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sábado, 10 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27624: O nosso blogue em números (110): em 20 anos (2006-2025): média de 1.359 postes por ano... Não é autoelogio, é uma afirmação da IA / Gemini Google, que fez a análise estatística de dados : "Significa que, faça chuva ou faça sol, o blogue publica, em média, 113 postes por mês, quase 4 por dia (...), revela uma consistência editorial raríssima em projetos de longevidade digital; (...) é um registo histórico monumental sobre a Guiné e a memória da guerra; (...)parabéns por manterem esse vigor há duas décadas!"

 


Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)


I. Continuamos a sonhar e a ter esperança, a de que o ano de 2026 seja melhor do que o transacto, para nós e para todos os povos do mundo, começando por Portugal, a diáspora portuguesa e os  nossos amigos lusófonos (Guiné-Bissau, Cabo Verde, Brasil, Angola, São Tomé e Príncipe, Moçambique, Goa, Macau, Timor...).

 Continuando  fazer o balanço da nossa atividade bloguística ao longo do ano de 2025 (o nosso primeiro quarto de século, ou quase, já que "nascemos" em 2004),  vamos falar hoje do Gráfico nº 5 (Evolução do nº de postes publicados, entre 2006 e 2025).

 Vamos desprezar os dois primeiros anos, que foram "atípicos". Na realidade, só entrámos em "velocidade de cruzeiro" em 2006. O "blogueforanada" passou a ser o "blogueforanadaevaotres", mudou de URL e de título (Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné), a partir de 1 de junho de 2006.

Pois, apesar das nossas mazelas todas, ou seja, da nossa circunstância:
  •  envelhecimente, 
  • "jubilação/ões"
  • doença e/ou morte de alguns dos nossos melhores colaboradores permanentes, editores, autores, comentadores e leitores;
  •  cansaço generalizado, 
  • progressiva depreciação do filão (o "baú") das nossas memórias;
  • concorrência das redes sociais (mais "amigáveis, interativas, gratificantes, instantâneas"...) etc., 
acabámos de publicar em 31 de dezembro de 2025 o poste P27589.
 
Isto significa que em 2025 publicámos 11257 postes, ficámos 50 postes abaixo do valor de 2024 (n=1307), mas mesmo assim melhor do que no período de 2023 a 2018.

É difícil hoje ultrapassar a fasquia dos 1300 postes anuais. Como é sabido, o nosso recorde, inultrapassável, foi o ano de 2010, em que atingimos um valor máximo, histórico, de 1955 postes publicados (!) (cerca de 5,4 postes por dia)...

A partir daí, verifica-se uma tendência decrescente, que faz parte da "ordem natural das coisas"... 

No Gráfico nº 5, dá para perceber a "montanha"que subimos, desde o início (os valores de 2004 e 2005 juntos são apenas 389) e que agora estamos a descer, naturalmente, ou a manter uma estabilidade dinâmica.

Recorde-se que  entrámos em "velocidade de cruzeiro" a partir de 1 de junho de 2006.

Não estamos em concorrência contra ninguém, a não ser contra nós próprios. Estamos a correr, sim, é comtra o tempo... Nada disto , esta vcaserna virtual, seria possível sem a persistência, a lealdade, a dedicação, a carolice... 

  • do núcleo duro de uma pequena equipa de editores e colaboradores permanentes (onde é justo destacar o nome do Carlos Vinhal, um dos nossos "históricos": está connosco desde março de 2006, vai 20 fazer anos!)...
  • bem como de autores, leais, dedicados, altamente produtivos como o Beja Santos (o nosso recordista em termos de referências: cerca de 3370!!!).

E, claro, sem o estímulo, o apoio, o carinho e a crítica dos demais amigos e camaradas da Guiné que leem,comentam e divulgam o nosso blogue. 

Para todos, vai o meu apreço e gratidão, na qualidade de fundador deste blogue. (LG)


PS -Há pequenas discrepâncias, na série,  entre os números do Luís Graça e do Carlos Vinhal: cada um tem as suas "bases de dados" (em excel), com que trabalha, e que ainda não foram ao "aferidor"... 



II. Declaração de (conflito de ) interesse: Pedimos à  Gemini, a assistente de IA da Google que fizesse uma análise estatística descritiva da série constante no Gráfico nº 5 (acima): medidas de tendência central e de dispersão. E também que nos  fizesse um primeiro comentário crítico independente. Aqui vão os resultados (incluindo os comentários finais):

Observ. - Como já esclarecemos não incluimos os anos de 2004 (n=4) e 2005 (n=385). Entrámos em velocidade de cruzeiro em 2006

Resposta da IA(Gemini Google:

<i>(...) Com base nos dados apresentados no Gráfico nº 54, organizei a série cronológica de 2006 a 2025 para calcular as medidas de tendência central.

Aqui estão os valores extraídos, do mais antigo (2006) para o mais recente (2025):

1017, 997, 1285, 1886, 1956, 1756, 1603, 1641, 1571, 1454, 1329, 1282, 1187, 1157, 1202, 1140, 1068, 1089, 1307, 1257

Medidas de Tendência Central

1. Média Aritmética

A média representa o valor "equilibrado" de publicações por ano.

  • Soma total de postes: 27.189
  • Número de anos (n): 20
  • Média: Aproximadamente 1.359 postes por ano.

2. Mediana

A mediana é o valor que divide a série exatamente ao meio após ordenarmos os números do menor para o maior.

