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segunda-feira, 27 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28218: Notas de leitura (1944): "Depois da Guerra", de Luís Rosa; edição de autor, 1990 (1) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 4 de Fevereiro de 2026:

Queridos amigos,
Foi num desses sábados frutuosos que adquiri na Feira da Ladra, "Depois da Guerra", de Luís Rosa, edição de autor de 1990, ainda por cima com dedicatória. Luís Rosa ganhou notoriedade em obras de índole profissional e em romances como "O Claustro do Silênci", "O Amor Infinito de Pedro e Inês", "O Terramoto de Lisboa". Estas memórias do que viveu em Sangonhá foi a sua primeira e única incursão do que viveu na Guiné, temos obras aparentadas, como a do José Brás e as suas "Vindimas no Capim","As Ausências de Deu", de António Loja, "As Noites de Mej", do Luís Cadete, mas há algo de profundamente enriquecedor nesta memória da ocupação de Sangonhá, ficamos com a geografia dos aquartelamentos decididos quer por Louro de Sousa quer por Arnaldo Schulz e que António Spínola mandou abandonar. Estranho muito nunca se falar como Guileje ficou altamente vulnerável depois dos abandonos de Sangonhá, Cameconde e Cacoca e Mejo, por tais decisões. Fala-se muito do que representou o abandono de Madina do Boé e esquece-se de como Guileje ficou entregue a si próprio. Coisas estranhas da historiografia da guerra colonial.

Abraço do
Mário



Recordar o nosso confrade Luís Rosa e o seu livro sobre Sangonhá, perto de Guileje - 1

Mário Beja Santos

Em 2010, publiquei no nosso blogue a recensão do livro recentemente publicado do Luís Rosa Guiné 63/74 - P6137: Notas de leitura (91): Depois da guerra, as recordações da região de Cacine... e algo mais , de Luís Rosa - II (Beja Santos) fazendo o reconhecimento que era uma obra a todos os títulos convidativa da leitura, um documento singular sobre um dos destacamentos acima de Cacine e de Gadamael destinado à proteção fronteiriça junto de uma área vital para o PAIGC, o denominado corredor de Guileje. Acresce que Luís Rosa descreverá a ocupação militar efetiva de Sangonhá, e entre outros acontecimentos relevantes que ele testemunhará é o aparecimento do inferno de Guileje.

A 1.ª edição foi de autor, em 1990, tinha o título "Depois da Guerra"; a 2.ª edição data de 2009, foi quando fiz a recensão, tecendo elogios e o reconhecimento do testemunho, mas deplorando um final de narrativa artificioso, vácuo, descabido. Voltei a adquirir na Feira da Ladra e com uma dedicatória do autor a 1.ª edição, lia de um só fôlego, reconhecendo que a qualidade memorial justificava que aqui a revisitasse.

Tudo começa no cais do Pidjiquiti, a unidade do nosso alferes parte num velho batelão em direção ao sul, conversa-se sobre os acontecimentos do Pidjiquiti de 3 de agosto de 1959, a calamidade que concorreu para o levantamento nacionalista; o batelão viaja perto da ilha do Como, nas semanas anteriores a esta viagem tinham ali decorrido, entre fevereiro e março de 1964, combates ferozes; avista-se ao longe a península do Cantanhez e o canal que a separava da ilha de Melo, assim se chega a Cacine onde o autor nos conta a história do comerciante Costa que tinha um poder soberano sobre a população local, o seu poder despótico acabou mal.

Viaja-se para Sangonhá, quando aqui chegam ouviram três tiros em Canefaque, gente do PAIGC enviara a mensagem na nossa chegada ao Quitafine, a toda a área de Cacine a Cabedu, de Cameconde à ilha de Melo. “A tropa instalava-se precariamente, desesperadamente. Sangonhá era uma bela povoação colonial, situada no meio de um luxuriante pomar de mangueiros, bananeiras e árvore de cola, com uma bela vivenda servindo de enfermaria e casas de colmo e terra batida, alinhadas ao longo de mais de um quilómetro de estrada, que, mais adiante, atravessava a fronteira.” Do outro lado, tropas e população apoiante do PAIGC deslocava-se por Sansalé e Kandiafará, havia por aqui posto médico e armazenamento de armamentos e víveres.

Constroem-se as despesas de Sangonhá, uma extensa vala que mais tarde seria substituída pelas espessas paredes de chapa de bidon, com terra a meio, casamatas subterrâneas cobertas de grossos troncos de palmeira. Inevitável, chegou a hora do batismo de fogo. E o palco da guerra vai sendo enxameado de acontecimentos até então impensáveis: o interrogatório a alguém que aparecera, foi espancado até que se descobriu que era um diminuído mental; a sexualidade dos soldados, o descobrimento de que existia o Irã, uma religiosidade, uma crença que toma conta do africano, mesmo quando é islamizado; o novo interrogatório a um velho que fora apanhado a passar informações para os guerrilheiros feito por um alferes que decidiu a sentença de morte, e temos depois o olhar de Luís Rosa sobre aquela geografia da guerra:
“A princípio sente-se mais o isolamento. As estradas estavam cortadas por inúmeros obstáculos, minas e árvores enormes, que nenhuma força parecia capaz de demover. Os vinte quilómetros que ligavam ao braço do rio Cacine, em Gadamael, eram a única ligação a tudo o que ficava para além daquele mundo estranho da guerra. Gadamael servia de ancoradouro e descarga apressada das lanchas e batelões.

A opressão do desamparo tornava-se mais pesada pela certeza que tínhamos da impossibilidade de sermos socorridos e pela sensação de que, se ali acabássemos, apenas algum tempo depois dariam pelo nosso fim. Com o chegar das chuvas, a estrada transformava-se num atoleiro de regos profundos de lama inconsistente, como pântano impedindo que os pesados camiões transitassem, sob o risco de ficarem com o bojo assente no chão. Apenas o avião, à quarta-feira, sobrevoava o quartel fazendo um círculo em volta e deixando cair o saco do correio, afastando-se depois, com o abanar das asas, como ave do paraíso. Se o abastecimento não podia ser trazido pelo rio ou pela estrada, porque não havia meios para o fazer chegar, ou porque o recrudescer da guerra e a inoperacionalidade das estradas tornava a operação uma aventura imprevisível, começávamos a contar os dias para que ainda tínhamos alimentos e o avião era ainda o último alento do socorro esperado. Varria as copas das árvores em voo rasante, lançando sacos, caixas e atados. Tudo caía na clareira do arame farpado. Íamos recolhendo, depois, o que ficara disperso numa grande extensão, ora em mil bocados de caixotes desfeitos, ora suspensas as embalagens no alto dos ramos ficando penduradas como em árvores de Natal retendo as prendas.”


Tomaram-se severas medidas de segurança, abriu-se uma enorme clareira para criar uma pista de aviação, e Luís Rosa conta as façanhas da chegada das primeiras avionetas, cumpriam-se as ordens de Bissau para que a pista tivesse pelo menos 400 metros de comprimento, trabalhou-se a valer para desbastar o arvoredo. Com aquela pista de aviação os militares de Sangonhá sentiram-se mais seguros e menos sós. Saberemos também que Luís Rosa comandava homens de intensa religiosidade, não faltava a hora do terço, era o cabo Aires quem orientava a reza. Disserta-se sobre a religiosidade, o poder das crenças, a fé e como tudo se conjuga com um ambiente de guerra.

E segue-se um episódio de luto, dor e saudade, a história do Braga, homem dos sete ofícios, um artista a trabalhar madeira. “Pedi-lhe um dia que me fizesse uma cadeira de encosto, que se desmontasse toda em ripas, de modo a formar um pequeno molho dentro do saco dos livros e pertences, que levava sempre a um canto do camião. A cadeira ficou bela, em pau rosa, idealizada pelo engenho do Braga, sem um prego ou parafuso, apenas suportado o conjunto pelas espigas, harmoniosamente concebidas.” O Braga foi numa operação a Marela uma pequena povoação além-fronteira, ficava num ponto a meia jornada para os guerrilheiros que no sul se dirigiam para a fronteira, passando por Sansalé. Encontrou-se um local de refúgio da guerrilha, houve matança, seguiu-se intenso tiroteio, procedeu-se ao controlo de mortos e feridos, descobriu-se que tinha morrido o Braga. O alferes não esconde a comoção, ficara-lhe a cadeira, lembrou-se que o Braga lhe tinha dito que havia um acabamento a fazer, e dirige o seu pensamento para este último trabalho do Braga: “A obra está sempre completa no ponto em que a deixamos.”


