”, "cacareja" ou “cucurica” está a fazer o mesmo que os antigos contadores de histórias, as velhas amas, as mães de leite faziam há séculos: transformar linguagem em jogo afetivo.

E há uma ternura involuntária do final: os "vagidos" (sic) do bebé.. A criança aparece ali como mais um animalzinho da "criação", na "arca de Noé". Depois vem a moral escolar (que era "criacionista", reproduzindo a mitologia bíblica da nossa cultura judaico-cristã, não integrando os contributos da biologia e demais ciências da vida e da natureza: “A fala foi dada ao homem, /Rei dos outros animais…”),

Omitindo este último verso (que é anacrónico, obsoleto, antropocêntrico), o resto do poema continua vivo porque pertence ao território universal da infância, da oralidade, da magia, do encantamento.

Espero que a Rosinha goste ou venha a gostar mais tarde, quando tiver mais entendimento das coisas da vida e do mundo. Ainda não irá memorizar os versos; mas ficará, sem dúvida, no ouvido esta lengalenga, a música da voz do "vovô a fazer “miauuuu”, “méééé”, "fuuuu", "ão-ão-ão", "muuuu", “có-có-ró-có-có. E isso, muitas vezes, é o princípio da poesia e do gosto pela poesia.

2. Chamo a atenção (dos pais e avós) para a "forma" e o "fundo" do poema. Vão, adicionalmente, algumas sugestões ludopedagógicas.


(i) estrutura / forma: 
  • tem uma forma fixa: é composto por estrofes de 4 versos (quadra), com rima em geral cruzada (ABAB); 
  • ritmo cantado e memorizável, ideal para crianças;
  • métrica: versos heptassílabos (7 sílabas métricas ou "redondilha maior")  com cadência simples e musical, facilitando a recitação;
  • refrão implícito: a repetição de estruturas como "Pia, pia o pintainho" ou "Late e gane o cachorrinho" cria um efeito de lista rítmica, quase como uma canção de embalar.

(ii) tema / conteúdo:

  • catálogo onomatopaico: o poema é um inventário lúdico dos sons dos animais, desde os domésticos ("cacareja a galinha", "mia o gato") aos exóticos ou selvagens, que só se podem observar no jardim zoológico ou na televisão ("ruge o leão", "bramam os tigres");
  • cada verso imita o som do animal (onomatopeia), o que o torna interativo, e que é perfeito para a nossa Rosinha, que adora ouvir e imitar logo as vozes;
  • antropocentrismo:  o poema termina com uma reflexão moralizante: "A fala foi dada ao homem, / Rei dos outros animais: / Nos versos lidos acima / Se encontra, em pobre rima, /As vozes dos principais.
  • aqui, o autor deixa trair a sua conceção antropocêntrica da natureza, a superioridade humana no topo da vida animal (preconceito típica do século XIX ocidental) e a diversidade da criação divina, embora sempre com uma intenção pedagógica e um tom afetuoso (que não chocam, nesta idade).
(iii) linguagem / estilo:
  • léxico simples: vocabulário acessível e concreto, adequado a crianças; mesmo as palavras (novas) como "arrulham" (pombos), "regouga" (raposa), ou "zurrar" (burro) são preciosismos linguísticos que enriquecem o poema sem o tornar abstruso ou  complexo;
  • adjetivação expressiva: termos como "sagaz raposa", "tímida ovelha", "mocho agoureiro" ou "rola inocentinha" infantilizam e humanizam os animais, dando-lhes personalidade;
  • humor e ironia: o poeta brinca com a limitação (e a utilidade) de alguns animais: "O pardal, daninho aos campos, / Não aprendeu a cantar; / Como os ratos e as doninhas / Apenas sabe chiar"; (aqui, pode haver um toque, leve, de crítica social: o pardal do telhado que, como o rato, é um "intruso" nos campos; há um preconceito ecológico: o pardal-telhado e o rato do campo (contrariamente ao da cidade...) têm um papel importante na dinâmica dos ecossistemas
(iv) contexto histórico
  • intenção pedagógica: o poema foi escrito para livros escolares de meados do séc. XIX, com o objetivo de transmitir às crianças  conhecimentos sobre a  natureza, a vida, a linguagem e a moral; era comum na época usar a poesia como ferramenta de memorização e disciplina;
  • influência da escola romântica: embora Pedro Dinis não fosse um grande poeta e muito menos um  romântico (como o foram Garrett ou Herculano), o poema reflete o gosto romântico pela natureza e pela infância como estado, primordial,  de pureza.