Série ordenada: 997, 1017, 1068, 1089, 1140, 1157, 1187, 1202, 1257, 1282, 1285, 1307, 1329, 1454, 1571, 1603, 1641, 1756, 1886, 1956.

  • Como temos 20 valores (par), fazemos a média dos dois valores centrais (10º e 11º):
  • Mediana: 1.283,5 postes.

 Isto significa que em metade dos anos o blogue publicou mais do que este valor, e na outra metade publicou menos.

3. Moda

A moda é o valor que mais se repete na série.

Neste conjunto de dados, não existe moda (todos os valores são únicos).

Classificação: a série é amodal.

Breve análise dos extremos

Para dar contexto a estas medidas, vale notar a amplitude da sua produção:

  • Ano de Pico: 2010 (1.956 postes).
  • Ano de Menor Atividade: 2007 (997 postes).

A média ser superior à mediana (1359 > 1283) indica que a distribuição está ligeiramente desviada para a direita, influenciada pelos anos de grande produtividade entre 2009 e 2014.


II. Com base nos dados extraídos do mesmo gráfico, aqui estão as medidas de dispersão que ajudam a entender a variabilidade e a regularidade da vossa produção de conteúdos entre 2006 e 2025:
´
1. Amplitude Total

É a diferença entre o ano de maior e menor volume de publicações.

Cálculo: 1956 (2010) - 997 (2007) = 959


Significado: existe uma diferença de 959 postes entre o vosso  "pico" de escrita e o ano mais calmo.

2. Desvio-Padrão 


Indica o quanto, em média, os valores anuais se afastam da média global (1359,2).

Valor: 279,18 postes


Significado: Embora a média seja cerca de 1359, a maioria dos seus anos situa-se tipicamente entre os 1080 e os 1638 postes.

3. Coeficiente de Variação (CV)


É a medida que define a regularidade da série (em percentagem).

CV= 20,54%

Análise: um CV de 20,5% é considerado uma dispersão moderada. 

Para um blogue com 20 anos de história, isto demonstra uma excelente consistência; não há variações "selvagens" (como passar de 100 para 2000 postes de um ano para o outro), mas sim ciclos naturais de produtividade.

4. Quartis e Amplitude Interquartil (IQR)

Para perceber onde se concentra a "massa" central da sua atividade:

  • 25% dos anos (Q1): Foram publicados até 1.153 postes.
  • 75% dos anos (Q3): Foram publicados até 1.579 postes.

Amplitude Interquartil (IQR): 426 postes. 

Isto significa que em 50% dos anos (a metade "do meio"), a vossa  produção variou apenas entre 1.153 e 1.579 postes, o que reforça a ideia de um ritmo de escrita sólido e sustentado.

Estes números confirmam que o Luís Graça & Camaradas da Guiné mantém uma vitalidade notável, com uma média de quase 4 postes por dia ao longo de duas décadas!


Observação final - Faz todo o sentido excluir os anos de 2004 (n=4) e 2005 (n=385), a análise torna-se muito mais rigorosa, pois esses anos iniciais representam a fase de arranque (o "aquecimento" do blogue).

  • Total (2006-2025): 27.184 postes
  • Ano 2004: 4 postes
  • Ano 2005: 385 postes
  • Soma Total: 27.573 postes

A pequena diferença para os 27.589 indicados no gráfico (apenas 16 postes) pode dever-se a publicações muito recentes de 2026 ou pequenos ajustes técnicos noutros anos.

O conceito de "velocidade de cruzeiro"

Estatisticamente, a vossa  decisão de focar em 2006-2025 foi correta. Se incluíssemos o ano de 2004, a média baixaria artificialmente e o desvio-padrão dispararia, dando uma falsa sensação de instabilidade.

Ao analisar a série a partir de 2006, vemos que a sua "velocidade de cruzeiro" é impressionante:

Média de 1.359 postes/ano significa que, faça chuva ou faça sol, o blogue publica, em média, 113 postes por mês.

Desde 2006, nunca baixou dos 997 postes anuais, o que revela uma consistência editorial raríssima em projetos de longevidade digital.

É um registo histórico monumental sobre a Guiné e a memória da guerra. Parabéns por manterem  esse vigor há duas décadas</i>!

Pesquisa: LG +  IA / Gemini Google.
Condensação, revisão / fixação de texto: LG

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 6 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27611: O nosso blogue em números (109): Em 2025 entraram apenas 13 novos membros, somos agora 909

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27615: O nosso blogue em números (110): 2025, mais um "annus horribilis": tivemos 11 baixas mortais entre os nossos grão-tabanqueiros; despedimos também de mais 12 outros amigos (n=4) e camaradas (n=8)... Dos antigos combatentes, 10 morreram com 80 anos ou menos, 9 morreram com mais de 80



In Memoriam dos amigos (n=4) e camaradas da Guiné (n=19), falecidos em 2025, e que foram notícia no nosso blogue (n=23)


Horácio Neto Fernandes (Ribamar, Lourinhã, 
1935 - Porto, 2025),
ex-alf grad capelão, BART 1991 
(Catió, set 67/ mai 69)
e BCAÇ 2852 (Bambadinca, mai /dez 69)



;José António Sousa (1949-2025),
 ex-sold cond auto, CCAV 3404/BCAV 3854 
(Cabuca, 1971/73); vivia no Porto; 



