sábado, 10 de outubro de 2015

Guiné 63/74 - P15231: Blogpoesia (420): Farol das Rosas (J. L. Mendes Gomes)


O poeta J. L. Mendes Gomes, ex-alf mil, CCAÇ 728,
Cachil, Catió e Bissau, 1964/66; autor de Baladas de
Berlim
 [Lisboa, Chiado Editora, 2013, 229 pp.]
Farol das rosas…

por J. L. Mendes Gomes

No ponto alto e extremo da terra,
Coberta de verde da erva,
Escarpada a pique,
Levantaram um farol,
Formoso e altivo,
Voltado para o mar.

Foi uma festa
Quando começou a rodar.
As gentes em volta vieram em cortejo,
Com flores à cabeça,
Açafates de vime.
Estralejaram foguetes.
A banda de música,
Houve um repasto,
Petiscos e vinho.

As moças dançaram travessas,
Com saias rodadas,
E mostraram as pernas.
Até o prior,
De rosto risonho e festivo,
Batina comprida,
Dançou uma volta,
Como se fosse um rapaz.

Só arredaram o pé,
Na madrugada da noite,
Quando os feixes de luz
Inundavam o mar,
Como se houvesse luar…

Farol das Rosas
Assim se chamou. (*)



Ouvindo Paco de Lúcia

Berlim, 23 de setembro de 2015, 7h30m

Joaquim Luís Mendes Gomes


(*) Segundo a intuição do editor, o poeta, a caminho de Berlim,  ter-se-á inspirado no Far des Roses (em catalão), o farol das Rosas, na Catalunha, Girona, Costa Brava, Punta de la Batería ou Punta Blancals, construído  em 1864. Desde  que chegou a Berlim, o poeta nunca mais deu notícias. Interpretamos este silêncio como sendo o de uma sabática poética criativa. Para ele vai um alfabravo fraterno.  Sei que ele, lá longe na terra dos teutões,  morre de saudades desta sua querida Pátria que é santa Mátria e e caloorosa Frátria, mas também, algumas vezes, e para alhuns dos melhores dos seus filhos, é Puta e  Madrasta. (LG)

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Nota do editor:

Guiné 63/74 - P15230: História da CART 3494 (11): Memórias entre a mobilização para a Guiné e o XXX Encontro Anual da CART 3494 [1971-2015] (Jorge Araújo)


1. O nosso Camarada Jorge Alves Araújo, ex-Fur Mil Op Esp/RANGER da CART 3494, (Xime-Mansambo, 1972/1974), enviou-nos mais uma mensagem desta sua série. 

Camaradas,

Através deste pequeno puzzle de memórias – por grafia e por imagens – pretendi recuperar alguns dos momentos mais marcantes da nossa história, enquanto ex-combatentes pertencentes ao RAP2 [agora Regimento de Artilharia n.º 5], a começar pelos actos administrativos que tornaram pública a mobilização e consequente nomeação individual e colectiva constituída em Batalhão [3873], seguida da cerimónia solene de despedida para o CTIG em 21DEC1971, acontecimentos iniciados há quarenta e quatro anos.

Aproveitei ainda para dar conta do processo que determinou a minha inclusão no contingente da CART 3494, justificando os factos que influenciaram o calendário na chegada ao Xime com algumas semanas de atraso, e que a História do BART 3873 omite, certamente por não ser relevante, pois tratava-se de completar o seu efectivo que partira incompleto.

Com este relato procuro esclarecer a dúvida/interrogação suscitada pelo camarada Luís Graça aquando da elaboração do P13414.

O REGIMENTO DE ARTILHARIA PESADA N.º 2 [RAP2] (Serra do Pilar – Vila Nova de Gaia)

- MEMÓRIAS ENTRE A MOBILIZAÇÃO PARA A GUINÉ E O
XXX ENCONTRO ANUAL DA CART 3494 [1971-2015] - 

1. - INTRODUÇÃO

Na sequência da conclusão do 2.º ciclo do Curso de Sargentos Milicianos na especialidade de Operações Especiais ocorrida em 11DEC1971, que funcionou nas instalações de Penude (Lamego) do Centro de Instrução de Operações Especiais [C.I.O.E], fui transferido para o então Regimento de Artilharia Pesada n.º 2, sito na Serra do Pilar, em Vila Nova de Gaia [hoje Regimento de Artilharia n.º 5], em cuja Unidade Militar deveria aguardar a competente nomeação para um dos três Teatros de Operações Ultramarinos (O.S. do CIOE de 17-12-1971).

Aí chegado, tomei conhecimento que o contingente do BART 3873, nomeado para servir na Guiné em rendição do BART 2917 [1970/1972] sedeado em Bambadinca, acabara de gozar a licença de mobilização nos termos do Art.º 20.º das NNCCMU, considerando-se apto para embarcar depois de 16DEC1971, viagem que se veio a concretizar somente a 22DEC1971.

Durante a cerimónia de despedida verificada na véspera, em 21DEC1971, 3.ª feira, foi realizada uma Missa celebrada pelo Capelão da Unidade no Mosteiro da Serra do Pilar, seguida da alocução de um Oficial Superior, em representação do Exmo. Governador da Região Militar do Porto, encerrando-se o acto com o desfile das tropas em parada.


Foto 1. RAP2 (21DEC1971). As entidades oficiais presentes na cerimónia de despedida do contingente militar do BART 3873 e da Companhia Independente de Artilharia 3521.

No dia seguinte, o contingente do BART 3873 [CCS - CART 3492 - CART 3493 - CART 3494] e da CART 3521 [Companhia Independente de Artilharia] seguiram por caminho-de-ferro até à estação de Santa Apolónia (Lisboa), onde viaturas militares os transportaram para o Cais de Alcântara a fim de zarparem, a bordo do N/M «NIASSA», rumo à Guiné, facto ocorrido por volta das 12:00 horas, com a chegada a Bissau a verificar-se seis dias depois. 

2. - MEMÓRIAS PESSOAIS NO RAP2 – 1971-1972

Considerando que o embarque desta Unidade Orgânica [BART 3873], mobilizada para o CTIG pelo RAP2, ocorreu três dias antes do Natal/1971, e a concentração de novo contingente só teria lugar nas primeiras semanas de 1972, fui contemplado com quinze dias de férias natalícias, aí regressando em 03JAN72, 2.ª feira.


Foto 2. RAP2 (DEC1971). Parada da Unidade [hoje RA-5] há quarenta e quatro anos atrás, com um pequeno memorial alusivo aos seus mortos em combate.

Nesse mesmo dia, após o regresso a Gaia, recebi então a notícia mais aguardada na época… a da Mobilização para a Guerra no/do Ultramar. 

Na Ordem de Serviço constava:

«Nomeado para servir no Ultramar, na Província da Guiné, nos termos da alínea c) do Art.º 20.º do Decreto-Lei 49107 com destino à CART 3494/BART 3873/RAP2, conforme nota 6319, da RSP/DSP/ME».

Concluída a leitura desta já esperada O.S., a quantidade de adrenalina no organismo registava um aumento significativo, com os pelos dos braços a ficarem eriçados, tal foi a emoção/tensão sentida. Iria seguir, tão breve quanto possível, para a Guiné, particularmente para o Xime, para me juntar ao colectivo da CART 3494.

Como elemento histórico, tomei a iniciativa de vos dar conta da substância que fundamentou a elaboração do Decreto-Lei 49107, de 7 de Julho de 1969, aprovado pelo Conselho de Ministros, em 25JUN1969, presidido por Marcello Caetano [1906-1980], promulgado pelo Presidente da República, Américo Rodrigues Thomaz [1894-1987], e publicado, naquela data, no Diário do Governo - 1.ª série, n.º 157, pp. 798/801.

Com este Decreto-Lei pretende-se reorganizar a estrutura das forças armadas nas províncias ultramarinas onde as circunstâncias obriguem a realização de operações militares, com vista a garantir a soberania nacional sobre o território e a manter a ordem e a tranquilidade pública.

O espírito desta Lei 49107 fundamentava-se nos seguintes princípios:

«A experiência adquirida em oito anos de operações militares no ultramar aconselha a que sejam efectuadas algumas alterações nas estruturas de comando por forma a obter uma melhor adaptação do emprego dos meios militares à evolução da subversão e uma mais completa e estreita colaboração entre comandos militares e autoridades administrativas no esforço comum.

Na reorganização que é objecto do presente diploma, considera-se a plena responsabilidade operacional do comandante-chefe, em cada um dos teatros de operações, e a necessidade de o referido comandante-chefe constituir e acionar directamente comandos operacionais subordinados compreendendo forças de um ou mais ramos das forças armadas, quando a situação o aconselhe, por forma a adaptar o emprego das forças militares à evolução da situação em determinadas zonas.

O comando operacional será exercido pelo comandante-chefe sobre as forças de cada ramo das forças armadas através dos comandos terrestre, naval e aéreo ou de comandos operacionais, normalmente conjuntos, constituídos para actuação, em certas zonas ou sectores, os quais lhe ficam directamente subordinados para este efeito. […]».

