A direcção dos serviços de administração civil pertencia a um intendente administrativo de quem dependiam o administrador do concelho de Díli e os administradores das diversas circunscrições. Destes últimos dependiam os chefes de posto administrativo.
No concelho de Díli e nas circunscrições estavam em serviço, além do administrador, um secretário de circunscrição e um ou mais aspirantes administrativos.
Diretamente do Governador dependiam, além dos serviços militares, e de administração civil, os de saúde e higiene, das alfândegas, dos correios e telégrafos, da fazenda e das obras públicas. (...)
Timor Leste > 2024 > Com c. 15 mil km2, e mais de 1,3 milhões de habitantes, ocupa a parte oriental da ilha de Timor, mais o enclave de Oecusse e a ilha de Ataúro. Antiga colónia portuguesa, tornou-se independente em 2002, depois de ter sido invadida e ocupada pela Indonésia durante 24 nos, desde finais de 1975.
Em termos administrativos, a atual República Democrática de Timor-Leste encontra-se dividido em 13 distritos:
(i) Bobonaro, Liquiçá, Díli, Baucau, Manatuto e Lautém na costa norte;
(ii) Cova-Lima, Ainaro, Manufahi e Viqueque, na costa sul;
(iii) Ermera e Aileu, situados no interior montanhoso;
(iv) e Oecussi-Ambeno, enclave no território indonésio.
(vi) Mais escassa ainda era a força militar que defendia Timor em 1941. O autor não esconde o caricato do dispositivo militar, incapaz de assegurar a efetiva "neutralidade" de Portugal no conflito mundial, que chegou também ao Sudoeste Asiático, em 1941, e que será de resto um pretexto para as duas invasões estrangeiras:
(...) A tropa de Timor, constituída na sua quase totalidade por naturais da ilha, estava pessimamente equipada e com armas obsoletas, como espingardas Kropatchek do modelo de 1895, com cartuchos carregados em 1905, e de carabinas Winchester idênticas às dos filmes do Far West, com excepção de algumas metralhadoras de tipo moderno recentemente adquiridas.
Era muito reduzido o número de oficiais e sargentos e mesmo de cabos, com a agravante de bastantes destes dois últimos estarem fora do serviço militar, em comissão como chefes de posto administrativo.
O único organismo de algum valor militar que então havia era a Companhia de Caçadores de Timor, aquartelada em Taibéssi, próximo de Díli, tendo como oficiais os tenentes Liberato, Ramalho e Garcia de Brito.(...)
A justiça reduzia-se a dois magistrados:
(...) Os serviços de justiça dispunham de um juiz de direito, o Dr. José Nepomuceno Afonso dos Santos e de um delegado do procurador da república, o Dr. Noronha. [O juiz era o pai do cantor e compositor José Afonso, 1927-1987: vd. documentário da RTP "Rosas de Ermera"].
(vii) Quanto à Igreja Ctaólica estava tradicionalmente melhor implantada:
(...) Existia em Timor (que pertencia à diocese de Macau) uma eficiente organização missionária católica servida por sacerdotes, formados em Macau, e por irmãs missionárias canossianas, de nacionalidade italiana.
As «Missões» dispunham de colégios para rapazes na Soibada e em Ossú, onde preparavam excelentes catequistas e ministravam a instrução primária a grande número de alunos; as irmãs tinham ao seu cuidado colégios em Díli, Dare e Soibada, onde educavam e instruíam bastantes meninas timorenses e de
outras naturalidades.
Em Díli funcionava um colégio-liceu, cujos professores eram funcionários de diversos serviços oficiais que viviam em Díli. Assim, por exemplo, o professor de história era o tenente Dr. Garcia de Brito, o de matemática o senhor Lourenço de
Oliveira Aguilar, administrador do concelho de Díli, etc. (...)
Timor, por outro lado, e como é sabido, foi também um local de "encarceramento e deportação" (Vd. poste P25454) (**)
(...) Encontravam-se então em Timor algumas dezenas de portugueses metropolitanos que para aí haviam sido deportados por motivos políticos, vivendo livremente e recebendo do Estado um subsídio para a sua subsistência.
Pertencentes a diversas profissões eram, pela sua preparação técnica e capacidade de trabalho, elementos muito apreciáveis para o desenvolvimento da terra, Colonos, artífices ou comerciantes, distinguiam-se ela sua actividade. Dentre eles, avultava a figura prestigiosa do Dr. Carlos Cal Brandão que exercia a profissão da advocacia em Díli, onde havia constituído família. (...)
O autor também aborda a questão da língua, sendo o tétum o mais falado:
(...) Em Timor fala-se mais de uma dúzia de línguas ou dialetos diversificados, apesar da área da ilha ser tão pequena. Porém, há um deles, o «tétum» que é compreendido em toda a parte. A sua gramática é muito simples e a pronúncia fácil para europeus. (...)
(viii) Figura destacada então, por pertencer à nobreza guerreira timorense, e leal à bandeira portuguesa, era então o "liurai" (ou régulo) de Suro e Ainaro, Aleixo Corte-Real (1886-1943), que será depois preso e fuzilado pelos japoneses. ("Dom Aleixo viria a visitar Portugal, juntamente com mais oito timorenses, a fim de participar na Exposição Colonial do Porto", segundo se lê na Wikipedia).
