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segunda-feira, 6 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28161: Notas de leitura (1934): "Furriel não é Nome de Pai, Os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial", de Catarina Gomes; Tinta da China, 2016 (3) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 4 de Fevereiro de 2026:

Queridos amigos,
Se já estava afeiçoado ao que Catarina Gomes nos oferecera na 1.ª edição deste livro, em 2018, consolidei que esta edição de 2026 comprova como esta investigadora intensifica o vigor e a luminosidade que põe nas suas reportagens, a ponto de a dor sentida por estes filhos de tuga mexerem connosco. É uma nova dimensão dos estudos da história da guerra colonial que Catarina Gomes abriu as portas. Estamos perante factos consumados, não se podem fazer contas a quantos filhos de tuga, uns se resignaram ao abandono, outros buscam a identidade, e a única coisa certa que conhecemos é que tanto o Estado português como Angola, Guiné e Moçambique não se prepararam para reconhecer a dimensão desta realidade que a autora tão meritoriamente veio desvelar, escancarando os tabus, não deixando de nos alertar para as suscetibilidades que envolvem antigos combatentes que não têm coragem de dizer às suas famílias que há "restos de branco", carne da sua carne, a pedir identidade no clamor lá longe.

Um abraço do
Mário



Filhos do inimigo, restos dos portugueses, seres humanos à procura de identidade – 3

Mário Beja Santos

A 1.ª edição de "Furriel não é Nome de Pai, os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial", de Catarina Gomes, data de 2016, a escritora e investigadora foi-se afeiçoando a este tema e esta terceira edição, já publicada em 2026, está substancialmente aumentada, mantém um vigoroso discurso narrativo, muitas vezes pungente, é uma tocante viagem à dignidade humana naqueles territórios onde houve Guerra Colonial e apareceram meninos e meninas tantas vezes repudiados, sujeitos às mais ignóbeis humilhações e que não desistem de lutar pelo direito à identidade.

Depois da história de Óscar Albuquerque e da sua tia Filomena, uma narrativa sublime, onde se cruzam a dedicação, onde subjaz sempre uma forma de ternura e há um pai biológico que se põe a milhas da vida desse filho, tudo entremeado por uma burocracia infernal, temos agora os manos Celestina e Celestino, irmãos gémeos, há também um jovem branco que é o pai destes dois adultos mestiços, por acaso oficial do quadro permanente, saberemos pela narrativa que há um major reformado que tem uma filha chamada Emília, que não ficará indiferente a estes dois filhos de tuga, seus irmãos, residentes em Bambadinca.

A história começa com uma fotografia do pai dos gémeos, que está emoldurada por decisão de Celestino, este escreveu muitas vezes ao pai, não obteve resposta. Os irmãos guineenses entraram em contacto com a irmã branca através de uma carta endereçada à Excelentíssima Mana Emília Martins Prado, pediram-lhe algum dinheiro para os ajudar a viver um pouco melhor e também a fotografia do pai dos três. Emília apresentou-se, professora de Geografia, com três filhas adolescentes, vivendo numa cidade no norte de Portugal. Em nova carta Emília foi muito clara: “Sou só eu que desejo contactar convosco. Como compreendes, não posso enviar uma fotografia de uma pessoa que se recusa a estabelecer contacto convosco.” Um início de história pouco promissor.

Contudo Emília não está propriamente sozinha nesta história, tem a mais improvável das aliadas, a sua mãe, Sara Martins Prado, 82 anos, também professora – a suposta mulher traída pelo militar que já era casado quando fez os filhos gémeos na guerra. Sara sempre desconfiou de qualquer coisa. Aliás, muito interpelado por Sara, o oficial contou a verdade, deixara crianças na Guiné. Em comissões anteriores, Sara e Emília, e depois uma outra irmã, acompanharam o militar em Moçambique e Angola. Ele esteve sozinho depois na Guiné, numa geografia inventada por um qualquer estratega chamada Setor L1, o pai de Emília esteve em Bambadinca, as crianças nasceram de uma relação com a lavadeira.

A história agora ganha intensidade, Celestino corresponde-se com a tia Emília, cada um dos gémeos tem um descendente. A situação de Celestino preocupa Emília. “Celestino é carpinteiro sem carpintaria. O que consegue construir fá-lo usar ferramentas emprestadas por um vizinho, a bancada improvisada debaixo de uma árvore carregada de mangas. Portas e janelas são o que mais sai, mas ele tem competências também para montar tetos falsos. E não só. Um baú de madeira em casa de uma tia está protegido por um pano que Celestino afasta, como uma cortina que protege um quadro numa exposição, para que se veja como o alindou com trevos de quatro folhas gravados na tábua; noutra das arcas da sua lavra cunhou palmeiras, numa terceira um pelicano.”

Vamos conhecendo a família, a discreta Celestina, o seu filho Nadu, o filho de Celestino chama-se Geovane, os gémeos mudam de nome, fazem desaparecer os apelidos da mãe, Gomes Correia, para os substituir por Machado Prado, o nome do pai. Emília vai sabendo de tudo, como funcionam as creches e as escolas, uma parente afastada dos gémeos que vive em Portugal, de nome Carla, aconselha Emília quanto aos critérios da distribuição de dinheiro.

Emília fica atónita quando sabe que Celestina e Nadu estão em Portugal, o rapaz tem um problema nos olhos, toca de ensinar português a Nadu, o português de Celestina também vai melhorando. Nadu vai para uma instituição chamada Casa do Gaiato, em Miranda do Corvo, estuda com aproveitamento, a tia estimula-o. A relação entre irmãos é permanente, Celestino envia um SMS à mana, a mulher dera à luz uma menina, o seu nome é Emília Carla. Emília manda sistematicamente roupa infantil para a afilhada e não só.

E o pai dos gémeos, continua indiferente? A história termina, sabendo nós que tudo irá continuar com as preocupações da mana Emília e os sucessivos percalços na vida dos gémeos, assim:
“Emília e o pai vivem perto e são próximos, ainda há pouco ele saiu de sua casa. Há, dobradas pelos cantos, roupinhas de menina pequena. Não tem qualquer preocupação em escondê-las, pelo contrário, inconscientemente talvez as queira expor, como quando a mãe quis deixar o artigo do jornal no caminho do olhar do pai.
É impossível que o pai não repare nas saiinhas espalhadas pela casa, como uma com galo e galinha bordados em tecido de xadrez colorido. É impossível que não se tenha apercebido da acumulação de meiazinhas, sapatinhos, e que isso não lhe cause estranheza. Não há crianças pequenas na família. ‘Ele vê.’ Emília soa a criança travessa quando diz, algo sonsamente, que cumpre o que o pai lhe pediu. ‘Não falo disso’.”


A saga de Catarina Gomes vai prosseguir, temos seguidamente pais procuráveis, provavelmente não resistiremos às saudades do pai Monteiro, que a televisão se encarregou também de difundir, e a autora irá despedir-se com uma listagem de filhos que procuram pais portugueses, do género:
“António Urbino Gonçalves Brito. O pai seria 2.º grumete, originário de Câmara de Lobos, na Madeira, nascido a 11 de junho de 1951. Consta que até tentou raptar o filho pequeno para o levar para Portugal, mas que os familiares da mãe o impediram. Vive em Bissau.”
E também:
“Erasmo Fonseca. Engenheiro mecânico agrícola, nasceu em 1969. Os seus estudos levaram-no até Cuba. A sua mãe, Maria Geralda Soares Cassamá, era professora primária em Quinhamel, perto de Bissau. O furriel, de quem usa o apelido, esteve colocado no quartel de Binar, onde conheceu a mãe, numa festa em casa de familiares.”