Quanto ao Art.º 20.º da Lei supra, em obediência do/da qual fomos mobilizados, pode ler-se:

Art.º 20.º - 

1. O pessoal para serviço nas províncias ultramarinas pode ser nomeado por:

a) - Escolha.

b) - Oferecimento.

c) - Imposição de Serviço (o nosso caso).

2. Nas nomeações por escolha ou por imposição de serviço, a duração das comissões é, normalmente, de dois anos.

3. As comissões voluntárias serão de quatro anos, prorrogáveis por períodos de um ano, até ao máximo de dois períodos, a requerimento dos interessados.

4. Os cargos em que pode ser aplicada a nomeação por escolha serão objecto de despacho do Ministro da Defesa Nacional, ouvidos os titulares dos departamentos das forças armadas.

5. As condições em que se processam as nomeações por oferecimento ou por imposição de serviço são estabelecidas pelo titular do respectivo departamento.

Como memória pessoal, procedi à gravação de uma imagem daquele momento relacionado com a publicação/divulgação da nomeação. 


Foto 3. RAP2 (03JAN1972). Muralha do Quartel com o Porto como cenário de fundo. Espaço contiguo com o Mosteiro da Serra do Pilar.


Postal do Porto (anos 60) – Panorâmica obtida a partir do Mosteiro da Serra do Pilar/RAP2 (imagem anterior).


Foto 4. Xime (MAR1972). Entrada principal do aquartelamento por onde entrei depois da viagem Bissau-Xime, em LDG.

3. - MEMÓRIAS DA CART 3494 NO RA5 [ex-RAP2] – 13JUN2015

Por efeito da realização do XXX Almoço/Convívio Anual dos ex-combatentes da CART 3494 ter lugar, este ano [13JUN2015], no Município de Vila Nova de Gaia, no Restaurante Quinta da Paradela, sito na Freguesia de Pedroso, a Comissão Organizadora eleita tomou a iniciativa de homenagear, na sua Unidade Mobilizadora para o CTIGuiné [ex-RAP2, agora RA5], os camaradas que tombaram nos diferentes Teatros de Operações Ultramarinos, em particular, o nosso camarada Furriel Manuel Rocha Bento [vidé P14770 + P14786].


Foto 5. RA5/ex-RAP2 (13JUN2015). Guarda d’Honra na cerimónia oficial de homenagem aos militares da Unidade mortos em combate.

Nesse contexto, e no mesmo local da foto 3, aproveitei para recuperar o dia em que saiu em Ordem de Serviço a minha mobilização, “batendo umas chapas” [6 e 7], quarenta e três anos e meio depois daquela emoção forte, mas desta vez trajando, naturalmente, à civil. 



Fotos 6 e 7. RA5/ex-RAP2 (13JUN2015). Quarenta e três anos e meio depois da foto 3, para mais tarde recordar.


Foto 8. RA5/ex-RAP2 (13JUN2015). Memorial aos mortos em combate


Foto 9. RA5/ex-RAP2 (13JUN2015). Colectivo da CART 3494 presente na cerimónia

4. - O XXX ALMOÇO/CONVÍVIO ANUAL DA CART 3494 - 2015 

– MAIS ALGUMAS IMAGENS 

Ainda a propósito do nosso último Encontro Anual, eis mais algumas imagens. 


Foto 10. (13JUN2015). O tradicional bolo identificativo dos Encontros Anuais.


Foto 11. (13JUN2015). Os organizadores do XXX Encontro Anual (Domingues e Dias) à conversa com o Peixoto, organizador do Encontro do próximo ano (2016).


Foto 12. (13JUN2015). Da esqª/dtª - Luís Domingues, Benjamim Dias, Acácio Correia e Jorge Araújo, em sessão de slides relativos a encontros anteriores.


Foto 13. (13JUN2015). Momento de recuperação de muitas memórias.

Concluo esta curta narrativa enviando para todos um forte abraço de amizade com votos de muita saúde.

Com um forte abraço de amizade.
Jorge Araújo.
Fur Mil Op Esp / Ranger, CART 3494

Mini-guião de colecção particular: © Carlos Coutinho (2011). Direitos reservados.
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Nota de M.R.:

Vd. último poste desta série em:


Guiné 63/74 - P15229: Histórias da CCAÇ 2533 (Canjambari e Farim, 1969/71) (Luís Nascimento / Joaquim Lessa): Parte XXXII: o bravo soldado Faria (Armando Costa Tavares, fur mil at inf, 3º pelotão)


Guiné > Região do Óio > Fatim  > Rio Farim  > CCAÇ 2533 (1969/71) >  (Foto inserida no documentário fotográfico anexo à brochura "Histórias da CCAÇ 2533" (*)




1. Continuação da publicação das "histórias da CCAÇ 2533", a partir do documento editado pelo ex-1º cabo quarteleiro, Joaquim Lessa, e impresso na Tipografia Lessa, na Maia (115 pp. + 30 pp, inumeradas, de fotografias). (*)

Trata-se de uma  brochura, com cerca de 6 dezenas de curtas histórias, de uma a duas páginas, e profusamente ilustrada (cerca de meia centena de fotos). Chegou às mãos dos nossos editores, em suporte digital, através do Luís Nascimento, que vive em Viseu, e que também nos facultou um exemplar em papel. para consulta.

Hoje reproduz-se mais texto da autoria do ex-fur mil at inf, Armando Costa Tavares, do 3º pelotão, e em que ele evoca o comportamento corajoso e determinado do soldado Faria, durante uma emboscada no corredor de Lamel, já no fim da comissão.  Sob proposta do Tavares, o Faria (que foi ferido nessa ação) teve um louvor do comandnate da CCAÇ 2533, o então  cap inf Sidónio Martins Ribeiro da Silva (hoje cor inf ref).




In Histórias da CCAÇ 2533. Edição de Joaquim Lessa, tipografia Lessa, Maia, s/d, pp. 101/102.



O alf mil inf António H. F. de Carvalho Neto era o  comandante do 3º Gr Comb, a que pertencia o fur mil at inf Armando da Costa Tavares, autor desta história. Um outro  fur mil at inf aqui mencionado é o Fernando J. do Nascimento Pires. Por sua vez, o Carvalhal, ferido nesta emboscada,  é o 1º cabo radiotelegrafista Abílio de J. Alípio Carvalhal, de acordo com a lista nominal do pessoal da CCAÇ 2533, publicada no fim do livro. Lamentavelmente, o Faria não consigo identificá-lo. (LG)

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Nota do editor:

Último poste da série > 9 de junho de 2015 > Guiné 63/74 - P14717: Histórias da CCAÇ 2533 (Canjambari e Farim, 1969/71) (Luís Nascimento / Joaquim Lessa): Parte XXXI: um data para recordar, o dia 1 de abril de 1970, dia das mentiras... (Armando Costa Tavares, fur mil at inf, 3º pelotão)

Guiné 63/74 - P15228: Parabéns a você (972): Manuel Resende, ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 2585 (Guiné, 1969/71)

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Nota do editor

Último poste da série de 9 de Outubro de 2015 > Guiné 63/74 - P15222: Parabéns a você (971): José Carmino Azevedo, ex-Soldado Condutor Auto do BCAV 2868 (Guiné, 1969/71)

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Guiné 63/74 - P15227: Inquérito "on line" (4): "Dos 3 últimos com-chefes do CTIG, aquele de que tenho melhor opinião é... Arnaldo Schulz (1964/68), António de Spínola (1968/73) ou Bettencourt Rodrigues (1973/74) ?... Resposta até 5ª feira, dia 15, às 15h30

Arnaldo Schulz
(1964/68)
1. Mensagem enviada hoje pelo correio interno da Tabanca Grande: 

Amigos e camaradas:

Eu sei que já andamos a blogar há muito tempo, vai para 12 anos (a perfazer
no dia 23/4/2016)... Eu sei que há muita malta que já "arrumou as botas" e que nem sequer já tem pachorra  para nos ler, preferindo o Facebook, mais amigável, mais instantâneo, mais interativo, mais próximo, mais emotivo, mais fusional...

Mas ainda vai havendo uns grã-tabanqueiros resistentes, pacientes, colaborantes com os chatos editores e as suas propostas... De qualquer modo,  enquanto estivermos à tona de água, esperneando e bracejando, é sinal de que ainda não estamos definitivamente arrumados...

Vem isto a propósito de mais um "inquérito on line" (em vez da enganadora "sondagem"), para animar a malta, e antes que nos chegue a maldita doença do alemão... Enfim participar nestas coisas também pode (e deve ser) uma forma de promover o envelhecimento...ativo e saudável!

O tema desta semana são os três comandantes-chefes que, no TO da Guiné, acumularam o cargo de supremos chefes militares com o cargo de governador geral...

Todos nós conhecemos pelo menos um deles, nalguns casos conhecemos dois, o Schulz e o Spínola ou o Spínola e o Bettencourt... Três homens, três militares, três personalidades, três histórias, três destinos... diferentes. E todos eles já estão no olimpo dos guerreiros... Devem ser recordados por nós, com distância, objetividade, rigor  e imparcialidade,  independentemente das maiores ou menores simpatias ou reservas que no passado nos despertaram.

