quinta-feira, 30 de junho de 2016

Guiné 63/74 - P16253: In Memoriam (261): Joaquim Vidal Saraiva (1936-2015), um adeus, emocionado, do "Tigre de Missirá"



Foto nº 116 A


Foto nº 116 B



Foto nº 117 A



Fotyo nº 118 A


Guiné > Zona Leste > Sector L1 (Bambadinca) > CCS/ BCAÇ 2852 (1968/70) > 1970 > Destacamento de Nhabijões > 
O alf mil médico Joaquim Vidal Saraiva, de 33 anos,  prestando assistência médica à população do reordenamento de Nhabijões, maioritariamente de etnia balanta (e com "parentes no mato", tanto a norte do Cuor como ao longo da margem direita do Rio Corubal, nos subsetores do Xime e do Xitole). À sua  vesquerda  tinha um intérprete. Na foto nº 117 A, vê-se. sentado, por detrás do médico, o major op inf Herberto Alfredo do Amaral Sampaio,  responsável pelo grande reordenamento de Nhabijões, talvez o maior ou um dos maiores da Guiné, na época, com c. de 3 centenas de moranças e diversos equipamentos (escola,  posto sanitário, etc.).
De seu nome completo, Joaquim António Pinheiro Vidal Saraiva, (i) nasceu em 26 de Junho de 1936; (ii) .fez a licenciatura em medicina e cirurgia na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto para a qual entrou no ano escolar  de 1957/58;  (iii) foi alf mil med na Guiné (1969/71), tendo passado por Guileje, Bambadinca e Bissau (HM 241); (iv) era especialista em cirurgia geral; (v).trabalhou. no Hospital de São João, no Porto e no Centro Hospitalar Vila Nova de Gaia / Espinho, EPE; (vi) residia em São Félix da Marinha, V. N. Gaia; (vi) foi a um único encintro do pessoal de Bambadinmca, em 2004,em Ferreira do Zézere; (vii) soubemos agora da triste notícia da sua morte, ocorrida há um ano, em 21/6/2015; (viii) está sepultado em Valadares, V.N. Gaia. 

Fotos: © Arlindo T. Roda (2010). Todos os direitos reservados . [Edição: complementar: LG]



1. Comentário de Mário Beja Santas, "Tigre de Missirá",  ao poste P16251 (*)

[Foto à esquerda: Bambadinca, 1970: Mério Beja Santos, ex-alf mil inf, Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70, junto ao edifício do comando e instalações de oficiais, ao tempo da CCS/BCAÇ 2852; foto do arquivo do blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

Queridos camaradas, 
Não sei por onde começar, acresce que tenho que me manter muito contido, não abrir a porta às emoções. 
O Joaquim Vidal Saraiva desembarcou em Bissalanca e não chegou a entrar em Bissau, uma avioneta levou-o diretamente para Guileje. Aí permaneceu alguns meses, pedia encarecidamente que nunca o questionássemos sobre o que viu, ouviu e o que tratou, mas vinha bem marcado. 
Era um camarada sempre a transparecer vivacidade, pronto para os acepipes e sempre capaz de entrar nos quartos a desoras exigindo-nos livros do tio Patinhas, a pressão era tão forte que o Abel Rodrigues, o Magalhães Moreira e eu, os três locatários daquele habitáculo, nos combinámos em comprar em Bafatá vários livros para o sossegar naquelas noites de turvação, em que lhe faltava o lenitivo literário. 
Ficará na minha vida como alguém que me tratou fisicamente e que deu suporte, sempre com a sua solicitude maravilhosa, à minha tropa. Recordo particularmente o estúpido acidente de 1 de Janeiro de 1970 em que Quebá Sissé disparou sobre o Uam Sambu e este caiu no colo dizendo: alfero, mim muri! 
O Vidal Saraiva, na enfermaria de Bambadinca, tudo fez para lhe estancar as golfadas de sangue, chegou morto a Bissau, o Vidal andou dias deprimido e gemia: "Anda aqui um gajo a dar o coirão sem conseguir safar estes desgraçados, que merda de profissão a minha!". 
O Vidal Saraiva é autor de uma frase única, uma exclamação que ainda não consta no dicionário da Academia das Ciências, algo sinónimo a caramba, "é o caralho feito vaca!". Jogava à lerpa com comentários desbragados, que o digam o Zé Luís Vacas de Carvalho, o Ismael Augusto, o Fernando Calado. 
Tinha as suas extravagâncias, quando lhe comunquei que ia casar a Bissau foi prontamente falar com o comandante, Jovelino Sá Moniz Pampolona Corte-Real: "O meu comandante fica a saber que vou a Bissau tratar de trazer equipamento médico e aproveito para assisitir ao casamento do Tigre".
O mínimo dos mínimos que me ocorre dizer, e continuo a procurar estar contido, é que perdi, e muitos de nós perdemos, um meteoro que nos aliviava a alma, um compincha das nossas pequenas estúrdias, um zelador da saúde dos nossos homens. 
Durante anos ainda liguei para o Hospital da Gaia e marcávamos encontros imaginários. Escrevo com um mágoa sem limites, há momentos em que parece que caminho num campo de batalha do tipo da I Guerra Mundial em que vejo petardos a fazer desaparecer a malta da minha trincheira, é um desnorte terrível, sentimos que o trilho se estreita e que, irremediavelmente, nunca mais exprimiremos face a face a gratidão profunda por aqueles gestos que praticámos há quase 50 anos, e que restam grudados na retina e no coração. 
Curvo-me respeitosamente diante de si, meu caro Vidal Saraiva, é mesmo tudo tão extraordinário que posso escrever pela sua bocaé mesmo o caralho feito vaca, lá nas nuvens receba um abraço do Tigre.
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2 comentários:

Tabanca Grande disse...

Mário, raramente vens aqui, à nossa caixa de comentários, o mesmo é dizer, à "caserna" da Tabanca Grande. Desta vez são razões simultaneamente tristes e nobres, as que te levam a escrever o belíssimo comentário de pesar e de homenagem ao nosso Vidal Saraiva.

Eu não convivi, no dia a dia, com o Vidal Saraiva. Tu, sim, mais o Abel, o Moreira, o Rodrigues (já falecido), o Ismael Augusto, o Fernando Calado, o Jaime Machado das "Daimlers"... A Na tropa (e na guerra), como sabes, cada "macaco" tinha o seu galho, e nem sequer nos tratávamos por tu na altura... Nunca entrei por exemplo na messe de oficiais e, de resto, eram poucos os oficiais (milicianos...) que nos visitavam no bar e messe de sargentos, mesmo ali ao lado. O mesmo acontecia com o refeitório das praças...

O nosso exército refletia a estratificação social da Nação... Todos éramos iguais mas uns mais do que outros... Um senhor alferes era um senhor alferes e, se fosse médico, ainda mais. Vejo que não tratavas o Vidal por tu, de resto era bastante mais velho (10 anos) do que nós... E o senhor doutor era o senhor doutor... A ideia que tenho dele era a de um típico "cirurgião" e para mais nortenho, ríspido no falar, de atitudes firmes, ação decidida...

Passei tantos natais, na Madalena, Vila Nova de Gaia, a escassos quilómetros da casa dele!... E sempre que lá ia, lembrava-me que morava por ali perto... Telefonei-lhe emvão, se calhar a más horas...Claro que ele não se lembraria de mim, mas seguramente que iríamnos recordar alguns momentos dramáticos que passámos juntos...em Bambadinca.

Ab fraterno. LG

alma disse...

Felizmente nunca pertenci a elites...Frequentei com assiduidade (sempre que ia a Bambadinca), o Bar dos Soldados e a Messe dos Sargentos,onde encontrei muitas vezes o vosso Alferes Abel.Era para mim normal, pois nos Destacamentos, não existia diferenciação.Vigorava na altura,um espírito de "casta", que se calhar, não é politicamente correcto relembrar..Em Vendas Novas, quando Aspirante,fui chamado ao Comandante e seriamente repreendido,por ter sido visto a conversar com um Cabo,no jardim fronteiro ao Quartel..Numa das minhas primeiras operações, com partida de Mansambo, também fui admoestado,porque jantei com os furriéis..Um espírito de "casta" e de "Oficial e Cavalheiro"...Na E.P.A. quando entrava uma senhora na Messe, todos nos levantávamos..Eu conhecia da Faculdade, a mulher de um Alferes Miliciano,que por causa disso, deixou de lá almoçar..Oh Jorge, mas estes gajos, pensam que sou alguma Imperatriz?, disse-me ela...Abraço .J.Cabral