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segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28329: Notas de leitura (1958): “Pai, tiveste medo? A guerra contada é muito diferente da que foi vivida”, por Catarina Gomes; Matéria Prima Edições, 2014 (3) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 12 de Maio de 2026:

Queridos amigos,
Creio de ser muito de salutar esta emergência de novas dimensões da literatura da guerra colonial, temos um acervo de décadas com romances, novelas, contos, poesia (incluindo a popular), as obras memorialísticas, a historiografia; gradualmente, foram aparecendo narrativas sobre as mulheres que acompanharam os seus maridos nas comissões militares, as enfermeiras paraquedistas, os retornos de ex-combatentes aos locais onde tinham vivido; mais recentemente, entram em cena os filhos desses ex-combatentes e episódios colaterais, como Catarina Gomes nos conta neste seu magnífico trabalho de investigação em que há filhos que vêm depor sobre o stress pós-traumático dos pais, histórias mirabolantes de correspondência com muitas madrinhas de guerra, até chegarmos à tocante adoção de Pedro Luqueia de Santarém, uma criança encontrada numa operação no norte de Angola, em outubro de 1962 e que foi adotada por um Esquadrão de Cavalaria. É uma nova forma de rever o passado em que os atores são os filhos que se debruçam com o que há de fascinante sobre tais comissões militares que tiveram a virtualidade de mexer com a vida das famílias, para todo o sempre.

Um abraço do
Mário



Pode um filho ter memórias de uma guerra que nunca viveu? - 3

Mário Beja Santos

Multiplicam-se os casos em que a literatura da Guerra Colonial revela uma nova dimensão: são os filhos a visitar os locais onde os pais combateram, os filhos de uma relação entre ex-combatentes e mulheres de Angola, Guiné e Moçambique à procura dos pais e de uma identidade; memórias e testemunhos de mulheres e filhos, e sobretudo estes que querem entender o que o pai viveu na guerra, fazem perguntas depois de ler as cartas que eles trocaram com as suas mulheres ou namoradas, isto sem já falar em recordações de infância marcadas pela violência da guerra. Catarina Gomes é hoje um nome firmado neste tipo de investigações, o que vem conferir uma abordagem diferente àquela literatura em que a memória ou a ficção do ex-combatente estava no primeiro plano.

O livro de que estamos a falar intitula-se Pai, tiveste medo? A guerra contada é muito diferente da que foi vivida, Matéria-Prima Edições, 2014. Em textos anteriores já foram expostas situações do stress de guerra e violência familiar, doença que dá pelo nome de Perturbação Pós-Stress Traumático de Guerra, de um militar que dedicava o seu tempo livre a escrever às madrinhas de Guerra, de uma menina nascida na Guiné cujo pai, à viva força a trouxe para Portugal e foi educada pela avó, falou-se de heróis de militares que refizeram a sua vida em ambiente colonial, de um aviador desaparecido em combate em Moçambique que levou uma viúva ao desespero, sempre na esperança de reencontrar o seu marido.

Hoje mudamos de azimute. Tiago Teixeira, nascido em 1978, é médico voluntário no hospital de Cumura, tenta salvar doentes com tuberculose e VIH/Sida. “Tiago andou por esse país na infância, numa sala de estar no Porto, aos sábados de manhã, sentado ao colo do pai, a olhar aquelas fotos a preto e branco que vinham acompanhadas de nomes de sítios estranhos, como Empada, Mampatá, Bolama.” O filho pensa que o pai nunca lhe escondeu nada, que lhe contava tudo, ele acha que era mais por ele do que pelo filho. Em adolescente, começou a atender telefonemas dos colegas do pai, iam estar presentes com a família nos convívios dos ex-combatentes. Em 2005, o pai e dois colegas seguiram num jipe para a Guiné, anos depois, com um grupo de ex-combatentes criou uma Organização Não Governamental para o Desenvolvimento, a Tabanca Pequena Grupo de Amigos da Guiné-Bissau.

Apareceram melhoramentos na vida dos guineenses, poços de água, canoas a motor. Tiago conta que aquele álbum da infância foi também ganhando vida na mão de pessoas que o pai visitava nas suas idas à Guiné. Uma noite Tiago escreveu, depois de regressar do hospital de Cumura: “Acho que é um regresso em nome do meu pai, da sua fidelidade a esta terra e a esta gente, que o marcaram para a vida, que me marcaram para a vida… É como se um fio me unisse à história do meu pai com este povo há muitas décadas, e eu viesse para aqui para continuar essa história.” O pai de Tiago Teixeira é o nosso confrade José Teixeira.

João Fernandes Saido Jaló lembra o seu pai, o Capitão João Bakar Jaló, um herói militar guineense que combateu do lado português, condecorado com a Torre e Espada. João tem plena consciência das mudanças que ocorreram com a morte do pai, tinha ele oito anos, morto o herói, cresceram as dificuldades, conheceu os calções rotos, andou com os pés descalços, passou a ir buscar lenha ao mato. Com o fim da colónia, seguiram-se os ajustes de contas, os fuzilamentos, o tio, por ser irmão do pai, foi torturado. Em 1976, ele e a família foram expulsos da casa em Catió, as medalhas e as fotos do pai foram confiscadas. João pediu a um professor que lhe redigisse uma carta em português, a pedir para ir para Portugal estudar, entregou-a na Embaixada de Portugal em Bissau, seguiram-se as tentativas de correspondência para Portugal, em 2002 João aterrou em Lisboa a primeira vez; em 2009 foi-lhe concedida a nacionalidade portuguesa. Estuda, acabou o décimo segundo ano, é vigilante na zona de Torres Novas, sonha licenciar-se em Direito.

Trinta e três anos depois de ter voltado da guerra colonial em Moçambique, 29 anos depois de Joana ter nascido, ela e a irmã receberam do pai, como prenda de Natal, um volume cuidadosamente encadernado, mas que devia ser de fabrico caseiro, tinha como título Cacimbo. Sabia que o pai tinha estado na guerra, tinha pisado uma mina, ficou a saber como tudo se tinha passado. O volume tem sublinhados da Joana, há desabafos do pai, tais como: “estarei condenado a ser um limitado descrente onde não cabe a transcendência divina.” E “o mundo não tem poesia nenhuma. Estética nenhuma. O mundo é um acumulado de ocorrências avulso.” Há lembranças da enfermeira-paraquedista que o socorreu depois da explosão da mina; mas para Joana o livro e o blog onde o pai colabora ajudam-na a descodificar o que o pai é por causa da guerra.

“Apesar de uma experiência tão longínqua, num continente onde Joana nunca esteve, há pontes que consegue fazer com ele, como quando o pai se transporta no livro, do chão do pó da picada, onde pisou a mina, para o chão de pó do Largo do Sobreirinho, onde jogava futebol na infância, na aldeia de Aguim. É nesse sítio onde a infância do pai se cruza com a sua que foi implantado um memorial, ‘um paralelepípedo em homenagem aos da aldeia que combateram na guerra colonial’, erigido por iniciativa dos próprios. Para não ferir suscetibilidades, o pai contribuiu. Joana sabe que para o pai não faz sentido que sejam as próprias pessoas a ergueram estátuas às suas memórias. Na escola, Joana não se lembra de ter aprendido sobre a guerra colonial; o que sabe é o que lhe vem do pai e é tudo quanto quer saber sobre o tema.”

Era inevitável, Miguel fala da sua mãe a então furriel enfermeira paraquedista Maria Emília Carvalhinho, seu nome de casada. Os pais do Miguel conheceram-se na base de Tancos. O álbum da mãe fala por milhentas palavras, está ali a referência explícita àquela geração de mulheres que teve a experiência única da emancipação. “Olho para a minha mãe como uma pessoa corajosa, que trocou um percurso previsível por um percurso novo, de algum modo assustador. O facto de ter tido esta mãe abriu-me a mente. Há muita coisa na sociedade atual em que não avançámos. As mulheres sacrificam carreiras para ter família, as mulheres grávidas são discriminadas e podem perder o emprego.” Para Miguel aquela história da mãe pioneira como enfermeira paraquedista ensinou-lhe que as mulheres podem fazer o que bem entenderem com as suas vidas.

Temos por último a história de Pedro Luqueia de Santarém. Tudo começou com a Operação Golpe Baixo, a 16 de outubro de 1962, na povoação de Bembe, no norte de Angola, esteve envolvido o Esquadrão de Cavalaria 122. No regresso, vem uma criança a quem se pôs o nome de Pedro Luqueia de Santarém, porque era o que tinham em comum os homens que o adotaram. Passou a ter identidade e foi batizado. Foi encontrado na operação todo nu, teria cerca de 4 anos. Tornou-se na mascote da companhia, aprendeu a falar português, passou a fazer parte da vida dos militares, veio com eles para Portugal, foi acolhido pela mãe do alferes Sá, numa vilinha no norte de Portugal.