Simples soldados, não podemos arrogar-nos o direito de ter um conhecimento profundo da sua personalidade e ação, em todo o caso eles foram nossos comandantes, ouvimos os seus discursos, batemos-lhes a pala, num caso ou noutro até falámos com eles...

António de Spínola
(1968/73)
Vamos cingir-nos ao seu papel como comandantes-chefes no TO da Guiné... 

Que "opinião" fazemos deles, hoje ? Já não digo há 40 ou 50 anos atrás, temos o direito de modificar a nossa opinião. à medida que vamos conhecendo melhor essa época e os seus protagonistas...

Já tínhamos, ao fim da tarde, 47 respostas.  Queremos chegar pelo menos às 200. Aqui vão, a seguir, os resultados provisórios. Os "spinolistas" levam até agora uma enorme vantagem...

A resposta deve ser dada, como habitualmente, diretamente ao alto, no canto esquerdo, do nosso blogue. Basta clicar numa das 5 hipóteses de resposta. Como sempre, podem comentar, ou mandar histórias e fotografias sobre estes homens às ordens dos quais servimos no século passado, na guerra da Guiné...

Um alfabravo caloroso.

Luís Graça e demais editores

Bettencourt Rodrigues
(1973/74)


2. INQUÉRITO "ON LINE": 
"DOS 3 ÚLTIMOS COM-CHEFES DA GUINÉ, 
AQUELE DE QUE TENHO MELHOR OPINIÃO É"...


1. Arnaldo Schulz (1964/68)  > 4 (8%)


2. António de Spínola (1968/73)  > 34 (72%)


3. Bettencourt Rodrigues (1973/74)   > 3 (6%)


4. Nenhum deles  > 4 (8%)


5. Não sei / não tenho opinião  > 2 (4%)


Respostas dadas: 47
Dias que restam para responder: 5 [até 15 de outubro, de 2015, 4ª feira, às 15h30]

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Nota do editor:

Último poste da série > 9 de outubro de 2015 > Guiné 63/74 - P15225: Inquérito "on line" (3): Total de 188 respostas: a maior parte da malta casou-se depois de vir a Guiné... Apenas uma minoria (1 em cada 5) já era casado antes da tropa (11,2%), ou casou-se antes de embarcar (4,8%) ou durante a comissão (4,2%)

Guiné 63/74 - P15226: (Ex)citações (296): O abandono de Sangonhá e Cacoca, pela CCAÇ 1621, foi a 29 de julho de 1968 (Mário Gaspar, ex-fur mil art MA, CART 1659, Gadamael e Ganturé, 1967/68)


Guiné > Regão de Tombali > c. agosto de 1968 > Sangonhá destruída. Aqui está a prova do que restou de Sangonhá. Esta foto tem Direitos de Autor. Foi tirada com uma CANON

Foto (e legenda): © Mário Gspar (2015). Todos os direitos reservados (Edição:: L.G.).



Guiné > Região de Tombali > Sangonhá, a sul de Gadamael-Porto > c. 1967/68 >  Vista aérea do destacamento e da sua pista de aviação, na altura em que estava a chegar uma coluna militar [lado esquerdo]. Foto provavelmente tirada de uma aeronave DO 27. (*)

Foto: Autor desconhecido. Álbum fotográfico Guiledje Virtual.  Cortesia de: © Pepito/ AD - Acção para o Desenvolvimento (Bissau) (2007) / Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné. Todos os direitos reservados (Edição e legendagem: L.G.).




1. Mensagem, com data de 6 do corrente, do Mário Gaspar [ex-Fur Mil At Art e Minas e Armadilhas da CART 1659, Gadamael e Ganturé, 1967/68]

Assunto - Abandono de Sangonhá e Cacoca

Camarada Carlos

Penso ser preferível indicares a data de 29JUL68, visto ser a data oficial da CCAÇ 1621.

Na História da CART 1659 pode-se ler somente:

“300 Indivíduos vindos de Sangonhá e Cacoca para Gadamael durante o mês de JUL68 onde construíram 44 moranças”. Não refere a data.

Não fica mal acrescentares as Histórias das Companhias 1620 e 1621 – paguei as cópias no AHM.


Julgo não ficar mal publicar-se este último texto e com a minha dúvida.

Tenho a certeza que no dia que abandonei a segurança foi o abandono de Sangonhá, Cacoca e a CART 1659 foi atacada.

Um abraço, Mário Vitorino Gaspar




Guiné > Mapa da província >  Escala 1/500 mil (1961) > Detalhe: Posição relativa de Sangonha e Cacoca, junto à fronteira com a Guiné-Conacri, a sudeste. Estes dois destacamentos e tabancas foram abandonados pela CCAÇ 1621 em 29/7/1968

Infogravura: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2015)


2. O abandono de Sangonhá e Cacoca, pela CCAÇ 1621, foi em 29 de julho de 1968:

Caros camaradas

Para que o assunto fique esclarecido, em relação à extinção de Sangonhá e Cacoca, dou o meu parecer. A vista de avião da Região de Tombali - Sangonhá, deve ser de 1967/68. 

A CCAÇ 1620,  comandada pelo cap mil inf  Fernando António de Magalhães Oliveira foi rendida pela CCAÇ 1621, comandada por cap mil inf  Eduardo de Oliveira e Silva e cap graduado  art Artur Olímpio Sá Nunes, e foi esta Companhia, a CCAÇ 1621, a abandonar estes aquartelamentos, portanto em 29JUL1968, foi a retirada das forças estacionadas em Sangonhá e Cacoca e consequente extinção daquele Subsector.

Em 26JUL68 numa coluna de reabastecimentos, efectuada por elementos da CART 1659 a Guileje, rebentou uma mina A/C e tivemos um ferido grave e 7 feridos ligeiros e perdemos uma GMC. Não estive na mesma,  como é de calcular, montava a tal segurança.

Sucede que na História da Unidade da CCAÇ 1621 consta o abandono a 29JUL78 – é erro de certeza – e será 29JUL68.

Tenho dúvidas, julgo ter sido em 28JUL68, mas é para esquecer. Carlos,  podes não publicar esta parte.

Estive a comandar segurança – não sei bem quantos dias – enquanto 300 civis vindos de Sangonhá e Cacoca transferiram os seus haveres para Gadamael Porto, onde construíram 44 moranças. Os restantes civis foram para Cacine e não sei se seguiram alguns para Cameconde.

Na tal data, a data de 29JUL68, quando passava por mim a última viatura de Sangonhá, perguntei ao condutor se era mesmo a última, e era. Esperei por ordens de Gadamael para abandonar a segurança. O Radiotelegrafista estava junto e aguardava por ordens. Como não as recebesse,  chamei os amigos e camaradas Furriéis Milicianos e resolvemos – já que era eu que comandava o dispositivo de segurança – que regressássemos. Assim foi, mas desconfiado, resolvi dizer ao pessoal que ao chegarmos a Gadamael, e por brincadeira:
– Fazem um batimento com o pé esquerdo e corram!

Assim sucedeu, dei mais uns passos e o Radiotelegrafista acompanhou-me, tendo o Capitão, que não devia estar a ver bem me dissesse:
– Quem lhe deu ordens para abandonar a segurança? – Respondi:
– Fui eu, se era quem comandava!
– Vai chamar os homens e regressa à segurança!

Respondi que não o faria, tinha palavra e mandara os homens embora e para o banho e jantar. Então respondeu um Capitão que não era a mesma pessoa que conhecera, eu fui decerto o primeiro elemento da CART 1659 que ele, meu amigo, conheceu:
– Então vá sozinho!

Avancei e o Radiotelegrafista acompanhou-me,  pedindo que regressasse, eu sempre em frente e o meu camarada não me deixou, perguntando o que faríamos se surgisse o PAIGC. Sem querer tinha ao meu lado um elemento de ligação com Gadamael. Aproximou-se uma viatura com uns homens comandados por um camarada e amigo Furriel Miliciano que transmitiu ter o Capitão dito para eu regressar a Gadamael. Recusei dizendo que só recebia ordens pelo rádio. No cruzamento com o destacamento de Ganturé, o Alferes Miliciano que comandava o Grupo de Combate do nosso destacamento em Ganturé, diz-me para regressar. Continuei a andar, acompanhado pelo Radiotelegrafista, mais os homens de Gadamael e Ganturé.

Então recebo ordens para ir para as origens e assim fiz. Ao chegar a Gadamael, estava o Capitão que nada disse. Fui beber as minhas sete cervejas de seis decilitros fresquinhas, tomei banho e sentei-me para jantar.

Somos atacados com fúria e desandaram. Será que não passámos por eles? Acredito que sim.

Estávamos quase no final da comissão. O amigo Capitão devia estar noutra.

