terça-feira, 6 de outubro de 2015

Guiné 63/74 - P15206: Lembrete (13): Todos os dias, de 2ª a 6ª feira, na Antena Um, às 14h55, o programa de António Luís Marinho, "Canções da Guerra"... Destaque para "Lágrima da preta": poema de António Gedeão (1961), musicado por José Niza e interpretado por Adriano Correia de Oliveira (1970)



Portal da RTP > "Canções da Guerra": programa de rádio, passa todo os dias, de 2ª a 6ª na Antena Um, às 14h55. Os episódios mais antigos e os mais recentes podem aqui ser vistos.

 O nosso blogue noticiou o arranque do programa e tem dado sugestões à equipa de produção e realização (*). Os ex-combatentes da guerra colonial na Guiné também têm o seu "cancioneiro", os seus versos e canções têm vindo a ser recolhidos ao longo dos anos pelo nosso blogue: aqui vão alguns dos nossos marcadores/descritores:

cancioneiro (63)
Cancioneiro de Bambadinca (3)
cancioneiro de Bedanda (2)
cancioneiro de Canjadude (2)
cancioneiro de Gadamael (1)
Cancioneiro de Gandembel (10)
Cancioneiro de Mampatá (4)
Cancioneiro do Niassa (2)
canção de Coimbra (1)
Canções do Niassa (4)
fado (37)
Fado da Guiné (7)
música (86)
música da tropa (1) [recordada hoje por guineenses, homens e mulheres]


Mas há mais cancioneiros (dispersos): Xime, Mansoa, Cufar, Bafatá, Buba, Empada... São alguns que me lembro de cor, e que têm recolhas de letras...

Um dos nossos camaradas, que está a colaborar com o programa "Canções da Guerra", é o José Martins com uma canção do Cancioneiro de Canjadude, que era uma paródia à canção "Óculos de Sol", interpretada por Natércia Barreto (**)...

Está na altura de ir, novamente, rapar o baú das nossas memórias (neste caso, poéticas e musicais)... Vamos criar uma nova série, "O Nosso Cancioneiro", para reunir todos estes materiais... Algumas das letras não eram musicadas ou perdeu-se a música... LG


1. Sinopse > “CANÇÕES DA GUERRA”

A Antena 1 apresenta "As Canções da Guerra".

A guerra colonial, tendo em conta o seu enorme impacto social, foi motivo de canções.

Desde o hino “Angola é Nossa”, criado após o início da rebelião em Angola, que levou a uma guerra que durou 14 anos.

As canções ligadas à guerra, falam da vida dos soldados, da saudade da terra, ou criticam de forma mais dissimulada ou mais directa, a própria guerra.

De 2ª a 6ª feira, às 14h55 na Antena1, ou nesta página, escute as canções da guerra colonial, enquadradas por uma história. Que pode ser a da própria canção, do seu autor ou de um episódio que com ela esteja relacionado.


Um programa: António Luís Marinho
Produção: Joana Jorge



2. Lágrima da preta, de António Gedeao (letra) e José Niza (música). Intrepatação de Adriano Correia de Oliveira.

Dos episódios mais recentes, permito-.me destacar este poema do António Gedeão, retirado do seu livro livro Máquina de Fogo (1961).

A "Lágrima de Preta" vai ser musicada  por José Niza, e cantada por Adriano Correia de Oliveira, em 1970 (, incluída no seu álbum Cantaremos). 

"O poema é um magnífico hino à igualdade de todas as raças. Apesar disso, ou talvez por causa disso, a censura proibiu a canção.", diz o realizador do programa, António Luís Marinho,

Aqui fica, a seguir,  o poema,que não me lembro de ter ouvido no meu tempo na Guiné: compreensivelmente ainda não fazia parte do reportório dos nossos "baladeiros" no mato... Popularizou-se depois do meu regresso, em março de 1971.

Nas noites de insónia, música e  álcool de Bambadinca, o que estava em voga (em 1969/71) era um outro poema do António Gedeão, a "Pedra Filosofal", cuja letra tinha para alguns de nós um segundo sentido... O último verso ( "ELES" não sabem nem sonham"...)  era cantado a plenos pulmões para "ELES", ali ao lado, ouvirem: o comando de batalhão, os oficiais superiores (tanto do BCAÇ 2852 como sobretudo do BART 2917)...

Para quem a quiser recordar, aqui está, disponível o poema no portal do CITI. É um poema de 1956, do livro Movimento Perpétuo

A interpretação de Manuel Freire ,no progama Zip-Zip, tornou-se "viral", como diríamos hoje... Espero que o Luís Marinho a inclua na sua seleção de "Canções da Guerra"... Muita malta sabia a  letra (e a música) de cor!... (LG). (***)


Lágrima de preta,  de Anónio Gedeão (1961)


Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.

Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.

Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.

Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.

Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:

Nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.


(Cortesia do portal CITI - Centro de Investigação para Tecnologias Interativas)

____________________

Notas do editor:

(*) Vd. poste de 18 de setembro de 2015 > Guiné 63/74 - P15127: Agenda cultural (424): "Canções da Guerra", um programa da Antena 1, todos os dias, a partir de 14 do corrente, de 2ª a 6ª feira, às 10h45, 14h55 e 20h55, com António Luís Marinho...

