segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

uiné 61/74 - P19426: A Galeria dos Meus Heróis (18): A Nucha ou a difícil arte do envelhecimento (Parte I) (Luís Graça)


Luís Graça, Contuboel, CCAÇ 2590 / CCAÇ 12, 
julho de 1969
A Galeria dos Meus Heróis > A Nucha ou a difícil arte do envelheci-
mento - Parte I


por Luís Graça



1. A Nucha ainda estava muito combalida quando eu, na semana seguinte, lhe telefonei. Por mero acaso, numa daquelas minhas saudáveis rotinas de fazer a ronda, “on line”, dos amigos que estão longe. Uma ou duas vezes por ano, lembro-me de pegar no telefone para o fazer o teste da “prova de vida e da amizade”.


Em geral, tenho boas notícias. A malta ainda vai estando bem de saúde e recomenda-se. Mas neste caso foi o contrário. A Nucha estava viva, graças a Deus, mas tinha tido um “acidente de percurso” (sic), nesse princípio de verão de 2016.

− Num ataque de ciúme patológico, o meu ex tentou estrangular-me!

− O quê, estrangular-te ? Quem, o teu ex ?

− Desculpa, nunca te cheguei a falar dele, nestes anos todos!



2.Pedi-lhe para desligar e voltei a contactá-la por videochamada. Senti que ela precisava de desabafar e nada como ter um velho amigo, a 300 km de distância, longe mas sempre ao alcance de um clique.

Enfim, pelas imagens, deu para perceber a gravidade da agressão de que fora vítima… Trazia ainda um colar cervical. Segundo as suas queixas, sofrera diversas contusões no pescoço, mas também na cabeça e no peito. Felizmente não havia vértebras cervicais partidas.

Logo que pude, em meados de julho, arranjei um pretexto para ir visitá-la. Tinha uma viagem no Alfa, paga. Até Braga, por razões profissionais. Aproveitei par ir na véspera e ficar no Porto nesse fim de semana.


3. Não deu, desta vez, para estar com a simpática malta da Tertúlia dos Caminheiros do Parque da Cidade (*), que se junta às 5ªs feiras. Havida entrado neste grupo, justamente através da Nucha e do seu projeto de promoção do envelhecimento ativo e saudável.

A Nucha é uma das “mães-fundadoras” do grupo e um elemento-chave. ”É certinha, não falha, comparece sempre, quer faça sol quer faça chuva”, dizem-me. Naturalmente, nas semanas seguintes à agressão, não teve condições para lá voltar. Sobretudo, anímicas. Creio que regressou à tertúlia em outubro de 2016, até porque entretanto meteram-se as “férias de verão”.

“Deixou-se ir abaixo com esta história toda. Creio que anda deprimida”, confidenciou-me uma das pessoas do grupo que lhe estava mais próximas, a “Poetisa”. Mas, não faltaram logo, à boa maneira nortenha, as manifestações de afeto e de solidariedade, por parte dos caminheiros, até porque o “caso” se tornara público, contra a sua vontade.

− A nossa Nucha foi vítima de violência doméstica – anunciou o “Mister”, logo na 5ª feira seguinte aos “acontecimentos”. O “Mister”, professor de educação física reformado, exerce as funções de líder informal do grupo, por acordo tácito da maioria (*).

Algumas pessoas do grupo estavam mais chocadas do que outras, segundo me contou a “Poetisa” com quem apenas falei ao telefone nesse fim de semana em que fui ao Porto e aproveitei para estar com a minha amiga Nucha.

− Uma “brincadeira”, ao que parece, que poderia ter acabado em tragédia – terá comentado um dos caminheiros.

A “Poetisa” não achou “graça nenhuma” à subtil insinuação desse caminheiro, para mais vindo de quem era, de alguém que, no passado, também fora vítima de violência doméstica, mas neste caso por parte da companheira, que sofria de graves problemas de saúde mental. O termo “brincadeira” não estava isento de uma conotação algo machista.

− O gajo, no fundo, está a insinuar que a Nucha também tivera culpas no cartório, “ao andar a brincar com o fogo”... Estás a ver a mente pornográfica destes sacanas!


4.Quanto ao ex-companheiro da Nucha (, que vivia com ela há cerca de oito anos, e que eu só vim a conhecer pessoalmente mais tarde,) contaram-me que fora ouvido, no dia seguinte, na polícia e depois no tribunal, na presença do seu advogado.

