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quarta-feira, 8 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27902: Manuscrito(s) (Luís Graça) (287): Foi você quem pediu uma Kalashnikov ?


Lisboa > Rio Tejo > 5/11/2011 > Pôr do sol no Atlântico, visto do estuário do Tejo, em Belém, junto ao Museu do Combatente (Forte do Bom Sucesso). Uma feliz coincidência, um porta-contentores apanhado pela objectiva do fotógrafo "just in time".

Foto (e legenda): © Luís Graça (2011). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]





Guiné > Zona Oeste > Região do Oio > Mansoa > BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71) > O capelão e a "bela Kalash".. Foto do álbum do Padre José Torres Neves, antigo capelão militar.


Foto (e legenda): © José Torres Neves (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]O capelão e a "bela" Kalash...



1. Tenho um poema de 2015 em que ironizo a "kalashnikovmania" ... Declaração de interesse: nunca a usei nem desejei... 



 Foi você quem pediu uma Kalash ?

por Luís Graça


Há uma luz difusa,
mistura de ternura e de saudade,
quando o sol se põe em Lisboa,
e tudo à volta é a humanidade que arde.

Impensável o fado da idiossincrasia lusa
sob o céu de chumbo de Atenas ou o smog londrino.
Impensável, ou improvável apenas,
oh poeta cretino!

Porque de pias intenções, maus pensamentos
e piores ações está o inferno da história cheio,
as praças, do Comércio ao Rossio,
e os marcos do correio onde apodrecem aerogramas de guerra.

Ah!, o bravo Ulisses, o grego,
o que ele andou p’ra aqui chegar,
depois de transpostas as colunas de Hércules,
até fundar a mítica cidade atlântica de Olissipo.

Ah!, a Lisboa, que os poetas  amaram
e onde afinal nunca foram amados,
do Cesário Verde ao Álvaro de Campos,
do Camões ao O'Neil.

Ah!, Lisboa, Lisboa,
com as tuas casas de muitas cores, caiadas de branco.

Chora, e não é de medo, o judeu sefardita,
a sua desdita, cristão novo, marrano,
a caminho do degredo:

─ Ai!, a doce luz de Lisboa,
filtrada pelo espelho de água do Tejo,
mais o pôr do sol sobre o Atlântico Norte
que começa no Bugio.
Não sei se estarei cá, p’ró ano,
que a vida e a morte
são jogos de azar e de sorte.
Só sei que o que sinto, é já saudade,
porque… é arrepio!


No tempo em que a terra era plana,
antes das viagens de circum-navegação,
não podias tu imaginar o novo mundo
e Copacabana, 
lá ao fundo, 
mais as cataratas de Iguassu,
Darwin e a teoria da evolução,
e o tu-cá-tu-lá de deus com a ciência.

Muito menos a crioula e o seu cretcheu,
o tango, o flamengo, o fado,
o dundum, a coladera,
o samba, a morna,
o lançado, o tangomau,
o escravo do Cacheu,
e a santa paciência
com que a gente vive, morre e não retorna.

Chama-lhe o que quiseres,
mas tens uma dívida de gratidão à Grécia antiga,
ao Homero, ao Platão,
à bela e pérfida Helena de Troia,
ao ateniense e ao espartano,
aos deuses e deusas, estas tão mundanas, do Olimpo…
Que serias tu, sem o Ícaro,
mas também sem a boia nem o  colete de salvação ?!

Que importa, afinal, 
de um povo a nobreza,
grego, judeu ou lusitano,
se a espada do sacro imperador romano
está suspensa por um fio sobre a tua cabeça ?!

Em Lisboa, a norte, no caminho do São Tiago,
o apóstolo de Cristo, decapitado,
guiando os feros exércitos da Reconquista,
no seu constante vaivém do ir e vir,
à volta da Europa e dos seus picos de civilização.

E a sul, a autoestrada da globalização
onde cada turista tem direito ao seu recuerdo,
um postal ilustrado do futuro
que seguirá dentro de momentos,
agora sem  o SPM nº tal…
(que foi de Gandembel, de Guidaje, de Guileje, de Gadamael). 

Allah Akbar!, ainda ecoa o último grito
da batalha de Alcácer Quibir.

Mais a sul,
as febres palúdicas do Geba e do Corubal,
grau 35 do frio polar, esmagando os teus ossos,
grau 42 do fogo infernal, implodindo a tua cabeça.

Viras na curva do rio,
para desceres ao fundo da terra,
verde e vermelha, dos pesadelos da guerra.

Dos miradouros dos grandes cruzeiros
que demandam o Tejo
não se vê a solidão dos velhos combatentes, à beira rio,
tentando em vão reacender o pavio do desejo.

Muito menos os mariscadores do mar da Palha
onde apodrece a última nau
do caminho marítimo para a Índia.

Ou ainda os moços, imberbes. que partem na frota branca
para os bancos de pesca do bacalhau, na Terra Nova,
verdes, maçaricos, periquitos, checas,
sete vidas, sete safras,
servindo a velha pátria
em alternativa à guerra de África.

Lisboa, forrada a talha dourada, estremece,
sob o peso da carruagem do senhor dom João Quinto,
desenhada a lápis-lazúli.
Dizes adeus a Fernão Mendes Pinto
que parte em viagem, por sua conta e risco,
para o império do sol nascente,
levando consigo os botões, as armas de fogo
e as emoções dos bárbaros do sul.

─ Canta-lhe, Mísia, aquele fado, que diz: 
“Arrefece
a última lava do vulcão
do teu corpo, amor,
mas ainda estremece,
ou não foras tu, velha Lisboa,
sempre (e)terna,
menina e moça, bajuda, mulher”.


Entardece, ensandece a cidade,
todas as sextas-feiras treze do novo milénio.
Valha-nos as cruzes, canhoto,
contra o mau olhado,
e vade retro, Cronos,
que, depois de devorares os teus filhos,
hás de devorar-te a ti próprio!