(**) Vd. poste de 28 de junho de 2009 > Guiné 63/74 - P4595: Cancioneiro de Canjadude (CCAÇ 5, Gatos Pretos) (2): Binóculos de Sol (José Martins)

Vd. também poste de 28 de fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - P576: Cancioneiro de Canjadude (CCAÇ 5, Gatos Pretos)

5 comentários:

Luís Graça disse...

Mensagem enviada hoje pelo correio interno da Tabanca Grande:

Amigos/as e camaradas:

É apenas um lembrete... Este programa radiofónico, realizado pelo nosso conhecido António Luís Marinho, é já ou poder vir a ser uma belíssima caixinha de surpresas...

Já disse ao Luís Marinho que o nosso blogue tem a obrigação de lhe dar todo o apoio, não só a nível da divulgação como do envio de materiais...

Na realidade, há um valioso "Cancioneiro da Guiné", embora muito menos conhecido do que o "Cancioneiro do Niassa"... É um cancioneiro que está muito disperso... Temos vindo a recolhê-lo... Do Xime a Gandembel, de Gadamael a Mansoa, de Empada a Canjadude, de Bambadinca a Cufar, a malta procurava divertir-se, passar o tempo e, quase sempre, exorcisar os fantasmas da fome, do medo e da morte... Eram as nossas noitadas de insónia, álcool e música que nos ajudaram também a sobreviver naquele universo concentracionário, fechado, que eram os nossos "bu...rakos".

Temos vindo a recolher canções do nosso tempo de guerra, nalguns casos que só chegaram até nós de memória... Outras perderam-se... Em todo lado havia poetas e músicos (fadistas, baladeiros, instrumentistas...).

Há paródias a letras conhecidas, e há versos que parodiam as duras condições da vida da tropa na Guiné, durante a guerra colonial... Para além das músicas que se perderam, feitas de propósitos para certos eventos ou ocasiões (um carnaval, um natal, um aniversário, uma efeméride...), há também letras que nunca foram musicadas...

O nosso servidor, o Blogger, não é lá muito bom, é limitado, em matéria de pesquisa. É preferível usar o Google (usando um descritor ou expressão com aspas): por exemplo, "cancioneiro do Xime"... Os nossos descritores, por outro lado, não esgotam o tema, e aparecem no máximo escassas dezenas de postes listados pelo Blogger...

Um dos nossos camaradas que está a colaborar com o programa "Canções da Guerra", é o José Martins com uma canção do Cancioneiro de Canjadude, que era uma paródia à canção "Óculos de Sol", interpretada por Natércia Barreto (**)...

Está na altura de ir, novamente, rapar o baú das nossas memórias, neste caso poéticas e musicais... Daqui a uns anos já não estaremos cá para (ou em condições de) contribuir para esta recolha...

Este programa radiofónico pode dar maior visibilidade a essas canções esquecidas que cantávamos e ouvíamos nos nossos aquartelamentos e destacamentos (leia-se: Bu...rakos)-

Vamos criar, no nosso blogue, uma nova série, "O Nosso Cancionerio", para reunir todos estes materiais que andam dispersos, e incluir outros que nos hão de chegar à caixa de correio...

Mais uma vez, obrigado(s) pela vossa generosidade e camaradagem. Luís Graça e demais editores.

Anónimo disse...

Luis Marinho
6 out 2015 16:16

Caro Luis Graça,

Esta tarefa tem sido muito interessante e, sobretudo, gratificante.

Contactei recentemente, através do seu blog, o ex-furriel José Martins que me enviou duas gravações da altura, com o hino dos Gatos Pretos e uma canção feita com a música dos “Óculos de sol”.

É um documento fantástico que estamos agora a tratar no nosso departamento de sonoplastia para conseguir emitir na rádio.

A sua colaboração tem sido muito importante e mais uma vez lhe agradeço.

Um abraço,

Luis Marinho

Luís Graça disse...

OK, Luís, obrigado também pelo incentivo...

Um dos nossos problemas é que não temos gravações de som (muito menos de som e imagem), o que vai limitar em muito o interesse do nosso "material" para um programa radiofónico como o vosso...

Não é o caso do "Cancioneiro do Niassa" que foi divulgado pela rádio Metangula, no Niassa, em 1970...embora os registos sejam fracos...

http://www.joraga.net/cancioneirodoniassa/pags/003despedida.htm

De qualquer modo, estaremos sempre atentos e prontos a colaborar...

Ab. Luis Graça

Joao Sillva disse...

"Lá em cima anda o héli-canhão
Cá em abaixo anda a 12, anda o Xime
Juntaram-se os 3 numa operação lá para os lados do Poidom
Correu tudo que nem um mimo

Major, meu rico major ..."

Em 1973 era assim que se cantava em Bambadinca na 12

Não sei quem era o pai da letra. Nem sei se a recordo toda e corretamente.

Não do cancioneiro popular mas era da 12

joao silva furriel mil Ccaç 12, 1973

Luís Graça disse...

João Silva, meu camarada da 3ª geração da CCAÇ 12:

vê se consegues recuperar essa letra... Vamos fazer aqui um apelo à rapaziada da CCAÇ 12 desse tempo... Eram poucos, os metropolitanos, nessa altura... E menos ainda serão os que nos leem hoje... Luis