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segunda-feira, 16 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27826: Notas de leitura (1905): "Amílcar Cabral O Africano que Abalou o Império", por José Alvarez, Âncora Editora, 2025 (6) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 19 de Setembro de 2025:

Queridos amigos,
Faço juz ao intenso trabalho de pesquisa e leitura a que José Alvarez procedeu. A grandiosidade de Cabral supera o desastre que se seguiu, revela que aquela geração de políticos e guerrilheiros se revelou incapaz de pôr em prática um plano patriótico de desenvolvimento e de democracia participativa, mesmo quando esta, na ótica de Cabral, se aparentava a um tipo de democracia vigiada por uma elite dominante. 

Ele advertiu que a chegada a Bissau e o acomodamento da direção do PAIGC à atmosfera existente traria corrupção, vigarices, apadrinhamentos, uma completa adulteração das ajudas internacionais, como aconteceu. 

É expectável que este trabalho de José Alvarez suscite novos avanços na investigação e que esta não se confine exclusivamente tanto à luta nascionalista como aos acontecimentos da guerra colonial. Já passou o centenário de nascimento deste líder revolucionário, se podemos lamentar que poucas obras de estofo sobre Cabral foram editadas na efeméride, é de crer que este impulso dado por uma biografia romanceada abra caminho a novos olhares sobre o fundador da Guiné-Bissau.

Abraço do
Mário



O primeiro romance histórico sobre a vida e obra de Amílcar Cabral – 6

Mário Beja Santos

Salazar toma a decisão de escolher um militar prestigiado para substituir o Governador e Comandante-chefe Arnaldo Schulz que regressara em abril de 1968, visivelmente doente e desmotivado. 

Em 19 de fevereiro desse ano, um grupo armado do PAIGC, chefiado por André Pedro Gomes e Joaquim N’Com atravessou o rio Mansoa perto de Bula e alcançou a proteção de arame farpado do aeroporto de Bissalanca, abriu fogo e atingiu edifícios aeroportuários e pistas. 

A conversa havida entre Salazar e Spínola consta de numerosa documentação, José Alvarez releva algumas das alegadas tomadas de posição de Spínola, bem como a sua exposição de motivos numa reunião havida na Cova da Moura.

Entretanto Salazar sofre um traumatismo craniano que o irá incapacitar por completo, ocorre, entretanto, em Madina do Boé, um julgamento em que Honório Sanchez Vaz e Miguel Embaná serão condenados à morte por provado envolvimento numa tentativa de negociar a rendição de vários elementos do PAIGC, sob o seu comando, e conversações havidas com um dirigente da PIDE. 

Chegado à Guiné, Spínola inicia uma serie de remodelações que inclui a atividade das tropas especializadas, surge a consigna Por Uma Guiné Melhor, no fundo uma vasta campanha para a conquista social das populações. A PIDE vai informando Spínola que existem divisões no seio do PAIGC, e que ela própria os incrementa. A questão cabo-verdiana continua a ser uma dor de cabeça para Amílcar Cabral, os soviéticos davam apoio militar ao PAIGC, mas reconheciam a inviabilidade de guerrilha no arquipélago.

O autor também põe em destaque o descontentamento de guerrilheiros guineenses quanto ao tratamento que Cabral dava aos cabo-verdianos, refere uma reunião havida em Ziguinchor em que já se pede a morte de Cabral. 

Dentro da nova lógica de só haver destacamentos onde há população civil, abandona-se Madina do Boé, toda a região do Boé fica despovoada, abrindo novas oportunidades a incursões do PAIGC, que irão surgir em 1970, o desastre de uma jangada no Corubal vitimou na região de Cheche quarenta e sete homens. 

No secretariado do PAIGC analisa-se a política de Spínola, a libertação de presos políticos, com Rafael Barbosa à cabeça, o apoio do Governador aos régulos e o aparecimento de um lema perigosíssimo “A Guiné para os Guinéus”

O Comité Executivo de Luta reúne-se em Conacri para analisar os efeitos da política introduzida por Spínola, recorda-se os efeitos sempre devastadores da Força Aérea, Cabral fala nos mísseis e nas unidades de artilharia antiaérea, reclama-se a presença do líder do PAIGC no interior do território, ao que Cabral responde que não há ninguém que o possa substituir no relacionamento com o estrangeiro.

É o relato de uma reunião onde não faltam tensões: a colónia de refugiados no Senegal era um fator de destabilização para os combatentes do PAIGC; continuava-se a alcatroar estradas, com destaque para o Chão Manjaco, os fuzileiros especiais apreendiam embarcações do PAIGC na fronteira sul. 

O autor sublinha que é visível uma certa hostilidade de Osvaldo e Nino Vieira nas reuniões presididas por Cabral. Os foguetões do PAIGC marcam presença no ataque a Bolama em 3 de novembro de 1969, embora com estragos mínimos. 

Numa reunião no sul do Senegal presidida por Luís Cabral e em que estão presentes comandantes e comissários políticos também há muitas críticas desde falta de munições a falta de comida, é nisto que irrompe um ataque das tropas portuguesas àquela posição de Kumbamory que obriga a evacuar Luís Cabral e os comissários políticos da frente norte.

Cabral continua o seu imparável roteiro internacional; perante a tentativa portuguesa de negociar com bigrupos do PAIGC do Chão Manjaco, é decidida emboscar a força negociadora, supunha-se mesmo que viria Spínola em pessoa, massacraram-se três majores, um alferes e outros membros da comitiva, caía na água a operação de aliciamento de guerrilheiros do PAIGC. 

Cabral encontra-se com a sua filha mais velha em Moscovo por ocasião do centenário do nascimento de Lenine, a filha faz-lhe saber que se conspirava contra ele e contra os cabo-verdianos, o pai pede-lhe para ela não se preocupar com ele.

José Alvarez elenca eventos que dão conta ressentimentos dos guerrilheiros guineenses. A reunião em Roma dos três líderes dos movimentos de libertação com o Papa Paulo VI é uma vitória para os revolucionários e crispa as relações de Lisboa com a Santa Sé. Segue-se a Operação Mar Verde, um verdadeiro desaire diplomático para a política portuguesa, a repressão de Sékou Touré é sanguinária, com fuzilamentos e encarceramentos.

Entre 9 e 16 de agosto de 1971 ocorre em Boké uma reunião do Conselho Superior de Luta do PAIGC, reacendem-se as críticas e as reclamações: resistência dos pais em deixar sair as crianças para a escola, desaparecimento de equipamento hospitalar, a falta de médicos, a má gestão dos Armazéns do Povo, Cabral não esconde o exagero. Começam a ser tomadas medidas para efetuar em 1972 eleições gerais por sufrágio universal e secreto para a constituição da primeira Assembleia Nacional Popular. A PIDE/DGS obtém informações do que se passa nestas reuniões de Direção do PAIGC, a rede de infiltrados era fértil em informações.

O processo dos mísseis Strela fica concluído entre a URSS e o PAIGC, constituiu-se uma equipa que foi receber formação na URSS. Esse ano de 1972 foi de uma enorme azáfama para Cabral, o reconhecimento do PAIGC era cada vez maior, Portugal perdera aliados na ONU; independentemente de andar muito tempo no estrangeiro, Cabral estava notificado de atos de corrupção e negociações de guerrilheiros com as forças portuguesas.

E assim chegamos aos acontecimentos do assassinato de Cabral, Alvarez ficciona conversas de Cabral com Osvaldo Vieira e com outros protagonistas com quem conviveu ao longo do dia de 20 de janeiro de 1973. E há uma última palavra para as cerimónias fúnebres de Amílcar, a 31 de janeiro de 1973, em Conacri. Segue-se uma referência aos devastadores acontecimentos de Guidaje, Guileje e Gadamael.

Alvarez termina a sua biografia romanceada dizendo:

“Cabral foi, sem dúvida, uma das mais notáveis figuras nacionalistas de África e um incansável lutador pelas causas que acreditava. Era um ideólogo marxista, um carismático defensor dos negros, brilhante como estratega militar e genial na condução da política externa. Foi o pai da independência da Guiné, promovendo a integração social, o ensino e o respeito pela mulher, mas acabou traído pelos camaradas guineenses do partido, tendo sido assassinado na condição de cabo-verdiano.

Desconhece-se quem ordenou a sua morte, sabendo-se apenas que quem o assassinou e os seus cúmplices eram todos elementos da fação do PAIGC que pretendia afastar os cabo-verdianos da direção. Também se ignora o grau de responsabilidade da PIDE no homicídio, apesar de a sabermos interessada na divisão do PAIGC.”


Há que reconhecer o intenso trabalho em leituras e consultas que José Alvarez efetuou para nos dar a primeira biografia romanceada de Amílcar Cabral. Como é compreensível, não esgotou todas as temáticas do estratega, do líder revolucionário e até do visionário.