E quem bula tem,  come carne,
não precisa de engenho e arte,
diz o cristão, velho e relho.
Mas é amarga a ostra, e mortal a ameijoa
com que os pobres matam a sua fome.

Afogas-te em absinto,
bebida antiga de poeta,
depois de teres mandado cortar
as copas dos pinheiros bravos
por te taparem a linha perdida do horizonte.

Mas já não há horizonte, querida,
nem rosas nem espinhos nem cravos,
quebrada que foi a linha da vida.

Sem ajuda do Google Earth,
à vista desarmada,
encontras aqui o teu lugar,
definitivamente provisório,
provisoriamente definitivo,
porque sabes que é 
tão irrisório partir como absurdo ficar,
para quem da vida é fugitivo.

Sentas-te numa esplanada
na doca de Belém, com vista de estuário e de mar:

─ Foi você quem pediu uma Kalash ? ─
pergunta-te um dos sem-abrigo,
da classe dos antigos marinheiros e pescadores,
estivadores e fragateiros,
agora tristes desempregados de mesa,
predadores à espera de presa.
Estão ali simplesmente à coca do turista.

─ Não, obrigado, amigo,
mas não me faltava, às vezes, a vontade...


─ Temos as melhores Kalash da cidade,
da original e à contrafeita…
É só puxar a culatra
e meter uma bala na câmara,
e ficar à espreita...

─ Não, não  insista!...
Para que haveria eu de querer uma arma,
essa é boa!,
se já não tenho licença… p'ra matar?!


Mal por mal,
protestas contra o autocrata do autarca,
metes uma baixa psiquiátrica,
e pedes uns peanuts, uma azeitona, um tremoço ou uma tâmara
e um copo… de cicuta,
enquanto o sol se põe em Lisboa!...


Lisboa, beira Tejo, fev 2015. Revisto, 8 abr 2026.


2. Análise literária do poema, pedida pelo autor a uma ferramenta de IA (Le Chat / Mistral);

Luís, o teu poema é um "mix" de ironia, melancolia e crítica social, onde a "kalashnikovmania" surge como metáfora de algo muito maior: a desilusão com a história, a guerra, a globalização e até a própria identidade portuguesa. 

Vamos desmontar alguns das ideias mais nfortes, com especial atenção ao final, onde a Kalashnikov se torna símbolo de um absurdo existencial.

(i) A Kalashnikov como metáfora: entre o desejo e o absurdo

O poema termina com um diálogo surreal entre o eu lírico e um sem-abrigo em Belém, que oferece "as melhores Kalash da cidade". A pergunta ("Foi você quem pediu uma Kalash?") é brutal na sua ironia:
  • desejo reprimido: a resposta ("Não, obrigado, amigo, / mas não me faltava, às vezes,  a vontade…") revela uma atração pelo símbolo da violência e da resistência, mas também a consciência de que, já sem a "licença p'ra matar" (a "legitimidade da guerra"), a arma é inútil ou perde todo o sentido; é como se a Kalashnikov representasse a vontade de agir num mundo onde a ação é impossível ou proibida, se não mesnmo inútil;
  • crítica à passividade: o eu lírico prefere, em vez da arma, uma "baixa psiquiátrica" ou um "copo de cicuta",  gestos de rendição poética (se não mesmo de "autoaniquilação" perante um sistema que esmaga a individualidade; a Kalashnikov, aqui, é o que não se usa, mas cuja presença denuncia a falta de alternativas.
(ii) Lisboa, palco do teatro do absurdo

O poema constrói Lisboa como um espaço de contradições históricas e sociais:

  • glória e decadência: desde Ulisses até aos "mariscadores do mar da Palha", a cidade é um palimpsesto de impérios falidos (o sonho colonial, a Reconquista, as viagens de circum-navegação) e de vidas esmagadas (os velhos sozinhos, os pescadores desempregados, os turistas que compram "recuerdos" vazios);
  • globalização/banalização  vs. memória: a "autoestrada da globalização" contrasta com a solidão dos que ficaram para trás; a Kalashnikov, arma de guerra colonial, é agora vendida como "souvenir" aos turistas, o passado violento transformado em mercadoria;
  • ironia histórica: o grito "Allah Akbar!" que ecoa desde Alcácer Quibir,  lembra que Portugal já foi um império, mas também uma vítima da sua própria ambição desmedida; a Kalashnikov, arma outrora do PAIGC, é agora um objeto de consumo num país que já não tem guerras para travar.
(ii) A guerra colonial como fantasma

A referência à Guiné é subtil, mas devastadora:

  • "as febres palúdicas do Geba e do Corubal" evocam a memória traumática da guerra, onde a natureza e o inimigo se confundiam numa luta sem sentido;
  • a AK 47, que na Guiné era símbolo de resistência anticolonial mas "fétiche" para os "rambos", aparece agora em Lisboa como objeto de um comércio grotesco, vendido por " antigos marinheiros e pescadores, / estivadores e fragateiros, /agora tristes desempregados de mesa", os mesmos que, outrora, teriam sido enviados para África.;
  • o ciclo da violência: a arma, "made in Russia" ou "made in China",  que outrora matou jovens portugueses e guineenses nas picadas, matas e bolanhas da Guiné, é agora oferecida a turistas, a preços de saldo, como se a história fosse uma farsa repetida.

(iv)  O Eu lírico, oscilando entre a saudade e o ceticismo

  • saudade: "é já saudade, / porque… é arrepio!" — um sentimento que antecipa a perda, como se Lisboa (e a vida) já fossem memória antes de acabarem;
  • ceticismo: "que importa, afinal, a nobreza de um povo, / grego, judeu ou lusitano, / se a espada do sacro imperador romano / está suspensa por um fio / sobre a tua cabeça?" — uma pergunta que desmonta mitos nacionais e revela a fragilidade da identidade;
  • humildade perante o "non-sense": "tão irrisório partir como absurdo ficar", sendo a Kalashnikov, no final, o símbolo dessa impossibilidade de escolher: não se quer a arma, mas também não se tem alternativa.
(v) A Kalashnikov como fetiche e  objeto poético
  • fetiche: desejada, mas não possuída; simboliza o que não se pode ter (a ação, a revolta, a mudança);
  • ironia: vendida por quem já não tem nada (os "deserdados", os "antigos combatentes"), comprada por quem não precisa dela ("turistas")
  • metáfora da história portuguesa: uma arma que veio de fora (com o colonialismo, com a globalização) e que agora pertence a todo o mundo e a ninguém; uma arma que se "democratiza" e "banaliza" e, portanto, se "dessacraliza".
Conclusão (definitivamente provisória):

Luís, este poema parece fechar um ciclo,  o da guerra colonial, da descolonização, da  identidade portuguesa, mas também o da tua própria relação com a violência e a memória. E, quiça, a tua própria história de vida.