A Nucha apresentava claros sinais de ter sido vítima de uma grave agressão, com danos corporais ao nível do pescoço, peito e cabeça. Teria havido uma tentativa de estrangulamento, num acesso de fúria provocada, ao que parece, por uma crise de “ciúme patológico” (sic).

− Patológico ?... Todo o ciúme é patológico! – ironizou a “Poetisa”.

A Nucha ficou muito afetada, física e psicologicamente. “In extremis” conseguira libertar-se das mãos do agressor, e chamar o 112. O INEM veio com a polícia.


O agressor acabou por cair em si (, até porque era um homem inteligente) e deu-se por “culpado”. A Nucha foi levada, à meia noite, para o Hospital, donde só regressou no dia seguinte, tendo estado em observação e depois em tratamento.


5. Compreensivelmente, ela nunca mais voltou à casa da Foz, nem sequer para ir buscar uma muda de roupa e alguns objetos pessoais mais urgentes. Para essa tarefa, incumbiu uma amiga de ambos, que morava para os lados da av da Boavista. A Nucha voltou, de vez, para o seu apartamento na Rua da Alegria, os “50 metros quadrados da sua ilha preferida”, que ela costumava dividir com o casarão da Foz, nomeadamente no outono e inverno.

− Na primavera e no verão, preciso de sentir nas narinas a maresia, preciso de estar junto ao mar, como a Sophia, faz-me bem aos quatro humores… Nunca poderia viver por detrás de uma serra! Detesto o rosmaninho e a urze, cheiros de infância!


6. O juiz impôs ao alegado agressor uma medida de coação de termo de identidade e residência.

− Se fora um trolha da construção civil, ia logo dentro! – desabafou a “Poetia”, ao telefone. E justificou a sua afirmação nestes termos:

− Como vês, é a merda da nossa justiça, no seu melhor, uma justiça ainda com muitos tiques de classe e, pior ainda, misógina, sexista, homofóbica e racista.

− Porque é que dizes isso ? – interpelei-a eu – Não serão chavões a mais ?

− Os nossos juízes, e nomeadamente os machos, mas também algumas juízas que vestem calças, parecem, às vezes, ter dois pesos e duas medidas, em matéria de crimes sexuais e de violência de género, incluindo a violência doméstica. Tudo depende do sexo da vítima e do agressor.

− Mas, também, se calhar, do estatuto socioprofissional − insinuei eu. – Mas não creio: os nossos juízes e juízas têm hoje uma outra formação.



7. Comentei este caso(,que não é assim tão raro quanto se pensa, no nosso círculo de relações,) com um psiquiatra, meu amigo, de Lisboa, que naturalmente não conhecia as pessoas em causa, a Nucha e o seu ex-companheiro.


− Tu, que és sociólogo da saúde, sabes tão bem ou melhor do que eu. Da minha prática clínica, assim a "olhómetro", eu diria que os casais 'grisalhos' (, idosos, mas também de meia-idade), em Lisboa, no Porto, em todo o lado, estão a ter dificuldade em envelhecer. Quando as pessoas se reformam, têm ainda a esperança, legítima (ou legitimada pelas estatísticas demográficas...), de viver mais uns 10, 15, 20 ou até 25 anos (!) com saúde e qualidade de vida.


− Há gente a reformar-se muito cedo, por uma razão ou outra. É verdade que alguns começaram a trabalhar ainda crianças. Outros têm profissões ditas de desgaste rápido, ou que pertencem a certas corporações da função pública com privilégios que a maioria da população trabalhadora portuguesa não tem,não pode ter nem nunca terá.


− Mas, repara, a reforma significa para muita dessa gente, sobretudo entre as profissões científicas e técnicas, a "morte social". Saem de cena, saem do palco, saem das universidades, das empresas, das administrações, deixam de ser úteis e sobretudo... desejáveis!... O reformado é sobretudo um indesejável, até por que constitui um "fardo" para a população ativa, os mais novos e os que estão na fila para a reforma, mas que continuam a fazer descontos para a Segurança Social...


E o meu amigo psiquiatra acrescentou:

− As coisas já se vinham agravando com a crise de 2008/2009. As relações conjugais, amorosas, afetivas, enfim, o amor, o namoro, a amizade, a família, tudo isso se degrada com as crises económicas, o desemprego, a perda de rendimentos, os filhos que voltam para casa, etc.