Sugestões para a Clara (que tem 6 anos e meio e já sabe ler) e para os papás da Rosinha (e até para a educadora da Rosinha):


(i) podes ler em voz alta e fazer uma pausa para ela depois imitar os sons ("Muge a vaca... Muuu!", "Cucurica o galo... Cocorocó!"); a repetição e as rimas fáceis ajudam-na a reter palavras; a isto chama-se Interatividade;

(ii) os sons dos animais ativam a sua imaginação e associam a leitura à ideia de brincadeira ou jogo (estimulação sensorial);

(ii) ao oferecer este poema à neta, os avós estão a passar um pedaço da sua infância para ela, criando uma ligação emocional entre eles e a neta (tradição familiar);

(iv)  o poema ensina o respeito pela natureza e a diversidade dos seres vivos, valores importantes para a geração  dos nossos netos;


Mais sugestões:

(v) vamos comprar e oferecer  o livro "Vozes dos Animais", da Luísa Ducla Soares (com ilustrações Sandra Serra); 

(vi) a Clara pode ajudar a mana a criar um livrinho com o poema e desenhos dos animais, autocolantes ou  imagens extraídas  da Net;
 
(vii) podemos gravar a nossa voz  (do avô, da Rosinha e da Clara ) a ler o poema (com os sons dos animais) no gravador do telemóvel;

(viii) podemos inventar um jogo de adivinhas: lemos um verso ("Grasna a rã...") e pedimos à Rosinha  para imitar o som ou apontar para a imagem da rã.

Dedicatória: 

"Piu-piu, o que mais quereis ?
... P'ra nossa linda Rosinha, 
Que meses faz dezasseis,
Mas que há muito pintainha."

("pintainha"= do verbo intransitivo, "pintainhar", imitar o pio dos pintainhos,  mover-se como os pintainhos)

Alfragide, 23 de maio de 2026, os avós Luís & Alice
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Vozes dos Animais
 
Palram pega e papagaio
E cacareja a galinha,
Os ternos pombos arrulham,
Geme a rola inocentinha.

Muge a vaca, berra o touro,
Grasna a rã, ruge o leão,
O gato mia, uiva o lobo,
Também uiva e ladra o cão.

Relincha o nobre cavalo,
Os elefantes dão urros,
A tímida ovelha bala,
Zurrar é próprio dos burros.

Regouga a sagaz raposa,
Brutinho muito matreiro;
Nos ramos cantam as aves,
Mas pia o mocho agoureiro.

Sabem as aves ligeiras
O canto seu variar:
Fazem gorjeios às vezes,
Às vezes põem-se a chilrar.

O pardal, daninho aos campos,
Não aprendeu a cantar;
Como os ratos e as doninhas
Apenas sabe chiar.

O negro corvo crocita,
Zune o mosquito enfadonho,
A serpente no deserto
Solta assobio medonho.

Chia a lebre, grasna o pato,
Ouvem-se os porcos grunhir,
Libando o suco das flores,
Costuma a abelha zumbir.

Bramam os tigres, as onças,
Pia, pia o pintainho,
Cucurica e canta o galo,
Late e gane o cachorrinho.

A vitelinha dá berros,
O cordeirinho balidos,
O macaquinho dá guinchos,
A criancinha vagidos.

A fala foi dada ao homem,
Rei dos outros animais:
Nos versos lidos acima
Se encontra, em pobre rima,
As vozes dos principais.

 Pedro Diniz (c. 1855)

(Revisão / fixação de texto: LG)

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 15 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28021: Manuscrito(s) (Luís Graça) (289): Talvez o mundo fosse mais... amigável: poema para dizer hoje, ao vivo, no festival literário "Livros a Oeste 2026", Lourinhã

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28021: Manuscrito(s) (Luís Graça) (289): Talvez o mundo fosse mais... amigável: poema para dizer hoje, ao vivo, no festival literário "Livros a Oeste 2026", Lourinhã


Lourinhã > Praia da Areia Branca > 5 de Agosto de 2007 > Baixa-mar, entre a Praia da Areia Branca e a Praia de Vale de Frades, com o forte de Paimogo ao fundo,  mais o cabo Carvoeiro, as Berlengas e o "mare nostrum"... A Alice e uma amiga do Porto, a Laura.