Pedro ingressou como interno nos Pupilos do Exército, entrou depois no Instituto Superior Técnico, onde se formou em Engenharia Eletrotécnica. “Há uns anos Pedro foi a um almoço-convívio do Esquadrão de Cavalaria 122, com a sua mulher e os dois filhos, e esteve tempos infinitos só a cumprimentar familiares de militares.” Mas a história não fica só por aqui. “Pedro tem de Angola, de África, o nome do local de nascimento que lhe vem escrito no bilhete de identidade, o nome do rio angolano que é o seu apelido do meio e a cor preta que é só a da pele, o que ele diz que em Portugal foi ficando branco. Gostava muito de ter a nacionalidade angolana, mas é preciso provar que nasceu lá. Já foi à Embaixada, mas teria de ir ao registo em Angola. Acha que nunca vai conhecer ninguém da família que o ajude a interpretar o que a sua memória entendeu reter, mas continua a colher indícios que o ajudem a perceber quem é, a preencher os vazios de um filme de que só conhece pedaços. Tenta não pensar no que podia ter sido a sua vida.” E conclui com um pensamento positivo: “Estás aqui, não vale a pena. És feliz, apesar de tudo, não há outra hipótese de ser feliz.”

Assim se põe termo a este belíssimo trabalho de investigação de Catarina Gomes.
Catarina Gomes, imagem do Público, com a devida vénia
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Notas do editor

Vd. post anterior de 31 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28309: Notas de leitura (1956): “Pai, tiveste medo? A guerra contada é muito diferente da que foi vivida”, por Catarina Gomes; Matéria Prima Edições, 2014 (2) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 4 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28320: Notas de leitura (1957): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (4) (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28320: Notas de leitura (1957): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (4) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 9 de Julho de 2026:

Queridos amigos,
Não é por especial deferência que Howard French destaca o papel dos portugueses na descoberta de África e no comércio negreiro, como temos vindo a apreciar. A historiografia do Estado Novo, quanto a esta matéria, dava ressonância a uma alegada missão civilizadora, exportação da fé e cristianização de gente que ou trilhava os ideais de Mafoma ou adorava ídolos, e, por simpatia, faziam-se trocas que tornavam a economia portuguesa um tanto respeitável na cena europeia. O primeiro verdadeiro contraponto foi dado pelos importantíssimos trabalhos de Vitorino Magalhães Godinho, ele pôs o foco no que os Descobrimentos portugueses e de outros tinham introduzido na economia mundial. Ora este autor dá mesmo conta de que por razões estratégicas, pelo pesado constrangimento imposto pela União Ibérica e pelo esforço exigido pelas guerras da Restauração e recuperação colonial, o comércio de escravos pesou na pouca defesa que se fez do que restava do império português no oriente. Brasil e Angola eram as jóias da Coroa que urgia fazer luzir, como aconteceu com o ouro, os diamantes, o comércio negreiro e a agricultura de plantação.

Um abraço do
Mário



África, os africanos e a criação do mundo moderno, de meados do século XV à Segunda Guerra Mundial - 4

Mário Beja Santos

Se tentássemos contabilizar a proveniência dos autores que escreveram relatos, fizeram investigações, orientaram ou orientam estudos académicos sobre o continente africano, o número mais expressivo iria recair certamente nos europeus, seguido dos norte-americanos. No seu livro Origem: África, o jornalista, escritor e académico Howard W. French, Bertrand Editora, 2022, releva que os relatos tradicionais têm o seu foco na era dos Descobrimentos europeus do século XV, não escondendo os reais interesses de quem e para quê impulsionava estas viagens e a instalação de feitorias e fortalezas: sonhava-se descobrir mundo, encontrar o lendário rei Preste João, ter acesso ao ouro, levar a crença cristã e sempre que necessário, combater a crença muçulmana, encontrara a ligação entre os rios Níger e o Nilo – e parece que mais nada aconteceu. Prosseguindo a sua narrativa, dissecará a evolução do comércio negreiro, destacando o papel da fortaleza de São Jorge da Mina, a criação de uma agricultura de plantação onde o escravo teve desempenho fundamental, a riqueza daí adveniente foi contributo decisivo para seis séculos de desenvolvimento mundial.

Estamos agora na corrida a África ou na partilha de África, entraram em cena velhos atores como Portugal, Espanha, França, Inglaterra, Holanda e novos como a Bélgica e a Alemanha. Os velhos andaram em guerras entre si, caso da Grã-Bretanha e da França pelo vale do rio Ohio fazia parte da competição deles nas Caraíbas e no Canadá, tentavam o controlo da América do Norte, a França queria consolidar as Índias Ocidentais francesas, a mesma França que tinha centros de escravatura no Senegal; no século XVIII, os britânicos disputam a primazia francesa, passaram a ser o primeiro comprador de escravos e em 1761 o império britânico seguia atrás da França nas exportações de açúcar, algodão, rum e café.

A industrialização da Grã-Bretanha e a sua ascensão a potência mundial ficaram indissociavelmente ligadas às colónias de plantação de açúcar, ao trabalho escravo. “A ascensão de Liverpool, a prosperidade do Império Britânico, o triunfo da Marinha inglesa, a riqueza das famílias bancárias britânicas e o sucesso dos engenhos de algodão ingleses, tudo dependia do comércio de escravos e das mercadorias produzidas pelos escravos.” É neste contexto que se pode analisar o conflito entre países por causa das pessoas transportadas acorrentadas através do Atlântico como ouro negro, estes escravos farão parte da competição global e a Conferência de Berlim será também o sinal de que os lugares tropicais ganhavam realce como agricultura de plantação e oportunidades comerciais, aqui, os povos cativos, dentro desta lógica, podiam ser utilizados com maior produtividade. Portugal foi um perdedor, sobretudo por estar ligado ao império espanhol durante a União Ibérica. A Holanda derrotou Portugal em 1637, tomou o controlo da Costa do Ouro, já tinham atingido São Jorge da Mina, irão tomar São Paulo de Luanda, lançarão um ataque contra o Brasil português, também tomaram São Tomé, o império português parecia totalmente perdido, irá parcialmente ressuscitar com a Restauração.

O autor irá focar-se na revolução introduzida pelos engenhos de açúcar no Brasil. Tornou-se imperioso trazer escravos, os índios e toda a classe de indígenas começaram a morrer em massa; sabemos hoje que os culpados foram os agentes patogénicos, uma longa lista que incluía varíola, sarampo, tosse convulsa, varicela, peste bubónica, tifo, febre tifoide, difteria, corola, escarlatina e gripe, tudo trazido do Velho Mundo. Sem os africanos o Novo Mundo não teria sido viabilizado nem de perto nem de longe na extensão em que o foi. Sem os africanos jamais os europeus teriam conseguido ocupar e colonizar os vastos territórios do Novo Mundo com a velocidade com que acabaram por conseguir fazer. O enfoque do autor sobre a indústria açucareira no Brasil irá ser um polo de atração para todas as outras potências competidoras. Entretanto Portugal abriu uma nova frente no comércio negreiro, o Congo, estabelecer-se-ão relações cordiais entre as respetivas coroas. Observa o autor que Portugal calculou que o Brasil laborado por escravos valia substancialmente mais para o reino do que as suas explorações no Oriente. Com a Restauração, Portugal atirou-se à reconquista das duas joias gémeas do império: Brasil e Angola.

Howard French disseca ao pormenor a instalação de plantações francesas e britânicas no Novo Mundo, dá o exemplo de Barbados e também da Jamaica; descobriu-se que as exportações para África não podiam incluir lanifícios pesados, a indústria do algodão ganhou velocidade; deslocou-se o açúcar para as Américas, dá-se a explosão da prata espanhola. Atenda-se aa uma nova observação do autor: “Os mercados africanos desempenhariam um papel vital no crescimento da produção inglesa em geral. Isto incluía de tudo, desde armas a navios, e desde cordas a velas. Porém, à medida que o seu recém-criado império nas Caraíbas crescia alimentado por mão de obra africana, os ingleses descobriram novos mercados especialmente importantes para a próxima grande indústria do futuro, os têxteis, sob a forma de vestuário para escravos.”

Deram-se grandes mudanças na Europa com a chegada do açúcar do café e do chá, produtos que irão ter um valor civilizacional e até contributivo para a história das ideias, produtos que se servirão em novos estabelecimentos que oferecem sociabilidade, os cafés, produtos presentes nas reuniões tanto da corte e do salão onde se discute a política, lá longe, onde se produzem e exportam esses produtos está a mão de obra africana.

Mas voltemos a um sonho antigo, o ouro, que nunca deixou de ser um grande negócio em paragens africanas. Só que teve de estar eclipsado por outra mercadoria, o comércio transatlântico de escravos. E o autor recorda o papel desempenhado por Portugal:
“Quando o comércio de escravos começou a aumentar na primeira metade do século XVI, o seu volume inicial era maioritariamente proveniente de uma área a que os europeus chamavam Cabo Verde, uma área continental que se estende desde os matagais do Senegal e Gâmbia até À Guiné-Bissau e as florestas tropicais e pântanos da Serra Leoa. Em grande medida, esta escolha refletia conveniência por estar mais próxima das Europas e das Américas e por isso começou a integrar-se no emergente mundo atlântico. (…) À medida que outras nações europeias se lançavam no comércio de escravos africanos, o endurecimento da concorrência levou os portugueses cada vez mais longe na costa africana.”