− Ah!, a famosa anomia de Durkheim!

− Depois, há avós que não fazem mais nada do que cuidar dos netos, mesmo quando andam já na escola, adiando ou protelando os seus sonhos, de viajar, conhecer mundo, reviver, etc. Depois tens o inexorável relógio biológico, a idade que não perdoa, a velhice, os cabelos brancos...
− E, como diz, o povo, "teme a velhice porque nunca vem só"... − acrescentei eu.

− Tem um fundo de verdade, como muitos privérbios... De facto, com a velhice, vêm as doenças crónicas degenerativas, por exemplo, que em muitos casos até são geríveis, se tiveres uma rede de suporte social ou um sistema de saúde como aquele que hoje temos, e que não tinham os nossos pais e avós...


E explicitou melhor o seu pensamento:

− As pessoas querem viver mais, mas não estão preparadas para viver melhor, não sabem lidar com a reforma... É um fenómeno estranho. Há vários casais, meus conhecidos, alguns até meus doentes, que não aguentaram a "solidão a dois", depois da reforma...


(Continua)


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Nota do editor:

Último poste da série > 1 de janeiro de 2019 > Guiné 61/74 - P19353: A Galeria dos Meus Heróis (17): Os caminheiros do parque da cidade - II (e última) parte (Luís Graça): com os meus votos para o novo ano que aí vem, o 2019. Porque a saúde, afinal, não serve para mais nada... a não para sermos livres e felizes! (Luís Graça)

Guiné 61/74 - P19425: Notas de leitura (1143): Viagens de Luís de Cadamosto e de Pedro de Sintra (1) (Mário Beja Santos)



1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 21 de Outubro de 2016:

Queridos amigos,
Com a publicação do meu livro História(s) da Guiné-Bissau lancei-me noutro empreendimento, algo que se aparente a uma seleção das páginas de ouro de literatura em torno da Guiné, dos descobrimentos aos nossos dias.
Lido Zurara, e antes de rever o extraordinário André Álvares de Almada e contemporâneos, vim até às páginas de Cadamosto, interessantíssimas, como podereis ler. Tal como Zurara vai descrevendo a aproximação à Terra dos Negros, Cadamosto dá-nos igualmente a transposição dos homens pardos, os Azenegues, e assim chegamos à Senegâmbia, aqui se fundou um comércio que ficou conhecido por Costa dos Escravos.

Um abraço do
Mário


Viagens de Luís de Cadamosto e de Pedro de Sintra (1)

Beja Santos

No âmbito das comemorações do V Centenário da Descoberta da Guiné, a Academia Portuguesa de História editou em 1948 o trabalho “Viagens de Luís de Cadamosto e Pedro de Sintra”, com notas históricas por Damião Peres. Este insigne historiador justifica a iniciativa: “Como a crónica henriquina de Azurara não abrange feitos da Guiné posteriores a 1447,as páginas de Cadamosto constituem uma fonte narrativa, embora de utilização cautelosa, pois nelas se encontram dados cronológicos errados, e até, segundo se pode crer, alguma jactância atentatória da verdade”. Esta edição da Academia Portuguesa de História reproduz o texto de 1812 com as traduções a partir do italiano os dois viajantes, da Academia Real das Ciências, veja-se o site: http://livrosevelharias.blogspot.pt/2012/10/viagens-de-luis-de-cadamosto-e-pedro-de.html#!/2012/10/viagens-de-luis-de-cadamosto-e-pedro-de.html.

Vamos começar pela primeira viagem de Luís de Cadamosto. Ele vem fazer comércio à Costa dos Escravos ou Terra dos Negros, é um veneziano que espelha os conhecimentos da época, homem curioso, o seu relato começa no que é hoje o Senegal. Diz assim: O país destes primeiros negros do reino de Senega (Senegal) é o primeiro reino dos negros da Baixa Etiópia. Os povos próximos deste rio chamam-se Gilofos (os Jalofos).