Foto: © Luís Graça (2007). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Cartaz do programa do festival do leitor, 14ª edição,  "Livros a Oeste 2026, Lourinhã, 12-16 de maio de 2026. Fonte: CM Lourinhã


1.  Poema para dizer hoje á tarde nos "Cantos das Palavras",  na Praça José Máximo, Lourinhã, ou logo á  noite na "Poesia É Que Nos Salva", no Restaurante Impostor, antigo Café Nicola, Rua João Luís de Moura, no âmbito da 14ª. edição do festival literário "Livros a Oeste 2026", que este ano é subordinado ao tema "Narrativas de Esperança" (Curador: João Morales).


Um mundo sem fronteiras

por Luís Graça

Se todos os pescadores do mundo,
ao longo de todas as costas,
linhas do horizonte, praias,mares,
bancos de pesca,
 icebergs,
fossas submarinas, 
plataformas continentais,
ilhas e penínsulas, pontes e dunas,
falésias, recifes de corais,
cabos e promontórios,
lagos e albufeiras,
rios, rias, portos e cais…

Se todos os pescadores do mundo
se dessem as mãos,
canas de pesca, 
fios e anzóis,
redes, covos e xalavares,
arpões, barcos e dóris 
mas também remos e velas,
canoas, traineiras e arrastões,
bússola, radar, sextante e sonar,
mais todas as artes antigas e modernas,
do cerco, da xávega e da sombreira,
do arrasto e da ganchorra,
das redes de emalhar e de tresmalho,
da linha, dos alcatruzes e das gaiolas...

Se todos nós, no fundo,
partilhássemos o nosso pão de cada dia,
à mesma mesa, 
mais o peixe pescado,
o peixe por haver,
fresco, cru, seco,
frito, cozido, guisado,
assado, grelhado, fumado,
salgado ou congelado,
sem esquecer as batatas e as cebolas... 
talvez finalmente 
pudéssemos tratarmo-nos tu cá tu lá,
como companheiros.

Se todos nós fizéssemos uma corrente humana 
ao longo  dos oceanos e demais fronteiras
que nos separam, 
talvez pudéssemos  reencontrar
elos perdidos da cadeia da vida...

E talvez o mar fosse mais mulher, 
como dizem os pescadores da tua terra,
talvez o mundo fosse  
mais aconchegado, 
caloroso, maneirinho e habitável…
Não tinha que ser, oh não!,
nenhum mundo novo  e muito menos admirável...
Apenas  humano, apenas mais chão.

Luís Graça
Lourinhã, Praia de Porto Dinheiro | 11/8/2007.
Revisto, 14/5/2026
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sábado, 9 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28003: Manuscrito(s) (Luís Graça) (288): Horóscopo poético de Arsénio Puim, nascido na ilha de Santa Maria, às 23h00 do dia 8 de maio de 1936, sob o signo Touro


Arsénio Puim (n. 8 de maio de 1936):  ilhéu, açoriano, mariense, ex-sacerdote católico (de 1960 a 1976), ex-capelão militar (1969/71): foi autarca, professor, enfermeiro; é jornalista, escritor,  cidadão do mundo, pai, avô, amigo... Natural de Santa Maria, vive hoje em São Miguel, em Vila Franca do Campo, desde 1982: "nunca pensei chegar aos 90 anos".

Foto: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné



1. O nosso amigo e camarada Arsénio Chaves Puim nasceu às 23 horas do dia 8 de maio de 1936, na Calheta, freguesia de Santo Espírito (ilha de Santa Maria, Açores), terra de baleeiros. Teve irmãos ligados à baleação. Ele próprio era um apaixonado pela pesca da baleia. A mãe nunca o deixou ir, não fosse perdê-lo. Seguiu outro rumo: entrou para o seminário e foi ordenado padre (em 1960).

Mais tarde seria mobilizado para a guerra colonial como capelão militar. Integrou o Batalhão de Artilharia 2917, colocado em Bambadinca entre meados de 1970 e meados de 1972. Zona leste, sector L1.