Vamos agora ver os itinerários destes escravos até chegar ao Novo Mundo.
Professor Howard W. French

(continua)
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Notas do editor

Vd. post de 28 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28303: Notas de leitura (1955): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (3) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 31 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28309: Notas de leitura (1956): “Pai, tiveste medo? A guerra contada é muito diferente da que foi vivida”, por Catarina Gomes; Matéria Prima Edições, 2014 (2) (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28309: Notas de leitura (1956): “Pai, tiveste medo? A guerra contada é muito diferente da que foi vivida”, por Catarina Gomes; Matéria Prima Edições, 2014 (2) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 23 de Abril de 2026:

Queridos amigos,
Temos aqui recordações de filhos, Maria Júlia de Sá da Costa Deitado, filha de um fuzileiro português e de mãe guineense, o pai trouxe a menina à viva força, ela foi educada no Barreiro pela avó, o pai sempre ausente, conheceu a mãe tardiamente, mas o seu afeto profundo é pela sua avó-mãe; em casa do André Fernandes há uma cabeça de veado embalsamada que o remete para a vida feliz da sua família em Luanda, os pais casaram em julho de 1975, fugiram para Portugal, onde André nasceu em 1980, o pai combateu em Angola de 1965 a 1968, mas Angola ficou como um cenário de vida, não como um cenário de guerra; Mariama Sambú é filha de dois combatentes do PAIGC, nasceu em 1973 no mato, o pai foi piloto-aviador guineense, distinto, morreu num acidente aéreo, Mariama vive em Massamá com três filhos, quando entra em casa dá sempre com a fotografia do pai; Pedro Ventura é filho de outro piloto que desapareceu em Moçambique, terá sido atingido e caiu no Rovuma, conta-se a história das múltiplas diligências da mãe que acreditava que o marido tinha sobrevivido, Pedro tinha dois anos quando o pai desapareceu. Foi a partir do momento em que foi pai que um pai mais lhe fez falta. Este livro de Catarina Gomes é mesmo uma porta de entrada para dimensões da guerra colonial que permanecem nos corações dos filhos de ex-combatentes.

Um abraço do
Mário



Pode um filho ter memórias de uma guerra que nunca viveu? - 2

Mário Beja Santos

Multiplicam-se os casos em que a literatura da Guerra Colonial revela uma nova dimensão: são os filhos a visitar os locais onde os pais combateram, os filhos de uma relação entre ex-combatentes e mulheres de Angola, Guiné e Moçambique à procura dos pais e de uma identidade; memórias e testemunhos de mulheres e filhos, e sobretudo estes que querem entender o que o pai viveu na guerra, fazem perguntas depois de ler as cartas que eles trocaram com as suas mulheres ou namoradas, isto sem já falar em recordações de infância marcadas pela violência da guerra. Catarina Gomes é hoje um nome firmado neste tipo de investigações, o que vem conferir uma abordagem diferente àquela literatura em que a memória ou a ficção do ex-combatente estava no primeiro plano.

O livro de que estamos a falar intitula-se Pai, tiveste medo? A guerra contada é muito diferente da que foi vivida, Matéria-Prima Edições, 2014. Já aqui fizemos referência a um prisioneiro de guerra, a um fuzileiro a padecer da Síndrome da Perturbação Pós-Stress Traumático de Guerra, da curiosidade de uma criança que foi remexer numa mala do pai, dos tempos da sua comissão em África e encontrou uma imensidão de correspondência com madrinhas de guerra, uma delas, de nome Mimi, era a sua mãe.

Por portas e travessas iremos de novo até ao fuzileiro que tinha manifestações violentas com a família, ele era pai de Maria Júlia de Sá da Costa Deitado, nascida em 29 de março de 1965. A menina foi educada no Barreiro, fazia perguntas sobre a mãe, o pai respondia que era bonita, simpática e jovem e um nome que soava a português, Maria Augusta de Sá. Maria Júlia guardou esta mágoa do pai que lhe omitia o outro lado da sua ascendência, sentia-se incompleta, mesmo tendo uma vida confortável com a sua avó paterna a fazer as vezes de uma mãe. O pai voltou a casar, teve mais três filhos, mas a Júlia nunca viveu com ele, permaneceu sempre com a avó. Até que um dia, tinha ela dezassete anos, apareceu lá em casa um primo da mãe, ofereceu-se para estabelecer as pontes de ligação.

E um dia Júlia viajou para a Guiné, houve um desacerto para o encontro, Júlia não esmoreceu, passou dois anos a planear uma nova oportunidade, e deu-se a felicidade de se abraçarem, emocionadas, a mãe falando crioulo, a filha falando com o coração; “soube-lhe bem saber pela mãe que não nasceu do acaso, que o pai era bem aceite e acarinhado pela família da mãe, que a mãe tinha gostado muito do pai, soube que o pai chegou a propor à família da mãe de Júlia trazê-la a ela e à bebé para Portugal, os pais recusaram, ela fora roubada, o pai entregara-a à sua mãe, a avó quis que o pai a trouxesse para Portugal.” E houve desaparecimentos, morreu o tal primo num desastre aéreo e pouco depois a mãe. A morte da mãe acendeu em Júlia a vontade de ser mãe. Nunca aconteceu.

Temos agora outra história intitulada Cabeça de Veado, porque tudo começa com uma cabeça de veado embalsamada na parede da cozinha. André sabia que o pai conhecera aquele veado vivo. O pai vivera em Angola, levara uma vida feliz, tinha ido para lá com 13 anos, os pais casaram em julho de 1975, em Luanda, no meio do tiroteio da guerra civil. André nasceu em 1980, o pai teve uma perda crescente de audição, já reformado decidiu criar o núcleo de Sintra da Associação Portuguesa de Deficientes das Forças Armadas. Resta esclarecer que o pai teve dois anos de comissão, de 1965 a 1968, mas para André, Angola é o cenário de vida, não é cenário de guerra. Sem nunca lá ter estado, com aquelas recordações da cabeça de veado e de uma pele de onça que chegou a haver no corredor, ele um dia quer voltar a essa Angola onde o pai fora manifestamente feliz.

Nova história, envolve Mariama Sambú, a filha de um herói. Falamos de um herói do PAIGC, os pais foram combatentes, Mariama era transportada às costas enquanto bebé, tinha poucos meses quando, um lugar remoto de Boé, foi declarada unilateralmente a independência da Guiné-Bissau. O pai recebeu uma bolsa para estudar na ex-União Soviética, voltou à Guiné quando Mariama tinha 9 anos, ela foi viver com o pai na base aérea. Ela sentia que o pai, Serifo Sambú, era admirado. Viveu com ele dos 13 aos 15 anos. O pai tinha 38 anos quando morreu num acidente de viação. A sua fotografia está pendurada na casa de Mariama em Massamá, concelho de Sintra, ela é guineense e portuguesa, tem três filhos nascidos portugueses. Sente a discriminação, sempre que há discussões, há um dito insidioso “volta para a tua terra” e ela a responder “sou de cá, tenho muita pena”. Ela tem a mesma idade que a Guiné, nasceram as duas no mato, em 1973.

Passamos agora para o dossiê do Capitão Ventura. Desde pequeno que Pedro Ventura tinha acesso a um dossiê preto malhado, nele estava inserido um louvor ao seu pai, era tratado como um valoroso piloto de combate, e foi em combate que desapareceu. Há duas fotografias em que ele está com o pai, tinha dois anos de idade, foram tiradas no ano em que o pai desapareceu, 1973, o pai e a mãe estavam na base aérea de Mueda, Pedro ficou com os avós maternos. A mãe iniciou uma busca, guardava a esperança de que, mesmo tendo sido abatido o avião, o marido não perdera a vida. Naquele mesmo dossiê preto-malhado guarda-se o formoso cortejo de diligências, a mãe disparou em todas as direções. Em dado momento, o Estado português deu o caso como encerrado, houve funeral com honras, mas a mãe mantinha-se obstinada, chegavam-lhe cartas pondo a hipótese de o marido ter sido fuzilado após o 25 de abril. Uma mãe que foi de uma dedicação extrema, Pedro agradece-lhe a capacidade de lhe ter dado equilíbrio emocional, ela e os avós.

