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sábado, 29 de junho de 2024

Guiné 61/74 - P25699: II Viagem a Timor: janeiro / junho de 2018 (Rui Chamusco, ASTIL) - Parte V: O país da diversidade, onde umas vezes apetece partir, e outras vezes apetece ficar


Timor Leste > Liquiçá > Manati > Boebau > 1 de fevereiro de 2018 > "Propriamente, em Timor, só há duas estações: o verão e o inverno. Por incrível que pareça as noites mais frias (frescas) são no verão e, claro está, nas montanhas. É rara a árvore de folha caduca. Por isso o verde constante. Se nos distraímos, da noite para o dia aparecem novas flores, novas plantas."





Timor Leste > Liquiçá > Manati > Boebau > 2018 > As crianças gentis da Escola de São Francisco de Assis, fundada pela ASTIL.

Foto (e legenda): © Rui Chamusco (2018). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1. Rui Chamusco, membro da nossa Tabanca Grande desde  10 de maio último,  é cofundador da ASTIL (Associação dos Amigos Solidários com Timor-Leste),  com a sua conterrânea, Glória Lourenço Sobral, professora do ensino secundário, e com o marido desta, Gaspar Costa Sobral, luso-timorense que, em Angola, antes da independência, foi topógrafo, e é hoje formado em direito.

A ASTIL,  criada em 2015 e com sede em Coimbra,  fundou e administra a Escola de São Francisco de Assis (ESFA), nas montanhas de Liquiçá (pré-escolar e 1º ciclo) e tem também em curso um programa de apadrinhamento de crianças em idade escolar. (Havia, então, em Boebau, 150 crianças sem acesso à educação.)

O Rui, professor de música, do ensino secundário, reformado, natural do Sabugal, e a viver na Lourinhã, tem-se dedicado de alma e coração a estes projetos solidários  no longínquo território de Timor-Leste.

Desde a sua primeira viagem a Timor-Leste, no 1º trimestre de 2016, que ele vai escrevendo umas "crónicas" para os membros da ASTIL e demais amigos de Timor Leste. Temos estado a recuperar essas crónicas, agora as da segunda estadia, em 2018 (*).

Em Dili ele costuma ficar na casa do Eustáquio, irmão (mais novo) do Gaspar Sobral, e que andou, com a irmã mais nova, a mãe e mais duas pessoas amigas da família,  durante três anos e meio,  refugiados nas montanhas de Liquiçá, logo a seguir à invasão e ocupação do território pelas tropas indonésias (em 7 de dezembro de 1975).

Em 2018 o Rui Chamusco partiu para Timor, em 25 de janeiro, com o Gaspar Sobral, numa acidentada viagem de 3 dias... O João Crisóstomo também partiu de Nova Iorque, em 2 de março, para se juntar, ao Rui e ao Gaspar Sobral, na sessão da inauguração da Escola, em Boebau, em 19 de março de 2018. Regressou a Nova Iorque em 28.




Lourinhã > 2017 > Rui Chamusco e Gaspar Sobral. A família Sobral tem um antepassado comum que foi lurai, régulo, no tempo dos portugueses. As insígnias do poder (incluindo a espada) estão na posse do Gaspar, que vive em Coimbra. A família Sobral andou vários anos pelas montanhas de Luiquiçá e de Ermera, tentando escapar à tirania dos ocupantes indonésios. O Gaspar esteve 38 anos fora da sua terra, só lá voltando em 2016, com o Rui. 

Foto: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2017)



1. Esta segunda viagem e estadia do Rui Chamusco (de 27 de janeiro a 14 de junho de 2018) (*), em Timor Leste, em  missão solidária,   culminaria  com a inauguração da Escola de São Francisco de Assis (ESFA), em 19 de março de 2018, em Boebau, Manati, nas montanhas de Liquiçá (*).

 Através da família Sobral, um exemplo de "resistência e resiliência", e das crónicas do Rui, vamos conhecendo melhor Timor-Leste, de ontem e de hoje:
 
Estas crónicas tem um enorme interessante para se perceber melhor  o que é hoje a República Democrática de Timor Leste, país membro da CPLP, com o qual mantemos laços históricos, e sobretudo afetivos, tal como mantemos com a Guiné-Bissau e outras antigos territórios que estiveram sob a administração portuguesa em África e na Ásia 

Enfim, estas crónicas, que o Rui Chamusco partilha connosco, acaba por ser um privilégio, para os nossos leitores, amigos de Timor Leste e/ou promotores da lusofonia.  Aqui fica  obrigado ao nosso cronista, extensivo ao Gaspar, ao Eustáquio,à Aurora, à Adobe e outros protagonistas destas histórias luso-timorenses.




II Viagem a Timor: janeiro / junho de 2018 (Rui Chamusco, ASTIL)

Parte V - O país da diversidade




29.03.2018, quinta feira  - Laços de sangue e outros

Quando aqui em Timor se fala de filhos tem que se perceber muito bem a questão da filiação. É frequente em cada família ou aglomerado familiar haver filhos adotivos que, sem qualquer descriminação, fazem parte da família em igualdade de circunstâncias.


Mas são filhos adotivos sem qualquer tipo de formalidades oficiais. Basta que por necessidade se bata à porta devido a qualquer conhecimento ou relação social anterior.

Assim encontramos a casa e a família do Abeka. Já foi abrigo para alguns filhos que, sem qualquer laço de sangue, ali se criaram. Falam com algum carinho do Rogério e do Eusébio, que hoje são já homens casados e pais de filhos. Hoje, ao fim da tarde, tivemos a  visita do Eusébio, de que eu já falei nas minhas primeiras crónicas de 2016, e volto a referi-lo porque a sua atitude passada prova com mais força o que venho descrevendo.

Perdeu o pai durante a guerra com a Indonésia de uma maneira imprevista. Por imprudência, acenderam o lume no local onde estavam escondidos, e as tropas indonésias fizeram o resto: limparam a rajadas todo o acampamento. Por isso, orfão de pai, recorreu a uma família de acolhimento. Então o Eusébio logo que pode lançou-se na sua vida ativa, deixando o espaço físico onde foi criado para fazer a sua própria vida. 

E tudo corria normalmente, até que um dia lhe chegou aos ouvidos que a sua irmã (adotiva) Assun, que entretanto tinha casado, era maltratada e agredida pelo marido.  O Eusébio não fez mais nada: pôs-se a caminho de Ailok Laran, deu uma valente soba no agressor que se pôs em fuga, e comentava furioso: “ nos meus irmãos ninguém bate!...”

