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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27693: Notas de leitura (1892): "Náufragos do Império", por Albano Dias Costa, Prémio Literário Antigos Combatentes 2025, atribuído pelo Ministério da Defesa Nacional (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 1 de Setembro de 2025

Queridos amigos,
Albano Dias da Costa é autor de um livro intitulado Os Celeiros da Guiné, de que em tempo se fez aqui a recensão. Recentemente, aludiu-se ao primeiro prémio literário de 2022 Antigos Combatentes, o seu livro Vida e Morte na Grande Bolanha do Rio Mansoa. Chegou agora a vez de referir o seu primeiro prémio literário de 2023, com o título "Náufragos do Império". É uma obra de carácter didático-pedagógico, é imaginada uma família Cardoso que participou em guerras que travámos deste Naulila, em 1914, até aos três teatros africanos, com realce para a Guiné onde Albano Dias da Costa combateu entre 1963 e 1965. Todos esses embates são passados em Angola, Moçambique, na I Guerra Mundial, há um Cardoso na Guerra Civil de Espanha e prisioneiro em Dachau, há um prisioneiro em Timor, há um prisioneiro após a invasão da União Indiana, membros da família Cardoso combateram em Angola, Guiné e Moçambique. É numa tirada inicial, no convívio anual da Companhia de Carlos Cardoso que o Coronel Calado, que fora o Comandante da Companhia, tece considerações amargas sobre as condições dos antigos combatentes. Para o autor, será a língua portuguesa o elemento mais aglutinador da irmandade que Portugal estabelecerá com as antigas parcelas do seu antigo Império.

Um abraço do
Mário



As guerras que travámos no Império, por longas décadas, agora em prosa narrativa

Mário Beja Santos

A obra intitula-se Náufragos do Império, o vencedor do Primeiro Prémio Literário Antigos Combatentes foi de novo Albano Dias Costa. O autor parte de uma ideia tentadora, a que já se abalançaram, com fronteiras mais confinadas, escritores como João de Melo e João Céu e Silva, estes encontraram enredos em que os seus personagens percorrem, ao longo da trama, todos os teatros de guerra africanos entre 1961 e 1975. Albano Dias da Costa dilata o campo de ação. Há o ex-alferes miliciano Carlos Cardoso que parte para um convívio anual da sua companhia, descreve um convívio como aqueles em que nós participamos, aparecem filhos e netos e há cada vez mais desaparecidos. Conversa com outro oficial sobre a condição dos ex-combatentes, as críticas são duríssimas, o interlocutor do ex-alferes, o coronel Calado, tem mesmo um espírito bem funério sobre o nosso tempo:
“Eis-nos a padecer o esboroar da certeza adquirida da paz e da prosperidade económica; a ameaça da perda da coesão social e da insegurança nos espaços públicos; a trituração dos seres humanos pela crise financeira, económica, social e política a todos submergirá como onda imparável sem deixar ninguém a salvo; o confisco do pequeno património de cada um e das suas exíguas economias por impostos incomportáveis; a fatalidade da emigração dos nossos filhos, aos milhares, como na geração anterior, a da Guerra Colonial, nos anos 60, mas agora com um diploma universitário em vez da ‘mala de cartão’; a insegurança dos empregos com salários no limiar da sobrevivência e sem garantias de estabilidade; a angústia do desemprego dos nossos filhos com a deslocalização das suas fábricas para a Ásia, sobrevivendo de biscates, de subsídios do Estado e da venda do que têm à mão, tendo os pais de continuar a alimentá-los com as suas escassas reformas…”.

O ex-alferes regressa a Lisboa e vai visitar a sua mãe, fazia nesse dia noventa anos.
Acomodado no sofá, terminado o almoço, viu numa mesinha um álbum, já muito desbotado. Uma tia tinha nele arrumado as fotografias que os irmãos lhe foram enviando, de 1914 a 1945, e nesse mesmo álbum havia fotografias dos seus sobrinhos, tiradas entre 1971 e 1974. Ao lado, repousava uma velha caixa repleta de cartas, postais e papéis com apontamentos enviados pelos combatentes. Esta tia, sentindo a proximidade da morte, entregou estes testemunhos à mãe de Carlos Cardoso. Nessa noite, Carlos começou a folhear o conteúdo do álbum. É deste modo que vamos conhecer as vivências destes náufragos do Império, seus familiares.

O tio Fernando em Naulila, no sul de Angola, 1914. Ainda não estávamos em guerra com a Alemanha, mas uma reduzida força alemã chegou ao Forte de Naulila para esclarecimento das circunstâncias porque entrara naquela colónia portuguesa, vinda do Sudoeste Africano; ocorreu um incidente trágico em que resultou a morte de dois oficiais alemães e na sequência deste incidente os alemães atacaram Naulila, devastando-a. Fernando Cardoso estava ferido e foi tratado por um médico alemão, regressou a Portugal em agosto de 1917.

Escreve o autor: “Naulila, uma batalha esquecida no fim do mundo, travada por uma tropa mal preparada, mal-armada, enquadrada por milicianos inexperientes, bode expiatório da incompetência dos políticos, foi o pronúncio do fim do Império: outras Naulilas se seguiriam, ao longo de sessenta anos.”

Havia no álbum fotografias do tio Alberto, que combatera em Moçambique. “Em Moçambique, morriam mais homens do que na Flandres, não pelas balas inimigas, mas pela sede, pela fome, pela exaustão física e, acima de tudo, pelas doenças.” Este tio Alberto na sua última carta, datada de 1917, referia-se a uma missão atribuída à sua Unidade, sob o comando do coronel Massano de Amorim, para ocupar Kionga, na foz do Rio Rovuma, no extremo norte de Moçambique. Nada mais se soube dele, um missionário escrevera que os mortos eram enterrados em qualquer lado.

Há também fotografias do tio Joaquim, soldado na Grande Guerra. Mandara postais ilustrados a partir de Brest. O regimento de Joaquim viveu a madrugada do dia 9 de abril de 1918 em La Lys, batalha em que o Corpo Expedicionário Português contou com mais de 7500 baixas, entre mortos, feridos e prisioneiros. Joaquim foi aprisionado pelos alemães, regressou do cativeiro em 1921.

Carlos Cardoso folheia agora fotografias do tio José, que combateu ao lado dos republicanos na Guerra Civil de Espanha, escapou por milagre de ser fuzilado, fugiu para França, foi colocado no campo de concentração de Dachau, escapou às câmaras de gás, terminada a guerra, depois de novas peripécias chegou a Portugal, aqui morreu.

O tio Manuel foi mobilizado em 1940 para Timor, viveu a invasão japonesa em 19 de fevereiro de 1942. Manuel escreveu uma carta falando da repressão brutal dos japoneses.
Numa tarde chuvosa e fria de novembro, Manuel apareceu em casa, extremamente debilitado pelos anos de cativeiro.

O álbum tinha agora as fotografias daqueles que representavam a geração dos combatentes da Guerra Colonial. João, o filho do tio José, embarcou para o Oriente, nos princípios de 1960, já nessa altura se temia a anexação das parcelas do Estado da Índia pela União Indiana. A ocupação ocorreu em 18 de dezembro de 1961. João foi prisioneiro de guerra, metido no Campo de Pandá. Regressou a Portugal em condições muito constrangedoras, quando desembarcou foi enviado diretamente para a sua Unidade mobilizadora, Vila Real, só passou à disponibilidade em princípios de 1963.

