terça-feira, 28 de junho de 2016

Guiné 63/74 - P16242: (De)Caras (42): A minha lavadeira Aline... "herdou-me" (Francisco Gamelas, ex-alf mil cav, cmdt Pel Rec Daimler 3089, Teixeira Pinto 1971/73)


Guiné > Região de Cacheu > Teixeira Pinto > Outubro de 1972 > "A minha lavadeira Aline com a Maria Helena, nas traseiras da nossa".

Foto (e legenda): © Francisco Gamelas (2016). Todos os direitos reservados [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


A minha lavadeira Aline

por Francisco Gamelas

A Aline “herdou-me”.
(Para uma nativa, um nome estranho.
Deveria ser investigado.)
Eu estava designado
no testamento,  num desenho
a propósito: um periquito. Contou-me

o alferes que fui substituir
que também tinha sido “herdado”.
A Aline era uma instituição.
Geração após geração
houve sempre o cuidado
de se lhe atribuir,

desde o seu tempo de bajuda,
o alferes das Daimlers.
Bonita tradição.
E por que não
se, entre todas as mulheres,
ganhou o posto sem ajuda?

Fui eu quem ganhou
com a  “herança” da Aline.
Presença bem esmerada,
roupa sempre limpa e asseada,
é a manjaca que define
o seu sentir  do que “herdou”.

Francisco Gamelas.
ed. de autor, Aveiro, 2016,  p. 53


Texto e foto dr Francisco Gamelas , ex-alf mil cav,  cmdt do Pel Rec Daimler 3089 (Teixeira Pinto, 1971/73), adido ao BCAÇ 3863 (1971/73). Engenheiro eletrotécnico de formação quadro superior da PT Inovação reformado, vive em Aveiro, e publicou recentemente "Outro olhar - Guiné 1971-1973. Aveiro, 2016, ed. de autor, 127 pp. + ilust. Preço de capa 12,50 €.

Os interessados pode encomendá-lo ao autor através do seu email pessoal franciscogamelas@sapo.pt. O design é da arquiteta Beatriz Ribau Pimenta. Tiragem: 150 exemplares. Impressão e acabamento: Grafigamelas, Lda, Esgueira, Aveiro.
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Nota do editor:

Último poste da série >  b22 de junho de 2016 > Guiné 63/74 - P16226: (De)caras (41): O cor inf ref José Severiano Teixeira nunca comandou o Centro de Instrução Militar (CIM) de Bolama, pelo que nunca poderia ter sido ele o oficial que puniu, em 1960, o 1º cabo mil Domingos Gomes Ramos, hoje herói nacional da Guiné-Bissau... E mais me disse que nessa época, em Bissau, constava que o Amílcar Cabral oferecia 80 contos (!), para se alistarem no PAIGC, a cada um dos militares guineenses do 1º Curso de Sargentos Milicianos (1959), a que pertenceu o nosso Mário Dias (Joaquim Sabido, advogado, Évora)

1 comentário:

Tabanca Grande disse...

Francisco, em muitas coisas da vida, os machos têm fraco poder de decisão... Essa de a tua lavadeira manjaca, de nome Aline, te ter herdado, não é um "espanto", é um facto cultural... Não era o indivíduo, fulano tal, Francisco Gamelas, bem apessoado, que estava em causa, era o senhor comandante das Daimlers, "periquito", acabado de chegar de longe do outro lado do mar...

Apesar de os manjacos, tal como os fulas, serem ambos "nossos" (das NT)... aliados, eles eram sociedades semifeudais, onde dominavam o patriarcalismo, mas onde tenho ideia de que as mulheres eram uma "força da natureza"...


Nunca estive no Cacheu nem munca lidei com manjacos, o meu relacionamento é (era) sobretudo com os fulas, homens e mulheres, e em menor grau com os balantas...Mas nestes (e em especial os de Nhabijões, classificados comno estando, ainda em 1969, sob "duplo controlo", pelos nossos génios da "inteligência" militar...), havia maior duplicidade, se não mesmo hostilidade... Os balantas, em especial os "opincas" (os balantas do Oio) odiavam o "diabo branco" (o cap angolano Teixeira Pinto).. Também eu odiaria, se estivesse no lugar deles...

Ab grande, LG