Luís Rosa (Alcobaça, 1939 - Lisboa, 2020): Alferes Miliciano da CART 640 (Sangonhá, 1964/66)
Para melhor entender os acontecimentos vividos em Sangonhá e narrados por Luís Rosa no seu romance "Depois da Guerra", edição de autor de 1990, reeditado em 2009 na Editorial Presença com o título Memória dos Dias sem Fim. Logo no início da sua comissão, o Brigadeiro António de Spínola decretou o abandono de destacamentos nesta região Sul: primeiro Gandembel, mais adiante Sangonhá, Balana, Cacoca e Mejo, ou seja, preparou-se a prazo a tragédia de Guileje. Infografia do nosso blogue.
Vista aérea do destacamento em Sangonhá, vendo-se nitidamente a pista de aviação, imagem do nosso blogue

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 24 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28209: Notas de leitura (1943): "Uma História da África Lusófona Pós-Colonial", Edições tinta-da-China, 2026 (2) (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28209: Notas de leitura (1943): "Uma História da África Lusófona Pós-Colonial", Edições tinta-da-China, 2026 (2) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 30 de Junho de 2026:

Queridos amigos,
Patrick Chabal já era um investigador distintíssimo quando se lançou neste empreendimento que se transformou num trabalho que é hoje de consulta obrigatória de quem se lança na pesquisa no antes, no durante e depois do grito anticolonialista das cinco colónias portuguesas em África. Trabalho que se desdobra em duas partes, a primeira completamente a cargo de Chabal, ele disserta sobre as condições em que se processou o fim do Império português em África, como os novos Estados se lançaram na construção do socialismo, como ocorreu o falhanço e se transitou para o pluralismo político; a segunda parte prende-se com os estudos dos cinco países, investigação imensa, a cargo de especialistas altamente qualificados.
Iremos dar voz à dissertação de Joshua Forrest sobre a Guiné-Bissau. Recordo ao leitor que esta vasta investigação compreende os primeiros 25 anos dos cinco novos países independentes de língua portuguesa, foi editado originalmente em 2002 e só este ano é que teve direito à edição portuguesa graças a Tinta-da-China. Por todas as razões, é de leitura obrigatória para todos os públicos.

Um abraço do
Mário



Uma obra historiográfica de referência:
Os primeiros 25 anos das antigas colónias africanas - 2


Mário Beja Santos

É um trabalho magistral, datado de 2002, felizmente agora traduzido com o título "Uma História da África Lusófona Pós-Colonial", Edições tinta-da-China, 2026; o autor principal foi o eminente académico Patrick Chabal, que dirigiu o Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros do King’s College de Londres, acolitado por outros nomes sonantes da investigação, caso de David Birmingham, Joshua Forrest, Malyn Newitt, Gerhard Seibert e Elisa Silva Andrade. Como escreveu o prefaciador António Costa Pinto, trata-se do primeiro estudo substancial sobre os novos regimes políticos africanos surgir com o fim do colonialismo português, tornados independentes em 1974-75. É, pela força das circunstâncias, um trabalho datado, um quarto de século de independências africanas lusófonas.

Patrick Chabal, como vimos no texto anterior, alude aos aspetos essenciais que levaram ao fim do Império, como se desenvolveu a guerra até ao ponto de se ter enquistado a ideia de não haver solução militar; dá-nos depois uma perspetiva histórica da descolonização, e conclui como historiador dizendo que nos últimos 20 ou 30 anos as análises apresentadas é do Estado na África pós-colonial, mas há um senão que ele aponta:
“É intrigante concluir que durante muito tempo os estudiosos insistiram em alimentar a crença de que a evolução do Estado Africano pós-colonial devia ser igual à de outras partes do mundo. A enorme discrepância que marca o desenvolvimento dos Estados europeus devia ter alertado os africanistas para a improbabilidade de o Estado Africano pós-colonial seguir o exemplo de qualquer antecessor reconhecível. Os africanistas foram durante muito tempo induzidos a acreditar que os caprichos do Estado africano pós-colonial explicavam a política africana.”

E, mais adiante:
“A resistência, assim como as deficiências do Estado pós-colonial explicam-se melhor pela natureza dos laços muito complexos que unem, em vez de simplesmente oporem, Estado e sociedade. As redes clientelistas que ligam o Estado e a sociedade são de tal modo numerosas e extensas que garantem a manutenção de um sistema político neopatrimonialista no qual o Estado só detém a supremacia na medida em que é colonizado pela sociedade. Os políticos derivam a sua legitimidade da capacidade de apaziguar os seus clientes. Na África pós-colonial é, em grande parte, uma ilusão ver o Estado como o agente do desenvolvimento económico (socialista ou capitalista). Enquanto no Sudeste e no Leste Asiático, por exemplo, o Estado tem sido, com frequência, o responsável direto por taxas de crescimento económico impressionantes, em África ele tem sido o principal instrumento do ímpeto neopatrimonialista. Tem facultado aos detentores do poder do Estado e a todos os que a ele estão ligados por múltiplas redes o acesso aos recursos por si controlados.”

Chabal irá versar depois como se deu a criação da nação na África lusófona, qual o legado da experiência colonial, os obstáculos sentidos pelos dirigentes destes países, como se processou a construção do socialismo, já que para todos se afigurava o marxismo como ideologia orientadora; dá-nos um quadro de referência de como atuaram os dirigentes, as atuações foram verdadeiramente díspares. Veja-se como ele observa o caso da Guiné-Bissau:
“Embora se possa dizer com segurança que a ideologia deixou de ser politicamente relevante na Guiné-Bissau a partir do início da década de 1980, os alicerces do regime permaneceram estruturalmente socialistas até à alteração da Constituição, em 1994. A verdade, no entanto, é que o socialismo não afetou de forma significativa a construção da nação, ao contrário da construção do Estado, quer porque a legitimidade do partido não estava inicialmente em causa, quer porque a política formal, não teve repercussões importantes no plano local. Em grande medida, a evolução do regime pós-colonial respeitou a dos países vizinhos da África ocidental: um Estado neopatrimonialista de partido único, autoritário (mas não altamente repressivo), ainda que muitíssimo ineficiente. A alteração de liderança, em 1980, não afetou grandemente a natureza do sistema político. A cisão no interior do partido e a criação do PAICV ajudaram a liderança guineense a acelerar a sua transformação num instrumento de políticas patrimonialistas.”

Obviamente que a dimensão internacional acabou por ser determinante, havia o compromisso ideológico socialista e a ligação com o bloco soviético, mas cada um dos países agiu com flexibilidade, como foi o caso de Cabo Verde, com uma larga diáspora dos EUA e na Europa. Luís Cabral, na Guiné-Bissau, também procurou diversificar as fontes da ajuda externa, sem prejuízo de manter uma atitude amigável em relação ao universo socialista (Cuba e Europa de Leste). Com o tempo, ficou claro que a maioria do auxílio viria do bloco ocidental. Esta transição para uma política externa mais orientada para o Ocidente fortaleceu-se na presidência de Nino Vieira. Como também a Guiné-Bissau e Cabo Verde tinham beneficiado de um forte apoio por parte dos países ocidentais mais progressistas (Escandinávia, Países Baixos e Canadá) que tinham protegido os seus movimentos de libertação antes da independência. Nino, incapaz de corresponder ao modelo de desenvolvimento para o seu país aderiu à zona do franco CFA, estava à espera de um milagre económico e financeiro que não aconteceu. Chabal detalha o comportamento de todos estes cinco países.

A matéria seguinte tem a ver com as falhas dos Estados de partido único, tornaram-se clamorosas com o desmoronamento do Estado soviético, com maior ou menor velocidade mudou-se para um sistema político pluripartidário, também aqui o historiador destaca as nunces da diversidade, havia conflitos que não ficaram sanados, caso de Angola e Moçambique, Cabo Verde revelou a sua maturidade, o PAICV perdeu as eleições para o MPD; também o MLSTP, o partido do poder, foi derrotado pelo Partido de Convergência Democrática; veja-se agora o que ele escreve sobre a Guiné-Bissau:
“O caso da Guiné-Bissau é muito mais típico do que tem acontecido na África negra nos últimos dez anos. Apesar do enorme descontentamento contra o regime existente no país, não houve uma pressão organizada sistemática no sentido de uma mudança para um sistema político multipartidário. O único partido de oposição verdadeiramente ativo, o RGB/MB, estava sediado em Lisboa e contava apenas com um apoio limitado no país. Havia evidentemente cisões no seio do PAIGC, o partido governante, mas o presidente Nino Vieira conseguiu, ao longo dos anos, usá-las a seu favor e manter-se no poder com pulso firme. Foram as pressões externas que forçaram Vieira a aceitar a transição para a política multipartidária. Com efeito, só quando o Banco Mundial se recusou a manter os pagamentos do programa de ajustamento estrutural, é que o regime iniciou as reformas necessárias para a transição política. Vieira só agiu quando não lhe restou alternativa. Quando a Constituição foi alterada, em maio de 1991, o presidente já tivera oportunidade de analisar de perto o resultado das eleições em Cabo Verde e em São Tomé. Decerto, retirou os ensinamentos apropriado da derrota dos partidos no poder.”
Não deixará de agir até com crueldade esmagando oposições, deu brado a perseguição que fez a Vítor Saúde Maria, Paulo Correia e Viriato Pã, em eleições subsequentes perderá temporariamente o poder, irá retomá-lo depois do seu exílio em Portugal, culminará na sua execução bárbara, morto à catanada, e mostrado nas redes sociais.

