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sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28394: Notas de leitura (1967): O espólio fotográfico de Álvaro de Barros Geraldo (1955-1975) - 2 (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 7 de Julho de 2026:

Queridos amigos,
É agora a ocasião se sabermos algo mais sobre o proprietário do estabelecimento fotográfico Foto Câmera, Álvaro de Barros Geraldo, um bom conhecedor da Guiné, trabalhou com a imprensa e a RTP, é autor de um filme até agora não localizado e foi um fotógrafo que trabalhou assiduamente com o Governador Spínola, terá fixado residência em Bissau em meados da década de 1950, foi responsável por uma primeira exposição fotográfica de Usos e Costumes da Guiné as suas muitas milhares de imagens repartem-se pela atividade social, a chegada e partida de unidades militares, acompanhar o comandante-chefe em operações, imagens que depois iam ser transmitidas para a metrópole, um sem número de tranches fotográficas que nos revelam até a excisão feminina, vêem-se slides de brancos em festa, a alegria da inauguração do cinema de Bolama, Spínola a falar com um guerrilheiro, o jovem capitão Salgueiro Maia, porventura no Cumeré, à sua chegada em 1971. Um belíssimo livro/catálogo que merecia um maior destaque editorial.

Abraço do
Mário



O espólio fotográfico de Álvaro de Barros Geraldo (1955-1975) - 2

Mário Beja Santos

A exposição e livro sobre trabalhos de Álvaro Barros Geraldo constituiu um acontecimento, revelava-se a obra de alguém que parecia encoberto pelo nome de um estabelecimento fotográfico sediado em Bissau que legou um acervo monumental que está depositado no Arquivo Histórico Ultramarino.

No texto anterior, vários autores pronunciaram-se sobre a problemática arquivística, o legado deste importantíssimo espólio de Álvaro de Barros Geraldo, o historiador Pedro Aires Oliveira contextualizou a governação de Spínola que o fotógrafo acompanhou com a maior das regularidades, vamos agora ver alguns dados biográficos deste fotógrafo até agora pouco analisado. Álvaro de Barros Geraldo (1922-1993) viveu e trabalhou na Guiné-Bissau entre, pelo menos, 1955 e 1974. Poucos elementos biográficos transparecem do espólio. O seu nome não consta no Arquivo Histórico Militar. Terá fixado residência em Bissau, onde realizou, entre 1955 e 1956, a primeira Exposição Fotográfica de Paisagens, Tipos, Usos e Costumes da Guiné Portuguesa, no Museu da Guiné, e era o proprietário da loja e laboratório Foto Câmera, pelo menos desde 1964. Realizou o filme Guiné, Princesa Africana, uma obra cujo paradeiro permanece até hoje desconhecido.

Foi chefe do departamento de fotografia e cinema do Centro de Informação e Turismo da Guiné, correspondente da RTP e chefe do Gabinete Fotográfico do Jornal Voz da Guiné, fundada em janeiro de 1972. Terá também colaborado com a Agência Geral do Ultramar. Ele tornou-se o fotógrafo de confiança do General Spínola. Barros Geraldo regressou a Portugal um pouco antes do 25 de abril. Em Portugal exerceu atividade como fotojornalista no Jornal do Comércio e, mais tarde, no Jornal de Notícias. As curadoras da exposição procuraram obter informações junto de pessoas que com ele trabalharam. José Manuel Barroso, assessor de imprensa do General Spínola, e João Egreja, fotocine ao serviço do exército português convergem na descrição de um homem de trato difícil.

Após a morte do fotógrafo, o seu acervo foi adquirido pela Fundação Gulbenkian, que o doou, em 2000, ao Arquivo Histórico Ultramarino.

Caracterizando a essência deste espólio, diz-se previamente que a exposição não pretendeu ser o resultado de uma investigação exaustiva, é uma seleção de imagens dos tais 82.300 negativos, centenas de provas de contacto, diapositivos, bobines de película etc. etc. A exposição também mostra jornais onde o fotógrafo colaborou. O foco incidiu sobre a Guerra Colonial, mostrou imagens do programa psicossocial Por uma Guiné Melhor, onde se tentou o empoderamento de chefes locais; não faltam imagens de prisioneiros políticos, de armamento apreendido ao PAIGC, fotografias de chefes islâmicos regressados de Meca, acampamentos da Mocidade Portuguesa, abertura de um novo edifício da PIDE/DGS, a presença de Rafael Barbosa, então presidente do Comité Central do PAIGC, a apoiar o programa político Por uma Guiné Melhor.

As curadoras observam:
“Ainda que de forma involuntária, as imagens denunciam a escassez de realizações concretas e expõem a incapacidade estrutural do Governo português em consolidar o seu domínio. Através deste espólio, percebemos como, em plena Guerra Colonial, foi precisamente o conflito que obrigou o regime a tentar efetivar a sua ação colonizadora. Por sua vez, a incapacidade do regime em responder eficazmente à prolongada guerra acabou por catalisar a formação do MFA.”


Referem as mesmas curadoras que a colonização da Guiné só se tornou uma realidade efetiva com o início da Guerra Colonial, apreciação que não aceitamos, pois em período anterior, correspondente ao mandato do Comandante Sarmento Rodrigues foi encetado um esforço administrativo integral, digamos que o General Spínola, em termos de desenvolvimento socioeconómico e cultural deu impulso, com invulgares meios recebidos, ao ímpeto desenvolvimentista impulsionado por Sarmento Rodrigues.

Não se partilha igualmente a opinião das curadoras quanto às imagens dos corpos das mulheres, sugerindo que aparecem em poses manifestamente de dominação, revelando uma posição de autoridade colonial, bem como outros testemunhos que não uma apropriação do olhar etnográfico que não passa de mero protesto de documentação científica.

Se tomarmos em consideração o importante volume de João Loureiro sobre os bilhetes postais da Guiné Portuguesa, constata-se que há um longo histórico, a partir do século XIX de mostrar mulheres seminuas, como, aliás, homens de todas as idades e crianças de todas as idades. Admitamos, em retrospetiva, que esta enormidade de imagens exige reflexão. Aquando da Exposição Colonial do Porto, em 1934, as senhoras protestaram com as mulheres africanas de peito ao léu, acontecimento que deu origem a muitas excursões no Norte para ver um acontecimento nunca visto. Henrique Galvão, o comissário da exposição, foi perentório face ao protesto ético das ditas senhoras e até membros da clerezia: é assim que estes povos vivem, não se pretende esconder a realidade.

A exposição inclui também o período revolucionário, as curadoras recordam a força de elite que era o Batalhão de Comandos Africanos:
“Estes combatentes negros permaneceram à margem das narrativas dominantes sobre o fim da guerra. Foram não só secundarizados neste espólio, como também foram excluídos tanto das celebrações das independências da Guiné-Bissau e de Cabo Verde, quanto do novo regime democrático que então se instaurava em Portugal. A última fotografia do espólio do fotógrafo tem a ver com um incêndio em barracas de cabo-verdianos em Algés de Cima, 1975, o que nos remete para as condições de habitação degradantes destes migrantes que desde o início da década eram uma das forças motrizes da construção civil e dos novos equipamentos urbanos."

“No contexto das comemorações dos 50 anos das independências das antigas colónias portuguesas em África, debruçamo-nos sobre um espólio fotográfico inédito que coincide com o período da guerra colonial e das lutas de libertação. Álvaro de Barros Geraldo (1922-1993), fotógrafo português a viver na Guiné-Bissau desde meados de 1950, registou de perto este período marcado por tensões e profundas transformações sociais e políticas (…) Este livro, tal como a exposição homónima, constitui um contributo para a problematização crítica dos legados do colonialismo português. Através da fotografia e de investigação histórica, propõe-se revisitar a memória do passado colonial e refletir sobre o forjar de identidades nacionais, assim como o contexto pós-revolucionário em Portugal.

Para além de imagens de Álvaro de Barros Geraldo – que oferecem um olhar singular sobre a construção de narrativas visuais –, este livro reúne contributos de investigadores que questionam a história, a memória e a continuidade de estruturas coloniais nas dinâmicas do presente”.

Texto de apresentação para a exposição Imaginários da Guiné-Bissau, reproduzido na contracapa do livro
Catarina Laranjeiro e Inês Vieira Gomes são as curadoras da exposição Imaginários da Guiné-Bissau. O espólio de Álvaro de Barros Geraldo (1955-1975), que será inaugurada no Museu Nacional de História Natural e da Ciência, em Lisboa, no dia 8 de Maio às 18h.