Mário Vitorino Gaspar

Furriel Miliciano, Atirador e Artilharia e MA
Gadamael Porto
CART 1659 – JAN67 a OUT68

PS - Voltei a comandar militares da CART 1659, pouco tempo depois da retirada, após escutarmos em Gadamael Porto, fortes e prolongados rebentamentos em Sangonhá: ainda hoje os tenho na memória, fomos a Sangonhá. O que vimos: restavam restos de paredes, um cão e também um gato. O cão por lá ficou, o gato depois de beber leite condensado com água, morreu em Gadamael. Aqui está a prova do que restou de Sangonhá. [Vd. foto acima].




Guiné > Região de Tombali > Sangonhá > CCAÇ 1621 (1966/68) > 1968 > Picada de Sangonhá para Cacine.

A CCAÇ 1621, que esteve antes em Cufar e Cachil, terminou a sua comissão em Sangonhá[, em 29 de julho de 1968, data do abandono  do aquartelamento e tabanca. Seis meses depois, os guerrilheiros do PAIGC foram, massacrados pela FAP,  em 6 de janeiro de 1969, quando atacavam Ganturé,  apartir da antiga pista de Sangonhá. Terá havido 36 mortos, e muitos feridos.


Guiné > Região de Tombali > Sangonhá > 1968 > Mulheres de Sangonhá, ao tempo da CCAÇ 1621.



Guiné > Região de Tombali > Sangonhá > CCAÇ 1621 (1966/68) > Coluna de Sangonhá para Cacine (1) . 


Guiné > Região de Tombali > Sangonhá > CCAÇ 1621 (1966/68) > Coluna de Sangonhá para Cacine (2).





Guiné > Região de Tombali > Sangonhá > CCAÇ 1621 (1966/68) > Coluna de Sangonhá para Cacine (3): ao centro, o ex-fur mil Correia Pinto.

Depois de estar em Cufar e Cachil, a CCAÇ 1621 foi terminar a comissão em Sangonhá, que ficava a sul de Gadamael-Porto. O aquartelamento (e a tabanca) foram abandonados pelas NT em emados de 1968.

Estas fotos foram cedidas por antigos camaradas de armas ao Hugo Moura Ferreira, entre eles o ex-Fur Mil Correia Pinto. Foram-nos enviadas em julho de 2006, na sequência do convívio anual do pessoal da CCAÇ 1621, em 2 de julho de 2006.

O Hugo Moura Ferreira esteve na Guiné de novembro de 1966 a novembro de 1968, como alf mil inf, primeiro na CCAÇ 1621, em Cufar e Cachil (de novembro de 1966 a junho de 1967), e depois na CCAÇ 6, em Bedanda (de julho de 1967 a julho de 1968). O Hugo já não acompanhou a a companhia, com destino a Sangonhá, por ter sido transferido para Bedanda (CCAÇ 6 - antiga 4ª Companhia de Caçadores) . A grande maioria do pessoal desta unidade era do Minho e Trás-os-Montes. O Hugo esteve pela primeira vez com eles, no convívio de 2 de julho de 2006  (***)..

Fotos (e legendas): © Hugo Moura Ferreira (2006). Todos os direitos reservados. [Edição: LG]

3. Fichas de unidade: As páginas 360 e 361 da Resenha Histórico Militar da Guiné das Companhias:

Companhia de Caçadores N.º 1620

Identificação CCAÇ 1620

Unidade Mobilizadora: RI 1 – Amadora

Comandante: Capitão Miliciano de Infantaria Fernando António de Magalhães Oliveira Divisa: -

Partida: Embarque em l2NOV66; desembarque em 18NOV66

Regresso: Embarque em 16AGO68

Síntese da Actividade Operacional

Em 18NOV66, substituiu a CCAÇ 762 nas suas funções de segurança e protecção das instalações e das populações da área de Bissau, na dependência do BCAÇ 1876, efectuando, simultaneamente, uma instrução de adaptação operacional na região de Nhacra, de 25NOV66 a Dez66.

Em 05JAN67, rendendo, por troca, a CCAÇ 799, assumiu a responsabilidade do subsector de Cameconde, com um pelotão destacado em Cacine, ficando integrada no dispositivo e manobra do BCAÇ 1861 e depois do BART 1896.

Em 01AGO67, por rotação com a CART 1692, assumiu a responsabilidade do subsector de Sangonhá, com um pelotão destacado em Cacoca, mantendo-se no mesmo sector do BART 1896.

Em 20MAR68, por troca com a CCAÇ 1621, assumiu a responsabilidade do subsector de Cachil, ficando então integrada no dispositivo e manobra do BART 1913, tendo entretanto, cedido um Grupo de Combate para reforço de forças daquele batalhão em operações, de 22MAR68 a 27ABR68.

Em 1JUL68, por retirada das forças aquarteladas em Cachil e consequente extinção do subsector, recolheu a Bolama, onde permaneceu até ao embarque de regresso.

Observações: Tem História da Unidade (Caixa n.º70 2.ª Div./4.ª Sec. Do AHM)

Companhia de Caçadores N.º 1621

Identificação: CCAÇ 1621

Unidade Mobilizadora: RI 2 – Abrantes

Comandante: Capitão Miliciano de Infantaria Eduardo de Oliveira e Silva e Capitão Graduado Artur Olímpio de Sá Nunes

Divisa:

Partida: Embarque em 12NOV66; Desembarque em 17NOV66

Regresso: Embarque em 18AGO68.

Síntese da Actividade Operacional

Em 19NOV66, foi colocada em Cufar, a fim de efectuar a instrução de adaptação operacional com a CCAV 1484. Seguidamente assumiu, em 27NOV66, a responsabilidade do referido subsector de Cufar, em substituição daquela subunidade, ficando integrada no dispositivo e manobra do BCAÇ 1858 e depois do BART 1913.

Em 09JUL67, por rotação com a CART 1687, assumiu a responsabilidade do subsector de Cachil, no mesmo sector.

Em 20MAR68, por rotação com a CCAÇ 1620, assumiu a responsabilidade do subsector de Sangonhá, com um Pelotão destacado em Cacoca, passando a integrar o dispositivo e manobra do BART 1896 e depois do BCAÇ 2834.

Em 29JUL68 (a) por retirada das forças estacionadas em Sangonhá e Cacoca e consequente extinção daquele subsector recolheu a Bissau, a fim de aguardar o embarque de regresso

Observações: Tem História da Unidade (caixa n.º 74 – 2,ª Div/4.ª Sec do AHM)

(a) – Consta, por lapso,  "1978",  na História da Unidade.


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Notas do editor:

(*) Vd. poste de 29 de setembro de 2015> Guiné 63/74 - P15176: A guerra vista do outro lado... Explorando o Arquivo Amílcar Cabral / Casa Comum (14): Uma "visita de solidariedade" à Escola Piloto do PAIGC, em Conacri, dos "amigos suecos" Göran Palm e Beril Malmström, em novembro de 1969... Aparentemente não há qualquer relação com o episódio de Sangonhá, em 6/1/1969

Guiné 63/74 - P15225: Inquérito "on line" (3): Total de 188 respostas: a maior parte da malta casou-se depois de vir a Guiné... Apenas uma minoria (1 em cada 5) já era casado antes da tropa (11,2%), ou casou-se antes de embarcar (4,8%) ou durante a comissão (4,2%)

O nosso camarada José Augusto Ribeiro e a Adriana:
deram, o nó em 1966, nove meses depois
do regresso dele (**)
Inquérito "on line" desta semana: "SÓ ME CASEI DEPOIS DE VIR DA GUINÉ" (*)


1. Já era casado quando fui para a tropa > 21 (11,2 %)


2. Casei-me durante a tropa, antes de ir para a Guiné > 9 (4,8 %)


3. Casei-me na Guiné, por procuração > 2 (1,0 %)


4. Casei-me durante a comissão, quando fui de férias à metrópole > 6 (3,2 %)


5. Casei-me logo depois de vir da Guiné, nesse ano ou ano a seguir > 84 (44,7 %)


6. Casei-me só mais tarde, dois a cinco anos depois de vir da Guiné > 53 (28,2 %)


7. Casei-me muito mais tarde (mais de cinco depois) > 11 (5,9 %)


8. Nunca me cheguei a casar > 2 (1%)


TotaL= 188 (100%)


Total de respostas: 188
Inquérito "on line", diretamente no nosso bogue, fechado em,  7/10/2015, às 12h30

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Notas do editor:

(*) Último poste da série > 4  de outubro de  2015 > Guiné 63/74 - P15198: Inquérito "on line" (2): resultados preliminares (n=129): a tendência era para a malta se casar "logo depois de vir da Guiné, nesse ano ou ano a seguir" (48% das respostas)

(**) Vd. poste de 2 de outubro de 2015 > Guiné 63/74 - P15190: História de vida (40): Casei-me, em 31/7/1966, nove meses depois do regresso da guerra; quinze dias depois, embarquei no paquete Império, a caminho de Angola onde trabalhei como professor primário e quadro bancário (José Augusto Miranda Ribeiro, ex-fur mil, CART 566, 1963/65)


(...) Regressei da Guiné no dia 1 de novembro de 1965 e fui colocado como professor na Escola do Magistério de Coimbra.

