quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Guiné 63/74 - P15215: Fotos à procura de... uma legenda (63): Bajudas de Bambadinca, fevereiro de 1970: um "grupo de idade" da etnia fula num dia de festa tradicional (Cherno Baldé, Bissau)



Guiné > Zona leste > Setor L1 > Bambadinca > BCAÇ 2852 (1968/70) > Pel Rec Daimler 2046 (1968/1970) > Fevereiro de 1970 > "Eu com um belo conjunto de bajudas junto à capela"..

Foto (e legenda): © Jaime Machado (2015). Todos os direitos reservados. [Edição: LG]



1. Mensagem de hoje do nosso amigo e irmãozinho Cherno Baldé, que vive hoje em Bissau, respondendo pronta e amavelmente a um pedido do editor LG para completar a legenda da foto (*):

Caro amigo Luis Graça,

Antes de mais aproveito para felicitar o Jaime  Machado (ex-alferes), pelas imagens do tempo que passou (e bem) em Bambadinca (*), o que mostra o seu elevado nível de cultura, já naquela época, muito acima da média daquilo a que a tropa em geral nos tinha habituado.

E em jeito de resposta àquestão do Luís Graça (**), na minha opinião, acho que as imagens retratam um "grupo de idade" da etnia fula num dia de festa tradicional. Por força da islamização, as festas desta etnia são quase todas de natureza religiosa. [Em inglês, "age set",conceito socioantropológico; vd. Enciclopaedia Britannica]

A postura e o olhar algo envergonhados, a indumentária, os penteados e os enfeites na cabeça e no corpo, dizem isso mesmo.

Ainda seriam solteiras mas, nesta idade estariam todas comprometidas (com casamentos arranjados entre os pais) e aproveitam os últimos meses de liberdade antes do casamento.

A presença de elementos ou símbolos estranhos usados como adornos pode ser explicada por razões de urbanização e da crescente mistura/influência de outros hábitos e culturas em Bambadinca (centro urbano e importante elo de ligação ao resto do país) e arredores, devido à guerra e ao movimento das populações.

Um abraço amigo,

Cherno Baldé

PS - A expressao "islamizado/a"  não é  correcta, seria mais correcto dizer "islâmico/a",  pois já nasceram dentro de uma familia, meio e cultura islâmicas, mesmo que superficial. Islamizados seriam os seus bisavos que, de facto foram coagidos (de forma voluntária ou não) a uma conversão, muitas vezes forçaada, nos sec. XVIII/XIX.

6 comentários:

Luís Graça disse...

Cherno: Tu és um homem sábio, que sabe fazer a ponte entre duas culturas, duas religiões, dois mundos, dos tempos... És, incontestavelmente, um amigo muito querido da Tabanca Grande... Sempre te tratei por "amigo e irmãozinho", o que não se deve entender por um tratamento de tipo paternalista... Para mim, és um igual entre iguais. E a tua observação sobre a incorreção, mais conceptual do que semântica, de termos como "islamização" e "islamizado", aplicados à história e ao(s) povo(s) da Guiné-Bissau, é pertinente, justa, oportuna... Tu e a tua família não são, de facto, "islamizados", mas pura e simplesmente "islâmicos", ou "muçulmanos"... Os teus antepassados foram, esses, sim, "islamizados", como os meus foram "cristianizados": tenho uma costela judia e moura, como boa parte da população da península ibérica... Todos temos pai e mãe que não escolhemos e nascemos num "chão" que também não escolhemos...

Há dias, um jornalista do Expresso, profundo conhecedor da tua terra e da sua história, o José Luís Castanheira, perguntava à Carmen Pereira, em entrevista (ao semanário Expresso) a propósito dos 40 anos de independência, qual era a "sua etnia"... Essa grande senhora guineense respondeu, com toda a elegãncia e sabedoria socrátrica: "Sou guineense"...

Está na altura de deixar de dividir os guineenses por "grupos étnicos"... A Guiné-Bissau, felizmente, já não é um simples "puzzle" de grupos étnico-linguísticos... A identidade nacional constroi-se com mas também contra a "etnologia colonial", de que o António Carreira terá sido o expoente máximo...

