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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27724: Foi há... ( 9): 57 anos: a retirada de Madina do Boé, vista pelo fotógrafo Hélio Felgas, na altura, cor inf, cmdt da Op Mabecos Bravios e do Cmd Agrupamento 2957 (Bafatá, 1968/70) - II (e última) Parte


Foto nº 2 > Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Boé > Madina do Boé > c. 4/5 de fevereiro de 1969 >  Op Mabecos Bravios: apoio da FAP, na retirada do aquartelamento de Madina do Boé,  guarnecido pela CCAÇ 1790 (Madina do Boé, 1967/69) > Manobra de diversão, com os helis a simular a largada de tropas paraquedistas nas colinas que ladeavam o aquartelamento de Madina.

(...) "Fui para Madina na manhã da véspera do dia D. [ O dia D era 1 de fevereiro de 1969. ] Comigo foram 5 helicópteros pois eu queria executar com eles uma operação de diversão que consistia e, por duas ou três vezes, enviar os helis (vazios) para os locais de onde o PAIGC costumava bombardear o aquartelamento. Dava assim a ilusão de que estava colocando forças nesses locais, em emboscada.

A medida deve ter resultado pois nessa noite não houve bombardeamento a Madina.

Foi em completa calma que a complexa coluna auto se formou, com a parte dianteira já na estrada do Cheche.

Ao amanhecer iniciou-se o movimento com as viaturas e respectivos reboques completamente carregados e a grande maioria dos homens a pé.

Como era costume eu seguia à frente com o meu guarda-costas e o homem do posto-rádio. Só os picadores nos precediam, picando cuidadosamente a estrada com compridos ferros pontiagudos. E excelente trabalho fizeram pois nenhuma mina rebentou embora tenham sido levantadas 12 ou 14. (...)" (*)
 

Foto nº 3 > Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Boé > Madina do Boé > s/d      Não temos a certeza de a foto ter sido tirada na altura da retirada de Madina do Boé. Se sim, terá sido a última missa celebrada neste histórico aquartelamento.

No livro da CECA sobre a atividade operacional no período que vai de 1967 a 1970, pág.  353, a legendagem da foto, sem data, diz o seguinte: "CCaç 1790: missa em Madina do Boé celebrada pelo Capelão-Mor das FA, brig Reis Rodrigues"

Fonte: CECA - Comissão para Estudo das Campanhas de África: Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974) : 6.º Volume - Aspectos da Actividade Operacional: Tomo II - Guiné - Livro I (1.ª edição, Lisboa, Estado Maior do Exército, 2014), pág. 353.

O celebrante era, pois, António dos Reis Rodrigues (1918-2009), um dos homens mais influentes da hierarquia eclesiástica de então: 
  • assistente eclesiástico da Juventude Universitária Católica (JUC) (1947-1965);
  • capelão (desde 1947) e professor da Academia Militar (onde leccionava Deontologia Militar e Ética);
  • procurador da Câmara Corporativa, na VIII Legislatura (1961/65), como representante  da Igreja Católica;
  • responsável pelo programa religioso da RTP (até 1966);
  • nomeado em 1966 bispo auxiliar de Lisboa, sob o título de Bispo de Madarsuma, com as funções de Capelão-mor das Forças Armadas (1967-1975);
  • diretor da revista Flama;
  • temos uma foto com ele a dizer missa em Gandembel, no Natal de 1968.


Foto nº 4 > Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Boé > Madina do Boé > c. 5  de fevereiro de 1969 >  Op Mabecos Bravios: retirada do aquartelamento de Madina do Boé, guarnecido pela CCAÇ 1790 (Madina do Boé, 1967/69) > Homens e material prontos para deixar a mítica Madina do Boé, numa coluna de mais de meia centena de viaturas.


Foto nº 5 > Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Boé > Madina do Boé > s/d  >  A foto não deve ter sido tirada no decurso da Op Mabecos Bravios (retirada do aquartelamento de Madina do Boe, guarnecido pela CCAÇ 1790, Madina do Boé, 1967/69) > São momentos dramáticos depois da deflagração de uma mina A/C  na estrada Cheche - Madina do Boé... 

Pelo contrário, deve ter tirada em colunas anteriores. de abastecimento a Madina do Boé (e por mês, na época seca).  Não temos notícia de deflagração de minas, A/C ou A/O, no decurso da Op Mabecos Bravios (de 2 a 7 de fevereiro de 1969). O cor Hélio Felgas já visitara antes Madina do Boé, e pernoitara lá, inclusive. (*) 


1. São fotos, históricas, do  comandante da Op Mabecos Bravios,
 o então cor inf Hélio [Augusto Esteves ] Felgas (1920-2008) (foto à direita).