Temos agora a história de Pedro, o filho mais velho do tio Manuel, foi mobilizado para Angola, a sua Companhia foi transferida para a Fazenda de Cacuaco. Se a atividade operacional corria de feição até março de 1968, tudo se veio alterar quando a Zâmbia permitiu que Agostinho Neto instalasse as bases dentro das suas fronteiras, seguir-se-ão violentos combates entre o MPLA e as forças portuguesas, os guerrilheiros foram obrigados a recuar. A parte final da sua Comissão foi passada em Naulila. Pedro regressou a Portugal e a funcionário público.

Rui, o segundo filho do tio Manuel, partiu a Moçambique como capitão miliciano, colocado em Mueda, acompanhou todos os acontecimentos até ao final da guerra, quando se preparava para tomar o avião que o ia levar a casa o jipe que o transportava calcou uma mina, Rui Cardoso teve morte imediata.

Carlos Cardoso assistiu às cerimónias da morte da tia Maria. Mais tarde, regressou à Guiné, fala-se sumariamente da história desta colónia, da sua atividade operacional numa região perto de Bula, Binar e Mansoa, recordou um desastre ocorrido com a jangada de João Landim, vemo-lo de volta a Lisboa, rememora a diferentes vicissitudes por que sofreram os seus familiares, resta-lhe agora a esperança de que a língua portuguesa continue a irmanar os antigos territórios ultramarinos na CPLP, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.

E assim termina a narrativa da família Cardoso que combateu em diferentes parcelas do Império ao longo de todas as guerras, são estes os náufragos do Império que deixam os portugueses de hoje praticamente indiferentes.

Albano Dias da Costa recebendo o Primeiro Prémio Literário Antigos Combatentes das mãos do Ministro da Defesa
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Nota do editor

Último post da série de 1 de fevereiro de 2026 > iné 61/74 - P27691: Notas de leitura (1891): "O capelão militar na guerra colonial", de Bártolo Paiva Pereira, capelão, major ref - Parte VII: O "monge-guerreiro", Abel Matias, major graduado 'cmd' capelão, ref, esteve em Angola, de 1965 a 1971

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27691: Notas de leitura (1891): "O capelão militar na guerra colonial", de Bártolo Paiva Pereira, capelão, major ref - Parte VII: O "monge-guerreiro", Abel Matias, major graduado 'cmd' capelão, ref, esteve em Angola, de 1965 a 1971


Abel Matias (n. 1937, Póvoa do Varzim)


1. Abel Matias, OSB (sigla latina de Ordo Sancti Benedicti, Ordem de São Bento), não foi apenas um capelão de retaguarda, a viver no relativo conforto e segurança de uma CCS de um batalhão durante a guerra colonial. Ele integrou-se totalmente na unidade de elite onde serviu, os "Comandos", na sua segunda comissão, em Angola, de 1969 a 1971.

É, ao que parece, é o único dos capelães portugueses que serviram a Igreja e o Exército durante a guerra colonial (1961/74) a frequentar, com sucesso, o Curso de Comandos, ganhando o direito de usar o mítico crachá e a boina vermelha.  Aliás, o nosso grão-tabanqueiro cor art ref Morais da Silva, que de resto também é de Lamego, confirmou-me que foi seu instrutor. 


O padre Abel Matias é apontado como uma figura singular e marcante da história contemporânea portuguesa por personificar uma intersecção invulgar entre: (i) a vida monástica; (ii) a mística militar; e (iii) a assistência espiritual em cenário de guerra.

O capelão-chefe graduado em major, Bártolo Paiva Pereira, no seu último livro, "O capelão militar na guerra colonial" (edição de autor, Vila do Conde, 2025, 120 pp)(*), elege-0 como os dos "12 mais" que teriam alcançado notoriedade num universo de cerca de mil capelães mobilizados para os 3 teatros de guerra (Angola, c. 500; Moçambique, c.400; Guiné, 113)... (Como o autor faz questão de escrever, "a publicação dos nomes não serve para elogiar ou esquecer alguém", pág. 53). 

Nesta lista há ainda "dois capelães paraquedistas de peso", os padres Martins e Pinho. Capelães da FAP., fizeram questão de tirar o brevê (pág. 58).




Capa do livro, de Bártolo Paiva Pereira




(In: Bártolo Paiva Pereira, " O capelão militar na guerra colonial", ed. autor, 
Vila do Conde, 2025, pág. 56)


2. Chamaram-lhe o "monge-guerreiro", uma figura algo anacrónica no Portugal do séc. XX, quando já não havia, desde meados do séc. XIII, guerras de "reconquista"... Eis aqui os pontos principais sobre o seu percurso de vida, que recolhemos da Net:


Abel Matias (Moreira da Silva), contrariamente ao que diz a IA sobre ele , não é natural da Panajóia, Lamego, mas sim de São Pedro de Rates,Póvoa de Varzim, onde nasceu em 19 de setembro de 1937 (irá para o ano fazer os 90). Se fosse de Lamego, era muito natural que conhecesse o CIOE (Centro de Instruções Especiais), aquartelado em Penude e criado em 1960.

Em todo o caso, viveu mais de 4 décadas em Lamego, será diretor do famoso Colégio de Lamego, além de capelão do CIOE, uma vez terminada a guerra. Teve também um irmão padre, Justino Matias Moreira da Silva (1936-1999). Era(é, ainda está vivo) uma figura muito popular em Lamego, ligado também ao desporto.

Diz "A Voz de Trás os Montes" que, após a escola primária, ingressou na Escola Claustral do Mosteiro de Singeverga, em Santo Tirso, em 1950. Seis anos depois, tornou-se monge. Foi ordenado sacerdote, na Sé do Porto, em 1963.

É licenciado em Histórico-Filosóficas pela Universidade do Porto (tese de dissertação da licenciatura, hoje equivalente a mestrado: "Marxismo e Doutrina Social da Igreja"). Tem também um bacharelato em Filologia Românica.

Serviu, em Angola, como capelão militar, voluntário, primeiro no BCAÇ 1855 (set65/dez67), e depois no CIC (Centro de Instrução de Comandos) (set69/nov71).

Ficou conhecido por acompanhar (presume-se que de vez em quando, que  os seus 32/33 anos, no final da década de 1960, já pesavam) os militares em operações no mato, saltando de helicópteros e partilhando os mesmos perigos que os soldados, o que lhe terá conferido uma auréola de "monge-guerreiro" e sobretudo um grande respeito entre os comandos. 

Capelão militar, passou à disponibilidade como major. No Colégio de Lamego, foi professor de Filosofia e Psicologia e seu diretor. Após aposentar-se, regressou em 2014 ao Mosteiro de Singeverga.

A sua formação de base, beneditina (focada no lema Ora et Labora, reza e trabalha), terá marcado profundamemnte a sua personaliddae e a sua disciplina pessoal e espiritual.

É autor, entre outros dos livros:

"Angola, paz só com Muxima" (1989);
"Como eram duros os caminhos da guerra" (2019).

3. No portal UTW - Dos Veteranos da Guerra do Ultramar pode ler-se, a seu respeito:

(... ) No teatro de operações de Angola, cumpriu duas comissões de serviço voluntário:

- desde 26Set65 até 11Dez67, alferes graduado capelão da CCS/BCac1855;

- desde 07Set69 até Nov71, como tenente (capitão graduado) 'comando', Capelão do CIC-RMA.