Partindo de parte de um acervo do Arquivo Histórico Ultramarino de cerca de 82 mil negativos (bem como um conjunto de slides e provas de contacto) da Guiné-Bissau e Lisboa, as curadoras investigaram o papel da fotografia na construção do argumento de “manutenção de paz” num território em guerra. Este espólio inédito, nunca antes estudado, exposto ou devidamente catalogado pertenceu a Álvaro de Barros Geraldo (1922-1993), fotógrafo de trajetória enigmática, cuja biografia fragmentada exigiu uma leitura crítica do seu legado. Através de fotografias de emboscadas, cerimónias protocolares e iniciativas militares e sociais, Catarina e Inês procuraram analisar criticamente como esse discurso legitimou e perpetuou tensões pós-coloniais ao longo dos séculos XX e XXI.

Para os interessados fica o site do Inventário do Acervo Fotográfico do Arquivo Histórico Ultramarino: https://ahu.dglab.gov.pt/wp-content/uploads/sites/24/2016/09/PT-AHU-FOT.pdf
Inauguração do cinema, Bolama, 4 de março de 1971
Slide, sem título, sem data, lê-se no cartaz de pano Nhacra Felicita Homem Grande
Horácio Caio, considerado o primeiro repórter de guerra da televisão portuguesa, chega a Bissau em 15 de janeiro de 1974. Diz no texto que o acompanha em segundo plano Baltazar Rebelo de Sousa, então Ministro do Ultramar, o que não é verdade. Mas, efetivamente, nesse dia chegou a Bissau o Ministro em visita oficial.
Acampamento da Mocidade Portuguesa, Quinhamel, 1 de abril de 1969, à esquerda pode-se ver o Secretário-Geral do Governo, Tenente-Coronel Pedro Cardoso.
Chegada de tropas e despedida de fuzileiros, 11 de julho de 1971. O capitão Salgueiro Maia em destaque.
Operação Sul, 21 de abril de 1972
Governador em entrevista com um elemento do PAIGC, 14 de junho de 1970
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Notas do editor:

Vd. post de 25 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28376: Notas de leitura (1965): O espólio fotográfico de Álvaro de Barros Geraldo (1955-1975) - 1 (Mário Beja Santos)

Último post da série de 28 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28382: Notas de leitura (1966): "Os Anos da Guerra, 1961/1975, Os Portugueses em África, Crónica, Ficção e História", por João de Melo; Círculo de Leitores e Publicações Dom Quixote, 1988 - 1 (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28382: Notas de leitura (1966): "Os Anos da Guerra, 1961/1975, Os Portugueses em África, Crónica, Ficção e História", por João de Melo; Círculo de Leitores e Publicações Dom Quixote, 1988 - 1 (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 9 de Maio de 2026:

Queridos amigos,
A iniciativa antológica de João de Melo foi o ponto de partida para outros estudos e investigações e é de elementar justiça recordar Rui de Azevedo Teixeira e Margarida Calafate Ribeiro. Estávamos em 1988 e o autor de "Gente Feliz com Lágrimas" questionava se havia uma geração literária da guerra colonial, pelo que hoje se sabe este subgénero literário cresceu e multiplicou-se, tem ficção e História, já conheceu algum esplendor na literatura memorial e iniciativas se multiplicam para conhecer outros agentes que não propriamente os ex-combatentes, caso das mulheres, das enfermeiras paraquedistas, de quem recebia correio com a assumida responsabilidade de ser madrinha de guerra e, mais adiante, filhos de ex-combatentes interrogam o significado da guerra que os pais viveram e, inclusivamente, como aquela guerra veio a confluir no destino das famílias.Vamos agora ao segundo volume, que este foi só o primeiro.

Um abraço do
Mário



Revisitar uma obra de referência sobre a história da literatura da guerra colonial - 1

Mário Beja Santos

Os levantamentos de obras literárias relacionadas com a guerra colonial são poucos e estão perfeitamente identificados. A primeira iniciativa coube ao escritor e ex-combatente João de Melo, a primeira edição de Os Anos da Guerra, 1961/1975, Os portugueses em África, Crónica, Ficção e História, data de 1988 e abarca obras que se prendem com a preparação militar, os teatros de operações da Guiné e Angola, obra em dois volumes com edição do Círculo de Leitores e Publicações Dom Quixote. Como é óbvio, a edição está completamente esgotada, mas ainda é possível através de vendedores online conseguir adquiri-la por cerca de 30€.

João de Melo abre a edição refletindo sobre a colonização portuguesa, a literatura de guerra, questiona se há ou não uma geração literária da guerra colonial, põe em cima da mesa um lote de nomes da escrita, não esquecendo os nomes daqueles que escreveram literatura colonial anteriormente à guerra. Cabe a Joaquim Vieira um ensaio sobre África na década de 1960. À data em que escreve este ensaio, 1984, reescrevendo-o em 1987, falando desse lote de obras já publicadas, dirá não acreditar que existisse uma reconhecida obra-prima. Juízo temerário, digo eu, a este tempo já tinham sido publicadas algumas obras de arromba, e cito: Nó Cego, por Carlos Vale Ferraz, Os Cus de Judas, por António Lobo Antunes, Lugar de Massacre, por José Martins Garcia e Autópsia de um Mar de Ruínas, por João de Melo (a primeira edição é irrefutavelmente uma obra de referência. Acresce que Os Anos da Guerra é de algum modo uma conversa em sala de espelhos, aparecem os escritores portugueses e os escritores africanos independentistas, tais como José Luandino Vieira ou Pepetela.

Limito-me agora a algumas lembranças de escritores intervenientes neste primeiro volume.

Primeiro, um extrato do romance de Álamo Oliveira intitulado Até Hoje (Memória de Cão, 1967), nitidamente autobiográfico, um suspiro de quem vem da Ilha Terceira:
“Viera da ilha com seus horizontes azuis, punhados de verde e réstias de cinza. A grandeza da terra diminuía perante a grandeza do mar que assumira como seu. Viera como cavalo manso atrelado à carroça da Pátria – esse fetiche desmantelado que há muito lhe devorava os intestinos para vomitar de seguida o asco, a pobreza, enchendo o saco da sua história de lixo triste e podre. Era pela ilha que João se deixava escorregar, a memória atada a todos os tempos, lugares, pessoas, sonhos intemporais. Ilha redonda ou pão de milho, hóstia desconsagrada de franja roída, suas gentes voltadas para o mar – o deus do pão e da aventura e também do medo e da saudade. João vinha do lado norte mais alto e ventoso, os campos rasos e verdes, casas a brilhar de cal, pequenas, baixas, conchas perdidas na ilha perdida. Passara a infância embrulhado no cheiro saboroso que o suor empresta às pessoas, ao tempo, às coisas. Eram perfumes silvestres – muita bonina, conteiras, faias do Norte, quase bedum de esperma, queijo (…) E João, perdido naquele barco enorme, no meio de mil duzentos e cinquenta e três homens, lá ia a caminho da guerra como se fosse voluntário dela. Destino: Guiné.”

Segundo, um extrato de Autópsia de um Mar de Ruínas, de 1984, também nitidamente autobiográfico:
“O furriel enfermeiro sacou rapidamente da faca-de-mato e cortou-lhe as calças, o dólman e a camisa. Fazia-o com a determinação dos homens perdidos, dos homens que não iriam, nunca mais, perder a sua memória dos outros e de si mesmo. Cortava grandes pedaços de tecido à navalhada e estava já ensopado daquele suor de lágrimas que tem a espessura da chuva e o salitre de uma navegação mortal. Ao ver os intestinos espalhados por todo o baixo-ventre do ferido, abriu muito os olhos e disse três caralhos à vida, duas porras e três conas de madrinhas-de-guerra aos capitães do Norte e, pondo-se a coçar a cabeça, sem saber o que faria àquele balão fumegante, começou por tomar as mãos do Gonçalves e disse:
- Juro que não te vou deixar morrer, irmãozinho.

Aquelas mãos estavam, porém, tão rígidas, nos dedos entrelaçados que formavam uma concha para segurar as suas vísceras, que nenhuma promessa as obrigaria a deixar de praticar o último grande gesto da sua vida.

- Pelo amor de Deus, meu furriel: tenho mulher e três filhos!