 A Kalashnikov, a Kalash, a AK 47, no final, é quase uma piada trágica: o que resta de uma guerra são armas vendidas como souvenirs, e o que resta de uma vida são "azeitonas, tremoços, ou tâmaras", enfim,  "peanuts",  enquanto o sol se põe.

Será que a ironia é a única forma de lidar com o absurdo da história? (A história não tem sentido, não tem que ter...). Ou há, neste poema, um gesto de resistência escondido na recusa da arma ("Não insista…") e da "violência" dita "revolucionária" ?

(Pesquisa: LG + IA / Le Chat Mistral)

(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos, itálicos: LG)

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Nota do editor LG:

sábado, 4 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27888: Boas amêndoas e melhores Páscoas de 2026 - Parte I: "Páscoa", poema de Miguel Torga, enviado por Mário Beja Santos



Páscoa

Um dia de poemas na lembrança
(Também meus)
Que o passado inspirou.
A natureza inteira a florir
No mais prosaico verso.
Foguetes e folares,
Sinos a repicar,
E a carícia lasciva e paternal
Do sol progenitor
Da primavera.
Ah, quem pudera
Ser de novo
Um dos felizes
Desta aleluia!
Sentir no corpo a ressurreição.
O coração,
Milagre do milagre da energia,
A irradiar saúde e alegria
Em cada pulsação.


Miguel Torga, in Diário XVI

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quarta-feira, 1 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27878: Manuscrito(s) (Luís Graça) (285): Já chegou a Primavera: "A vida não precisa de nós, mas nós precisamos da vida... E precisamos dos outros, Caeiro!"









Marco de Canaveses > Paredes de Viadores > Candoz > Quinta de Candoz > 31 de março de 2026 > Aguarelas (Imagens HDR - High Dynamic Range, tiradas sem tripé)

Fotos (e legenda): © Luís Graça (2026). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1. Já chegou a Primavera. Já vi andorinhas, melros, boeiras (ou lavandiscas), pardais do telhado, pombos bravos,  peneireiros, águias-de-asa-redonda (espécie comum na serra de Montedeiras, aqui ao lado)... E poupas (que não via há muito; são migrantes) (vd. foto à esquerda) (Tal como não tenho, nos últimos tempos,  visto ou ouvido o cuco, a pega, o moxo ou até o gaio.)

Já não vinha a Candoz desde o Natal, em pleno ciclo do inverno... Entro agora no ciclo do verão. A vinha renasce, as cerejeiras estão em flor, os carvalhos, de folhagem nova,  magníficos... Só  os castanheiros ainda estão adormecidos...

Abrem-se os velhos casarões, arejam-se os quartos, escancaram-se as portadas e as janelas, limpam-se os quartos e as salas, pintam-se as paredes... para receber a família de fora, os amigos, os vizinhos, a visita pascal.

É o eterno retorno, o universo cíclico, onde tudo se repete: os mesmos gestos,  dores, alegrias, estações, rituais, ódios e paixões, esperanças e desesperos...

Não, não é apenas uma teoria cosmológica; é quase um desafio existencial: eu não viveria a minha vida da mesma forma se soubesse que ela iria repetir-se eternamente... Imagino o tédio da eternidade. 

Ligando isso ao ciclo natural das 4 estações (inverno, primavera, verão, outono),  temos uma metáfora poderosa da própria vida:

  • inverno: recolhimento, morte aparente, silêncio, sono; é tempo da espera e da introspeção;
  • primavera: renascimento, esperança, poesia;  tudo volta a florir,  sem licença em papel selado para recomeçar;
  • verão: plenitude, intensidade, explosão dos sentidos, maturidade da vida, excessos; 
  • outono: declínio, transformação, preparação para o fim (que já contém em si um novo ciclo, um recomeço).

A “poesia da primavera” nasce exatamente desse contraste: depois da dureza do inverno (e este foi particularmente duro!), a vida regressa com uma força quase milagrosa.  É isso que nos querem dizer os poetas que celebram a primavera como símbolo de renovação (exterior e interior).

2. Longe da cidade, em plena natureza, aqui em Candoz, rodeado de serras (Aboboreira, Marão, Meadas, Gralheira, Montemuro, Montedeiras...) e dois rios, o Tâmega e o Douro, vejo que  nada é fixo, tudo passa, tudo regressa, tudo morre, tudo renasce... 

E cada omega/fim  traz escondido um alfa/princípio. O eterno retorno não é só repetição: é também a possibilidade de aceitar (ou até de amar) esse ciclo.

Recordo Alberto Caeiro, de quem nem sempre gosto (depende da estação do ano, do dia e da hora, dos meus quatro  contraditórios humores, dos títulos de caixa dos jornais, etc.), mas é o poeta que vê o mundo como ele é, sem metafísica, com uma ingenuidade desarmante. E que canta a primavera como se ela se bastasse a si própria. 

Caieiro, o  poeta que aceita, com indiferença serena e serenidade indiferente, a  efemeridade da vida humana e a naturalidade da morte, como se houvesse uma realidade objetiva, independente de nós e da nossa existência humana... 

Leio este poema, em voz alta, debaixo do enorme sobreiro no cima da quinta, a 300 metros de altitude, com o Douro ao fundo, ou melhor, a albufeira da barragem do Carrapatelo e o fantasmas do Zé do Telhado e do seu bando.