Decorreram várias décadas, o dossiê que reabriu para mostrar a Catarina Gomes estava há anos fechado numa arrecadação. Uns bons anos atrás chegaram-lhes as imagens de um casamento para o qual os pais tinham sido convidados, imagens que ele guarda no computador, o pai um mês antes de ele nascer. “Para mim é um momento histórico. É a única imagem que tenho dele em movimento.” São escassos segundos, seis, Pedro sente que é a cópia do pai. “Emociona-se? Não há emoção, porque o pai é uma personagem, é o piloto-aviador Ventura de quem a mãe andou toda a vida à procura. Tem dele a descrição das características de um herói. Nunca lhe ouviu a voz, no filme do casamento ainda não havia som. Foi a partir do momento em que foi pai que um pai mais lhe fez falta.”

Vamos continuar, ainda há mais relatos emocionantes, são histórias que constituem uma porta de entrada para diversas dimensões da história da guerra colonial que permanece na vida de outros. Até hoje.


Catarina Gomes, imagem do Público, com a devida vénia

(continua)
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Notas do editor

Vd. post de24 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28288: Notas de leitura (1954): “Pai, tiveste medo? A guerra contada é muito diferente da que foi vivida”, por Catarina Gomes; Matéria Prima Edições, 2014 (1) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 28 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28303: Notas de leitura (1955): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (3) (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28303: Notas de leitura (1955): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (3) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 9 de Julho de 2026:

Queridos amigos,
A laboriosa pesquisa feita por este investigador norte-americano introduz um olhar diferente sobre o papel do continente africano na história detalhada de seis séculos de desenvolvimento mundial. O que Howard French procura consolidar como historicamente demonstrado, mas praticamente ausente ou até mesmo minimizado, é o papel fulcral desempenhado pela mão de obra escravizada nas plantações de açúcar de São Tomé, do Brasil, de toda a agricultura de plantação das Caraíbas e dos estados sulistas do que virá a ser os EUA, pois foi esta mão de obra escravizada que serviu de alavanca para a ascensão económica da Europa, para o seu desenvolvimento político, naturalmente uma trajetória que se inicia com os países ibéricos e que chegará à Revolução Haitiana e pelo adiante à evolução do conceito de Direitos Humanos e às modificações drásticas que tinham sido impostas pelos preconceitos raciais. É um convite para que os historiadores globais revejam as abastadas civilizações da África medieval e como o comércio negreiro configurou o papel do negro na História. Por isso vale a pena continuar a ler este livro com elementar cuidado.

Um abraço
do Mário



África, os africanos e a criação do mundo moderno, de meados do século XV à Segunda Guerra Mundial - 3

Mário Beja Santos

Se tentássemos contabilizar a proveniência dos autores que escreveram relatos, fizeram investigações, orientaram ou orientam estudos académicos sobre o continente africano, o número mais expressivo iria recair certamente nos europeus, seguido dos norte-americanos. No seu livro Origem: África, o jornalista, escritor e académico Howard W. French, Bertrand Editora, 2022, releva que os relatos tradicionais têm o seu foco na era dos Descobrimentos europeus do século XV, não escondendo os reais interesses de quem e para quê impulsionava estas viagens e a instalação de feitorias e fortalezas: sonhava-se descobrir mundo, encontrar o lendário rei Preste João, ter acesso ao ouro, levar a crença cristã e sempre que necessário, combater a crença muçulmana, encontrara a ligação entre os rios Níger e o Nilo – e parece que mais nada aconteceu.

É incontestável que foi este desencravamento do mundo que abriu as portas à modernidade. E Howard W. French sublinha que África foi a pedra-chave da máquina da modernidade:
“Sem os povos africanos traficados desde as suas costas, as Américas teriam contado pouco para a ascensão do Ocidente. O trabalho africano, materializado em escravos, tornou-se o fator providencial que tornou possível o desenvolvimento das Américas. Sem África, os projetos coloniais da Europa no Novo Mundo, tal como os conhecemos, são simplesmente inimagináveis. Através do desenvolvimento da agricultura de plantação – tabaco, café, cacau, anil, arroz e, principalmente, açúcar – os laços profundos e muitas vezes brutais entre a Europa e África conduziram ao desenvolvimento de uma economia capitalista verdadeiramente global.”

Chegou o momento de o autor abordar frontalmente a essência da escravatura. Primeiro, sempre houve escravatura, há testemunhos delas em todas as civilizações. A escravatura que vai partir de África, nomeadamente do século XVI em diante é nela que assentam as raízes do racismo moderno. Mas que escravatura havia em África, antes da chegada dos portugueses e de outros povos? O autor responde:
“A escravatura nesta parte de África (como noutras regiões subsarianas do continente) eram a prática antiga, embora não tivesse quase nenhuma semelhança com o modelo de escravo-mercadoria que estava prestes a surgir nas plantações de açúcar, de mãos dadas com o florescimento do imperialismo ocidental. Para os acãs (importante grupo étnico do Gana e da Costa do Marfim), os escravos eram tradicionalmente adquiridos no decurso de disputas múltiplas, bem como durante as campanhas expansionistas contra grupos externos. Os cativos nestes conflitos eram por vezes expostos a trabalhar na agricultura, na construção de estradas, e até mesmo como soldados, mas, tal como os otomanos, em geral era dada prioridade à sua assimilação na sociedade o mais rapidamente possível.
Os acãs, que controlavam as mais ricas fontes de ouro, tinham recentemente estabelecido laços comerciais lucrativos com os impérios do Sahel ocidental, como o Mali e Songhai, utilizando-os para escoamento dos seus metais preciosos. Vendiam-nos em troca de mercadorias provenientes do Norte de África e até da Europa. O valor na proposta de contacto e a despesa ou incómodo para casa lado, portugueses e acãs, assentava tanto num volume maior como mais regular. Mas até que os cobiçados panos da Índia se tornassem disponíveis, os bens portugueses não eram considerados suficientemente desejáveis para os acãs de modo a justificar o desvio em grande escala da sua própria mão de obra indígena para a produção de ouro.”


Havia manifestamente relutância em vender os seus semelhantes étnicos ou mesmo os prisioneiros de guerra, uma das principais medidas de riqueza e poder nos reinos africanos era o número de súbitos. Ora esta relutância deixou de se verificar com a proliferação do comércio europeu, eles traziam armas e outros bens que eram preciosos para os africanos, tudo conjugado contribuiu para o surgimento de um novo mercado de escravos. Ainda em termos mitigados, os navios portugueses que exploravam o extremo oriental do delta do rio Níger encontraram em 1486 cinco canais serpenteantes que passaram a ser conhecidos por Rios Escravos. Os portugueses chegaram ao Benim e imediatamente reconheceram o grande potencial comercial de um pimento que se tornou largamente apreciado nos mercados da Flandres. Mas nada se igualava aos escravos, e os portugueses ficaram satisfeitos por descobrir uma oferta de escravos com raízes nas guerras do Benim com os povos vizinhos. A cultura do Benim impressionou os portugueses. Os beninenses queriam negociar manilhas de cobre e bronze, a arte beninense ganhou imediatamente fama.

Howard French muda agora para São Tomé, formalmente decretada como uma colónia em 1485, irá ser muito importante na produção de açúcar, também daqui partiram escravos para o Benim, e havia escravos enviados do Congo via São Tomé para o Novo Mundo. Estamos, pois, a assistir à organização de circuitos do tráfico negreiro. O autor dissecará em profundidade a importância da plantação esclavagista de São Tomé e como o complexo de plantação deu um salto de São Tomé para as Américas. Teremos depois um histórico sobre Barbados. Outra condicionante histórica relevante que o autor destaca é o nascimento do crioulo, a formação de comunidades crioulas em lugares tão diferentes como Cartagena, Havana, Cidade do México e São Salvador, nestas comunidades era frequente encontrar os escravos a falar pidgins e línguas crioulas fortemente ligadas ao português.

Mudando de assunto, o autor vai observar a competição europeia por África, os grandes conflitos que vão envolver a cobiça e os interesses das grandes potências europeias.

Dirá, a título introdutório:
“A história moderna de África como uma massa terrestre geopoliticamente disputada, cheia de parcelas de território que foram cortadas por forasteiros ávidos, começou formalmente na Alemanha em 1884, num famoso evento conhecido como Conferência de Berlim. Na altura, os europeus mal controlavam 10 por cento do continente, na sua maioria nas extremidades norte e sul. Por volta de 1914, em consequência das decisões tomadas em Berlim, monarcas e outros governantes do Velho Continente dominavam mais de 90 por cento de África. As fronteiras que estes líderes europeus estabeleceram entre si continuam a ser as fronteiras em vigor atualmente na maior parte do continente.
À medida que assumiam o controlo do continente, os europeus quase não tinham em conta a história africana, o legado dos impérios indígenas ou os Estados africanos preexistentes. Ignoraram considerações envolvendo o mosaico de línguas que prevaleciam à medida que eles definiam e depois subdividiam regiões. Prestavam pouca atenção aos padrões de identidade local de longa data, ao comércio local ou mesmo às rivalidades e animosidades étnicas. Nem os próprios africanos foram consultados.”


Vamos seguidamente ver mais pormenores sobre esta corrida a África.