Louvores (transcrição):

  • Tenente graduado capelão (CCS/BCAÇ 1855, 1965/67):

(...) "Louvo o Tenente Graduado Capelão, Abel Moreira da Silva, do BCaç 1855, pela forma como desempenhou as suas funções durante mais de 28 meses, sendo quinze na zona de Nambuangongo onde se processa intensa actividade operacional.


"A sua presença constante nas Subunidades destacadas, que nunca abrandou, embora várias vezes tivesse sido sujeito a emboscadas... Conselheiro e amigo de todos, muito contribuiu para o bom espírito de corpo criado no Batalhão. A forma esclarecida como procurou orientar a sua actividade, não impondo ideias, mas criando as condições mais propícias à sua receptividade natural, permitiu que produzisse trabalho rendoso digno de salientar» (...)

  • Capitão graduado capelão do CIC (1969/71);

(...) "Louvo o Capitão graduado Capelão n.º 51145411, Abel Moreira da Silva, do CIC, porque, desempenhando durante a sua comissão, as muito difíceis funções de capelão do Centro de Instrução de Comandos, de uma forma muito meritória e altamente eficiente, sempre evidenciou acentuada dedicação e esclarecido discernimento na dupla missão de militar e padre.

"Com humanidade, inteligência, perspicácia e superior clarividência deu provas de desassombro e coragem moral sempre que se lhe deparou a defesa de causas ou princípios que se impusessem pela sua justiça.

"Evidenciando acentuado dinamismo e optimismo, sempre se encontrava onde a sua presença se impusesse quer se tratasse de Quarteis ou Zonas de Intervenção, o que o levou a acompanhar as forças destacadas em operações e por largos períodos, não se furtando ao perigo, antes, serenamente, a todos dando o seu permanente apoio e conforto moral, a que não faltou a intensa mentalização para o dever a cumprir.

"Pelas provas de carácter, dignidade e isenção de procedimentos evidenciados, tomou-se o capitão P. Abel merecedor de muita estima e respeito, muito se dignificando e prestigiando o serviço que com tanta dedicação e mérito próprio serviu, creditando-se como precioso auxiliar do Comando, o que muito me apraz, publicamente, apontam! (...)


4. Falta-nos, naturalmente, o "contraditório"...


O Abel Matias não era um combatente, mas um capelão, a sua presença visava levar conforto espiritual em situações-limite, em que se matava e morria. Acreditava que a sua missão era estar onde o sofrimento e o risco de morte eram maiores.

Foi uma figura carismática: após o fim da guerra e a transição para a democracia, manteve-se ligado à memória histórica do conflito e à comunidade de veteranos. É frequentemente recordado em convívios da Associação de Comandos.

Mas também terá sido um capelão controverso: para alguns, a figura de um "monge-guerreiro" não a compaginável com a visão do clero no pós-Vaticano II; para os militares que serviram com ele, era visto como um símbolo de coragem e "humanidade no inferno".

Contrariamente ao que a IA diz a seu respeito, o padre Abel Matias não faleceu em 2008, nem nunca esteve na Guiné; está vivo, recolhido no mosteiro de Singeverga, isolado do mundo.

Para os interessados numa curta estadia: o mosteiro tem uma hospedaria onde recebe hóspedes, apenas homens, e por períodos não superiores a 8 dias; "a hospedaria monástica de Singeverga não firma preços de estadia. As despesas são comparticipadas com donativos."

(...) "Pela hospedaria passam gentes de todas as proveniências sociais, de quase todas as faixas etárias, e mesmo de diferentes crenças religiosas, incluindo agnósticos e descrentes. Há artistas, escritores, padres, médicos, seminaristas, personalidades conhecidas e gente anónima que também decidem passar um tempo em Singeverga, cada um atraído pela liturgia sóbria, ou pelo canto ou pela tranquilidade do lugar.

"Como a hospedaria está dentro do espaço da clausura, só é possível receber homens, e, por norma, o tempo de estadia não poderá ultrapassar os oito dias. (...)".

Contactos:

Mosteiro de São Bento de Singeverga
Rua Mosteiro de Singeverga, 200
4795-309 RORIZ STS
Telefone: 252 941 176; fax: 282 872 947
E-mail: mosteiro@mosteirodesingeverga.com

(Pesquisa na Net, revisão / fixação de texto: LG)
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Nota do editor LG:




sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27687: Notas de leitura (1890): Apontamentos para a história contemporânea da informação na Guiné Portuguesa (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 17 de Dezembro de 2025:

Queridos amigos,
Sempre me deu que pensar não haver trabalho de investigação com base no levantamento dos jornais de caserna que foram publicados por um bom número de unidades; e este ensaio de José Júlio Gonçalves, datado até 1965, faz-nos entender que houve um elevado número de boletins e até de jornais de curta duração, como é evidente fruto do desinteresse cultural que se saldava na escassez de leitores e, curiosamente, há um período do Boletim Oficial que assume proporções de um verdadeiro jornal, como tenho procurado inventariar neste trabalho que está em fase de conclusão de um século de Boletim Oficial. Bom seria que as instâncias universitárias se interessassem por estas matérias.

Um abraço do
Mário



Apontamentos para a história contemporânea da informação na Guiné Portuguesa

Mário Beja Santos

Na Biblioteca da Sociedade de Geografia de Lisboa encontra-se um volume intitulado Cabo Verde, Guiné, São Tomé e Príncipe, curso de extensão universitária, ano letivo de 1965-66, Instituto de Ciências Sociais e Política Ultramarina. No volume consta um artigo assinado por José Júlio Gonçalves, professor catedrático da Instituição e mais tarde responsável pela Universidade Moderna, com o título A informação na Guiné, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe (achegas para o seu estudo).

O ensaio do José Júlio Gonçalves tem um prólogo que vai desde a política do Infante D. Henrique até ao século XIX, é este o período que vou procurar sumular, recordando ao leitor que, tanto quanto eu saiba, não há nenhum levantamento exaustivo e crítico que incida sobre a imprensa e a informações geral que abarque o período colonial.

A introdução da tipografia na Guiné Portuguesa deu-se em 1879, a Guiné estava autonomizada, tinha capital em Bolama, e punha-se a publicação do Boletim Oficial, seus suplementos e apensos. Observa o autor que durante algumas décadas o Boletim Oficial da Guiné andou atrasado, não observando a periodicidade que lhe fora fixada por via legislativa. A situação irá mudar a partir de 1946, durante a governação de Sarmento Rodrigues.

A primeira publicação não-oficial impressa na Guiné foi um número único de A Fraternidade, editado em 30 de outubro de 1883 e que vai aparecer no Boletim Oficial. Tratava-se de uma folha de solidariedade dedicada à recolha de fundos destinados a socorrer as vítimas da estiagem que se estava a viver em Cabo Verde.

Em meados de 1924 começou a circular em Bolama o Jornal Pró-Guiné, órgão do Partido Republicano Democrático, vieram ao lume dez números. Vem a propósito referir que em 1918 fora indeferido pelo Governador o requerimento em que se pedia autorização para publicar um periódico com o título de Jornal da Guiné. Em 1925 iniciou-se em Bissau a publicação do Boletim dos Correios e Telégrafos, que teve curta duração. Em 1930, apareceu em Bissau, pela mão de Manuel Pereira Manso, a primeira tipografia particular, o que deu origem à publicação de um jornal da iniciativa privada; assim, apareceu entre 1930 e 1931 o jornal Comércio da Guiné, um órgão declaradamente vinculado aos interesses económicos. Em 1932, a Missão Católica de Bolama publicou um número único, denominado 15 de Agosto. Seguem-se outras iniciativas como publicações episódicas, até que em 1942 temos o aparecimento de o Arauto, o primeiro diário guineense, jornal católico, sucessivamente boletim, diário e semanário (policopiado) e depois mensário (impresso).