Serviu de exemplo a muitos e serve de exemplo para todos nós. Criar filhos não é só gerá-los. É preciso criá-los e educá-los. Os laços de sangue são importantes, mas os laços afetivos não lhe ficam atrás.

30.03.2018, sexta feira - Após a tempestade
 vem a bonança

Não poderei dizer que esta sexta feira santa me foi fácil de suportar. Em confronto interior com costumes e hábitos do exterior, relembrando hábitos e proibições de há mais de cinquenta anos, nem sempre fui capaz de estar calado manifestando o meu desacordo e incumprimento. Porque é dia santo - morreu Jesus -” não se pode saudar ninguém “, “não se pode varrer”, “não se pode assobiar ou cantarolar”, etc...,etc... É pecado! 

E como eu sou um grande pecador, acho que transgredi todas as normas e imposições. Pior ainda, não penso ir confessar-me destes meus pecados.

Fosse como fosse, comecei a ficar mal disposto e a planear ausentar-me daqui. Mas o Senhor “que acalma os ventos e as tempestades” veio em meu socorro e trouxe-me a tranquilidade e a bonança.

Pois é! A aculturação não é só ao tempo meteorológico, ao regime alimentar, aos usos e costumes dos povos. Quantas vezes a nossa mentalidade não tem também de recuar, para vivermos felizes e contentes. Como dizia Bruno Bethleim, “coração consciente para mantermos a nossa identidade”.

31.02.2018, sábado - Prendas

É sempre com alegria que procedemos à distribuição das prendas (importância pecuniária) dos padrinhos e madrinhas aos seus afilhados. Já passou a ser um ritual que junta os contemplados, as famílias, os amigos. Sentado no seu telónio está o João Moniz (Eustáquio) que, um a um, vai chamando, faz assinar, e entrega a importância devida.

Mais um pequeno sermão para relembrar a finalidade destes donativos (apoio às necessidades escolares) e a importância de agradecer aos doadores nem que seja com um simples “ Obrigado, padrinho! Obrigado,  madrinha!”. 

O Eustáquio insiste que todo o que tem padrinho ou madrinha deve ter a vontade e fazer algo por aprender a escrever e a falar português. Alguns ficam mesmo atrapalhados porque não percebem nadinha da língua de Camões, mas se cada vez que aqui vêm já souberem duas ou três palavras novas, talvez um dia se desenrasquem pelo menos a entenderem o que ouvem.

A sessão termina com as fotos que testemunham sempre qualquer entrega e que depois são enviadas aos padrinhos. Um ato simples e transparente que faz inveja a muitos “governantes”. (...)

 01.04.2018, domingo  - Dia de Páscoa em Timor Lorosa’e

O sol já raiou. Já os galos cantam em alegre desgarrada, nesta madrugada serena e carregada de sentido religioso. Em Timor Leste a “colonização cristã” dos portugueses ainda está bem enraizada na fé e nos costumes da maioria das suas gentes. As cerimónias religiosas são massivamente participadas, e os fiéis participam ativamente nas preces, nos cantos, nos rituais. (...)

 
02.04.2018, segunda feira  - A diversidade

Não utilizaria esta palavra se ela não comportasse toda a riqueza de expressão do que penso escrever neste momento sobre Timor Leste. Com certeza que haverá por esta região orientam do globo outras sociedades e outras terras com idênticas características.

Mas é aqui que eu estou, é aqui que me ´é dado viver, é aqui que tomo consciência destes fatores. E por isso vou tentar descrever o que observo, dentro de um quadro de visão pessoal, que embora objetiva terá sempre pinceladas subjetivas. Assim, verifico que:

(i)  a monocultura é quase inexistente neste país. Fauna e a flora, tão exuberantes neste território, reproduzem-se quase por geração espontânea, graças às excelentes condições climatéricas, com calor húmido e chuva que baste. 

Propriamente, em Timor, só há duas estações: o verão e o inverno. Por incrível que pareça as noites mais frias (frescas) são no verão e, claro está, nas montanhas. É rara a árvore de folha caduca. Por isso o verde constante. Se nos distraímos, da noite para o dia aparecem novas flores, novas plantas.

Dizem que das boas coisas que os indonésios trouxeram para Timor foi a replantação ou implantação de algumas árvores. O resultado está à vista, basta olhar para o mundo que nos rodeia. Dizem os entendidos que a biodiversidade é o caminho certo para a nossa sobrevivência; que as plantas se protegem umas às outras. O caso mais flagrante que conheço é nas montanhas de Boebeu / Manati, onde os cafeeiros são abrigados por árvores com mais de cinquenta metros de altura (a Madre Cacau).

(ii)  A raça humana que povoa este território é a maior mistura possível. 

Embora haja o rosto tipicamente timorense, que sem favor é lindíssimo, é frequente encontrarmos à nossa volta rostos indonésios, chineses, japoneses, africanos, malaios (portugueses, australianos, ingleses, franceses, etc...) 

Todos em saudável convivência, exercendo cada um o seu dever ou realizando o seu trabalho. Será este um dos sinais da globalização, onde cada um comunga com o outro mas sem perder a sua individualidade e características.

(iii) A religiosidade imanente em cada um, que se manifesta através de diferentes crenças.

O povo timorense professa na maioria a religião católica, e são muitas as suas manifestações ao longo do ano litúrgico. O poder da igreja em Timor Leste é muito grande, sobretudo no campo social e religioso. Mas não podemos ignorar a sua influência de opinião no campo político. Igualmente apraz-me registar o lugar que outras igrejas e religiões ocupam nesta sociedade e que com respeito mútuo vão exercendo também a sua influência: a igreja protestante, a igreja evangelista, as
testemunhas de Jeová, a comunidade muçulmana.

Estando por diversas vezes nas montanhas, dei-me conta das religiões animistas que por lá subsistem e que determinam muitas vezes o presente e o futuro de muitos dos seus crentes. O timorense dá muito valor e respeita com veneração os seus antepassados que, apesar de ausentes, zelam pelos vivos compensando ou castigando como for o caso. Até o Ramiro, um rapaz novo de vinte anos, acredita que a sua queda do telhado, de que foi vítima durante a construção da escola, foi um castigo dos antepassados por ter ocultado a verdade do roubo de material. Também a nossa escola foi sujeita a um ritual pagão a fim de sabermos o seu futuro.

