quarta-feira, 29 de junho de 2016

Guiné 63/74 - P16247: Os nossos seres, saberes e lazeres (161): A pele de Tomar (11) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 19 de Abril de 2016:

Queridos amigos,
Há qualquer coisa na atmosfera tomarense que me fala incessantemente em resistência e tratamento a um fausto perdido e, em simultâneo, tem-se um sentimento de abandono e mesmo de capitulação. Ninguém ignora o que aconteceu quando se volatizaram as grandes fábricas e as pequenas indústrias, a cidade foi perdendo estatuto, deixou mesmo de ser sede de Região Militar, ficou com uma imagem de relíquia do passado, uma encruzilhada turística porque há o Convento de Cristo, há cidadania militante que faz cineclubismo, teatro amador, há artífices, atividades culturais múltiplas, mas tudo conjugado teme-se pelo futuro. Na circunstância, limito-me a desvelar peles de grande valor, imagens da cidade que merecem ser olhadas como joias fora do cofre.

Um abraço do
Mário


A pele de Tomar (11)

Beja Santos

É evidente o esforço de recuperação do património arquitetónico, e momentos há em que o nosso olhar é atraído por um relicário, uma prova de amor em pôr muito antigo com sinais de vitalidade. Mas há o choque da imagem, o contraste entre o que se pôs de pé e o que aguarda na agonia expectante ou a boa sorte ou a má morte.





Não é preciso adivinhação, o viajante veio até à Mata dos Sete Montes, à procura de odores primaveris, foi um Abril de águas mil, de céus de chumbo, de ventanias mais sibilantes do que é costume. Mas a natureza tem um relógio implacável, brota a florescência a despeito das intempéries, dos caprichos do tempo. E dá gosto por aqui passear, ouvir o escorripichar da água por regos, vendo crescer os fetos, é como se esta natureza quebrasse as regras aos dias tristes da invernia e anunciasse uma juventude eterna, indomável.




Também não é preciso fazer nenhum esforço de adivinhação, este é o convento da padroeira, quem aqui arriba velozmente em autocarros de excursão até é capaz de pensar que o miolo é compatível com a fachada. Desgraçadamente, não é. A fachada está retocada para não se esbarrondar, tem belas fotografias, e quem se passeia na Ponte Velha nem tem a dimensão da grandeza da ruína. O viajante percorreu o interior e momentos houve em que até pensou que houvera um bombardeamento pesado, ou de canhões ou aviões. O que houve foi desprezo, abandono. Vejam-se estes azulejos e o que foi um belo espaço para mirar a cidade. Nem tudo está irremediavelmente perdido, mas até se pergunta se na arquitetura não é como na saúde: mais vale prevenir do que remediar.




Os anos passam e ganha cada vez mais consistência a afirmação de que olhamos para quase tudo sem ver. Foi preciso uma chuvada arreliadora, ali à saída da Mata dos Sete Montes, para ter corrido para a proteção desta arcada de um belo edifício onde se continuam a dar informações sobre turismo. Segundo consta, um antigo presidente de câmara determinou que se aproveitassem restos de edifícios e casas demolidas. Verdade ou não, quando aqui se entra fica-se com a sensação de um caleidoscópio de estilos, embora, no seu conjunto, haja uma apreciável harmonia. O que acontece é que por causa da chuva arreliadora, o viajante teve tempo para ver a qualidade dos relevos das portas, o belíssimo fecho de abóbada que foi adossado ao teto da arcada e a lanterna, diz-se sem qualquer exagero, é de uma grande harmonia. Bendita chuva arreliadora que permitiu tais delícias para os olhos.

(Continua)
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Nota do editor

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1 comentário:

António José Pereira da Costa disse...

Olá Camarada
Sinceramente tenho pena daquelas casas velhas que existem nos "centros (às vezes) históricos" das nossas cidades e vilas.
São belíssimas por fora e devem ser comodíssimas por dentro. E às vezes até são e têm uns quintalecos confortáveis onde apetece estar e beber um copo ou a jantar.
Só que o dinheiro fala mais alto.
A recuperação é cara e problemática e os inquilinos não a fazem e os donos também dizem não ter dinheiro para isso. Por isso vem, às vezes ao desbarato.
Enfim, património que se perde. Ao menos que se guarde em fotos.
Um Ab.
António J. P. Costa