Nunca usou arma, nem temeu minas mem armadilhas, nem emboscadas ou ataques dos "turras", e nomeadamene quando se deslocava em colunas, ou ficava uns dias nos quartéis e destacamentos do BART 2917 (Xime, Missirá, Mansambo, Xitole...). 

Tinha dificuldade em estar inteiramente bem com Deus e com César. Quando recusou a G3, distribuída em Bissau, após o desembarque do BART 2917, o 2º comandante perguntou-lhe cínica ou provocatoriamente se ele era "testemunha de Jeová" (=objetor de consciência), a ele, que era o capelão (católico) do batalhão!

Na igreja, em Bambadinca, pregava a paz em tempo de guerra. E lembrava aos militares de Bambadinca que o lema do seu batalhão era: "Pelas Gentes da Guiné".

Já em outubro de 1970, seis meses depois de chegar, protestara veementemente contra a exibição pública da cabeça de um “inimigo”, cortada por um furriel felupe dos Comandos Africanos, episódio ocorrido poucas semanas antes da Operação Mar Verde, a invasão de Conacri em 22 de novembro de 1970, uma das ações militares mais controversas da guerra na Guiné.

As suas "homilias da paz" eram vigiadas pela PIDE (que tinha informadores em Bambadinca, e agentes em Bafata). Mas ele nunca será preso ou interrogado pela polícia política, em Bambadinca, em Bissau, em Lisboa ou nos Açores, onde retoma o seu modesto lugar de pároco, depois de ter sido expulso da Guiné.

Mas o que verdadeiramente precipitou a sua queda em desgraça foi a denúncia pública, feita na igreja de Bambadinca, da forma como estavam a ser tratados, os prisioneiros provenientes do “mato”, isto é, das zonas controladas pelo PAIGC.

Foi por volta de abril de 1971. Tratava-se sobretudo de mulheres, crianças e velhos, mantidos em condições miseráveis, praticamente “num galinheiro”, sem alimentação condigna.

Veio então ordem de Bissau, do Quartel-General/Comando Territorial Independente da Guiné (QG/CTIG), possivelmente na sequência de informações da PIDE/DGS, para a sua expulsão do Exército e da Província..

O 2.º comandante do batalhão, major de artilharia Anjos de Carvalho, juntamente com o major de operações e informações Barros Basto, vasculharam-lhe o quarto, devassaram-lhe a o seu bloco de notas e confiscaram-na. Rasgaram-lhe, inclusive, uma folha, "comprometedora". Devolvem-lhe, mais tarde, no pós.25 de Abril,  o bloco de notas, mas não a "prova do crime".

Segue para Bissau. Numa DO-27, só com o piloto, sem escolta, sem despedidas, sem testemunhas, sem amigos, sem camaradas, sem lágrimas. Oito dias depois embarca para Lisboa e volta a ser " o pastor do seu humilde rebanho", na sua ilha...

Foi o segundo capelão militar a ser expulso do CTIG, em maio de 1917, depois do padre Mário de Oliveira (ou Mário da Lixa), em março de 1969...

Ironicamente, muitas das denúncias de Arsénio Puim coincidiam com os princípios oficialmente proclamados por António de Spínola em “Por Uma Guiné Melhor”: a preocupação com o tratamento humano das populações civis e dos prisioneiros.

Acrescente-se mais este pormenor biográfico, que também marca a diferença em relação a outros capelães da guerra colonial: ainda foi padre durante vários anos. Ao todo 16.

Quis fazer uam experiência de padre operário. Durante dois anos, em Ponta Delgada, tirou o curso de enfermagem, queria ter uma experiência holística do cuidar, como padre e como enfermeiro. Mas estes dois papéis tornaram-se humanamente incompatíveis, pro serem demasiado absorventes.

Pediu então a saída da sua condição sacerdotal. Fez carreira como enfermeiro em Vila Franca do Campo, no Serviço Regional de Saúde dos Açores, casou, em 1979, com uma jovem enfermeira, a Leonor (Maria Leonor Bicudo).  Tem 2 filhos, rapazes,  3 netos (2 meninas),  uma meia dúzia de livros, tem o seu quintal, é jornalista e escritor. É a memória viva da sua ilha, Santa Maria. E hoje, dia 9, celebra á fe quem mesa os seus 90 anos, com a Leonor, o Pedro, o Miguel, os netos, os amigos.