E creio que cada região do país terá as suas crenças e os seus rituais.

(iv) A língua de comunicação é oficialmente o tétum e o português. 

Mas pelas ruas, aos balcões, nas repartições, nos mercados, nas escolas o que ouvimos é uma mistura linguística que umas vezes facilita e outras vezes complica. A língua indonésia (o Bahassa) ainda está muito arraigada nesta gente. 

Primeiro porque foi imposta com a criação de uma boa rede escolar e com castigos (punição e morte) a quem ousasse falar o português. Depois porque os jovens e a gente dos trinta e quarenta, que são a garantia da sociedade futura, ainda falam corretamente esse idioma. Por fim, há uma grande comunidade de indonésios que mantêm o comércio timorense e que, como é natural, falam constantemente no seu idioma.

Acresce a tudo isto a vontade dos australianos desejando a todo o custo que este povo fale o inglês. Apesar das promessas com que acenaram, o governo timorense de então decidiu que a segunda língua oficial seria o português. Como diz o grande amigo João Crisóstomo “ Timor deve muito da sua independência à igreja e à língua portuguesa”.

O grande problema é saber como é que se vai expandir o ensino do português. Há outras línguas que estão a recuperar e a avançar, como seja o espanhol, por influência dos médicos cubanos, e o inglês graças à pressão australiana e léxico utilizado nos negócios e intercâmbios comerciais. Os governos de cá e de lá têm feito esforços para atenuar o problema. Mas, os que estamos no terreno, damo-nos conta de que isso não é suficiente.

Tem de ser feito muito, mas muito mais. Timor Leste é um pequeno território mas com muita variedade. E é assim que este pequeno país de vai edificando, com reconhecimento e apreço internacional no contexto
das nações, no mundo.

03.04.2018, terça feira - Prolongação de estadia

A data do regresso a Portugal aproxima-se. Mas, não sabendo ainda se há necessidade de prolongar a nossa estadia, pelo sim pelo não fomos ao Ministério da Administração Interna requerer o prolongamento por mais dois meses. 

Depois das formalidades cumpridas, incluindo o pagamento de setenta dólares por cabeça, cá estamos à espera do despacho que, se não vier em devido tempo, para nada nos servirá pois teremos de deixar este país o dia 21 de Abril.

Entretanto, outras tarefas estão a pedir o prolongamento da nossa estadia. Agora é a UNTL (Universidade) que decidiu comemorar o aniversário da independência, dia 20 de Maio, com a exposição “Lameta. Contributo das comunidades luso americanas para a independência de Timor Leste” do nosso amigo João Crisóstomo. Sendo nós (Escola São Francisco de Assis em Boebau) os depositários dos materiais para a referida exposição, e a solicitação do Dr. José Ascenso que é o elo de ligação com a UNTL, teremos de dar o corpo ao manifesto para que a exposição corresponda ao interesse manifestado.

Outras andanças relativas à escola em Boebau merecem o prolongamento da estadia: registos, professores, ano escolar de  2019, acabamentos e melhorias no edifício escolar, reuniões, encontros...

Vamos a ver até onde chegará a nossa resistência: umas vezes apetece partir; outras vezes apetece ficar. Com certeza que a necessidade determinará a nossa decisão.

(Continua)

(Título, excertos, revisão / fixação de texto, itálicos e negritos:  LG)
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quarta-feira, 19 de junho de 2024

Guiné 61/74 - P25661: Timor Leste: passado e presente (8): Os últimos soldados do império que estiveram prisioneiros do IN, na Indonésia (de setembro de 1975 a julho de 1976): tiramos o quico, o chapéu, a boina, o barrete, o boné... à Ephemera - Biblioteca e Arquivo do José Pacheco Pereira

 






Foto de um grupo de 14  (e lista nominal dos  23)  militares portugueses, do Agrupamento de Cavalaria de Fronteira, em Bobonaro, Timor Leste), que, apanhados pela guerra civil, fratricida, entre  timorenses,  acabaram por ficar prisioneiros do IN (desde setembro de 75 a julho de 76). 

A lista nominal foi publicada pelo DP - Diário Popular, de 19/2/1976; o Diário de Lisboa, de 29 de julho de 1976, publicou, depois,  uma reportagem aquando do seu regresso: "Fim de um pesadelo: sãos e salvos regressaram a Portugal todos os militares prisioneiros em Timor"...  Estes nossos camaradas terão sido mesmo os últimos soldados do Império a regressar a casa, numa altura em que, em Portugal, ainda era escasso o conhecimento sobre o processo de descolonização de Timor. A Força Aérea foi buscá-los a Bali.

O IN neste caso era a Indonésia... Estes nossos camaradas estiveram detidos, a maior parte do tempo em condições infames, sem respeito pela Convenção de Genebra, um mês em Timor Leste e 10 meses na parte ocidental de Timor, indonésia, em Atapupo e, depois, também, em Atambua, no último mês... 

Timor ocidental, outrora colónia holandesa, é ainda de má memória para os portugueses e timorenses, vítimas da invasão e ocupação dos japoneses em 1942/45: foi de Atambua  que vieram as criminosas "colunas negras", armadas e alimentadas pelos ocupantes, e que espalharam o terror pelo território português) (*)...

O militar mais graduado, deste grupo de  23 prisioneiros, era então o  major inf 'cmd' António Ivo do Nascimento Viçoso, falecido com o posto de coronel na situação de reforma: em 1999, "23 anos depois", deu um entrevista ao "Público" onde falou deste duros tempos de cativeiro, e do tratamento frio, calculista, cínico, desonroso, que lhes foi dado pelos indonésios...


1. Estes documentos (que reproduzimos acima, com a devida vénia)  estão disponíveis na Ephemera - Biblioteca e Arquivo de José Pacheo Pereira, a quem temos de tirar o quico, o chapéu, a boina, o barrete, o boné... por se ter tornado,  não o maior "almeida" do mundo, mas seguramente o melhor: "recolhe o lixo de hoje" que nos falta para alimentar a nossa memória...

E não faz distinção entre o "lixo" de 1ª classe ou de 2ª classe, dos ricos e poderosos, ou dos fracos e pobres, das maiorias ou minorias,  dos de esquerda ou de direita, de Deus ou do Diabo, dos santos e pecadores... 