Finda esta investigação de Patrick Chabal sobre a África lusófona numa perspetiva histórica e comparada, seguir-se-ão estudos dos cinco países, investigação de altíssima qualidade, iremos no texto seguinte falar da Guiné-Bissau e da investigação topo de gama do historiador Joshua Forrest.


Patrick Chabal (1951-2014)

(continua)
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Notas do editor:

Vd. post de 17 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28190: Notas de leitura (1940): "Uma História da África Lusófona Pós-Colonial", Edições tinta-da-China, 2026 (1) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 21 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28203: Notas de leitura (1942): Alberto Branquinho, "Inventarium Vitae" (Lisboa, Sítio do Livro, 2026, 160 pp.) - Parte I: enquanto houver língua e dedo, não haverá leitor que nos meta medo...(Luís Graça)

terça-feira, 21 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28203: Notas de leitura (1942): Alberto Branquinho, "Inventarium Vitae" (Lisboa, Sítio do Livro, 2026, 160 pp.) - Parte I: enquanto houver língua e dedo, não haverá leitor que nos meta medo...(Luís Graça)

 



Alberto Branquinho - "Inventarium Vitae": Escritos, Memórias e Olvidos". Lisboa: Edições Partenon / Chancela Sítio do Livro, 2026, 160 pp. (ISBN: 978-989-9198-51-7) (Está à venda em: www.sitiodolivro.pt ) (Preçod e capa; 12,00 euros)

Sinopse:

"Este livro é um esboço de memórias e, simultaneamente, um inventário-amostra dos livros publicados pelo autor. É, além disso, uma biografia breve de um “baby-boomer” nascido em Portugal, que atravessa grande parte do Salazarismo e do Marcelismo, envolvido, também, na guerra colonial de 1961-1974."



Dedicatória ao nosso editor LG


1. O Alberto Branquinho acaba de publicar, em maio passado,  mais um livro, o 12º da sua bibliografia, se não erramos as contas. E diz-nos, "off record", que bem pode ser o último. Não acreditamos. Ou esperemos bem que não. Ainda é cedo para "arrumar a caneta e o bloco de notas". Deu-lhe um título sugestivo, "Inventarium Vitae: Escritos, Memórias e Olvidos".

"Inventário de Vida", em português, é uma espécie de antologia, pessoal, dos seus melhores textos., uma parte já publicados, outros inéditos. E é também um esboço autobiográfico que, esperemos, dê origem ao próximo livro, de maior fòlego.

"Não venho falar de mim...nem do meu umbigo" é o título de uma das séries de que ele é autor no nosso blogue. Desta vez, sim, vem falar dele, mas na exata medida em que tem de "enquadrar as situações vividas com outros" (como escreveu na dedicatória no exemplar que teve agentileza  de oferecer ao editor do blogue) ...

Situações que viveu, com os outros, como  é o caso da Guiné, das avenidas novas de Lisboa  (onde ele viveu a sua vida, desde a "peluda"), ou da sua terra natal, Vila Nova de Foz Coa (que ele agora revisita na parte III - Vida Cumprida). Terra de que, aliás,  tem muito orgulho: a capa que escolheu para este seu último livro é justamente a fachada da sua igreja matriz, de singela beleza, de estilo manuelino, monumento nacional desde 1910, e onde presumo o autor foi batizado...Outra foto, é a do museu de Foz Coa, que vem na contracapa.

2. Percebe-se, pelo índice, que a organização do material (em geral, pequenos textos, crónicas, micrcocontos...) é temática: I. Guiné, tempo de guerrilha (pp. 11-80); II - Outros lugares, outros tempos (pp. 81-129); e III - Vida cumprida, inventário breve (pp. 131-158).

Boa parte do livro baseia-se em textos inédito. Mas há excertos de livros anteriores, tais como (com destaque oara Cambança Final): 

  • Contos com encontros (2008) (contos)
  • Parições & Aparições (2012) (prosa)
  • Cambança Final (2013) (contos)
  • QuasOutono?! (2014) (poesia)
  • Filhos d'outrem ou d'algures (2015) (histórias sobre paternidades)
  • Por século e meio (2017) (romance)
  • Sobre/vivèncias (2017) (poesia)
  • Sótáo, rés-do-chão e outras vidas (2018) (contos)
  • Deixem a guerra em paz (2019) (novela)
  • Retratos da Avenida e outros (2023) (contos)
Parabéns, Branquinho: a tua paixão pela escrita (e em particular pelo conto)    já nos deu um "balaio" de livros, os quais  merecem maior e melhor divulgação no nosso blogue. Não vou seguir o teu "conselho": pelo que eu já li, o teu "inventário" (estático) e "balanço" (dinâmico) de uma vida (pou de várias vidas( merece mais umas tantas notas de leitura. 

Afinal, estás, estamos todos nós, irremediavelmente presos na teia do passado. Parafraseando um dos teus poemas, auto-irónico, "temos os bolsos cheios de passado / para o que der e (ainda) vier"... Ou por outras palavras: ainda estamos aqui, não nos fomos embora, nem nos hão de enterrar na "vala comum do esquecimento", ainda temos felizmente presente e futuro (próximo)... 

Enquanto houver língua e dedo..., não haverá leitor que nos meta medo. A vida é um "suplício de Sísifo"... Mas pior do que levar o "pedregulho" até ao cimo da montanha, é um gajo ficar "protésico, radioativo, parkinsónico e alzheimareado"... Enfim, que os bons irãs da Guiné nos protejam... (LG)

Fonte: Alberto Branquinho - "Inventarium Vitae", Lisboa, Sítio do Livro, 2026,  pág. 127

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 20 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28198: Notas de leitura (1941): "Arte de Portugal no Mundo - África Ocidental", por Pedro Dias; Edição do Jornal Público, 2008 (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 20 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28198: Notas de leitura (1941): "Arte de Portugal no Mundo - África Ocidental", por Pedro Dias; Edição do Jornal Público, 2008 (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 15 de Abril de 2026:

Queridos amigos,
A obra de Pedro Dias, conceituado professor de História de Arte, tem o seu foco nas relações de Portugal com a Europa e com os territórios de África, das Américas e do Oriente. Um dos seus trabalhos de referência é exatamente a Arte de Portugal no Mundo, que o Jornal Público deu à estampa em 15 volumes numa edição muito cuidada. Retirei este texto sobre a Guiné do volume centrado na África Ocidental, que recomendo a quem queira conhecer melhor o nosso património deixado em Arguim, no Senegal, na Guiné e Serra Leoa, S. Jorge da Mina e Benim, S. Tomé e Príncipe, reino do Congo e Angola.

Um abraço do
Mário



A presença portuguesa na Guiné:
A arquitetura colonial


Mário Beja Santos

Pedro Dias é um conceituado historiador de arte, o seu campo preferencial de investigação é o das relações de Portugal com a Europa e com os territórios de África, das Américas e do Oriente; foi professor catedrático da História de Arte da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra os seus livros são referenciais nos domínios da arte portuguesa no mundo. O Jornal Público editou um conjunto de 15 livros deste seu trabalho, o que agora importa é o quarto volume que trata do reconhecimento da costa de África subsariana, das navegações que levaram a dobrar o Cabo da Boa Esperança, o autor estuda as feitorias e posições fortificadas, recorda as artes de marfim e dos metais na Serra Leoa, Benim e Nigéria; a presença portuguesa está testemunhada em Cabo Verde e São Tomé onde se construíram fortalezas, igrejas e habitações à maneira do Reino; a partir do século XVII, na Guiné e Angola, que foi a principal possessão na África Ocidental, criaram-se vilas cujo incremento foi intensivo, a partir de meados do século XIX. Obviamente que nos vamos a ter ao que este conceituado historiador escreve sobre a Guiné.