Um por um, os dedos do furriel soltaram os dedos do soldado, e então as tripas rolaram-lhe um pouco para as virilhas e pareceram aumentar de volume. Eu vi duas solidões – de – homem enfrentarem-se num olhar; ouvi que um deles continuava a lembrar três filhos e uma mulher, enquanto o outro dizia porra, porra, porra; dizia Chamem-me um helicóptero, Chamem-me um helicóptero com médico e serviço de sangue e dizia-me a mim Onde está o alferes? E disse-me ainda, sempre no mesmo tom, como quem comanda uma tribo contra um incêndio ou chama os náufragos todos pelo nome:
- Corre-me aí à frente a ver se há outros feridos graves, Renato. Chama-me o alferes. É preciso um helicóptero com serviço de sangue.

Corri, corri, corri, e nunca mais deixarei de correr por ali fora; tropeçava em tudo, caía, levantava-me. Havia na minha boca um sabor a vísceras expetoradas e eu caía de novo. Fugir por ali adiante e nunca mais deixar de correr o resto da vida, assim mo pediam todos os órgãos conhecidos e desconhecidos do meu corpo, enquanto não sobrevinha um enorme vómito de mar ou um tiro que pusesse termo à minha solidão de animal acossado pelo fogo. Aquelas coisas não podiam estar a acontecer-me a mim: vira-as algumas vezes nos filmes, ouvira falar delas à distância e com ouvido distraído; faziam parte da morte dos outros e só deles, não podiam estar agora a acontecer-me a mim (…) – Ajuda-me, Renato. Ai, que eu morro!

Ajoelhei-me ao lado de Sérgio e pensei em poder acariciar devagarinho o seu pequeno rosto ainda imberbe. Tinha todo o mundo fechado nas minhas costas: limbo, cemitério novo, morte miúda e cada vez mais numerosa da minha aflição, não podia ver nem ouvir mais nada. Dei uma corrida para junto do furriel enfermeiro, disposto a trazê-lo de empurrão na minha frente, e fui dar com ele de joelhos no chão, lavado em suor. Não era certo que rezasse, por quanto vi que procurava desesperadamente a veia perdida do Gonçalves. Que tenho três filhos e uma mulher, meu furriel! E pensava ainda poder aplicar-lhe um soro e cumprir a promessa de que não o deixaria morrer. Acabara de ligar-lhe todo o ventre e administrara-lhe repetidas doses de hemostáticos, os sopros angélicos das suas ampolas de cardiotónicos, os sininhos mágicos das suas mãos de fada com avental de mãe de Deus. Era um homem desesperado porque lutava contra esse cordão azul que se perdia no fundo da carne, tentado pescar o seu último peixe com o anzol da agulha mal biselada.”


Ex-combatente e escritor João de Melo
Álamo de Oliveira (1945-2025)
Manuel Alegre, deve-se-lhe o mais belo poema feito por um português sobre a guerra colonial
Álvaro Guerra (1936-2002)

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 25 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28376: Notas de leitura (1965): O espólio fotográfico de Álvaro de Barros Geraldo (1955-1975) - 1 (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28376: Notas de leitura (1965): O espólio fotográfico de Álvaro de Barros Geraldo (1955-1975) - 1 (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 6 de Julho de 2026:

Queridos amigos,
Terá sido uma exposição esplêndida, uma oportunidade em conhecer o espólio deste fotógrafo que tinha estabelecimento em Bissau e que se revelou particularmente ativo na governação de Spínola. Este espólio tem a sua história que aqui se conta, uma técnica conceituada, Catarina Mateus, reflete sobre questões de acesso, legado e poder colonial, para nos lembrar a exiguidade de recursos, daí poder dizer-se que deste espólio monumental só se conhece um vislumbre. Foi convocado o historiador Pedro Aires Oliveira para contextualizar a governação de Spínola, nela mergulhou este fotógrafo, registando um sem número de eventos. Deixamos para o texto seguinte as considerações das curadoras da exposição do que foi organizar a partir do Arquivo esta exposição de que resulta este livro/catálogo que conheceu uma edição muito magra, trezentos exemplares.

Um abraço do
Mário



O espólio fotográfico de Álvaro de Barros Geraldo (1955-1975) - 1

Mário Beja Santos

A exposição e livro sobre trabalhos de Álvaro de Barros Geraldo constituiu um acontecimento, revelava-se a obra de alguém que parecia encoberto pelo nome de um estabelecimento fotográfico sediado em Bissau que legou um acervo monumental que está depositado no Arquivo Histórico Ultramarino.

A então colaboradora técnica deste arquivo, Catarina Mateus, depõe no livro/catálogo: que tomara conhecimento deste espólio em 2025, pois na altura integrava uma equipa que se ocupava da identificação e diagnóstico do vastíssimo acervo fotográfico do Instituto de Investigação Científica Tropical; no ano seguinte, em 2006, iniciaram-se os tratamentos às coleções.
“Foi neste contexto que o espólio de Álvaro de Barros Geraldo (ABG) foi integrado no Arquivo Histórico, analisado e diagnosticado. Estima-se um acervo de 82.300 fotografias, maioritariamente negativos em película de 120mm e de 35mm, e um conjunto de slides e provas de contacto, para além de uma pasta com documentação impressa e recortes de imprensa. Excetuando estes últimos, todos os negativos se encontram embalados em envelopes de papel, devidamente identificados, que por sua vez, se encontram em caixas de cartão distribuídas por ano. Documentam uma década de trabalho deste fotógrafo que, estabelecido com uma casa comercial de fotografia na Guiné-Bissau a partir da década de 1950, acompanhou de perto as movimentações políticas sociais e culturais, que registou entre os anos de 1966 e 1974.”

Porventura e atendendo a estas datas, convidou-se o historiador Pedro Aires Oliveira a depor sobre a governação de Spínola na Guiné, de algum modo ABG colaborou para a sua imagem, as suas fotografias aparecem na publicação Voz da Guiné e tratadas em meio local. O historiador procura dar sentido histórico à ação desenvolvida por este governador, apresentada em inúmeras fotografias. Instalado em Bissau, a partir de finais de maio de 1968, foi delineando o seu plano de contrassubversão, plano esse sistematizado através de um conjunto de Diretivas do Comando-Chefe.

Em Lisboa, recebe-se um diagnóstico por ele escrito que era devastador, relevava a desmoralização das forças portuguesas, a deficiência no campo das informações e à forma como o dispositivo militar se encontrava organizado – dispersão excessiva em aquartelamentos sujeitos à flagelação persistente do inimigo; para inverter este estado de coisas, o Comandante-Chefe recria uma mais completa unidade de comando (uma maior concentração de todas as competências operacionais) e pedia meios compatíveis para reequilibrar o estado da guerra, atendendo à notória falta de armamento e equipamento dissuasor. Vieram helicópteros Alouette III, equipamentos de transmissões, reforços para a Marinha, uma expansão da estrutura local da PIDE/DGS, ao mesmo tempo que se criava um novo serviço de informações.

Pedia inovações e obteve-as: a preparação dos efetivos a realizar no final da especialidade passariam a ser feitos na Guiné; e acentuou a africanização do recrutamento, deu-se ênfase a tropas de elite guineenses, envolvendo comandos, fuzileiros e tropas especiais. Na linha dos ensinamentos da guerra contra subversiva, foi criado o programa Por uma Guiné Melhor, criaram-se aldeamentos, diques, escolas, melhoraram-se as estruturas habitacionais, algumas destas com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian; a ação psicossocial e da propaganda ganhou novo fôlego, com o uso do panfleto, do cartaz, dos materiais audiovisuais, da fotografia, sobretudo, da rádio, esta passou a ter emissões em línguas nativas.

É evidente que tudo isto é matéria consabida, por muito carisma pretoriano que acompanhasse toda esta ação, como observa o historiador, acabou num beco sem saída, Marcello Caetano recusou-lhe a negociação com a força nacionalista, deu mesmo a entender que não era forçoso que os exércitos vencessem em todas as circunstâncias, o que veio agitar o fantasma da União Indiana, em que o regime encontrou os seus bodes expiatórios.

E assim passamos do Arquivo à exposição e a olhar o espólio de ABG como uma indeclinável fonte documental relevante. O texto de Inês Vieira Gomes e Catarina Laranjeiro, intitulado do Arquivo à Exposição: Guerra Colonial, Revolução e o Espólio de ABG retoma as considerações de Catarina Mateus, a então conservadora de fotografia do Arquivo Histórico Ultramarino.