Casei-me nove meses depois, do regresso da Guiné, no dia 31 de Julho de 1966.  Partimos para Angola 15 dias depois do casamento, no Paquete Império e fui trabalhar como professor em Sá da Bandeira, onde nasceu o meu filho João, que tem agora 48 anos, casado há já 20 anos, mas não tem descendentes.

Em 1968, saí de Sá da Bandeira e fui para Luanda, a 1100 Km, trabalhar no Banco de Angola, para dar oportunidade à minha mulher de ntirar o curso do Magistério. Teve a nota de 17 valores, que nunca ninguém ultrapassou.

Regressei de Angola em 1975 e voltei a trabalhar como professor em Condeixa, até à aposentação em 1999.(...)


Guiné 63/74 - P15224: Notas de leitura (765): “Les Luso-Africains de Sénégambie”, de Jean Boulègue, Instituto de Investigação Científica Tropical, Lisboa, 1989 (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 2 de Dezembro de 2014:

Queridos amigos,
Se há tema que mantenho intacto o seu halo de fascínio e exotismo, quando se estuda a história remota da nossa presença na Guiné são os lançados ou tangomaus, quem está interessado em conhecer mais pode navegar com sucesso no Google.
Este livro de Jean Boulègue é um importante contributo para se perceber o papel dos lançados na constituição das comunidades luso-africanas que floresceram a partir do século XVI. Este autor repertoria os locais da presença luso-africana, a sua atividade comercial, os reinos e as sociedades da Senegâmbia, o papel económico dos lançados, a originalidade da presença destes grupos luso-africanos e como se aculturaram. E, um dia, entraram em declínio quando a França e a Grã-Bretanha estabeleceram companhias majestáticas.
É uma leitura estimulante para conhecer esses aventureiros, fugitivos e presidiários que lançaram as bases das trocas comerciais nesta região da África Ocidental.

Um abraço do
Mário


Os luso-africanos da Senegâmbia

Beja Santos

Centrados na presença portuguesa do que é hoje a Guiné, esquecemos que esta presença se disseminou por uma área extensa denominada por Senegâmbia, termo ainda corrente no século XIX (veja-se a “Memória da Senegâmbia”, de Honório Pereira Barreto, texto fundamental para se compreender a Guiné do século XIX, que antecede a Convenção Luso-Francesa). Neste amplo espaço que vai das fronteiras do atual Senegal até à Serra Leoa formou-se uma população luso-africana, inicialmente constituída por fugitivos ou aventureiros portugueses, os lançados, os tangomaus, pois lançavam-se à aventura, iam até ao confim dos matos, faziam comércio, constituíam prole ou eram escravizados, tudo dependia das circunstâncias. Vinham das ilhas de Cabo Verde, podiam ser europeus não-portugueses, houve mesmo judeus entre os lançados. O livro “Les Luso-Africains de Sénégambie”, de Jean Boulègue, Instituto de Investigação Científica Tropical, Lisboa, 1989, é uma surpreendente viagem a estes luso-africanos que floresceram na Senegâmbia, fundamentalmente nos séculos XVI e XVII, e que entraram em declínio irreversível no século XVIII, restando escassas presenças a partir daí. Jean Boulègue dá-nos um relato impressivo sobre estes lançados à luz da documentação portuguesa e internacional, como se formou este meio luso-africano, refere os lugares de comércio, nomeadamente nas regiões mais meridionais, vemos igualmente cabo-verdianos misturados nesta imigração. Noutro capítulo, o autor dá-nos o contexto da Senegâmbia, os seus povos, lá estão os Malinke da Gâmbia, os Mandingas e os Wolof, os primeiros negros com quem os portugueses se encontraram.

Para quem pretenda conhecer os estados e as sociedades desta Senegâmbia, o livro dá resposta. A Senegâmbia era partilhada entre duas hegemonias: ao Norte da Gâmbia estava os Jolof, e a Sul o império Mali cujo centro se situava no vale do Niger. Nos Estados aqui existentes e que correspondiam a sociedades muito hierarquizadas, a composição era muito versátil: clãs reais, uma aristocracia de segunda linha, homens-livres, castas artesanais, escravos e os cativos da coroa. O poder régio era absoluto. Isto para dizer que os luso-africanos se inseriam na Senegâmbia na presença de poderes fortes; de uma hierarquia social bastante pronunciada; podiam manobrar facilmente graças à fraqueza do setor mercantil e tinham marginalidade cultural devido ao contexto religioso islâmico.

Vamos encontrar estes luso-africanos na Petite Côte em Rufisque, Portudal et Joal. Havia os resgastes secundários fora destas três localidades principais caso de Punto Sereno (atualmente Pointe Sarène). Mas havia outros lugares, por exemplo André Álvares de Almada menciona Palmeirinha no rio Sina. Encontramos também luso-africanos na Gâmbia, são mencionados por André Donelha na Descrição da Serra Leoa e dos rios de Guiné e de Cabo Verde. É o caso da aldeia de Cação, o porto principal do rio Gâmbia no século XVI.

Jean Boulègue destaca a importância dos luso-africanos na economia da Senegâmbia a par do comércio holandês, espanhol, francês e inglês. O monopólio português muito cedo se esbarrondou, as autoridades da região aceitaram o regime da liberdade comercial e os portugueses não tinham meios para intimidar a concorrência. Predominava o tráfico de escravos, mas os luso-africanos passaram a ter um peso económico expressivo e a interessar aos barcos que aqui aportavam, pois negociavam couros, peles de animais selvagens, cera, marfim e até plumas de avestruz. Os luso-africanos comerciavam na Alta Gâmbia, iam até Bambuk comerciar ouro, as fontes que referem estas expedições têm revelado perante a historiografia como controversas e são muitas vezes classificadas como meras hipóteses.

Como se aculturavam os luso-africanos? A língua veicular era o crioulo, em muitos casos mantiveram-se católicos e aceitavam a presença de missionários, havia também judeus. Em termos de aculturação, não era raro praticar a poligamia, o que dava trelas com os missionários. Parte importante do trabalho de Jean Boulègue tem a ver com a inserção dos luso-africanos nas sociedades da Senegâmbia. É bem claro que a sua presença em qualquer um dos Estados e a prosperidade das suas atividades pretendiam antes de mais do soberano local, havia soberanos amistosos e outros não tanto que praticavam inequivocamente a sujeição económica, impondo pesadas tributações, explorando a origem familiar do luso-africano, quando o defunto era mestiço o rei herdava tudo. O autor descreve os aldeamentos e conta uma história de ascensão social, a de Ganagoga, descrito por André Álvares de Almada como alguém que se lançou no reino do Grande Fulo e negociava marfim no rio Senegal, era um lançado de nome João Ferreira, natural do Crato a quem os naturais chamavam Ganagoga que significa na língua dos Beafares o homem que fala todas as línguas. Este reino do Grande Fulo era o Futa-Toro. Richard Rainolds que se encontrava em 1591 na Petite Côte escreveu que no rio Senegal nenhum espanhol ou português pode comerciar com a exceção do português Ganagoga que casou com a filha do rei. Resta dizer que nestes reinos fortemente estruturados da Senegâmbia as ascensões sociais como a de Ganagoga só eram possíveis no quadro dos poderes estabelecidos.

Por volta de 1700 já é reduzida a presença de portugueses nesta região, as lutas entre reinos eram muito acesas e os luso-africanos abandonaram Rufisque e Portudal, com a sua partida o comércio do couro arruinou-se completamente. Por seu lado, a Royal African Company impôs o seu monopólio no tráfico do rio Gâmbia, na segunda metade do século XVII, ainda se mantiveram intermediários luso-africanos e há referências à sua presença em toda a primeira parte do século XVIII. Jean Boulègue observa que Joal se manteve com habitantes luso-africanos até meados do século XIX.

Estes grupos de luso-africanos da Senegâmbia falam das trocas atlânticas na região, primeiramente do monopólio português, a seguir da imposição do monopólio francês e depois da preponderância do comércio esclavagista. Os lançados recebiam apoio dos reis enquanto Portugal sonhava com a sua eliminação, eram concorrência indesejável. Depois tudo mudou com as companhias majestáticas, estes empreendedores foram progressivamente desaparecendo com a clarificação da presença francesa no Senegal, da britânica na Gâmbia e da portuguesa na Guiné das praças e presídios. Os lançados ou tangomaus continuam a fascinar a historiografia das presenças coloniais nestes pontos da África Ocidental. Compreende-se porquê.
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Nota do editor

Último poste da série de 8 de outubro de 2015 > Guiné 63/74 - P15219: Notas de leitura (764): "O Quarteto de Alexandria", escrito por Lawrence Durrell, edição D. Quixote 2012 (Francisco Baptista)

Guiné 63/74 - P15223: Da Suécia com saudade (52): Em 1974, foi criticado, no parlamento, o fornecimento ao PAIGC, sob a forma de ajuda, de produtos como o tabaco e o álcool, considerados nocivos para a saúde e, em 1975, postos na "lista negra" (José Belo)


Página oficial, em inglês, do famoso Systembolaget, o monopólio estatal sueco do álcool.