Estamos a falar do o "lixo" que a maior parte de nós deita fora... Ou que os nossos herdeiros consideram "lixo", quando batemos a bota... No nosso caso, de antigos combatentes na Guiné (1961/74) coisas como brasões, guiões, crachás das nossas antigas subunidades; diários, cartas, aerogramas, cartazes, fotografias, recortes de jornal; objetos pessoais ou de guerra, que trouxemos daquele território; documentos militares ou do PAIGC,  etc., etc. 

Porque não há conhecimento sem informação nem informação sem dados... O "lixo" de hoje, depois de tratado,  é "conhecimento" amanhã. Esse, é resto, também a missão do nosso blogue, que foi criado com o propósito de "não deixarmos que sejam os outros a contar (ou a ignorar, escamotear, esquecer) as nossas histórias", que são afinal os nossos pequenos rios da memória que vão confluir para o grande rio da História...

Como a Ephemera escreve, com piada, no seu sítio, "Se o Diabo publicar panfletos vamos ao Inferno recolhê-los"... Aliás, e como diz o nosso povo (que gosta de blasfemar), "tão bom é Deus como o Diabo".

3. Com a devida vénia a esta fantástica e generosa equipa de voluntários que faz o Arquivo Ephemera, reproduzimos o seguinte nota que  o José Pacheco Pereira escreveu, em 10/6/2018, sobre a documentação que lhe chegou às mãos, e que ainda está por tratar, relativa aos 23 militares portugueses prisioneiros na Indonésia, em 1975 e 1976 (quase um ano):

(...) Agradeço a Luís Manuel Barata de Carvalho (um dos 23 prisioneiros) e a José Mendes Lopes (então militar em Timor) a oferta do acervo recolhido por Palma Carlos que inclui a mais completa documentação sobre o que aconteceu aos soldados portugueses feitos prisioneiros quando da invasão indonésia. 

"O acervo inclui um vasto número de fotografias sobre o quotidiano em Bobonaro onde estavam aquartelados antes da invasão, e depois em Batugadé onde estavam detidos e nos diferentes locais de detenção. Entre a documentação inclui-se correspondência pessoal e oficial, todo o processo da sua libertação, e a posterior recepção, homenagens e regularização dos seus direitos militares e civis. 

"Foi um processo complexo, a que não faltou muita conflitualidade política e bastante acrimónia, mas sem o compreender e estudar não é possível analisar o processo de descolonização de Timor. (...)

sexta-feira, 24 de maio de 2024

Guiné 61/74 - P25556: Timor-Leste, passado e presente (3): cerca de 70% dos nomes próprios e 98% dos apelidos dos timorenses... continuam a serportugueses!

 

Mendes, Manuel Patrício, e Laranjeira, Manuel Mendes (1935). Dicionário Tétum-Português. Macau: N.T. Fernandes & Filhos. (Disponível em formato digital na BNP - Biblioteca Nacional de Portugal.)


1. Não é por acaso que os ocupantes, invasores e ditadores como o Suharto ou o Franco proibem ou proibíam as línguas dos povos dominados e vencidos:   o português e o tétum, em Timor; o basco, o galego, o catalão, em Espanha, etc. A língua é a verdadeira pátria, a identidade de cada povo...

O tétum e o português ajudaram os timorenses a resistir à ocupação indonésia. tétum é a língua nacional e cooficial de Timor-Leste, a par do português.   Em 1981, a Igreja católica adotou, corajosamente, o tétum como língua da liturgia, em detrimento da língua indonésia. E esse facto foi relevante para o reforço da identidade cultural e nacional dos timorenses e da sua determinação para se tornarem livres e independentes.

Nós, portugueses, temos a obrigação histórica de dar o máximo apoio ao ensino e à promoção das duas línguas oficiais de Timor-Leste. E, por outro lado, temos de estar gratos aos missionários católicos que se interessaram, desde cedo, pelo ensino e divulgação das duas línguas, na época colonial.

Recordamos de novo, aqui hoje,  o trabalho de Mendes, Manuel Patrício, e Laranjeira, Manuel Mendes (1935). Dicionário Tétum-Português. Macau: N.T. Fernandes & Filhos.

2. A título de mera curiosidade, selecionamos  algumas das palavras do tétum que, segundo Mendes e Laranjeira (1935), foram "importadas" do português... Hoje há muito mais vocábulos de origem portuguesa, ligados à(s) ciência(s),  à tecnologia, à política, à economia, à sociologia, etc.: basta ver o sítio do Governo de Timor-Leste (em tétum, português e inglês)... A começar pela saudação: Benvindu ba portal online Governu Timor-Leste ni-nian! 

Veja-se, por exemplo, este excerto de um comunicado de imprensa, do dia 2 de maio de 2024, em tétum e em português:
 
TT > Komunikadus > 22 maiu 2024 > 
Sorumutuk Konsellu Ministrus nian iha loron 22 fulan-maiu tinan 2024

Prezidénsia Konsellu Ministrus
Portavós Governu Timor-Leste
IX Governu Konstitusionál

(...) Konsellu Ministrus hala’o sorumutuk iha Palásiu Governu, Dili, no aprova Rezolusaun Governu nian ne’ebé aprezenta husi Vise-Primeiru-Ministru, Ministru Koordenadór Asuntus Ekonómikus no Ministru Turizmu Ambiente, reprezenta Primeiru-Ministru, relasiona ho konsesaun donativu ida ba Repúblika Federativa Brazíl, hodi apoia intervensaun tanba inundasaun ne’ebé destroi Estadu Rio Grande Súl ho valór dolar amerikanu millaun 4.

Governu manifesta ninia solidariedade no fraternidade ho povu maun-alin brazileiru no liu-liu ho populasaun Estadu Rio Grande Súl, ne’ebé akontese udan boot hodi hamosu inundasaun no rai monu, ne’ebé kauza ema 157 mate, kanek 800 no besik 80 maka lakon, no mós ema rihun 77resin evakua ba fatin temporáriu.

PT > Comunicados > 22 de maio de 2024

Reunião do Conselho de Ministros de 22 de maio de 2024
Presidência do Conselho de Ministros
Porta-Voz do Governo de Timor-Leste

(...) O Conselho de Ministros reuniu-se no Palácio do Governo, em Díli, e aprovou a Resolução do Governo apresentada pelo Vice-Primeiro-Ministro, Ministro Coordenador dos Assuntos Económicos e Ministro do Turismo e Ambiente, em substituição do Primeiro-Ministro, relativa à concessão de um donativo à República Federativa do Brasil, para apoio à intervenção em resultado das cheias que assolaram o Estado de Rio Grande do Sul no valor de USD 4 milhões.