(continua)
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Notas do editor:

Vd. post de 29 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28144: Notas de leitura (1932): "Furriel não é Nome de Pai, Os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial", de Catarina Gomes; Tinta da China, 2016 (2) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 3 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28152: Notas de leitura (1933): "Retratos de Guerra", desenhos de Cristina Sampaio a partir da obra de Neves e Sousa, uma exposição a não perder na Livraria Municipal Verney, Oeiras, patente ao público até 14 de Novembro (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 3 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28152: Notas de leitura (1933): "Retratos de Guerra", desenhos de Cristina Sampaio a partir da obra de Neves e Sousa, uma exposição a não perder na Livraria Municipal Verney, Oeiras, patente ao público até 14 de Novembro (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 22 de Junho de 2026:

Queridos amigos,
É assim que este evento é apresentado em termos de comunicação pela Livraria Verney, creio que diz o essencial sobre a exposição ‘Retratos de Guerra: Desenhos de Cristina Sampaio’ que vai estar patente na Livraria Municipal Verney, em Oeiras, até ao dia 14 de novembro.
⁠ ⁠‘Retratos de Guerra: Desenhos de Cristina Sampaio’ nasce do diálogo entre a obra documental do pintor Neves e Sousa e o universo gráfico satírico e geométrico de Cristina Sampaio.
⁠ ⁠Partindo dos desenhos do livro Angola a Branco e Preto, Cristina Sampaio confronta-se com a memória da Guerra Colonial, imaginando a realidade paralela às paisagens e figuras retratadas por Neves e Sousa. Em vez de recriar os desenhos originais, utiliza-os como cenários simbólicos para compor retratos de personagens marcadas pela guerra.
⁠ ⁠A exposição estabelece uma ponte entre passado e presente, memória e interpretação, revelando o contraste entre a serenidade aparente das imagens e a violência da guerra colonial. O resultado é um conjunto de obras onde o desenho se transforma em reflexão visual sobre identidade, conflito e memória coletiva.⁠

Um abraço do
Mário


Uma exposição a não perder:
Retratos de Guerra, desenhos de Cristina Sampaio a partir da obra de Neves e Sousa


Mário Beja Santos

Tendo sido confiada uma grande parte da obra de Neves e Sousa ao município de Oeiras, tem a havido a preocupação desta autarquia em tratar este património através de um ciclo de reinterpretações. O artista agora convidado é a Cristina Sampaio. Como observa o presidente da autarquia: “A artista parte de uma constatação simples, mas decisiva: enquanto aquelas imagens de aparente serenidade eram produzidas, decorria em simultâneo a guerra colonial. As paisagens os corpos e os quotidianos retratados por Neves e Sousa coexistiam historicamente com um conflito prolongado. O gesto de Cristina Sampaio é simultaneamente contido e incisivo. Os desenhos originais de Neves e Sousa permanecem, mas recuam. Tornam-se fundo, cenário, memória suspensa. Esbatidos, deixam de ocupar o primeiro plano para passarem a funcionar como espécie de arquivo visual sobre o qual surgem figuras apuradas, imóveis, quase frontais – personagens que parecem pousar diante da História, como nos antigos estúdios fotográficos.”

Esta exposição está patente ao público até 14 de novembro na Livraria Municipal Verney, no centro histórico de Oeiras.

Cristina Sampaio dá explicações do seu trabalho pelo catálogo da exposição:
“Nas pinturas identifiquei pontos com o meu estilo, pois, curiosamente, o traço orgânico dos desenhos de Neves e Sousa, ao passar à tela, transformam-se em geometria. Ao continuar a refletir sobre o que fazer, apercebi-me de que os desenhos eram contemporâneos da Guerra Colonial. Provavelmente, algumas daquelas paisagens ou pessoas, terão sido tocadas pela guerra, que decorreu entre 1961 e 1974. Foi assim que me decidi por esta abordagem da reinterpretação dos desenhos do Neves e Sousa. Iria retratar a realidade paralelamente à realidade por ele retratada. Do ponto de vista formal, eu não via sentido nenhum em redesenhar os desenhos de Neves e Sousa. Eles funcionam, nas minhas imagens, como as paisagens pintadas que existiam nos antigos estúdios de fotografia, à frente das quais as pessoas eram retratadas. A maioria dos meus desenhos são, portanto, pessoas a posar para a câmara. Retratos de Guerra.”

Selecionei um conjunto de desenhos e trabalhos da artista que nos levam claramente a Angola, caso dos diamantes e do petróleo, encheu-me as medidas o trabalho dela intitulado A Chegada é um esquiço seguro e sóbrio de uma situação temível para qualquer entrada na guerra, a chegada um teatro de operações; também encontrei universalidade nas duas imagens seguintes intituladas Travessia do Rio e Emboscada, deixando para último um grafismo que nos toca a todos, mas que foi inegavelmente mais associado a Angola e a todo o seu inferno de guerra civil. São estas, em suma, as razões principais que me levam a convidar-vos a visitar a exposição patente na Galeria Municipal Verney.

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Nota do editor

Último post da série de 29 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28144: Notas de leitura (1932): "Furriel não é Nome de Pai, Os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial", de Catarina Gomes; Tinta da China, 2016 (2) (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28144: Notas de leitura (1932): "Furriel não é Nome de Pai, Os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial", de Catarina Gomes; Tinta da China, 2016 (2) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 2 de Fevereiro de 2026:

Queridos amigos,
É, indiscutivelmente, uma reportagem em dó maior, a Guiné tornou-se um palco de eleição, foi aqui que começou a investigação de Catarina Gomes para o jornal Público, houve depois livro que deu origem ao documentário Filhos de Tuga, emitido pela RTP. Tudo começou com a história de Fernando, vergastado pelo padrasto por ter nascido com a pele mais clara, Fernando não se rendeu e criou um movimento associativo, sendo motorista foi descobrindo filhos de tuga por todo o país, o nome Fernando Hedgar da Silva é o nome que muitos soletram na Guiné-Bissau, uma luz acesa para filhos de guerra, crianças que ficaram para trás em Angola, Moçambique e na Guiné-Bissau, muita gente a buscar uma identidade perdida. São relatos por vezes pungentes, em que a busca da identidade negada se acompanha de uma tocante busca de dignidade. O mais estranho de tudo, como a autora observa, é que nem o Estado nem nenhum de nós se interessa pela dimensão desta realidade.

Um abraço do
Mário



Filhos do inimigo, restos dos portugueses, seres humanos à procura de identidade – 2

Mário Beja Santos

A 1.ª edição de "Furriel não é Nome de Pai, os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial", de Catarina Gomes, data de 2016, a escritora e investigadora foi-se afeiçoando a este tema e esta terceira edição, já publicada em 2026, está substancialmente aumentada, mantém um vigoroso discurso narrativo, muitas vezes pungente, é uma tocante viagem à dignidade humana naqueles territórios onde houve Guerra Colonial e apareceram meninos e meninas tantas vezes repudiados, sujeitos às mais ignóbeis humilhações e que não desistem de lutar pelo direito à identidade.

Quero recordar ao leitor que estamos perante um livro de procuras, tanto há encontros como desencontros, luminosidade e negrume, não falta a mediação de Catarina Gomes, a sua tentativa que pôs filhos e pais em comunicação, os falhanços são mais que muitos, estes velhos antigos combatentes devem entrar em pânico só com a ideia de informar a família constituída que chegou a hora de receber outros descendentes até então completamente desconhecidos. O que a autora nos vai contar sobre Óscar Albuquerque e a sua tia Filomena deixa o leitor estarrecido, a ânsia de Óscar ser recebido pelo pai e a tia Filomena que acaba por fazer as vezes desse pai que não quer sair das suas tamanquinhas.

O relato começa no Instituto de Medicina Legal, é ali que se vão fazer os testes de paternidade, a tia não tem dúvidas, para ela o irmão e o sobrinho são iguais no andar, têm as pernas arqueadas. Pai e filho fazem o teste sem trocar uma palavra. “A verdade vai ser extraída do interior de dois líquidos. Em menos de 1mm de sangue e saliva, retirado aos dois homens, está contida uma resposta.” Antes de ser Óscar, chamava-se Abdulai Seidi, assim que a família descobriu que a mãe estava grávida de um militar português casou-a de urgência. Os pais separaram-se, a mãe seguiu para outro marido, Abdulai ficou a cargo do padrasto, foi educado com mais quatro irmãos por um padrasto que o maltratava. Um dia uma vizinha não resistiu contar que ele era filho de um tropa português.