Em 1946, o Centro de Estudos da Guiné Portuguesa publicou o primeiro número do Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, que continua a ser uma publicação de referência para a investigação histórica. Em 1956, por iniciativa da Comissão Municipal de Bolama, deu-se início à impressão do quinzenário Bolamense, publicação que se interrompeu m 1963. Na década de 1950 surgiram outros boletins, caso de Ecos da Guiné – Boletim de Informação e Estatística, o Boletim da Associação Comercial, Industrial e Agrícola da Guiné e o Boletim da União Desportiva Internacional de Bissau.

Recorda o autor que o protestantismo teve as suas publicações periódicas e meios de comunicação social não periódicos. A Missão Evangélica da Guiné Portuguesa teve em Bissau a livraria Victória, que fazia a distribuição das publicações periódicas e não periódicas protestantes. Importa recordar que temos ainda os jornais de caserna editados pelas forças militares, o autor faz uma relação do que certamente lhe chegou ao conhecimento até à data da finalização do seu ensaio.

Também faz uma alusão aos jornais escolares impressos e de parede. Um ponto no mínimo muito curioso passa pela referência às publicações do PAIGC, o Caderno Escolar e O Nosso Primeiro Livro de Leitura, o que deixa surpreso o autor é tudo ser redigido em português. Para finalizar a súmula deste trabalho de José Júlio Gonçalves importa dizer que há referências ao cinema, à rádio e chama-se a atenção do leitor par ao número impressionante de cartas e aerogramas chegados em 1964, cerca de 300 000.

Como tive oportunidade de referir a propósito do Boletim da Associação Comercial Industrial e Agrícola da Guiné, toda esta documentação, mais tarde ou mais cedo terá de entrar no campo das pesquisas dos investigadores, um tanto à semelhança da investigação escrutinada do Boletim Oficial, são ferramentas auxiliares que nos ajudam a percecionar o quadro de mentalidades naquele tempo histórico da informação impressa, radiodifundida, as mensagens essenciais dos jornais de parede e até o estado de espírito daqueles muitos jornais de caserna que ainda estão por repertoriar.

Reprodução de uma página do caderno escola do PAIGC, tempos da luta armada
Primeira página de um jornal de caserna
Do tempo em que o Arauto era boletim diário
Uma só folha, dedicada à angariação de fundos para apoiar os cabo-verdianos vítimas da seca
Mais uma primeira página de um jornal de caserna
Porventura o último jornal da Guiné Portuguesa
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Nota do editor

Último post da série de 26 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27673: Notas de leitura (1889): "Vida e Morte na Grande Bolanha do Rio Mansoa", por Albano Dias da Costa; primeiro Prémio Literário Antigos Combatentes, atribuído pelo Ministério da Defesa Nacional, 2022 (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27673: Notas de leitura (1889): "Vida e Morte na Grande Bolanha do Rio Mansoa", por Albano Dias da Costa; primeiro Prémio Literário Antigos Combatentes, atribuído pelo Ministério da Defesa Nacional, 2022 (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 27 de Agosto de 2025:

Queridos amigos,
Faz todo o sentido uma breve recapitulação da trajetória da literatura da guerra colonial. Primeira fase: a exaltação das façanhas do soldado português, lembre-se Armor Pires Mota, as reportagens propagandísticas, a literatura encriptada de Álvaro Guerra. Segunda fase: o 25 de abril, os ajustes de contas, a procura da certidão da verdade sob a forma de romance, poesia, novela, conto, entra em cena a literatura memorial. Terceira fase: a matura idade, o período dos grandes romances, caso de Nó Cego, de Carlos Vale Ferraz, as obras de Lobo Antunes, de João de Melo. Quarta fase: as investigações, a manutenção de um quadro caleidoscópico para toda esta literatura, algo que se irá prolongar até aproximadamente década de 2010; daí em diante, vai pontificando a literatura memorial, pode bem acontecer que haja inéditos guardados nas gavetas, mas está praticamente tudo inventariado, resta o rodopio da memória. É o que faz Albano Dias da Costa com a sua prosa narrativa, andou pela Guiné nos primórdios da guerra, reduz ao essencial as atribulações e as perdas humanas, inesquecíveis; regressa à infância e dá-nos alguns parágrafos luminescentes do Alto Douro Vinhateiro. Não sou de profecias, mas estamos a voltar à guerra com os cartuchos que nos restam, não se pode subestimar o antes e o depois.

Um abraço do
Mário



A literatura memorial destronou todo o processo ficcionista da guerra colonial

Mário Beja Santos

Vida e Morte na Grande Bolanha do Rio Mansoa, prosa narrativa, por Albano Dias da Costa, primeiro Prémio Literário Antigos Combatentes, atribuído pelo Ministério da Defesa Nacional, 2022, é mais uma evidência de que a literatura memorial deixou muito para trás todos os processos de ficção, desde o romance ao diário. O protagonista e narrador, o Tenente Miliciano Luís Lapa, é o alter ego de Albano Dias da Costa, como ele próprio escreve: “Na presente narrativa, o autor transpõe temas de uma reflexão ensaística para uma narrativa ficcionada; procura exprimir numa diegese (realidade própria da narrativa) memorialística, o testemunho de quem também a viveu e padeceu.” Temos um prologo com o regresso de Luís Lapa da Guiné até à terra natal, a Folgosa, no Alto Douro, que ele escreve com o sobrepeso da emoção, envolvendo-nos com o colorido dos detalhes.

O primeiro episódio narra a sua partida para a Guiné, ele pertence à CCAÇ 413, bolanha do rio Mansoa, vai experimentar-se os horrores da guerra. Segundo episódio temos a tormentosa viagem numa operação em que ele irá desativar uma mina, voltaremos a tal ambiente, Lapa conhecerá os ferimentos. No terceiro episódio, no regresso a casa, agraciado com uma Cruz de Guerra, haverá uma extensa reflexão acompanhada de uma conversa com um Major no comboio, temo-lo em Coimbra, na retoma dos seus estudos. E o epílogo, o reencontro com a mãe, acompanhado de um poderosíssimo texto de amor à terra onde nasceu e se criou, aquele ponto do Alto Douro.

O regresso a casa é feito das lembranças: “Quando, antes, se deslocava ao Porto, recordava ele, a viagem era feita nos bancos duros de madeira das carruagens da terceira classe. Respirava-se o cheiro doloroso das merendas e o odor acre do vinho à mistura com discussões intermináveis intercaladas de impropérios.” Nessa viagem irá conhecer Maria Inês, encontro decisivo para o futuro dos dois. No apeadeiro toma a barca que o vai levar a casa, rememora o caminho poeirento que calcorreara para apanhar o comboio para ir à Régua, a Lamego, aos estudos em Coimbra, vem-lhe à mente mais recordações deste Alto Douro Vinhateiro, chega a casa: “A Folgosa era uma rua. Nascia lá em baixo, à beira do rio, junto da paragem da carreira de Tabuaço. Subia, depois, íngreme, estreita e sinuosa, até morrer lá em cima, junto da igreja. Aí, acabava o mundo.” Mais recordações da escola, dos exames, das brincadeiras, a dureza das caminhadas. O tenente miliciano Luís Lapa não gostou do acolhimento, perguntas incómodas. “Depois da guerra, os combatentes desmobilizados tinham ainda de suportar as agruras e as incompreensões de um país rural à deriva, alheado do conflito interminável que se desenrolava nas colónias da África distante.”