“Mostrar este espólio no contexto das comemorações dos 50 Anos do 25 de abril pareceu-nos extremamente pertinente. Esta retrospetiva revela não só a importância histórica na guerra da Guiné-Bissau para as independências das ex-colónias portuguesas, mas também o seu papel central na própria Revolução de Abril. A Guerra Colonial continua frequentemente ausente daas comemorações do 25 de abril, como se se tratasse de um capítulo incómodo que o regime democrático preferisse manter à margem da memória pública.”

As autoras põem enfâse no número dos efetivos militares, lembram as obras plásticas produzidas, algumas delas entraram em sinergia com o período da exposição que decorreu no Museu Nacional de História Natural e da Ciência.

Fala-se então do espólio:
“A parte da Guiné-Bissau no inventário do Arquivo Histórico pode ser subdividida em dois conjuntos temáticos. O primeiro é constituído por reportagens que documentam atividades sociais, políticas e desportivas. Incluem-se aqui receções protocolares, inaugurações de edifícios, visitas oficiais, procissões, atividades escolares, bem como atividades e operações militares. Nestes registos, destaca-se as exibições de armamento apreendido ao PAIGC, e a libertação de prisioneiros, entre outros eventos. Imagens de propaganda. O segundo conjunto insere-se no amplo desígnio de usos e costumes: retratos, danças ou outras expressões culturais, detalhes (penteados, tatuagens, roupas, acessórios). É evidente o modo como a fotografia foi apropriada no contexto colonial: homens e mulheres são fixados pela câmara como objetos etnográficos, captados num olhar que os classifica e os distancia, reiterando uma visão hierárquica e exotizante sobre as populações colonizadas. É notável a forma como ABG organizou o seu espólio.”

Veremos depois a biografia controversa e fragmentada de ABG, mostrando mais um acervo fotográfico das suas imagens.

“No contexto das comemorações dos 50 anos das independências das antigas colónias portuguesas em África, debruçamo-nos sobre um espólio fotográfico inédito que coincide com o período da guerra colonial e das lutas de libertação. Álvaro de Barros Geraldo (1922-1993), fotógrafo português a viver na Guiné-Bissau desde meados de 1950, registou de perto este período marcado por tensões e profundas transformações sociais e políticas (…) Este livro, tal como a exposição homónima, constitui um contributo para a problematização crítica dos legados do colonialismo português. Através da fotografia e de investigação histórica, propõe-se revisitar a memória do passado colonial e refletir sobre o forjar de identidades nacionais, assim como o contexto pós-revolucionário em Portugal.

Para além de imagens de Álvaro de Barros Geraldo – que oferecem um olhar singular sobre a construção de narrativas visuais –, este livro reúne contributos de investigadores que questionam a história, a memória e a continuidade de estruturas coloniais nas dinâmicas do presente”.

Texto de apresentação para a exposição Imaginários da Guiné-Bissau, reproduzido na contracapa do livro
Catarina Laranjeiro e Inês Vieira Gomes são as curadoras da exposição Imaginários da Guiné-Bissau. O espólio de Álvaro de Barros Geraldo (1955-1975), que será inaugurada no Museu Nacional de História Natural e da Ciência, em Lisboa, no dia 8 de Maio às 18h.

Partindo de parte de um acervo do Arquivo Histórico Ultramarino de cerca de 82 mil negativos (bem como um conjunto de slides e provas de contacto) da Guiné-Bissau e Lisboa, as curadoras investigaram o papel da fotografia na construção do argumento de “manutenção de paz” num território em guerra. Este espólio inédito, nunca antes estudado, exposto ou devidamente catalogado pertenceu a Álvaro de Barros Geraldo (1922-1993), fotógrafo de trajetória enigmática, cuja biografia fragmentada exigiu uma leitura crítica do seu legado. Através de fotografias de emboscadas, cerimónias protocolares e iniciativas militares e sociais, Catarina e Inês procuraram analisar criticamente como esse discurso legitimou e perpetuou tensões pós-coloniais ao longo dos séculos XX e XXI.

Para os interessados fica o site do Inventário do Acervo Fotográfico do Arquivo Histórico Ultramarino: https://ahu.dglab.gov.pt/wp-content/uploads/sites/24/2016/09/PT-AHU-FOT.pdf
João Egreja e Álvaro de Barros Geraldo na fronteira do Senegal, Pirada, 14 de junho de 1972
Ramadão, 27 de fevereiro de 1969
Congresso de Etnia Balanta, 22 de abril de 1972
Chegada do Duo Ouro Negro, 4 de novembro de 1969

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 23 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28372: Notas de leitura (1964): "Coragem, Altruísmo e Fé", biografia da cap enf pqdt Eugénia do Espírito Santo Sousa (Ribeira Grande, Santo Antão, Cabo Verde, 1935 - Sesimbra, 2025): comentário da autora, Rosalina Coelho Vaqueiro

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28372: Notas de leitura (1964): "Coragem, Altruísmo e Fé", biografia da cap enf pqdt Eugénia do Espírito Santo Sousa (Ribeira Grande, Santo Antão, Cabo Verde, 1935 - Sesimbra, 2025): comentário da autora, Rosalina Coelho Vaqueiro


Capa do livro de Rosalina Coelho Vaqueiro - "Coragem, Altruísmo e Fé". Lisboa: Chiado: Books, 2025, 540 pp.


1. Comentário de Rosalina Coelho Vaqueiro ao poste P28102 (*)

Muito grata ao Dr. Mário Beja Santos que teve a gentileza de referir aqui os meus "escritos" sobre a história de vida da minha querida amiga Geninha, essa pessoa extraordinária que tive a sorte de conhecer (*). 

Tentei transcrever o mais fielmente possível as histórias que a minha amiga me foi contando ao longo dos tempos, na minha forma simples de escrever.  

Era minha intenção trabalhar mais o texto e pedir a alguém que tivesse acompanhado a minha amiga nos tempos da guerra para fazer uma leitura crítica 

No entanto tudo isso implicaria muito mais tempo - meses provavelmente - até ter o livro pronto e eu queria que ela tivesse o prazer de ter a sua história em papel e poder oferecê-la aos amigos. 

Felizmente ainda fui a tempo (**). Mesmo internada no Hospital das Forças Armadas foi muito gratificante entregar-lhe o livro em mãos. 

Acrescento aqui que concorri a um concurso de biografias organizado por uma editora brasileira para os escritores de língua portuguesa espalhados pelo mundo e a história da nossa Eugénia agradou ao júri que lhe deu o 1º lugar. 

Não é um grande prémio literário, mas ainda assim, é gratificante para uma humilde "escrevinhadora" como eu.

Mais uma vez, muito grata pelas gentis palavras sobre o meu trabalho de escrita e a história da nossa extraordinária amiga.

segunda-feira, 21 de setembro de 2026 às 14:41:09 WEST
(Seleção, revisão/fixação de texto: LG)
 

2. Sinopse do livro:


(...) Aos dois anos e meio fiquei sem mãe. Fui ao funeral ao colo de vizinhos e aquele povo ia passando a minha pessoa de mão em mão. Eu pensava que não devia chorar porque elas podiam arrepender-se de me tomar para criar. Desde muito cedo tive a percepção de que nada naquela casa pertencia-me. Elas davam-me tudo, mas eu sabia que nada era meu.

A partir de 1945 houve seca em Cabo Verde e eu vi pessoas morrerem de fome. O padre perguntou-me se cometia pecados das tentações da carne e eu não sabia o que isso era.


Subestimávamos o sono e a comida. O sofrimento da pessoa a ser evacuada não nos deixava pensar na fome. Dávamos o nosso tempo para tentar salvar vidas. Naqueles dias difíceis tínhamos que aguentar firme, encerrar o medo de morrer e não pensar.

Guiné 1973. Estava toda a agente a morrer e os aviões a cair. Todos os dias perdíamos algum colega ou piloto. As baratas davam-me a certeza de estar viva. Ao vê-las no meu quarto eu me beliscava falando baixinho: "Agora já sei que estou viva".

No avião, a ser evacuado para Lisboa o soldado, paralítico e sem sexo não queria ver a namorada e chorou agarrado ao meu pescoço. As minhas lágrimas juntaram-se às dele. (...)

(Fonte: Wook)


3. Sobre a autora: Rosalina Coelho Vaqueiro:


(i) nasceu em 1954, em Sesimbra!