2. Falei ontem, uma hora, com o nosso aniversariante. Está ótimo. De voz e ouvido. E não se queixa da saúde. Estava feliz: "Nunca pensei chegar aos 90 anos".

Feliz e e com uma notável memória. Relembrámos factos, lugares, datas, gentes... Quem ainda está vivo, quem já morreu, do tempo de Bambadinca...Falámos do Benjamim Durães (de quem não tenho notícias há muito), do cap Gualberto Magno Santos Marques (cmdt da CCS, agora coronel, a viver no Algarve), do Abílio Machado (o "Machadinho"), do "mirandês" Abel Rodrigues (CCAÇ 12), da Helena e do Carlão, também da CCAÇ 12 (já falecido), do Gonçalves, da CCS/BART 2917 (que "andou no seminário")...Bem como do pobre do Victor Marques, cmdt do Xime, da CCAÇ 2715  (já falecido), do David Guimarães, da CCAÇ 2716  ("que cantava o fado e tocava viola", no Xitole), do saudoso "alfero Cabral"  (já falecido)... e de outros camaradas, cujos nomes vieram à baila. Sem esquecer o primeiro Brito, do major Anjos de Carvalho, do major Barros Basto, do ten-cor Polidoro Monteiro (todos do BART 2917), do capitão Brito, da CCAÇ 12 ...(já todos falecidos, se não erro).

Inevitavelmente falámos do triste episódio da sua expulsão, em maio de 1971. Aproveitei para clarificar um ou outro facto, ainda para esclarecer, confirmar e corrigir.

Já tinha recebido e folheado o livro, com a dedicatória, que lhe mandámos (o autor, Padre Bártolo Paiva Pereira, o Virgílio Teixeira e eu). Ficou sensibilizado e vai agradecer. 

Falei-lhe do padre Bártolo, que foi capelão-chefe, no QG/CTIG, de 1965/67, tendo-lhe sucedido, no cargo, o padre Manuel Joaquim da Silva Capitão (1968/7'0) e depois o padre Gamboa (fev 1970/ mar 1972).

Este é que foi o chefe do Puim, que de resto só vai estar no CTIG, um ano (mai 70/mai71).

É no tempo do capelão-chefe Gamboa, major graduado, em meados de 1970, que se realiza em Bissau (com 2 dias em Bolama) um encontro de capelães, onde houve alguma discussão acesa sobre o papel dos capelães naquela guerra. Os capelães foram recebidos pelo gen Spínola que aproveitou para mostrar o seu descontentamento em relação a alguns capelães que "não estavam a cumprir o seu dever" (devia querer fazer referância ao caso, ainda recente e inédito, do Padre Mário de Oliveira, que apenas esteve 4 meses, em Mansoa, até ser expulso do CTIG, em março de 1969, ainda no tempo do gen Arnaldo Schulz). 

O Puim estava longe de imaginar que, dali a meses, em maio de 1971, seria a sua vez de ser expulso do CTIG, desta vez por Spínola, e  regressar a casa, ou seja, à sua paróquia...

Mais uma vez obtive a confirmação do Puim em relação ao que se passou na "homilia da paz", de 1/1/1971: nunca foi preso ou interrogado pela PIDE/DGS, nem no início do ano de 71, nem em maio, em Bambadinca, nem em Bissau, enquanto aguardou embarque, nem em Lisboa, nem nos Açores.

Naturalmente, já tinha ficha na polícia política. (A PIDE/DGS em 25 de Abril de 1974  tinha um arquivo de 5 milhões de fichas, o que diz muito da eficiência do seu trabalho, em Portugal de aquém e de além-mar).
 
Apesar de tudo, e como bom cristão que continua a ser, há muito que o Puim perdou a quem lhe fez mal. Mas não esquece. 

3. Ontem mandeu-lhe os parabéns: 

"Puim, ao km 90 da picada da  vida...Parabéns, parabéns, parabéns, como se diz na tua terra!...E boa continuação da jornada!...

Ainda imaginei há um ano atrás poder estar aí hoje contigo e com os que te amam, na tua casa em Vila Franca do Campo, mas calculei mal as distâncias. Ainda são 1500 km no 'drone da amizade'...,  se quiser ir mais confortável com o meu esqueleto no avião da TAP,  ainda são quase 3 horas de viagem. De forma que utilizo este meio, mais maneirinho (e que sempre é mais rápido que o 'bate-estradas' do nosso tempo), para te desejar um bom dia, um grande dia... Que Deus e os nossos bons irãs te protejam a ti, aos teus (a tua Leonor,o teu Pedro, o teu Miguel, os teus netos, e demais família). E a todos nós. Luís (e Alice)".