Chegou à Guiné ainda a guerra mal começara, a sua unidade é lançada na grande bolanha do rio Mansoa. Lança-se em profundas meditações, não faltam os filósofos gregos nem a pensadora Hannah Arendt, nem Santo Agostinho. Ouve no seu gira-discos a pilhas a Missa Solene de Beethoven. Esteve destacado na povoação de Encheia, localizada na margem noroeste da bolanha do rio Mansoa. “Lá chegado, em finais de junho do ano anterior, encontrou uma pequena povoação perdida no meio de cajueiros, constituída apenas por três habitações edificadas no alto de uma pequena elevação sobranceira à extensa bolanha serpenteada pelo rio Mansoa: a casa do chefe do posto, o celeiro anexo e o pequeno estabelecimento de um comerciante libanês, uma construção rudimentar de paredes de adobe cobertas de chapas de zinco. Adiante, de um lado e de outro da estrada de Bissorã, alinhavam-se algumas palhotas com uma ampla varanda onde homens de balandrau branco exerciam ofícios vários, de ferreiro, de alfaiate, de cesteiro.” E experimentam-se as flagelações.

Prometi voltar ao episódio em que Luís Lapa desmonta uma mina anticarro: “Pousou a arma no chão. Com o sabre, começou a afastar lentamente a terra que a envolvia. E, de repente, surgiu a cabeça da espoleta do temível engenho. Muito devagar, retirou as pedras que restavam à sua volta. A seguir, soprou para afastar a poeira que ainda a ocultava. E ei-la, brilhante e desafiadora, feita atração do abismo! Por breves instantes, contemplou-a, emudecido, sentia-se como se estivesse hipnotizado diante da cabeça de uma serpente que ia atacá-lo a todo o momento com a língua bífida.” A dureza do momento merece-lhe um digno desenvolvimento, o episódio acaba bem, mas a continuação da operação é manchada por o Cabo Serafim, moleiro de Temilobos, ter pisado uma mina antipessoal, não resistirá aos sofrimentos. A marcha prossegue, inesperadamente a coluna é sacudida por uma emboscada, o Sargento Santos atingido mortalmente na cabeça, há feridos, Luís Lapa incluído, ficará longo tempo internado no Hospital Militar de Bissau.

Dá-se a rendição da CCAÇ 413, ansiosamente esperada perante 751 infindáveis dias e noites. O texto polvilha-se de muitas considerações à posteriori, a conversa com o sr. Major no comboio só pode ser aceite ao nível da ficção, era totalmente impensável em 1965.

O texto tem agora parágrafos magníficos, já Luís Lapa despiu a farda, e ao som da missa solene vamos acompanhar uma esplêndida ode ao Douro de Cima-Corbo, terra de bom vinho, espesso e rijo. A mãe falece, o tenente na disponibilidade volta para Coimbra, de onde não alberga recordações amigáveis, vem ao encontro de Maria Inês, toda a missa solene de Beethoven irá acompanhar o derradeiro escrito. “Apenas iria persistir dentro de si, transfigurada pelo distanciamento no tempo, a Guiné dos Balantas fiéis ao barrete vermelho com que coroavam as suas cabeças, algumas paisagens ainda com a virgindade deslumbrante com que o criador lhes ofereceu aquando do Génesis e o cheiro da terra quente e avermelhada da grande África.”

Esta prosa narrativa é precedida de uma apresentação pelo General Chito Rodrigues, tece considerações sobre a guerra e enfatiza o trabalho de Albano Dias da Costa, sobretudo a magnífica descrição dos cinco momentos do ciclo da vinha, texto entremeado pelo reencontro com a mãe que irá falecer.

Estou em crer que o leitor não contestará quando digo que depois de décadas estuantes de romance, conto, novela, poesia, diarística, reportagem e afins, a idade confina o combatente aos escaninhos da memória, à trajetória que vai do antes ao durante, até ao peso maior do remanescente que fica como saudade, resquício de solidariedade, mágoa pela indiferença dos outros, talvez culpa por acontecimentos em que interveio e em que se pensa que podiam ter decorrido de outra maneira, agora só resta o apaziguamento.

Quartel de Mansoa. Imagem do Padre José Torres Neves, publicada no nosso blogue, com a devida vénia
Ponte sobre o rio Mansoa. Imagem do Padre José Torres Neves, publicada no nosso blogue, com a devida vénia
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Nota do editor

Último post da série de 23 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27663: Notas de leitura (1888): "Porto, 1934 a Grande Exposição", por Ercílio de Azevedo; edição de autor, 2003 (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27663: Notas de leitura (1888): "Porto, 1934 a Grande Exposição", por Ercílio de Azevedo; edição de autor, 2003 (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 28 de Julho de 2025:

Queridos amigos,
É o primeiro grande teste do Estado Novo para exibir a gesta Imperial, seguir-se-á 1937 e uma exposição que terá lugar no Parque Eduardo VII e em 1940 a Exposição do Mundo Português é o ápice da grande nação colonial, uma das maiores potências coloniais, é o que sobrou depois das guerras da Restauração e da independência do Brasil. Escolheu-se o Porto e uma área apropriada dentro dele, o Palácio de Cristal, houve obras profundas, Henrique Galvão cuidou dos primores decorativos, o êxito foi retumbante, irá ler-se no texto o número impressionante de comboios, camionetas e automóveis envolvidos, mais de um milhão e trezentos mil visitantes. A Guiné caprichou, pela majestade do régulo Mamadu Sissé, o pintor Eduardo Malta desenhou-o e pintou-o, sente-se que o personagem o deslumbrou; a Rosinha, já noiva do régulo dos Balantas, ganhou o concurso da grande beleza, o fotógrafo Domingos Alvão não lhe regateou belas fotografias; o menino Augusto era tão cativante que até fez publicidade; e o varonil e atlético Papé morreu inesperadamente, tal como o menino Augusto faleceu com tuberculose. O Tenente Henrique Galvão foi alvo de queixas das respeitáveis senhores portuenses que consideravam inaceitável andarem para ali umas meninas pretas com o peito ao léu, elas eram a grande atração dos visitantes, os grandes dignitários do regime não deram seguimento à queixa, dizendo que não tinha pés nem cabeça pôr as meninas vestidas à europeia... a civilidade viria com o tempo. E assim foi ganho o grande teste, o Estado Novo podia orgulhar-se de ter mostrado que Portugal não era um país pequeno.

Um abraço do
Mário



A Guiné e a Primeira Exposição Colonial Portuguesa, Porto, 1934

Mário Beja Santos

Porto, 1934 a Grande Exposição, por Ercílio de Azevedo, edição de autor 2003 é uma grande angular sobre o contexto sociopolítico e cultural em que decorreu a primeira exposição colonial, mostrando igualmente acontecimentos fotográficos, jornalísticos e propagandísticos desta grande realização. Era uma grande aposta do Estado Novo a impor em plena exibição pública o sonho imperial, a grandeza do Império, a missão evangelizadora, destacar as glórias da expansão ultramarina. Crescia por toda a Europa o autoritarismo e as apetências imperiais, havia uma larga tradição de feiras universais, mas eram poucas as exibições da história Imperial. O Ministro das Colónias, Armindo Monteiro, encarregou o Tenente Henrique Galvão da tarefa de organização dos stands da exposição.