(ii) tradutora, professora de inglês, correspondente de Línguas Estrangeiras;

(iii) em 2014 alcança o 2º lugar entre 1.265 concorrentes no Concurso Internacional de contos juvenis - "Prémio Cultural O Feiticeiro das Letras" no Brasil, com o seu conto "Feiticeira Maga";

(iv) em 2015 representa Portugal, como júri, no Campeonato Internacional "Troféu Corujão das Letras", no Brasil;

(v) é convidada para Júri no Concurso "Até que a vida nos separe" da Editora Papel D'Arroz;

(vi) em 2016 participa no II Encontro de Escritores brasileiros e portugueses, em Lisboa;

(viii) em 2023 é convidada a participar com oito poemas num coletivo de poesia das Edições Vieira da Silva, destinado apenas a 13 autores selecionados;

(ix) participa, como coautora, em mais de 80 Coletâneas e Antologias, de prosa e de poesia, de diversas editoras, em Portugal e no Brasil.

(x) em 2025 lança no mercado "Coragem, Altruísmo e Fé", a biografia de Eugénia Espírito Santo (uma das primeiras enfermeiras paraquedistas de Portugal, nascida em Cabo Verde, em 1935 e falecida em Sseimbra, em 2025).

(xii) foi a vebncedora do Prêmio Literário Clarice Lispector 2026 -  Melhor Biografia, "Coragem, Altruísmo e Fé"

(Seleção, revisão / fixação de texto: LG) (***)

___________________


Notas do editor LG:

(*) Vd. postes de


(**) Vd. poste de 4 de maio de 2025 > Guiné 61/74 - P26763: In Memoriam (546): Eugénia do Espírito Santo Sousa, cap enf pqdt (Ribeira Grande, Santo Antão, Cabo Verde, 1935 - Sesimbra, 2025): era do 2º curso (1962) e passou pelos 3 teatros de operações

(***) Último poste da série > 21 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28366: Notas de leitura (1963): "Sobretudo a Agonia, Angola, Memórias de uma Guerra Íntima", por Celso Braga Rosa, Edições Afrontamento, 2025 (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28366: Notas de leitura (1963): "Sobretudo a Agonia, Angola, Memórias de uma Guerra Íntima", por Celso Braga Rosa, Edições Afrontamento, 2025 (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 19 de Maio de 2026:

Queridos amigos,
Começa a ganhar velocidade de cruzeiro esta nova dimensão da literatura da guerra colonial em que os filhos de ex-combatentes vão pelos trilhos do passado, evocam o percurso do pai, no caso vertente Celso Braga Rosa consegue dar-nos o ambiente de horror que se viveu em Carmona (hoje Uíge) na guerra travada entre o MPLA e o FNLA, a fuga dramática de brancos e pretos, os raptos, os roubos, os vexames, a agonia vivida até chegar um avião que os transportou para Portugal. E temos aqui uma relação não conseguida entre pai e filho, como o autor dirá na parte final, a originalidade desta obra assenta também em escritos que são memórias dos outros, portanto citações adequadas e ajustadas, há citações de sufoco, até lamentos por termos perdido a memória como escreveu António Lobo Antunes em Os Cus de Judas: "Tudo é real, sobretudo a agonia [...] Tudo é real menos a guerra que não existiu nunca: jamais houve colónias, nem fascismo, nem Salazar, nem Tarrafal, nem PIDE, nem revolução, jamais houve, compreende, nada, os calendários deste país imobilizaram-se há tanto tempo que nos esquecemos deles [...]."

Um abraço do
Mário



Nascido em Angola, filho de ex-combatente, uma dilacerada relação com o pai

Mário Beja Santos

É um livro que manda respeito, não só pelo alto mérito da narrativa, um estupendo carrossel de memórias órfãs de Angola e de conflitos familiares ainda com muito por resolver; como, igualmente, uma peça de grande calibre para esta nova abordagem da literatura da guerra colonial em que os filhos peregrinam e se encaminham para os locais onde as famílias, ou tão somente os pais, ficaram indelevelmente marcados pelas experiências da guerra, à procura de sublimação, pelo claro entendimento do que ali aconteceu, para que haja reconciliação ou perdão.

Celso Braga Rosa
Sobretudo a Agonia, Angola, Memórias de uma Guerra Íntima, por Celso Braga Rosa, Edições Afrontamento, 2025, é um livro de dor na recuperação da memória, dotado de uma hábil construção, não faltam múltiplas citações e obras de outros autores, mas tudo num rendilhado com forte coesão destas diferentes vozes. O autor é antropólogo, nasceu em 1973 num ponto do Quanza Norte, vivia em Carmona (hoje Uíge) quando se deram os terríveis combates entre a FNLA e o MPLA, obrigando muita gente a fugir dessa quadra infernal.

A figura central desta memória de uma guerra íntima é o fantasma/espectro do pai, um jovem que parecia destinado ao seminário, em Mogofores, e que fugiu para Angola ao encontro do pai, fazendeiro em Quiculungo, e depois fez três comissões militares antes de passar à vida civil. Celso Braga rendilha primorosamente a trama narrativa, aquele pai não embarcou no cais da Rocha do Conde de Óbidos, não houve lágrimas nem lenços brancos, o pai partiu jovem, fez várias comissões militares em Angola, foi desmobilizado, conseguiu emprego em Quiculungo, no Banco Pinto e Sotto Mayor, aqui casou, Celso nasce a 23 de setembro de 1973, o pai irá revelar-se violento, mas muito pouco comunicativo e terno com o filho.

Um dos momentos mais vibrantes desta narrativa passa pelos acontecimentos que viveu em Angola depois do 25 de abril, aqui se retratam os horrores da guerra civil, os combates mortais entre a FNLA e o MPLA, estamos no Kwanza norte, no início dos acontecimentos, tudo parece decorrer na normalidade, as viagens entre povoações, sob proteção de colunas militares, vão gradualmente tornando-se um risco demasiado grande. Em 1975, a caminho da independência, sai-se da paz podre entre os três movimentos, o autor irá descrever os acontecimentos vividos em Carmona. Havia acordos entre FNLA e a UNITA, nessa Carmona depois batizada de Uíge, a população branca era obrigada a ter o cartão de membro da FNLA.

No final do ano as forças do MPLA já controlavam Vila Salazar, depois rebatizada como N’Dalatando, caminharam para Carmona, traziam um poderio militar muito superior ao da FNLA, vão começar os combates nas ruas, e começa então uma formidável fuga numa coluna de viaturas. “Viam-se pessoas desesperadas nos passeios e assistia-se a discussões entre condutores no meio da rua, gritos e choro por todo o lado, carros batidos no meio da estrada. E os tiros e bombardeamentos sempre ali a estalar nos tímpanos, como uma banda sonora macabra. Viam-se grupos de pessoas fugindo a pé ou tentando pedir boleia aos condutores das viaturas que passavam na estrada. Ninguém se importava com ninguém, num salve-se quem puder.”

E assim se fez uma viagem até junto à fronteira com o Zaire, três dias com inúmeros incidentes, vai seguir-se o horror das rusgas e das intimidações Zairenses e dos combatentes angolanos, os fugitivos serão esbulhados nas diferentes triagens. E depois um Boeing 747 da TAP traz a família para Portugal.

Será um regresso inacabado, a vida daquele agregado familiar conheceu uma amputação, como escreve o autor o seu passado é uma imensidão de falhas, de perdas, de grandes silêncios. Ele guarda boas recordações da Nazaré, onde chegaram no mês de fevereiro de 1978, o pai tinha lugar no banco. Ele descreve-nos a adaptação, o grupo de pequenada que se formou, a hostilidade manifesta para quem tinha vindo de África. A mãe voltou ao ensino, o pai progrediu na agência do Banco, tornou-se numa figura de tranche bastante simpática no meio. A irmã de Celso nasce em 1980. Quando vai estudar para Coimbra, Celso sente-se perdido e sozinho, é como que uma ausência de identidade.

E depois os pais divorciam-se, o pai praticamente desaparece da sua vida. Celso regressa a Angola em 2007. Na véspera de partir, recebe um telefonema do pai, queria marcar um encontro. Em 2009, Celso perde a sua companheira, faleceu num acidente de viação e estava grávida. Recebe novo telefonema do pai, Celso, depois da perda da sua companheira, entra no quadro depressivo, tudo se passa em Angola, depois regressa. Em 2019 encontra-se com o pai, almoçam. “Ao regressar a casa depois de almoço, já sozinho, acabei a censurar-me por não ter feito as tantas perguntas que lhe queria fazer, por não o ter colocado frente aos tantos silêncios que queria entender.” Ainda falam ao telefone em 2021, nesse ano o pai morre num acidente de automóvel.