O  Arsénio Chaves Puim nasceu sob o signo de Touro, às 23 horas do dia 8 de maio de 1936, sexta feira,  numa ilha baleeira perdida no Atlântico, Santa Maria, Açores. Mas o seu verdadeiro signo talvez nunca tenha sido o do zodíaco: foi o da inquietação moral e do testemunho cristã.

A título de apreço e homenagem, aqui vai um pequeno ensaio de  horóscopo poético,  dedicado a ele que podia ser o Santo Arsénio, mas não, não é santo de altar, apenas um homem, de corpo inteiro, um bom amigo e camarada da Guiné. A ele que não desertou, foi apenas expulso da tropa. 

Admiro-o porque é um  daqueles raros seres que nunca aceitaram viver pela metade: quis conhecer a dor e o  sofrimento dos outros não apenas pelo exercício do múnus espiritual, mas também pelas mãos, pelo corpo, pela doença, pela dor, pelo quotidiano dos outros.

 Horóscopo poético:  Ao Arsénio Puim, que nunca quis ser santo, mas apenas homem, um bom cristão, e um melhor amigo e camarada


Nasceu numa ilha pequena
onde os homens aprendiam cedo
que o mar tanto dá como leva,
e que a vida tanto põe como tira.

Entre o mar dos Açores e o rio Geba, na Guiné,
nasceria um homem de passo manso
e consciência difícil.

Touro de maio,
feito da matéria antiga das ilhas atlânticas:
basalto, vento, sal, silêncio e... teimosia.

Os astros deram-lhe voz (frágil) de padre,
mas coração (forte) de insubmisso.
Nunca aprendeu a ajoelhar-se diante da força,
mesmo quando, por imposição do bispo,
fora obrigado a vestir a farda camuflada verde-rubra.

Havia nele qualquer coisa de ave marinha insular:
voava baixo sobre o sofrimento dos homens
e reconhecia de longe o cheiro da injustiça.

Recusou a G3,
não por ser "testemunha de Jeová",
mas padre, católico, capelão, 
médico de almas e corpos.
Recusou a G3 
como quem recusa um segundo pecado original.
Pregou a paz
em terra onde a paz ainda era heresia.

Os planetas dizem
que os homens nascidos naquela hora tardia,
a sempre temível, para as parturientes, 23ª hora,
trazem dentro de si uma luta interminável
entre a obediência e a verdade,
entre o pânico e a teimosia,
entre o medo e a coragem.

Por isso o expulsaram.
Porque certos homens perturbam mais pelo exemplo
do que pela rebeldia.

Foi padre durante dezasseis anos.
Disseram-lhe que bastava salvar almas.
Ele desconfiou da missão, que se ficava pela metade.
Quis aprender também
a tratar feridas, febres, fezes, 
pus, vómitos, sangue, 
doença, solidão, loucura.
Fez-se enfermeiro
como quem prolonga o Evangelho 
pelas mãos e a arte de cuidar, que é mais do que curar.

Durante algum tempo
tentou juntar os dois mundos:
o altar e a enfermaria,
a oração e o termómetro,
a absolvição e a mezinha.

Mas os papéis começaram a rasgar-se por dentro.
Havia demasiada vida concreta, telúrica,
para caber apenas na batina de padre 
 (ou na pena de jornalista).

Então desceu à terra comum dos homens.
Casou.
Teve filhos.
Vieram netos, livros, árvores de fruto,
jornalismo, memórias,
a brisa do quintal ao fim da tarde, 
ao pôr do sol sobre o mar de Vila Franca do Campo.

E contudo,
mesmo sem batina,
continuou a ser padre à sua maneira:
escutando, cuidando,
amparando fragilidades,
resgatando memórias,
investigando, escrevendo.
E essa é também uma forma de coragem
para quem não desiste da vida 
(e, para muitos, do seu absurdo).

Hoje, aos 90 anos,
o nosso ex-"padre capilom",
como diziam com graça e ternura 
as gentis lavadeiras de Bambadinca,
continua de sentinela entre Deus e César,
não pertencendo inteiramemte ao céu  ou à terra,
mas ao mundo inteiro.
 