Boa saúde, bom trabalho. Luís

Antº Rosinha disse...


Luís Graça, o teu esforço em tentar desvendar os segredos africanos enriquece imenso este teu grande projecto, este blogsfora.

Mas só terás melhor sucesso se aprender(mos) alguns idiomas, só o português ou o crioulo não é suficiente, nem para nós como não seria para o próprio Amílcar Cabral.

Essa observação que fazes sobre a resposta de Carmen Pereira ao Castanheira "sou guineense", é uma observação de uma perspicácia que só mesmo de ti, e destes anos todos a olharmos para a Guiné.

Mas claro que a mim não me podia passar desapercebida e porquê? porque pura e simplesmente essa resposta de Carmen Pereira, é uma resposta secular típica de caboverdeanos não propriamente de guineenses, que ouvi muitas vezes a colegas meus.

Qual é a tua raça? sou caboverdeano; qual é a tua ilha? de são Vicente mas caboverdeano;

"Em Caboverde não há pretos nem brancos somos caboverdeanos".

Simplesmente não é uma linguagem popular guineense, longe disso.

Luís, já vemos a Televisão de Angola, em Umbundo, Quimbundo, Bacongo e penso que mais uma ou duas linguas.

Talvez um dia ouvindo muitos guineenses como o Cherno a gente venha a compreender melhor aquilo que vimos e pelo que passámos.

Para terminar e a propósito de cristianizar, islamizar, e depois de ver e foto falante das meninas de Bafatá vestidas para a uma cerimónia, no anos 60/70, havia em Angola regiões onde o vestuário das crianças ainda era pele de gazela quando da independência de Angola em 1975.

E nunca tinha havido ali a mais pequena influência ou visita estrangeira, antes de colegas meus e eu lá chegarmos a pé de surpresa.

E isso tornou-me um colonialista genuinamente contra qualquer colonização.

Conviver sim, colonizar nunca.

De vez em quando relembro africanos genuinos, quer seja negativa como positivamente, desde Mandela a Mugabe.

"Mugabe ante la Asamblea de la ONU: '¡No somos gays! No nos impongan valores'"

Esta dos valores, é que é complicado!

Cumprimentos

Vasco Pires disse...

Boa noite Luis,
Cordiais saudações.

A respota da Sra. Carmen, é uma resposta redutora,política, que esconde uma herança cultural centenária, de complexas sociedades Africanas. A "fúria "dos negócios escravocratas,"atropelou"uma sofisticada organização social.
Forte abraço
VP

Cherno Baldé disse...

Caro amigo e irmão Luis Graça,

Obrigado pelos rasgados elogios que nao mereço de todo, o grande sábio, o Homem grande, Mago dos tempos modernos chama-se Luis Graça, escuta o que diz o A. Rosinha.
O Rosinha e o Icone do nosso Blogosfora, o depositário da sabedoria universal, faz bem ouvi-lo e tentar acompanha-lo mesmo se poucos de nós o compreendemos.

A resposta da D. Carmem é mais politica que realista, pois dentro do PAIGC, sendo todos Guineenses ou Caboverdeanos, sempre estiveram divididos em sub-grupos chamados de sensibilidades politicas que no fundo reflectem realidades antigas, sociais, tribais ou religiosas, ainda não completamente ultrapassadas nas consciencias dos politicos que querem governor este pais de “Guineenses”.

Nesta logica, a Carmen Pereira e outras mulheres influentes do partido, neste momento, fazem parte do pequeno mas influente grupo dos cristãos (filhos das pracas de Bissau, Bolama, Cacheu ou Farim) que apoiou e conduziu o jovem Domingos Simões Pereira ao topo do partido em detrimento do Braima Camara (Ba Quecuto), muçulmano e de origens mais humildes, mesmo se o pai é antigo combatente e ele próprio menino do partido.

Um grande abraço,

Cherno Baldé

Anónimo disse...

Eram todas Fulas e minhas Amigas....J.Cabral

Anónimo disse...

Eram todas Fulas e minhas Amigas....J.Cabral