(...) Os timorenses conservam os seus chefes tribais tradicionais, os «liurais» (por nós chamados régulos), tendo alguns mais ilustres o título de Dom e, aqueles com serviços à Nação, postos na tropa de segunda linha que em Timor se chama a
tropa de «moradores».
Eram muito conhecidos em 1940, o liurai de Ainaro, D. Aleixo Corte-Real, o de Ossuroa, D. Paulo, o do Remexio, coronel D. Moisés, etc., e o coronel José Nunes, de Maubara. (...)
(ix) Há mais informações no livro do nosso médico, sobre os Timorenses e Timor, incluindo as muitas poucas empresas agrícolas de natureza colonial:
(...) Os timorenses são de fraca constituição física, de inteligência viva e de carácter firme e leal. Portugueses de alma e coração, adoram participar em formaturas e marchas de tropas de segunda linha e sentem respeito religioso pela bandeira da Pátria que mais que tudo veneram.
Em Timor cultivam-se com largueza todos os géneros agrícolas necessários para uma boa alimentação. O arroz, o milho, a mandioca, as leguminosas, o amendoim, etc, encontram -se por toda a parte em abundância e os frutos são variados e deliciosos. O mar fornece excelente peixe e mariscos e a profusa criação de búfalos dá carne e leite.
A Sociedade Agrícola Pátria e Trabalho produz nas suas plantações de Fátu-Béssi, na área do posto da Ermera, o excelente e aromático café de Timor e algum cacau.
Em 1940, as acções desta sociedade pertenciam aos herdeiros do grande governador de Timor, coronel Celestino da Silva (representados pelo senhor Jaime de Carvalho) , ao Estado português, ao Banco Nacional Ultramarino e a uma firma japonesa, pelo que uma meia dúzia de empregados da sociedade eram súbditos nipónicos, sendo os mais importantes os srs. Segawa e Inocúchi.
Na Hátu-Lia cultivava-se o chá, em especial numa granja do Estado, denominada Granja Eduardo Marques, no posto da Ermera, cujo capataz era o deportado, sr. Carrascalão.
Capa do livro de José dos Santos Carvalho: "Vida e Morte em Timor Durante a Segunda Guerra Mundial", Lisboa: Livraria Portugal, 1972, 208 pp. Cortesia de Internet Archive.
(x) Não faltam, por fim, informações sobre as ligações entre Portugal e Timor, começar pelo omnipresente BNU (Banco Nacional Ultramarino), que de resto continua hoje a operar em Timor, desde 1912, como se pode ler na sua página do Facebook: O BNU, que hoje faz parte do Grupo Caixa Geral de Depósitos, "está em Timor-Leste desde 1912, apoiando Timor-Leste na implementação e crescimento do sector privado, e auxiliando os vários governos do país na implementação de uma economia estável e sustentável".)
(...) Em Díli funcionava uma agência do Banco Nacional Ultramarino cujo gerente era o sr. João Jorge Duarte e onde trabalhavam vários empregados não-timorenses.
A moeda que então corria era a pataca que se dividia em cem avos e valia seis escudos. As patacas eram em papel, mas inda existia boa quantidade de moedas de prata, cunhadas no México, em depósito do Estado no Banco Nacional Ultramarino. Eram as vulgarmente chamadas «patacas grossas» ou «patacas mexicanas» (...)
Timor comunicava com Macau e Lisboa por meio de uma estação radiotelegráfica, instalada em Taibéssi e era servida por pequenos navios holandeses que levavam os passageiros a Soerabaja e por uma carreira de grandes hidroaviões entre a Austrália e Singapura que amaravam na baía de Díli e pertenciam a uma empresa australiana, a QANTAS (Queenstand and Northern Territory Aerial Service).
Há pouco tempo, havia carreiras aéreas semanais entre Díli e a vizinha capital da parte holandesa, Koepang, feitas num avião Fokker que o governo de Timor alugara, contratando, também, a respectiva tripulação de holandeses.
As emissões de radiotelefonia europeia, sobretudo o noticiário, não eram, praticamente, ouvidas em Timor, pois, devido ao seu grande afastamento da Europa, em longitude, havia uma diferença de oito horas entre a hora local e a do continente português. Assim, o noticiário mais importante que nesses tem-
pos era dado pela Emissora Nacional às dezanove horas, somente poderia ser ouvido em Timor por quem se levantasse às três da madrugada.
Todas as povoações de alguma importância dispunham de postos de correio e de telefone.
O número de quilómetros de estradas transitáveis durante todo o ano era bastante reduzido e o transporte por automóvel só estava ao alcance de muito poucos. Praticamente, as viagens pelo interior da ilha faziam-se sempre utilizando o valente e brioso pónei timorense.
Um naviozinho a motor, chamado «Oé-Kússi» transportava passageiros e carga para os diferentes pontos da ilha onde podia aportar, tais como Manatuto, Baucau, Liquiçá, Suai, etc, ao enclave do Oé-Kússi e à ilha de Ataúro. (...)