A Guiné teve a primeira povoação de portugueses em 1588, de Cacheu, fundada pelo cabo-verdiano Manuel Lopes Cardoso, ficando sujeita à jurisdição de Cabo Verde. Em 1642, Gonçalo Gamboa de Ayala fundou Farim e Ziguinchor, ocupando-se pouco a pouco de outras povoações situadas nas margens dos principais rios: o Casamansa, o Geba, o Buba e o Cacheu. Em meados do século XVIII as principais praças fortificadas eram as de Cacheu, Bissau, Geba, Farim e Ziguinchor, importa dizer que eram bastante débeis do ponto de vista construtivo.

Falando da povoação de Cacheu, no final do século XVI, a fortificação resumia-se a uma paliçada e a uma tabanca com doze palmos de altura. Em 1629 já havia a intenção de fortificar a barra de Cacheu, em virtude dos ataques dos holandeses. Em 1644 D. João IV pediu aos moradores de Geba para se mudarem para Cacheu e ajudarem o Capitão Gamboa de Ayala a fortificar este lugar. Há notícia de estar de pé a fortaleza numa pequena elevação, tendo 18 ou 20 peças de artilharia. Era tudo manifestamente insuficiente, por documentação de 1772 sabe-se que em Cacheu havia carência de fortalecimento e de guarnição, que era fechada com paus do mato e a artilharia não tinha os indispensáveis reparos. Os habitantes levantavam pequenas paliçadas de estacaria, sobretudo à borda de água. Ocorreram grandes melhoramentos em 1788, o então Capitão da Praça, engenheiro Luís Pedro de Araújo e Silva deu conta à rainha D. Maria I que lhe faltavam os reparos para os canhões e casas de guerra. A povoação foi sempre muito modesta, em 1850 não teria mais do que 1.800 habitantes. São muitos escassas as informações quanto à arquitetura religiosa em Cacheu. Houve uma residência da Companhia de Jesus, mas em 1733 o capitão queixava-se do estado miserável da Igreja matriz, o edifício estava em ruína.

Ter-se-á fundado o estado de Bissau em 1456, procurou-se um acordo com o rei local para fundar uma fortaleza. Há uma carta para a Corte datada de 10 de janeiro de 1689 onde se diz textualmente ter sido feita a fortaleza de pedra e cal, tinha sete peças de artilharia. Sabe-se que as obras da fortaleza de Bissau não chegaram ao fim e que em 1708 a Capitania foi extinta e a fortificação derrubada. Segue-se um role de peripécias até se chegar à construção da fortaleza definitiva em 1766, a construção estava a cargo do Tenente Engenheiro Bernardino António Alves de Almada, quem ultimou os trabalhos da fortaleza foi António Félix do Amaral. A planta da Praça revela as suas pequenas dimensões, regular, com quatro baluartes poligonais ligados por cortinas retas, com escarpa exterior, parapeito, banqueta e terra pleno, e no interior, na Praça de Armas, os quartéis da tropa dispostos em quadrado. Conserva o essencial da sua estrutura primitiva, mas sofreu alterações significativas. A perda de valor estratégico levou à construção de um maciço de dependências de carácter administrativo, mas no fundo a fortaleza que se pode ver é ainda, no essencial, a de 1767.

A evolução urbana de Bissau deu-se fundamentalmente a partir da transferência da capital do território, deixou-se Bolama. Defendida por uma fortaleza com algum poder, estabeleceram-se outros dispositivos menores do lado do mar e do lado do sertão, o de maior dimensão chamado Forte Nozolini, de planta quadrangular, que ficava no extremo da paliçada, que saía do baluarte da Balança. Está bem visível numa vista da cidade publicada na revista Ocidente, que aqui se mostra. Recorde-se os nomes dos outros três baluartes do Forte de S. José: Bandeira, Poana e Onça. Construíram-se à sombra dos baluartes os principais edifícios administrativos, e também se lançaram as ruas fundamentais da expansão da urbe, com casas de habitação e comércio. A Rua do Fosso e Rua de Alfandega faziam face à fortaleza, mas a frente de água estava desimpedida com a Rua da Praia que ia desde o Largo da Fonte do Pijiquiti até à paliçada da Poana. Depois, a Travessa Larga e a Travessa da Igreja formavam os quarteirões com outras seis ruas ou travesses, entre a Rua do Fosso e a Rua da Tabanca, que as cortavam ortogonalmente. Mais tarde esta vias foram sendo batizadas com outros nomes, normalmente de personalidades que se desenvolveram na colónia, ou governantes portugueses, é o caso da Rua Honório Pereira Barreto, que na transição do século XIX para o século XX era uma das mais prósperas da cidade e dotada dos melhores edifícios.

É esta a matéria do historiador Pedro Dias sobre a Guiné.


Vista de Cacheu, cerca de 1850, gravura, coleção particular
Planta da Fortaleza de S. José de Bissau, século XVIII, imagem da Torre do Tombo
Entrada da Fortaleza de São José de Bissau, século XIX, postal ilustrado, coleção particular
Vista de Bissau em 1884, publicado em As Colónias Portuguesas
Rua Honório Pereira Barreto, século XIX, postal ilustrado, coleção particular
Vista do forte e da vila de Cacheu. Gravura da Histoire Générale des Voyages, século XVI
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Nota do editor

Último post da série de 17 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28190: Notas de leitura (1940): "Uma História da África Lusófona Pós-Colonial", Edições tinta-da-China, 2026 (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 17 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28190: Notas de leitura (1940): "Uma História da África Lusófona Pós-Colonial", Edições tinta-da-China, 2026 (1) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 30 de Junho de 2026:

Queridos amigos,
No prefácio deste memorável trabalho escreve o historiador António Costa Pinto: "Este livro representa o primeiro estudo substancial sobre os novos regimes políticos africanos surgidos com o fim do colonialismo português, que se tornaram independentes em 1974-1975. Publicado em inglês em 2001, não teve infelizmente até hoje um novo estudo que lhe desse continuidade."
Chabal conseguiu reunir um conjunto de nomes sonantes para apresentar em estudos país por país: David Birmingham para Angola, Malyn Newitt para Moçambique, Joshua Forrest para a Guiné-Bissau, Elisa Silva Andrade para Cabo Verde e Gerhard Seibert para São Tomé e Príncipe. Disse Chabal que foi uma auspiciosa conjugação de fatores, alguns pessoais e outros institucionais.
Obra volumosa, necessariamente que a teremos de repartir por um conjunto de textos, embora recomende a todos os interessados a sua aquisição. Volumosa pela apresentação da história destes cinco novos países, não descurando a descrição sistemática dos acontecimentos ocorridos pós-independência: o volume liga o passado pré-colonial e colonial ao período pós-colonial, numa tentativa de explicar como o seu passado pré-colonial estava a influenciar a condição atual, e visando mostrar de que modo a evolução dos cinco países se assemelha ou contrasta com a de Estados africanos semelhantes; e temos a combinação de conhecimentos específicos sobre cada país. Tarefa um tanto ciclópica, lê-se compulsivamente um estudo que apresenta no final toda a bibliografia fundamental para este quarto de século e o antes.

Um abraço do
Mário


Uma obra historiográfica de referência:
Os primeiros 25 anos das antigas colónias africanas - 1


Mário Beja Santos

É um trabalho magistral, datado de 2002, felizmente agora traduzido com o título "Uma História da África Lusófona Pós-Colonial", Edições tinta-da-China, 2026; o autor principal foi o eminente académico Patrick Chabal, que dirigiu o Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros do King’s College de Londres, acolitado por outros nomes sonantes da investigação, caso de David Birmingham, Joshua Forrest, Malyn Newitt, Gerhard Seibert e Elisa Silva Andrade. Como escreveu o prefaciador António Costa Pinto, trata-se do primeiro estudo substancial sobre os novos regimes políticos africanos surgir com o fim do colonialismo português, tornados independentes em 1974-75. É, pela força das circunstâncias, um trabalho datado, um quarto de século de independências africanas lusófonas.

A estruturação da obra é bem interessante: um longo ensaio de Patrick Chabal seguindo-se estudos complementares sobre Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo-Verde e São Tomé e Príncipe. Na ótica de Patrick Chabal, o livro é fruto de uma auspiciosa conjugação de fatores que permitiram a constituição desta equipa de renomados estudiosos da África Lusófona, e o resultado é uma história abrangente de cinco países discrepantes em dimensão, localização geográfica e perfil socioeconómico; a despeito de tais discrepâncias, estes cinco países estão ligados por uma longa história colonial, foi o domínio português que ligou estes territórios, suscitando mobilidades e encontros de povos: os cabo-verdianos fixaram-se na Guiné e tiveram uma importante presença em São Tomé e Príncipe; os angolanos foram levados para São Tomé, os indianos de Goa estabeleceram-se ao longo do Zambeze, em Moçambique a partir do século XVI.