O Acto Colonial fora prolongado em 1930, Portugal era a quarta potência colonial no mundo, o artigo 2.º do Acto Colonial era explícito, declarava ser da “essência orgânica da Nação Portuguesa desempenhar a função histórica de possuir e colonizar domínios ultramarinos e de civilizar as populações indígenas”. Procurava-se igualmente ultrapassar a deficiência ou a ausência de conhecimentos sobre a realidade colonial. Era grande a aposta, Salazar era Presidente do Governo desde 11 de abril de 1933, António Ferro editava no ano seguinte um luxuoso e artístico álbum que mostrava o estado florescente da nação, o que se alterara na rede viária, na instrução, nas finanças públicas, no restauro dos monumentos, no teatro e no cinema. O autor também nos desvela a vida do Porto por esse tempo.

E temos a realização passo a passo, a apresentação da iniciativa que meteu peditórios, baile e banquete no Palácio da Bolsa. Segue-se um acervo fotográfico entre a primeira pedra e a inauguração, nesse dia não faltarão o Presidente Carmona, o Ministro dos Negócios Estrangeiros, o Ministro da Guerra, o Ministro das Colónias, o Cardeal-Patriarca. Todas as colónias têm o seu pavilhão, ocupam espaço próprio, os visitantes cedo vão ficar deslumbrados com as mulheres guineenses em tronco nu, irá ouvir-se a queixa das respeitáveis senhoras do Porto, apelos uns atrás dos outros ao Tenente Henrique Galvão para que acabe com aquele desaforo, ver os indianos como encantadores de serpentes ainda vá, mas poder ver aquelas mulheres sem vergonha era inaceitável. Galvão replicou que os indígenas estavam vestidos exatamente como viviam.

Ercílio de Azevedo vai mostrando como ao longo da exposição eram apresentados os trabalhos jornalísticos, as visitas de pompa e circunstância como a do futuro Rei Eduardo VIII de Inglaterra, mostram -se imagens das grandes paradas, não falta o grande Cortejo Colonial, participam também as gentes da metrópole, não faltarão os Pauliteiros de Miranda, o carro da Casa do Douro, as Tricanas de Coimbra. A CP promoveu excursões a preços excecionais. A exposição custou 1.500 contos e rendeu 3.500, foi visitada por um milhão e trezentas mil pessoas, movimentou 1.300 comboios, 5000 camionetas, 2000 camiões e 40.000 automóveis.

Vieram muitos indígenas ao Porto, a comitiva guineense caprichava, o seu Embaixador era o Régulo Mamadu Sissé, o seu filho Abdula era um distinto fidalgo gentílico. Os jornais noticiavam:
“Mamadu, Rei dos Mandingas desde 1913, com a sua corte em Pachisse, domina os Balantas e ganha os Galões de Alferes, submete os Bijagós. Filho espiritual de Maomé, ao nascer do sol voltado para Meca começa o reinado de cada dia. Esposado de Catarina, grande mulher, filha da linhagem do Régulo de Bissau, tem ainda outra e outra. Mas no amor do homem todas três era como se fossem uma só. Malique, filho mais velho, dos treze que são, lá ficou a governar as rudimentares relações dos súbditos com a certeza indestrutível de ter obedecido. Sem fronteiras na vontade, além do Alcorão e do respeito da soberania portuguesa, majestaticamente, Mamadu, hirto nos seus 67 anos de amor a Portugal, em magoada saudade confidencia que Folupe, centro da sua casa, da sua família e da sua corte era a sua Pátria toda.”

A Rosinha merecia todo o destaque da imprensa. Vieram autoridades galegas e condecoraram Mamadu Sissé, houve grande emoção na comitiva guineense. O Régulo que chefiava a secção indígena da Guiné era Mona Sambu, Eduardo Malta fez-lhe um desenho. Entrevistado pela imprensa, Mona Sambu revelou que era Régulo dos Balantas, já o pai desempenhara funções na polícia e acompanhara o Capitão Teixeira Pinto e Mamadu Sissé nas operações de ocupação. A Rosinha iria casar com ele.

Quem ganhou também notoriedade foi o Augusto, era o ai-jesus do público, umas vezes aparecia com o capacete colonial, houve empresas que lhe tiraram fotografias para venderem produtos. Houve igualmente acontecimentos tristes na comitiva guineense. Morreu um Bijagó vigoroso de nome Papé, era apresentado como um dos pretos mais atléticos da exposição. Na aldeia lacustre em que viviam os guineenses batucou-se, em som de luto.

Este álbum termina com uma coletânea de depoimentos revelando imagens propagandísticas de grande valor.


Quadro de Eduardo Malta mostrando o rego Mamadu Sissé e Grupo da Guiné
A dimensão do evento
Fachada da exposição, entrada do Palácio das Colónias
O famoso mapa propagandístico de Henrique Galvão, irá reaparecer com a Guerra Colonial
O comboio da exposição. Fotografia de Domingos Alvão
Interior da exposição, Nave central
"O Homem do Leme na Exposição Colonial de 1934 – Nesta exposição a escultura do Homem do Leme era em barro. Só mais tarde foi fundida e colocada em frente à praia, na Avenida de Montevideu". Do blog Do Porto e não só.
Réplica do Farol da Guia em Macau
Aldeia da Guiné
A Rosinha, mulher Balanta, ganhará o prémio da grande beleza feminina da exposição
O simpático Augusto, chegou a aparecer em anúncios de promoção tabágica, não voltou à Guiné porque morreu tuberculoso. Fotografia de Domingos Alvão
"Amélia Rey Colaço (1898-1990), no Teatro Gil Vicente na Exposição Colonial do Porto, com um vestido de António Amorim tendo ao colo o miúdo guineense Augusto. Foto Domingos Alvão, Porto Museu Nacional do Teatro".
Trabalho de Almada Negreiros alusivo à exposição do Porto
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Nota do editor

Último post da série de 19 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27650: Notas de leitura (1887): "Soldadó", de Carlos Vale Ferraz; Editorial Notícias, 1997 (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27650: Notas de leitura (1887): "Soldadó", de Carlos Vale Ferraz; Editorial Notícias, 1997 (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 29 de Julho de 2025:

Queridos amigos,
Nunca entendi este discreto silêncio dos editores de Carlos Vale Ferraz face a esta extraordinária narrativa publicada em 1997 pela Editorial Notícias. É uma tragicomédia como não há outra na literatura da guerra colonial, numa atmosfera que prima pelo grotesco, onde sobressai a teatralidade de figuras únicas desta literatura, um recém-comandante chegado a um temível destacamento de guerra, analisa-se o processo que poderá levar à condecoração de um soldado básico multifuncional, de cangalheiro a fiel de armazém e guarda-costas de prostitutas, assomam o Capitão Gorgulho, veio castigado, o Majorué, o oficial de Operações mais divertido de toda esta literatura, um Segundo-Comandante pouco dado à inteligência, o anarca Capitão Baltazar, um Capelão cheio de latinório, mas com muitas culpas no cartório quanto a sexo escondido e respetivas doenças. Soldadó merecia sair da sombra e voltar ao nosso convívio, aquela instituição militar já não existe e muito bem podia ter acontecido naquela guerra colonial o que aqui se conta com a verve de humor que nos faz rir a bandeiras despregadas.