O Governo manifesta a sua solidariedade e fraternidade com o povo irmão brasileiro e especialmente com a população do Estado de Rio Grande do Sul, que foi devastado por fortes chuvas que causaram cheias e deslizamento de terras, que provocaram cerca de 157 mortes, 800 feridos, o desaparecimento de cerca de 80 pessoas e deixaram mais de 77 mil pessoas em abrigos temporários. (...)

3. A par do português, o tétum-praça (em tétum,  tetun prasa) é a língua oficial de Timor-Leste ao lado: foi (e continua a ser) a  língua franca entre os diferentes grupos etnolinguísticos do território. 

Este tétum-praça é a variedade oficial da língua, usada na administração e nas escolas, a par do português. Ao longo dos séculos, o tétum foi muito influenciado pelo português, o qual  passou, entretanto, a ser probido pela Indonésia, a partir de finais de 1975 e durante 24 anos.  Toda  uma geração de timorenses cresceu a falar e a escrever a  língua indonésia. O português passou a ser uma língua de resistência e de identidade nacional.
 
Apesar de alguma resistência dos mais novos, educados na (e pela) Indonésia, é um facto indesmetível que o português tem uma larga aceitação por parte do povo: 70% dos apelidos e 98% dos nomes próprios dos timorenses continuam, ainda hoje, a ser portugueses, mesmo que só um terço fale o português, na melhor das hipóteses...

Mais uma razão para darmos visibilidade a Timor, à sua gente e ao seu apego a Portugal e à lusofonia...

 
Apresentamos a seguir mais uma lista de palavras, de P a V,  que  ao longo dos séculos foram "encorporadas" no tétum... Mendes e Laranjeira (1935) identificam mais de  uma centena e meia (numa recolha de cerca de 8 mil vocábulos, feita nos anos de 1920/30).  Hoje são muitas mais...  

pasíar, v. Passear, vaguear; do português.

pára, v. Parar, terminar, deixar de...; udan pára, deixar de chover, estiar; do português.

parti, s. Participação; v. participar, dar parte; do português.

péça, s. Peça de artelharia, canhão; peça fuan, projéctil de peça, granada etc.; do português.

perdán, s. O m. q. perdua.

perdua, s. Perdão, desculpa; v. perdoar, desculpar; do português.

pinór, s. (t. h.) Penhor; do português.

pobos, s. O povo, a plebe; do português.

rabéca, s. Rabeca, violino; co'a rabeca, tocar rabeca; do português.

ramáta, v. Rematar, acabar, findar-se, terminar, completar; do português.

rarúut, s. Ai rarúut, uma planta das amomáceas, araruta; o m. q. labúta; do português.

rásta, v. Arrastar, levar de rastos; do português.

réal, réar, adj. Muitos, em multidão; ema réar, grande aglomeração de gente; do português arraial (?).

rebísta, v. Passar revista, revistar; do português.

recádo, s. Recados, cumprimentos; presentes que os noivos oferecem um ao outro antes do
casamento; do português.

reçán, réçan, s. Razões, motivos; la liatenc reçan ida, não motivos; la liatenc reçan ida, não saber explicar-se, não saber defender-se; ração, farnel; do português.

rêdi, s. Rede de arrasto, tresmalho; do português.

reformadu, adj. Reformado; do português.

rèinu, s. Reino. Em Timor o reino consiste numa certa extensão de terras cujos povos são governados por um régulo sob a dependência da autoridade portuguesa; divide-se em sucos governados por um chefo (dáto) e estes em povoações governadas por um catuas. Do português.

rekérè, v. Reclamar, exigir, requerer; do português.

réza, v. Rezar, orar, fazer oração; do português.

rícu, adj. Rico, abastado; s.n riqueza, fortuna, haveres; do português.

róda, rodan, rônda, s. Cordão que prende a rede do camaroeiro (clahat) ao aro; corda que retesa as peles nos tambores etc.; roda, aro, volante; do português.

román, romao, s. Romanzeira, romã; do português.

rônda, v. Rondar, vigiar; s. ronda; veja roda; do português.

rósa, s. Rosa, roseira (ai funan rosa); do português.

róta, s. Bengala, chibata, vergasta ; do português.

sáas, v. (Alas) Ser suficiente, chegar, bastar; do português, assaz (?).

sában, s. Chávena, chícara; do português; hudi saban (t.h.) (?).

sabán, s. Sabão; sabân mourin, sabonete; do português.

salga, v. Salgar, deitar sal; do português.

samána, s. (t. h.) Semana; do português.

sanbíla, s. Plaina, cepilho; v. aplainar, acepilhar; do português.

santantóni (ai), s. Uma árvore de flores brancas odoríferas (árvore de Santo António); do português.

santo, s. Santo, justo, bem-aventuado, as almas dos justos; estátua ou estampa religiosa; do português.

santolínu, s. Objectos religiosos antigos que os timorenses conservam em grande veneração
julgando conterem relíquias do Santo Lenho; do português.

sapéu, s. (t. h.) Chapéu; do português.

sapátu, s. Sapato, bota; ai sapatu, uma planta de cujas flores se extrai tinta preta; do português.

sarútu, s. Charuto; do português.

sébi, s. Chefe; do português.

secréta, s. (Uma secreta) Secreta, retrete; do português.

séla, v. Selar, pôr a sela ou selim; do português.

sélan, s. Sela, selim, coxim, albarda; do português.

selín, s. (t. h.) Selim, sela; do português.

sentídu, v. Acautelar-se, ter cuidado, tomar sentido; s. cuidado, sentido; do português.

sentinéla, s. Sentinela, vigia; v. estar àlerta, estar de sentinela; do português.

sepedéra, adj. Háas sepedera, uma variedade de mangas; do português "chupadeira" (?).

serbí, v. Servir, obedecer, estar na dependência de; ami haçara de' it serbi ba Ita-Boot, nós queremos somente ser súbditos; do português.

serbíçu, v. Serviço, trabalho ; do português.

séri, adj. Sério, sisudo, sossegado (oin seri); do português,

 sêrun, s. (Samoro) Cheiro; do português (?).

sicôru, s. O m. q. sicouru.