Este volumoso trabalho de equipa revela aspetos inovadores na abordagem: temos uma primeira parte que apresenta a história destes cinco países em duas perspetivas complementares, incluindo capítulos analíticos e temáticos, primeiro, e uma descrição sistemática dos acontecimentos ocorridos durante um quarto de século, depois.

Por si só, a exposição de Chabal sobre a África lusófona numa perspetiva histórica e comparada podia até ser assumida como livre autónomo. É uma longa digressão sobre quem era quem na guerra colonial, como se exprimiam os movimentos independentistas, o seu peso revolucionário, se possuíam, ou não, uma ampla base nacional, como fundamentaram a contrainsurreição, como reagiam os portugueses, a tais hostilidades, política e militarmente. Chabal procede a uma análise da descolonização observando a evolução do nacionalismo dos diferentes países, a vitalidade ou fraqueza da luta pela libertação nacional nos termos em que se descolonizou e como esta descolonização foi acompanhada com compromissos ideológicos.

O tema subsequente é o da questão da unidade nacional e o Estado-Nação, ponderando as diferentes disparidades na Guiné, Angola e Moçambique, o que abre a porta para a análise do chamado nacionalismo revolucionário. Feita a exposição sobre a guerra colonial e as suas consequências o autor pondera os modos de construção do Estado-Nação onde observa o seguinte:
“Para compreender a política pós-colonial de África, é necessário compreender a natureza da relação entre a sua história política pré-colonial, colonial e pós-colonial. Assim, é mais importante estudar a evolução da política pós-colonial africana com base na perspetiva da evolução das sociedades africanas que formam estes países independentes, em vez de o fazer simplesmente do prisma do Estado pós-colonial tal como ele foi erigido, quando da independência, sobre os alicerces (e como reação a ele) do Estado colonial.”

E socorre-se de dois exemplos que considerem elucidativos:
“Em primeiro lugar, seria de esperar que da comparação entre o Estado pós-colonial na Guiné-Bissau e em Cabo Verde resultassem grandes semelhanças. Os dois países partilharam o mesmo movimento de libertação nacional, o PAIGC, no seio do qual combateram lado a lado nacionalistas cabo-verdianos e guineenses. Na época da independência, instituíram um Estado bicéfalo, de partido único em que os dois países estavam estreitamente ligados. O PAIGC estava empenhado em fomentar uma maior ligação entre os dois países. No entanto, no intervalo de poucos anos, os laços entre ambos desfizeram-se e cada um seguiu o seu caminho.
Em retrospetiva, é fácil afirmar que Cabo Verde e a Guiné-Bissau eram muito diferentes entre si, que a sua união não era viável e que era improvável que o seu respetivo desenvolvimento pós-colonial fosse semelhante. Contudo, uma perspetiva excessivamente centrada no Estado pós-colonial oferece uma base muito frágil para explicar as razões para tão acentuadas divergências.

Em segundo lugar, uma análise do significado político da UNITA e da RENAMO, em Angola e Moçambique, a partir de um ponto de vista estritamente pós-colonial, poderia sugerir a existência de semelhanças importantes. Os dois movimentos eram ‘antissocialistas’ e ‘anti mestiços’, ‘direcionados para os negros’ e ancorados em estrutura sociopolíticas ‘tradicionais’. Ambos recorreram à violência em grande escala, ambos contribuíram para a falência da economia do respetivo país e ambos procuraram obstinadamente destruir as infraestruturas e os símbolos do poder estatal. Por último, ambos tiveram o apoio da África Austral. É, todavia, evidente que esta linha de análise ocultaria, ao invés de revelar, a génese e a importância da UNITA e da RENAMO na evolução de Angola e Moçambique, no período pós-colonial."


Patrick Chabal (1951-2014)

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 14 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28182: Notas de leitura (1939): Prefácio de António Vilar ao livro "3x44: Abel e Caim em Contrapé", de António Carvalho (Porto: eVida, 2026, 287 pp.)

terça-feira, 14 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28182: Notas de leitura (1939): Prefácio de António Vilar ao livro "3x44: Abel e Caim em Contrapé", de António Carvalho (Porto: eVida, 2026, 287 pp.)




O lançamento do livro do António Carvalho, em Medas, Gondomar, foi uma das primeias atividades da recém-criada Fundação Hermínia Vilar Ribeiro (FHVR).


1. O António Vilar, presidente do conselho de administração da Fundação HVR, fez questão de escrever e assinar o prefácio da obra. Eis o texto que nos chegou, por mão do nosso camarada António Carvalho:

Apresentação

Só duas palavras…

ou três, talvez, no sentido de, além de agradecer o honroso convite do Autor deste livro, o Sr. António Carvalho, amigo e vizinho de há décadas, para prefaciar este seu livro dizer também, o quão valioso é este seu novo escrito para divulgar o passado recente desta terra, Medas (Gondomar), debruçada sobre o majestoso rio Douro, a cerca de 20 kms do Porto, mas tão esquecida nas suas generosas gentes e no seu contributo sacrificado para o bem-estar de outros (as minas , a carqueja…).

António Carvalho é alguém do povo, de vida simples, mas com um coração voltado profundamente para a sua terra, os seus costumes, dramas e as histórias que a marcaram no passado recente, com o que vai contribuindo para a pôr no mapa de uma região e de um país que, tantas vezes, começa e acaba na Capital, nas capitais deste mundo onde o Poder e o dinheiro são os deuses de serviço. Medas também é Portugal e não tem medo de existir. 

Obrigado, António Carvalho, por nos legar as memórias desta terra e dos seus cidadãos e sobre como eles caminharam entre as maiores dificuldades sociais e societais e…a Esperança, num tempo que é, hoje, não de transição, mas de rutura, mas em que não podemos deixar de lutar por um Mundo melhor.

O livro que singelamente ora prefacio, nasceu, creio bem, de uma curiosidade inabalável do seu Autor, da sua vontade indomável de serviço aos outros e, inequivocamente, da sua necessidade de deixar escrita a voz dos seus antepassados (e contemporâneos), nas suas aspirações e desventuras, para que o tempo não se cale para sempre.

O tema do livro, que também bebe da rica imaginação do Autor, não é apenas o passado, antes, se entrelaça com o presente (e o futuro?) no que revela da natureza humana. “O que é já foi e o que há-de ser também já foi” (Ecclesiastes. 3:15).

Na aparente simplicidade (culta) da narrativa, encontramos a Vida a pulsar, feita de alegrias e de tristezas, de entrelinhas , de silêncios, de partidas e de regressos infindos. Com a devida vénia direi que, às vezes, me veio à ideia, o grande Camilo Castelo Branco, enquanto parava, na leitura, de algumas passagens da escrita de António Carvalho. Terei razão?

Não sei, mas os conflitos humanos, os dilemas morais, as emoções e paixões do quotidiano humano não são muito diferentes. É a Vida.

Com este seu novo livro, António Carvalho deixa uma herança que há-de preservar Medas na história do país profundo, a qual há-de continuar a falar quando o tempo já não se lembrar de nós. (**)

António Vilar, Julho 2026

(Revisão / fixação de texto, negritos: LG)

2. Comentário do editor LG:

António Vilar é uma figura de referência da advocacia portuguesa e europeia. Nasceu no Porto em 1952. Exerce a profissão em regime liberal desde 1978 com escritório no Porto. Formou-se na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. É igualmente uma figura de referência na social-democracia portuguesa, com intervenção pública e intelectual marcante. Discreto, mas frontal,  tem, também, um notável percurso académico e obra publicada.