Mendonça da Silva (1951-2025), 
viúva do nosso camarada Torcato Mendonça; 
vivia no Fundão (*);


Manuel Lema Santos (1942 - 2025) , ex-1º tenente 
Reserva Naval, 1965-1972; 
ex-Imediato no NRP Orion, Guiné, 1966/68, 
vivia em Massamá, Sintra; 
era um dos históricos da Tabanca Grande, 
mas em dada altura desvinculou-se do blogue; (*)


Suleimane Baldé (1938-2025), régulo de Contabane, 
ex-1º cabo do Pel Caç Nat 53 (1968-1974),
 filho do régulo Sambel Baldé e de Fatumat 
(fica inumado, simbolicamente, à sombra do nosso poilão, no lugar nº 908);

filha do nosso camarada Carlos Filipe Gonçalves,
 ex-fur mil amanuense, CefInt / QG / CTIG, Bissau, 1973/74): 
vivia na Praia, Cabo Verde (*);


uma mulher pioneira em vários domínios, interditos às mulheres, 
a começar pelo paraquedismo... 
Foi a "madrinha" das enfermeiras paraquedistas (1961); vivia emLisboa; (*)



Rita Mascarenhas (1978-2025), 
filha do nosso camarada José Rodrigues (ex-fur mil trms, 
CCAÇ 1419, Bissau, Bissorã e Mansabá, 1965/67;); 
vivia em Belas, Sintra: (*)


escritor, romancista, poeta, autor e ensaiador de teatro; 
cumpriu o seu serviço militar na Guiné, trabalhou na Rádio; 
 homemagem dos seus conterràneos Narciso Santos e José Câmara, 
bem como do nosso crít6ico literário Beja Santos; 
vivia em Ponta Delgada; (*)


 natural de Fermentões, Guimarães, 
antigo autarca, ex-fur mil, 2ª CART / BART 6520,
 "Os Mais de Nova Sintar", 1972/74): (*)


 (Ferreira do Alentejo, 1945 - Lisboa, 2025),
 ex-alf mil trms, CCS/BCAÇ 2852 
(Bambadinca, 1968-1970);


J. L. Pio Abreu (Santarém, 1944 - 
Coimbra, 2025): 
ex-alf médico, CCS/BCAÇ 3863 
(Teixeira Pinto, 1971/73): (*)


(1949-2025),  ex-Fur Mil Inf, 
CCAÇ 3328 (Bula, 1971/73); 
vivia em Faro (*)


2.º Ten FZE do DFE 21, Reformado, DFA (Guiné, 1972); 
vivia em Santarém:


Carlos Matos Gomes (1946-2025), 
membro do MFA no CTIG, 
cor cav 'cmd', ref, escritor e historiógrafo, 
e grande amigo da Tabanca Grande; 
vivia em Lisboa(*)


Maria Rosa Rosa Exposto, ex-alf enf pqdt 
(Bragança, c. 1940 - Portalegre, 2021), 
pertencia ao 4º curso (1964) e passou pelo CTIG: (*)



(Ribeira Grande, Santo Antão, 
Cabo Verde, 1935 - Sesimbra, 2025): 
 era do 2º curso (1962) 
e passou pelos 3 teatros de operações; (*)



Leopoldo Correia (1941-2024),
ex-fur mil, CART 564
 (Nhacra, Quinhamel, Binar, Teixeira Pinto, 
Encheia e Mansoa, 1963/65); 
vivia em Águas Santas, Maia


Mário Vitorino Gaspar (Sintra, 1943- 
Lisboa, 2025), ex-fur mil art, MA,
 CART 1659, "Zorba" (Gadamael e Ganturé, 
1967/68): 


Valdemar Queiroz (Afife, Viana do Castelo, 1945 - 
Agualva Cacém, Sintra, 2025),
 ex-Fur Mil da CART 2479 / CART 11 
(Contuboel, Nova Lamego, Canquelifá, Paunca 
e Guiro Iero Bocari, 1969/70)


Cap Cav Ref Alberto Bernardo Leite Rodrigues 
(1945-2025), 
ex-Alf Mil Cav da CCAV 1748 (1967/69); 
era membro da Tabanca
 de Matosimnhos (fica inumado, simbolicamente, 
à sombra do nosso poilão, no lugar nº 899)


ex-alf mil, CCAÇ 2405 / BCAÇ 2852 
(Mansoa, Galomaro e Dulombi, 1968/70); vivia em Coi,mbra;
era um histórico da Tabanca Grande (**)


António Medina (Santo Antão, 
Cabo Verde, 1939 - 
Medford, Massachusetts, EUA, 2025), 
ex-fur mil at inf, OE, CART 527 
(Teixeira Pinto, Bachile, Calequisse, 
Cacheu, Pelundo, Jolmete e Caió 1963/65)


(*) não eram formalmemnte membro da nossaTabanca Grande

(**) notícia só recebida em 2025


2. Os grão-tabanqueiros que "da lei da morte se libertaram" em 2025 foram 11. É sempre uma exercício doloroso, mas são os vivos que têm de cuidar dos mortos e honrar a sua memória: 




Suleimane Baldé (1938-2025)

Fernando de Carvalho Taco Calado (1945-2025)


Leopoldo Correia (1941-2024)


Valdemar Queiroz (1945-2025)

Leite Rodrigues  (1945-2025)





Homenagem aos nossos mortos queridos, em 2025. Não se estranhe a bandeira dos EUA: o António Medina era luso-americano, ou cabo-verdiano -ameroicano, não tenho a certeza (era natural de Santo Antão, emigrou para os States em 1977); o Suleimane Baldé era guineense (já tinha sido português); a Eugénia era portuguesa, de origemc abo-verdiana; a Dúnia Gonçalves era cabo-verdiano, mas o pai já foi português... Afinal, pertencemos todos e todas â mesma terra que nos deu origem...É preciso dar muitas voltas para se chegar a uma ilustração como esta...