Professor Howard W. French

(continua)
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Notas do editor

Vd. post de 21 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28278: Notas de leitura (1951): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (2) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 24 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28288: Notas de leitura (1954): “Pai, tiveste medo? A guerra contada é muito diferente da que foi vivida”, por Catarina Gomes; Matéria Prima Edições, 2014 (1) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P28302: Agenda cultural (902): "Geração Afro: Os Últimos Guerrilheiros do Império", de Recaredo (Angelino Santos Silva): apresentação do livro,. amanhã, sábado, 29 de agosto, em Paredes (Biblioteca Municipal), e 1 de outubro, quinta feira, no Porto (Unicepe)


Capa


Geração Afro: Os Últimos Guerrilheiros do Império - Vol I, de Recaredo (pseudónimo lietrário de Angelino Santos Silva, ed. autor, Recarei, Paredes, 2026, 455 pp.)


1. O livro vai ser apresentado amanhã, sábado, na Biblioteca Municipal de Paredes, pelas 17h00. E dia 1 de outubro,  quinta feira, na UNICEPE - Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, pelas 18h00.



(ii) foi mobilizada pelo CIOE, Lamego, tendo como cmdt o Cap Inf Cmd Alberto Freire de Matos;

(iii)  embarcou em 25mar70, chegou a Bissau em 31mar70 e regressou a 27dez71;

(iv)  é até agora o primeiro e único representante da 26ª CCmds na Tabanca Grande;

(v) é natural de Recarei, Paredes, distrito do Porto




Resumo das Experiências dos Combatentes Portugueses e Africanos 


1. O Início: Patriotismo, Desencanto e Realidade. 

  • Expectativa vs. Choque: 
Os jovens portugueses embarcavam para África "imbuídos de um mesmo amor à Pátria, considerando as suas comissões uma causa justa". No entanto, logo no início da viagem, o desconforto, as más condições nos navios e o choque com a realidade africana geravam desencanto e frustração.
  •  A Chegada:
 Ao chegarem, deparavam-se com combatentes africanos armados ao serviço de Portugal, o que causava estranheza e, ao mesmo tempo, aliviava o desconforto inicial. 

2. A Vida no Terreno: Dificuldades, Medos e Camaradagem 

  • Condições Extremas: 

O quotidiano era marcado por calor, humidade, doenças como o paludismo, chuvas torrenciais, emboscadas, minas e noites mal dormidas na selva. 

  •  União: 

A camaradagem entre soldados era fundamental para suportar o medo, a saudade e o desgaste físico e psicológico. O humor, as pequenas festas e as conversas ajudavam a aliviar a tensão constante. 

  • Perspetiva Africana: 

Os combatentes africanos, como os do Grupo Especial de Combate (GEC), partilhavam o risco e o sacrifício, mas tinham motivações e preocupações distintas, muitas vezes relacionadas com o futuro das suas famílias e a incerteza do pós-guerra. 

3. Contradições e Dilemas 

  • Laços Partidos: 

Muitos africanos lutavam ao lado dos portugueses, enquanto familiares seus combatiam no PAIGC (movimento de libertação). Isso criava situações de "irmãos contra irmãos", ilustrando a complexidade das lealdades e dos laços familiares.

  • Sentido da Guerra: 

Os portugueses, por sua vez, questionavam o sentido do sacrifício, especialmente ao perceberem que a guerra era "uma causa perdida" e que o império colonial estava no fim. 

4. O Impacto Psicológico e Social


  •  O Regresso: 

O regresso à Metrópole era frequentemente marcado por traumas psicológicos, ausência de apoio psiquiátrico e falta de reconhecimento social. Muitos ex-combatentes sentiam-se ignorados e desamparados.

  •  Angústia do Futuro: 

Entre os africanos, o medo de represálias após a independência e a incerteza quanto ao futuro das suas famílias eram fontes de grande angústia.


 5. O Quotidiano e a Sobrevivência

  •  Operações de Risco: 

As operações militares eram descritas como extenuantes e perigosas, com relatos de emboscadas, minas, flagelações e ataques noturnos. 

  • Adaptação: 

A sobrevivência dependia tanto da preparação militar quanto da adaptação ao ambiente hostil e do apoio dos guias e combatentes africanos, conhecedores do terreno. 

6. Humanidade, Humor e Resistência

  •  Momentos de Trégua:

 Apesar da dureza da guerra, havia espaço para a amizade, o humor e até para momentos de festa e confraternização, com refeições de churrasco, uma ementa desconhecida na Metrópole.

  •  Troca Cultural: 

O contacto com a cultura local, a aprendizagem de palavras em crioulo e a partilha de refeições aproximavam portugueses e africanos, criando laços que iam além da guerra. 

7. O Fim da Guerra e o Legado

  • Sentimentos Mistos: 

O fim do conflito trouxe alívio, mas também frustração e uma sensação de missão inacabada.
  •  Marcas Eternas: 

Muitos combatentes, portugueses e africanos, carregaram para sempre as marcas físicas e psicológicas da guerra, sentindo-se "diferentes" e, por vezes, incompreendidos pela sociedade.

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 Exemplo de Testemunho Resumido:

"Já lá fomos e voltamos. Percorremos o lado negro da vida, tropeçamos na face má da sorte e andamos por trilhos e picadas da morte. [...] Já lá sorrimos e penamos. E abrimos a caixa de Pandora e antes de virmos embora enfrentamos medos e emboscadas, carregamos sonhos e granadas, corremos perigo e aflição, bebemos água da bolanha, comemos colados ao chão, adormecemos de arma na mão, socorremos camaradas feridos, beijamos rostos estendidos, cerramos os punhos cantando, festejamos a vida chorando, deixamos os sonhos esquecidos."
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Conclusão:

 As experiências dos combatentes portugueses e africanos na Guerra Colonial foram marcadas por sofrimento, coragem, dilemas morais e laços de solidariedade. 

O livro retrata com realismo e sensibilidade a complexidade humana da guerra, dando voz a todos os que nela participaram, independentemente do lado em que lutaram. 

"Do embarque ao regresso a casa, o leitor com poucos conhecimentos sobre a Guerra Colonial Portuguesa em África terá o privilégio de acompanhar, em tempo real, o dia a dia dos combatentes: desde as deficientes condições de viagem até à estranha surpresa ao desembarcar, quando vê, no cais, soldados africanos a combater ao lado da bandeira portuguesa. Já no 'mato', vai acompanhar os passos de quem faz 'mexer' a guerra, testemunhando os dias de sorriso e tristeza, os dias de aflição e lazer, e os 'acasos' do azar e da sorte que separam a vida da morte. Por fim, vai sentir no corpo e na 'mente' as mazelas que trouxemos de África e a injustiça do tratamento inadequado votado aos combatentes da parte dos governos, desde o regime do Estado Novo ao regime nascido com o 25 de Abril — algo que permanece até hoje. Para memória futura, este romance ficará gravado nas páginas graníticas da História da Guerra Colonial." 

Principais locais onde se desenrola o romance: 

• Bissau, Brá, Bula, Binar, Bissorá, Olossato, Mansoa, Mansabá, K3. 
• São Vicente, Pelundo, Teixeira Pinto, Bachile, Cacheu.
 • Catió, Cabedu, Guileje, Gadamael Porto, Kandiafara (Guiné-Conacri), Cumuré e Hospital Militar de Bissau. 

(Sinopse: Autor + IA)
(Revisão / ficação de texto: LG)

 Contactos:

 Angelino dos Santos Silva (RECAREDO) Combatente na Guiné-Bissau – 1970-71 

• E-mail: recaredo241148@gmail.com 
• Telemóvel: 926 365 774

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 27 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28300: Agenda cultural (901): O Angelino dos Santos Silva ("Recaredo") vai estar, sábado, dia 29, às 17h00, na Biblioteca Municipal de Paredes, para falar do seu livro "Geração Afro: Os Últimos Guerrilheiros do Império"

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28288: Notas de leitura (1954): “Pai, tiveste medo? A guerra contada é muito diferente da que foi vivida”, por Catarina Gomes; Matéria Prima Edições, 2014 (1) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 20 de Abril de 2026:

Queridos amigos,
A literatura da guerra começa a ter uma dívida com Catarina Gomes que tem vindo a abrir portas e a dar mais longitude e latitude a este subgénero literário; é uma vertente do pós-colonial que mergulha num passado diluído, com claros-escuros, porque o essencial da história, até há pouco tempo, era constituído por relatos na primeira pessoa do singular, o tal ex-combatente e o poder da sua memória, e também a historiografia onde os filhos pouco ou nada contaram, até porque o tal poder da memória era de alguém maioritariamente solteiro ou com filhos muito pequenos. Importa reconhecer que é muitíssimo bom ver esses filhos que querem desvendar por onde andaram os pais - enfim, exaltemos este dever de memória que ganha continuidade nas gerações mais novas.