Ele começou a olhar para o antigo quartel português de Ingoré como o quartel do pai. Um guineense ex-camarada de armas do pai que agora era jornalista da Rádio Nacional, confirmou a versão da vizinha, e veio a revelação do nome do pai, Manuel Albuquerque, começaram as pesquisas sobre o pai tuga. Mudou de nome. Na escola tinha ouvido falar em Afonso Albuquerque, um vice-rei da Índia destemido, Abdulai converteu-se em Óscar, processo moroso. No novo registo de nascimento preencheu o campo do pai com Manuel Albuquerque. Inevitavelmente, surgiram as trapalhadas nas datas de nascimento, no novo documento pôs-se a data de nascimento em 1978, não fazia sentido, o pai tinha andado pelo Ingoré em 1972.

Óscar começou a bater às portas: a embaixada de Portugal na Guiné-Bissau, depois o Arquivo Geral do Exército, por portas e travessas, conseguiu a morada da casa do pai, seguiu carta, e depois outra, nada de resposta. Telefonou ao pai: “Lembra de Maimuna Djau? Eu sou filho de Maimuna, o filho que você deixou na barriga. Está a falar com o seu filho, Óscar.” E veio a resposta: “Não leve a mal, não sei de nada, amigo.” Seguiram-se outros telefonemas, inúteis, e assim se passaram dez anos sem Óscar voltar a escrever ou a telefonar. A foto de Maimuna chegou ao conhecimento de Filomena Viegas, a história da existência de uma criança vinha do passado, quando o militar chegou deu notícia à mãe que terá respondido: “manda vir o menino que eu crio-te”.

Filomena herdou os álbuns de família quando a mãe morreu. O irmão de Filomena casou e assim se esqueceu o feto na barriga da adolescente negra. Foi no jornal Público que ela viu a reportagem sobre os restos de Tuga e havia lá a fotografia em meio-corpo de alguém que se chamava Óscar Albuquerque. A partir daí Filomena não parou, conversa com Catarina Gomes, depois escreveu ao rapaz da reportagem, informa o alegado sobrinho de que a data do nascimento não pode ser 1972 pois a comissão do irmão fora em 1967-1968. Impunha-se fazer um teste de paternidade, Filomena traçou os seus planos, pagaria o bilhete de avião e os testes genéticos, o rapaz ficaria em sua casa, pessoas da família acham que ela se está a exceder. No Facebook, Filomena e Óscar conversam intensamente, Óscar tem 44 anos, os problemas de família não preocupam Filomena, a sua mãe era filha de um carpinteiro de Salvaterra de Magos e uma são-tomense; também o seu pai era filho de um beirão de Vouzela e de uma são-tomense.

Filomena anda empolgada: “Sou avó, sou mãe, sou educadora de infância reformada. Se eu ajudo pessoas de fora porque é que não hei de ajudar o meu sobrinho, o meu rapaz". Filomena envia fotos da família a Óscar. Filomena gosta muito do irmão, teme que a relação dos dois possa sofrer com a vinda de Óscar. Problemas não faltam: há sempre dificuldades em obter visto na Guiné para Portugal, foram precisos muitos meses de insistência para que Óscar aterrasse no aeroporto de Lisboa numa noite chuvosa de janeiro, Filomena espera-o com um saco cheio de roupa quente, os seus diálogos são um rico manancial de ternura, e assim se chega à convocatória do Instituto Nacional de Medicina Legal para a colheita de material biológico. O encontro de pai e filho é marcado por distâncias, é uma conversa de circunstância, o pai bem lhe perguntou o que fazia, não se furtou a responder que fazia biscates em pintura.

Há uma espera de semanas, Óscar vai conhecer Lisboa, recebe ternura da tia Filomena, esta não esconde a sua euforia nas redes sociais, o sobrinho nunca tinha provado grão nem frutos secos, engordou dois quilos, depois quatro, a tia ofereceu-lhe um dicionário de português, vestiu-o com aprumo, chega o resultado, o grau de probabilidade de Óscar Albuquerque ser filho do homem que no ofício ainda é identificado como pretenso pai é de 99,999997%. No primeiro aniversário de Óscar com a família portuguesa, Filomena cozinhou bacalhau no forno, comprou champanhe do bom e um bolo de chocolate rodeado de framboesas. O pai de Óscar mantém-se distante, mas acedeu ao pedido da irmã para irem à Conservatória do Registo Civil, mais um imbróglio, o pai esteve na Guiné em 1968, mas a documentação guineense diz que Óscar nasceu em 1978, os papéis têm de voltar para a Guiné. Tudo parecia estar resolvido quando o pai disse à funcionária que era o pai do Óscar. Mas surgiu novo obstáculo, o mais inesperado: Óscar não podia ser perfilhado pelo seu pai biológico porque já estava nos seus documentos. Enfim o que servia na Guiné não servia em Portugal.

Na continuação da saga, enquanto se aguarda a chegada dos documentos corrigidos da Guiné, a tia ensinou-o a cozinhar, o sobrinho arranjou um quarto, foi-lhe recomendado que não andasse na rua a partir das dez da noite para não ser apanhado por uma rusga do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras. Óscar continua a ser assíduo nas reuniões de família que Filomena organiza, o pai nunca comparece. “Filomena diz que aprendeu a gostar de Óscar desde que ele nasceu. O irmão diz que não sente nada por ele, que o rapaz foi um acidente, Filomena suspira que os pais tenham partido, eles poriam aquele filho na ordem.” Óscar pôs-se a trabalhar, ora ajuda a fazer as instalações elétricas ora a rebocar ou a pintar paredes. “Já passou tempo suficiente para se perceber que Óscar e o pai não vão estar unidos sem ser em papel, são dois nomes escritos na mesma folha de papel guineense, onde o grau de parentesco que os deviam unir não os uniu ainda, e talvez nunca os venha a unir.”

Uma história dura de ler pela intensidade a que levou o encontro, os ziguezagues da burocracia, aquela tia que às vezes é tomada de desalento, Óscar está na família portuguesa e não está, quando fala com a tia já não diz “o meu pai”. Os dias e os meses passam, o papel que ainda acalenta a esperança de Óscar é o teste do ADN. “Se for apanhado numa rusga por estar ilegal, só tem aquela folha para mostrar e, se lhe derem tempo, pode contar a sua vida. Óscar bem sabe que o valor legal do papel e da sua história são nulos. Pode ser expulso, apesar deles. Mas foi o que conseguiu, o papel e a tia.”

Que o leitor se prepare, há outras histórias empolgantes ainda para citar.

(continua)

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Notas do editor:

Vd. post de 22 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28122: Notas de leitura (1930): "Furriel não é Nome de Pai, Os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial", de Catarina Gomes; Tinta da China, 2016 (1) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 26 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28134: Notas de leitura (1931): "Morrer no Cacheu", um trabalho do jornalista Rui Araújo, publicado na Revista do Semanário Expresso do dia 31 de Março de 2001 (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28122: Notas de leitura (1930): "Furriel não é Nome de Pai, Os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial", de Catarina Gomes; Tinta da China, 2016 (1) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 28 de Janeiro de 2026:

Queridos amigos,
"Furriel não é Nome de Pai", de Catarina Gomes, é de leitura obrigatória, é uma longa viagem sobre tema sobre o qual se manteve discrição ao longo de décadas, os filhos dos militares portugueses deixados na Guiné, Angola e Moçambique, crianças sovadas, discriminadas, continuam a buscar uma identidade perdida, as autoridades dos países independentes e as de Portugal nem tentam reconhecer a dimensão do problema, parecem ser coisas do destino, ainda por cima os ex-combatentes é uma categoria em vias de extinção, e as crianças deixadas nas antigas colónias, hoje homens e mulheres com mais de 50 anos nem são tema para conversas nos almoços anuais que eles fazem. É uma bela edição revista e aumentada, a narrativa é primorosa, e momentos há, caso do encontro entre Óscar Albuquerque e a sua tia Filomena que temos a convicção do poder radial e luminescente desta moderna literatura portuguesa.