Um abraço do
Mário



Soldadó, uma das obras mais belas de Carlos Vale Ferraz

Mário Beja Santos

Dedicado “Aos que gostam de mim”, a obra Soldadó, de Carlos Vale Ferraz foi publicada em 1997 pela Editorial Notícias. Penitencio-me de ter sido avaro na recensão dediquei a esta mirabolante, herética e apoplética narrativa. Sou levado a concluir que ler o livro para fazer a recensão tem a nobre exigência de a ele voltarmos com a memória arrefecida, é este um desses flagrantes casos em que se retoma a leitura, surgem revérberos caleidoscópios, novos ângulos, outro sentido das frases, uma maior subtileza para as mensagens que correm na estrada principal. Soldadó não era o livro humorístico, do bota-abaixo, de corrosivas caricaturas da instituição militar. Bem vistas as coisas, este soldado bronco, de obediência e fidelidade caninas, o mais improvável dos heróis, toda aquela atmosfera teatral em que vai decorrer a inquirição que poderá permitir a condecoração do Soldadó, revela o talento e a verve cáustica do escritor que põe em causa os consagrados valores da guerra colonial perfilhados pelo Estado Novo. Vamos aos factos.

Ele chama-se Fergusino do Ó, vem de um lugar ermo do Nordeste Transmontano, descoberto pela GNR quando andou a percorrer itinerários para o censo de 1960. Não é atirador Infante, cavaleiro ou artilheiro, é um soldado básico, pau para toda a obra, suficientemente ajustável para agir como cangalheiro, sacristão, fiel de armazém, projecionista de filmes pornográficos, guarda-costas daquelas meninas que vêm episodicamente minorar a vida agreste dos militares em Mueleka (será Mueda?).

Iremos conhecer a sua história tudo contado em ambiente fechado onde protagonizam figuras ímpares da literatura da guerra colonial: o recém-chegado Comandante, um vigoroso Tenente-Coronel de Infantaria a quem o cabelo cortado à americana, rapado dos lados nivelado no topo com qualquer máquina da família dos aparadores de relva, assemelhava a um boxeur retirado dos ringues; o Segundo-Comandante, um major pacato e gorducho, responsável pelos assuntos administrativos, cujo verdadeiro nome ninguém sabia e a quem todos tratavam por Segundo, o nosso Segundo, uma criatura apagada, de estômago atazanado por uma úlcera, sujeitando-se a uma dieta rigorosa, tinha fama de pouco dotado de inteligência; o narrador das diligências sobre a vida e obra do Soldadó, o Capitão Gorgulho, um inofensivo professor primário, de pernas curtas, braços compridos e peludos, viera punido para Mueleka, mas não parecia nada incomodado com a punição que o retirara do honroso posto à frente de tropas em campanha; a inesquecível figura do major de Operações, Majorué, um primor nos dichotes, nos comentários com vitriolo, ninguém lhe leva a palma. Outros surgirão, como o Capelão e o Alferes do Pelotão de Intendência.

Que pretende contar o Capitão Gorgulho de tudo quanto se sabe sobre o Soldadó? Veio de Cabeça Seca, quando chegou ao Regimento de Infantaria 13, havendo falta de espaço das casas quadriculadas dos mapas de registo passou a ser Soldado do Ó e depois Soldadó. À primeira vista, parecia destinado a ser atirador, o pior foi quando lhe puseram uma arma nas mãos, andou hilariante a disparar rajadas, todos se puseram de acordo que ele devia ser afastado do convívio com as armas de fogo, foi reclassificado como soldado básico. Veio a convocatória para a guerra, o assunto parecia tê-lo deixado indiferente. Também se faz uma reflexão sobre a tentativa de civilizar aquela gente de Cabeça Seca, enviou-se um padre, um bom homem que não foi bem-sucedido nas intempestivas discussões com o feiticeiro da terra, no fundo as gentes de Cabeça Seca tomavam como mau agoiro a presença de estranhos no seu seio.

E também se conta o cerimonial da partida do contingente militar no cais de Alcântara, vale a pena tomar nota do que escreve o autor:
“A magalagem pendurada nos bordos do Niassa era mais que moscas em boca de cão morto e cá em baixo juntava-se uma multidão de paisanos maior que um tapete de formigas carregadeiras dentro de um açucareiro. Acenavam desesperadamente aos militares embarcados e estes respondiam desensofridos, como se tivessem esquecido alguma coisa muito importante em terra, saltavam e guinchavam, demonstrando uma incompreensível raiva de condenados, ali conduzidos presos por uma corda.”


O recém-chegado comandante vai de assombro em assombro, faz perguntas aos outros oficiais, recebe respostas calmas e aparentemente sustentáveis. É nisto que bate à porta um Capitão, o Capitão Baltazar, fala-se do trabalho do Soldadó na sua atividade de cangalheiro. O Capitão Baltazar solta um prolongado uivo, o Majorué anuncia que ele está apanhado pelo clima, o comandante anda lívido com todos estes disparates que presencia.

O Segundo-Comandante elogia as atividades do Soldadó como cangalheiro:
“A princípio custara-lhe um pouco desenrascar-se, porque os corpos apareciam todos desengonçados das minas e outros vinham já muito rijos e era preciso dobrar-lhes os membros à força, mas com boa vontade tudo se resolvia. Ultimamente até os lavava para limpar o sangue e a pólvora, preferia os mortos pequeninos, para caberem nas urnas logo à primeira e de cara composta. No cemitério, enterrou dois mortos de cova, em beliche, para poupar espaço e trabalho.”


Entra em cena o Alferes do Pelotão de Intendência, era o responsável pelo Soldadó. Estamos já em Mueleka, foram contadas todas as peripécias da viagem, é nisto que o Majorué se revela desabrido com o Capelão e denuncia-o pelas suas piruetas sexuais, deixa o Capelão encavacado. O Alferes continua a sua apreciação das atividades do Soldadó, era doido por guardar armamento, incapaz de desperdícios, recolhia dos falecidos ouro e prata, notas e moedas. E, imprevistamente, acontece o seu feito heroico, o Comandante Militar e a sua comitiva vieram visitar Mueleka, é durante a visita que acontece um vendaval de fogo, prontamente o Soldadó, a peito descoberto, despejou os carregadores da espingarda, mais as fitas disponíveis na metralhadora, contra a orla da mata à sua frente, só parou depois de ter sido ferido por um estilhaço, o Soldadó será o único ferido daquela estranhíssima refrega, o General entendeu que se devia fazer o reconhecimento, a sua comitiva estava ansiosa por partir, ninguém gostara daquele inesperado tiroteio, e o recém-chegado Comandante fica ainda mais atónito quando se descobre que todo aquele foguetório tinha sido operação montada dentro de Mueleka.

O Alferes da Intendência, encarregado de organizar o processo do Soldadó herói descobre um facto estarrecedor: o Soldadó está há quatro anos em Mueleka, mais uma história difícil de descalçar a bota.

Não é nada conveniente contar como tudo acabou, quem faz recensões não é desmancha prazeres, se houver mistificação e mentira em todo aquele feito heroico era necessário levá-lo a bom porto. Foi o que aconteceu, dentro de alguns anos o povo de Cabeça Seca erguerá um monumento a esse militar de sublime comportamento.