Ilustração: IA generativa (ChatGPT / OpenAI), 
composição orientada pelo editor LG


3. Há a registar nesta lista necrológica mais 8 combatentes (que estiveram na Guiné, mas que não integravam formalmente a nossa Tabanca Grande). Há ainda 4 mulheres (1 viúva e 2 filhas de grão-tabanqueiros, e ainda a "mentora" das enfermeiras paraquedistas).

Calculámos a média e a mediana dos combatentes que morreram em 2025 (n=19), a partir da idade aproximadade (=ano da morte - ano do nascimento).

  • Média=81,1 anos
  • Mediana= 80
  • Mínimo = 72
  • Máximo = 90

Interpretação (mediana): 10 camaradas morreram com 80 anos ou menos; 9 morreram com mais de 80 anos.

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terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27586: Diálogos com a IA (inteligência Artificial) (7): Crítica Contra Crítica: a nota de leitura do Beja Santos sobre o livro de memórias do Manecas Santos,


Rosário Luz > Página do Facebook > 6 de dezembro de 2024  (Foto e legenda) (com a devida vénia...)

Bom dia Nha POV - um shout out especial pa Diáspora na Portugal. Hoje é um marco na minha vida: a publicação do meu primeiro livro. Uma biografia de um tio muito querido, um homem monumental, que teve uma vida de romance. É um privilégio inenarrável ter sido eu a escrever esse romance; e tê-lo hoje ao meu lado no lançamento. Será apresentado hoje ás 18h, no Grémio Literário de Lisboa. As apresentações em Bissau, Praia e Mindelo serão ao longo de Janeiro. Peço a aqui a vossa benção para o trabalho e para o evento. I boa Sexta, Nason Kriol




Capa do livro de Rosário Luz - Manecas Santos: uma biografia da luta. Praia:  Rosa de Porcelana Editora, 2024, 164 pp., preço de capa: 15 € (ISBN: 978-989-8961-72-3)



Senegal > Ziguinchor > 3º trimestre de 1973 > Filha de Amílcar Cabral, Iva Cabral, com O Manecas Santos, na festa de casamento de Chico Mendes (Francisco Mendes or Chico Té)... Foto do álbum Roel Coutinho Guinea-Bissau and Senegal Photographs (1973 - 1974), coileção  African Studies Centre Leiden. Cortesia da Wikimedia Commons (e editada pelo nosso blogue, com a devida vénia..:) 




I. A IA ChatGPT ainda não leu o livro do Manecas Santos, ou melhor da sobrinha (Rosário Luz)  sobre o tio (Manuel Santos, mais conhecido pelo nome de guerra,  Manecas Santos)... 

Aliás, a IA não tem a capacidade de ler livros em papel. Ainda, por enquanto... Manda os escravos humanos ler e depois pôr na Net, em acesso livre, a papinha feita...Mas eu já lhe dei a ler a "nota de leitura" do nosso crítico literário e colaborador permente, o Beja Santos, uma referência de há muito obrigatória no que diz respeito à bibliografia sobre a guerra colonial na Guiné (1961/74). (Tem só 3360 referências no nosso blogue... De resto, sempre o conhecemos desde a Guiné, em meados de 1969, como um escritor e leitor "compulsivo".)

Em resumo, a crítica (da IA) à nossa  crítica (nossa, do Beja Santos)  é um elogio à postura intelectual do nosso crítico literário, à sua independência e à sua cultura historiográfica.

A "nota de leitura" do Beja Santos parece-nos acertada, ponderada, positiva (valorizando o livro como contributo de alguém, com importância histórica, militar e política, como o Manecas Santos no seio do PAIGC, para a partilha de memórias, de um lado e do outro, sobre a guerra colonial na Guiné.


Aqui vai o texto da IA, esquematizado para facilidade de leitura (condensação, revisão / fixação de texto, negritos: LG)

PS - Acrescente-se que há imprecisões, erros factuais, etc., na Net sobre o "comandante Manecas", "combatente da liberdade", etc., nascido em Cabo Verde (julgo que em Santão Antão, em 1942, tendo estudado depois no liceu do Mindelo, São Vicente)... O ChatGTP deu-o como tendo morrido há uns anos...Tive que lhe puxar as orelhas... 

Há dias aconteceu o mesmo com o nosso camarada Arménio Santos (neste caso, a "asneirada" foi da IA / Gemini; contei ao Arménio, riu-se a bandeiras despregadas; teve, ao menos, rasgados elogios fúnebres, por parte dos  diversos quadrantes políticos, pelo seu papel como sindicalista e deputado social-.democrata).

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II. Análise da IA / ChatGPT (**):

Segue, a pedido do editor LG, uma análise crítica e interpretativa da recensão de Mário Beja Santos ao livro recente de Manecas Santos, tendo em conta o tom, os pressupostos historiográficos e o posicionamento político-memorial do autor da recensão.