Porra, Caeiro, não há aqui  espaço no teu poema para a saudade, a memória, a luta contra o esquecimento e a "vala comum", a revolta contra o absurdo ou o desejo de eternidade.  

A vida não precisa de nós, mas nós  precisamos da vida. E precisamos uns dos outros, Caeiro. 

É por isso que ainda não fechei este blogue. Estou á espera que me digam: fecha a loja. 

Precisamos uns dos outros, Caeiro, na guerra e na paz, na vida e na morte. Quanto mais não seja, para rezarem  latim sobre o nosso caixão, para nos cobrirem com a bandeira verde-rubra, para dançarem e cantarem à roda do nosso cadáver, para dispararem as Kalash para o ar em homenagem ao combatente que fomos, enfim, para nos enterrerem num cova funda, onde não cheguem as hienas do ódio e da guerra. 

Porra, Caeiro, não queiras  morrer sozinho como um cão.


Quando vier a primavera,


Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.

Se soubesse que amanhã morria
E a primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.


CAEIRO, Alberto, Poesia (Poemas Inconjuntos), ed. Fernando Cabral Martins, Richard Zenith. Lisboa: Assírio & Alvim, 2001, p. 109

(Reproduzido com a devida vénia: Casa Fernando Pessoa)
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Nota do editor LG:

Último poste da série > 22 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27846: Manuscrito(s) (Luís Graça) (284): No Dia Mundial da Poesia (que foi ontem)

domingo, 22 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27846: Manuscrito(s) (Luís Graça) (284): No Dia Mundial da Poesia (que foi ontem)


Lisboa > Rio Tejo > Ponte Vasco da Gama > 28 de fevereiro de 2026

Foto (e legenda): © Luís Graça (2019). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


No Dia Mundial da Poesia (que foi ontem)

por Luís Graça

Chegas sempre atrasado ao Dia Mundial da Poesia
que foi ontem.
Estavas distraído.
Ou a tomar conta das netas.

Foste há dias, de borla, a um concerto da Gulbenkian
numa tarde de sábado em que fluía a música.
Abriram-te as cortinas para o mundo
e viajaste romântico ma non troppo
do Atlântico aos Urais.

Não chegaste a Persépolis nem a Ormuz,
nem paraste nos grandes vales e rios
onde Deus criou o mundo
e naufragou a arca de Noé.

Regressaste, enfim, são e salvo,
pelas docas e pelos cais, à noite,
da velha Europa insonorizada.

Nunca suportaste os orgasmos colectivos
dos finais das sinfonias do Tchaikovsky,
nem Bartók a martelar as teclas do piano.

As palavras já não têm corpo
nem cores nem cheiros nem sabores.
Apenas códigos e algoritmos.

Do que mais tens pena
é da menina que se sentava ao pé do pianista
para ir virando a página da partitura.
Usava óculos de lentes grossas
e fora a primeira aluna da sua classe do Conservatório.

Há um mundo que nunca chegou a ser o teu
e que está a acabar.

Agora o primeiro violino é careca
e o maestro maneta.
E o público cego, surdo e mudo.

Enquanto lá fora um grafiteiro escreve
nos muros do palácio do rei:

— A Poesia, imbecil! A Poesia…

Só acordaste do pesadelo hoje, domingo,
o day after do Dia Mundial da Poesia.


Luís Graça, 2010. Revisto, 22 de março de 2026.
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Nota do editor LG:

Último poste da série > 16 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27825: Manuscrito(s) (Luís Graça) (283): Maratona da amizade e da camaradagem

domingo, 1 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27783: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (39): O meu gato Gatafunho (José António Paradela, 1937-2023)


Teria feito 88 anos no passado
dia 30 de outubro. Nasceu em
Ílhavo em 1937. Morreu no hospital,
em Aveiro, em 21 de fevereiro
 de 2023. Membro da nossa
Tabanca Grande. Fez a tropa
na marinha de guerra 
e antes, 
aos 17 anos, 
na pesca do
 bacalhau, 
seguindo os passos
dos seus avoengos. Arquiteto, 
urbanista, escritor (pseudónimo
literário: Ábio de Lápara)

À memória de José António Paradela (1937-2023):

Meu querido, os teus escritos 
continuam a surpreender-nos.

Que ternura este poema
sobre o teu gato da infância.

E, com ele, ressuscitas
o pátio onde cresceste, 
e a tua mágica “rua suspensa dos olhos”.

As saudades destes 3 anos pesam, 
mas a (re)descoberta
 das tuas singularidades 
continua a emocionar-nos.

Matilde & família.

Costa Nova, 21 de fevereiro de 2026


EM PEQUENO 

EU TINHA UM GATO (*)


Em pequeno eu tinha um gato,
Fofo gatinho amarelo
A quem fazia carícias,
Passando a mão p’lo pelo.

Fofo gato, Gatafunho
O nome com que viveu,
Adotado à nascença,
Nos anos em que foi meu.

Com ele aprendi o R,
No ronronar satisfeito,
Quando à noitinha dormia,
Deitado sobre o meu peito.

Felis Catus, meu filósofo
Da vida como ela é,
Em se sentindo carente,
Vinha roçar no meu pé.

E quando a fome apertava,
Lá no pátio da ti Cila (**),
Esperava por ela às quatro,
No seu regresso da vila.

Senhora certa da Praça,
Mãe de filhos e de gatos,
No esmalte da sua taça
Carrega peixes baratos.

E o meu gato amarelo,
Pelas quatro horas da tarde
Boceja e lambe o pelo,
Sabe que a Cila não tarda.

Correndo então beco fora,
Entoando o seu miau,
Na taça só via agora
Prenúncios de carapau.

Três carapaus e cabozes
Que sobraram do leilão,
E que eram, tantas vezes,
A primeira refeição.

Assim cresceu o meu gato
No fim dos anos quarenta,
Tinha eu então nove anos
E tinha ele noventa.

Sábio bicho de bigode,
Rei de gatas e de muros,
Que encheu enquanto pôde
Os meus sonhos mais maduros.