Os astros sorriem-lhe, discretamente:
não prometem nem honra nem glória,
a ele que não glorificou a guerra;
não lhe prometem
nem a tribuna de poder,
nem o nicho de altar,
nem o pedestal de estátua.

Há homens que passam pela vida
como passageiros,
viajando com mais ou menos luxo/lixo.
Outros tornam-se arquivo vivo
de uma terra e de um povo.
O Puim de Santa Maria
é hoje uma dessas raras bibliotecas humanas
que ainda sabem o nome dos ventos, dos moinhos,
das famílias, dos mortos, das almas penadas,
dos topónimos, dos extintos vulcões, 
dos cachalotes que escaparam ao arpão do baleeiro, 
das histórias que não vêm nos livros.

Os astros dizem
que aos noventa anos
um homem começa lentamente
a transformar-se em paisagem fossilizada.

Talvez por isso
a ilha o guarde agora
como se guarda um farol antigo:
com gratidão,
com respeito,
e com medo de um dia o perder.

Alfragide, 8/9 de maio de 2026

O astrólogo-poeta, Luís Graça
(a que se juntam, Arsénio,  os teus/nossos antigos camaradas da Guiné,
mesmo aqueles que nunca mais te viram ou verão,
que ainda te recordam com amizade, saudade, espanto e respeito,
e isso,  aqui e agora, vale mais do que a eternidade).

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Nota do editor LG:

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P27991: Humor de caserna (262): O poeta Bocage (que foi oficial da marinha de guerra) e o Café Nicola, no Rossio, em Lisboa

Estátua em bronze do Bocage.
Café Nicola, Rossio, Lisboa.
Autor: Marcelino de Almeida
(1929)
1. Não sou bom a contar anedotas, ao vivo, à volta da mesa, numa roda de amigos... É uma arte, que não é para todos, inventá-las e sobretudo contá-las. Mas gosto de as reescrever e recriar... 

Esta, é mais uma do Bocage, que me foi contada,  se não erro,  na tropa ou já na Guiné. Nunca a  esqueci, passados  mais de 50 anos, o que é caso raro em matéria de repertório de anedotas. O meu é muito pequeno.

De facto, também não sou bom a lembrar-me das anedotas. Faltam-me sempre aqueles detalhes que dão o picante à(s) história(s)... É como os coentros nas ameijoas à Bulhão Pato ou nas favas soadas... ou o piri num franguinho grelhado.

Na altura já conhecia os célebres versos do "Calafate" ou "Cantador de Setúbal", sobre "A Quinta da Panasqueira",  publicados no poste P27990 (*), por via da célebre "Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica" (seleção, prefácio e  notas de Natália Correia, 1965), que li clandestinamente. (Não consegui apanhar a 1ª edição, vivia na província, o livro foi rapidamente confiscado, mas houve um amigo que teve a sorte de ficar com um exemplar.)

Neste caso, que vou reconstituir de cor, ainda hoje desato a rir pelo absurdo e caricato da situação. É uma anedota, caro leitor, que mete, com a sua licença,... m*rda. Logo, é humor... escatológico. Mas que tem perfeito cabimento na nossa série "Humor de Caserna". 

Só tem graça porque, além da dita m*rda, mete o Bocage, um botequim e uma ventoinha de teto (ou ventilador elétrico). 

Ora, este  equipamento (precioso num território como a Guiné, no nosso tempo, a par do frigorífico a petróleo) só será inventada em 1882, mais de 3/4 de século depois da morte do Bocage (1805). 

Portanto, há aqui um anacronismo: naquele tempo, nos finais do séc. XVIII, ainda não havia eletricidade, não podendo haver por isso ventoinhas (muito menos de teto)... Mas devia haver "buracos" para ventilação e respiradores, nos edifícios pombalinos...E isto passa-se na baixa pombalina, no Rossio...

De resto, as ruas da capital eram iluminadas por candeeiros a azeite, num sistema criado a partir de 1780  pelo intendente da polícia Pina Manique. (Depois do azeite, veio o petróleo, o gaz e finalmente a eletricidade; o funcionário camarário que acendia  e apagava os "lampiões", antes da iluminação elétrica,  eram os "vaga-lumes", popularmente mais conhecidos como "caga-lumes").