1. Natureza e posicionamento da recensão

A recensão de Mário Beja Santos não é neutra nem meramente descritiva: trata-se de um texto assumidamente interventivo, escrito por alguém que conhece profundamente a guerra da Guiné, não apenas como historiador ou leitor atento, mas como antigo oficial combatente no teatro de operações. Esse duplo estatuto (memória vivida + investigação histórica) condiciona toda a leitura que faz da obra de Manecas Santos.

Beja Santos posiciona-se como guardião crítico da factualidade histórica, reagindo contra aquilo que considera mitificações persistentes na historiografia e memorialística do PAIGC. A recensão é, por isso, simultaneamente: 

  • um comentário ao livro; 
  • uma tomada de posição historiográfica; 
  • e um ajuste de contas com narrativas que considera politicamente convenientes ou factualmente falsas.

2. Reconhecimento do valor "testimonial" (sic, em inglês: leia-se "como testemunho") da obra

Apesar do tom severo em vários momentos, Beja Santos reconhece explicitamente o valor do testemunho de Manecas Santos. Destaca: 

  • a fluidez e a legibilidade da narrativa (o mérito é da "copywriter", a sobrinha, acrescento eu, LG); 
  • o interesse do percurso biográfico (Mindelo → Lisboa → Cuba → Guiné →  URSS → Guiné-Bissau) ; 
  • a importância histórica do papel de Manecas Santos como comandante na frente norte e responsável pelos mísseis Strela; 
  • a relevância do seu depoimento sobre o período pós-Cabral e o colapso do Estado guineense.

Este reconhecimento é essencial: o "recensente" (crítico, o autor da "nota de leitura", em português, fica melhor) (LG) não desqualifica a obra, antes a considera leitura obigatória, precisamente porque é um documento de primeira mão.

3. O eixo central da crítica: a questão da verdade histórica

O núcleo duro da recensão reside na acusação de inverdade, imprecisão ou mistificação, em três planos principais:

a) Controlo territorial do PAIGC em 1968: 

Beja Santos rejeita frontalmente a afirmação de que o PAIGC administrava dois terços do território nessa data, considerando-a uma repetição de propaganda de guerra que não resiste ao confronto com documentação militar portuguesa e arquivos contemporâneos.

Aqui, o crítico insere o livro numa tradição mais vasta de exageros estratégicos, comuns em memórias de ex-combatentes do PAIGC.

b) Operação de Guidaje e baixas militares

A crítica é particularmente dura neste ponto. Beja Santos acusa Manecas Santos de:

  •  minimizar as baixas do PAIGC;
  •  exagerar as perdas portuguesas; 
  • ignorar documentação existente no Arquivo da Defesa Nacional.

O autor da nota de leitura assume uma postura quase forense: não contesta a legitimidade do testemunho, mas exige confronto com fontes documentais, algo que considera ausente.

c) Assassinato de Amílcar Cabral

Beja Santos acusa Manecas Santos de manter uma ambiguidade calculada: 

  • não acusa diretamente a PIDE ou Spínola, mas deixa a suspeita no ar; 
  • esta ambiguidade é politicamente funcional e historicamente infundada, dado não existir prova documental de envolvimento português direto.

4.. A crítica moral e política: responsabilidade no desmoronamento do Estado

Talvez o ponto mais incisivo da recensão seja o seguinte:

Beja Santos entende que Manecas Santos relata o colapso do PAIGC e do Estado guineense com uma distância estratégica, descrevendo acontecimentos sem assumir responsabilidades diretas, apesar de ter sido: 

  • dirigente político; 
  • ministro; 
  • muito próximo de 'Nino« Vieira (apesar de ser cabo-verdiano, acrecsento eu, LG).
A recensão sugere que essa distância narrativa é uma forma de autoproteção moral, permitindo denunciar o desastre sem admitir cumplicidade. 

Esta crítica estende-se também às explicações sobre os fuzilamentos (no tempo de Luís Cabral), que Beja Santos considera implausíveis ou evasivas.

5. Valor historiográfico da recensão

A recensão de Mário Beja Santos vale, em si mesma, como: 

  • um contributo historiográfico autónomo; 
  • um exercício de crítica das memórias políticas; 
  • um alerta metodológico sobre os riscos da autobiografia não confrontada com arquivos.

Mais do que “ler” Manecas Santos, Beja Santos dialoga e combate com ele, num plano que é simultaneamente histórico, político e ético.

6. Conclusão

A análise permite concluir que: 
  • Beja Santos reconhece o livro como testemunho indispensável; 
  • mas recusa aceitá-lo como relato confiável sem verificação;
  •  e vê nele mais um exemplo de como a memória do PAIGC continua marcada por silêncios, exageros e estratégias de autojustificação.(e autoglorigicação, acrescento eu, LG)
A recensão não fecha o debate, pelo contrário, convoca a escrita “a quatro mãos” da História, como o próprio autor sugere: uma história desmitificada, construída a partir do confronto entre memórias, arquivos e responsabilidades assumidas.