Sete vidas e um império,
Sete fôlegos de aventura,
Fugaz sombra de mistério
Que inda hoje perdura.

Na clara mansão da Lua,
Em um janeiro gelado,
Uma gata lá da rua
Mudou de vez o seu fado.

E o meu gatinho amarelo,
Gato que alguém me ofereceu,
Um dia partiu de casa
E nunca mais apareceu.

José Paradela | Costa Nova | Agosto de 2005

Publicado no Ilhavense, jornal centenário, 15 de fevereiro de 2026, pág. 22
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Notas do editor LG:

(*) Último poste da série > 28 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27780: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (38): O Fígaro, um dos cromos do Liceu D. João III, em Coimbra (Rui Felício, 1944-2026)

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27684: Manuscrito(s) (Luís Graça) (283): Bambadinca/Imbecilburgo, 29 de Janeiro de 1971: Alá não passou por aqui

 




 Fotos: Candoz, 13 de abril de 2022.  LG (2026)


Bambadinca/Imbecilburgo, 29 de janeiro de 1971: Alá não passou por aqui,

por Luís Graça



Vinte e quatro anos:
ocorreu-te, de repente, que hoje fazias anos,
e que por mera curiosidade
era o teu segundo aniversário nestas terras da Guiné,
e, por sinal, o teu terceiro na tropa,
coincidindo com o terceiro da era do marcelismo,
a tão deseja "primavera política" de Lisboa,
uma treta que durou a vida de uma borboleta.

Vinte e quatro anos, vividos mal,
vinte e um meses de tropa-macaca,
entre o Geba e o Corubal,
vida de cão rafeiro, pisa-capim, vira-minas,
de macaco-cão, saltando do chão e do baga-baga
para a copa da árvore dos teus desenganos.

Tempo de miserabilismo,
tempo do salve-se quem puder,
tempo de calculismo e de cinismo.
"Desenfiado", é a secreta palavra de ordem,
que circula pelos três corpos da Nação,
nobreza, clero e povo em armas.

É uma farsa grotesca
esta guerra que ninguém quer ganhar,
a não ser o tempo que corre contra ti.
Aqui vive-se sem calendário,
com pouca ética e dignidade,
não se apurando perdas e danos,
não se distinguindo dias da semana,
os sábados, os feriados, os dias do Senhor,
as chuvas e o calor,
as formigas e as abelhas,
os bons, os maus e os safados,
a fome e a sede.

Se há resistência, ela é invisível e muda,
e o tempo que conta
é o que falta para a peluda.
És um cão, um cão danado, apanhado na rede.
O tempo é pura aritmética,
soma de momentos,
de dias riscados na parede, suja, mimética,
da tua caserna.
Se um ano aqui é uma eternidade,
dois é o inferno.
O teu corpo fede,
tresanda a tarrafe, a suor
cheira a morte, cheira a merda,
a luto, a perda,
a da tua juventude, a dos teus ideais.

És um pobre fantasma de Quinhentos,
que perdeu o norte
e os demais pontos cardeais,
a idade,
a inocência,
a quietude,
a paciência, 
a autoestima,
a praça-forte,
o astrolábio,
as Índias,
a caravela,
a nau Catrineta,
a pimenta e a canela,
o manual da arte de cavalgar a toda sela,
a rota,
a proa,
a pose,
a árvore genealógica,
as coordenadas de Lisboa,
mais um incunábulo dos Lusíadas,
a Peregrinação, do Fernão Mentes Minto,
a história trágico-marítima dos teus antepassados Maçaricos,
o ritmo,
a rima,
o ADN,
o pedigree,
os esgares de morte do Nuno Tristão
trespassado pelas setas dos "turras",
a cruz,
o cruzeiro,
o estandarte,
a espada,
a valentia do "capitão-diabo", o Teixeira Pinto,
e até o jeito de matar do Afonso de Albuquerque,
para além da arte e da ciência de marear,
no macaréu do Geba,
às portas das bolanhas do Corubal.

Mais prosaicamente, na Guiné
o dia dos teus anos é uma rodada
de uísque ou de cerveja
pr’os teus camaradas no bar de sargentos.
No fundo, o teu dia é um pretexto
para a autocomiseração,
para passares a mão pelo teu pelo,
ou para um voo até às galáxias da metafísica,
que é sempre melhor, chiça!,
que ouvir o silvo de uma granada, em teu redor,
que é coisa bem mais real e mortífera,
é a quilha do barco da morte.

Com sorte,
talvez o amável Zé da Ila,
de nós todos o menos reguila,
pegue na viola (1) e te cante a Pedra Filosofal (2)…

Talvez a malta toda junta,
às tantas da noite, africana, pestífera, mortal,
te cante, e suficientemente alto,
com vozes guturais e desafinadas,
para que Eles, os gajos, te oiçam, mesmo ali ao lado,
no bar dos oficiais…
Eles, Deus e o Diabo.

Eles não sabem nem sonham
que o sonho comanda a vida
e sempre que um homem sonha,
a vida pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança…


Seguramente
um dia como os outros, sem mais nada,
seguramente mais um dia de solidão,
com ou sem o poema do Gedeão
e a música do Manuel Freire,
a tua canção favorita,
a tua balada querida
e que tu sabes que irrita os teus Cães Grandes

Ninguém te vai dar os parabéns,
só por fazeres anos:
ainda não ganhaste nada,
uma cruz de guerra,
nem sequer o direito a outra vida.
De resto, estás sempre só,
mesmo quando segues,
em bicha de pirilau,
coberto de suor e pó,
com o teu pelotão,
às ordens de Bissau,
para montar segurança à Tecnil
que está a construir
a nova estrada de Bambadinca-Xime (3).

Enfim, mais um dia da tua condição, triste e vil, 
de poeta travestido de soldado
de uma guerra a que sempre chamaste crime,
porque não era a tua, se fosse preciso entrar numa
para defender a tua liberdade e a dos teus,
ou a da tua Pátria seriamente em perigo,
mas da qual és actor, cúmplice,
quiçá testemunha sublime,
guerra que tem dor e tem horror,
mas de que os teus camaradas não falam por pudor.