Abraço do
Mário



Filhos do inimigo, restos dos portugueses, seres humanos à procura de identidade – 1

Mário Beja Santos

A 1.ª edição de "Furriel não é Nome de Pai, Os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial", de Catarina Gomes, data de 2016, a escritora e investigadora foi-se afeiçoando a este tema e esta terceira edição, já publicada em 2026, está substancialmente aumentada, mantém um vigoroso discurso narrativo, muitas vezes pungente, é uma tocante viagem à dignidade humana naqueles territórios onde houve Guerra Colonial e apareceram meninos e meninas tantas vezes repudiados, sujeitos às mais ignóbeis humilhações e que não desistem de lutar pelo direito à identidade.

Na introdução, a autora dá-nos conta de outras histórias de filhos de militares, não deixa de impressionar a lista de filhos de guerra, noutras paragens. A momentosa questão dos “filhos de tuga” parece não sensibilizar a sociedade portuguesa, quando os meios de comunicação social afloram esta dolorosa realidade, é o discreto silêncio que prevalece, parece ser praga ou vicissitude dos tempos de guerra sem remédio.

Esta investigação foi iniciada em 2013, na Guiné-Bissau, a própria autora ficou surpreendida pelo dilúvio da procura, partira com quatro contactos de supostos filhos de ex-militares portugueses, a receção foi turbilhonante: “Um passa-palavra descontrolado colocou ao nosso dispor uma torrente de vidas que era impossível recolher no tempo que tínhamos. Alguns filhos tinham de esperar horas para os ouvirmos, as suas histórias eram as mensagens que nunca tinham conseguido enviar aos pais. Os primeiros dias emocionaram-me, mas houve momentos em que me senti como se estivesse num guichê de repartição pública, a preencher folhas e folhas de relatos que, a certa altura, se repetiam no essencial – eu fazia ali as vezes de Portugal.”
Haverá um testemunho, o de Fernando Hedgar da Silva, que a empurrará a escrever este livro, a história da associação que ele criou é qualquer coisa de sublime nos seus percursos de dramatismo que a autora traz ao leitor. Mais adiante, ouviremos falar de Óscar Albuquerque e da sua tia Filomena, creio que são espantosas páginas antológicas que ultrapassam a linha da investigação, é um dos mais luminescentes encontros que a literatura portuguesa nos proporciona.

Ninguém conhece ao certo a dimensão do universo dos “filhos de tuga”, se são centenas ou milhares, na Guiné, Angola ou Moçambique e, francamente, é difícil fazer comparações com estimativas do Vietname ou outros locais de outras presenças coloniais, onde houve belicismos. Atenda-se ao que Catarina Gomes escreve na introdução: “Todos os dias morrem metades desta história. Os pais portugueses estão nas fases finais das suas vidas, e estes filhos, na casa dos 40-50 anos, também podem estrar perto do fim das suas. A esperança de vida dos três países africanos ronda os 30 anos. Se continua a haver todos os anos almoços-convívios de ex-combatentes é porque a guerra ainda vive nestes homens.”

Fernando Hedgar da Silva, como se disse, é um dos fios condutores desta trama. Lembra na sua meninice os fuzilamentos havidos em Canchungo de quem tinha colaborado com as tropas portuguesas, o PAIGC apodava-os de serem “traidores da Guiné”, a população fora obrigada a assistir aos fuzilamentos e do mesmo modo teve de comparecer a um baile noturno, era obrigatório celebrar – mesmo quem acabava de perder familiares. A vida de Fernando mudou no dia em que o vizinho o admoestou dizendo que ele não tinha direito à opinião, era um resto de tuga. Pôs-se nu diante do espelho, ali estava no seu tom de pele a razão pela qual a mãe o chamava em casa “branco” e “tuga”. Assim se iniciou a sua saga à procura de identidade, Fernando pensava que o pai se chamava Furriel, bateu a portas, mesmo à da Embaixada de Portugal, não encontrou saída, um dia tomou a decisão de criar uma associação “os filhos de tuga”.

Como era camionista, ia percorrendo o país à procura de “filhos de tuga”, passados os inúmeros encontros, ganhou corpo a Associação de Solidariedade dos Filhos e Amigos dos Ex-Combatentes Portugueses na Guiné-Bissau – Fidju di Tuga. As primeiras reuniões acabavam em longos convívios. E Catarina Gomes faz entrar em cena outros personagens, retornamos à vida nos quartéis, aos restos de comida dados a mulheres, e de repelão surge-nos a história de Nenedjo Djaló, ela não procurou, foi encontrada. “Foi por acaso: dois ex-combatentes portugueses, em romagem nostálgica à Guiné, cruzaram-se com um primo de Nenedjo, que aproveitou para chamar a atenção para a filha que o capitão Lopes tinha deixado. Conheciam-no e aceitaram levar-lhe a novidade. A primeira vez que Nenedjo e o pai falaram ao telefone choraram, e ele deu-lhe a escolher: ‘Queres vir cá ou vou eu aí?’. Ela não teve dúvidas, era a oportunidade de se vingar: ‘Preciso que você venha cá, as pessoas que me discriminaram, quero que elas o vejam’.” O pai veio, Nenedjo foi até Portugal, mas a relação não teve sequência, o pai gosta, mas não a reconhece.

Acompanharemos outras viagens de Fernando, iremos mesmo ao cemitério de Bissau. “Alguns filhos da Associação já choraram ao ler os nomes que se deixam ler. Os que não sabem bem como se chama o pai, como Fernando, também já se perguntaram se nalgumas daquelas sepulturas estará o pai. E se ele for um dos homens apagados? Nesse sentir há uma tristeza, mas, simultaneamente, uma esperança porque assim o abandono dos filhos não o seria. Os pais não vieram ter com eles porque nunca saíram dali, morreram na Guiné, coitados, tão jovens, pouco depois de os terem feito.”

Discutem-se nomes hipotéticos para os pais desconhecidos, fazem-se aditamentos nas certidões de nascimento, e assim se criou a ilusão de se ganhar uma vida própria. Fernando não para de investigar. Consultou os registos paroquiais na igreja de Canchungo. Encontrou-se a ser batizado na folha 59, certidão n.º 106. Existia há mais tempo do que pensava. Em vez de ter nascido a 24 de dezembro de 1971, como vinha no seu bilhete de identidade, ele era, afinal, de 5 de janeiro de 1968. Na certidão nada da identidade do pai nem dos avós paternos. Mas vinha lá o nome dos padrinhos de batismo, um português que então vivia em Teixeira Pinto, um comerciante que já tinha morrido. A madrinha era parteira, viera para Portugal há muitos anos. O seu nome era Ermelinda Félix Tavares. A autora, depois de longos meses de pesquisa, encontrou-a. Mostrou-lhe a fotografia de Fernando adulto, não se lembrava dele nem da mãe, Sabadozinha Mendes. Houve conversa de mulheres: “São coisas que aconteceram durante a guerra. Se elas precisavam de alguma coisa davam-se aos militares. Não era amor, não, coitadas.”

Vamos ver seguidamente um dos episódios espantosos (senão o mais espantoso, pelo nível de ternura e meandros de encontros e desencontros) desta pesquisa, Óscar Albuquerque e a sua tia Filomena, prestem atenção.

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 19 de Junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28115: Notas de leitura (1929): A biografia de um combatente: O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História (4): VII - A Viagem do Tangomau e VIII - As investigações sobre a Senegâmbia e algo mais (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 19 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28115: Notas de leitura (1929): A biografia de um combatente: O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História (4): VII - A Viagem do Tangomau e VIII - As investigações sobre a Senegâmbia e algo mais (Mário Beja Santos)

CONGRESSO INTERNACIONAL
DAS GUERRAS AO PÓS-25 DE ABRIL
Os Militares em Territórios em Conflito
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
De 2 a 4 de abril de 2025


A biografia de um combatente:
O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História

Mário Beja Santos

VII - A Viagem do Tangomau

Este é o título do livro que escrevi, autobiográfico, onde conto a minha preparação militar, as unidades que percorri antes de partir para a Guiné, relato a minha vida na comissão militar com as populações de Missirá e Finete e depois na intervenção junto do batalhão de Bambadinca; no regresso dei instrução em Mafra, fiz os meus estudos académicos, tornei-me funcionário público, um técnico da política dos consumidores; por esse facto foi me pedido para fazer cooperação na Guiné, experiência por um lado aliciante por outro profundamente dececionante por se ter revelado que a administração guineense e os seus governantes eram incapazes de assumir a responsabilidade que lhes cabia no protocolo entre dois países. Isto passou-se em 1991, e como vos disse atrás, em 2006 passei a devotar-me à escrita sobre temas guineenses.