Reproduzidas com a devida vénia de Camões - Revista de Letras e Culturas Lusófonas, nº 5,  abril-junho 1999, pp- 8-15 (publicação editada pelo Instituto Camões; o nº 5, temático, foi dedicado ao "25 de Abril, revolução dos cravos").

Vêm inseridas num artigo do jornalista e escritor José Manuel Saraiva, "Excertos de Guerra", pp. 8-15, na citado número da revista Camões. (Seria mais tarde o autor do documentário, de longa metragem, que passou na SIC, em 2009, Madina do Boé - A retirada e em que, ainda antes de morrer, participou o Hélio Felgas)
 
Já publicámos anteriormente a primeira, nos pareceu merecer maior destaque (*P). Publicamos hoje as restantes fotos (4 das 5),  tiradas pelo então cor inf Hélio Felgas, comandante do Agrupamento 2957 (Bafatá, 1968/70)  e comandante da Op Mabecos Bravios (retirada de Madina do Boé, 2 a 7 de fevereiro de 1969).

Ficamos a saber que o  major-general Hélio Felgas era também um fotógrafo, amador,  de grande talento, sensibilidade e qualidade. 

Redescobri, há 10 anos atrás,  esta e outras fotos  num artigo do jornalista (antigo combatente no CTIG)  José Manuel Saraiva. A quem devemos estar  gratos por  ter sido um dos primeiros a atirar uma pedrada no charco do "silêncio" (e "silenciamento"...) a que foi votada a guerra colonial depois do 25 de Abril como tema de partilha de memórias e debate. Não foi o primeiro... Muito antes dele, uma década antes, o jornalista Afonso Praça levou a cabo uma iniciativa inédita, arrojada, contra a corrente e até contra os interesses do jornal onde trabalhava... 

Em boa verdade, foi o audoso jornalista e escritor Afonso Praça (Torre de Moncorvo, 1939 - Lisboa, 2011) (ele próprio antigo combatente em Angola) quem criou no iníco dos anos 80 uma secção semanal (ou um suplemento) que ocupava duas páginas, ilustradas, justamente intitulada "Memórias da Guerra Colonial", no extinto semanário "O Jornal", consideradpo próximo do Grupo dos Nove. Ainda existia o Conselho da Revolução (14 de março de 1975- 30 de setembro de 1982). 

Colaborei, entusiástica e regularmente, com o Afonso Praça, no desenvolvimento e manutenção desta iniciativa pioneira a que começaram a aderir diversos antigos combatentes.  Publicou-se uma dúzia de edições (durante perto de três meses, tenho que confirmar). 

Houve, entretanto,  pressões para acabar com a secção, confidencipou-me o Afonso Praça. Teriam vindo de alguém, com muito poder, do Conselho da Revolução ( nessa altura, o presidente deste órgão,k que tutelava a nossa democracia, era o gen Ramalho Eanes).

 Prometo voltar ao assunto, um dia destes. Mas foi aí, talvez, que começou o princípio da "democratização" da(s) memória(s) da guerra colonial... e que nasceu,  no meu caso, o "bichinho" da Guiné...

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domingo, 8 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27714: Foi há... ( 8): 57 anos: a retirada de Madina do Boé, vista pelo fotógrafo Hélio Felgas, na altura, cor inf, cmdt da Op Mabecos Bravios e do Cmd Agruupamento 2957 (Bafatá, 1968/70) - Parte I








Foto nº 1 > Guiné > Região do Boé > Rio Corubal > Cheche > 6 de fevereiro de 1969 > A famigerada jangada que servia para transporte de tropas e material, numa  das últimas travessias, aquando da retirada de Madina do Boé. A foto é de Hélio Felgas, cmdt da Op Mabecos Bravios (2-7 de fevereiro de 1967), que a deve ter cedido ao jornalista José Manuel Saraiva. Tomamos a liberdade de a voltar reproduzir, reeditada. É uma das imagens, tragicamente belas,  que ficam para a história.


1. A foto, histórica, é do  comandante da Op Mabecos Bravios, o então cor inf Hélio [Augusto Esteves ] Felgas (1920-2008). Reproduzida com a devida vénia de Camões - Revista de Letras e Culturas Lusófonas, nº 5,  abril-junho 1999, pág. 15 (publicação editada pelo Instituto Camões; o nº 5, temático, foi dedicado ao "25 de Abril, revolução dos cravos").