Instituiu recentemente a Fundação Hermínia Vilar Ribeiro com sede na Quinta do Carreiro, Estivada, Medas, Gondomar,  com o o objetivo de promover a solidariedade social, com especial atenção para: (i) longevidade e envelhecimento ativo; (ii) diálogo intergeracional; (iii) atividades culturais e de lazer que entrelaçam memórias, costumes e contemporaneidade

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Nota do editor LG:

(*) Poste anterior da série > 13 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28180: Notas de leitura (1938): "Furriel não é Nome de Pai, Os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial", de Catarina Gomes; Tinta da China, 2016 (4) (Mário Beja Santos)

(**) Vd. postes anteriores: 
 

12 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28176: Notas de leitura (1936): "3x44: Abel e Caim em Contrapé", de António Carvalho (Porto: eVida, 2026, 287 pp.): dois continentes, dois destinos (Luís Graça)

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28180: Notas de leitura (1938): "Furriel não é Nome de Pai, Os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial", de Catarina Gomes; Tinta da China, 2016 (4) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 16 de Fevereiro de 2026:

Queridos amigos,
Catarina Gomes escreveu um livro de referência. Já nos chamara a atenção com outra obra Pai, Tiveste Medo? - sobre a forma como a experiência da Guerra Colonial chegou à geração de portugueses filhos de ex-combatentes. A primeira edição desta obra está associada a uma série documental Filhos de Tuga (RTP 1). Tudo começou em 2013 quando, em termos jornalísticos, ela partiu para a Guiné-Bissau para contar esta história no jornal Público, os filhos deixados para trás. Foi procurada por muitíssima gente. O testemunho de Fernando Hedgar da Silva, a associação que ele criou destes filhos de tuga estimularam a continuar a sua investigação, percorreu os três países onde houvera guerra, e aqui temos a história do movimento da Guiné, obra deste Fernando, a espantosa história de Óscar de Albuquerque e a sua tia Filomena, a mana Emília, a incansável Rosa Monteiro que tinha imensas saudades do pai sem nunca o ter conhecido. Sim, obra de referência, vale a pena confiar em futuras investigações sobre estas crianças que ficaram em África, filhas de pais desconhecidos.

Um abraço do
Mário



Filhos do inimigo, restos dos portugueses, seres humanos à procura de identidade – 4

Mário Beja Santos

A 1.ª edição de "Furriel não é Nome de Pai, os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial", de Catarina Gomes, data de 2016, a escritora e investigadora foi-se afeiçoando a este tema e esta terceira edição, já publicada em 2026, está substancialmente aumentada, mantém um vigoroso discurso narrativo, muitas vezes pungente, é uma tocante viagem à dignidade humana naqueles territórios onde houve Guerra Colonial e apareceram meninos e meninas tantas vezes repudiados, sujeitos às mais ignóbeis humilhações e que não desistem de lutar pelo direito à identidade.

Não sei se o leitor se recorda que suspendemos esta viagem contando a história de Celestina e o seu irmão gémeo Celestino, filhos de um major reformado que andou por Bambadinca, que até contou à mulher que aqui teve um “deslize”, os gémeos entraram em contacto com a mana branca, de nome Emília, esta vai dando conta das suas diligências em auxiliar os manos guineenses à mãe, Sara Martins Prado. Este nosso major fez várias comissões acompanhado pela mulher e as filhas, mas na comissão na Guiné-Bissau esteve sozinho, e a autora aproveita a circunstância para falar destes militares que tinham encontros com as lavadeiras ou combinavam com outras mulheres idas à tabanca.

Dentro do quartel era tudo difícil para as praças, dormiam em casernas lotadas de homens, os furriéis acomodavam-se em quartos de quatro homens, só de capitão para cima é que tinham quarto privativo. O pai de Emília fora um desses privilegiados. O nosso major reformado, confrontado por Emília, encolheu os ombros. “O pai aceitou falar com o dito Celestino ao telefone, mas percebeu pouco ou nada do que lhe dizia o homem guineense que afirmava ser seu filho. O pai está muito surdo, mesmo com aparelho, passou o telefone à Emília. Mas o filho distante agarrou-se àquele número de telemóvel que agora o aproximava do pai, e passou a ligar com uma insistência que, em vez de os aproximar, os afastou.”

Será Emília quem se encarregará de ir ajudando os irmãos, enviando dinheiro ou roupas. A conclusão é de que aquele pai via a relação da filha com os gémeos de lá, mas não queria falar de afetos ou reconciliação, no fundo uma história com um final como muitas outras.

Catarina Gomes dedica um capítulo aos chamados pais procuráveis, isto é, tomando como verdadeiras as histórias dos filhos, ela procurava os pais putativos para dizer que aqueles filhos existiam, e tentaria apurar se estes pais desejavam saber deles. A primeira dificuldade a superar era localizar os pais com as informações dos filhos, as pesquisas nem sempre são frutíferas, para a investigadora os resultados são mais amargos que agridoces. É neste contexto que ela pega num caso que obteve um grande tantã mediático, a viagem de António Bento que viveu uma relação amorosa com Esperança em Luvuei, leste de Angola, quarenta anos depois viajou para se encontrar com o filho, é um relato emocionante até chegar ao encontro com o seu filho Jorge Paulo Bento, conhecido entre familiares e amigos como o Pula ou o Branco; em Luena, o filho é membro da polícia de intervenção rápida, António Bento fala com os superiores dos filhos, conhece a nora e os netos e depois chega o filho, ele fora mandado de avioneta militar de Luanda para vir conhecer aquele pai, ressuma uma ternura neste encontro, nos abraços e nas lágrimas.

“António veio dizer-lhe a sua data de nascimento, 15 de janeiro de 1975, veio dizer-lhe que nasceu na enfermaria do quartel português e não em casa. Jorge gostou muito de ouvir do pai que o pai gostou da mãe, no livro que António escreveu propositadamente para o filho vem escrito que a mãe esperança é a mulher que eu amei. António diz-lhe que queria muito dar um abraço a Esperança, ‘agradecer-lhe por te ter criado sozinha’. O pai veio dizer-lhe o nome dos seus avós, Maria José Carita Reisinho e Júlio da Graça Bento, que estão na certidão de nascimento que vai usar para registar o nome do seu pai. Veio mostrar-lhe fotos de uma mãe jovem que ele não conhecia, numa delas apontou-lhe para a barriga, dizendo: ‘tu estavas aqui’.”

Se o leitor estiver interessado em conhecer mais pormenores da história, consulte o site https://acervo.publico.pt/sociedade/noticia/quem-e-o-filho-que-antonio-deixou-na-guerra-1699039.

Catarina Gomes fala-nos de Rosa que tinha saudades do pai que não conhecera, o que dele sabia resumia-se ao seu apelido, Monteiro, que ela usa; o pai fora militar em Metangula, no norte de Moçambique, de 1967 a 1968 (Rosa nasceu a 22 de maio de 1968). Metangula era porto militar colonial, dali partiam as lanchas da marinha portuguesa. Há fotografias da mãe tiradas pelo pai, Fátima Ndala com t-shirt de algodão justa ao corpo, mini saia de pregas em tecido de padrão escocês, sapatos claros estilo sabrinas. Rosa vai mostrando tudo a Catarina, queria mesmo apresentar-lhe dezenas de filhos de marinheiros portugueses da base naval de Metangula, é uma das histórias mais emocionantes pela persistência em conhecer o pai, socorrendo-se das redes sociais, até se chegar ao momento culminante de vir a saber que o pai falecera com 67 anos, ela não desfalece, insiste em contactar o irmão branco, este não quer comunicação, a irmã, a mesma coisa, Rosa guarda um álbum completíssimo com a sua família portuguesa, espero que o leitor não perca este capítulo intitulado Saudades do Pai Monteiro.

A investigadora vai colecionando histórias, ouvindo resignações, tomando nota de palavras associadas àquele tipo de relacionamento espúrio e que ganham valor complexo, tais como namoro, conversa, casamento, marido, esposa, e algo mais, matéria que merece a maior reflexão:
“Mal termino de escrever sobre estas mães, vêm-me à mente estes pais acidentais, homens que se deslocavam em bando à procura de mulher, uma qualquer, saídos de um Portugal das décadas de 1960 e 1970, em que as mulheres se queriam virgens até ao casamento, em que as famílias protegiam a castidade das filhas, em que para muitas famílias as filhas terem relações sexuais antes da noite de núpcias significava ‘desgraçarem-se’. Elas deviam vestir-se decentemente, prescreviam-se saias a ¾, das pernas apenas podiam revelar-se os tornozelos.
Longe deste Portugal, tais jovens, a maioria vindos de aldeias, encontravam-se, pela primeira vez, fora do país, num estrangeiro em que havia mulheres que não usavam sutiãs, nem saiotes e combinações, apresentando-se ao mundo estranhamente despidas. Eles podiam até assistir ao mais íntimo dos rituais: o banho.
Aportaram num mundo com uma moral às avessas.”