Ainda hoje sinto uma profunda comoção quando releio o que escrevi em "A Viagem do Tangomau". Desembarco em Bissau de madrugada, logo me encheu as narinas aquele cheiro específico que eu dizia no passado que era um misto de morangos apodrecidos e de terra capinada, não senhor, como me recordou o Sr. Sabino, o motorista da Embaixada de Portugal na Guiné-Bissau, neste cheiro penetrante há gafanhotos mortos e a goma das acácias floridas. Na manhã seguinte, saí da pensão e dirigi-me às ruínas do Palácio Presidencial, era um verdadeiro escombro, subi a escadaria até ao salão de festas, tudo enegrecido pelo incêndio, portas roubadas, vidros partidos; tomei uma bica no Café Império, uma boa pastelaria, com ressonância às guloseimas portuguesas; desci a Avenida Amílcar Cabral, subi à Pensão Central, fui dar um beijinho à avó Berta, que se deslocava com o seu andarilho, ficou combinado no dia seguinte que lá ia almoçar o prato guineense que mais aprecio, o pitche-patche de ostras. Apresentei-me na Embaixada, depois de ter trocado dinheiro no Bissau-Velho. Já tinha à minha espera uma série de pessoas para lhes entregar as encomendas recebidas em Lisboa, havia ainda uma ronda de telefonemas para convocar vários destinatários a quem devia entregar camisas, perfumes, volumoso correio. Conversa com o Embaixador, afabilíssimo, iremos almoçar à Pensão Central. E à tarde tenho pela frente viagens por bairros ínvios, esconsos e labirínticos: Bairro Militar, Bairro Bissaque, Bairro Missirá, Bairro Quelelé. A visita mais demorada será no Bairro Missirá à Maria Fausta, a mulher do meu querido amigo Abdu.

Jantei no Bissau-Velho com Patrício Ribeiro, o empresário que trabalhada desde há muito na Guiné, passou gente conhecida. No dia seguinte fui entregar todas as cartas da então Guiné Portuguesa, obra dos serviços geográficos do exército, conversei com alguns investigadores, deliciei-me com o pitche-patche, a avó Berta muito zangada por eu não ter ficado lá a dormir, tive que lhe dar a minha palavra de honra que no regresso da viagem aos sítios onde combatera e depois de me despedir dos meus antigos soldados, regressaria a Bissau e lá dormiria.

Não posso cansar-vos com esta narrativa da viagem, o Sr. Sabino levou-me a Bambadinca, pelo caminho não escondeu que se sentia muito intrigado, deste a independência que era motorista da Embaixada, nunca lhe tinha aparecido pela frente a missão de levar um ex-combatente a ir ver os seus antigos soldados. Como disse, fiquei em Santa Helena, num sítio chamado Bairro Joli, um ponto alto com uma vista deslumbrante sobre a outra margem do rio Geba, ali sentado o meu olhar percorria Finete a Mato de Cão. Visitei demoradamente Missirá, escuso de dizer que houve choradeira, fui até Gambiel, aí se passou uma das maiores surpresas, tinha combinado com um motociclista, de nome Alasana Sori, originário da Guiné-Conacri o serviço diário, ele condutor eu passageiro, revelou-se um condutor exímio, chegados a Gambiel, vejo alguém a avançar para mim e a dizer-me tu és o nosso alferes, eu sou o Ieró Baldé, do pelotão de milícias de Missirá, nunca te esqueci. Vamos os dois de mão dada até ao palmar de Gambiel, era no tempo da guerra um verdadeiro Éden, cometeu-se o crime de cortar o rio, abateram-se as palmeiras, desfez-se o encanto daquela natureza prodigiosa. Para não vos cansar mais, digo-vos que vi praticamente tudo o que tinha sonhado rever: Bambadinca, Xitole, Finete, Enxalé, Madina e Belel, Canturé, do Xime fui até à Ponta do Inglês, foi aqui que descobri que me faltava visitar vários acampamentos do PAIGC que se estendiam do rio Corubal até ao Xitole, nas matas de Fiofioli, Mina e Corubal. E há o inesquecível almoço com os meus bravos, pedi para que se fizesse folaré, carne com costela de vaca, muitos legumes, muita batata inglesa, muito molho, um fartote de laranjadas, pedi uma sobremesa de talhadas de papaia e bolos de amendoim, tomei a palavra para lhes agradecer a lealdade que tinham tido para comigo, toda aquela dedicação que eu guardava como um sentimento, eles ficariam na minha vida como um dos acontecimentos mais extraordinários da minha existência.

Assim decorreu a viagem do Tangomau, no final de 2010, foi como que uma catarse, a viagem da despedida tinha também outros significados, uma verdadeira reconciliação. E de 2010 até ao presente essa reconciliação traduziu-se numa torrente de escrita.



VIII - As investigações sobre a Senegâmbia e algo mais

De vez em quando, ainda em plena atividade ou já com o estatuto de reformado, nas obras de ficção também imiscuí a Guiné. Quando escrevi "Um Escafandrista nas Nuvens", a história do romancista de romances de amor para seniores entre os 60 e os 90 anos, aparecia um almoço com os bravos do pelotão, o protagonista, o escritor Gil Santiago, preparara uma bacalhauzada para todos os seus soldados residentes em Lisboa e nos arredores, festa rija, com muitas recordações e promessas de reencontro, no fundo era a minha realidade a superar a ficção, dos oito presentes já partiram sete, só me resta o Abudu, que conheci em Missirá em criança, está hoje na casa dos 60 anos; no romance a "Rua do Eclipse", a trama passa pela relação de dois cinquentões que se encontraram em Bruxelas, ele como técnico português ela como intérprete belga, toda a comissão militar dele na Guiné é descrita num livro feito de correspondência a dois.

Em cooperação, escrevi "Da Guiné Portuguesa à Guiné-Bissau: um roteiro", tomei gosto em frequentar bibliotecas e arquivos, quase que acampei na biblioteca da Sociedade de Geografia de Lisboa, e também na biblioteca do CIDAC, esta depositária de documentação fundamental para estudar a luta da independência e a governação de Luís de Cabral, escrevi então "História(s) da Guiné Portuguesa e da Guiné-Bissau", fiquei-me por 2014, tinha tomado posse o Presidente da República que cumpriu completamente o seu mandato, José Mário Vaz; passei um ano no então Arquivo Histórico do Banco Nacional Ultramarino, os relatórios dos chefes de delegação que recebiam instruções para, em termos sigilosos, e depois de elencarem os problemas económicos e financeiros da região fazerem uma apreciação da situação política, escrevi "Os Cronistas Desconhecidos do Canal do Geba". Num alfarrabista encontrei um livro de um poeta popular, antigo combatente da Guiné, ali fizera comissão entre 1963 e 1965, a sua lírica galvanizou-me e deu-me a ideia de escrever um livro que ia respondendo taco a taco às suas itinerâncias desde a recruta à passagem à disponibilidade, de novo aproveitei referências da imensa literatura produzida sobre aquela guerra, desde romance, conto, novela, poesia, memórias, e nesta parceria foi dado à estampa "Nunca Digas Adeus às Armas".

Para pôr termo a esta viagem sobre as minhas investigações, lancei-me num projeto ambicioso, de que estou a meio: elaborar, por seriação diacrónica, do século XV ao século XX, um género de antologia com textos uns que se podem classificar como determinantes ou incontornáveis, outros possuidores de raro vigor testemunhal, sobre a presença portuguesa desde o tempo em que os navegadores e cartógrafos portugueses denominavam a região por nomes vagos, inconclusivos e até bizarros, como Etiópia Menor, Rios da Guiné de Cabo Verde, Terra dos Negros, Grande Senegâmbia, Pequena Senegâmbia, Alta Senegâmbia – este termo Senegâmbia foi usado e abusado até ao século XIX, sobretudo para referir um vasto território da costa ocidental africana entre o Cabo Verde continental e a Serra Leoa.