Esta e outras notáveis imagens vêm inseridas num artigo de José Manuel Saraiva, "Excertos de Guerra", pp. 8-15, na citado número da revista Camões.

O seu a seu dono...  Tem andado por aí, nas redes sociais, na Net, aos trambolhões, e até na comunicação social, sem a  atribuição dos devidos créditos fotográficos.

É umas das cinco fotos extraordinárias, tiradas pelo então cor inf Hélio Felgas, comandante do Agrupamento 2957 (Bafatá, 1968/70)  e comandante da Op Mabecos Bravios (retirada de Madina do Boé, 2 a 7 de fevereiro de 1969).

Ficamos a saber que o  major-general Hélio Felgas (cujo nome, infeliz,mente,  ficará para sempre associado ao desastre do Cheche) era também um fotógrafo de grande sensibilidade e qualidade. Redescobri, há 10 anos atrás,  esta e outras fotos  num artigo do jornalista José Manuel Saraivas (*). A quem agradeço o ter sido um dos primeiros  a insurgir-se contra o "silêncio" a que foi votada a guerra colonial depois do 25 de Abril., como se pode ler neste excerto:






Julgo que estas imagens fazem agora parte do Arquivo Histórico-Militar. O seu autor morreu em 2008 e a família deve ter doado o seu espólio fotográfico e documental ao AHM. No entanto, estas cinco fotos, que vamos reproduzir neste e em próximo poste, devem ter sido cedidas ao jornalista (e nosso camarada, foi combatente na Guiné) José Manuel Saraiva (n. 1946, Oliveira do Hospital; foi o autor de "Madina do Boé—A Retirada" e "De Guilege a Gadamael—O corredor da morte", documentários produzidos pela SIC sobre a guerra colonial no CTIG).

O major-general Hélio Felgas foi militar, escritor e professor da Academia Militar. As suas qualidades  como militar e português foram reconhecidas com as medalhas de ouro de Serviços Distintos com Palma, Cruz de Guerra (1ª e 3ª classes) e o grau de Cavaleiro da Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito (atribuído em 1970).

É pena que não termos acesso às fotografias originais. As imagens que aqui reproduzimos, com a devida vénia, são da revista Camões, em formato pdf.  (Infelizmente, o pdf com aquele número temático já não está disponível "on line": mas o leitor mais curoioso, exigente e persistente poderá encontrá-lo,. em arquivo morto, no Arquivo.pt, basta carregar neste link.)

São também a nossa maneira, singela,  de relembrar aqui esse fatídico dia 6/2/1969, em que morreram 46 militares portugueses, nossos camaradas da CCAÇ 2405 e CCAÇ 1790, além de um civil guineense, na travessia do Rio Corubal, em Cheche, na retirada de Madina do Boé. (**)  (LG)
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Notas do editor LG:

(*) José Manuel Saraiva nasceu na aldeia de Santo António de Alva, Oliveira do Hopsital estudou em Coimbra e fez a guerra na Guiné. Dedicou a sua vida profissional ao jornalismo. É autor e produtor executivo de dois documentários televisos sobre a Guerra Colonial na Guiné.  E em 2001 publicou a sua primeira obra de ficção, "As Lágrimas de Aquiles". Seguiram-se os romances "Rosa Brava", "A Terra Toda", "A Última Carta de Carlota Joaquina", "O Bom Alemão" e "A Embaixada", que o consagraram como um dos mais conceituados autores portugueses.

(*) Último poste da série > 6 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27707: Foi há... (7): 57 anos, o desastre do Cheche, na retirada de Madina do Boé (Op Mabecos Bravios, 6/2/1969)... Só em 19 foi decidido realizar uma operação com fuzileiros especiais e mergulhadores-sapadores da Armada para resgatar os corpos... O brigadeiro António Spínola fez questão de estar presente pessoalmente, com um capelão e coroas de flores com a frase "A Pátria agradecida"

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27674: Agenda cultural (910): Convite para visitar a Exposição fotográfica de José Veloso de Castro (1869-1945), patente no Museu Militar de Lisboa, Largo do Museu da Artilharia, Lisboa, até ao dia 31 de Janeiro de 2026


José Veloso de Castro

A revelação de um artista

30 setembro 2025 a 31 janeiro 2026


O Museu Militar de Lisboa apresenta A Revelação de um Artista, a primeira grande exposição dedicada à vida e obra do major e fotógrafo José Veloso de Castro (1869-1945).