Um abraço do
Mário



Pode um filho ter memórias de uma guerra que nunca viveu? - 1

Mário Beja Santos

Multiplicam-se os casos em que a literatura da Guerra Colonial revela uma nova dimensão: são os filhos a visitar os locais onde os pais combateram, os filhos de uma relação entre ex-combatentes e mulheres de Angola, Guiné e Moçambique à procura dos pais e de uma identidade; memórias e testemunhos de mulheres e filhos, e sobretudo estes que querem entender o que o pai viveu na guerra, fazem perguntas depois de ler as cartas que eles trocaram com as suas mulheres ou namoradas, isto sem já falar em recordações de infância marcadas pela violência da guerra. Catarina Gomes é hoje um nome firmado neste tipo de investigações, o que vem conferir uma abordagem diferente àquela literatura em que a memória ou a ficção do ex-combatente estava no primeiro plano.

“Pai, tiveste medo? A guerra contada é muito diferente da que foi vivida”, por Catarina Gomes, Matéria Prima Edições, 2014, comporta quadros desta nova visão, como a autora se procura explicar na introdução:
“Cada uma das histórias privadas deste livro é uma porta de entrada para diversas dimensões da história da guerra colonial: a realidade dos prisioneiros de guerra, das enfermeiras paraquedistas, dos desaparecidos em combate, das vítimas de stress de guerra, dos africanos que lutaram pelos portugueses, de ex-combatentes que também foram retornados. Sem se conhecerem entre si, algumas das histórias destes pais entrecruzam-se, embora isso não tenha sido procurado: a Operação Mar Verde atravessou a vida de dois pais, um fuzileiro, outro que era prisioneiro e foi libertado; Alexandra Penteado e Júlia de Sá da Costa são irmãs; o pai de Joana Bastos relembra uma enfermeira paraquedista que o socorreu; a mãe de Miguel Sousa foi uma dessas 46 mulheres. Mariama Sambu fica aqui como o símbolo de milhares de histórias que podiam ser contadas do outro lado de um conflito que foi batizado com outros nomes, como Guerra de Libertação Nacional ou Guerra da Independência.”

A narrativa abre com um prisioneiro de guerra. Teresa Capítulo sabia que o seu pai saíra para a guerra antes de ela ter nascido, fora dado como morto. No entanto, chegaram algumas vezes cartas, o pai dizia que estava preso, quando um dia regressar à sua terra, Sesimbra, terá um acolhimento eufórico, foi libertado durante a Operação Mar Verde. Teresa folheia o álbum deste soldado radiotelefonista que teve o cuidado de dizer no interrogatório do PAIGC que era maqueiro. Um pai sempre discreto a falar de acontecimentos violentos, comparece regularmente ao almoço dos prisioneiros de guerra. A memória de Teresa vai ao fundo da sua infância, sempre que ela ou o irmão diziam que não queriam comer ou que não gostavam da comida que tinham à frente, lá vinha a história dos três anos que o pai teve que passar a comer arroz. Ainda hoje em Sesimbra Teresa continua a ser conhecida pelos mais velhos como “a filha daquele rapaz que esteve lá fora, a filha daquele que esteve preso” e ela diz no fecho da história: “Seria uma pessoa diferente se não fosse Teresa Capítulo, filha de um prisioneiro de guerra.”

O relato de Alexandra Penteado é a de um pai violento e de uma vida familiar calamitosa. Sempre fez perguntas porque é que o pai batia tão violentamente na mãe e apavorava os filhos, embora Alexandra saiba que tinha um papel apaziguador quando o pai desvairava, chegava a ir de calções para a rua a gritar “vou matar os pretos”. Nas noites em que se enfurecia gritava “saiam, senão mato-vos a todos”, fúrias que geraram uma rotina na família: ninguém se despia a não ser no exato momento de ir para a cama. Isto passou-se no Barreiro velho. A família foi desenvolvendo uma espécie de sensor para medir os inícios da ira do pai, aprenderam a prever os momentos em que os surtos acabavam. O pai chegava a partir tudo em casa, buscava-se a normalidade indo comprar a loiça partida que era preciso repor. Em jeito de desabafo, Alexandra disse que o seu pós-guerra durou até aos 18, 20 anos, não resta quase nada da origem lá em casa, tudo foi sendo partido e substituído.

Descobriram depois que o pai sofria de Perturbação Pós-Stress Traumático de Guerra, mas o pai recusou ir a um psicólogo ou psiquiatra, dizia que não estava maluco, isto embora tivesse estado internado na ala de psiquiatria do Hospital da Marinha. Aos poucos, ela foi procurando saber o que acontecera ao pai durante a guerra. Por exemplo, num desses almoços de ex-combatentes, ouviu que o pai tinha matado uma mulher com um punhal. “Depois da sua morte foi encontrar a condecoração largada dentro de um saco de plástico atado com um nó, depositada numa menosprezada terrina com a tampa de duas flores amarelas e ramagens verde seco que andava lá por casa dos pais. Tem-se esforçado por perceber porque arrancou da caderneta um símbolo desses supostos atos de bravura e pensa que poderá estar relacionado com alguns dos seus fantasmas mais assustadores.”

Guarda as memórias do pai violento num diário de adolescência. O pai morreu de cancro do pulmão aos 59 anos, cinco anos antes da morte estava mais calmo. Guardou fotografias de guerra do pai, que era fuzileiro, para sua surpresa, no funeral o cemitério estava cheio. No dia em que acordava a meio da noite com o pai a gritar “saiam, senão eu mato-vos”, Alexandra vê agora a tentativa de proteger a família de si mesmo.

Temos agora a história de Marisa, muito curiosa com a mala de tropa do pai. Em momentos excecionais, o pai mostrava a homens, ex-camaradas de guerra, ou então aos tios, mais novos do que o pai, o conteúdo. O pai foi deixando que Marisa lesse livrinhos de aventuras que estavam guardados na mala. Num dia em que os pais estavam ausentes, Marisa abriu a mala e encontrou cartas, e descobriu uma coisa única: o pai na guerra tinha uma quantidade enorme de madrinhas de guerra, havia um inicio de contacto que tinha sempre um padrão: “Ao ler o meu nome verifica que lhe sou totalmente desconhecido, dirijo-me a si com sinceridade e com um fim que lhe é fácil realizar caso queira dar-me aquilo que até agora não obtive, o que lhe peço é correspondência como madrinha de guerra.” Apresenta-se a todas dizendo que tem 22 anos, 1,72m de altura, olhos castanhos, cabelo um pouco loiro e era natural do concelho Porto de Mós, não tencionava ficar muito tempo solteiro porque o pai tinha casa de comércio. “Marisa vivia fascinada com a forma como se podem conhecer tantas raparigas ao mesmo tempo não saindo do mesmo sítio e vivendo num local onde quase só se convive com homens.”

É uma correspondência assombrosa, começa sempre por tratar as meninas por você, depois passa a tratá-las por tu e a dizer amor. Em adulta, Marisa fizera uma grande surpresa ao pai, escreveu um livro para encaixar aqueles objetos, fotos e memórias ordenadas, o pai acedeu, entrou no jogo da verdade, fez-se a cronologia da sua comissão em Mocímboa da Praia, dedicou o seu relato às 21 madrinhas de guerra. Acontece que uma dessas madrinhas de guerra, de nome Mimi é a mãe de Marisa. Umas duas a três vezes por ano, o pai volta à mala, esta é um lembrete do que ele foi capaz de fazer e de até onde foi capaz de ir. Marisa sempre sonhou voltar àquele local onde o pai escreveu tantas cartas às madrinhas, ali no jardim previsto da paixão entre Fernando e Mimi Vieira Reis, Vila Nova de Ourém.

Por ironia do destino, vamos ouvir falar de novo do pai de Teresa Capítulo e da menina que ele deixou na Guiné, e há muitas outras histórias para contar. Que belo livro de narrativas que Catarina Gomes nos ofereceu.


Catarina Gomes, imagem do Público, com a devida vénia

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 23 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28284: Notas de leitura (1953): "Geração Afro: Os Últimos Guerrilheiros do Império" , de Recaredo (volume I, 2026, 455 pp); análise feita pela AILA (A IA da Editora Clube de Autores)

domingo, 23 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28284: Notas de leitura (1953): "Geração Afro: Os Últimos Guerrilheiros do Império" , de Recaredo (volume I, 2026, 455 pp); análise feita pela AILA (A IA da Editora Clube de Autores)


Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto e imagens: Angelino dos Santos Silva (2026)
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.



1. Texto que nos foi enviado pelo nosso camarada Angelino Santos Silva (pseudónimo literário, Recaredo: ele é natural de Recarei, Paredes, distro do Porto; foi fur mil 'cmd', 26ª Cmds, CTIG, 1970/71)


Data - 29/7/2026, 18:44
Assunto - Análise crítcia

Boa tarde,  amigo e camarada Luís Graça.

Em anexo segue o parecer da Editora Clube do Autor.