sicóuru, s. Socorro, auxilio, ajuda; v. socorrer, auxiliar, ajudar ; do português.

 sinál, s. Sinal, marca, distintivo ; do português.

sinár, s. O m. q. sinal.

sinór, s. Senhor; do português.

sinora, s. Senhora; cenoura (planta); do português.

sínti, v. Sentir; do português.

sintídu, (t. h.) O m. q. sentida.

sínu, s. Sino, sineta; dere sinu, tocar o sino; sinu lian, o som do sino; do português.

sírzi, v. Serzir, arremendar; sin. ca'ut; do português.

sita, v. Chita; adj. de chita; do português.

soldadu, s. Soldado; do português.

sôldu, s. Sôldo, ordenado; sin. cole; do português.

sombréru, s. Guarda-ehuva, ombreiro, sombrinha; do português.

sorti, s. Sorte, ventura, fortuna;  do português.

strúbi, v. Destruir; do português.

suàngui, s. Lobisomem etc., o m. q. buan; a palavra suángui não é usada em tétum, parece ser o aportuguesamento da palavra malaia suang à qual corresponde a buan em tétum.

subêru, adj. (Luca) Atrevido, arrogante, soberbo; do português.

Sucé, s. pr. José; do português.

suceder, s. Desgraça, infortúnio, calamidade; v. suceder uma desgraça; do português.

súci, v. (Dili) Acompanhar, associar-se; s. companhia, súcia; do português.

suma, v. Suma uè, abrir covas no leito da ribeira para aproveitar a água filtrada através da
areia; fumar (corrupção da palavra portuguesa).

sumáçu, s. Chumaço, travesseiro, almofada; do português,

tabácu, s. Tabaco; tabacu rahun, rapé; do português.

táçu, s. Tacho, caçoila; do português.

tamáti, s. Tomateiro, tomate; do português.

taráta, tarátar, v. Insultar, injuriar, tratai mal de palavras; do português.

tênda, s. Barraca ligeira, tenda;do português.

ténpar, s. Temperos, adubos; v. temperar, adubar; do português.

tenta, v. Tentar, induzir ao mal; do português.

tentaçán, s. Tentação; do português.

térmu, s. Tèrmo, documento, acta; do português.

tiia, tían, s. Tia ou tio; do português:

tímur, adj. De Timor, timorense, natural, oriundo ou produzido em Timor (em oposição a
maldè que se refere a coisas importadas, ou produzidas fora da ilha); haas timur, manga nativa (de inferior qualidade); cabas timur, algodão indígena da Timor;

tinta, s. Tinta; do português,

tíntu, túa tíntu, s. Vinho tinto,vinho; do português.
tíru, s. Tiro; v. apontar, fazer pontaria; ir em direcção a, ir direito a (la'o tiru ba...); do português.

titia, s. Tia, minha tia: do português.

tíu, tíun, s. Tio materno; do português.

trúca, v. Trocar, mudar, substituir; s. substituto, sucessor; do português,
 
uáca, s. Boi ou vaca; carau uaca avian, boi; carau uaca inan, vaca; o m. q. baca; do português.

úbas,  s. Videira, uvas; do português.

úvas, s. Videira, uva, cacho de uvas, o m. q. ubas; do português.

vadíu, s. e adj. Vàdio, o m. q. badíu; do português.

verónic, s. Medalha religiosa; do português "Verónica".
 
Obsrevações -  (t. h.)—Tétum da parte holandesa (do vocabulário tétum dos
missionários de Timor holandês)

Fonte: Mendes, Manuel Patrício, e Laranjeira, Manuel Mendes (1935). Dicionário Tétum-Português. Macau: N.T. Fernandes & Filhos. (Disponível em formato digital na BNP - Biblioteca Nacional de Portugal.)


(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos: LG) (Atenção: não somos linguistas nem estamos a seguir a ortografia oficial do tétum)

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Nota do editor:

Último poste da série > 15 de maio de 2024 > Guiné 61/74 - P25426: Timor-Leste, passado e presente (2): Exorcizando fantasmas da história: reparações... ou reconciliações ?... Apostemos, isso, sim, no ensino e promoção do tétum e do português

domingo, 12 de maio de 2024

Guiné 61/74 - P25511: Timor - Leste. passado e presente (1): terra "abençoada por Deus" e "castigada pelo Diabo em figura de gente" no século passado, os japoneses (1942-1945) e os indonésios e as suas milícias (1975-1999)


1. Os portugueses sabem ainda pouco da história (passada e recente) de Timor-Leste (*). Mas têm, pelo menos,  a ideia de que a luta pela sua independência (do domínio indonésio, 1975-1999) foi marcada pelo genocídio do povo timorense (estimado em 1/3 da população, que seria então da ordem dos 750 mil habitantes).

Na página do AMRT – Arquivo & Museu da Resistência Timorense, há uma base de dados sobre os Combatentes da Libertação Nacional (n=58070), dos quais 13916 foram considerados  "mártires" e os restantes  (44154) "não mártires", identificados todos por nome, foto (os não mártires), município da naturalidade, anos  de dedicação à luta na resistência, e condecoração.

Também sabemos pouco, nós, os portugueses,  sobre a invasão e  ocupação da ilha quer por tropas aliadas (australianas e holandesas) em 17 de dezembro de 1941 quer depois por tropas japonesas, logo a seguir,  em retaliação, dois meses depois, em 20 de fevereiro de 1942.  

 Havia no território um pequena comunidadade portuguesa (escassas três centenas de pessoas),  a maior parte funcionários públicos, civis e militares, e pessoal religioso das missões católicas. 

Os pais e a irmã mais nova do José Afonso ("Zeca" Afonso), cantor e compositor (1929-1987),  acabaram num 'campo de concentração'  improvisado, em Liquiçá,  durante os restantes três anos (1942-1945), tal como os restantes portugueses (uns ficaram em Liquiçá, outros em Maubara).   O pai era magistrado em Dili nessa altura, vindo de Moçambique em 1939, depois de passar por Angola. 

Essa história dramática da família do "Zeca" Afonso (a estudar em Coimbra, durante o período da II Guerra Mundial, juntamente com o irmão mais velho) bem como da população  timorense  (c. 400 mil), todos apanhados de surpresa pelos acontecimentos, está contada no documentário "Rosas de Ermera", de Luís Filipe Rocha (Portugal, 2017) que passou na RTP1 em 2018. 