1. O que é o  Systembolaget ? 

(i)  é uma empresa estatal de lojas de bebidas alcoólicas na Suécia;

(ii) tem o  monopólio da importância, distribuição e venda;

(iii)  é o único sítio onde se podem comprar bebidas com teor alcoólico superior a 3,5%.

O controlo rigoroso da venda e compra de bebidas alcoólicas, assim como a imposição de elevados impostos sobre estas bebidas, faz parte da severa política sueca para evitar os problemas causados pelo consumo exagerado de álcool.

As lojas estatais de bebidas alcoólicas – chamadas popularmente ”systemet” ou ”bolaget” – não vendem os seus produtos a: (i)  menores de 20 anos; (ii) pessoas embriagadas;  ou (iii) suspeitas de venda ilegal. 

Há uma rede nacional de 431 lojas que  vendem cerca de 2400 diferentes bebidas,  da cerveja ao  vinho, do licor à  aguardente, etc. provenientes de cerca de 40 países.  Há cerca de 500 agentes que servem as pequenas comunidades locais. estes agentes não tem "stocks", mas encomendas são feitas através deles... 

Fonte: Systembolaget. [Se quiserem saber mais, têm aqui, em inglês, o "Responsibility Report 2014"]


2. Mensagem do nosso grã-tabanqueiro José Belo, régulo da Tabanca da Lapónia...

[ foto atual à direita: José Belo, ex-alf mil inf, CCAÇ 2381 (Ingoré, Buba, Aldeia Formosa, Mampatá e Empada, 1968/70); atualmente é cap inf ref e vive na Suécia há quase 40 anos]



Data: 2 de outubro de 2015 às 12:29

Assunto: Ainda os "olhos azuis", em perspectivas da raposa e das uvas quanto ao..."estão verdes"?


Uma moção no Parlamento sueco relacionada com a ajuda ao PAIGC, em tabaco e álcool...


Em 1974, foi enviada pela Organizacäo Nacional dos Estudos Relacionados com os Produtos do Tabaco uma carta à ministra responsável pelos auxílios aos países em desenvolvimento, na qual se protestava quanto ao facto da SIDA (iniciais da agência estatal sueca de auxílios) estar a fornecer cigarros e bebidas alcoólicas ás Lojas do Povo, administradas na Guiné-Bissau pelo PAIGC.

Nesta carta foi sugerida a substituição destes produtos por outros,  não prejudiciais à saúde dos guinéus.

Esta sugestão veio a provocar vivo debate no Parlamento.

Em esclarecimentos prestados perante a Assembleia,  a então ministra Gertrud Sigurdsen salientou dois pontos:

i)  as encomendas em cigarros e bebidas alcoólicas teriam sido sugeridas nas listas de productos apresentadas pelo PAIGC;

ii)  segundo as informações disponíveis, o valor anual dos fornecimentos destes dois produtos não ultrapassava as 185 mil  coroas suecas, enquanto o auxílio ao PAIGC era de 15 milhões (!).

Foram então colocadas à ministra as seguintes perguntas finais:

(i) seria no futuro tolerado que a Suécia forneça a a título de auxílio produtos que são reconhecidos pela opinião pública como causadores de sérios riscos para a saúde?

(ii) seria esta a função do auxílio prestado?

(iii)  quais os resultados perante a opinião pública, até então tão participativa, e as consequências que daí poderiam advir para programas futuros?

Em 27 de janeiro de 1975 o parlamento do Reino Sueco decidiu que produtos prejudiciais para a saúde, como o tabaco e álcool, não poderiam  fazer parte dos fornecimentos de auxílio aos países em desenvolvimento.

O parlamento sueco. Foto enviada pelo José Belo sem indicação de fonte.
Como curiosidade, a Suécia (System Bolaget), a Finlândia (Alko), a Noruega (Vinmonopolet) e a Islândia (Vinbúö) têm um monopólio estatal de todas as bebidas alcoólicas, sendo a Suécia um dos maiores compradores mundias de produtos relacionados.

Quanto ao tabaco, a Suécia foi o primeiro país a estabelecer um monopólio estatal no século XVI.
A produção de tabaco (na Suécia!) foi iniciada em 1724 por decreto real, sendo todas as cidades obrigadas a reservar terrenos para este fim.

Por volta de 1800 o número de fábricas era superior a 100, tornando-se o tabaco uma produção importante no reino.

A última plantação de tabaco, existente na província da Skåne, foi encerrada em 1964.

Hoje, 81 municipalidades e organizações exigem uma lei parlamentar para proibir totalmente os produtos relacionados com o tabaco até ao ano de 2025.

(A propósito, a produção de fósforos também é propriedade estatal).

Um grande abraço do José Belo.




Fonte: Tor Selltröm, "A Suécia e as lutas de libertação nacional em Angola, Mocambique e Guiné-Bissau". Uppsala: Nordiska Afrikainstitutet, 2008, tradução portuguesa, p. 277" [, disponível aqui, em formato pdf, clicar no link].


Fonte: Ibidem, p. 275

3. Informação recolhida pelo José Belo sobre consumo de álcool na Suécia, em Portugal e na Guiné-Bissau


Relatório da OMS (Organização Mundial de Saúde), de 2010, publicado em 2014,  com projeções futuras, quanto a consumos de bebidas alcoólicas.

Incluem-se  pessoas com 15 anos de idade ou mais. É referido o consumo de álcool puro em litros (!), per capita e por ano: numa vasta lista de consumidores desde os maiores para os menores: Portugal estava em 6º lugar, muito à frente  da Suécia (50º) e Guiné-Bissau (124º).

Outros indicadores de consumo:

(i) Cerveja (litros per capita /ano): Portugal (30,8), Suécia (37), Guiné-Bissau (19,6);

(ii) Vinhos (litros per capita /ano): Portugal (55,5), Suécia (46,6), Guiné-Bissau (14,9);

(iii) Destilados (litros per capita /ano): Portugal (10,9), Suécia (15,1), Guiné-Bissau (22,4);

(iv) Outras bebidas alcoólicas (litros per capita /ano):  Portugal (2,8), Suécia (1,4),  Guiné -Bissau (43) 

Cervejas / cervejas de malte
Spirits / bebidas destiladas
Vinho /feito de uvas
Outros /bebibas alcoólicas feitas de arroz, sake, kumi kumi, kwete e cidra.

Aparentemente a medida Parlamentar Sueca...

Um abraço do José Belo
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Nota do editor:

Último poste da série > 1 de outubro de 2015 >   Guiné 63/74 - P15184: Da Suécia com saudade (51): Mais um detalhe da pequena história do auxílio sueco ao PAIGC: a emissão, ultrassecreta, de 40 mil selos de correio, para comemorar a independência (unilateral) em 24 de setembro de 1973 (José Belo) 

Guiné 63/74 - P15222: Parabéns a você (971): José Carmino Azevedo, ex-Soldado Condutor Auto do BCAV 2868 (Guiné, 1969/71)

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Nota do editor

Último poste da série de 7 de outubro de 2015 > Guiné 63/74 - P15210: Parabéns a você (970): Jorge Rosales, ex-Alf Mil Inf da 1.ª CCAÇ (Guiné, 1964/66)

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Guiné 63/74 - P15221: Guiné, Ir e Voltar (Virgínio Briote, ex-Alf Mil Comando) (XVI Parte): Cabral no Oio; Uma carta e Galinha à cafriela

1. Parte XVI de "Guiné, Ir e Voltar", enviado no dia 7 de Outubro de 2015, pelo nosso camarada Virgínio Briote, ex-Alf Mil da CCAV 489, Cuntima e Alf Mil Comando, CMDT do Grupo Diabólicos, Brá; 1965/67.


GUINÉ, IR E VOLTAR - XVI

Cabral no Oio 

Parece que o Amílcar Cabral está cá dentro. Há informações que referem a presença dele numa reunião de quadros na zona do Oio, dispara-lhe o capitão, no quarto em Brá, olhos na meia-noite do relógio de pulso.

Amílcar Cabral. Foto na net.

E que está a retirar, para o Senegal, pela zona de Bigene. Certezas não há, pode até já ter passado ou estar a caminho da fronteira por outro lado. De qualquer maneira vamos trabalhar com as informações que temos. Há apoio da Força Aérea, estão a ser movimentadas tropas da zona e o QG quer que um grupo vá para a fronteira.
Amanhã, às 5 em Bissalanca, nos helis. Vou estar em cima no PCA.
O Alegre já dormia, teve que se pôr a pé, meteu-se no jeep para Bissau à procura de um chefe de equipa.
Grupo acordado, material conferido, reunião, os procedimentos habituais. Pequeno-almoço na cantina às 4 e meia, grupo ao corrente dos pormenores.
Era apenas uma hipótese, não passava disso. Mas teriam que estar preparados para se encontrarem com uma larga coluna do IN a servir de escolta.

Levantaram à hora, com a Guiné a acordar, rumaram para norte. Cerca de quarenta minutos depois estavam na zona, T-6 a aparecerem, já a brilharem ao Sol, vai estar um dia quente.