É muito tocante o sentir da despedida que este antropólogo de profissão nos oferece na atmosfera da despedida do seu pai:
“A morte social não se compadece com a morte física. E por isso o meu pai vive ainda porque o escrevo, porque o esquecimento é o único modo de morrer para sempre, e porque acredito que de cada vez que alguém diz o nosso nome, tornamos a viver, nem que seja por um breve instante. Porque nem todas as estórias e vidas ficam registadas em livro, o meu pai, cujo corpo de transmutou em cinzas que foram entregues ao mar de Sagres no mês de novembro, vive ainda em memórias que guardo em caixas que só eu conheço o paradeiro. Vai-se afastando devagar o passado, indiferente, sem se despedir de mim, alheio à herança que me deixou nas mãos e nas páginas. Ao meu pai, que fez finalmente caminho comigo nestas últimas horas e dias, dir-lhe-ia se pudesse, olhando-o nos olhos: a ti calhou-te a guerra, e as guerras depois da guerra.
Calhou-te talvez ser marido sem que o quisesses ser, pai sem que o tivesses verdadeiramente desejado, e a mim, calhou-me ser teu filho, fazer traduções literárias, amar uma mulher de olhos castanhos. Que nem chegaste a conhecer. Este foi um esforço íntimo e assumido de criação e construção de memória, relato de uma viagem que não vai parar de acontecer. Escolhi o que recordar tanto tempo o que deveria esquecer, e nas memórias de outros não só me busquei como essa busca não se revelou infrutífera: encontrei-me nessas memórias alheias, como se, sem que o soubessem, tantos e tantos escrevessem sobre mim há tanto tempo.”


Um belíssimo romance. Uma originalidade na literatura da guerra colonial (haverá quem diga que se trata de literatura da guerra pós-colonial, conceito em que não acredito).

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Nota do editor

Último post da série de 18 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28357: Notas de leitura (1962): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (6) (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28357: Notas de leitura (1962): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (6) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 27 de Julho de 2026:

Queridos amigos,
Poder-se-á dizer que este trabalho de investigação de Howard W. French está implicado na defesa de uma causa: retirar o papel do negro africano do nével secundário em que a historiografia o pôs, dando ênfase ao papel que os escravos tiveram nos seis séculos de desenvolvimento mundial, isto a contrariar a historiografia que atribui a criação do mundo moderno ao desempenho europeu, às explorações marítimas e aos avanços científicos e tecnológicos ou mesmo a expansão dos ideiais judaico-cristãos. Sendo verdade que a Europa teve um papel central na criação do mundo moderno, o que Howard French vem contrapor é que se impõe trazer África dos africanos para contar verdadeiramente a história detalhada de seis séculos de desenvolvimento mundial, não deixa de trazer um elemento polémico, tal desenvolvimento construiu-se à custa da desumanização e da exploração da África e dos negros, e este continente e este grupo humano precisam de retomar no quadro histórico o papel primacial que lhes cabe.

Um abraço do
Mário



África, os africanos e a criação do mundo moderno, de meados do século XV à Segunda Guerra Mundial - 6

Mário Beja Santos

Despedimo-nos hoje deste apanhado de notas ao estudo histórico Origem: África, por Howard W. French, Bertrand Editora 2022. Em jeito de recapitulação, recorda-se que o autor inicia a sua investigação pelas primeiras explorações do litoral africano, século XV, segue-se a criação da fortaleza de São Jorge da Mina, ouro e escravos começam a inundar a Europa, nos séculos subsequentes o comércio negreiro tornar-se-á crucial para a agricultura de plantação, primeiro o açúcar, seguir-se-á o tabaco e por último o algodão, este elemento económico determinante na industrialização.

Haverá guerras neste Oceano Atlântico, nos dois continentes, África e América, como o autor observa:
“A transição da era do comércio transatlântico de escravos para o advento das colónias europeias em África foi um processo gradual e prolongado, que se estendeu desde o final do século XVIII até ao final do século XIX. Depois dos Estados Unidos terem conquistado a sua independência da Grã-Bretanha, este país começa, pela primeira vez, a pensar seriamente acerca do império em África. O continente tinha sido vital enquanto fonte de escravos para as suas colónias geradoras de prosperidade nas Caraíbas. No entanto, no final da guerra da independência americana, a França tinha-se tornado, graças à sua colónia de Saint-Domingue, o maior beneficiário europeu do complexo de plantação de escravos da região.”

Também o autor questiona as frágeis fundações económicas e institucionais africanas, partiram milhões de escravos de África, o que não impediu que este continente tenha passado no século XX de cerca de 130 milhões para 1000 milhões de pessoas. Durante séculos, os escravos foram submissos, mas no início do século XIX começaram a dar sinais declarados de rebelião. Em dezembro de 1810, um pequeno grupo de escravos, que trabalhava nas terras agrícolas no vale do Baixo Mississípi, conspirou para levar a cabo a maior revolta de escravos da história dos Estados Unidos. Espalharam-se as contestações, a plantação e colheita do algodão era trabalho brutal, atingia as raias do desumano.

A repressão dos colonos foi igualmente brutal, teve um grande impacto na história política do Luisiana e o autor observa:
“Comunidades de plantadores que em tempos tinham olhado para a ideia de integração dos Estados Unidos com desconfiança e hostilidade mostravam-se agora aberto à ideia do Estado. Isto foi fruto de uma crença partilhada de que as suas milícias jamais voltariam a ser adequadas à tarefa de impor a desigualdade radical.”

Temos depois um extenso curso de eventos sobre a Revolução Haitiana, todo o poder branco que a procurou sufocar, de britânicos a franceses, falhou rotundamente. E a análise que o autor faz a estes acontecimentos leva-nos até Nova Orleãs, à cultura dos blues, ao aparecimento de uma dimensão musical que irá ganhar expressão universal. A historiografia norte americana considera que a criação dos Estados Unidos e a sua expansão para oeste se deveu à componente tecnológica, ao engenho dos homens brancos que partiram da Costa Leste e fizeram nascer o vasto deserto americano que se situa a oeste e a sudoeste das montanhas Apalaches. A componente tecnológica teria sido a invenção de um dispositivo, o descaroçador de algodão, introduzido em 1793. Não querendo contestar o papel deste descaroçador, o autor recorda a componente negra e o aumento maciço da produtividade dos escravos nas plantações depois da Luisiana ter sido vendida pelos franceses aos Estados Unidos.

E o autor enfatiza o papel colonizador da expansão americana com sucessivos massacres de nativos americanos para terras dos territórios ocidentais para além do Mississípi. Não esquecer que muitos dos fundadores americanos eram esclavagistas. Tendo procurado comprovar que foram estes africanos que catapultaram a ascensão económica da Europa e conduziram os EUA ao quadro de uma superpotência, o autor deixa aqui derradeiras reflexões:
“O principal pensamento que gostaria de deixar aos leitores é o da participação crucial do povo negro na sua própria libertação e na preservação da jovem união americana. Este foi o segundo ato extraordinário da diáspora africana no sentido de tornar o Novo Mundo seguro para a democracia, sessenta e um anos após a Revolução Haitiana. Em cada secção deste texto, através de histórias sobre o ouro e escravatura em África e de açúcar e algodão, cada uma mais importante do ponto de vista económico e mais transformadora do que a anterior, esforcei-me não só por colocar os africanos e as pessoas de origem africana no Novo Mundo no centro da história da Modernidade e do seu advento, mas também para retratá-los como impulsionadores fundamentais em todas as fases desta história.

A história da escravatura, das plantações e do trabalho negro que gerou o produto mais importante daquela época, o algodão, é, à luz de qualquer padrão razoável, um elemento central nesta imensa mudança humana. Mas isso não é tudo: a atividade económica relacionada com o algodão também impulsionou a banca e os seguros e promoveu o comércio globalizado em escalas nunca vistas. Reformulou profundamente os mapas políticos dos continentes. Posicionou os Estados Unidos como a maior e mais dinâmica potência económica do mundo já no final do século XIX. E ajudou a propulsionar o novo colosso americano a atingir rapidamente o dobro da dimensão da economia britânica em 1914.”


As grandes revoltas do Sul propulsionaram a migração negra para outras partes do país, Chicago foi uma delas. A ideologia da supremacia branca passou a reclamar a deportação do negro para África, foi uma tentativa fruste de querer apagar o movimento historicamente transformador dos povos que saíram de África, atravessaram o Atlântico e chegaram depois ao que se tornou os Estados Unidos continentais. Vinham acorrentados e aprenderam a lutar pelos seus direitos, espalharam-se depois do êxodo dando ao país líderes municipais negros, grandes escritores como Toni Morrison e James Baldwin.