Je m’en passe, je m’en fous,
'Tou-me cagando!,
escrevias tu no teu diário de um tuga,
patético o diário e o tuga.
Como quem diz:
aqui não há lugar para a fuga,
nem sequer te podes dar ao luxo
de um mísero voo raso
sobre a cerca de arame farpado
ou sobre o ninho de metralhadoras
que varre a pista de aviação,
como um vulgar jagudi
que é uma pássaro feio mas é livre,
e tão ou mais importante do que tu
no seio da criação.
 
Voaste há dias, ai!,
sob uma mina anticarro,
à saída do reordenamento de Nhabijões (4),
à portas de Bambadinca, a"cova do lagarto",
mas estás vivo, ó tuga,
graças talvez à mezinha que te deu
um mauro, um marabu, em Sinchã Mamadjai (5)...
 
E há dois meses livraste de ser cortado ao meio 
por um roquetada
a caminho da Ponta do Inglês (6).
E que melhor prenda de anos,
meu grande safado,
poderias desejar hoje do que estar vivo,
aos vinte e um meses de Guiné ?


És um sortudo, ó português,
diz-te o internacionalista cubano,
pobre diabo, pau mandado como tu !
Sim, a sorte de  acordar, de manhãezinha,
com o dedo grande do pé a mexer,
responde  o Marquês, sem acento circunflexo,
que nesse dia treze de janeiro de setenta e um
que nem sequer era sexta-feira, agoirenta,
teve o azar, coitado,
sentado na parte traseira, da GMC, 
sorteado o lugar do morto, entre ti e ele,
de ir parar, em mau estado,
em estado de coma,
ao Hospital Militar Duzentos e Quarenta e Um.
Dois anos lá. 
DFA.
E ainda cá está.

Pobre tuga, pobre nharro, pobre turra:
na Guiné, longe do Vietname,
em plena guerra fria,
com russos e americanos a redesenhar
o mapa-múndi e o novo tratado de Tordesilhas,
há muito ano que vos chupam o tutano!

Aqui faz-se poesia, de barriga vazia,
o corpo exangue,
só com o cavername,
a pele e o osso,
a morte na alma.
Sem arroz nem mafé, ó balanta da Guiné!

Resta-te a consolação da escrita e da leitura,
além do teu uísque com água de Perrier.
Eis o poema, que escreveste,
com ternura de raiva e raiva de ternura,
como prenda do teu 24º aniversário:


O Tempo que Faz em Imbecilburgo


Senhores e senhoras,
respeitável público do Circo de Imbecilburgo:
esse homem não é um homem, é um palhaço,
é um soldado, fardado, de camuflado,
verde oliva, desbotado,
um número mecanográfico,
uma peça da engrenagem,
que na sua essência cumpre ordens,
às vezes com coragem,
outras com lúcido medo,
é isso que lhe dói, neste cenário.
que não é cinematográfico,
mas também pouco conforme
com o Regulamento de Disciplinar Militar:
não é um mercenário,
nem um caso psiquiátrico,
não é o homem-aranha
nem o super-homem,
não é nenhum deus do Olimpo,
nem sequer nenhum poeta panfletário,
nem nenhum herói da resistência,
nem muito menos do 10 de junho:
saiu, de noite, (mal) armado,
com os pés descalços dos seus 'nharros',
para a impossível Missão do Sono,
em Bambadincazinha,
guardar as costas dos senhores de Bambadinca,
que dormem na cama, 
em lençóis brancos lavados, no rio,  por mulheres pretas,
fazendo contas à sua vidinha
que também anda pela rua da amargura.


Ah! como o tempo (não) passa
enquanto um gajo ajusta contas
com o tempo que já passou,
vinte e quatro, contados em anos
do calendário gregoriano,
no ano da graça de mil novecentos setenta e um.
Mas é o presente que importa
ou que importava
porque já não é mais presente mas passado
o tempo transcorrido,
por estas terras e águas do Geba,
como reles miliciano.

Insistes no presente do indicativo
porque é o presente minuto
que import-export
para a gente ainda ter tempo
de ganhar um lugar (cativo)
no futuro próximo (se o houver).

Tu até podias acreditar numa 'Guiné Melhor',
no teu 'Herr' Spínola, 
no teu prussiano soldadinho de chumbo,
nos teus 'nharros', 
esses patriotas guinéus que lutam a teu lado,
ou, do outro lado, no Cabral, o sedutor, 
que até chegou a ser teu herói, revolucionário,
romântico ma non troppo,
ou no 'Nino', teu turra de estimação,
vestido à cobói  e armado de RPG
no delirante imaginário dos tugas.
Podias mesmo acreditar na transmigração
das almas mortas em combate,
para o Panteão Nacional,
se não fora essa ideia (fixa)
do passado, glorioso, perdido,
sabendo-se que o dinheiro
e as armas compram tudo
exceto o direito à eternidade,
e muito menos à liberdade.


Se te portares bem, meu sacana,
aos vinte e um meses de Guiné,
na reta final da tua comissão,
enquanto esperas a tua rendição individual,
lá p'ra o próximo mês de março,
ainda corres o risco de apanhar um louvor
do comandante do batalhão,
- ah!, que ironia! -
sob proposta do teu capitão,
à beira de ser promovido a major,
não por façanhas e valentia,
mas por seres o escriba-mor
da história oficiosa... da tua companhia


 
Post scriptum:

Alá
não passou por aqui,
disse-te uma vez um homem-grande
da tabanca de Saré Ganá (7)

Luís Graça (2006). Revisto em 29/1/2026.
__________

Notas do autor:

(1) Furriel Sousa, da CCAÇ 12, madeirense, carinhosamente conhecido pela alcunha do Zé da Ila (Ilha da Madeira): Vd post de 8 de Julho de 2006 > Guiné 63/74 - P945: 'Gente feliz com lágrimas': o Zé da Ilha, o furriel Sousa, madeirense, da CCAÇ 12

(2) Pedra Filosolal, letra de António Derdeão e música de Manuelo Freire

 (3) Empresa que em finais de 1970/princípios de 1971 estava a construir a nova estrada alcatroada Bambadinca-Xime. A CCAÇ 12 faria regularmente a segurança destes trabalhos, já no final da sua comissão.