 III. Ver também duas entrevistas dadas ao jornal "Expresso das Ilhas", Praia, Cabo Verde:

Manecas Santos: “Amílcar Cabral não era sonhador, era um político”
Por Jorge Montezinho


Manecas Santos ao Expresso das Ilhas: “Eu não fujo!”
PorJorge Montezinho,

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27539: Humor de caserna (228): O Natal de Missirá que teve bacalhau ensaboado e, como prenda, o Menino... Braima (Abraão, em fula) (Jorge Cabral, 1944-2021)


Ilustração: IA generativa (ChatGPT / OpenAI), composição orientada pelo editor LG


O Bacalhau ensaboado e os Três Reis Magos

por Jorge Cabral (1944-2021)

Poucos são os Natais de que me lembro. E no entanto, já passei mais de setenta. Mas este, o de Missirá 1970, nunca o  esqueci. 

Tínhamos bacalhau. Tínhamos batatas. Fomos tarde para a mesa, a mesma de todos os dias, engordurada, sem toalha. Chegou o panelão fumegante e começámos.

– Caraças!, o bacalhau sabe a sabão! – disse o Branquinho.

E eu para o cozinheiro Teixeirinha:

– Quanto tempo esteve de molho?

– Esqueci-me, meu Alferes, mas o Pechincha, disse que, na terra dele, costumavam lavá-lo com sabão e que ficava bom.

– Porra, Teixeirinha! Se não fosse Natal, estavas lixado! Assim, vais à cantina buscar cervejas para a malta toda e pagas a meias com o Pechincha…

Batatas, umas latas de conserva e cerveja morna, pois a arca frigorífica tinha explodido na semana anterior, foi a nossa ceia de Natal.

Meia hora depois apareceu o soldado Alfa Baldé aos gritos:

– Alfero! Alfero! Já nasceu! Já nasceu É macho! É macho!

– Eu não te tinha dito?!

A alegria do Alfa era legítima. Já tinha três filhas e duas mulheres, mas há uns meses fora à sua Tabanca buscar outra mulher, herdada do irmão que havia morrido. 

Não trouxera só a viúva, treouxe também uma velha, muito velha, a bisavó, que se chamava Maimuna, mas que o Alfero alcunhou logo de  a "Antepassada". Meia cega passava os dias à porta da morança, dormitando de boca aberta…Nunca falou comigo, mas quando eu passava, sorria mostrando o único dente que conservava:

– Vou ver o teu filho, Alfa! Não lhe vais chamar Alfero Cabral. Vai ser Jesus!
 
– Desculpa, Alfero! Tem que ser Braima!

E fui com o Branquinho e com o Amaral. Só lá estavam mulheres e o Bebé, todo enfaixado. Logo que entrámos, o Amaral, que estava um pouco tocado, exclamou:

– Nós somos os Três Reis Magos e viemos adorar o Menino Braima!

Vai fazer 46 anos! Dos Três Reis Magos, um morreu e os outros dois estão velhos…Como a Maimuna, já parecem "Antepassados"… (*)

Jorge Cabral 

Lisboa, 7/12/2016 (Revisão / fixação de texto, título: LG)


Nota de LG - Já morreram todos, o narrador e as suas personagens, o Cabral, o Branquinho, o Amaral... O que será feito do Menino Braima ? Terá chegado a completar um ano ? E depois os cinco anos ? A ser vivo, terá hoje 55 anos. O que é um feito notável  para um guineense. 



Jorge Cabral (1944-2021)

1. Comentário do editor LG:

O Jorge adorava o Natal. Fingia que não, como alguns de nós, mais cínicos, que dizem não ligam  nada ao Natal...E a prova é  que escreveu várias "estórias cabralianas" sobre o tema... Passadas na Guiné. 

Esta é das últimas, a nº 92,  que me entregou , em dezembro de 2016. Para comemorar, à sua maneira, mais um "Natal na Guiné". 

Passou lá dois Natais, tal como eu (o de 1969 e o de 1970). Um em Fá Mandinga e outro em Missirá (aqui muito mais isolado do mundo, com o rio Geba a separá-lo  da sede do sector L1, Bambadinca, que já era a "civilização". O  seu miserável destacamento era mais a norte, em terra de ninguém.

Foi meu camarada e amigo, meu contemporâneo. Três anos mais velho. Não o deixaram completar o curso de direito. Julgo eu, mas não tenho a certeza. Nunca falámos disso. 

Foi depois advogado e professor universitário de direito penal.

Vai fazer 4 anos, no próximo dia 28 deste mês, que ele deixou a terra que tanto amava. 
Morreu cedo demais. Deixou muitos amigos e amigas, inconsoláveis. A começar pelos seus antigos alunos e sobretudo alunas do curso de serviço social. A quem tratava  carinhosamente por "almas". E que ainda hoje lhe escrevem mensagens de muita saudade e ternura na sua página do Facebook (Jorge Almeida Cabral).

Era da arma de artilharia. Passou por Vendas Novas. Comandou um Pelotão de Caçadores Nativos, o Pel Caç Nat  63... Eram poucos, cerca de 30, a maior parte guineenses. 

Cinco anos depois, de ter escrito esta peça de antologia,  de humor de caserna (que acima reproduzimos), o Jorge morreu em plena pandemia. De cancro. Deixou-nos o coração destroçado.  

Pedi à IA que fizesses uma análise sumária do microcono. Género em que ele era mestre. Microconto pícaro, burlesco, absurdo. Ele fazia a guerra como quem representava uma peça do teatro do absurdo. 

 Pedi, além, disso, á menina  IA, que é "talentosa", para criar uma ilustração, divertida, caricatural, alusiva a esse Natal, algures no mato, na Guiné, em Missirá, em 1970, longe de casa (a 4 mil km de distância)... 