De uma dignidade sem mágoa do início ao fim, esta investigação aborda um dos maiores tabus entre os militares portugueses, as crianças que ficaram para trás quando terminou o conflito e que andam há anos à procura de uma identidade perdida, e onde não deixa de ser chocante a indiferença do Estado português para reconhecer a dimensão desta realidade.
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Notas do editor:

Vd. post de 6 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28161: Notas de leitura (1934): "Furriel não é Nome de Pai, Os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial", de Catarina Gomes; Tinta da China, 2016 (3) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 12 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28177: Notas de leitura (1937): "3x44: Abel e Caim em Contrapé", de António Carvalho (Porto: eVida, 2026, 287 pp.): "O gerúndio famoso sempre existiu no português do Brasil e, pasmem, foi nos navios, diretamente do português europeu para a América." (Angélica Lima, escritora e ediucadora brasileira)

domingo, 12 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28177: Notas de leitura (1937): "3x44: Abel e Caim em Contrapé", de António Carvalho (Porto: eVida, 2026, 287 pp.): "O gerúndio famoso sempre existiu no português do Brasil e, pasmem, foi nos navios, diretamente do português europeu para a América." (Angélica Lima, escritora e ediucadora brasileira)


Angélica Lima,  Fonte: Linkedin

1. Texto da doutora Angélica Lima, lido por ela na sessão de apresentação do livro do nosso camarada António Carvalho, ontem em Medas, Gondomar (*) (cortesia da escritora,  brasileira, cuja foto, do Linkedin, reproduzimos aqui à direita):


Boa tarde a todas e a todos.


Quero começar agradecendo ao autor, António, pelo generoso convite para estar aqui com vocês neste momento tão especial, que é o nascimento público de um livro.

Agradeço também a confiança ao me permitir ler esta obra antes de sua publicação e ao me convidar para compartilhar algumas impressões de leitura.

Agradeço igualmente a presença de todos os que escolheram participar desta celebração literária, num tempo em que tantas vozes artificializadas disputam diariamente a nossa atenção.

Vivemos cercados por telas, notificações e estímulos constantes. Já existem estudos mostrando que esse excesso tem reduzido a nossa capacidade de concentração, de reflexão e até da criatividade.

Um livro impresso continua a nos oferecer algo cada vez mais raro: silêncio, tempo, autoescuta e reflexão. Mas, sobretudo, continua a nos lembrar da importância de exercitar aquilo que faz de nós essencialmente humanos: a nossa capacidade de pensar, de imaginar, de viajar. E, diferente das máquinas, fazemos isso enquanto lemos.

Esse convite específico me fez perceber que ler um romance e falar sobre ele num lançamento são experiências muito diferentes.

Ler é um encontro íntimo e silencioso entre o livro e o leitor.

Hoje, esse silêncio ganha voz.

Antes de entrar propriamente no romance, gostaria de compartilhar com vocês o lugar de onde falo hoje.

Ao receber o convite para ler este romance antes da publicação e depois, apresentar minhas impressões no dia do lançamento, minha primeira reação foi de surpresa.

Nunca havia participado de uma apresentação de livro como oradora convidada. Isso me deixou, ao mesmo tempo, feliz e consciente da responsabilidade que estava assumindo. Por isso, diante do público, para eu não ter aquele momento de mudez ou daquela tosse, que na verdade é um misto de vergonha e ansiedade, preferi trazer minhas anotações.

Gosto de acreditar que cada romance encontra novos sentidos quando é lido por pessoas diferentes. Um livro deixa de pertencer apenas ao autor quando chega às mãos dos leitores, e cada leitura lhe acrescenta uma nova camada de significado, muitas vezes até diferente daquela que o próprio autor pensou. E o texto vai ganhando outras dimensões.

 O olhar que compartilho hoje é apenas um dos muitos possíveis.

Falo como leitora, mas também a partir de uma circunstância muito particular.

Sou brasileira, paulistana, isto é, nascida em São Paulo – capital, não no interior, como, por exemplo, Santa Rita do Passa Quatro, onde, se nascesse, seria paulista. Se esse livro fosse lançado no Brasil, essa informação seria um motivo de bairrismo. Mas, é apenas uma informação para situar o espaço. Vivo atualmente em Portugal.

De certa forma, essa condição acabou me aproximando do protagonista, Abel, que também realiza uma travessia, embora em sentido inverso ao meu.

Ao acompanhar a sua viagem para o Brasil, procurei não buscar semelhanças nem diferenças entre os dois países. Preferi deixar-me conduzir pelas idiossincrasias que o romance vai revelando: esses pequenos gestos, modos de falar, de sentir, de relembrar e de viver que constroem a identidade de um povo e, ao mesmo tempo, tornam cada personagem única.

Ao longo da leitura, também fui observando como uma mesma língua pode aproximar dois países e, ao mesmo tempo, nos surpreender pelos diferentes sentidos que uma palavra pode assumir de um lado e do outro do Atlântico.

Foi essa travessia, feita por meio da linguagem, da memória e das personagens, que procurei acompanhar o protagonista e suas peripécias ao longo da leitura. Fui tentando perceber como Abel transporta com ele a sua memória, a sua língua, os seus afetos e a sua identidade quando atravessa um oceano e vai viver em outro continente. E fiz essa leitura refletir sobre a minha própria experiência enquanto imigrante.

Então, é desse lugar, ao mesmo tempo próximo e distante, que convido vocês a percorrer comigo algumas páginas deste romance.

Não como crítica literária, porque não sou, nem como especialista, mas simplesmente como uma leitora que teve o privilégio de caminhar por estas páginas antes que elas encontrassem vocês, seus futuros leitores.

Imaginei encontrar um romance que me conduziria pela história. Descobri, porém, que antes da história havia uma língua inteira à minha espera a ser atravessada. Foi logo de cara que percebi: preciso de um companheiro para fazer comigo essa viagem – o dicionário.

Há romances que não se deixam atravessar à pressa; devemos percorrê-los num barco a vapor ou num rabão à vela.

Este romance não se deixou ler rapidamente. Comparo essa leitura, com a chegada numa cidade do Brasil por onde nunca houvesse passado antes. Porque no Brasil é assim: até mesmo para nós que lá nascemos, muitas vezes desconhecemos o modo de falar de uma cidade que fica ao lado ou a cinco mil quilômetros. 

Chegando lá, compreendemos o geral, mas não os pormenores. E essa leitura trouxe a sensação de estar diante de uma grande diversidade de paisagens, cores e linguagens, onde o pormenor ficaria encoberto, se eu não decifrasse os regionalismos, os termos tão interessantes escolhidos por António.

Um dos aspectos que mais me surpreendeu no texto é o fato de o António usar períodos longos, sem cansar, às vezes, numa cadência quase oral e, em alguns momentos, pensei que ele usava os regionalismos semelhantes ao modo que Guimarães Rosa faz em "Grande Sertão Veredas".

A minha travessia foi assim: enquanto Abel conhecia os sabores do Brasil, eu viajava pela cozinha portuguesa.

Enquanto Abel se espantava com a paisagem exótica do Brasil, eu me encantava com a simplicidade e dureza da vida rural em Portugal.

Enquanto Abel aprendia o sotaque de se abrasileirar, como disse o autor, eu mergulhava no dicionário e viajava pela língua portuguesa.

Não porque a leitura fosse inacessível, mas porque o autor recupera um património linguístico extraordinário, fazendo-nos descobrir palavras que, muitas vezes, já desapareceram do nosso uso quotidiano. E palavras que eu realmente nunca tinha ouvido, mesmo morando aqui há quase 10 anos, mesmo sendo filha desse nosso idiomaterno.

Ao longo da leitura, fui percebendo que, com esse vocabulário, em vez de contornar as palavras desconhecidas, eu precisava entrar nelas.

Isto surpreendeu-me: a quantidade de verbetes escolhidos pelo autor que, sozinhos, dão origem a outro livro. No meu manuscrito, marquei mais de 250 termos, palavras, passagens em que eu precisei parar, desembarcar, e só depois, continuar a viagem.

Destaco apenas algumas palavras ou frases:

  • Sair pelas portas fronhas   – essa frase eu fiquei encafifada, fronha para mim é outra coisa;
  • Caminhos de pé posto – que achei muito interessante;
  • Dealbar – fiquei encantada com essa palavra.
Esses são exemplos de palavras lindas e, para mim, completamente desconhecidas.

Sobre as personagens? Vou me ater ao Abel e à Eva.

Abel acaba por abraçar o sonho de ficar rico ou melhorar de vida, por meio do seu trabalho, mas abraça, especificamente, o sonho do seu pai e é levado por ele, ainda muito menino, ao Brasil para assumir funções de homem.

Abel e Eva escondem a sua verdadeira paixão, a ambição. Mas essencialmente, a luta contra a miséria.

Sobre a personalidade de cada um, conforme vocês vão lendo a história, poderão refletir se Abel representa o homem do século passado, mas que tem nele, uma espécie de mofo que ainda está impregnado nas sociedades até hoje. 