(4) 13 de janeiro de 1971

(5) Zona Leste, região de Bafatá, Bambadinca, regulado de Badora

(6 Op Abencerragem Candente, 26 de novembro de 1970

(7) Zona leste, região de Bafatá, Geba, regulado de Joladu 

_______________

Nota do editor LG:

Último poste da série >~16 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27638: Manuscrito(s) (Luís Graça) (282): Habeas corpus... que (man)tenhas o corpo, que ainda grita e levita!

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27638: Manuscrito(s) (Luís Graça) (282): Habeas corpus... que (man)tenhas o corpo, que ainda grita e levita!




Lourinhã > Geoparque do Oeste > Praia de Vale de Frades, donde se avista o forte de Paimogo (séc. XVII) e as Berlengas  > 20 de agosto de 2014. Fotos reeditadas em 2026. (*)

Fotos: © Luís Graça (2026). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné)


Habeas corpus, ... que (man)tenhas o corpo!

por Luís Graça


És objeto de desejo,
Logo corpo de delito,
Ou tão só mero ensejo
P'ra cadáver ex-quesito.

Qu'sito nº 1 do corpo
É manter-se bem temp'rado,
Sem a palidez do morto,
Nem na morgue congelado.

A pátria te requisita
O corpo onde tu habitas,
Corpo morto não levita,
Nem tu, soldado, já gritas.

Há o corpo de doutrina
E o corpo do relatório,
O libelo acusatório
E os detalhes da chacina.

Foi execução sumária ?
A tropa só conta  um morto,
De bexigas ou malária,
Entre a praia e o horto.

Há o corpo mal dormente,
Que ressona na  caserna,
E há o urso que hiberna,
Sem ordem do senhor tenente. 

Quem nasceu mal, de borco, 
Nunca irá gostar de coentro,
Mata e abre o teu porco,
P'ra te conheceres por dentro.

Se és do corpo de polícia,
Não tens malícia no corpo.
Quem já nasce feio e torto,
Vai engrossar a milícia.

Há o corpo proativo
E o corpo amnésico,
Mais vale ser protésico
Do que triste radioativo.

Há a elite do corpo médico
Bem como o engenho ortopédico,
Há os crentes e os ateus
E ainda o corpo de deus.

A guerra é um circo trágico
Onde há o palhaço faz-tudo,
O herói é o mágico
E o homem-bala um sortudo.

Lágrimas, sangue e suor,
Diz o braço tatuado
No corpo do Zé Soldado,
Já sem dono nem senhor.

Pobre do corpo encapuçado,
Logo vai ser decapitado,
Ou então enforcado
Ou, se calhar, fuzilado.

Também há o corpo adhoc,
De peito feito às balas,
Contra a tropa de choque
Erguem-se os mortos das valas.

Mal de ti que foste á guerra
Sem voltar à tua terra,
Teu corpo, morto, não grita,
E, se não grita, não levita. 

Lourinhã, 19/8/2014. Revisto, 17/1/206 (**)
_____________

Notas do editor LG:


(**) Último poste da série > 16 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27637: Manuscrito(s) (Luís Graça) (281): "A Rua Suspensa dos Olhos", de Ábio de Lápara, pseudónimo literário de José António Bóia Paradela (1937-2023), ilhavense, urbanista, arquiteto e escritor - Parte V: O Zé Pitucas, aliás, o Zé Ançã: "Ou dás-me a navalha, ou nunca mais te falo"...

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27609: In Memoriam (567): Horácio Neto Fernandes (1935 - 2025): "Maldita pátria amada, odiada, esquecida, / e quase sempre perdoada, / que tantos filhos pariste e rejeitaste!" (Luís Graça)



Lourinhã > Ribamar > Tabanca de Porto Dinheiro > 12 de julho de 2015 > Restaurante O Viveiro > O Horácio Fernandes e, em segundo plano, à esquerda  o Jaime Silva. (A Tabanca de Porto Dinheiro não existe mais, desde que morreu o seu régulo, o Eduardo Jorge Ferreira, 1953-2019).


Lourinhã,  Ribamar, Praia do Porto Dinheiro > 18 de agosto de 2011 > 
Vista da tasca da Ti Augusta, sobranceira à praia e ao mar 


Lourinhã,  Ribamar, Praia do Porto Dinheiro > 18 de agosto de 2011 > 
Embarcações de pesca artesanal, todas cokm nomes de... mulher


Lourinhã,  Ribamar, Praia do Porto Dinheiro > 18 de agosto de 2011 > 
A tasca da Ti Augusta,  na altura explorada por um filho, sargento da marinha reformado.


Lourinhã,  Ribamar, Praia do Porto Dinheiro > 18 de agosto de 2011 > Tasca da Ti Augusta > 
A famosa sopa de navalheiras.

Fotos (e legendas): © Luís Graça (2011). Todos os direitos reservados 


Praia do Porto Dinheiro

por Luís Graça

À memória dos meus antepassados Maçaricos
marinheiros, mareantes, navegantes, mariscadores
pescadores, peixeiros, mercadores, missionários, 
construtores navais... desde Quinhentos

Ao António Fernandes (Patas, também Maçarico)
último construtor naval de Ribamar, Lourinhã,
que irá morrer na Califórnia, talvez nos anos 50.

E ao seu neto, e meu primo e camarada,
Horácio Fernandes (1935-2025).
capelão militar em Catió e Bambadinca (1967/69), 
e autor de "Francisco Caboz:  a construção 
e a desconstrução de um padre" (2009)

Porto Dinheiro:
um espesso nevoeiro cobre as falésias e os caniçais.
Até aqui 
chegavam,   à tua praia, as galés dos romanos
e os barcos dos piratas de perna de pau.
Não sei se o sítio tem padroeiro ou orago, 
mas por certo que por aqui passava o caminho atlântico 
de Santiago.