 Cabral terá sido demasiado complacente quanto ao relacionamento de guineenses e cabo-verdianos, tinha uma fé inabalável, digamos cega, de que as duas nações iriam entrelaçar-se para benefícios comuns, terá sido este sonho que o levou a uma vitória onde ele não pôde participar. E suficientemente visionário para saber que a entrada da direção do PAIGC em Bissau sem um rigoroso e ponderado projeto de regionalização e descentralização redundaria num desastre. Tal como aconteceu.
24 de setembro de 1973, o PAIGC declara unilateralmente a independência em local da região do Boé
Casa de Amílcar Cabral em Conacri
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Notas do editor:

Vd. post de 9 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27807: Notas de leitura (1903): "Amílcar Cabral O Africano que Abalou o Império", por José Alvarez, Âncora Editora, 2025 (5) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 13 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27818: Notas de leitura (1904): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (6) (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 13 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27818: Notas de leitura (1904): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (6) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 20 de Janeiro de 2026:

Queridos amigos,
Não será excessivo o rótulo que dou a este livro, como assombroso? Confesso que não. Com a sua redação concluída em 1934, publicado em 1936 pela Agência Geral das Colónias, dá-nos o estado das colónias portuguesas de África em 1851, é uma narrativa de tal crueza, e bem documentada, que ficamos a saber, ao contrário do que se vai repetir obsessivamente a partir de 1961, que até ao último quartel do século XIX tínhamos um punhado de entrepostos nas orlas costeiras e uma presença limitadíssima no interior das colónias (com exceção de Cabo Verde e São Tomé e Príncipe); tece-se um tratamento às questões diplomáticas com o recurso privilegiado que o autor teve ao Arquivo Lavradio, e logo se torna claro, tanto na questão de Bolama como na questão do Zaire que o imperialismo britânico tudo fazia para nos cercear os direitos à posse das colónias africanas; deixa-se clarificado, logo na questão do Zaire, que havia um conjunto de potências coloniais que se arrogavam à decisão de escolher as fatias de território na consonância dos seus interesses, basta pensar na África ocidental francesa e na linha britânica do Cairo ao Cabo; e o autor dá-nos uma excelente lista da nossa participação entre os séculos XVI e XIX de viagens e travessias africanas; o Zambeze, bem como a baía de Lourenço Marques serão outro pomo de discórdia com o imperialismo britânico, ao mesmo tempo que o Governo de Napoleão III intimidava o Governo português a libertar um escravocrata que tinha sido apanhado com a boca na botija; e caminhamos agora para os antecedentes do Ultimatum e as suas consequências. Bom seria que uma instituição científica reeditasse obra de tal qualidade.

Um abraço do
Mário



Um livro assombroso, o Império Colonial Português no microscópio, na década de 1930, pelo punho do Marquês do Lavradio – 6

Mário Beja Santos

Portugal em África depois de 1851, subsídios para a História, pelo Marquês do Lavradio, foi ditado pela Agência Geral das Colónias em 1936, trabalho que terá sido concluído em 1934. Goza da singularidade deste aio do Rei D. Manuel II ter tido acesso aos arquivos britânicos e possuir um repositório intitulado o Arquivo Lavradio, o seu pai, diplomata em Londres, correspondeu-se com diferentes governos britânicos, expediu notas para Lisboa e deixou relatórios da maior pertinência.

A questão do Casamansa tem vindo a ser tratada aqui com bastante detalhe, pelo que se procurará, e nada mais, fazer um resumo dos pontos mais salientes do grave conflito político-diplomático. A França procurava alargar as suas possessões e começou a espraiar-se na região do que é hoje o Senegal, evitando conflitos com a Grã-Bretanha no tocante à Gâmbia. Em 1828, em pleno período da nossa guerra civil, fundaram um estabelecimento na parte setentrional na foz do Casamansa, rio onde fazíamos largamente comércio e onde estava implantado o estabelecimento de Ziguinchor. Começaram os litígios e as violências no rio, comerciantes franceses foram estabelecer uma feitoria em Selho, a cerca de 30 milhas de Ziguinchor. O Governo francês, face aos nossos protestos, alegava falsidades como a de que o rei Luís XV concedera a diversas companhias o privilégio exclusivo de comércio desde Cabo Branco até à Serra Leoa. Honório Pereira Barreto tudo contestava.

Diplomacia francesa insistia que os franceses podiam comerciar e navegar pelo Casamansa. Mais reclamações dos portugueses, mais feitorias francesas no Casamansa. E a partir de 1882 os atentados e as hostilidades cresceram de tom, já se arriava a bandeira portuguesa em vários lugares, é nessa altura que o Ministro dos Negócios Estrangeiros português, António de Serpa, propôs ao embaixador francês em Lisboa a nomeação de delegados para se fixar definitivamente os limites franco-portugueses na Guiné. A reunião dos delegados terá lugar em outubro de 1885 e levará à celebração da Convenção luso-francesa de 12 de maio de 1886.

A questão Charles e Georges resulta do apresamento da barca francesa do mesmo nome na costa de Moçambique, tudo acabará com uma espécie de ultimato em que vasos de guerra de Napoleão III virão ao Tejo numa franca atitude de declaração de guerra. Tudo começou em 1854 quando o Governador da Guiana francesa pediu ao Governo português, por intermédio do nosso embaixador em Paris, licença para contratarem em Inhambane, por um prazo de cinco anos, um certo número de pretos livres para a ilha da Reunião. Havia o compromisso de se provar que os negros seriam desembarcados na ilha da Reunião e que usariam do tratamento de homens livres (na ilha a emancipação dos escravos foram proclamada em 1848). O Governo português interferiu no pedido, não era permitida a saída de negros senão na conformidade das leis em vigor. O engajamento dos chamados trabalhadores livres não era mais do que um expediente para fazer o tráfico negreiro.

O Governador-geral de Moçambique, contrariando as ordens do seu Governo, autorizou alguns navios da ilha da Reunião a contratarem negros na Província de Moçambique. O Marquês Sá da Bandeira, logo que disto teve conhecimento demitiu o Governador-geral. O representante francês em Lisboa instava para que fosse revogada a ordem de proibição, Sá da Bandeira recusou.

Apesar das recusas, fundeou na baía de Condúcia uma barca que se supunha estar a carregar escravos. O Governador-geral mandou um barco de guerra português capturar a barca francesa Charles e Georges que tinha a bordo 110 chamados trabalhadores livres, tudo gente raptada. O capitão da barca Charles e Georges foi condenado de trabalhos públicos e a pagar uma pesada multa. O Governo de Napoleão III apressou-se a reclamar a soltura do barco com os fundamentos de que o navio saíra da ilha de Reunião para recrutar trabalhadores noutras paragens, que só uma força maior o obrigara a ir a um porto de Moçambique e que a presença a bordo de uma autoridade francesa atestava que o navio não se dedicava ao tráfico de escravos. Foi demorada a discussão entre os dois Governos, a barca foi conduzida para Portugal e com a bandeira portuguesa.

Novos protestos franceses, o Governo português ordenou ao seu representante em Paris que propusesse a mediação de uma terceira potência, proposta recusada. Não tendo Portugal força suficiente para sustentar o seu direito contra as ameaças francesas esperava auxílio do Governo britânico, mas este esquivou-se. E das ameaças passou-se ao confronto. Em 3 outubro de 1856 entravam no Tejo duas naus francesas. O Ministro dos Negócios Estrangeiros comunicava ao embaixador português em Paris por nota, que se o capitão da Charles e Georges não fosse libertado nas próximas 48 horas, o embaixador francês abandonava o país e custasse o que custasse o comandante da Charles e Georges reembarcaria com as forças francesas sediadas no Tejo.

Houve cedência, mais uma vez a Grã-Bretanha, por diferentes razões de conveniência, abandonava Portugal. Indo mais adiante já estamos no Tratado dos limites com a França quanto à Guiné. Portugal reclamava como fronteira o norte do rio Casamansa, ficaríamos na margem esquerda, renunciando ao domínio na margem direita; em contrapartida no Congo queríamos que a ocupação dos territórios compreendidos entre o Chiloango e Massabi nos fosse reconhecida. A França pretendia que Ziguinchor e os territórios portugueses de Casamansa colocados entre os portos de Carabane e Selho, pertencentes à França, lhe fossem cedidos, e no sul entendia que os limites deviam ser os territórios dos Nalus, entre o rio de Bolor e Cacine; no Congo propunha que a fronteira franco-portuguesa fosse o curso do rio Chiloango.

As propostas francesas eram inaceitáveis, no entanto, e surpreendentemente, os nossos negociadores mostraram-se dispostos a abandonar o Casamansa, mas reivindicavam compensações, ceder Ziguinchor implicava um reconhecimento dos nossos direitos. Ao fim de dezasseis sessões em 12 de maio de 1886 Portugal tinha conseguido o reconhecimento no Congo dos territórios de Massabi e estendido mais para o sul a fronteira da Guiné. Vários estudiosos consideram que a cedência do Casamansa fora feita pelo aceno francês de que tudo envidaria para nos ser reconhecido o protetorado de uma longa faixa do território entre Angola e Moçambique, como aliás vem no artigo 4º do texto da Convenção:
“O Governo da República francesa reconhece a Sua Majestade Fidelíssima o direito de exercer a sua influência soberana e civilizadora nos territórios que separam as possessões portuguesas de Angola e Moçambique, sob reservas dos direitos anteriormente adquiridos por outras potências, e obriga-se pela sua parte, a abster-se ali de qualquer ocupação.”