Com um espólio de enorme relevância histórica, composto por 2355 positivos fotográficos e sete caixas de negativos em vidro, esta mostra reúne 120 provas inéditas, realizadas a partir de negativos originais (1904-1912), preservados desde 1917 no Arquivo Histórico Militar.

As imagens foram captadas em Angola, durante as comissões militares de Veloso de Castro, e revelam muito mais do que documentação colonial: mostram um olhar artístico singular, sensível ao movimento, à paisagem e ao quotidiano humano no início do século XX.

Terça a domingo, das 10h às 17h (última entrada 16h)

Visita guiada: 31 janeiro, às 10h

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(Com a devida vénia a agendalx.pt)
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Nota do editor

Último post da série de > Guiné 61/74 - P27602: Agenda cultural (909): Lisboa, Panteão Nacional, Concerto de Ano Novo, domingo, 4 de janeiro de 2026, 18h00: Kimi Djabaté (balafon e voz) e Iaia Galissá (cora)

sábado, 29 de novembro de 2025

Guiné 61/74 - P27476: Os nossos seres, saberes e lazeres (711): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (232): Por casualidade, o fotógrafo interessou-se por tal momento, por ele considerado esplendente - 4 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 16 de Outubro de 2025:

Queridos amigos,
Espero não enfastiar-vos com este cadinho de imagens espúrias, fundos de gaveta, em suma, isto no exato momento em que me preparava para organizar a visita com amigos alemães ao Museu Nacional dos Coches. Quando a visita mete alemães, impõe-se responder a uma perplexidade: porque razão este país apresentado como pobrete e alegrete guarda um património tão fabuloso destes carros de aparato e instrumentos complementares? Não é fácil nem confortável justificar a quem tem esta perplexidade que a meteorologia está a nosso favor, não há para aqui nem gelos nem intempéries, as guerras foram poucas e quem nos invadiu tinha como alvo os tesouros das igrejas e dos palácios. Voltando às imagens que aqui se apresentam, os tais fundos de gaveta, para vos dizer a verdade, eram mesmo imagens que eu tinha o aprazimento de ver e rever, mais não fosse para recordar as boas companhias em que as tirei e guardei.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (232):
Por casualidade, o fotógrafo interessou-se por tal momento, por ele considerado esplendente – 4

Mário Beja Santos

As surpresas são como as cerejas. Confiante que já me tinha desembaraçado de imagens avulsas de idas aqui e acolá, tudo já vertido para esta secção do blogue, preparava-me para contar uma viagem ao Museu Nacional dos Coches, e fiquei um tanto atordoado com este conjunto de imagens espúrias. Como é evidente, conheço as circunstâncias em que as tirei e com quem. Logo esta primeira, naquela tarde levei um casal alemão da minha estima na visita obrigatória do elétrico 28, parámos na estação da Basílica da Estrela, havia uma cerimónia religiosa, ela e ele estavam assombrados com aquele templo que, francamente, só tomo a iniciativa de visitar para ver o genial Machado de Castro e aquele presépio como não há outro. Levei-os até à zona do zimbório, eles especados com a cabeça erguida a ver o interior da formidável cúpula, nisto ouvi cânticos e aqui cheguei à chamada Capela da Adoração. Escreveu um dia o historiador de arte José-Augusto França que este monumento mandado fazer por D. Maria I é um perfeito anacronismo, o que é completamente verdade, mas tenho que reconhecer que esta capela goza de uma grande harmonia e confesso que nunca a tinha visitado, sabe se lá porquê.
Capela da Adoração, Basílica da Estrela
Júlio (dos Reis Pereira), o pescador de sereias, 1929, quadro em depósito no MNAC
Paula Rego, A Noiva, 1972, quadro em depósito no MNAC
Menez, sem título, 1985, quadro em depósito no MNAC