Não escondo que se trata de um trabalho laborioso, neste momento já está publicado o Tomo I intitulado"A Presença Portuguesa na Senegâmbia", trabalho agora no Tomo II "Da Pequena Senegâmbia à Guiné Portuguesa". Quero relevar que muitos dos meus apontamentos sobre esta matéria ou vou publicando no blog Luís Graça e Camaradas da Guiné, sem margem para dúvida, o blog mais influente para ex-combatentes na então Guiné Portuguesa, o seu acervo fotográfico é único no país e que encerra uma miríade de testemunhos de incalculável valor.

Espero continuar a estudar e investigar, da análise que faço à multiplicidade de investigações que se fazem sobre a Guiné, detetei a existência de duas lacunas: puro desconhecimento do Boletim Oficial dos últimos cem anos da colónia; e continuar a não se saber quem e quando, ao nível de olhares estrangeiros, se pronunciou sobre a Guiné desde a época que antecedeu a convenção luso-francesa de 12 de maio de 1886 até ao período anterior às lutas pela independência.

Não me sinto capaz de me abalançar com um Tomo III de "Guiné, Bilhete de Identidade", continuam por preencher graves lacunas respeitantes às governações de Vasco Rodrigues e Arnaldo Schulz, (só deste último era mais que devida uma tese de doutoramento) e falta o enquadramento de política externa, parece saber-se tudo das relações do Estado Novo com os seus aliados e as suas tomadas de posição nas Nações Unidas, mas ninguém se interroga como e porquê usávamos armamento e munições do Estado de Israel (que teve inicialmente uma posição benevolente com o colonialismo português) e porque razões o Estado Novo manteve relações diplomáticas ao nível de Embaixada com Cuba, quando estes cediam apoio técnico e preparação militar ao PAIGC e, mais tarde tropas e armamento ao MPLA, antes e durante a guerra civil de Angola. São estudos indispensáveis para dimensionar a história militar da Guiné do lado português e a natureza de relações internacionais que eram camufladas ou puramente omitidas à opinião pública.

Muito obrigado pela vossa atenção e estou pronto para responder às vossas interpelações e comentários.

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Notas do editor:

Vd. posts anteriores de:

8 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28001: Notas de leitura (1920): A biografia de um combatente: O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História (1): I - À guisa de apresentação do ex-combatente e II - Foi assim que cheguei ao Cuor (Mário Beja Santos)

15 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28022: Notas de leitura (1923): A biografia de um combatente: O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História (2): III - O que eu sei da guerra que estou a travar e IV - O conhecimento da morte, Missirá devastada, o desafio de lhe dar nova vida (Mário Beja Santos)
e
12 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28093: Notas de leitura (1927): A biografia de um combatente: O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História (3): V - Depois do Cuor, seguiu-se a intervenção em Bambadinca e VI - O primeiro regresso à Guiné, 1990/1991, o início da escrita (Mário Beja Santos)

Último post da série de 15 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28102: Notas de leitura (1928): "Coragem, Altruísmo e Fé", por Rosalina Coelho Vaqueiro; Chiado Books, 2025 (2) (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28102: Notas de leitura (1928): "Coragem, Altruísmo e Fé", por Rosalina Coelho Vaqueiro; Chiado Books, 2025 (2) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 5 de Dezembro de 2025:

Queridos amigos,
Temos agora o percurso desta solícita paraquedista em toda a luta armada, percorre os diferentes teatros de operações e haverá a reforma, sempre bondosa e ativa, a sua biógrafa dedica-lhe páginas esplendentes, Eugénia do Espírito Santo deixa um rasto de grande discrição, espírito magnânimo, uma paraquedista da primeira hora tão pouco referida.

Um abraço do
Mário



Capitão Paraquedista Eugénia do Espírito Santo Sousa, de Santo Antão para as guerras de África: esteve na Guiné em 1962, 1969, 1972 e 1973, temos aqui uma biografia tocante - 2

Mário Beja Santos

Há parágrafos luminosos nesta biografia que Rosalina Vaqueiro dedicou à enfermeira paraquedista Eugénia do Espírito Santo Sousa, nomeadamente o capítulo dedicado à infância e juventude em que ela viveu na ilha de Santo Antão, em Cabo Verde. Nascida em 1935, tendo feito os estudos no arquipélago, continuou a sua formação primeiro no Porto e depois em Lisboa. Tirou o curso de paraquedismo em Tancos, em 1962, ano em que faz a sua primeira estadia na Guiné, relata algumas das peripécias que viveu, uma delas merece aqui realce: “Um doente da Marinha, que trouxe em evacuação para Lisboa, queria-lhe dar 100$00, porque Eugénia lhe deu uma aspirina. A enfermeira não aceitou e recorda à sua biógrafa que ainda se lembra da mão dele estendida com os 100$00.” Era sua colega na época a Arminda Lopes Pereira.

Depois da Guiné, Angola, Rosalina Vaqueiro dá-nos o quadro em que se desenvolveu a luta armada, a partir de 1961 e as tarefas árduas que couberam a estes primeiros combatentes, um chão de mato cerrado, sem estradas, a tormentosa tarefa de desbastar árvores e o capim, abrindo caminhos rudimentares, tudo dificultado pela guerrilha que atravessava troncos de embondeiro ou abriam valas fundas que impediam a circulação de veículos militares. Eugénia estava alojada com as suas colegas enfermeiras em Luanda, no edifício da Força Aérea. Não deixava de ser extenuante a missão de evacuação dos feridos.

Seguiu-se Moçambique, a autora dá-nos agora uma sinopse dos acontecimentos nesta região, vai tomando nota das observações de Eugénia. Esta conta-lhe que um dia em Nampula perguntou a um criado de mesa se já tinha almoçado, este respondeu que os criados tinham de esperar que todos comessem pelo que só podiam comer o que sobrava das mesas. Eugénia a partir daí passou a ter o cuidado de não sujar o prato todo e dizia discretamente ao criado, apontando, que só tinha usado metade do prato. Desta sua estadia guardou a recordação de um acidente de dois homens brancos que tinham ficado tão queimados que ela pensou que eram negros.

Está de regresso a Angola em 1965, no mesmo ano foi indicada para uma comissão no Hospital da Força Aérea, em Terra Chã, ilha Terceira, para dar aulas de enfermagem; a autora aproveita para nos falar da religiosidade açoriana, dizendo que em 1967 Eugénia será novamente destacada para este Hospital. Esse ano será um ano aziago na vida dela, teve um acidente num salto de paraquedas em Tancos, onde partiu os ossos da bacia. Ficou a recuperar em Lisboa e só voltou a Moçambique em 1968.

Temo-la novamente na Guiné em 1969. Dirá que as mulheres dos militares eram um ninho de víboras. Fala das evacuações. Não sei a que título e a que nível de informação Rosalina Vaqueiro escreve que nos anos de 1970 ainda havia canibalismo no interior da Guiné. E adiante escreve uns parágrafos sobre a operação Mar Verde.

Volta a Angola, irá a Santo Antão despedir-se de Rosáia, uma das três manas Sequeiras, aquela que ela mais amava, e estará presente na Guiné de 1972 a 1973. Também não sei a que nível de informação a autora escreve que o PAIGC declarou independência em Guilege. Eugénia, não é demais insistir, fala permanentemente da sua convicção religiosa, da fé que vem do berço, nesta fase da guerra, como ela declara, o trabalho das enfermeiras e de toda a equipa era demasiado intenso e sentia-se o constante perigo de vida da morte da colega Celeste Costa que ao correr para um avião em vez de contornar a cauda passou por baixo da zona do motor e veio a ser atingida pelas pás. Não esconde o sofrimento que esta morte lhe provocou. Fará referências detalhadas à chegada dos mísseis terra-ar, ao cerco de Guidaje e aos acontecimentos que ocorreram no sul. O livro está repleto de fotografias desta época.