Era a primeira vez que no mapa africano figurava uma larga faixa de terreno pintado a cor-de-rosa e ninguém suporia então que iria acabar no Ultimato.

D. José Maria do Espírito Santo de Almeida Correia de Sá, 6º Marquês do Lavradio (1874-1945)
Onde fica a região do Casamansa de que a França se apoderou pela Convenção luso-francesa de 12 de maio de 1886
Documento alusivo ao apresamento da barca Charles e Georges, 1858

(continua)
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Notas do editor:

Vd. post de 6 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27800: Notas de leitura (1902): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (5) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 9 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27807: Notas de leitura (1903): "Amílcar Cabral O Africano que Abalou o Império", por José Alvarez, Âncora Editora, 2025 (5) (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 9 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27807: Notas de leitura (1903): "Amílcar Cabral O Africano que Abalou o Império", por José Alvarez, Âncora Editora, 2025 (5) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 16 de Setembro de 2025:

Queridos amigos,
Temos agora as consequências sociopolíticas e militares das deliberações do Congresso de Cassacá, dá-se formalmente a rotura na relação entre Maria Helena e Amílcar Cabral, entretanto num encontro em Praga, Amílcar e Ana Maria Voss perdem-se de amores, o ativismo de Cabral é imparável e em janeiro de 1966 terá a sua consagração após uma intervenção que deixou muita gente atónita na Tricontinental de Havana. 

Na guerra da Guiné, em 1967, está-se num delicado impasse, progressos diminutos de parte a parte, Cabral debate-se, no interior do PAIGC, com atos de grande negligência e furtos, os ressentimentos profundos de Inocêncio Cani terão tido aqui origem quando ele foi expulso de cargos políticos. Vamos agora viver o terceiro e último ato na frente dos combates e no que, de muito profundo, irá acontecer no PAIGC, após o assassinato de Cabral.

Um abraço do
Mário



O primeiro romance histórico sobre a vida e obra de Amílcar Cabral – 5

Mário Beja Santos

Em consequência das decisões tomadas no Congresso de Cassacá, dar-se-á a reorganização militar que levou à constituição das primeiras unidades do Exército Popular, as FARP. Uma reorganização que não esqueceu praxes institucionais como o juramento diante da bandeira do PAIGC. 

Cabral é um líder partidário que se confronta diariamente com atos de negligência, a falta de pontualidade, José Alvarez [foto à direita] recria alguns diálogos de um Cabral encolerizado, mesmo com Osvaldo Vieira, o comandante militar da zona norte.

Amores finados com Maria Helena, em 1965, na cidade de Praga, Cabral conhece Ana Maria Voss, dá-se rapidamente o coup de foudre, será a sua segunda mulher que assistirá na noite de 20 de janeiro de 1973 ao assassinato do marido. 

Haverá encontro em Rabat com Maria Helena, Alvarez recria uma discussão altamente tempestiva, assumem o divórcio, irá surgir Henrique Cerqueira na vida de Maria Helena. Em Conacri, ganha vida o projeto de uma escola-piloto no bairro de Ratoma, para o ensino dos jovens guineenses que se sentem atraídos pela Independência da Guiné, iremos conhecer as figuras preponderantes nesta escola de formação.

O autor chama a atenção para a propaganda bombástica e falseada de que Cabral não tinha pejo em manipular, veja-se a linguagem usada para cantar vitória sobre os acontecimentos da ilha do Como: 

“Três mil soldados portugueses que se tentaram apoderar da ilha do Como foram repelidos pelos guerrilheiros do PAIGC. Quinhentos ou seiscentos militares foram postos fora de combate e o comandante da operação morto. Dois aviões abatidos e uma dúzia de embarcações afundadas.”

Igualmente o autor recorda a preocupação de Cabral com a imagem do partido no exterior, convites a figuras gradas ao movimento revolucionário, como foi o caso de Gérard Chaliand (1934-2025) e também cineastas como Mario Marret.

Dentro das recriações que a trama romanesca permite, Alvarez pretende fazer sobressair um estado de ciúme de Sékou Touré, este considera que Cabral estava a roubar-lhe protagonismo, quer que os seus Serviços Secretos o tenham debaixo de olho. No secretariado do PAIGC, vemos Cabral a tecer considerações altamente críticas ao mau trabalho da Organização da Unidade Africana (OUA), reconhecendo a contradição que a guerra o obrigava a atacar lojas e a deitar por terra a economia guineense, o que iria levar, depois da Independência, a precisar de auxílio externo. Punha, no entanto, uma grande esperança nos Armazéns do Povo.

Esse ano de 1965 é pleno de atividade: a preparação da II Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas (CONCP); encontrou-se com Che Guevara em Conacri, o guerrilheiro cubano ficou bem impressionado com Cabral, prometeu e concretizou apoios; ciente de que continuam os problemas de negligência, elaborou um documento intitulado Palavras de Ordens Gerais do Secretário-Geral.

“Amílcar Cabral, apesar das adversidades com que se confrontava diariamente, podia considerar-se um homem realizado pois o PAIGC dominava uma considerável área do território a Leste e mantinha os seus santuários principais incólumes, Morés, Oio, Cafine, Cantanhez e Cufar e a Frente Norte ativa. 

"Em finais daquele ano, para colmatar as dificuldades nas frentes de luta (como, por exemplo, em Gabu, onde mais de 40% dos efetivos do PAIGC tinham abandonado as suas unidades para regressar às regiões de origem), os dirigentes do PAIGC viram-se obrigados a lançar incentivos aos jovens voluntários para combater. Mesmo assim, o problema não ficou resolvido. Amílcar viu-se na necessidade de organizar uma reunião com os guerrilheiros das zonas Sul e Leste para melhor definir a estratégia que se impunha.”

A II CONCP realizou-se na Tanzânia, em outubro. Assim estamos chegados a 1966, em janeiro, em Havana, durante a I Conferência de Solidariedade dos Povos de África, Ásia e América Latina, a intervenção de Cabral gera admiração dos participantes, põe em causa o proletariado de índole operária, disseca os fenómenos sociais africanos e revela que o segredo do êxito do que está a acontecer na Guiné-Bissau é a estreita aliança entre uma burguesia consciente do seu poder revolucionário e a massa camponesa que está pronta a quebrar as grilhetas do colonialismo. 

Fidel Castro dirá no seu discurso de encerramento que estes movimentos revolucionários em África tinham em Cabral um dos líderes mais lúcidos e brilhantes. No rescaldo da Conferência, Fidel assegura-lhe um total apoio em ajuda médica e instrutores militares.

Estamos de novo em Conacri em 1966, está reunido o Conselho de Guerra com Amílcar, Luís Cabral e Aristides Pereira e os comandos das frentes. É de novo recriado um diálogo, os líderes políticos conversam com chefes da guerrilha, com Nino e Osvaldo Vieira, Domingos Ramos, Francisco Mendes e Pedro Pires. Discute-se o Exército Nacional Popular que irá ajudar as Forças Armadas na proteção das povoações, mas também são postos em cima da mesa os desempenhos dos comités de tabancas e anunciada a chegada de navios fornecidos pela União Soviética.

Em abril, Amílcar e Osvaldo Vieira estão no Morés, questões disciplinares merecem a atenção dos dois, Amílcar pretende destituir Inocêncio Cani, outro guerrilheiro, de nome Hilário Rodrigues, fora alvo de um processo de inquirição em que se apurou ter vendido armas tomadas ao inimigo no Senegal e na República da Guiné, ia ser destituído de todas as funções. 

Tinha sido naquela atmosfera de decisões punitivas que Inocêncio Cani ganhou um ressentimento profundo a Cabral. Alvarez recria uma conversa na prisão de La Montagne entre Cabral e o sargento Lobato, este conseguira salvar-se num desastre aéreo que custou a vida ao outro piloto, era prisioneiro do PAIGC, Lobato mantém-se firme, recusa a proposta de Cabral.

Temos novamente Cabral em Havana um ano depois, foi assistir ao juramento de bandeira de trinta e um recrutas cabo-verdianos, comandados por Pedro Pires. De novo o líder do PAIGC é recebido por Fidel, ele reforça o apoio com o envio de medicamentos, de 3 camiões acompanhados dos respetivos mecânicos cubanos e de 10 especialistas de morteiros.

No teatro de operações da Guiné, Schulz marcara pontos com as tropas especiais e intensos bombardeamentos, mas não se saía do impasse. Cabral procurou a flexibilidade das suas forças, abandonou algumas bases militares. Temo-lo de novo em Argel, Cabral fez um discurso no Comité de Libertação da Unidade Africana. É neste ano que o PAIGC foi dotado de uma emissora. 