Terão morrido 90 portugueses e mais de 40 mil timorenses (de Timor Leste) durante a invasão e ocupação japonesas.

Para saber mais, leia-se  também o artigo de Jorge Silva Rocha, da Comissão de História Militar, sobre Prisioneiros em Timor na II Guerra Mundial" : Rocha, J. S. (2019). Prisioneiros portugueses em Timor durante a segunda guerra mundial. In Pedro Aires Oliveira (Ed.), Prisioneiros de guerras: Experiências de cativeiro no século XX. (pp. 217-239). Lisboa: Tinta da China .

É ainda escassa a investigação historiográfica sobre este período da história timorense, até por falta de fontes arquivísticas. As principais fontes ainda são memorialísticas. De qualquer modo, Timor Leste foi o único território portuguêsultramarino,  ou sob administração  portuguesa,  que foi invadido e ocupado por forças estrangeiras  durante a II Guerra Mundial, não obstante a neutralidade de Portugal.




Fonte: Casa Comum | Instituição: Fundação Mário Soares | Pasta: 05768.032.08295 | Título: Diário de Lisboa | Número: 6853 | Ano: 21 | Data: Sexta, 19 de Dezembro de 1941 | Directores: Director: Joaquim Manso | Edição: 2ª edição | Fundo: DRR - Documentos Ruella Ramos | Tipo Documental: IMPRENSA (Com a devida vénia...)

Citação:
(1941), "Diário de Lisboa", nº 6853, Ano 21, Sexta, 19 de Dezembro de 1941, Fundação Mário Soares / DRR - Documentos Ruella Ramos, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_25120 (2024-5-12)




Fonte: Casa Comum | Fundação Mário Soares |Pasta: 05768.032.08354 |Título: Diário de Lisboa | Número: 6912 |Ano: 21 | Data: Sexta, 20 de Fevereiro de 1942 | Directores: Director: Joaquim Manso |  Fundo: DRR - Documentos Ruella Ramos | Tipo Documental: IMPRENSA| (Com a devida vénia...)

Citação:
(1942), "Diário de Lisboa", nº 6912, Ano 21, Sexta, 20 de Fevereiro de 1942, Fundação Mário Soares / DRR - Documentos Ruella Ramos, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_26731 (2024-5-12)

 

Timor Leste > Dili  > Palácio do Governo  > 2023 > Foto do Jornal Tornado, "on line" (Jornal global para a lusofonia), 23 de junho de 2023 (com a devida vénia) 

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Temos agora, na Tabanca Grande, duas vozes que falam de Timor e, de algum modo, em nome dos timorenses, o nosso mais recente grão-tabanqueiro, nº 886, Rui Chamusco (fundador e líder da ASTIL - Associação dos Amigos Solidários com Timor-Leste) e o João Crisóstomo, líder do LAMETA (Movimento Luso-Americano para a Autodeterminação de Timor Leste)... Com eles dois temos aprendido algo mais sobre Timor-Leste e os timorenses, por quem os portugueses têm mostrado, nas últimas décadas, um especial carinho, amizade e e solidariedade.


2. Timor Leste > História (Excertos)
 
Timor Português 

A porção ocidental da ilha de Timor, com capital em Kupang, pertence hoje à República da Indonésia. A porção oriental, com capital em Díli, pertencia a Portugal desde o século XVI. Quando os primeiros mercadores e missionários portugueses aportaram na ilha de Timor em 1515, encontraram populações organizadas em pequenos estados, reunidos em duas confederações: Servião e Belos, que praticavam religiões animistas. O islamismo, cuja religião predomina na Indonésia atual, não tinha chegado a Timor, e nem o mesmo o budismo que, sobretudo no séc.VIII, imprimiu a sua marca em Java.

No 3º quartel do século XVI chegaram a Timor os primeiros frades dominicanos portugueses, através dos quais se vai desenvolvendo uma progressiva influência religiosa, ao mesmo tempo que se vai estabelecendo a dominação portuguesa. A evolução cultural processou-se em sentido oposto ao que se verificou nas atuais ilhas indonésias de Java, Sumatra e nas costas de Kalimantan e de Sulawesi, onde o islamismo se estendeu cada vez mais.

Em 1651, os holandeses conquistaram Kupang, no extremo oeste da ilha de Timor, e começam a penetrar até a metade de seu território. 

Em 1859, um tratado firmado entre Portugal e Holanda fixa a fronteira entre o Timor Português (atual Timor-Leste) e o Timor Holandês (Timor Ocidental). Em 1945 a Indonésia obteve sua independência, passando o Timor Ocidental a fazer parte de seu território.

Timor na Segunda Guerra Mundial

Durante a Segunda Guerra Mundial, as forças Aliadas (australianos e holandeses), reconhecendo a posição estratégica de Timor, estabeleceram posições no território tendo-se envolvido em duros confrontos com as forças japonesas. Algumas dezenas de milhar de timorenses deram a vida lutando ao lado dos Aliados. 

Em 1945, a Administração Portuguesa foi restaurada em Timor-Leste.

Direito à Autodeterminação

Entre 1945 e junho de 1974, o governo indonésio, em obediência ao Direito Internacional, afirma na ONU e fora dela que não tinha quaisquer reivindicações territoriais sobre Timor Oriental (Leste). 

Ao abrigo da resolução 1514 (XV) de 14 de Dezembro de 1960, Timor-Leste foi considerado pelas Nações Unidas como um Território Não-Autónomo, sob administração portuguesa. 

Desde 1962 até 1973, a Assembleia Geral da ONU aprovou sucessivas resoluções, afirmando o direito à autodeterminação do Timor-Leste, tal como das restantes colónias portuguesas de então. Em Portugal o regime de Salazar (e, depois, de Marcelo Caetano), recusou-se a reconhecer esse direito, afirmando que Timor Oriental era uma província tão portuguesa como qualquer outra de Portugal Continental.

Revolução em Portugal

A Revolução de 25 de Abril de 1974, que restaurou a democracia em Portugal, consagrou o respeito pelo direito à autodeterminação das colónias portuguesas. Visando promover o exercício desse direito, foi criada em Díli a 13 de maio daquele ano a Comissão para a Autodeterminação de Timor. 