Seleccionei alguma partes, mas claro, cada leitor fará a sua selecção de acordo com a sua sensibilidade. Esta, acho que vai de encontro à mensagem que pretendo passar nesta obra.

Um abraço.
Angelino





2. Análise crítica

“Geração Agro: Os Últimos Guerrilheiros do Império”
 (Volume I), da autoria dia Recaredo



(i) Estrutura e organização

A obra apresenta uma estrutura de romance histórico, organizada em 68 capítulos numerados, precedidos por uma introdução autoral, registos históricos e um posfácio dedicado aos pais do autor. 

A arquitectura narrativa é multiperspectiva, alternando entre dois núcleos principais de personagens: o par Martins da Costa / Morais Cardoso (chegados à Guiné em 1966) e o par António / Augusto (chegados em 1970), permitindo cobrir diferentes momentos da Guerra Colonial e diferentes especialidades militares (Cavalaria / Panhard e Comandos).

A organização temporal é maioritariamente linear, embora recorra frequentemente a analepses. sobretudo nas evocações da infância dos protagonistas e nos episódios da instrução em Lamego (Comandos) ou Estremoz (Cavalria) . 

O autor intercala capítulos em forma epistolar (as cartas de Martins da Costa à namorada) com diálogos extensos e passagens ensaísticas sobre a História de Portugal, criando um mosaico onde ficção, memória documental e reflexão política coabitam.

Contudo, a arquitectura ressente-se de alguma irregularidade rítmica: certos capítulos concentram acção militar intensa, enquanto outros se dilatam em digressões historiográficas (o Condado Portucalense, D. Dinis, a Encruzilhada) que, embora ricas, quebram o fluxo dramático. 

O anúncio de que a obra continuará num Livro II justifica alguns nós narrativos deixados em aberto, mas fragiliza a autonomia deste volume.


(ii) Temas e mensagens principais


O tema central é a Guerra Colonial Portuguesa na Guiné (1961-1974/75) e a homenagem ao milhão decombatentes da chamada "Geração Afro". 


Todavia, a obra transcende a mera crónica bélica para se constituir como uma *meditação sobre o fim de um império*  e sobre a complexidade étnica e política de um território onde "todos são família" — irmãos, meios-irmãos e primos combatendo em bandeiras opostas.

Emergem temas secundários de grande densidade
  • a pobreza estrutural do povo português apesar dos Descobrimentos;
  • a crítica ao Estado Novo e à PIDE/DGS; 
  • a admiração pela figura de Spínola e pela sua visão política; 
  • a solidão dos combatentes africanos ao lado da bandeira portuguesa;
  • o drama dos mutilados e "apanhados pelo clima"; 
  • a emigração clandestina; 
  • e a denúncia da desproporção entre o custo material da guerra e o valor da vida humana (o episódio da Panhard de 1500 contos) (mais de meio milhão de euros, a preços de hoje).

A mensagem última é de desencanto patriótico e reconciliação memorialista: os jovens que embarcaram convictos regressam céticos, mas o autor recusa o rancor, defendendo antes que "as páginas sobre a História da Guerra Colonial jamais se podem fechar enquanto houver um único combatente enterrado no meio de nada". 

É uma obra de testemunho e reparação simbólica.

(iii) Linguagem e estilo narrativo


O estilo é marcadamente oral e testemunhal, privilegiando o diálogo directo como motor narrativo.

Recaredo (assumidamente combatente na Guiné em 1970/71(  opta por uma linguagem pré-Acordo
Ortográfico de 1990, escolha que reforça a ancoragem temporal e a autenticidade documental. 

A prosa mistura registos: 
  • o coloquialismo cru dos soldados ("que se foda a guerra", "filhos da puta"); 
  • o lirismo pontual nas cartas de Martins da Costa; 
  • e a dicção ensaística nas digressões históricas.

Merece destaque a incorporação de :
  • crioulo da Guiné-Bissau;
  • expressões militares de época ("bazuca" para cerveja, "bajuda", "periquito", "velhinho", "peluda");
  • topónimos ancestrais;
  • e vocabulário etnográfico (embondeiro, bagabaga, bianda, mancarra, gindungo), que confere textura antropológica notável.
 As passagens epistolares tocam por vezes um registo poético comovente, sobretudo no poema "A Brisa da Incerteza" e na descrição da noite estrelada da selva.

Do lado menos conseguido, observa-se inconsistência revisora: gralhas ("conductor" por "condutor", "biber" por "viver" — este último talvez intencional para marcar o falar popular), oscilações de pontuação nos diálogos e alguma repetição de fórmulas ("cada um tem o seu pedaço"). 

O estilo é, no cômputo, funcional e emotivamente eficaz, mesmo quando tecnicamente rugoso.

(iv) Profundidade filosófica

A profundidade filosófica da obra manifesta-se 
em três eixos principais;
  • o primeiro é uma refiexão sobre a ética na guerra, articulada sobretudo pelo capitão Ombendi e pelo tenente Quínara: a rejeição do heroísmo gratuito, a distinção entre matar por necessidade e matar por vingança, e a substituição do binómio "certo/errado" pelo binómio "o que devemos ou não fazer"; esta é uma proposta ética situacionista de considerável maturidade;
  • o segundo eixo é uma filosofia da História desenvolvida através da figura do Dr. Fanon Mané, que percorre da Borgonha ao Condado Portucalense, de D. Dinis à "Encruzilhada" que separou governantes e governados; a tese — de que a pobreza estrutural portuguesa nasce da ausência de um projecto de instrução popular durante seiscentos anos — é discutível historiograficamente, mas oferece um enquadramento crítico substantivo;
  • o terceiro eixo é uma meditação sobre o acaso, a sorte e o destino, condensada no poema "Sorte" e no episódio autobiográfico do rebentamento da mina; o  autor recusa o determinismo fatalista, propondo uma visão em que a sorte "tem mãos" e a memória vence a morte. 
Há também uma reflexão poderosa sobre a impossibilidade histórica de ganhar a guerra, expressa na metáfora da selva como santuário renovável — uma ideia que dialoga com Camões e com os manuais de contra-insurgência.

(iv) Impacto emocional

O impacto emocional é intenso e cumulativo, construído menos pelo espectáculo bélico do que pela acumulação de pequenos gestos humanos. 

Cenas como:
  •  a do capelão Mário Gonçalves consolando Morais Cardoso pela morte do irmão sob um céu de estrelas em São Vicente;
  • a partilha do arroz manjaco na tabanca de Nassim Mané II;
  • ou o telegrama que devolve a paz a Martins da Costa a bordo do Alfredo da Silva, 
atingem uma comoção genuína.

Particularmente pungente é:
  •  a evocação das mães portuguesas ("ǫue Nossa Senhora da Boa Viagem vos~leve e traga vivos e sãos"):
  •  a figura do Toninho paraplégico da infância de Augusto;
  •  e a história do soldado emigrante repatriado que se lança ao mar antes de chegar a Bissau. 
O leitor sente o peso da injustiça social sobreposta à injustiça da guerra.

O epílogo autobiográfico, dedicado aos pais do autor, com o relato do rebentamento da mina e do zumbido que perdura há 55 anos, transforma toda a leitura anterior numa experiência de testemunho vivo. 

Esse gesto final — "até que eu adormeça para sempre" — é de rara comoção. A obra provoca no leitor um misto de indignação política, ternura pelos combatentes e melancolia histórica que perdura muito para além da última página.

(v) Originalidade e inovação

A grande originalidade de "Geração Afro" reside na valorização das personagens africanas que

combateram sob bandeira portuguesa — Mamadu Fodé, Domingos Djaló, Abna Besna, o capitão Ombendi Sábado, os tenentes João Quínara e Carlos Nhalon, e o fascinante Dr. Fanon Mané. 

Em vez de os tratar como figurantes, o autor confere-lhes densidade psicológica, projecto político próprio e uma voz articulada que problematiza a dicotomia tradicional colonizador/colonizado. Esta é uma contribuição inovadora dentro da literatura portuguesa sobre a Guerra Colonial.

Igualmente inovadora é a denúncia de uma "outra guerra" paralela — aquela que opunha Spínola, a PIDE e a cúpula do PAIGC em interesses divergentes — sugerindo que o "Massacre do Chão Manjaco" (a morte dos negociadores) foi um acto interno de sabotagem das negociações, tese heterodoxa que a obra sustenta pela boca das personagens africanas.

A mistura de géneros — romance polifónico, epistolário, memória autobiográfica, ensaio historiográfico, poesia — é ambiciosa. O uso do restaurante fadista de Theodoro Afonso Isaque, cantor negro rejeitado em Lisboa que canta fado em crioulo, é uma invenção poética memorável.

Menos original é a estrutura narrativa em pares de camaradas, tributária de uma tradição já estabelecida na literatura sobre a Guerra Colonial (Lobo Antunes, João de Melo, Álamo Oliveira).