“Amílcar conseguira o avanço significativo na transmissão das suas mensagens políticas pela rádio. O líder, sempre que estava em Conacri, surgia à noite nos estúdios da rádio Libertação, por vezes acompanhado de Ana Maria Voss, com palavras encorajadoras par quem nela trabalhava".

E assim se chega nesse ano de 1968 à decisão política de Salazar de substituir Schulz por António Spínola. Vamos entrar no terceiro e último ato da guerra da Guiné.

Cabral e Fidel Castro depois da reunião da Tricontinental, a intervenção pública de Cabral marcou pontos, introduzia uma nota ideológica que se distinguia da cartilha soviética.
Amílcar Cabral. Fotografia retirada do Black Agenda Report, com a devida vénia

(continua)
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Notas do editor:

Vd. post de 2 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27787: Notas de leitura (1901): "Amílcar Cabral O Africano que Abalou o Império", por José Alvarez, Âncora Editora, 2025 (4) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 6 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27800: Notas de leitura (1902): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (5) (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 6 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27800: Notas de leitura (1902): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (5) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 19 de Janeiro de 2026:

Queridos amigos,
O Marquês do Lavradio consegue traçar e enquadrar os elementos fundamentais que levaram as potências coloniais a reunirem-se em Berlim para se tomarem decisões sobre o continente africano. A questão do Zaire foi um dos detonadores, as potências coloniais melhor apetrechadas, ambicionavam os negócios africanos, fazer caminhos de ferro, pagaram dispendiosas expedições científicas, o rei dos belgas, sob o pretexto de criar uma associação internacional para melhorar a civilização em África, fundou o Estado do Congo, surgiram conflitos para nos afastar das margens do Zaire; é facto que a Conferência de Berlim fez reconhecimento às possessões coloniais portuguesas, mas não passou do mero interlúdio para novas tentativas de reduzir a presença portuguesa em África. As hostilidades não vinham só da nossa mais velha aliada, a França já não escondia as suas ambições na África Ocidental, veremos adiante a questão do Casamansa e a sua tentativa de nos humilhar com a questão do navio Charles e Georges.

Um abraço do
Mário


Um livro assombroso, o Império Colonial Português no microscópio, na década de 1930, pelo punho do Marquês do Lavradio – 5

Mário Beja Santos

Portugal em África depois de 1851, Subsídios para a História, pelo Marquês do Lavradio, foi ditado pela Agência Geral das Colónias em 1936, trabalho que terá sido concluído em 1934. Goza da singularidade deste aio do Rei D. Manuel II ter tido acesso aos arquivos britânicos e possuir um repositório intitulado o Arquivo Lavradio, o seu pai, diplomata em Londres, correspondeu-se com diferentes governos britânicos, expediu notas para Lisboa e deixou relatórios da maior pertinência. O aspeto mais curioso deste seu trabalho é a franqueza que ele põe nas suas considerações da decadência imperial portuguesa, como se procurou mostrar nos quatro textos anteriores revela como até ao século XIX a nossa presença circunscrevia-se praticamente à orla da costa de regiões que só no século XIX passaram a ser designadas ou até fronteiras, caso da Guiné, Angola e Moçambique (os arquipélagos de Cabo Verde e São Tomé e Príncipe). Dentro da franqueza que o Marquês usa na sua narrativa é patente a crítica por vezes brutal face ao imperialismo britânico; no entanto, dirá nas conclusões que o Império português só poderá sobreviver à sombra da proteção britânica.

O que se entende por a questão do Zaire? O Governo português sustentava os nossos direitos aos territórios da Costa Ocidental de África, ao norte de Ambriz, o que indispunha a diplomacia britânica. Como observa o Marquês do Lavradio, quando se ocupou Ambriz, em 1855, fez-se a declaração da intenção de ir sucessivamente ocupando os territórios ao norte, caso de Cabinda. Logo em 1856 o Governo inglês dava instruções ao almirantado para que se opusesse pela força a qualquer nova tentativa de ocupação por parte de Portugal. Estas medidas de força violavam os Tratados existentes entre Portugal e a Grã-Bretanha. Que justificação davam os nossos aliados para tão tenazmente se oporem à nossa presença no Ambriz e mais ao norte? Que não tínhamos possibilidade de impedir o tráfico de escravos. O Ambriz, antes de ser novamente ocupado pelos portugueses, era o grande mercado dos escravos, e depois da ocupação não constava que saísse daquela localidade um só escravo.

Comentando a situação, escrevia o Visconde de Sá da Bandeira: “Parece-me que o Governo inglês tem preparado para pouco a pouco estabelecer no Zaire e costa adjacente o mesmo sistema que tem conseguido fundar na Costa da Mina, isto é, uma espécie de protetorado sobre todos os régulos. A consequência de tal protetorado tem sido que o comércio britânico adquiriu, com o andar do tempo, tal supremacia na Costa da Mina que quase que monopolizou as transações que se fazem nos portos.” A diplomacia portuguesa continuou a insistir nos seus direitos, como abonam as iniciativas de Andrade Corvo e as do Duque de Saldanha. Toda aquela região era ambicionada por potências coloniais, expedições como as de Livingstone, Stanley ou Brazza revelavam o valor dos territórios. As viagens, que haviam chamado a atenção das potências para a questão da escravatura em tráfego, originaram a conferência Internacional de Bruxelas, que se reuniu a 12 de setembro de 1876, Portugal não se fez representar, e foi nessa conferência que nasceu a Administração Internacional para a Exploração e a Civilização da África Central.

Em 1878, em resultado das novas explorações de Stanley, fundava-se em Bruxelas a Comissão de Estudos do Alto Congo e posteriormente a Associação Internacional do Congo. Foi nessa ocasião que a Inglaterra se decidiu finalmente em encetar negociações connosco para um Tratado que nos devia reconhecer o direito de ocuparmos o que legitimamente nos pertencia. A Inglaterra impunha-nos que se declarasse a liberdade de navegação no Zambeze e Congo, que se concedesse o tratamento de nação mais favorecida aos súbditos britânicos, que se desistisse de qualquer pretensão sobre terrenos ao sul ou no interior que não estivessem efetivamente ocupados e que se suprimisse o tráfico da escravatura.

Numa tentativa de recapitulação podemos considerar que a questão do Zaire, a criação de uma associação internacional sobre a égide do rei Leopoldo da Bélgica, a delimitação da bacia do Congo, a própria política hostil dos Estados Unidos que exigia uma total liberdade comercial na região do Congo, as expedições de Stanley, numa tentativa de encontrar apoios junto das chefaturas nativas em detrimento dos interesses portugueses estão entre as causas principais que conduziram à Conferência de Berlim, na justa medida em que a Alemanha também cobiçava porções de território africano. A Alemanha já pusera o pé na África Oriental entre Zanzibar e Tanganica, e começava a assentar arraiais no Togo. Como escreve o Marquês do Lavradio, “Ingleses, franceses e alemães lançaram-se sucessivamente nos sertões africanos, ou com fins meramente científicos ou com intuitos de especulação comercial, resultando destas viagens o conhecimento completo da geografia africana, a criação de novas colónias ou protetorados e, ainda, o nascimento de um Estado novo.”

O autor procura denunciar que grande parte destas expedições em que pessoas como Livingstone ou Stanley ou Cameron alegavam que eram os primeiros a atravessar África escondiam o facto dos portugueses já terem importantes viagens, e avança com dados históricos:
“Não devem ser esquecidos os nomes de João Fernandes, o primeiro europeu que penetrou no terreno de África, ficando no Rio de Oiro em 1445, para aprender a língua e costumes, a fim de informar o Infante D. Henrique; padre Gonçalo de Silveira, que em 1561 conseguiu batizar solenemente o rei de Monomopata, que meses depois o mandava assassinar; frei João dos Santos, que de 1568 a1597 encontrámos exercendo a sua missão na África Oriental; padre Jerónimo Lobo, que em 1624 estava na Abissínia; Domingos de Abreu e Brito, 1592 reconhecia a facilidade de passar de Benguela para as minas de Monomopata; Baltazar Rebelo de Aragão; Manuel Cerveira Pereira; Luís Mendes de Vasconcelos.”

E, mais adiante:
“O Tenente-coronel Francisco Honorato da Costa, Comandante da Feira de Cassange, mandou em 1802, por ordem do Governador de Angola, dois dos seus pioneiros a Tete com cartas para o Governador dos rios de Sena. Estes dois homens, Pedro João Baptista e Anastácio José, saíram de Cassange em fins de novembro de 1802 chegaram a Tete em 2 de fevereiro de 1811, onde Pedro João Baptista entregou ao Governador dos rios de Sena um roteiro do caminho seguido. É esta a primeira travessia entre as duas costas africanas de que há conhecimento afetivo.”