O autor despede-se a falar de si e a razão que o levou a esta investigação:
“A história dos meus antepassados colocou-me no caminho certo para estudar a história mais alargada do mundo Atlântico contida no interior deste livro. O fim da invisibilidade de África na construção daquilo que todos nós conhecemos e experienciamos como o moderno está no cerne dessa luta.”

Impossível não deixar de ter em conta este livro que reconta a história da expansão marítima colocando o continente africano e os seus povos no centro das atenções, o mesmo é dizer que oferece um novo enquadramento da história mundial.


Professor Howard W. French
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Notas do editor

Vd. poste anterior de 11 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28341: Notas de leitura (1959): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (5) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 17 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28353: Notas de leitura (1961): "Geração Afro: Os Últimos Guerrilheiros do Império (por Recaredo / Angelino Santos Silva, ed. autor, 2026, 455 pp.): "como recordar uma guerra sem apagar os homens que nela combateram nem simplificar as razões que os levaram a combater?", eis a pergunta da IA (ChatGPT)

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28353: Notas de leitura (1961): "Geração Afro: Os Últimos Guerrilheiros do Império (por Recaredo / Angelino Santos Silva, ed. autor, 2026, 455 pp.): "como recordar uma guerra sem apagar os homens que nela combateram nem simplificar as razões que os levaram a combater?", eis a pergunta da IA (ChatGPT)


Foto nº 1 > "O primeiro dia no mato"



Foto mº 2 _ Uma bolanha


Foto nº 3 > O autor do seu quarto, algures em Bula, Teixeira Pinto pu Brá, c. 1970/72




Foto nº 4 > Presunivelmengte a escrever um dos seus primeiros aerogarmasa ou cartas para casa, no navio que  o levou para a Guiné, entre 25 e 31 de março de 1970

Guiné > s/l > s/dcf > c- 1970/72 > Fotos do álbum do Angelinmo Santos Silva


Fotos (e legendas): © Angelino Santos Silva (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complemengtar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Angelino Santos Silva:

(i) ex-fur mil cmd, pertenceu à 26ª CCmds (1970/72);

(ii) foi mobilizada pelo CIOE, Lamego, tendo como cmdt o Cap Inf Cmd Alberto Freire de Matos;

(iii)  embarcou em 25mar70, chegou a Bissau em 31mar70 e regressou a 27dez71;

(iv) a 26ª CCmds passou por Bula, Teixeira Pinto e Bissau (Brá);

(v)  é até agora o primeiro e único representante da 26ª CCmds na Tabanca Grande (nº 897);

(vi) é natural de Recarei, Paredes, distrito do Porto;

(vii) escritor (pseudónimo literário: Recaredo), o seu últmo livro publicado é o romance "Geração Afro: os Últimoss Guerrilkheiros do Império (ed. de ator,  s/l, 2026, 455 pp.);

(viii) contactos: email > recaredo241148@gmail.com | telemovel > 926 365 774 (publicitados pelo autor)

(viii)  Próxima apresnetalácão da obra: dia 01 outubro, pelas 18h00 | UNICEPE - PORTO. |  Praça Carlos Alberto, 128 - A 1º



Capa novo livro do nosso camarada Angelino Santos Silva , publicado sob o pseudómimo literário Recaredo. Edição de autor, maio de 2026, s/l, 455 pp. 


 
1. Texto publicado na página do Facebook da Tabanca Grande, no passado dia 15 de setemebro, terça feira, pelo nosso amigo e camarada Angelino Santos Silva.



Análise crítica de "Geração Afro: Os Últimos Guerrilheiros do Império"

por ChatGPT 

Com base nos elementos disponíveis sobre o livro "Geração Afro – Os Últimos Guerrilheiros do Império", de Recaredo (pseudónimo literário de Angelino dos Santos Silva), posso apresentar uma análise crítica com enfoque literário, histórico e ideológico.

A obra foi publicada em 2026, tem 455 páginas e constitui o primeiro volume de um projeto que terá continuação.

1. Introdução

"Geração Afro – Os Últimos Guerrilheiros do Império" é um romance histórico centrado na Guerra Colonial Portuguesa na Guiné, mas que ultrapassa a simples representação dos combates. A obra procura recuperar a memória de uma geração de portugueses e africanos envolvidos num conflito que, visto de diferentes perspetivas, adquiriu significados profundamente distintos.

O título é particularmente significativo. A expressão “Geração Afro” desloca o centro da narrativa do combatente português para uma realidade mais ampla: a dos homens africanos que combateram de ambos os lados da guerra. 

O subtítulo — “Os Últimos Guerrilheiros do Império” — introduz desde logo uma dimensão crepuscular: são homens que vivem, combatem e morrem no momento histórico em que o império colonial português se aproxima do seu fim.

A obra nasce também de uma relação pessoal com esse passado. Recaredo é o pseudónimo de Angelino dos Santos Silva, antigo furriel miliciano da 26.ª Companhia de Comandos, que esteve na Guiné entre 1970 e 1971/72. Assim, a narrativa situa-se numa zona particularmente interessante entre ficção, memória e testemunho.

2. Um romance sobre uma guerra, mas sobretudo sobre pessoas

Uma das principais qualidades da obra está em não reduzir a Guerra Colonial a operações militares, emboscadas, minas ou confrontos entre o Exército Português e o PAIGC.

O verdadeiro objeto do romance é o ser humano colocado perante uma situação-limite.

Portugueses e africanos aparecem unidos por circunstâncias históricas, mas separados por experiências, interesses e expectativas diferentes. Os jovens portugueses chegam à Guiné inicialmente convencidos de que defendem uma causa patriótica. Progressivamente, porém, confrontam-se com a realidade colonial e com a complexidade da sociedade guineense.

Mais interessante ainda é a representação dos africanos que combatem ao lado de Portugal. O romance procura mostrar que estes homens não podem ser simplesmente classificados como “colaboracionistas”.  São indivíduos com famílias, afetos, ambições, medos e conceções próprias sobre o futuro da Guiné.

Do outro lado estão os combatentes do PAIGC. A dimensão trágica nasce precisamente do facto de muitos deles serem irmãos, primos, meios-irmãos ou membros da mesma comunidade. A guerra deixa, portanto, de ser apenas uma guerra entre dois exércitos: torna-se também uma guerra dentro das próprias famílias e comunidades africanas.


3. A originalidade da perspetiva africana

Este é, provavelmente, um dos aspetos mais relevantes do romance.

Na literatura portuguesa sobre a Guerra Colonial, existe uma tradição importante de representação do soldado português, da sua angústia, do absurdo da guerra e do trauma do regresso. Recaredo parte dessa tradição, mas procura acrescentar-lhe uma dimensão particularmente importante: dar voz aos combatentes africanos.

As personagens africanas não funcionam apenas como cenário ou como auxiliares das personagens portuguesas. São apresentadas como sujeitos históricos.

Esta opção permite questionar uma leitura demasiado simples da Guerra Colonial baseada na oposição: Portugal versus África.

A realidade apresentada pelo romance é muito mais complexa. Há portugueses contra portugueses, africanos contra africanos, africanos ao lado de portugueses e africanos contra portugueses. A fronteira entre “nós” e “eles” torna-se, assim, extremamente instável.

É justamente essa complexidade que dá ao romance uma das suas maiores potencialidades históricas e literárias.

4. O fim do Império como tema central


Apesar de ser um romance sobre combatentes, "Geração Afro"  é também um romance sobre o fim de um mundo.

Os protagonistas pertencem a uma geração que participa numa guerra destinada a preservar uma estrutura política e colonial que já se encontra historicamente enfraquecida. Existe, por isso, uma contradição fundamental: os jovens combatentes lutam com coragem e, muitas vezes, com genuíno patriotismo, mas o projeto político pelo qual combatem aproxima-se do seu desaparecimento.

É aqui que o título ganha todo o seu significado.

Os “últimos guerrilheiros do Império” são simultaneamente combatentes e testemunhas de uma derrota histórica.

O romance não parece interessado em transformar essa derrota numa simples acusação moral contra os soldados. Pelo contrário, procura compreender o que levou aqueles homens a combater e o que aconteceu às suas vidas depois da guerra.

Essa atitude dá à obra uma dimensão memorialista importante: compreender não significa necessariamente justificar.

5. Patriotismo e desencanto

Um dos percursos psicológicos mais importantes é a passagem do patriotismo inicial para o desencanto.