Em tempos que já la vão, Emília Ferreira, então diretora no Museu Nacional de Arte Contemporânea, organizou com a sua equipa uma espantosa exposição sobre os grandes movimentos artísticos do século XX, para além da prata da casa, onde há peças imorredoiras, apresentava-se um acervo de obras em depósito, lembro-me de ter feito o registo desta itinerância, mas guardei estas três imagens como tesouros, o quadro de Júlio foi uma provocação para a época, quer pelo traço, quer pela natureza dos temas, uma falsa ingenuidade, uma quase simpática rudeza que em tudo contrariava o que faziam os seus colegas modernistas. Como Paula Rego igualmente deve ter criado anticorpos com formas quase grotescas e um delineamento pretensamente primário, para mim com cores sublimes; mas confesso que é a organização pictórica de Menez que mais me deslumbra. Tenho para mim que guardei episodicamente estas três imagens, tomo-as como cartas fora do baralho e fulgores do engenho de artistas um tanto contra a corrente.
Virgem com o Menino, Gregorio di Lorenzo, Florença, século XV, mármore
Ainda o passeio em que levei o casal alemão a Monserrate, isto depois de saber que eles pretendiam revisitar aquele parque místico, mas pediram-me garantias de que iriam ver o mar, não o Cabo da Roca, mas uma praia com o bramido das ondas, um mar violento, retorcido, se possível com rochedos. A garantia foi dada, entrámos no parque onde viveu a família Cook, então muito endinheirada, renderam-se aos ardores estilísticos do neorromantismo, se o Sr. D. Fernando Saxe-Coburgo-Gota podia caprichar com aquele Palácio da Pena cheio de estilos passados, onde não faltam os arabescos, os góticos do século XIX, e muito mais coisas, também Monserrate se rendeu aos arabescos, ao naturalismo, ao neorromantismo, sem prescindir do conforto nas salas, nos quartos e na cozinha, os Cook eram também colecionadores, a generalidade dos bens foi depois a leilão, deslumbra a recuperação do edifício, mas custa ver tanto espaço vazio, embora haja muita vontade dos doadores. Mostram-se aqui imagens de arabescos, um belo mármore do século XV, e num templo em que o outono vive sem flores apanhei esta linda planta que dá pelo nome de cosmos, é muito frágil e cheia de cintilação.
É a despedida de Monserrate, aquela neblina que se vê ao fundo é quase um toque místico, o que estamos a ver é tirado da varanda do Palácio, é uma encosta suave, em dias de verão não é difícil ver nela a criançada a brincar isto enquanto os mais crescidos deste ponto alto sentem que há um elemento mágico que esvoaça por este arvoredo de um dos parques mais belos do mundo.
Para corresponder ao pedido dos meus amigos, levei-os inicialmente à Praia Grande, olhei para o relógio, o lusco-fusco não estava muito longe, havia que escolher entre a Praia das Maçãs e a Praia da Adraga, tenho fortes razões para escolher esta última, gosto de ouvir o bramido daquelas ondas a rebolarem-se em cachão, e gosto imenso deste rochedo, começara a enchente, os turistas fugiam da espuma que ia tomando conta da areia, com gritinhos de alegria, o sol declina, há mesmo vento, mas o mais agradável de tudo é que os meus amigos me agradeceram este final de passeio, em natureza tão esplendente.

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 22 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27452: Os nossos seres, saberes e lazeres (710): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (231): Por casualidade, o fotógrafo interessou-se por tal momento, por ele considerado esplendente - 3 (Mário Beja Santos)

sábado, 22 de novembro de 2025

Guiné 61/74 - P27452: Os nossos seres, saberes e lazeres (710): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (231): Por casualidade, o fotógrafo interessou-se por tal momento, por ele considerado esplendente - 3 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 13 de Outubro de 2025:

Queridos amigos,
Há uma nota curiosa de visita de amigos estrangeiros, tudo quanto se passa em Lisboa trazem completamente listado, desde o elétrico 28, os comes e bebes, os passeios pela Baixa Chiado e Bairro Alto, os miradouros. Uns vêm com o Michelin, outros trazem livros focados na arte, uns querem ver os azulejos, em visita anterior houve alguém que me pediu para ver algo que até então nunca ninguém pedira, a Basílica da Estrela, e não foi por causa dos presépios do Machado Castro. Desta feita, o casal alemão, que não é a 1.ª nem a 2.ª vez que visita Portugal, falou explicitamente em Tomar, Óbidos e Alcobaça. Procurei satisfazer os seus intentos, aqui fica uma síntese desse dia, esta itinerância continuará, pedem-me para no dia seguinte irmos visitar o Museu Nacional dos Coches, custa-lhes a acreditar que Portugal tenha o maior património de viaturas de aparato, como é que é possível um país tão periférico da Europa? Viram e confirmaram, não escondiam o entusiasmo.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (231):
Por casualidade, o fotógrafo interessou-se por tal momento, por ele considerado esplendente – 3