Dos helis viram os trilhos, o Tenente Caldas, o piloto, a indicar-lhe com a cabeça para uma clareira, aí mesmo, ok, vamos baixar. Ouviu a comunicação com o resto da esquadrilha, preparar a formação, por cima das árvores, abrir portas, uma mão no cinto outra na arma, saltar.
Tiros dispersos e altos para os helis1, os T6, barulhentos e lentos, a picarem, fumos a sair das asas, rebentamentos, o costume, nada que não se tivesse visto antes. Reagrupados, correram a abrigar-se, vegetação rasteira, não havia muito onde.
Os T-6 referiam estar um grupo a entrar numa mata em frente, para aí a meio quilómetro, na direcção da fronteira, iam picar nessa direcção. Coluna por um trilho fora, o Sol em cima deles, rebentamentos de vários lados, todos a considerável distância.
Pouco tempo depois, um Dornier comunicava não ver sinais de movimento e que informações recentes confirmavam a presença de Amílcar Cabral no Oio, e que terá passado a fronteira durante a noite, por outro lado, para leste de Bigene. Sempre em frente, a caminho da fronteira, nem tempo tiveram para meter guias da zona, iam por ali em direcção à mata como se estivessem a descer a Avenida da Liberdade.
Boca seca, borbotos brancos de saliva nos cantos dos lábios colados, uma chuvada agora é que vinha a calhar, nem uma nuvem, o sol muito grande. Ao longe, no caminho para lá, a mata prometia-lhes sombra, pelo menos.
Valente, arranque com a sua equipa. Os cinco a andar, parecia um bailado, uma eternidade. Desapareceram na mata, uns minutos.
Um sinal deles, lá foi o resto do grupo abrigar-se do sol. Não há muito tempo tinha passado por ali gente, pelas cascas de abacaxi que viram espalhadas. Não os tinham comido todos. Cortaram o que lhes apeteceu, sentaram-se à sombra, limparam a saliva da boca com fatias cortadas com o punhal. O silêncio, um oásis!

À noite estava em Bissau. Tinha passado pelo Bento depois de jantar, as pernas doridas a pedirem descanso, mas a levarem-no para a Sé, rua acima, luzes das janelas a apagarem-se.
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Nota
1 - Esta manhã, enquanto bombardeavam Djagali, os Portugueses mandaram uns 50 homens de helicóptero até à zona da fronteira. Foram interceptados por combatentes do PAIGC; retrocederam, depois de algumas horas de combate, deixando vários mortos no terreno. Quando chegámos, a estrada estava livre”. “Com os rebeldes da Guiné”, por Gérard Chaliand, no “Le Nouvel Observateur”, 13/07/66. Gérard Chaliand, amigo do Cabral, a relatar o que não aconteceu.

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Uma carta2

Desenrasque-se.
Nas mãos tinha a carta que o capitão acabara de lhe entregar, uma carta dirigida ao Ministro do Exército.

Exmo. Senhor Ministro de Exército 

Excelência,

Venho respeitosamente dirigir-me a Vossa Excelência expondo-lhe o seguinte. 
Sou mãe do 2.º Sargento Mil. M. A., morto em Angola, no Quitexe, em 23 de Abril de 1963. Após 22 meses (?) ao serviço da Pátria, o meu filho, que era a luz dos meus olhos, lá se ficou. 
Hoje tive conhecimento que outro meu filho, o 1.º Cabo Mil C. A., acaba de ser mobilizado para a Guiné, para onde parte no dia 9 deste mês. 
Sou pobre, se não ia pessoalmente, de joelhos, pedir a Vossa Excelência que tenha pena de mim. Com a morte do meu filho nunca mais fui a mesma. Se há pessoas desamparadas da sorte, uma delas sou eu, perdi completamente o gosto por viver. 
Não choro os meus filhos à Pátria, choro sim a sua morte quando vejo companheiros deles, depois de apurados, descerem aos hospitais militares e ficarem livres. Não ensino procedimentos destes aos meus filhos, custar-me-ia muito vê-los tomar atitudes idênticas. 
Mas apelo ao coração, que presumo ser bom, de Vossa Excelência, que certamente também é Pai. A metrópole é também a nossa Pátria e o meu filho ficaria aqui a cumprir o tempo necessário e não mo mandaria para longe entrar em combates. Há seis anos, o meu marido teve uma trombose. Vive, mas é um doente, e com tudo isto vejo agravar o seu sofrimento. 
Não me convenço que meu filho vá para tão longe. E, pelos seus filhos, Senhor Ministro, peço-lhe que mo deixe ficar. Vossa Excelência terá a certeza que eu terei mais meia dúzia de anos de vida, nunca mais de alegria, mas para melhor poder amparar o meu marido e meus filhos, para os quais sempre tenho vivido. 
Julgo bater à porta de Deus e a Ele fico a pedir para que Vossa Excelência e Família tenham uma vida cheia de saúde e felicidade. 
Respeitosamente de Vossa Excelência 
4 de Fevereiro de 1965.

Nessa mesma manhã encontrou-se com o Furriel. Começaram por falar da equipa, do estado físico e anímico dos homens, das famílias e aí, perguntou-lhe como vivia a mulher as vésperas das saídas para o mato, uma vez que estava há algum tempo em Bissau com uma filha recém-nascida.
Fica muito ansiosa, fica triste, claro. Mói-me o juízo a toda a hora, já não posso ouvir mais, sempre com a mesma ladainha, que o Capitão Saint-Clair do QG, que ainda é nosso parente, também é de opinião que isto dos comandos não é vida para um tipo casado, ainda para mais com uma filha. E já lhe disse que me arranja lugar na repartição dele.
O que penso disto, meu alferes? É complicado. São capazes de ter alguma razão. E eu desde que ela chegou com a miúda, não sei, custa-me um bocado, às vezes. Não era surpresa, há algum tempo que se notava. Desde a vinda da mulher, o Furriel começou a esmorecer, mal se dera no princípio, agora o entusiasmo, via-se, não era o mesmo.
Faça o requerimento, não precisa de falar de razões, simplesmente pede para sair, por motivos pessoais, mais nada, pena também, que é que se pode fazer?

Com dois chefes de equipa, Sarg. Mário Valente e Furriel C. Azevedo, em Brá

Entraram os dois ao mesmo tempo para os comandos como instruendos, foram depois instrutores do grupo, participaram em todas as operações até àquela data e tinha grande respeito pela intrepidez e sentido de camaradagem daquele furriel.
Estava a perder um bom chefe de equipa, de muita confiança, como se provou naquele infeliz caso passado em Barro. Viera a saber mais tarde pelo Sargento Valente, que o Bacar Jassi, lá na língua dele, terá pedido ao Céu, que houvesse fogo naquela ida a Sano, que a primeira rajada iria para as costas do alferes, que o tinha mandado atar e prender junto com turras. Mamadú Jaló3 terá ouvido o desabafo, falou ao ouvido do furriel Azevedo, que por sua vez comunicou aos outros chefes de equipa, todos de olho no Bacar Jassi, da ida até ao regresso a Barro.

A morte do Silva, da equipa do furriel, em Jabadá, a única baixa definitiva até então, abalara-os, pela morte do camarada, claro, mas também pela forma como ocorrera, a equipa a andar para a frente e o Silva a ficar para trás. Compreendera as razões, o fogo cruzado, directo neles, a equipa com pressa de atingir a orla da mata pelo menos, mas deixar o Silva para trás, custava-lhe entender isso.
Se até no curso se tinham escolhido uns aos outros, por tantas afinidades, sempre juntos em parelhas, para o cinema, para o café, para o Cupilom, para todo o lado, logo ali que deveriam estar mais juntos que nunca, e quando era mesmo preciso, o Silva ficara para trás.

