Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52
1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 1 de Outubro de 2025:
Queridos amigos,
Vamos guardando uma imensidão de imagens no nosso telemóvel, há momentos em que apetece recordar o impulso ou o ímpeto com que se captou o nascer ou o fim do dia, aquele edifício de quem guardamos terna memória, aquelas horas de confraternização, o deslumbramento de uma peça de museu como, no caso presente, em que fui visitar o Museu Nacional de Arte Antiga, de que fiz relatório para o blogue, e quis guardar, veja-se só, como um quase relicário a restaurada Custódia de Belém que nunca a vi tão esplendente como agora. Deve ser fruto da idade, não me desembaraço das minhas recordações de ânimo leve, mas não quero ter a memória amordaçada pelo passado, é por isso que guardo imagens que me lançam pisca-pisca para obras de ficção, bem gostaria, antes de partir para as estrelinhas, de escrever dois livros a jeito de romances.
Um abraço do
Mário
Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (229):
Por casualidade, o fotógrafo interessou-se por tal momento, por ele considerado esplendente - 1
Mário Beja Santos
Explicado ou por explicar, há uma circunstância, um ímpeto irresistível, quiçá uma assombração, que nos põe a câmara na mão para captar a irradiação da luz, registar uma caleidoscópica atmosfera, é assim que assumimos que temos o direito a um arquivo pessoal, aquelas imagens vão ficar para todo o sempre, imaginamos nós, para regalo dos olhos. E em dado momento todo aquele fulgor dos registos deixa de ser visto como um cofre-forte de rememorações, como antigamente se faziam álbuns de viagens ou de família. Ora acontece que quem capta essas imagens sente vontade de as repartir, e num blogue, nestas rubricas que destinamos ao aprazimento dos nossos lazeres, tem todo o sentido de as revelar, dando alguma explicação da circunstância em que a imagem foi fixada. É o que se passa a pôr em palavras
Adoro este local onde há alguns anos adquiri dois casebres situados a meia encosta, estamos na freguesia de Reguengo Grande, concelho da Lourinhã, no extremo do distrito de Lisboa, a dois quilómetros está uma placa a dizer “Bem-vindos ao concelho do Bombarral”. Aqui tenho remanso, ponho Bach, Telemann ou Albinoni no leitor CDs, disfruto da vida no vale, oiço vozes nas colinas em frente, gente que visita o miradouro, e espero ansiosamente pelo pôr-do-sol, é como que uma liturgia a favor da vida, a luz vai se apagar, virá pelo amanhecer, como não estamos longe do mar há manhãs de neblina, aí pelo meio-dia o sol irrompe, triunfal.
Há mais de dez anos que colaboro semanalmente no jornal O Templário, de Tomar. Tenho ensaiado passeios pelo rio Nabão, mostrado as fachadas das casas, bisbilhotado pelos museus, documentando-me, acima de tudo, pelo precioso Património da Humanidade, centrado no Castelo e no Convento de Cristo, ali sucedem-se os movimentos artísticos desde o românico, é o caso da Charola, o gótico, marcado pela presença do Infante D. Henrique e dois claustros que mandou fazer, temos depois o tardo-gótico na dimensão do manuelino, segue-se o maneirismo e as manifestações do Renascimento até se chegar ao barroco. Há, neste monumental conjunto, casos intrigantes de monumentos mal conservados ou que possam ameaçar derrocada. É o caso da Casa do Capítulo, um grande edifício que está à frente da Igreja do Convento e da Charola, nunca foi concluído, caiu fragorosamente o primeiro andar, que era destinado aos Cavaleiros da Ordem de Cristo, foi naquele espaço e no terreiro em frente que se celebraram as Cortes de Tomar, em 1581, Filipe II de Espanha passou a ser Filipe I de Portugal. Por aqui andei a preparar reportagens para o dito jornal, e dei com esta escultura, que de algum modo lembra os trabalhos de João Cutileiro, disse-me o técnico do Convento de Cristo que me acompanhava que está destinado a outro local, falta ainda algum acabamento, para o protegerem dos rigores do tempo meteram-no na antecâmera que tinha sido destinada aos clérigos do Convento. Achei o contraste belíssimo, guardei estas duas imagens.
A Santíssima Trindade, autor desconhecido, séculos XV-XVI, pedra calcária policromada, proveniência da Igreja de S. Pedro da Beberriqueira, esta escultura está na atual receção do Convento de Cristo. A imagem não permite ver com facilidade a Pomba do Espírito Santo que se impõe sobre a cabeça de Cristo
Pintor Sam Abercromby, fotografia tirada no decurso da exposição no Convento de Cristo, em Tomar, intitulada "Sebastianismo Revisitado"
Agarrado às engrenagens e maquinaria do seu pequeno esquife, Sebastião lembra-se da vida no palácio, pré-batalha e pré-exílio onde irá aterrar o barco, quem irá encontrar? Quando lhe será permitido regressar?... tudo isto dentre deste momento… enquanto uma gaivota rouba o seu crucifixo. Quando a óleo de Sam Abercromby exposto na referida exposição.
Sebastião com o cão, quadro a óleo do ciclo Memórias e Premonições do Quarto Azul, por Sam Abercromby. Fiz uma reportagem da exposição, cerca de cento e trinta telas enormes dispostas em belos espaços conventuais logo na Nova Sacristia, indo por aí fora até aos espaços onde viveu o Conde de Tomar e onde estudaram os alunos do Colégio dos Missionários. Não me deixa de surpreender a preocupação deste artista que vive há quarenta anos perto de Tomar pelo fenómeno do Sebastianismo, andamos sempre à espera do homem providencial que nos subtraia da pequenez, da modorra, da inveja corporativa, um homem providencial que nos deu sonho e fumos de grandeza
Eduardo Viana, A pequena, 1916. Não sei há quanto tempo fui ver uma exposição no Centro Cultural de Belém que se prendia com o diálogo interatlântico das artes, naquele momento em que em Paris do Impressionismo se partia para uma ebulição de correntes estéticas, entrecruzavam-se o expressionismo, o cubismo, os resquícios do simbolismo, o construtivismo, o modernismo, em suma. Sacralizamos Almada Negreiros e Amadeo Souza-Cardoso, e pomos um tanto à margem o genial Eduardo Viana que pintou corpos femininos voluptuosos na sua carnalidade, mas que tudo experimentou entre as correntes de vanguarda, ele que pôde conviver algum tempo com Robert e Sonia Delaunay, que tanto o marcaram.
(continua)
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Nota do editor
Último post da série de 1 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27373: Os nossos seres, saberes e lazeres (707): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (228): Um aspeto da exposição, com uma museografia excecional, mostrando no centro e ao fundo uma imagem de Henry Moore (Mário Beja Santos)










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