Conforme a narrativa cresce, as personagens mostram a sua verdadeira cara. Eu gostei muito do Abel, mas, no fundo, eu tenho grande compaixão pela Eva e pelo que ela representa, por isso escolhi essas duas passagens sobre as mulheres desse romance, me perdoem os ouvintes, mas vou ser breve:

(...) "A repenicada moça do Porto não era propriamente uma daquelas carquejeiras de mãos encortiçadas, que durante anos e anos subiam 
ajoujadas sob feixes de carqueja e queiró de três a quatro arrobas, a Calçada da Corticeira, para alimento dos fornos das padarias da parte alta da cidade. Eva tinha um estatuto social mais elevado do que o dessas mulheres calçadas de socos e pele tisnada a subir a ziguezaguear o calvário de duzentos metros que pareciam nunca mais acabar. Mais do que um calvário (que me perdoem os cristãos mais sensíveis) os itinerários que estas mulheres (algumas com pouco mais de dez anos) faziam até à lonjura de Paranhos e Carvalhido, eram autênticas vias sacra."! (...)


Ou essa:

(...) "Enquanto passava ligeira e empertigada, com estes sinais distintivos, envaidecida pela concupiscência dos olhares masculinos, as outras, atarracadas sob o peso dos desmedidos feixes, mostravam-se alquebradas, na postura como na mente, como se aquela tarefa ciclópica durante seis dias da semana, encosta acima, debaixo de carregos maiores que o corpo, em passada lenta, retornando encosta abaixo, de vazio, a pé ligeiro, as tivesse marcado, na pele e na alma, de modo irreversível." (...)

O romance transporta-nos para o espaço descrito, a paisagem é magnífica, tanto de Portugal como do Brasil. Com muitos detalhes que tornam o texto belíssimo. O autor vai contando causos, resgatando fatos históricos e momentos culturais fantásticos. A paisagem, com isso, participa da história.

O tempo que o autor usa, do meu ponto de vista, apesar de parecer linear, é não linear, é simbólico. É uma história contada em camadas, símbolos e memórias. E os detalhes dessas memórias são de uma delicadeza poucas vezes encontrada.

Ao mesmo tempo, não deixa de ser um romance histórico, para além da própria história contida, que se estende por mais de 30 anos. Nela, o tempo cronológico se mistura ao tempo social, psicológico e simbólico, como nessa passagem:

(...) "Por uma alta torre dotada de sinos que se ouvissem no vale mais profundo da freguesia e relógio de grandes algarismos e ponteiros que se divisassem ao longe. Todos os presentes convergiam quanto à prioridade da torre da igreja, que marcaria as horas dos trabalhos nos campos, dos momentos fulcrais dos actos litúrgicos, dos baptismos, comunhões e casamentos, e as desoras dos que morriam." (...)

Entre os símbolos, quero destacar a água que é um símbolo de travessia. A água faz parte da vida de Abel, no Rio Douro, nas travessias pelo mar, e em outras situações que o envolvem, a água aparece como um sinal de vida, de esperança e de tragédia.

Há muitos símbolos e metáforas religiosas, mas só nessa parte, eu gastaria mais de uma hora a falar e o objetivo é o silêncio da leitura.

Entre os temas que aparecem — e são muitos —, vou destacar apenas dois que estão muito na moda. A imigração e as classes sociais, muito bem retratadas no texto, ao pormenor, e um que é o mais importante do meu ponto de vista, a linguagem, como nestas passagens:

(...) "Eram os melhores ideólogos por esses dias o padre, o presidente da junta, o regedor, o professor e os que calçavam sapatos à semana. " (...) 

(...) "Os sapatos que o seu pai encomendara, para esta viagem, a um sapateiro de Emendadas, sobravam-lhe igualmente nos pés, mas assim deveria ser para lhe dar para mais anos." (...)

Essas são passagens sobre sapatos; me remetem à infância e aos causos contados em casa pela minha mãe. “Nas fazendas, havia uma criança que ia à escola com um pé do calçado até gastar; depois, usava o outro”.

Há uma passagem que o autor relata sobre a língua portuguesa abrasileirada e isso é um dos destaques que eu também quis trazer:

(...) "Assim, sempre que confrontado com gente graúda, evidenciava, no modo como temperava as palavras e insistia no uso do gerúndio, o contributo que recebera de catorze anos passados numa fazenda de café, a abraseileirar-se." (...)

O gerúndio famoso sempre existiu no português do Brasil e,  pasmem, foi nos navios, diretamente do português europeu para a América. Como não sou linguista de formação, como boa brasileira, achei curioso recordar que o gerúndio, tantas vezes apontado como uma marca do português do Brasil, não nasceu no Brasil.

 Trata-se de uma construção antiga da própria língua portuguesa, preservada entre nós brasileiros, enquanto Portugal foi seguindo outro caminho. Foi uma mudança gradual na fala portuguesa, mas foi o Brasil que manteve a originalidade da língua levada para lá.

E, entrando nos finalmentes, o que ficou em mim talvez seja o mais importante.

Para mim, este romance não fala apenas das travessias entre Portugal e o Brasil, entre o Atlântico e o Douro. Fala também das travessias humanas: entre a pobreza e a esperança, entre o preconceito e a dignidade, entre as escolhas que transformam uma vida e aquelas que acabam por cristalizar destinos.

Quando fechei o livro, algumas personagens permaneceram comigo. Eva, sem dúvida. Mas a personagem que mais me acompanha é Chiquinha. Talvez porque ela traga uma leveza inesperada para uma realidade tão dura. Sua presença parece lembrar que, mesmo nos períodos mais difíceis da nossa história, a humanidade nunca deixou de encontrar espaços de afeto, generosidade e esperança.

Ao acompanhar essa personagem, fui pensando que olhar para a história não significa apenas procurar culpados ou inocentes. Significa, antes de tudo, reconhecer que ela foi feita por seres humanos, com as suas grandezas e as suas misérias. 

Só quando temos coragem de reconhecer também as partes menos nobres da nossa história é que podemos construir uma sociedade mais justa, mais consciente e mais humana. É isso que o livro traz.

Há uma imagem que continua a regressar à minha memória: a chegada de Abel pela Serra do Mar. Enquanto lia essa passagem, revi-me adolescente, fazendo aquele mesmo percurso de trem em direção a Santos, num fim de semana. O trem pendurado pelos cabos, passando sobre o abismo, onde só se ouvia o barulho do trem. Foi um daqueles momentos em que a literatura nos devolve aos tempos da nossa própria vida.

E talvez tenha sido essa a maior transformação que esta leitura provocou em mim. Descobri que, neste romance, cada palavra carregava algo para além do seu significado imediato. Cada escolha do autor guardava uma memória, um símbolo, uma intenção. Muitas vezes eu me perguntava: Por que esta palavra e não outra? E, quando ia procurar o seu significado, descobria que havia muito mais por trás dela do que imaginava e ficava encantada.

O meu diálogo com este romance nunca foi uma análise nem uma crítica. Foi uma conversa, uma experiência.

Este livro levou-me de volta ao Brasil, à minha infância, ao colchão de palha, às quaresmeiras, ao Manacá-da-serra, à Serra do Mar, às viagens de trem para Santos, não ao Porto, à Praia Grande. A galinha com farofa. O sanduíche de pão Pullman com queijo e presunto. O ‘Guaraná’ sem gelo. Os farofeiros. Nome dado aos pobres que frequentavam as praias, mas não tinham dinheiro para almoçar ou lanchar nos restaurantes. 

É para isso que servem as histórias: para nos fazer encontrar, nas vidas dos outros, pedaços da nossa própria vida.

Por isso, termino dizendo que há romances que não se deixam atravessar com pressa. É preciso caminhar ronceiramente dentro deles. E foi exatamente essa a experiência que este romance me proporcionou.


António Carvalho: integra a Tabanca Grande
 desde 13/9/2008, e tem cerca de uma centena
 de referências no nosso blogue




Não posso revelar mais do que o próprio livro vai oferecer ao longo das suas páginas. Posso apenas dizer que esta leitura foi, para mim, uma verdadeira travessia pela memória e pela condição humana e principalmente, pela riqueza da nossa língua portuguesa, nosso tão amado idiomaterno.

Tenho certeza de que cada leitor encontrará também o seu próprio caminho dentro desta narrativa. Descobrirá as suas personagens preferidas, as palavras que mais o tocarão e fará, à sua maneira, 
 a sua própria travessia.

Parabéns ao António por esta obra e muito obrigada a todos pela atenção.

Obrigada, Angélica Lima.

Apoio estratégico para projetos acadêmicos e literários
Escritora|Ghostwriter|Ilustrações
Especialista em artigos, teses, dissertações e livros.
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(Revisão / fixação de texto: LG)

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