Como iremos ver adiante, estávamos a pagar forte e feio a nossa negligência e não possuíamos nem meios nem poder para concorrer com as grandes potências. Houve, é facto, uma comoção nacional face a esta corrida em África, o que levou à formação de uma comissão geográfica africana e à fundação da Sociedade de Geografia de Lisboa.


D. José Maria do Espírito Santo de Almeida Correia de Sá, 6.º Marquês do Lavradio (1874-1945)

(continua)
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Notas do editor:

Vd. post de 27 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27778: Notas de leitura (1900): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (4) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 2 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27787: Notas de leitura (1901): "Amílcar Cabral O Africano que Abalou o Império", por José Alvarez, Âncora Editora, 2025 (4) (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 2 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27787: Notas de leitura (1901): "Amílcar Cabral O Africano que Abalou o Império", por José Alvarez, Âncora Editora, 2025 (4) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 9 de Setembro de 2025:

Queridos amigos,
Começo por dar uma explicação. Era bem possível fazer uma recensão num só texto da obra de José Alvarez. Irei fazê-lo posteriormente por outros canais. Tenho procurado no blogue incitar para a leitura das obras, seja qual for o seu nível de qualidade. Acontece que estamos perante o primeiro romance histórico de Amílcar Cabral, trata-se de um romance entremeado de muitíssimos factos já aqui versados, José Alvarez procede à ficção na construção de diálogos entre Amílcar Cabral e a sua primeira mulher e nas reuniões políticas, sobretudo ao nível do PAIGC, mas também conversas com diplomatas, jornalistas e outros. Entendi que prestaria melhor serviço aos confrades destacando aspetos relevantes da trama histórica, deixando-lhes a surpresa de lerem o enredo ficcional construído por José Alvarez. Cabral nessa fase, entre 1962 e 1964, é não só a figura preponderante e inultrapassável dentro do PAIGC, é ideólogo, estratega, diplomata, germina da sua ação ser o construtor da nação guineense, tal como aconteceu. Acho que valeu a pena dar-vos nota do que achei por bem na extensão destas recensões.

Um abraço do
Mário



O primeiro romance histórico sobre a vida e obra de Amílcar Cabral – 4

Mário Beja Santos

O romance histórico de José Alvarez remete-nos agora para a instalação de direção do PAIGC em Conacri, estamos em 1961, também Maria Helena chega à capital da Guiné-Conacri com a filha mais velha. Em casa de Hugo Azancot Meneses há uma reunião de amigos, estão presentes Viriato da Cruz e Mário Pinto Andrade, entre outros, temas como os outros partidos nacionalistas vêm à baila, Amílcar andava inquieto com as atividades do Movimento de Libertação da Guiné, maioritariamente constituído por Manjacos residentes no Senegal, tinham em julho cortado linhas telefónicas perto de S. Domingos, atacado o aquartelamento desta povoação, também Susana e Varela, procedido a vandalizações e roubos. 

O armamento chegava ao PAIGC a conta-gotas, Sékou Touré pouco facilitava, havia obsessão de que viessem armas para golpes de Estado internos. É nessa altura que se encontra o expediente de, a partir de Marrocos, vir armamento em caixotes com indicação de medicamentos.

Amílcar procede a um périplo internacional, primeiro Casablanca, aí vai decorrer a I Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas - CONCP, isto em abril, já em Conacri encontrara-se com um agente dos serviços secretos checos; em setembro, Amílcar volta a escrever ao Presidente da Assembleia Geral da ONU, toca sempre na tecla da liquidação pacífica do colonialismo português; Maria Helena é professora liceal em Conacri. A CONCP tem o seu secretariado em Rabat. A Conacri, chegam cada vez mais guineenses para se juntar em prol de lutar pela Independência, é criado O Lar dos Combatentes. Maria Helena vai adoecendo, Amílcar sugere que ela e a filha vão para Rabat, é uma conversa que decorre sob grande tensão.

Vamos agora conhecer a faceta do estratega militar, reunião de quadros em Conacri, repartição de responsabilidades envolvendo quem tinha frequentado a academia de Nanquim, caso de Rui Djassi, Osvaldo Vieira, Chico Té, Manuel Saturnino Costa, Constantino Teixeira, Vitorino Costa, entre outros. Já estavam mais de 25 quadros em formação na Checoslováquia e 5 na URSS. Maria Helena e a filha partem para Rabat, Rafael Barbosa e outros são presos em Bissau.

Amílcar falou na Comissão da ONU sobre os territórios ocupados por Portugal, nas reuniões vem sempre a referência à falta de armamento e começam as insinuações de que os cabo-verdianos preferem Conacri para fugir à luta armada. 

De 1962 para 1963 acontecem modificações políticas de tomo na Argélia, chegam políticos portugueses a Rabat, como Piteira Santos e Adolfo Ayala. Nasce a segunda filha de Maria Helena e Amílcar, a filha mais velha vai estudar para Moscovo.

Em 1963, a FLING – Frente de Libertação e Independência Nacional da Guiné estabeleceu contacto com o Governo português, procurava-se uma solução pacífica para o futuro da Guiné. Benjamim Pinto Bull será recebido por Salazar, transmite-lhe uma proposta de autonomia gradual que culminaria com a eventual independência, de forma a permitir a formação de quadros e a crescente ocupação dos lugares-chave da administração por naturais da Guiné. 

É nisto que se sucede um grave incidente com o desembarque das caixas com armamento disfarçado de medicamentos, uma das caixas desfaz-se em pleno porto, Sékou Touré não está para os ajustes, manda prender a direção do PAIGC, Amílcar andava pelo estrangeiro, competir-lhe-á sanar o incidente.

Em 23 de janeiro de 1963, um grupo de guerrilheiros comandado por Arafam Mané ataca o quartel de Tite, estava dado o sinal de que o PAIGC desencadeara as hostilidades, são emitidas notícias nas emissoras de Conacri, Dakar e Brazzaville, dois meses depois, na região de Catió, combatentes do PAIGC apoderaram-se de duas barcaças a motor, Arouca e Mirandela, pertencentes à Casa Gouveia e à Sociedade Policial Ultramarina. 

Amílcar desloca-se a Moscovo, os soviéticos pretendem conhecer o seu programa, fazem perguntas sobre Cabo Verde, as promessas de apoio ficam por enquanto no ar. Dá-se uma reunião de quadros em Dakar, a união de Guiné a Cabo Verde é um dos principais temas de discussão, Amílcar propõe que era absolutamente necessário avançar com a insubordinação de Cabo Verde, mas é reticente quanto a um quadro de violência, sugere a infiltração, cabe a Pedro Pires o recrutamento e preparação política dos combatentes, mas curiosamente pondera-se a escolha de um local de desembarque, confia-se muito na ajuda cubana.

Salazar, afinal, não dá qualquer prova de querer dialogar com a FLING; nas reuniões de quadros, Cabral é confrontado com sérias tensões entre os quadros militares e políticos nas diferentes frentes, é nessa altura que se pondera a criação da Lei da Justiça Militar, é mais do que tempo para preparar uma reunião em território da Guiné para apreciar o relacionamento entre as chefias militares e as políticas, que virá a ocorrer em Cassacá, exatamente no tempo em que decorre na ilha do Como a Operação Tridente. Surge o hino do PAIGC, os versos são de Cabral.

E estamos chegados à reunião de Cassacá que culminará em congresso. Meio ano depois daquele ataque a Tite, a presença do PAIGC era uma realidade, particularmente no sul. O general Venâncio Deslandes tinha observado ainda em 1963 que cerca de uma quinta parte do território mantinha-se em sublevação, e as populações na sua quase totalidade deslocadas. 

O Governador e Comandante-chefe, Vasco Rodrigues e o Brigadeiro Louro de Sousa, tinham opiniões divergentes quanto ao andamento de obstar a progressão da guerrilha, em Lisboa decidira-se reforçar os efetivos militares na Guiné de cinco para dez mil homens. Louro de Sousa delineou uma enorme operação militar, a Tridente, para recuperar a ilha do Como, operação de grande envergadura, um efetivo militar de cerca de setecentos homens, com o apoio da Força Aérea e da Marinha, operação duríssima, os guerrilheiros do PAIGC transferem-se taticamente para outro território, o comandante em terra, Fernando Cavaleiro, percorre a ilha a pé.

Em território continental, em Cassacá, começa a reunião a 13 de fevereiro. Amílcar anuncia várias medidas na mobilização e organização de forças na luta armada, são criadas as FARP – Forças Armadas Revolucionárias do Povo, bem como a formação de quadros militares especiais. Inevitavelmente, teria que ser discutida a deterioração da população devido a comportamentos prevaricadores de quadros militares, foram identificados e desarmados os prevaricadores, mais tarde julgados e alguns deles executados. 

Dois meses após o final da operação Tridente, ainda existe numa ponta da ilha do Como um destacamento de tropa portuguesa, em Cachil, mas o PAIGC voltou a manifestar-se, flagelando regularmente essa Unidade.