Se é verdade que falta a Soldadó a dimensão de Nó Cego, a obra-prima de Carlos Vale Ferraz, porventura a mais importante obra de toda a literatura da guerra colonial, reconheça-se que esta tragicomédia devia ser reeditada, é uma narrativa de arromba.
Carlos Vale Ferraz, pseudónimo literário do Coronel Carlos de Matos Gomes (1946-2025)
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Nota do editor

Último post da série de 16 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27639: Notas de leitura (1886): Notas soltas sobre a renovação do nacionalismo imperial português (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27639: Notas de leitura (1886): Notas soltas sobre a renovação do nacionalismo imperial português (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 26 de Novembro de 2025:

Queridos amigos,
Muito se tem falado sobre esta I Exposição Colonial, acabou por funcionar como o ensaio geral da Exposição do Mundo Português, pelo meio ainda se fez uma exposição no Parque Eduardo VII, nova exibição de matérias-primas e de atração aos investimentos e convocação de mão-de-obra. O evento constituiu uma declaração ideológica, Portugal assumia a sua missão civilizadora , tocava a rebate para mobilizar as almas, exaltava-se o espírito missionário, a propaganda tudo fez para mostrar que "Portugal não era um país pequeno". Ponto curioso, a presença guineense mereceu primeiro destaque, faziam-se excursões para ir ver as Bijagós em tronco nu, todo aquele exotismo encantava gente de todas as idades. O régulo Mamadu Sissé mereceu todas as honras, na pintura, na fotografia de Domingos Alvão, nos desenhos de Eduardo Malta, era a dimensão da pose de um soberano, destemido e profundamente fiel à bandeira portuguesa.

Um abraço do
Mário



Notas soltas sobre a renovação do nacionalismo imperial português

Mário Beja Santos

A I Exposição Colonial, que se realizou no Porto, em 1934, põe em prática os princípios ideológicos e programáticos do Acto Colonial de 1930, promulgado ainda durante a Ditadura Nacional, e que consagrou doutrina aceite na Monarquia Constitucional e I República, isto é, alterada a nossa presença em três continentes depois da Revolução de 1640 e com a separação do Brasil, o poder político manteve uma ideia imperial e um espírito de missão. Acresce que as decisões tomadas na Conferência de Berlim implicaram o envio de tropas, a procura de subordinação das chefaturas africanas, a atração de investimentos; a I República arrepiou caminho quanto aos critérios de missionação e ensaiou a descentralização política com a criação de altos-comissários. Salazar pôs a sua assinatura no Acto Colonial, ficou claro a subordinação das colónias aos interesses da metrópole, definiu-se a nação no desempenho da função histórica de possuir e colonizar domínios ultramarinos e de civilizar as populações indígenas; apagou-se a autonomia financeira e administrativa das colónias, estabelecendo-se critérios de rigor financeiro; com as devidas cautelas, as companhias privadas, muitas delas internacionais, perderam poderes soberanos, irá sendo a sua presença gradualmente vigiada, e no caso da Guiné serão substituídas por empresas que interessavam ao Estado fornecer matérias-primas à metrópole, será assim com a Casa Gouveia (dependente da CUF) e a Sociedade Comercial Ultramarina (associada ao Banco Nacional Ultramarino).

Em termos históricos, a Exposição Colonial do Porto deixa transparecer a renovação ideológica preconizada pelo Estado Novo. Nesta obra aqui referida, há um texto altamente sugestivo assinado por Francisco Vieira Machado, então do Governo, e mais tarde a figura de proa do Banco Nacional Ultramarino. O texto que ele deixa publicado intitula-se No Rumo do III Império:
“Há através da história de Portugal uma Ideia, ou antes, um ideal, que decerto enraíza na própria essência da alma e do carácter dos portugueses, tal é o rigor que se forma e a persistência com que renasce: o ideal da formação dos Impérios.

Esboçado e vago na organização do Infante, mais preciso sob a preciosa vontade de D. João II, ganha a primeira expressão real e perfeitamente enformada com Afonso de Albuquerque. E o primeiro esforço imperial da parte portuguesa despende-se no sonho de formação de um grande Império Asiático com guardas vigilantes em Áden, Ormuz e Malaca. Desfeito com a morte do grande político e guerreiro o plano tão audaz e inteligentemente iniciado, logo outro grande português – e esse tão desconhecido, tão caluniado, tão incompreendido por mais de três séculos de História: D. João III! – nos lança para a formação do Império Sul Africano. E do novo sonho, do novo rumo que o Ideal português procura, nasce esse portentoso Brasil, descoberto, colonizado, povoado e engrandecido por gente portuguesa.

Num vale escuro da História, invadidos nas organizações políticas e nas almas, pela ideologia de 1789, alheados do sentido da nossa grandeza e da nossa missão pelo falso esplendor de novas ideias, perdemos o Brasil e o rumo imperial da nossa nação nas Colónias.
Passam-se longas dezenas de anos – quase um século.
Uma geração de escol, que em si guardava as mais ricas virtudes de Portugal, levanta de novo a ideia colonial, lança-se para África, ocupa, pacifica e refaz e fixa as novas fronteiras imperiais.
Depois deles outros seguiram o seu esforço heroico.
E novamente o sonho do Império – desta vez o Império africano – ganha forma e encontra o velho Ideal português.
Estamos novamente no caminho do Império.”


Henrique Galvão foi mais do que o organizador da I Exposição Colonial, coube-lhe a ação de sensibilização da elite portuense para tirar partido de se ter escolhido o Porto para mostrar as gentes e as riquezas do Império. Dirá no decurso da sua exposição a estas elites que “Portugal é a quarta potência colonial do mundo, com um passado cheio de tradições, de aventura, arrojo e abnegação. Detém ainda, sob a sua soberania, vastos territórios de um património colossal.” Chama a atenção que embora em redor da Exposição Colonial tenha sido feita uma campanha de propaganda intensa, ao longo de dez meses, procurando esclarecer e despertar atenções, havia muito ainda para revelar: o que se pretendia com o certame, sabendo de antemão que a maioria das pessoas que o iriam visitar, vinham acicatados pela curiosidade, impunha-se aproveitar a oportunidade para fazer conferências, mostrar as riquezas coloniais, atrair gentes para irem até às colónias.

A Agência-Geral das Colónias, por seu turno, iria produzir documentação sobre os bravos militares, episódios da história da colonização, falar da nossa presença em todas as colónias. O objetivo primordial era formar as elites do regime e tendencialmente os investidores.

A Exposição foi um êxito e, ponto curioso, mais do que marcar presença, o que se mostrou da Guiné foi o que mais se guardou na memória e na imagem.

Henrique Galvão explica à elite comercial portuense os objetivos da I Exposição Colonial
Régulo Mamadu Sissé, um dos operacionais do Capitão Teixeira Pinto, fotografia de Domingos Alvão
Indígenas Bijagós numa das suas pirogas. Fotografia de Domingos Alvão
Um áspeto da aldeia lacustre dos Bijagós, fotografia de Domingos Alvão
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Nota do editor

Último post da série de 12 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27630: Notas de leitura (1885): "Os Có Boys (Nos Trilhos da Memória)", de Luís da Cruz Ferreira, ex-1º cabo aux enf, 2ª C/BART 6521/72 (Có, 1972/74) - Parte VIII: um quartel no coração chão mancanha (Luís Graça)