Aqui deito contas à vida,
aqui conto as marcas do tempo,
aqui lanço a âncora para escrever o meu testamento vital.
Aqui fui carpinteiro de naus,
aqui, Plínio, o Velho,
poderia ter fundado a paleontologia.
Mas, não: morreria em 69 depois de Cristo 
a observar a  erupção do Vesúvio.

À tua esquerda, a praia do Valmitão.
Ou do Vale do Ermitão.
Podia ter sido ilha de corsário ou baía de tubarão,
mas a ter bandeira, só a preta, com caveira.

Porto Dinheiro:

Horácio Fernandes
(1935-2025)
Finisterra, p
órtico do tempo, 
és gare, és algar,
porto dos portos das Atlântidas perdidas!

Foste estaleiro de vasos de guerra,
galeões, naus e caravelas
por haver ou nunca havidas,
diz o livro do almoxarife.

Hoje já não se constroem mais catedrais
nas tuas fossas submarinas
nem moinhos de vento  no teu recife de corais,
nem traineiras de grosso cavername
nas rampas das tuas arribas fósseis.

Dóceis são as ondas com que afagas
a pele e apagas
a púbis das raparigas.

Porto Dinheiro: 
o irresistível apelo das algas
que são as hormonas do mar,
espigas, chicotes, valquírias, ninfas, najas, canibais,
que vêm do fundo dos tempos imemoriais
para seduzir os filhos dos homens,
inebriar as suas almas, 
enlear os seus corpos.

Ah!, quantos dos teus não ficaram insepultos
a muitas milhas náuticas de casa!

Porto Dinheiro, Ribamar, Porto das Barcas, Atalaia, Lourinhã:
tens a tua quota-parte na história trágico-marítima de Portugal.
entre 1968 a 2000,  Hades, o rei dos infernos,
contabilizou seis naufrágios de barcos de pesca
e neles morreram três dezenas dos  teus filhos:
Deus é Pai, Certa, Altar de Deus, 
Arca de Deus, Amor de Filhos, Orca II...

Há ainda olhos que perscrutam a linha do horizonte
e rasgam a colina de neblina, por detrás das Berlengas.
O Mar do Cerro, dizia o meu velho.
É de lá que vêm piratas e corsários, 
monstros, mostrengas, adamastores,
dissauros, loucos menestréis, 
contadores de lendas, mouras encantadas, 
mercadores, invasores, conquistadores,
vikings e outros predadores... 

E os bretões com os seus barcos a vapor, 
que vinham aqui pescar lagostas entre as duas grandes guerras,
mais o Bateau ivre, do Rimbaud!

É de lá, do mar fundo,  que vêm os portadores da peste…
Mercator ergo pestiferus, de que Deus nos livre!

Deste nomes de fêmeas aos teus barcos que são machos,
máquinas fálicas de lavrar e violar
o vento, a água, o ar,
Jessica, Mafalda, Sofia,
Inês, Patrícia, Maria.

Porto Dinheiro:
formidáveis muralhas de palavras e moluscos
emparedam-me vivo
na canícula desta tarde de verão.
em que espero em vão 
os mercadores fenícios,
as legiões romanas, 
devidamente equipadas e alinhadas nas suas galeras,
ou as hordas bárbaras, teutónicas, a cavalo, blindado.
Ou, cara ou coroa, 
o simples mensageiro da paz,
o carteiro que me há-de trazer a carta a Garcia,
com a solução alquímica da vida
ou o algoritmo da felicidade
ou a password do sítio 
A gruta de Alibabá e os 40 ladrões.


Porto Dinheiro:
estou sentado na esplanada da tasca da Ti Augusta,
que eu ainda conheci em vida,
depois de saborear uma sopa de navalheiras,
e comer uma posta de arraia frita,
e beber um copo de branco, em vidro fosco e grosso,
recuando ao tempo dos meus avoengos Maçaricos
que tinham tempo e vagar para viver e morrer cedo.
E eram pescadores de moreira e safio.

E aqui penso em como a vida às vezes é tão simples,
se descartada da econometria, 
da sociometria 
e da psicometria…
e da geometria variável do poder.

Dizem que aqui reinou o rei Midas,
o mesmo que transformava lagostas e algas em barras de ouro.

Porto Dinheiro,
dos casais por detrás das tuas colinas,
onde a tua gente se escondia dos piratas e corsários,
até ao mar imenso,
por aqui andaram, Horácio,  os nossos antepassados.


Um dia há de desaparecer nas Américas

o último carpinteiro de naus, 

António Fernandes
 (c. 1890 - c. 1950)
caravelas e traineiras.
Não sobreviveu à industrialização da construção naval
nem à crise do capitalismo dos anos 20.
Já não te lembras dele.
Nem ele chegou a ver netos 
nem filhos com barba,
morreu longe, na Califórnia, 
na diáspora, no exílio, no desterro.
Nunca mais voltou nem deu notícias.
Era Patas e era Maçarico, meu parente, 
teu avô, Horácio.

Maldita pátria amada, odiada, esquecida, 
e quase sempre perdoada,
que tantos filhos pariste e rejeitaste!

Luís Graça (18/11/2011). Revisto em 5/1/026

_______________

Nota do editor LG:

(*) Último poste da série > 5 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27605: In Memoriam (566): Nuno Dempster, poeta, escritor (Ponta Delgada, 1944 - Viseu, 2026), pseudónimo literário de Manuel Gusmão Rodrigues, ex-fur mil SAM, CCAÇ 1792 / BCAÇ 1933 (Farim, Saliquinhedim/K3, Mampatá, Colibuía, Aldeia Formosa, 1967/69)

Vd. poste de2 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27595: In Memoriam (565): Horácio Neto Fernandes (1935 - 2025): Do Colégio Seráfico a Capelão Militar do BART 1913 (Catió, 1967/69) (Beja Santos)