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Cristina Allen (1943-2021). Foto: LG (2009) |
1. O único retrato, impiedoso, do gen Spínola, que já aqui publicámos, foi feita por uma mulher, a nossa saudosa amiga Maria Cristina Robalo Allen Revez (1943 - 2021), a Cristina Allen, a ex-esposa de Mário Beja Santos, foto à direita, 2009, autora da série "Os meus 53 dias de brasa em Bissau"
Já aqui disse, na devida altura, em 9/1/2009, que o texto que se segue, era/é um "pedaço de prosa de antologia" (*). Aconselhei "o próximo biógrafo de Spínola" a não o ignorar. Não teve tempo ou muito simplesmente não li o nosso blogue. Mas foi uma pena, o modo como a Cristina, em duas pinceladas, fez um soberbo retrato-robô do nosso Com-Chefe, merece voltar a aqui a ser destacado, a agora nesta série "Humor de caserba".(**)
(...) Sentiu-se útil e acarinhada por todos nós, ao apreciarmos o seu gesto (generoso e corajoso) de facultar ao seu ex-marido as cartas e aerogramas que ele lhe escreveu durante dois anos de comissão militar na Guiné. E não foram poucas: algumas centenas...
Dançando o tango com o Caco Baldé
por Cristina Allen (1943-2021)
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Spínola em Dulombi, sector L5 (Galomaro) em abril de 1972. Foto: Luís Dias (2011) |
(...) No dia seguinte, e de acordo com o que fora anteriormente combinado, o meu marido vadio ingressaria na ala de Neuropsiquiatria do Hospital Militar. Durante dois dias, eu não poderia vê-lo, já que o David Payne iria tentar pô-lo a dormir. Discretamente, o David passou-me para as mãos um frasco hospitalar de “Vesparax” (quem não dormia era eu…).
Havia um toque (a recolher? Por causa dele? Nunca perguntei).Mas via aquele homem passar para a mão esquerda o pingalim, encostá-lo firmemente à perna, pôr-se em sentido, crescer, enchendo o peito de ar, o ventre liso, o braço direito, o cotovelo, a mão, na mais perfeita continência que jamais vi. Ficava desmesuradamente imenso, desmesuradamente rígido, só o monóculo coruscava.
Estarrecida, não sabia que fazer dos pés, das mãos, da mala, da minissaia, parava, cruzava as mãos, endireitava-me (postura por postura, não baixaria a cabeça, olhava-o nos olhos, ou, melhor dizendo, no olho e no monóculo).
Mas este era apenas o primeiro acto desta farsa. O segundo, começava com a questão “Passas tu ou passo eu?”. No terceiro, resolvia eu recuar, só então ele passava e, perfeito cavalheiro, punha-se de lado e cumprimentava: “Muito boas tardes, minha senhora”. E eu respondia-lhe: “Muito boas tardes, Senhor Governador”.
Deixemos, por ora, o Mário na sua cama, entre dois outros perturbados, que, continuamente, discutiam…
Quando, escassos anos volvidos, leria atentamente "Portugal e o Futuro", fecharia o livro, e, olhos cerrados, para mim mesma o interpelava: “Então, meu Caco, só agora?!”
Para todas as coisas há o seu tempo. Nos anos de brasa que decorreriam, e, mais ainda, nos outros que vieram, ele seria, talvez, uma das mais contraditórias e inquietantes personagens.
Recordo, hoje, os três majores ( e seus acompanhantes) que, num gravíssimo erro de cálculo – ou num quase infantil erro de cálculo – ele enviou para o martírio /***) e penso em tantos jovens anónimos que perderam suas desgraçadas vidas. Nos estropiados, nos cegos, nos perturbados, nas nossas lágrimas.
E, todavia, ele, feito marechal António de Spínola, será sempre, para mim, a mais trágica figura do braseiro que outros atearam, sem ele, com ele, ou em seu nome.
Que Deus e a História sejam clementes para com este homem. (...) (*)
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(*) Vd. poste de 9 de janeiro de 2009 > Guiné 63/74 - P3713: Os meus 53 dias de brasa em Bissau (Cristina Allen) (1): Just married...
(**) Último poste da série > 18 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27929: Humor de caserna (257): O anedotário da Spinolândia - Parte XXIX: Ainda a origem das alcunhas "Caco Baldé" (grafada pelos fulas...) e "Aponta, Bruno" (fixada pelos "tugas") (António J. Pereira da Costa / Cherno Baldé)
- Major Passos Ramos
- Major Osório
- Major Pereira da Silva
- Alferes João Mosca
- Mamadu Lamine
- Aliú Sissé
- Patrão da Costa
