Mário Beja Santos

Passeios inusitados ou programados a Tomar, Óbidos e Alcobaça, para mostrar belezas a amigos estrangeiros que me vieram visitar, deram-se a agradável oportunidade de captar imagens com forte apelo cultural, até pretextos houve para tirar fotografias a estes amigos, que depois as colocam nas redes sociais. Vejamos o que resta de três passeios, todos eles me encheram a alma, volto lá se necessário for, há para ali, na arquitetura, na escultura e na pintura dedadas da nossa identidade, ali se exibem as nossas maneiras de ser, tratando carinhosamente algum património, desdenhando de outro.

Vamos começar por uma peça magnífica que nunca foi concluída, a Casa do Capítulo de Tomar, onde, no primeiro andar e no terraço subsequente se aclamou Filipe II de Espanha como Filipe I de Portugal. É obra de João de Castilho, um mestre de obras e arquiteto hispano-português, homem com formação gótica que irá ter um papel determinante no estilo renascentista em Portugal e nos seus últimos anos de vida pendeu para o classicismo sob a forma maneirista. Ele encontra-se ligado a cinco monumentos históricos classificados pela UNESCO como Património Mundial: o Mosteiro dos Jerónimos, o Convento de Cristo, o Mosteiro de Alcobaça e a construção da Fortaleza de Mazagão. Trabalhou duas vezes em Tomar (provavelmente entre 1516 e 1530) e um segundo período que decorre na década de 1930, em que trabalhou no Claustro Grande, vários claustros interiores, como o da Hospedaria, Corvos e Micha, concedeu esta Casa Capitular em mistério a desvendar as razões que impediram a sua conclusão.

O que o leitor vê são as paredes robustas, a fotografia que foi tirada da zona do arco triunfal e do altar, vê-se a antecâmera por onde entravam os frades. Caiu completamente o piso que separava a sala dos frades da sala dos cavaleiros. Aquela porta que se vê na torre dos cavaleiros estava prevista para ser a porta de acesso a esses cavaleiros; ao fundo vemos o topo da Charola e uma nesga da Igreja.

Casa Capitular a requerer com urgência trabalhos de conservação e restauro.
Sempre que acompanho amigos a Óbidos, falo-lhes de uma extremosa pintora de origem espanhola e filha de um artista que deixou obra em Portugal, Josefa de Óbidos, ela tem obra num altar lateral da Igreja Matriz e está também representada no Museu Municipal de Óbidos. Noto que os visitantes vão ali também admirar um túmulo e o impressionante forro azulejar da igreja, a mim cativa-me aquele Santo António bonacheirão e o Menino de braços abertos, gosto particularmente daquele teto pintado com tanta simplicidade, é como o emaranhado de uma renda que faz suspender Nossa Senhora guardada pelos anjos.
Este é um pormenor da pintura do teto do nártex da igreja.
Eram as últimas horas de sol, consultados os visitantes, houve acordo em visitar a igreja do Mosteiro de Alcobaça, deixamos para a próxima visita o precioso Museu. Mesmo habituados a este gigantismo das paredes do gótico-alemão que se pode encontrar desde o mar Báltico até perto de França, o casal alemão estava boquiaberto com a sobriedade da igreja, a solução dos pilares estarem reforçados por botaréus, tomaram nota que as riquezas vieram depois. D. Pedro I tomou esta igreja como seu mausoléu, tratou de igual maneira a sua apaixonada, Inês de Castro, túmulos de uma enorme beleza, marcados pelo vandalismo das invasões francesas.
No altar-mor atraiu-me prontamente esta Virgem de manto barroquizado, parece que pedala, tem umas linhas muito elegantes, gabo-lhe a Majestade e o panejamento em movimento.
Com as limitações da minha câmara foi esta a imagem que consegui da dimensão entre o nártex e o altar-mor.
Túmulo de Dona Inês de Castro, deste lado os danos são menos evidentes.
Conjunto escultórico que dá pelo nome Retábulo da Morte de São Bernardo, é todo em terracota policromada, obra de monges barristas do mosteiro, finais do século XVII.
Túmulo de D. Pedro, aqui o vandalismo é mais do que evidente.
Trata-se do sarcófago de Dona Urraca, mulher de D. Afonso II, está depositado no Panteão Régio, obra concluída em 1782 e atribuída ao engenheiro William Elsden, foi a primeira obra neogótica em Portugal. O panteão primitivo localizava-se na galilé que existiu à entrada da igreja. Posteriormente os túmulos foram transferidos para o transepto sul onde permaneceram até ao final do século XVIII.