Um jantar de despedida com os chefes de equipa do grupo no Fonseca4 marcou o fim da comissão do furriel nos comandos depois da despedida oficial em Brá, aquela tarde. No meio do frango assado e Casal Garcia, desmancharam-se a rir, quando alguém contou uma história de há meses. E, sabe-se como é, contar uma história às vezes é como andar à procura de material dentro dos acampamentos inimigos. Quando menos se conta, em vez de uma granada à mostra sai uma ou duas dúzias atrás, presas numa corda.
A insensatez dos vinte e poucos anos que todos tinham, a lotaria que lhes tinha saído na roleta que era a guerra que estavam a viver e as armas que tinham nas mãos davam-lhes a sensação de impunidade que valia bem desafiar todos os regulamentos. Não eram todos os que assim pensavam, claro.
Acrescentava-se o desafio que o Saraiva lhes tinha incutido no curso. Que podiam fazer tudo, mesmo o que não fosse permitido. Desde que não se deixassem apanhar.
Então, um deles, provavelmente farto de dormir no Cupilom, terá tido a ideia de levar para o aquartelamento de Brá uma gentil morena. A porta de armas de Brá era guardada pelo Batalhão residente, logo não parecia ser uma tarefa muito fácil meter lá dentro a jovem. Por isso mesmo, deve ter pensado o aventureiro.
Convencida a jovem, enfiou-lhe um camuflado, meteu-a no jeep no banco ao lado do condutor e ele próprio carregou no botão, arrancou do Cupilom directo a Brá e à porta de armas. Só os dois, sem testemunhas. Nada difícil, afinal, deve ter pensado, quando viu a cancela a fechar-se atrás deles. Depois, seguiu-se a manobra de estacionar mesmo em frente à messe de oficiais, sacou a jovem do jeep, entrou no edifício dos quartos e meteu-se com ela no quarto. O que também não lhe pareceu ter sido complicado, depois de ter fechado à chave a porta do quarto que repartia com outro camarada, ausente naqueles dias.
Os dois na cama, a trocarem umas impressões, e ao imprevidente militar aconteceu o que não esperava. Batidas na porta acompanhadas da voz do capitão a chamar pelo seu nome. Seguiu-se o silêncio que seria de esperar, que sem dificuldade se imagina, ao mesmo tempo que não davam sinais de abrandamento os toques impertinentes na porta e o seu nome na boca do comandante. Este, minutos sem resposta, teve o bom senso que faltava a outros em situações bem menos graves. Foi-se embora.
No dia seguinte, na reunião que era costume começar as actividades do dia, os alferes da Companhia ouviram o capitão dizer, baixo mas em bom som, que se alguma vez encontrasse alguém, fosse quem fosse, com uma mulher no quarto, lhe aplicava o máximo da sua competência e o punha na rua. Isto tudo, de seguida, sem largar os olhos do presumível infractor. E, depois do silêncio de todos, perguntou a cada um se tinha entendido? Os não implicados olharam uns para os outros sem perceberem a que propósito o capitão abordara assunto que lhes pareceu tão despropositado.

Despediram-se na esplanada do Bento com um abraço, uma amizade como só aqui. O furriel para o ninho, ele não sabia para onde. Uma volta pelo Bissau velho como havia quem lhe chamasse, uma sensação de desencanto a desenhar-se, tão cedo ainda e sem sono.
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Notas
2 - Esta carta foi enviada para o Ministério do Exército em princípios de 1965 e reencaminhada pela 1.ª Rep/QG, em Abril ou Maio de 1966, para a Companhia de Comandos.
3 - Morto mais tarde no Morés
4 - Restaurante também conhecido por Solar dos 10, na altura um dos mais conhecidos restaurantes de Bissau

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Galinha à cafriela5

"Temos que ser nós a pô-los daqui para fora, esta terra é nossa, não nos faltam apoios, é todo o mundo a dar-nos razão! Desde meados deste século, os colonialistas têm sido corridos de todo o lado, ficaram os portugueses e por quê, camaradas? Porque de todos os impérios, o deles é o mais atrasado, não só economicamente como também em termos culturais. Uma taxa de alfabetização baixíssima, um país inculto, atrasado, governado por um grupo de lacaios em nome de um ditador e dos interesses de meia dúzia de famílias." 
"Por isso dizemos e insistimos, somos aliados do povo português na mesma luta contra o colonialismo e contra o fascismo. Mas esta situação, os camaradas não duvidem, está a mudar e ainda vai ser no nosso tempo e vamos ser nós que vamos acabar com o colonialismo na nossa terra. Temos amigos em todo o mundo, URSS, Suécia, China, Noruega, Cuba, toda a África, toda a Ásia, todo o mundo, amigos que nos ajudam com armas, comida, medicamentos, técnicos. 
Mas temos que ser nós, camaradas, nós é que temos que fazer o trabalho aqui na Guiné e em Cabo Verde, de os pôr daqui para fora!"6

Uma rua de Bissau. Foto do blogue Luís Graça e Camaradas da Guiné. Com a vénia que é devida.

Aqueles tempos calmos, com tempo para tudo, o sossego das tardes de Bissau estavam cada vez mais longe. Depois dos incidentes do Pijiguiti a vida nunca mais foi a mesma. Interrogatórios, Pide, tropa a chegar todos os dias, incidentes em todo o lado, prisões durante a noite, a vida cada vez mais difícil.
Benilde, a mãe de Teresa, pensava em como era tranquila a vida em S. Vicente, difícil a subsistência, mas o ambiente era outro, como era bom se o Vasco conseguisse ser colocado em Cabo Verde, na Praia ou no Mindelo.
Teresa estava com 19 anos, vivia com a ansiedade própria da idade o que ouvia contar em casa e entre os amigos, as gloriosas lutas que se travavam nas matas contra a tropa colonialista, as tentativas de alfabetização das populações, nas escolas dispersas pelo mato, os progressos pela emancipação, o caminho irreversível para a independência. O relacionamento dela com aquele militar era motivo de reprovação dos amigos e de desconfiança do próprio pai.
Coisas separadas, pai, não têm nada que ver, sei tomar conta de mim, já não sou menina.

A mamã contou ao papá do nosso encontro. A princípio ficou calado, continuou a comer, mas não ficou de muito boa cara, não. No fim de jantar, então falou, que ainda sou muito nova, que tenho muito tempo à frente. É mesmo a sério, virado para mim?
Quando queres vir jantar a casa? Quando pode ser? Não pode ser amanhã? Fica para sábado então, posso dizer à mamã?
Mas espera, Teresa, jantar?
Então, não ficou combinado, apresentar-te ao meu pai?
Apresentar-me ao teu pai? Combinado com quem?
Jantar só, que importância tem?

Teresa no varandim, com aqueles olhos. A mãe como se fosse para a festa, música de morna, a sala grande, sente-se, esteja à vontade, a Tesa faz-lhe companhia, vou ver as coisas, sumo de abacaxi com gelo, quer?
Sentia-se fraco, não lhe apetecia nada estar ali, bem melhor não ter vindo. Os dois sentados, ele a passar a vista pelo salão, uma mesa ao canto, fotos antigas de outras terras, rostos desconhecidos, gazelas de pau-preto, cadeiras de palhinha, a luz suave filtrada pelas cortinas, o que estou eu aqui a fazer e os pais a entrar.
Ora viva, então, como está, ah? Igualmente muito prazer, então?
Sorriso sem palavras, cumprimentos, quer beber alguma coisa fresca, ah já está servido, então?
Então nada, desta vez apeteceu-lhe mesmo responder.
Calor, hem, esta humidade não deixa a gente respirar, então? Vocês lá em Portugal tem um clima bem mais ameno, mais temperado, mas muito frio no Inverno, não? Acho que nunca prepararam as vossas casas para o frio, se calhar porque se habituaram a estarem lá só de passagem, não é, no regresso dos Brasis por onde andaram, só paravam em Lisboa para descarregarem o ouro, a prata, as especiarias, não é, gargalhada que lhe pareceu trocista.
Assim! O pai da Teresa além de trabalhar nos escritórios de uma grande empresa "colonialista" era também um humorista.
Nunca pensei nesse assunto.
Na sua idade também pensava noutras coisas, não é, a Mabilde e uma ajudante de travessas na mão, cadeiras a afastarem-se, é melhor sentarmo-nos, então. Galinha à cafriela, saladas, abacaxi, bananas, e para beber, cerveja, Casal Garcia, tinto do Dão, o que quer beber?
Então? De onde é o senhor, o que faz na vida civil, como vai a metrópole, o que dizem lá desta guerra, o Salazar está para durar? Não vai durar a vida toda não é, vem outro a seguir, já deve estar escolhido, claro, quem será, quem lhe parece que seja?
Que não estava a par, não fazia ideia.
Quando lá estive aqui há tempos, a estudantada, gente da sua idade, não é, andava alvoroçada, falava-se da guarda a cavalo em Lisboa, espancamentos em quem passava, lojas trancadas.
Sabe, isto está um problema, vai ser cada vez mais difícil continuar nesta situação, na vossa metrópole e aqui, a tendência é só para agravar… a URSS, a China, a América veja lá… a Suécia, a Noruega, o mundo todo, menos a Espanha do Franco, o governo português tem as portas fechadas em quase todos os países, agora até o Brasil! Mas, o povo português faz parte da grande família africana, dos guineenses e cabo-verdianos, disso nunca nos podemos esquecer. Partilhamos a história há mais de cinco séculos!
Agora, esta guerra está a ser suportada por vós, pela vossa juventude, quando regressam deixaram cá o melhor das vossas vidas, muitos até deixam bocados deles e outros nem regressam, não é?
A mãe Benilde não parava quieta, a galinha não passava, atravessada na garganta, não havia maneira de ir para baixo, sumo na mão, a da Teresa, a acalmá-lo, no joelho por baixo da mesa.
Que estava a par da agitação estudantil, que deveriam ter alguns motivos, mais outros da idade, adiante se veria.
E então, a Tesa o que é para si? A Tesa é muito boa menina, sabe? Um bocado senhora do seu nariz, às vezes teimosa demais, muito boa estudante, até agora.
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Notas
5 - Galinha do campo com um molho ácido e cebolada
6 - Amílcar Cabral, numa das emissões da Rádio do PAIGC, Conacri

(Continua)
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Nota do editor

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