E chegámos ao tempo de paz. De 1974 a 1983 não passou à vida civil como poderia imaginar-se com o fim da guerra. Fez fisioterapia e recuperação devido aos seus problemas ortopédicos, continuou o seu trabalho como enfermeira no Hospital da Força Aérea. Será depois professora de enfermagem, pediu autorização para fazer o curso de ensino. Tinha então casa em Santo António dos Cavaleiros. Reforma-se em 1983, reforma extraordinária vitalícia. Recebe a visita de Maria de Lourdes Sequeira, as outras Sequeiras já tinham falecido. Fala-se também das peripécias da herança das Sequeiras.

Eugénia instala-se em Sesimbra, muito do seu viver é para ajudar, humanos e animais. Procura manter atividade física, desloca-se sempre com a sua canadiana. A autora transcreve uma carta que Eugénia envia à mulher do coronel Morais da Silva, ex-chefe da Força Aérea, não resiste a contar-lhe algumas das suas reminiscências:
“As irmãs Sequeiras tinham orgulho de usar o seu dinheiro ajudando. Quando só estavam as três, eu sabia que iam poupar nas despesas para recuperar o dinheiro gasto. Era o seu orgulho. Eu era criança e sabia. Na época da fome, em 1950, elas cozinhavam um panelão, uma caldeira de cachupa e cada pessoa pobre ia lá a casa com um prato. Na rua faziam fila e eu ajudava a levar a cada pessoa um prato cheio de comida (…) O meu estado de saúde pirou depois de perder amigos. Tenho 50% de surdez e ando ansiosa. Não há grandes facilidades de consulta para mim, mesmo quando o psiquiatra recomendou consulta urgente. Não dormia. Agora com os comprimidos durmo, não quero tomá-los sempre, senão fico dependente ou drogada.”

A carta data janeiro 2016, a autora vai juntando recordações avulsas pelos anos seguintes. Anda sempre indisposta com a desarrumação das duas casas, a de Santo António dos Cavaleiros e a de Sesimbra. As suas recordações de enfermeira paraquedista persistem, como diz à autora: “Trabalhei muitas vezes sem poder ir à cama, e fiz diretas sem dormir, porque era preciso. Também durante todo o dia não tinha tempo de comer, porque as urgências me chamavam. Subestimávamos o sono e a comida. Dávamos o nosso tempo para tentar salvar vidas.” E permanentemente relembra à autora as pessoas de quem guarda uma eterna gratidão. Vai a reuniões das enfermeiras paraquedistas. O livro termina em janeiro de 2024, relata mais recordações da vida, tem então 88 anos.

Eugénia foi de facto uma mulher de coragem, altruísmo e fé.


Autora da biografia, Rosalina Vaqueiro
Eugénia do Espírito Santo Sousa, Cap. Enf. Pqdt. (Ribeira Grande, Santo Antão, Cabo Verde, 1935 - Sesimbra, 2025)
A Eugénia do Espírito Santo Sousa um bonito sorriso na sua idade maior, imagem retirada da Associação Portuguesa de Enfermagem Militar, com a devida vénia.
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Notas do editor:

Vd. post de 8 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28080: Notas de leitura (1926): "Coragem, Altruísmo e Fé", por Rosalina Coelho Vaqueiro; Chiado Books, 2025 (1) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 12 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28093: Notas de leitura (1927): A biografia de um combatente: O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História (3): V - Depois do Cuor, seguiu-se a intervenção em Bambadinca e VI - O primeiro regresso à Guiné, 1990/1991, o início da escrita (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28093: Notas de leitura (1927): A biografia de um combatente: O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História (3): V - Depois do Cuor, seguiu-se a intervenção em Bambadinca e VI - O primeiro regresso à Guiné, 1990/1991, o início da escrita (Mário Beja Santos)

CONGRESSO INTERNACIONAL
DAS GUERRAS AO PÓS-25 DE ABRIL
Os Militares em Territórios em Conflito
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
De 2 a 4 de abril de 2025


A biografia de um combatente:
O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História

Mário Beja Santos

V - Depois do Cuor, seguiu-se a intervenção em Bambadinca

A partir de agora, estamos em novembro de 1969, quando tenho saudades do Cuor, venho até ao porto de Bambadinca e olhar para lá da bolanha de Finete, fico ali especado a ver toda aquela massa florestal, por vezes o barqueiro, de nome Mufali Iafai, que me atravessou vezes sem conta de um lado para o outro, vem conversar comigo, faço dele o meu elemento de ligação com o passado. Ele lembra-se muito bem daquela noite de 28 de maio de 1969, quando Bambadinca sofreu a sua primeira flagelação, tomei a liberdade de vir em seu auxílio, o Geba na maré-baixa, ganhei lama até ao umbigo, este mesmo Mufali queria levar-me às costas para não entrar na lama da outra margem, recusei, mas não esqueci a deferência.

A intervenção em Bambadinca traduz-se numa multiplicidade de operações: levar e trazer correio de Bafatá; fazer patrulhamentos noturnos; fracionarmos o pelotão em secções, cada uma vai para o seu mister; passar noites abomináveis num lugarejo que dá pelo nome de Undunduma; participar em operações em Mansambo, Xitole, Xime; fazer colunas de reabastecimento entre Bambadinca e Xitole… enfim, um desgaste, uma perda da relação com os meus homens, por ironia estaremos sempre juntos nas operações ou naquelas emboscadas defensivas em que passamos a noite toda num ponto ermo para hipoteticamente defender Bambadinca.

O último mês de verdadeira atividade operacional, julho, traduz-se em sair de madrugada para proteger os trabalhos do alcatroamento da estrada Xime-Bambadinca. Até que recebo a notícia de que devo partir para Bissau, antes de partir voltei a ver uma nova prova do rancor que separa os guineenses dos cabo-verdianos, o meu substituto é cabo-verdiano, os soldados convocaram-me, acusam-me de deslealdade, tanta amizade, tanta amizade e agora entrega-nos ao velho patrão com chicote, um gajo que certamente nos odeia. Tudo se veio a concertar, mas a estadia do meu substituto não foi longa.

Depois de doze dias de viagem, de Bissau para o Sal, do Sal para Mindelo, de Mindelo para Ponta Delgada e daqui para o mesmo cais da Rocha do Conde Óbidos, regresso a Lisboa, sei que tenho que acalmar as recordações, prometo a mim mesmo que não quero descurar as amizades feitas, mas sei perfeitamente que tudo vai mudar, desisti de voltar ao meu antigo emprego, fiz um contrato com o Ministério do Exército, darei recrutas em Mafra, serei colocado em Lisboa na Agência Militar, recomecei os estudos, gota a gota vou fazendo exames, tenho família, nasceu-me uma filha, restabeleci uma vida social mitigada, fazer exames é o mais importante.

Veio depois o 25 de abril, o país tem uma inflação superior a 30%, os governos provisórios são obrigados a tomar medidas que obriguem à contenção dessa inflação. É agora nesse serviço público que eu vou descobrir a política dos consumidores, tanto a nível profissional como na participação cívica. A Guiné parece estar cada vez mais longe, visito e recebo em casa os meus soldados gravemente sinistrados, escrevo e recebo mensagens, há trocas de fotografias, descubro que falar da guerra incomoda muita gente, aliás o Governo garrota toda e qualquer informação que revela a evolução a que chegou a guerra nos três teatros de operações, é facto que há as notícias necrológicas, as mensagens de Natal do soldado, as campanhas do Movimento Nacional Feminino, não se mostram as partidas e chegadas dos contingentes militares, a filosofia é de que toda aquela tropa está em missões de policiamento, existe terrorismo que vem de outros territórios, é tudo estratégia do comunismo. Claro que há famílias enlutadas, mas a guerra continua longe.

O grande abalo, o de 1961, parece ultrapassado. De 1973 para 1974 entramos numa maré de sobressaltos: qualquer coisa de muito grave aconteceu na Guiné, não se sabe muito bem o quê; uma guerra para os lados de Israel vai desencadear uma crise petrolífera, as consequências serão visíveis na sociedade portuguesa, todos os preços sobem; em fevereiro de 1974 o General Spínola publica um livro onde consta uma frase fatal, não há solução militar para aquela guerra, só solução política. E assim chegámos ao 25 de abril.