Também atendendo ao desentendimento entre o Governador e o Comandante-chefe, o Governo português toma a decisão de juntar os dois cargos de uma única pessoa, é escolhido o Brigadeiro Arnaldo Schultz, chega à Guiné em maio de 1964, e com a promessa que faz publicamente de acabar em meses com a guerrilha.

Amílcar Cabral numa das suas intervenções no Congresso de Cassacá, 13 a 17 de fevereiro de 1964
O Bureau Político do PAIGC eleito no Congresso de Cassacá. Da esquerda para a direita: Nino Vieira, Chico Té, Rui Djassi, Aristides Pereira, Chucho ou Constantino Teixeira, Amílcar Cabral, Domingos Ramos, Luís Cabral e Osvaldo Vieira.

(continua)

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Notas do editor:

Vd. post de 23 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27764: Notas de leitura (1899): "Amílcar Cabral O Africano que Abalou o Império", por José Alvarez, Âncora Editora, 2025 (3) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 27 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27778: Notas de leitura (1900): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (4) (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27778: Notas de leitura (1900): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (4) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 13 de Janeiro de 2026:

Queridos amigos,
Creio que se justifica uma explicação quanto à extensão que estou a dar à recensão deste livro. O Marquês do Lavradio, possuidor de um arquivo histórico ímpar, tendo acompanhado no exílio o rei D. Manuel II até ao seu falecimento, pode debruçar-se a preceito, neste livro que concluiu em 1934 a discretear com rigor e sem nacionalismos tolos ao estado das colónias portuguesas, às razões do seu estado decadente e à análise das mais palpitantes questões diplomáticas que se prendiam com a formação do nosso Terceiro Império.
Assim como a História da Guiné não se pode elaborar exclusivamente com os dados que possuímos sobre a presença portuguesa quer na Senegâmbia quer na Província, havendo o imperativo de convocar historiografias de Cabo Verde, Senegal, Guiné Conacri, pelo menos, do mesmo modo não se pode entender o esforço de ocupação e pacificação que a Guiné viveu sem entender o pano de fundo da ténue presença portuguesa na Grande Senegâmbia e o que representou a Conferência de Berlim para esse papel de ocupação e pacificação, que se estenderá até 1936 e culminará com o desempenho do governador Sarmento Rodrigues.
Obviamente que esta obra do Marquês do Lavradio irá ser taticamente esquecida na argumentação das autoridades portuguesas na era da descolonização mundial, aqui se revela, preto no branco que estávamos há cinco séculos em África em entrepostos, pagando dinheiro às chefaturas para ali comerciar e traficar. Como, de igual modo, valerá a pena ler com atenção uma conferência que o Conde de Penha Garcia, que presidiu aos destinos da Sociedade de Geografia de Lisboa de 1924 a 1940, conferência produzida em 1892, onde disse claramente que Portugal estava ligado ao continente africano por interesses de quase 500 anos.

Um abraço do
Mário



Um livro assombroso, o Império Colonial Português no microscópio, na década de 1930, pelo punho do Marquês do Lavradio – 4

Mário Beja Santos

Portugal em África depois de 1851, subsídios para a História, pelo Marquês do Lavradio, foi ditado pela Agência Geral das Colónias em 1936, trabalho que terá sido concluído em 1934. Goza da singularidade deste aio do Rei D. Manuel II ter tido acesso aos arquivos britânicos e possuir um repositório intitulado o Arquivo Lavradio, o seu pai, diplomata em Londres, correspondeu-se com diferentes governos britânicos, expediu notas para Lisboa e deixou relatórios da maior pertinência. O aspeto mais curioso deste seu trabalho é a franqueza que ele põe nas suas considerações da decadência imperial portuguesa, como se procurou mostrar nos dois textos anteriores revela como até ao século XIX a nossa presença circunscrevia-se praticamente à orla da costa de regiões que só no século XIX passaram a ser designadas ou até fronteiras, caso da Guiné, Angola e Moçambique (os arquipélagos de Cabo Verde e São Tomé e Príncipe). Dentro da franqueza que o Marquês usa na sua narrativa é patente a crítica por vezes brutal face ao imperialismo britânico; no entanto, dirá nas conclusões que o Império português só poderá sobreviver à sombra da proteção britânica.

Já florámos o estado das colónias portuguesas de África em 1851, as causas principais de decadência no olhar do Marquês do Lavradio, entramos agora nas questões diplomáticas, a seguir à questão de Bolama temos a de Lourenço Marques que igualmente originou graves discussões com as autoridades britânicas.

Lourenço Marques deve o seu nome ao navegador português que em 1544 entrou naquela baía e tomou posse em nome do rei de Portugal. Em 1733, os holandeses expulsaram-nos de Lourenço Marques e construíram uma fortaleza; mais tarde, os austríacos expulsaram os holandeses. Em 1781, saiu de Moçambique uma expedição por ordem de D. José, os austríacos foram expulsos e tomou-se novamente posse daquele porto e território.

A questão de Lourenço Marques teve a sua primitiva origem no procedimento do capitão Owen em 1824. O governador Lourenço Marques maltratara o rei Capela, e devendo tratá-lo com respeito, como ordenavam as cartas régias, ultrajara-o e matara-lhe gente, porque não se prestara às rapinas que lhe propusera. O rei Capela foi buscar auxílio do capitão de mar e guerra Owen, encarregado de levantar a carta hidrográfica de toda a costa oriental de África e que então estava na baía de Lourenço Marques. Owen, para atrair o régulo, prometera-lhe auxílio, içou uma bandeira inglesa na ponta sul das terras daquele rei, fronteiras ao estabelecimento português. Owen conseguiu ainda de outras autoridades gentílicas vassalagem ao rei britânico. Começaram as contendas entre autoridades portuguesas e britânicas: arriar a bandeira britânica, apresamento de brigues, ameaças, intimidações.

Seguiram-se negociações diplomáticas sobre a legitimidade de direitos portugueses a Lourenço Marques, contestação britânica, com prova de força, a 28 de julho de 1860, o contra-almirante Keppel entrava na baía de Lourenço Marques e escrevia ao governador: “Que aquela baía era considerada como limite entre as possessões portuguesas e inglesas, e que a parte sul e território sul pertenciam à coroa britânica, e o governo de Sua Majestade britânica mantinha o seu direito de reclamar e conservar o mesmo território.”

Em 5 de novembro de 1861, o governador do Cabo da Boa Esperança mandou a Lourenço Marques um navio para se apoderar de ilhas declarando ao governador Lourenço Marques que eram possessão inglesa e ficavam anexadas à colónia do Natal. Protesto do comissário português, diligências diplomáticas em Londres. O Ministro dos Negócios Estrangeiros britânico continuava a negar os direitos portugueses. O diplomata português, o Marquês do Lavradio, respondeu:
“Que à vista da inqualificável declaração que ele acabara de fazer-me, eu começava por lhe perguntar se ele considerava Portugal uma nação independente ou como uma conquista da Inglaterra? Que eu não podia admitir que se duvidasse da independência de Portugal, e que então o emprazava para que me dissesse com que direito o Governo britânico havia não só mandado violar o território português, mas até anexado uma porção dele, sem respeito aos Tratados vigentes? O Governo britânico, prevalecendo-se da superioridade das suas forças e confiando que nós nem sequer havemos de confiar ao mundo civilizado os resultados da nossa opressiva aliança, exerce sobre nós uma verdadeira tirania, de um género que não conheço outros exemplos na história das nações.”

O diplomata português confessou abertamente a Lord Russell a sua profunda indignação e esperava, no entanto, que houvesse uma reparação aos atos praticados pelo governador da colónia do Cabo.

A Inglaterra não tinha argumentos que pudesse contrapor para justificar o direito a ocupar as ilhas da baía de Lourenço Marques. A Inglaterra sabia que Portugal não tinha forças para evitar as prepotências britânicas. Nestas condições, só restava a Portugal o recurso de negociar, a arbitragem era o único meio que Portugal dispunha para poder segurar as suas possessões. E o Governo português procurou alianças. A 29 de julho de 1869 assinava-se em Pretória um Tratado de paz, amizade, comércio e limites entre Portugal e a República do Transval, seguiram-se protestos britânicos. A diplomacia portuguesa reagiu apelando para que se terminasse amigavelmente a questão de Lourenço Marques. Indicou-se então como árbitro o Presidente da República Francesa, Mac-Mahon pronunciou em 24 de julho de 1875 a sentença arbitral dando completa satisfação às reclamações portuguesas, o que veio consolidar o domínio português na Província de Moçambique. O Governo britânico aceitou a decisão do árbitro. Fez-se um novo Tratado com o Transval, estipulando a construção do caminho-de-ferro Lourenço Marques a Pretória, isto em 1875, e no ano seguinte Portugal assinou um Tratado com o Estado Livre de Orange sobre as mesmas bases do Tratado de Transval.