Era o Natal possível de muitos de nós, soldados portugueses. É uma homenagem saudosa ao "alfero Cabral" , como diziam os seus soldados. Mas também ao António Branquinho, nosso grão-tabanqueiro, irmão do Alberto.  Sem esquecer o Amaral, de que também me lembro ainda, mas mais vagamente.


Guiné > Zona leste >r Região de Bafatá > Sector L1 (Bambadinca) > Regulado do Cuor > Missirá > Pel Caç NAT 63 > 1971 > O António Branquinho, simulando tocar um instrumento tradicional,  com uma bajudinha, no meio,  e o Amaral (sentado). 

Segundo a oportuna observação do nosso amigo e consultor permanente para as questões etnolinguísticas, Cherno Baldé, "o instrumento, na lingua fula, chama-se 'Hoddu', é mais antigo e, provavelmente, serviu de inspiração para a criacão do cora dos Mandingas"... Em crioulo, "nhanheiro".


Foto: © António Branquinho / Jorge Cabral (2007). Todos os Direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



2. Análise literário do microconto Missirá, 1970 > A Noite de Natal do Bacalhau Ensaboado

(Pesquisa: LG + IA / Gemini e ChatGPT) (Condensaçáo, revisão / fixação de texto, negritos: LG)

O texto (e o contexto) partilhado é uma memória vívida e comovente de um Natal passado em Missirá, no ano de 1970, durante a guerra colonial na Guiné. É uma narrativa curtíssima, mas rica em detalhes, humor e humanidade. Em dois parágrafos e meia dúzia de diálogos , o autor cria uma atmosfera natalíica, de densidade humana e literária raríssima. 

O nosso amigo e camarada Jorge Cabral, falecido precocemente, é escritor de primeira água. N o futuro merecerá figurar em qualquer antologia do conto sobre a temática da guerra colonial.

Vejamos alguns dos pontos principais da história e do seu contexto:

(i)  O jantar de Natal "cnsaboado"

Cenário: a ceia de Natal aconteceu numa mesa "engordurada, sem toalha", no destacamento  de Missirá. O narrador (o alferes) e os seus camaradas, metropolitanos, "tugas" (Branquinho, Amaral, Teixeirinha) reuniram-se para o que deveria ser um jantar especial. No Natal, em Portugal, come-se bacalhau, com batatas e "pencas" (no Norte). É uma data festiva. A maior do ano.

Incidente: o prato principal era bacalhau com batatas (supremo luxo, naquelas paragens). No entanto, quando começaram a comer, o Branquinho notou que o bacalhau "sabia a sabão".

Explicação: o cozinheiro, Teixeirinha, confessou que se tinha esquecido do tempo de demolha e que o soldado Pechincha lhe dissera que, na terra dele, costumavam "lavá-lo com sabão" para ficar bom.

Punição: o Alferes, numa mistura de frustração e espírito natalício, mandou o Teixeirinha, como castigo,  ir à cantina buscar cervejas para todos, a pagar a meias com o Pechincha.

Ceia final: a ceia resumiu-se a batatas, latas de conserva e cerveja morna (pois o frigorífico tinha avariado na semana anterior).

(ii) O nascimento do menino  e os Três Reis Magos

Notícia: meia hora após a ceia, o soldado Alfa Baldé, que já tinha três filhas e duas mulheres, e recentemente trouxera uma nova esposa, adotada por levirato (**), mais  a bisavó idosa, Maimuna,  irrompe, a gritar de alegria: "Alfero! Alfero! Já nasceu! Já nasceu! É macho! É macho!"

Batismo proposto: o Alferes, num gesto de afeto e ironia, sugeriu que o bebé se chamasse Jesus, mas o Alfa Baldé, fula e muçulmano, já tinha nome para a criança: seria Braima (na língua fula, é uma variação do nome árabe Ibrahim, o equivalente a Abraão em português).

Visita: o "alfero Cabral", mais os furriéis Branquinho e Amaral, foram ver o recém-nascido.

Momento mágico: ao entrarem, o Amaral, que estava "um pouco tocado" (pela cerveja, mesmo "choca"), proclamou: "Nós somos os Três Reis Magos e viemos adorar o Menino Braima!"

(iii) O passar do tempo

Conclusão: o narrador reflete sobre o tempo que passou  (46 anos,  de 1970 a 2016)  e sobre a inevitabilidade da velhice.

Metáfora: dos "Três Reis Magos", um já tinha morrido (o Amaral) e os outros dois estavam velhos (o Branquinho e o Cabral), comparando-se a si próprios com a bisavó Maimuna (a "Antepassada"), que passava os dias a dormitar. 

É uma história belíssima que contrasta a simplicidade e as dificuldades da vida militar em cenário de guerra  (a mesa suja, o bacalhau estragado, a cerveja morna) com a alegria e o simbolismo do Natal (o nascimento do "Menino Braima" e a visita dos "Três Reis Magos"). 

A memória do narrador é claramente moldada por este momento único e inesperado de humanidade partilhada, naquele lugar onde Cristo nunca parou (e onde nem sequer o Diabo perdeu as botas).

Outros pontos a destacar:

Este microconto é um exemplo  do microconto pícaro e burlesco, atravessado por uma camada de absurdo existencial, que transforma a experiência traumática da guerra colonial numa espécie de teatro do quotidiano, onde o riso não nega a dor, domestica-a.