VI - O primeiro regresso à Guiné, 1990/1991, o início da escrita

Trabalhei no Ministério da Economia, no Ministério do Comércio e Turismo e até no Ministério do Ambiente, estou ativo na tal política dos consumidores, só a tutela é que muda. Ora algo aconteceu em 1989 que leva a que dois funcionários do Instituto do Consumidor se desloquem à República da Guiné-Bissau para discutir da viabilidade de um protocolo na área da política dos consumidores. Em janeiro de 1990, regresso à minha Guiné. O ministro do Ambiente de então, reunira-se com os seus colegas da lusofonia para negociar uma posição comum relativamente a um acontecimento que iria ocorrer em 1992, a Cimeira da Terra, no Rio de Janeiro. O ministro da Indústria e dos Recursos Naturais da Guiné-Bissau surpreendeu o ministro português quando lhe pediu um programa de recuperação na área da defesa do consumidor. O ministro português disse que sim, encarregou o Instituto do Consumidor das diligências necessárias.

Foi uma semana intensa de contactos, sentia-se a ver sinceridade e preocupação quando se expunham os motivos de pedido de protocolo, dando uma grande abrangência à defesa do consumidor. Tomou-se nota de tudo e prometeu-se elaborar um documento favorável ao que se pedia e enviá-lo ao ministro português. Mas o meu coração não descansava, senti uma enorme vontade de visitar o regulado do Cuor. Um cooperante com quem se almoçava na chamada Pensão Central, ou da Dona Berta, ofereceu-se para lá irmos num domingo. Como aconteceu. 20 anos depois entrei em Missirá, houve choro convulsivo, abracei muitos amigos, recebi inúmeras cartas com pedidos, reencontrei o meu guarda-costas a quem prometi que tudo faria para vir para Portugal. Como aconteceu.

Chegado a Lisboa, preparei um relatório da missão em concordância com a expetativa das autoridades guineenses quanto ao lançamento daas bases de uma política para consumidores, eles pediam intervenção legislativa e formativa na área alimentar (punha-se a necessidade de saber minimamente o que se importava) no combate ao esbanjamento dos recursos naturais, na criação de uma instituição onde se articulasse as intervenções a favor dos consumidores, em paralelo com a concertação dos programas das agências das Nações Unidas em projetos com impacto no consumo; reconhecia-se como tutela o Ministério de Recursos Naturais e da Indústria, da Guiné-Bissau, a entidade colaboradora seria o Ministério do Ambiente de Portugal. Passaram-se semanas e meses, até que em maio de 1991 o Ministro do Ambiente convocou-me para me dizer que tinha conversado com o seu homólogo da Guiné-Bissau e que ele insistia numa cooperação para uma estrutura muito maleável que ajudasse os consumidores a otimizar os seus recursos. O Ministro previa um protocolo envolvendo um pequeno financiamento do lado português, lera o meu relatório, nomeava-me para essa missão. E em pleno verão português e até às vésperas de Natal dediquei-me de alma e coração a fomentar alianças entre a administração, as agências das Nações Unidas e algumas organizações não governamentais. Tive a satisfação de fazer uma série de programas para a televisão da Guiné-Bissau, o título era Um milhão de consumidores. Deu-se então uma cena caricata, já tinham sido emitidos seis programas e um dos diretores da referida televisão veio-me pedir que encontrasse um patrocinador, caí das nuvens, não era a mim que cabia tal missão, sugeri alguns nomes de empresas públicas, o dito diretor entendeu que não havia condições para continuar, intuí que ele não percebia que um cooperante estrangeiro não podia andar diretamente a angariar patrocinadores.

Chegou-se ao entendimento, e mesmo houve uma decisão presidencial, para se criar uma comissão interna e industrial, propunha-se uma verba para fazer obras em instalações dadas pelo Governo guineense, nomeava-se um secretário-geral remunerado e pagava-se ajudas de custo aos participantes das reuniões. Vim para Lisboa, trazia a promessa do Ministro guineense de que enviaria o seu colega português os termos da aceitação. Silêncio total, insisti por carta e por telefone. Aprendi amargamente quanto pesam os silêncios africanos.

Chegou, entretanto, a Lisboa o filho mais novo do régulo do Cuor, passei a receber assiduamente notícias de gente que eu tanto estimava. O diretor de uma revista destinada a estudos coloniais, Carlos Cruz Oliveira, pediu colaboração, publiquei alguns artigos, escritos à pressão, não sentia disponibilidade para intervir a fundo, tinha o propósito de esperar pela reforma para lançar mãos à empreitada. É nisto que recebo um telefonema de um antigo furriel de armas pesadas de uma unidade de Bambadinca, estávamos paredes meias na sede do batalhão, vinha-me pedir autorização para reproduzir no seu blog um texto que eu publicara numa revista científica online. Combinámos encontro no seu ganha-pão, a Escola Superior de Saúde, e ainda hoje estou para saber o que me levou, imprevistamente, a declarar-lhe de que ia publicar o meu diário da Guiné no blog. Trabalhei neles durante dois anos, foram publicados em 2008 e 2009, ano a ano, de 1968 a 1969 com o título "Na Terra dos Soncó", nome de família do regulo do Cuor, e de 1969 a 1970, com o título "O Tigre Vadio", nome da operação mais sangrenta em que participei.

Enquanto ia publicando no blog estes trechos, juntavam-se outras peças resultantes das informações que me eram dadas por gente que tinha estado no Cuor ou regiões próximas. Também antigos militares meus residentes em Portugal me prestavam informações, eram sinistrados de guerra ou fugitivos da repressão do PAIGC sobre os comandos guineenses. Um acontecimento dramático, a perda de uma filha, em 2009, deu-me ocasião de me envolver em projetos de bastante fôlego, um inventário da literatura da guerra colonial da Guiné e um romance envolvendo uma mulher nonagenária que tinha vivido na Guiné entre os anos de 1950 e o início da guerra, proporcionou-me um relato sobre uma Guiné colonial antes do desencadear da luta armada.

Lia no blog Luís Graça e Camaradas da Guiné relatos de ex-combatentes que visitavam a Guiné ou que acompanhavam projetos de ajuda humanitária. Sabe-se lá que as saudades do Cuor e de Bambadinca não estavam a ser avivadas por esta escrita. E comecei discretamente a congeminar uma viagem, fazia perguntas soltas, diziam-me frequentemente não vás, aquilo está tudo uma miséria, o país entrou num ocaso, se acaso alguma vez foi um país, virás de lá traumatizado, ainda por cima não encontras instalações disponíveis, é tudo uma insegurança e sozinho, se estás mesmo com saudades viaja em grupo.

Fui então estabelecendo um plano, conversei com os meus amigos guineenses em Lisboa, consegui obter apoio logístico perto no Cuor, em Santa Helena, na outra margem do Geba, escrevi a um amigo muito querido a viver em Bambadinca, um sinistrado de guerra, de nome Fodé Dahaba para ver da possibilidade de me encontrar toda a rapaziada dos antigos caçadores nativos e dos dois pelotões de milícias, queria visitá-los, o meu propósito era ir despedir-me deles todos, agradecer-lhes a leal colaboração que me tinham dado, visitar os locais onde combatera, falar com antigos combatentes do PAIGC. Pedi mesmo ajuda junto da Embaixada de Portugal na Guiné-Bissau. E em novembro de 2010, ajoujado de sacos com livros e lembranças, com uma listagem de endereços, inclusivamente transportando um bom conjunto de encomendas de guineenses residentes em Portugal para guineenses residentes na Guiné-Bissau, apresentei-me no Aeroporto da Portela. A sonhar da viagem da reconciliação e sem qualquer ilusão quanto ao peso das emoções que me esperam, vai começar.


(continua)

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Notas do editor:

Vd. post de 15 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28022: Notas de leitura (1923): A biografia de um combatente: O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História (2): III - O que eu sei da guerra que estou a travar e IV - O conhecimento da morte, Missirá devastada, o desafio de lhe dar nova vida (Mário Beja Santos)

Último post da série de 8 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28080: Notas de leitura (1926): "Coragem, Altruísmo e Fé", por Rosalina Coelho Vaqueiro; Chiado Books, 2025 (Mário Beja Santos)