O Marquês do Lavradio vai agora demoradamente debruçar-se sobre a questão do Zaire e a Conferência de Berlim, temas-chave para o reconhecimento de Portugal como potência colonial e porta de saída para a reconfiguração de territórios coloniais com as presenças francesa, britânica, portuguesa e alemã. Lembra o autor uma citação num livro sobre a colonização dos povos modernos, da autoria de Leroy Beaulieu:
“Portugal pela sua inércia, incapacidade e corrupção, devidas ao tráfico negreiro, deixou passar o momento propício de reconstituir um florescente império português em África.”

D. José Maria do Espírito Santo de Almeida Correia de Sá, 6.º Marquês do Lavradio (1874-1945)
Chegada de um comboio oriundo do Transval à então novíssima estação ferroviária de Lourenço Marques (1ª fase) pouco depois da inauguração, ocorrida em Março de 1910 (note-se que a imagem foi recolhida já após o golpe de Estado que impôs uma república em Portugal, evidenciado pela bandeira nacional verde e vermelha, imposta pelo regime republicano). A estação inicial, muito mais rasca, que ficava do lado direito deste e mais ao fundo, ainda existe, mas foi desativada na altura (Ver o postal em baixo). Se o Exmo. Leitor reparar, ao fundo ainda não se vê a parte de trás da fachada que daria para a Praça (então chamada Azeredo, depois Mac-Mahon, hoje dos Trabalhadores) e que seria construída posteriormente e concluída cerca de 1916 (2ª fase). Note-se ainda a torre de iluminação elétrica, que na altura era considerado o píncaro da modernidade e que permitia utilizar a estação quando os comboios partiam e chegavam durante a noite.
Navios fundeados em frente a Lourenço Marques, 1895. Em primeiro plano, barcaças chatas. Esta foto foi tirada aquando dos ataques a Lourenço Marques, que motivaram os portugueses a enviar uma expedição ao Sul de Moçambique, chefiada por António Ennes e que incluía, entre outros o Major Mouzinho de Albuquerque.

Estas duas imagens foram retiradas do site The Delagoa Bay World, com a devida vénia

(continua)

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Notas do editor:

Vd. post de 20 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27754: Notas de leitura (1898): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (3) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 23 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27764: Notas de leitura (1899): "Amílcar Cabral O Africano que Abalou o Império", por José Alvarez, Âncora Editora, 2025 (3) (Mário Beja Santos)

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27772: Documentos (60): A retirada de Madina do Boé (Gustavo Pimenta, ex-alf mil, CCAÇ 1790, 1967/69), autor do livro saieòmeM (Palimage, Coimbra, 1999, 120 pp.), apresentação do jornalista e escritor José Manuel Saraiva (Porto, 1999)


Gustavo Pimenta: 

(i) nasceu em Ponte de Lima; (ii) fez o ensino básico e secundário em Viana do Castelo: (iii) licenciou-se em Direito na Universidade do Porto: (iv) fez o serviço militar, que incluiu a passagem pela guerra colonial na Guiné-Bissau (CCAÇ 1790, 1967/69); (v) foi deputado à Assembleia da República e membro da Assembleia Municipal do Porto; (vi) foi docente no ISMAI – Instituto Universitário da Maia, no IPMAIA – Instituto Politécnico da Maia e na ISMAI – Universidade da Maia; (vii) em 2018, foi agraciado pela Câmara Municipal do Porto com a “Medalha de Mérito, Grau Ouro”, com imposição em cerimónia pública de 9 de julho de 2018.

Obras publicadas (em poesia e prosa, excluindo livros técnicos):

• siaròmeM - Guerra Colonial (Palimage, 1999 - crónica)
• Retratos de um país encantador (Palimage, 2001 - contos)
Em nome da Grei (Palimage, 2003 - romance)
• O chão perfeito (Palimage, 2004 - poesia)
• Triângulo escaleno (Palimage, 2016 - poesia)
A sorte de ter medo (Palimage, 2017 - romance)
• O lugar do vazio (Palimage, 2021 - poesia)
• Íntimo labirinto (Palimage, 2023 - poesia)

Fonte: Palimage, Coimbra


Capa de siaròmeM - Guerra Colonial (Palimage, 1999, crónica)


Colecção Imagens de Hoje
Género: Crónica de guerra (colonial)
ISBN: 972-8575-04-1
Ano: 1999
Páginas: 120
Dimensões: 14.8x21.0cm
P.V.P.: € 11.00

Descrição:
A realidade, sublimemente contada, ultrapassa sempre a ficção. Da leitura paralisante, este relato da vida prende-nos à sua conclusão, afinal já conhecida, transportando-nos para uma Guiné de quotidiano infernal, onde se emprestam à memória do leitor as pequenas alegrias do dia seguinte e as marcas mais indeléveis que só a guerra consegue deixar. Memórias – sirómeM – de uma geração que se revê inevitavelmente na dor que delas transpira.


Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Setor de Boé > Madina do Boé > 1966 > Vista aérea do aquartelamento. Imagem reproduzida, sem menção da fonte, no Blogue do Fernando Gil Moçambique para todos

Presume-se que a sua autoria seja de Jorge Monteiro (ex-cap mil, CCAÇ 1416, Madina do Boé, 1965/67) ou de Manuel Domingues, membro da nossa Tabanca Grande, ex-alf mil da CCS/BCAÇ 1856, Nova Lamego, 1965/66 (autor do livro: "Uma campanha na Guiné, 1965/67").

Antes da retirada da CCAÇ 1790, em 6/2/1969, e ao lomgo de 13 meses, o aquartelamento e a tabanca terá sido objeto de 243 ataques e flagelações.

Arquivo do  Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2006).


Documentos 

Apresentação (José Manuel Saraiva - Jornalista; Director da "Revista" do Expresso)

Livro: sairòmeM - Guerra Colonial de Gustavo Pimenta

Devo dizer, em primeiro lugar, que estou muito sensibilizado pelo convite de Gustavo Pimenta para fazer a apresentação do seu primeiro livro. Suponho, aliás, que o convite tem sobretudo a ver, para além da sólida amizade que nos liga, com o facto de o autor saber do meu interesse pelo tema que trata o livro – a guerra colonial – e da minha relação com o período mais penoso da geração a que ambos pertencemos.

No final dos anos 60, na Guiné, eu e ele cruzámo-nos sem nos cruzarmos, percorremos trilhos da mesma aventura, navegámos os mesmos rios, pisámos a mesma terra, vivemos os mesmos perigos, suportámos os mesmos sacrifícios, socorremos os nossos feridos, chorámos os nossos mortos, colhemos experiências comuns, e chegámos até a frequentar os mesmos quartéis. Quando – já não sei em que data – a companhia de Gustavo Pimenta esteve em trânsito pela sede do meu batalhão, embora por muito pouco tempo, certamente chegámos a estar tão próximos um do outro quanto estamos agora aqui, nesta sala, a celebrar um acontecimento extremamente importante: a celebração de um novo livro. Quer-se dizer: a celebração do seu primeiro livro. Mas ainda que tenhamos estado na mesma unidade, nunca porém nos encontrámos.

Só mais tarde, devido a uma circunstância feliz, viemos a conhecer-nos em Lisboa, para – já então reconciliados com o nosso passado de guerreiros transitórios – voltarmos à Guiné como homens livres, na companhia de um amigo comum, o tenente-coronel José Aparício, seu antigo comandante. Foi nessa viagem de trabalho e depois dela que nasceu e se desenvolveu a nossa amizade. Uma amizade que ficou para a vida inteira.

Para a maioria dos presentes, senão mesmo para todos, Gustavo Pimenta dispensaria apresentações. Mas, se me permitem, gostaria ainda assim de fazer algumas considerações acerca do autor de sairòmeM. Além de amigo exemplar, Gustavo Pimenta é também um homem de fino trato na relação com os outros, senhor de uma extraordinária verticalidade no confronto com a vida e o mundo que o rodeia.

Durante quase vinte anos fui, na qualidade de jornalista, regularmente à Assembleia da República. E posso dizer, sem qualquer favor prestado, que Gustavo Pimenta foi um dos deputados mais discretos que algum dia conheci nas sucessivas legislaturas que acompanhei. E ser-se discreto não significa, neste caso, ao contrário de muitos outros, infelizmente, um menor empenhamento nos trabalhos do plenário ou nas comissões parlamentares. Esteve sempre onde devia estar, com o mesmo espírito de missão e sentido de dever com que no passado lutou por uma causa em que ele próprio não acreditava.
No seu livro, o autor escreve, a propósito. Passo a citar:

 "Mais do que não sentirmos nosso o que defendíamos, o dilema estava em não sabermos, não entendermos, o que estávamos a defender. Aquela terra, aquelas gentes, por mais hospitaleiras que se nos oferecessem, nada nos diziam. Não éramos dali. Fôramos parar à Guiné como, na roleta das mobilizações, poderíamos ter ido parar a qualquer outra colónia. Coubera-nos em rifa o cu do mundo, dizíamos. Porque o cu do mundo, se existe, é sempre o sítio da nossa perplexa angústia".