O Governo Português autorizou, então, a criação de partidos políticos, surgindo assim três organizações partidárias em Timor Leste: 

  • a UDT (União Democrática Timorense), que preconizava "a integração de Timor numa comunidade de língua portuguesa"; 
  • a ASDT (Associação Social-Democrata Timorense) depois transformada em FRETILIN (Frente Revolucionária de Timor-Leste Independente) , defendia o direito à independência; 
  • e a APODETI (Associação Popular Democrática Timorense), propunha a "integração com autonomia na comunidade Indonésia".

Descolonização de Timor

Em 1975, com a dissolução do império colonial português, aumentaram os movimentos de libertação locais. Em maio de 1975, um projecto das autoridades de Lisboa foi apresentado aos principais partidos Timorenses e, depois de ouvi-los, publicou-se em 11 de julho a lei que previa a nomeação de um Alto Comissário português, e, em outubro do mesmo ano, a eleição de uma Assembleia Popular para definir o seu estatuto político. O diploma previa um período de transição de cerca de três anos.

Desde janeiro de 1975, já estava em marcha um programa local de progressiva descolonização, através de uma Reforma Administrativa, a qual levou à realização de eleições para a administração regional do Conselho de Lautém. 

Os resultados da primeira consulta popular puseram em evidência o reduzido apoio da APODETI, tornando-se óbvio que, por processos democráticos, os Timorenses nunca aceitariam a integração no país vizinho. Muito antes dessas eleições regionais era claro, para qualquer observador independente que visitasse o território, que a esmagadora maioria dos Timorenses recusava totalmente a integração na Indonésia. As diferenças culturais eram uma das principais razões de fundo desta recusa.

Proclamação da Independência

Em 28 de Novembro de 1975 dá-se a Proclamação unilateral da Independência de Timor-Leste pela FRETILIN e pelo primeiro Presidente da República, Xavier do Amaral, assumindo o cargo de Primeiro-Ministro Nicolau Lobato, que viria a ser o primeiro líder da Resistência Armada. Com a proclamação da Independência tem também início a guerra civil.

A Indonésia, a pretexto de proteger os seus cidadãos em território Timorense, invade a parte Leste da ilha e rebaptiza o território de Timor Timur, tornando-a sua 27ª província. Recebeu o apoio tácito do governo norte-americano que via a Fretilin como uma organização de orientação marxista.

Resistência Timorense

Após a ocupação do território pela Indonésia a Resistência Timorense consolida-se progressivamente, inicialmente sob a liderança da FRETILIN. 

Para apoiar as FALINTIL (Forças Armadas de Libertação de Timor-Leste), criadas em 20 de Agosto de 1975, organiza-se a Frente Clandestina ao nível interno, e a Frente Diplomática, ao nível externo. 

Posteriormente, sob a liderança de Xanana Gusmão é implementada a política de Unidade Nacional, unificando os esforços de todos os sectores políticos Timorenses e avançando com a despartidarização das estruturas da Resistência, transformando o CRRN (Conselho Revolucionário de Resistência Nacional) em CNRM (Conselho Nacional de Resistência Maubere), mais tarde transformado em CNRT (Conselho Nacional de Resistência Timorense), que viria a liderar o processo até à independência de Timor-Leste, já sob os auspícios das Nações Unidas. (Para mais informações sobre a Resistência Timorense, consultar o Website do AMRT – Arquivo & Museu da Resistência Timorense.

Aproximadamente 1/3 da população do país, mais de 250 mil pessoas, morreram na guerra

O uso do português foi proibido, e do tétum foi desencorajado pelo Governo pró-indonésio, que realizou violenta censura à imprensa e restringiu o acesso de observadores internacionais ao território até a queda de Suharto em 1998.

Consulta Popular – Sim à Independência

Em 1996 José Ramos-Horta e o bispo de Díli, D. Ximenes Belo receberam o Nobel da Paz pela defesa dos direitos humanos e da independência de Timor-Leste. 

Em 1998, com a queda de Suharto, após o fim do "milagre económico indonésio", B.J.Habibie assumiu a presidência desse país, tendo acabado por concordar com a realização de um referendo onde a população votaria "sim" se quisesse a integração na Indonésia com autonomia, e "não" se preferisse a independência. 

O referendo foi realizado em 30/08/1999 e, com mais de 90% de participação no referendo e 78,5% de votos, o Povo Timorense rejeitou a autonomia proposta pela Indonésia, escolhendo, assim, a independência formal.

Apesar disso, milícias pró-Indonésia continuaram a actuar no território, atacando inclusive a sede da UNAMET (os observadores das Nações Unidas) e provocando a saída do Bispo D. Ximenes Belo para a Austrália, e o asilo de Kay Rala Xanana Gusmão na embaixada inglesa em Jacarta. Os assassinatos, promovidos por milícias anti-independência, armadas por membros do exército indonésio descontentes com o resultado do referendo, continuaram.

Solidariedade Internacional

As imagens despertaram protestos em vários países do mundo junto às embaixadas da Indonésia, norte-americanas e britânicas, e também junto às Nações Unidas, exigindo a rápida intervenção para cessar os assassinatos. 

Em Portugal nunca se viram tantas manifestações populares de norte a sul do país desde o 25 de Abril de 1974. 

Pela primeira vez também a Internet foi utilizada em massa na divulgação de campanhas pró Timor e a favor da rápida intervenção da ONU.

Intervenção das Nações Unidas

Finalmente a 18 de Setembro de 1999 partiu um contingente de "capacetes azuis" das Nações Unidas, uma força militar internacional composta inicialmente de 2500 homens, depois aumentados para 8 mil, incluindo australianos, britânicos, franceses, italianos, malaios, norte-americanos, canadianos e outros, além de brasileiros e argentinos. 

A missão da força de paz, chefiada pelo brasileiro Sérgio Vieira de Mello, era a de desarmar os milicianos e auxiliar no processo de transição e na reconstrução do país.
Restauração da Independência

Em Portugal e em vários outros países organizaram-se campanhas para arrecadar donativos, víveres e livros. Aos poucos a situação foi sendo controlada, com o progressivo desarmamento das milícias e o início da reconstrução de moradias, escolas e do resto da infra-estrutura. 

Xanana Gusmão retornou ao país, assim como outros Timorenses no exílio, inclusive muitos com formação universitária. Foram realizadas eleições para a Assembleia Constituinte que elaborou a actual Constituição de Timor-Leste, que passou a vigorar no dia 20 de maio de 2002, quando foi devolvida a soberania ao país passando este dia a ser assinalado como Dia da Restauração da Independência.

(Revisão / fixação de texto, negritos: LG)