(vi) Público-alvo ideal

O público-alvo natural da obra é constituído pelos antigos combatentes da Guerra Colonial e seus familiares — os cerca de 400 mil ex-combatentes ainda vivos e as suas famílias, para quem o livro funciona como espelho memorialista e reparação simbólica. 

Estes leitores encontrarão eco em cada topónimo, cada ração de combate, cada canção de Coimbra cantada no bar do quartel.

Um segundo público relevante são os estudiosos e interessados na História Contemporânea de Portugal, particularmente na fase final do Estado Novo, na descolonização e nas relações luso-africanas.

Historiadores amadores, jornalistas, professores de História e investigadores universitários encontrarão material documental valioso, sobretudo pela perspectiva pouco frequente dos combatentes africanos que lutaram do lado português.

Um terceiro público são os leitores lusófonos da Guiné-Bissau, Cabo Verde e diáspora africana, para uem a valorização das etnias manjaca, papel, balanta e mandinga, e o retrato de Bissau, Bula, Teixeira Pinto e Mansoa constituem património afectivo partilhado.

Recomenda-se para leitores maduros (a partir dos 40 anos, idealmente), pela densidade histórica e pela linguagem por vezes crua. Não é uma obra vocacionada para jovens leitores nem para quem procure ficção de entretenimento rápido: exige paciência, contexto histórico mínimo e disponibilidade emocional.

(vii)  Livros irmãos


Dentro do próprio catálogo do autor, o livro dialoga directamente com "Geração de 70 – Época das Chuvas"  (imnagem da capa, à direita) e "O Subinspector", ambos romances de Recaredo sobre a Guerra Colonial, formando com "Geração Afro" uma trilogia informal de testemunho.

Na literatura portuguesa sobre a Guerra Colonial, "Geração Afro" inscreve-se numa tradição rica que inclui: 
  • António Lobo Antunes ("Os Cus de Judas", "Fado Alexandrino") — com o qual partilha o desencanto patriótico, ainda que Recaredo opte por uma prosa muito menos experimental; 
  • João de Melo ("Autópsia de um Mar de Ruínas") — com quem comunga a dimensão coral; 
  • Álamo Oliveira ("Já não gosto de chocolates");
  •  Manuel Alegre ("Jornada de África"); 
  • e Lídia Jorge ("A Costa dos Murmúrios") — embora esta última numa chave feminina e moçambicana.

Pela valorização das personagens africanas e pela reflexão sobre a complexidade étnica da Guiné, o livro aproxima-se também de obras dos escritores guineenses Abdulai Silá ("Eterna Paixão") e Filinto de Barros ("Kikia Matcho"), bem como do angolano Pepetela ("Mayombe"), com o qual partilha a atenção à guerrilha no interior da selva.

Do ponto de vista memorialístico, remete para "Guiné 1963/1974" do general Spínola e para os testemunhos reunidos em "A Guerra" de Manuel Amaro Bernardo.

(viii) Faixa de preço

Trata-se de um romance histórico de nicho, com forte apelo ao mercado lusófono ex-combatente e à diáspora, mas com alcance internacional limitado pela especificidade temática e pela ausência (por enquanto) de tradução. 

O volume é substancial (Livro I de uma série), o que justifica um preço médio-alto no mercado português e brasileiro, e um preço mais elevado nos mercados europeus não-lusófonos, onde funcionará sobretudo como importação especializada.

Faixa de Preço Recomendada
  • Estados Unidos USD 22 - 32
  • Reino Unido GBP 18 - 26
  • Alemanha EUR 20 - 28
  • Itália EUR 19 - 27
  • Espanha EUR 18 - 25
  • Portugal EUR 18 - 24
  • França EUR 20 - 28
  • Brasil BRL 65 - 95
  • Austrália AUD 32 - 45

(ix) Recomendações de divulgação

A estratégia de divulgação deve articular-se em torno de três eixos principais:

Em primeiro lugar, uma campanha dirigida às associações de ex-combatentes (Liga dos Combatentes, ADFA - Associação dos Deficientes das Forças Armadas, APVG - Associação Portuguesa dos Veteranos de Guerra), com sessões de apresentação em núcleos locais, feiras de veteranos e comemorações do 25 de Abril e do Dia do Combatente (9 de Abril); estas sessões devem incluir leituras dramatizadas de excertos e testemunhos vivos.

Em segundo lugar, uma abordagem académica e mediática: envio de exemplares a centros de investigação em História Contemporânea (IHC-UNL, CEIS20-Coimbra, CH-ULisboa), programas culturais da RTP2, Antena 2 e revistas especializadas ("História", "National Geographic Portugal"); a entrevista imaginada com João Paulo Diniz no PIFAS (referida na própria obra) sugere um filão de comunicação retro-radiofónica interessante.

Em terceiro lugar, uma projecção lusófona sistemática: contactos com livrarias e feiras do livro em Bissau, Praia, Luanda, Maputo, Rio de Janeiro e São Paulo, além das comunidades emigrantes em Paris, Toronto, Newark e Joanesburgo; as redes sociais dedicadas à Guerra Colonial no Facebook (grupos como "Combatentes da Guiné") são vias de divulgação de custo reduzido e alto impacto.

Sugere-se ainda a produção de um documentário complementar com o autor a percorrer os locais reais do romance, o que multiplicaria o interesse comercial e memorialístico.

(Revisão / fixação de texto, negritos: LG)


3. Aviso  ao leitor: 

Certamente por lapso, o nosso grão.tabanqueiro Angelino Santos Silva (escritor, já com vários livros publicados) não mencionou o facto desta análise literária acima publicada (com revisão e fixação de texto feita por um dos editores do blogue)  ter sido  produzida por uma ferramenta de  IA (AILA, a IA do Clube de Autores, que é uma plataforma de autopublicação). 

O Clube de Autores (não confundir com a puquena editora independente Clube do Autor) oferece um serviço de análise literária por IA por 19 euros (por cada manuscrito de 150/200 páginas), com entrega do relatório no prazo de 24 horas, o que é muito mais rápido e barato do que a média de mercado (c. 236 euros  e entrega entre 6 a 10 semanas, segundo a publicidade que o Clube de Autores faz). 

Isso é um ponto forte para autores que entram agora nas lides literárias, querem publicar o seu primeiro livro ou ter um primeiro "feedback"  do seu trabalho e não têm recursos financeiros para  investir em análises humanas detalhadas. 

Portanto, este é um ponto positivo do recurso à AILA (a IA do Clube de Autores), que, além disso, faz uma abordagem relativamente abrangente,  focando  14 dimensões do manuscrito:

(...) 1. Estrutura e organização: fluidez e lógica da sua narrativa | 2. Livros irmãos: sugestão de livros semelhantes para referência de mercado. | 3.  Temas e mensagens principais: claridade das ideias centrais do livro. | 4. Faixa de preço recomendado: indicação de valor para otimizar as vendas (no mercado interno e externo). |5.  Linguagem e estilo narrativo: avaliação da "voz" do autor e do ritmo da leitura. | 6. Recomendações de divulgação:  dicas práticas para promover o livro. | 7. Profundidade filosófica: a dimensão das reflexões presentes no livro. | 8. Pontos fortes: o que há de melhor e mais impactante em escrita do autor | 9. Impacto emocional: capacidade da história de envolver e comover o leitor. | 10. Oportunidades de melhoria: sugestões para aprimorar a qualidade do livro. | 11. Originalidade e inovação: "o quão único" é  o livro no cenário literário português. | 12.  Parecer final: uma conclusão clara sobre o potencial do  livro; pontuação (de 1 a 5) da  IA sobre o manuscrito. | 13. Público-alvo ideal: quem são os leitores perfeitos para o livro. | 14. A AILA sugere  ainda a produção de um documentário complementar com o autor a percorrer o cenário ou os lugares da ação. (...)

Mas as limitações da análise literária da AILA (ou outras ferramentas de IA) são óbvias: 

  • falta de sensibilidade humana, incapacidade para entender, em profundidade,   o contexto cultural, histórico ou emocional  da ação e dos personagens; 
  • falta de criatividade e subjetividade, análise superficial, baseada em fórmulas pré-definidas, sem profundidade crítica;  
  • não-personalização (a AILA não dialoga com o autor, não tem empatia, etc.)... 
Mas por 10 cêntimos a página, não se pode pedir muito mais ao "crítico literário" dos pobrezinhos...

Em resumo, o Clube de Autores é uma plataforma de autopublicação, oferecendo um serviço de análise "baratucho" , e que serve como "engodo" para atrair clientes para os outros serviços (edição, impressão, tradução, divulgação, etc.).  

E não é preciso, mas convem dizê-lo: a AILA ainda não chega aos calcanhares do nosso crítico literário, o Mário Beja Santos.

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 22 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28280: Notas de leitura (1952): "Geração Afro: Os Últimos Guerrilheiros do Império" (volume I, 2026, 455 pp sinopse feita pelo autor, Recaredo (pseudónimo literário de Angelino Santos Silva, ex-fur mil 'cmd', 26ª Cmds, CTIG, 1970/71)