Mas regressando ao tempo em que exerceu o cargo de deputado na Assembleia da República, importa sublinhar que foi pela natureza modesta do seu carácter, que decerto lhe vem de uma formação de base muito sólida, que Gustavo Pimenta passou pelo Parlamento sem que se tivesse dado muito pela eficácia do seu trabalho. E, contudo, deixou marcas. Marcas de rigor e respeitabilidade, conforme alguns deputados ainda hoje reconhecem.

A presença na política de Gustavo Pimenta faz-me lembrar uma história singular que teve como protagonista Napoleão Bonaparte e o grande pintor Louis David. Eu conto a história que, porventura, muitos presentes conhecerão.

Um dia, Napoleão chamou David ao seu gabinete de trabalho e pediu-lhe que o pintasse, lhe fizesse o retrato numa gigantesca tela em ordem a perpetuar-lhe a imagem. Honrado com o convite, David perguntou-lhe: "Como quereis que vos pinte?" E Napoleão respondeu: "Quero que me pintes sereno sobre um cavalo branco enfurecido".

Ora, sem querer fazer qualquer analogia entre Napoleão e Gustavo, isto é, entre o imperador francês e o deputado português, e tendo em conta que o autor que nos trouxe aqui nunca pediu nada a ninguém, gostaria de dizer que foi deste modo que sempre vi Gustavo Pimenta, na Assembleia da República: tranquilo, sereno, muito sereno, sobre o cavalo enfurecido do poder.

Além da atitude simples e discreta deste homem perante a vida, dos sentimentos de solidariedade que o habitam, das qualidades humanas a que já fiz referência, e só não me alonguei por respeito à modéstia que o caracteriza, Gustavo Pimenta é também um herói. E não sou eu a dizê-lo.

Há cerca de três anos, a SIC passou um documentário sobre a guerra colonial. Nesse documentário, que relata um dos episódios mais tristes e violentos da guerra em África, participaram, entre outros antigos combatentes, Gustavo Pimenta, o tenente-coronel José Aparício, seu antigo comandante, e vários oficiais dos exércitos português e guineense.

O filme conta a história da operação militar da retirada da Companhia 1790 do aquartelamento de Madina do Boé, durante a qual morreram 46 militares, 15 dos quais pertencentes ao pelotão comandado pelo ex-alferes miliciano Gustavo Pimenta. 

A tragédia, de incomensuráveis proporções, ocorreu quando a jangada que ligava as duas margens do rio Corubal, para o transporte dos homens e das viaturas, se virou inexplicavelmente. Muitos salvaram-se, muitos morreram. Vinham de Madina – essa região vasta e despovoada no leste do território, junto à fronteira com a República da Guiné-Conacri – onde a companhia de caçadores, de que fazia parte Gustavo Pimenta, estivera estacionada durante treze meses. E em treze meses, não contando com o número de ataques da forças do PAIGC de duração inferior a dez minutos, que em muitos casos só serviam para causar desestabilização e afectar psicologicamente os militares, o quartel foi bombardeado por 243 vezes.

Sobre a vida tormentosa dos homens que pertenceram à Companhia de Caçadores 1790, desses soldados anónimos que viveram no confronto permanente com a morte, pronunciaram-se no documentário que atrás citei quatro antigos combatentes: dois oficiais portugueses e outros dois guineenses.

Num depoimento emocionado, o brigadeiro Hélio Felgas, que era o comandante da operação e comandante do sector, diz o seguinte: 

"Quando o general Spínola deixou o helicóptero e foi ter comigo, eu estava a chorar. Porque realmente pareceu-me injusto que homens que tanto tinham sofrido, que militarmente haviam sido uns heróis, acabassem por morrer afogados".

Também o general Almeida Bruno se refere aos militares da Companhia 1790 em termos que não deixam margem para dúvidas. Passo a citá-lo: 

"Quero aqui prestar uma homenagem – a minha homenagem pessoal, como comandante que fui – a todos os militares, oficiais sargentos e praças, que viveram e combateram em Madina, que, com uma coragem notável, resistiram não só ao adversário, ao inimigo, como às condições adversas em que viveram. E julgo que um dia a história vai fazer dos militares que viveram em Madina o exemplo típico do soldado português, que é verdadeiramente de excepção".

Sobre a capacidade de resistência e heroísmo dos militares que, como Gustavo Pimenta, viveram e combateram em Madina do Boé, Ierro Camará, antigo guerrilheiro e actual tenente-coronel do exército guineense afirma também. E cito-o:

 "Todos aqueles que combateram em Madina do Boé, tanto da parte portuguesa como da parte do PAIGC, podem ser considerados heróis. São heróis mesmo!".

Ainda no mesmo documentário, o coronel Aliú Camará, ex-comandante da unidade de artilharia que regularmente bombardeava o quartel, falando por si e pelos seus antigos camaradas, diz. Passo a citar:

"Nós rendemos homenagem aos ocupantes de Madina, porque era muito difícil viver naquelas circunstâncias. Sempre à espera dos bombardeamentos, em horas alternadas, às vezes à meia-noite, às vezes ao meio-dia, às vezes no período da tarde, tantas vezes que ninguém pode imaginar aquele sacrifício".

Como disse atrás, não sou eu, mas outros com mais propriedade e conhecimento da realidade do que eu, que se referem ao heroísmo de Gustavo Pimenta e dos seus antigos camaradas, quer dos que morreram em circunstâncias trágicas depois do tormento de Madina, quer dos que tiveram a sorte de sobreviver aos acontecimentos do Corubal.

No seu livro, Gustavo Pimenta lembra o episódio mas, como noutros que relata, fá-lo com a serenidade e o distanciamento de quem acha haver cumprido uma simples missão, sem aclarar, no entanto, que essa e outras tarefas exigiram dele e dos restantes camaradas sacrifícios impensáveis. É do autor s seguinte frase. Cito-o:

"Em cima da jangada vinham dezenas de homens que, durante cerca de treze meses se haviam habituado a mergulhar para a vala mais próxima ou a correr para o abrigo mais à mão, sempre que o som cavo das granadas à saída da boca dos morteiros ou dos canhões sem recuo anunciavam mais um ataque com armas pesadas".

O livro de Gustavo Pimenta não é um romance. É um livro de memórias. Um livro que exclui a existência de heróis – ainda que o tenham sido todos quantos viveram e combateram em Madina do Boé –, um livro que reflecte sobre a existência do sacrifício na sua expressão mais brutal e nos ajuda a reflectir, à distância de 30 anos, acerca da dimensão de uma das maiores tragédias do nosso tempo, à escala nacional. 

Gustavo Pimenta escreve sobre o império do delírio da guerra com um sentimento que nos emociona. Está ali uma parte da sua vida, a partida e o regresso a casa; o relato dos anos perdidos da juventude num país longe, a mais de quatro mil quilómetros de sua casa. É dele a seguinte frase. Passo a citar: 

"Não desejávamos a morte, nossa ou deles, mas ninguém abdica do direito à valentia. Cada combate era sempre uma questão pessoal onde não se prescindia do melhor desempenho. É por isso que os portugueses serão sempre bons soldados".

Sinceramente, nunca li, nas dezenas de livros até hoje publicados em Portugal sobre a guerra colonial, todos ou quase todos ficcionados, uma reflexão desta natureza. Gustavo Pimenta odiava a guerra, combatia contra a sua própria guerra, não queria morrer nem desejava a morte dos outros, dos que lutavam do lado de lá, mas ainda assim não deixa de reconhecer que nem ele nem ninguém abdicaria do direito à vitória de um combate – nem que para isso fosse preciso pôr em causa a própria vida. Escrever isto, no registo em que o faz, constitui uma atitude de coragem digna de louvor. 

Li o primeiro esboço do sairòmeM em Julho passado, quando Gustavo Pimenta me consentiu esse privilégio. É um livro comovente, escrito num registo elegante e poético. E só um homem como Gustavo Pimenta, despretensioso, simples, naturalmente simples, poderia escrever um livro destes.
Não sou crítico literário e por isso não me atreverei a tecer quaisquer considerações técnicas à boa maneira dos críticos literários. 

No entanto, como leitor atento, permitam-me que aconselhe a leitura desta obra, não apenas às pessoas particularmente sensíveis ao tema, mas a todas em geral. Porque além das emoções que se revelam em cada página, há também a beleza da linguagem que nos prende e nos seduz. Felicitemos pois o autor e marquemos desde já com ele um novo encontro para a apresentação do seu segundo título.

Porto, Cooperativa Árvore,
1999.Dezembro.10

Nota do editor LG: Reprodução com a devida vénia. O link original foi desconectado. Recuperado aqui pelo Arquivo.pt.

(Revisão / fixação de texto: LG)
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Nota do editor LG:

Último poste da série > 23 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27762: Documentos (59): A retirada de Madina do Boé (José Martins, ex-fur mil trms, CCAÇ 5, "Gatos Pretos", Canjadude, 1968/70) - Parte II