Aqui se dá por terminada esta itinerância, segue-se outra que nos fará viajar até ao Museu Nacional dos Coches.

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 15 de Novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27423: Os nossos seres, saberes e lazeres (709): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (230): Por casualidade, o fotógrafo interessou-se por tal momento, por ele considerado esplendente - 2 (Mário Beja Santos)

sábado, 15 de novembro de 2025

Guiné 61/74 - P27423: Os nossos seres, saberes e lazeres (709): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (230): Por casualidade, o fotógrafo interessou-se por tal momento, por ele considerado esplendente - 2 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 3 de Outubro de 2025:

Queridos amigos,
Há pouco a explicar quanto às razões pelas quais se acumulam imagens que, pasme-se, até tinham sido tiradas para se juntarem a outros eventos de itinerâncias. É a limpar a câmara fotográfica que encontro estas recordações do amanhecer na Feira da Ladra, pois venho sempre ao princípio da feira em busca de tesouros e não escondo que às vezes sou bem sucedido. Há igualmente imagens avulsas que se prendem com a satisfação que sinto a estar a ver o arvoredo daquele local do Reguengo Grande, onde tenho casebre, estou para ali, a espairecer, ouvindo tocatas de Bach ou sonatas de Schubert, chega o lusco-fusco e ponho-me no parapeito à espera do fim do dia, o resultado aqui publiquei na semana anterior. E hoje conto-vos a história porque vos mostro uma vista da Graça tirada do Teatro Taborda, a antiga sede do Patriarcado, no Campo Santana, ou o interior da gigantesca cúpula da Basílica da Estrela.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (230):
Por casualidade, o fotógrafo interessou-se por tal momento, por ele considerado esplendente – 2