(iv) A memória selectiva e o Natal como exceção:

O texto começa com uma afirmação fundamental: “Poucos são os Natais de que me lembro.”

A memória aqui não é cronológica, é afetiva. Entre dezenas de anos e vários Natais, só um se fixa, o de Missirá, 1970. O Natal surge como ritual deslocado, arrancado do seu cenário simbólico europeu e transplantado para o mato guineense. É um Natal “possível”, não ideal.

(v) O bacalhau: símbolo nacional convertido em farsa

O bacalhau, pilar do Natal português, obrigatório à mesa nesse dia mágico, aparece ensaboado, literalmente contaminado pelo erro, pela improvisação, pelo desenrascanço,  pela santa  ignorância ( bem-intencionada, apesar de tudo).

O episódio é magistral porque:

  • subverte o sagrado produto gastronómico nacional (que é o bacalhau);

  • introduz o humor de caserna (o castigo não é a "prisão", é cerveja, paga a meias pelo desastrado cozinheiro Teixeirinhz e o "chico-esperto" do soldado Pechincha):

  • revela a cadeia de mal-entendidos culturais (o Pechincha, a tradição “da terra dele”, a de ensaboiar o bacalhau em vez de o demolhar em várias águas e vários dias).

Aqui, o riso nasce do choque entre vários mundos, mas nunca há desprezo, humilhação,  apenas risota, humanidade.

(vi) A autoridade do “Alfero”: justa, teatral, cúmplice

O narrador constrói a figura do alferes Cabral como:

  • autoridade funcional;

  • figura quase teatral:

  • mediador cultural.

O castigo é simbólico e coletivo. Não humilha, integra. Isto revela o comando humanizado, típico de quem percebe que naquela guerra ninguém está “inteiro” e tem "toda a razão".

(vii) O nascimento: epifania no meio do caos

O nascimento do filho do soldado guineense Alfa Baldé é o centro simbólico do conto. É um Natal sem presépio formal, sem luzes, sem enfeites, sem artifícios;

  • um parto real, no mato, natural, sem parteira (como terá sido o de Jesus na gruta de Belém);

  • um menino que nasce enquanto outros matam ou morrem;

  • um menino que tem de ser "Braima"... e não o "Jesus" dos cristãos ou o "Alfero Cabral", comandante daquela tropa matrapilha.

A figura da Maimuna / “Antepassada” é absolutamente extraordinária:

  • guardiã do tempo;

  • elo entre gerações;

  • quase uma personagem mítica

O sorriso com um único dente é um recurso literário de enorme economia e força.

(viii) Os Três Reis Magos: embriaguez, teatro e revelação

Quando o Amaral diz: “Nós somos os Três Reis Magos e viemos adorar o Menino Braima!”

o microconto atinge o seu auge. Aqui acontece tudo ao mesmo tempo:

  • o Natal cristão é reencenado de forma profana e ecuménica;

  • Jesus é um menino pretinho:

  • a guerra transforma-se em farsa absurda;

  • os soldados são atores improvisados num palco de todo  improvável.

É o teatro do absurdo em plena guerra, com a gente gosta de dizer das "estórias cabralianas" (de que o "alfero Cabral" publicou, no nosso blogue, mais de 9 dezenas).

(ix) O tempo final: melancolia sem sentimentalismo

O último parágrafo é devastador na sua contenção: “Dos Três Reis Magos, um morreu e os outros dois estão velhos…”. Aliás, cinco anos depois, morreria o narrador, e em 2023 o Branquinho. O Teixeirinha e o Pechincha não sabemos se são nomes reais.

Sem lamento, sem retórica. Apenas o tempo. A guerra passou, mas deixou corpos gastos e memórias resistentes, como a de todos nós. 

 A comparação final com a Maimuna fecha o círculo: todos acabamos “antepassados”. Todos seremos amanhã antepassados, quando os nossos filhos e netos se lembrarem de nós, se um dia forem à Guiné, em viagem de turismo: "Os nossos antepassados, que andaram por estes matos, rios e bolanhas..."

(x) Conclusão

Este microconto é um ato de resistência pela memória, um riso contra a desumanização,  uma homenagem implícita aos soldados anónimos que combateram naquela guerra absurda, um Natal sem redenção, mas com dignidade e humanidade.

O Jorge Cabral escrevia como alguém queria sobreviver contando histórias. e isso é talvez a forma mais honesta de literatura de guerra. N a realidade, eu sempre o oconheci como o mais "paisano" dos combatentes. Ele que era filho de militares e foi até "menino da Luz", seguramente contra a sua vontade.


Capa do livro de Jorge Cabral, "Estórias Cabralianas", vol I. Lisboa: Ed José Almendra, 2020, 144 pp.  

Tinha um II volume, praticamente pronto para ser publicado.  
A morte  emboscou-o.

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Notas do editor LG:

(*) Último poste da série > 11 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27518: Humor de caserna (227): Ainda o Pechincha, que o Hélder Sousa comnheceu em Bissaiu... "P*rra, que este gajo ainda está mais apanhado do que eu!"

(**) Levirato: o costume, observado entre alguns povos, nomeadamente semitas, que obriga um homem a casar-se com a viúva de seu irmão quando este não deixa descendência masculina, sendo que o filho deste casamento é considerado descendente do morto. Este costume é mencionado no Antigo Testamento como uma das leis de Moisés. O vocábulo deriva da palavra "levir", que em latim significa "cunhado". Fonte: Wikipedia.