À parte o anacronismo, a anedota tem piada porque ilustra o talento de improvisador, de repentista, que a tradição oral atribui ao poeta sadino,  frequentador do Botequim do Nicola, no Rossio, em Lisboa.

O Botequim do Nicola (cuja fundação remonta a 1787, em pleno reinado de Dona Maria I (que vai de 1777 a 1815) era o centro das tertúlias intelectuais e conspiratórias de Lisboa. E das rusgas da polícia (Intendência-Geral da Polícia da Corte e do Reino, criada pelo Marquês de Pombal, em 1760). 

O Botequim (do italiano botteghino, diminutivo de bottega, loja), foi fundado por um italiano chamado Nicolau Breteiro, vulgo "Nicola". Posteriormente o negócio foi assumido pelo português José Pedro Silva, que manteve o nome do estabelecimento.

O cliente mais mais conhecido na época foi o nosso poeta, de seu nome completo Manoel Maria de Barbosa du Bocage (1765-1805), de ascendência francesa, cuja vida, aventurosa e boémia, mas também militar e literária,  ainda hoje está mal documentada: sabe-se, por exemplo,  que foi oficial da marinha de guerra, andou pela Índia e pelo Brasil, até começar a ter problemas com a Inquisição e a polícia do Intendente Pina Manique...  Viveu pobre, morreu miserável. E hoje ajuda a vender lotes de café em grão... "italiano"! 

Diz a tradição que José Silva, o proprietário do Botequim do Nicola, terá sido uma espécie de mecenas do poeta, apoiando-o na fase terminal da sua vida, com o poeta maldito já doente e pobre.


Retrato gravado a buril e água-forte
por Joaquim Pedro de Sousa (1818-1878). 
Fonte: Wikipedia

O Botequim, mais tarde Café Nicola, continuou a ser um ponto de encontro de escritores, jornalistas e políticos, atravessando vários regimes e épocas. Sofreu remodelações ao longo do tempo. Na II Guerra Mundial, foi um dos cafés de Lisboa onde se misturavam refugiados, escritores,  espiões e polícia política.

Em 1929, a fachada foi redesenhada pelo arquiteto Manuel Norte Júnior. Foi também inaugurada uma estátua do poeta, em bronze,  da autoria de Marcelino de Almeida. 

Em 1935, o interior foi modernizado em estilo Art Déco, pelo arquiteto Raul Tojal (1899-1969), com pinturas a óleo de Fernando Santos (1892-1965) que retratam cenas da vida de Bocage. 

Estas intervenções deram ao Nicola o aspeto que ainda hoje se pode admirar, sendo atração turística, "loja histórica" e património da cidade de Lisboa.

O Café Nicola, enquanto marca, também se expandiu: no fim do século XIX e início do XX, abriram filiais em várias cidades portuguesas (como Coimbra e Figueira da Foz), e hoje existem 13 cafés e quiosques com o nome Nicola em Portugal (incluindo a minha terra, Lourinhã). 
2. Mas vamos à anedota (*): num dia de calor, estava o Bocage no Nicola com o seu grupo de tertúlia, mesmo no centro da sala.

Entrou um sujeito, a correr, "muito à rasca" (sic), a perguntar ao empregado onde era a "caganeira"... "Ao cimo das escadas", respondeu maquinalmente o "garçon". O sujeito subiu as escadas já com as calças na mão. Mas, com a atrapalhação,  não deu com a retrete. Aliviou-se no primeiro buraco que encontrou...

Desceu as escadas, mais descontraído, e a assobiar, enquanto ajeitava calmamente as calças e a jaqueta... Mas, para seu espanto, havia um reboliço enorme de mesas e cadeiras, com os clientes a fugirem para a rua, aos berros.

O cheiro tornou-se insuportável e, ao sentir o odor, e sobretudo ao levar com os salpicos de m*rda na cara, no cabelo e na camisa (branca) de janota, o Bocage levantou-se de um salto e declamou, alto e bom som, em cima de uma mesa, estes versos em redondilha maior que ficaram para a história:

Pelo  cheiro não é fruta,
Nem p'la cor é farinha,
Quem foi o filho da puta
Que cagou na ventoinha?!
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Nota do editor LG:

Último poste da série > 5 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P27990: Humor de caserna (261): "Apalpar a fruta" (neste caso, a "papaia"...)