Mário Beja Santos

Devo muitíssimo à Feira da Ladra, e falando concretamente do nosso blogue, essa dívida exprime-se em papéis que eu aqui adquiro e que me são muitíssimo úteis para falar da Guiné. Ensinaram-me que se deve vir à Feira um pouco antes das sete da manhã, é por essa altura que os vendedores, pessoas que compram espólios onde tanto podem vir livros como a mais diversa quinquilharia, tiram dos sacos e põem nas bancas estes livros e papelada avidamente folheados por negociantes e bibliófilos, em que me incluo. Ganho imenso em ver o nascer do dia neste Campo de Santa Clara, por vezes venho mais cedo no frio do inverno, foi assim que captei uma imagem na rua do Vale de Santo António que me serviu de capa para o meu livro A Rua do Eclipse, espanto-me sempre de ver avermelhar o negrume, o rio incendeia-se, no entretanto há cambiantes de luz entre o amarelo e o esverdeado; e gosto de ver montar a Feira, inicialmente é todo um caos e, de repente, à luz do dia sentimos que se está a percorrer um verdadeiro mercado onde prima a fancaria, o que parece não ter préstimo, mas nós, os potenciais compradores, estamos ali confiantes de que é dia de sorte para alcançar almejados tesouros.
Os feirantes estão a chegar, cada um acampa no espaço que alugou. Será que eu vou encontrar aqui hoje algum tesouro?
Como isto aconteceu, não tenho explicação, seriam seis e meia da manhã, está tudo esborratado nestes estranhos azuis e amarelados, talvez um meteorologista me pudesse explicar porque está azul-celeste a cúpula de Santa Engrácia, o arvoredo, os toldos e o alcatrão, parece cenário de teatro, talvez mesmo uma aurora mística.
Enquanto a feira se organiza, ponho-me no fundo de Santa Clara, perto do antigo Hospital da Marinha que está a ser trans formado em hotel ou condomínio de luxo, venho bisbilhotar o Tejo, embora a melhor panorâmica seja trezentos metros acima no Mercado de Santa Clara. O que me atrai são estas cambiantes de luz amarelada a enfrentar o dia nascente: é como se fosse uma cintilação de ouro antes de que todas as cores fiquem esclarecidas.
Sim, a feira está armada, vai começar a busca, passo pelas loiças como cão por vinha vindimada, o papel é sempre o meu alvo principal, mas não desdenho das caixas de CDs, e há também espaço para as minhas ninharias, é o caso das gravatas, embora ninguém acredite é possível comprar a 1 euro gravatas Hermès ou Armani, depois mandar limpar a seco. Nos bons tempos que fiz na Feira da Ladra de Bruxelas comprei lenços para o pescoço da Chanel, Yves Saint Laurent ou Balenciaga, a minha filha herdou este pacote de relíquias.
Palácio Costa Lobo, depois sede do Patriarcado, no Campo de Santana, será transformado em residências de luxo. Passo por aqui quando me dirijo à Biblioteca do Goethe-Institut, ali bem perto. Em 15 de março de 1995, amigos ofereceram-me almoço na rua de S. José antes de eu partir para ser operado no Hospital dos Capuchos a uma hérnia na L4. Tomei o elevador do Lavra, por aqui andei a passo de tartaruga, e quando cheguei aqui à sede do Patriarcado, saiu de um carro D. António Ribeiro, o cardeal da época, com quem me relacionei em atividades da Juventude Universitária Católica. Cumprimentos para aqui e para acolá, achei um tanto desusado as perguntas que me fez não da doença, mas pelo local e o dia da operação. No dia seguinte à dita operação, apareceu-me o médico do dia com um ar um tanto embaraçado, estava lá fora o cardeal para me visitar, devia pôr ali uma cadeira ou não? Além disso, havia ali também um guineense com um cacho de bananas. Meio tonto pelas drogas que me tinham dado, disse ao médico para mandar entrar o cardeal, não queria nada de longas conversas. Acontece que na cama ao lado estava lá um senhor que sofria de hidrocefalia, com a regularidade que era internado para extrair líquido. Quando viu entrar o cardeal, o homem ficou possesso, que não queria morrer, se vinha ali um cardeal era para lhe dar uma extrema-unção… nunca vivi uma cena como esta, recordo-a sempre quando por aqui passo.
Tirei esta fotografia no Teatro Taborda. Lá caí mais uma vez na esparrela de ir ver um grande clássico adaptado, de peças de três horas ou mais reduz-se para um espetáculo de hora e meia com toda a luminotécnica a ferver, em vez de estar a ver um gigante do classicismo estou numa rave, com lasers e barulho. Mas não perdi de todo a noite. Esta imagem tendo lá em cima o Convento da Graça tirou-me a má disposição.
Já aqui dei conta de uma itinerância ao Museu Nacional de Arte Antiga. Não publiquei esta imagem, parece que a guardei com grande devoção. Lembro-me perfeitamente do tempo em que a Custódia de Belém, a obra-prima máxima da ourivesaria portuguesa era mais escura do que clara, só o ouro é que brilhava, depois um mecenas apanhou a operação de conservação e restauro, temos aqui mais um mistério de quem é o seu autor, há quem diga que foi Gil Vicente. Para mim é assunto desinteressante, ando por vezes tempo sem fim aqui à volta, estupefacto com a elegância e o poder espiritual que emana desta obra.
Venho por vezes a Arroios a uma loja de eslavos onde é possível comprar arenque fumado, que aprecio comer com puré de batata condimentado. Esta é a fachada da Igreja do Convento de Arroios, durante muitos anos não me interroguei porque é que estão ali as pedras de armas da Grã-Bretanha. Acontece que a Rainha D. Catarina de Bragança, viúva de Carlos II na Grã-Bretanha mandou aqui fazer um colégio para os Jesuítas, a igreja ficou sob a égide da Nossa Senhora da Nazaré. Depois da extinção das Ordens Religiosas deu em hospital. Todo aquele espaço está com ar desgraçado, vai seguramente acabar em condomínio de luxo, a igreja está agora sob o culto ortodoxo, penso que é frequentada pelos ucranianos. Esta fachada merecia melhor sorte.
Quando recebo visitas de amigos estrangeiros nunca me passa pela cabeça sugerir uma visita à Basílica da Estrela, quando muito, falo dela no elétrico nº 28. Mas desta feita o casal alemão pedia para visitar a Basílica, ainda pensei que vinham apaixonados pelo presépio de Machado de Castro, mas não, gostam de estudar estes matacões do barroco. A igreja estava aberta, ouvia-se os cantares na Capela da Adoração, havia gente nos bancos a aguardar missa e eu aproveitei para me pôr no centro do transepto e olhar a altíssima cúpula, reconheço que é impressionante, só peço desculpa de a imagem não aparecer devidamente equilibrada, e é difícil de imaginar a altura que nos separa do piso da igreja.

(continua)

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Nota do editor

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