Os jovens portugueses partem para África convencidos de que estão a cumprir um dever patriótico. Contudo, o contacto com a realidade da guerra modifica gradualmente essa perceção.

O romance acompanha esse processo de transformação: o soldado que inicialmente pensa em termos de Pátria, honra e dever começa a confrontar-se com a morte, a mutilação, o sofrimento dos civis, a pobreza e as contradições do sistema colonial.

O desencanto não significa necessariamente perda de amor pelo país. Significa, antes, uma descoberta dolorosa da distância entre aquilo que lhes foi ensinado e aquilo que encontram no terreno.

Esta é uma das dimensões mais humanas da obra.

6. A guerra como problema moral

Outro aspeto importante é a reflexão sobre a ética da guerra.

O romance não apresenta o combate apenas como uma questão de coragem militar. Coloca perguntas muito mais difíceis:

  • Quando é legítimo matar?
  • Qual é a diferença entre matar por necessidade e matar por vingança?
  • Pode existir heroísmo numa guerra?
  • Quem determina aquilo que é justo?
  • Como distinguir o inimigo do ser humano?
  • O soldado é responsável pelas decisões políticas que conduzem à guerra?

A guerra surge, assim, como uma experiência que destrói certezas morais.

Segundo a análise publicada sobre a obra, essa reflexão é particularmente desenvolvida através de personagens como o capitão Ombendi e o tenente Quinara, que recusam uma visão simplista do heroísmo militar.

7. Estrutura narrativa

Formalmente, o romance apresenta uma estrutura relativamente ambiciosa.

A narrativa organiza-se em 68 capítulos, alternando diferentes núcleos de personagens e diferentes momentos da Guerra Colonial. Há personagens que chegam à Guiné em 1966 e outras que chegam em 1970, permitindo representar experiências distintas do conflito.

A obra combina:

  •  narrativa de ficção;
  • memória autobiográfica;
  • cartas;
  • diálogos;
  • episódios militares;
  •  reflexão histórica;
  • poesia;
  •  comentário político.

Esta mistura de géneros constitui simultaneamente uma força e uma fragilidade.

É uma força porque torna a obra multifacetada e aproxima-a de uma espécie de arquivo literário da memória da guerra.

Mas também pode ser uma fragilidade porque as longas digressões históricas interrompem, por vezes, o ritmo da ação. 

A própria análise crítica disponível aponta uma certa irregularidade entre os capítulos de intensa ação militar e aqueles dominados pela reflexão histórica.

8. Linguagem e oralidade

A linguagem é outro elemento característico.

Recaredo recorre frequentemente a uma linguagem oral, militar e popular, incorporando expressões utilizadas pelos combatentes da época. Surge também vocabulário ligado à realidade guineense, incluindo termos de crioulo e palavras referentes à cultura, à alimentação, à fauna e à paisagem africanas.

Essa opção tem grande importância porque cria verosimilhança histórica.

O leitor não encontra apenas uma descrição abstrata da Guiné: encontra uma linguagem que procura reproduzir o ambiente vivido pelos homens que participaram naquele conflito.

As cartas e alguns momentos de carácter poético introduzem, por outro lado, uma linguagem mais intimista, permitindo equilibrar a dureza da narrativa militar.

9. A paisagem africana

A Guiné não funciona simplesmente como cenário.

A paisagem — a selva, as bolanhas, as tabancas, os rios, o calor, a vegetação — torna-se quase uma personagem da narrativa.

O ambiente condiciona o comportamento dos soldados e contribui para a sensação de vulnerabilidade permanente.

A natureza é simultaneamente bela e ameaçadora. O soldado combate um inimigo que conhece parcialmente, mas combate também um território que lhe é estranho.

Esta dimensão ajuda a compreender por que razão a guerra de guerrilha se transforma numa experiência psicológica tão desgastante.

10. A dimensão histórica e as suas limitações

Aqui é necessário fazer uma distinção importante entre romance histórico e obra historiográfica.

"Geração Afro" utiliza acontecimentos, personalidades e contextos históricos reais, mas continua a ser uma obra literária. As interpretações apresentadas pelas personagens não devem ser automaticamente tomadas como verdades históricas.

Este ponto é particularmente relevante quando o romance aborda episódios controversos da Guerra Colonial, como o Massacre do Chão Manjaco, ou interpretações sobre as relações entre Spínola, a PIDE/DGS e o PAIGC. A análise crítica disponível identifica essas posições como interpretações heterodoxas sustentadas dentro da narrativa.

Literariamente, isto pode ser muito produtivo: permite às personagens discutir versões diferentes da História.

Historicamente, porém, exige do leitor espírito crítico.

11. Uma obra de memória

Talvez a melhor maneira de definir o romance seja como uma obra de memória.

Recaredo escreve contra o esquecimento. O objetivo não parece ser simplesmente dizer que a guerra aconteceu. É lembrar quem foram os homens que nela participaram, incluindo aqueles que morreram, ficaram mutilados, regressaram traumatizados ou foram esquecidos depois de 1974.

O epílogo autobiográfico, relacionado com a experiência do próprio autor e com a memória dos seus pais, reforça essa dimensão. O episódio do rebentamento de uma mina e as consequências que permanecem décadas depois transformam a narrativa numa espécie de testemunho pessoal sobre a persistência da guerra na memória individual.

12. Pontos fortes

Entre os principais méritos do romance destacaria:

  • A valorização das personagens africanas, evitando tratá-las simplesmente como figurantes;
  • A multiplicidade de perspetivas sobre a Guerra Colonial;
  • A dimensão humana, que coloca o sofrimento individual acima da estratégia militar;
  • A riqueza documental e vocabular;
  • A recuperação da memória dos antigos combatentes;
  • A reflexão sobre o fim do Império Português;
  • A tentativa de ultrapassar a divisão simplista entre colonizador e colonizado:
  • A articulação entre ficção e experiência vivida.

13. Fragilidades

Uma análise crítica equilibrada deve também apontar algumas limitações.

A primeira é a já referida irregularidade do ritmo narrativo. As digressões históricas e filosóficas podem afastar o leitor da ação.

A segunda está relacionada com a própria ambição da obra. Ao querer ser simultaneamente romance, testemunho, ensaio histórico, reflexão política e documento de memória, o livro corre por vezes o risco de sobrecarregar a narrativa.

Também a linguagem oral, embora seja uma importante marca de autenticidade, pode produzir alguma irregularidade estilística.

Finalmente, por se tratar do primeiro volume de uma obra projetada para continuar, alguns conflitos e trajetórias ficam necessariamente em aberto. A própria análise crítica publicada observa que essa continuidade pode justificar determinados nós narrativos, mas reduz a autonomia deste primeiro volume.

Conclusão

"Geração Afro – Os Últimos Guerrilheiros do Império" é, acima de tudo, um romance de memória, guerra e desencanto.

A sua maior contribuição está na tentativa de olhar para a Guerra Colonial da Guiné não apenas através do soldado português, mas também através dos africanos que combateram de ambos os lados do conflito. Dessa forma, a obra desmonta uma visão excessivamente binária da guerra e mostra uma realidade em que as fronteiras políticas frequentemente atravessavam famílias, comunidades e afetos.

O romance não pretende apenas reconstruir batalhas. Pretende recuperar homens concretos, com os seus medos, convicções, contradições e feridas.

Nesse sentido, a expressão “últimos guerrilheiros do Império” assume um significado profundamente simbólico: aqueles homens são simultaneamente protagonistas de uma guerra e testemunhas do desaparecimento do mundo político em que essa guerra fazia sentido.

O maior mérito de Recaredo está, portanto, em transformar a memória individual numa memória coletiva, lembrando que o fim da guerra em 1974/75 não significou necessariamente o fim das suas consequências. Para os combatentes, para as suas famílias e para as sociedades portuguesa e guineense, a guerra continuou — na memória, no silêncio, no trauma e na necessidade de compreender o passado.

Por isso, "!Geração Afro" pode ser lido não apenas como um romance sobre a Guerra Colonial, mas como uma tentativa de responder a uma pergunta fundamental: como recordar uma guerra sem apagar os homens que nela combateram nem simplificar as razões que os levaram a combater?

É precisamente nessa procura — entre História e memória, patriotismo e desencanto, portugueses e africanos, ficção e testemunho — que reside a força e também a complexidade da obra.

Análise crítica feita por ferramenta de IA (ChatGPT / Open AI), a pedido do autor

(Revisão / fixação de texto, negritos, título LG)

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