É atento e minucioso: o Cabo Verde é a terra mais alta que há em toda esta costa, para além do dito Cabo Verde toda a costa é praia rasa. Vem a terra e comenta: Não há no país nenhuma cidade nem lugar murado, se não aldeias e casas de palha (que eles não sabem fazer casas de paredes porque não têm cale e têm grande falta de pedras). O modo de vida deste rei é o seguinte: não tem rendimento certo, além daquele que lhes dão os senhores desse país todos os anos para estarem de bem com ele, os quais presentes são de cavalos que lá são muito apreciados, por deles haver falta. Este rei vive também com roubos que faz, e tem sempre muitos escravos negros que mada pilhar não só no país como nos outros países vizinhos. Quanto ao vestir desta gente, quase todos andam nus continuamente salvo que trazem um coiro de cabra posto em forma de calça com que cobrem as vergonhas; mas os senhores e aqueles que podem comprar alguma coisa vestem camisas de pano de algodão. Quanto à forma, as suas camisas são compridas até meia coxa e largas. As mulheres desta região são muito asseadas de corpo, pois se lavam completamente, quatro e cinco vezes por dia; e assim também os homens, mas no comer são porcalhões e sem nenhuma educação. São homens de muitas palavras e nunca acabam de falar; e são todos, sempre, mentirosos e enganadores, em extremo; por outro lado, são caritativos, porque dão de comer e beber a qualquer estrangeiro que, de passagem, chegue a sua casa por uma refeição ou por uma noite, sem qualquer remuneração.

Cadamosto tem olhar de antropólogo na descrição das cerimónias, nas receções, na admiração ao destemor dos nadadores, descreve a vida de Budomel, o rei da região.

E procura dar um quadro da economia da terra: “Neste reino de Senega dos negros, nem daí por diante, em nenhuma Terra do País dos Negros se produz trigo, nem centeio, nem cevada, nem aveia, nem vinho. E visto que o país é bastante quente e não chove em nove meses do ano. A sua comida é de milho de diversas espécies, fava e feijões que nascem naquelas partes, os mais grados e mais belos que há no mundo". E procede a uma descrição da comida, bebida e substâncias oleaginosas. Fala então da fauna: nesta terra de Senega dos negros não se encontram outros animais úteis a não ser bois, vacas e cabras; ovelhas não se criam aí, nem poderiam viver por causa do grane calor. As vacas e bois daquele país são mais pequenos que os nossos. Animais bravo de presa há-os: leões, onças e leopardos, lobos e cabritos monteses; há í também elefantes selvagens. Estes elefantes andam aos bandos. Os seus dentes grandes nunca lhes caem, a não ser por morte. E aí animal que não ataca o homem se o homem não o atacar.

Cadamosto, com a curiosidade comerciante, vai ver como os outros mercadejam. E observa: Porque me acontece estar em terra muitos dias, determinei ir ver um seu mercado ou feira que se fazia numa pradaria, não muito longe do lugar onde eu estava hospedado; o qual se fazia à segunda e sexta-feira: fui lá duas ou três vezes. A este mercado vinham homens e mulheres das terras que estavam em volta até quatro ou cinco milhas, pois que os que estavam mais longe iam a outros mercados, porque também noutros lugares se costumam fazer. Nestes mercados compreendi muito bem que estes são gente muito pobre, pelas coisas que traziam ao mercado para vender. Primeiramente era o algodão (mas não fiado) em pouca quantidade; não muitos panos de algodão; legumes, milho, óleo; gamelas de pau, esteiras de palma e todas as outras coisas de que se servem para a sua vida. Nada se vende por dinheiro porque não há moeda nenhuma nem usam se não trocar coisa por coisa ou duas coisas por uma coisa, e todo o seu mercado se faz por troca. Estes negros, tanto machos como fêmeas, vinham ver-me como uma maravilha, e parecia-lhes coisa extraordinária ver um cristão em tal lugar, nunca dantes visto: e não menos se espantavam do meu traje e da minha brancura; o qual traje era à espanhola, com um jibão de damasco preto, e com uma capinha de gris; reparavam para o pano de lã, que eles não têm, e reparavam para o jibão, e muitos pasmavam, alguns tocavam nas mãos e nos braços e com cuspo esfregavam-me para ver se a minha brancura era tinta ou carne; e vendo que era carne branca, ficavam-se em admiração. Vendo-se um cavalo arreado com os seus arreios por nove até catorze escravos, conforme a qualidade e beleza do cavalo. Admiravam-se, grandemente, de ver arder uma vela, de noite, num castiçal e isto porque na sua terra não sabem produzir nenhuma outra luz que não seja a da fogueira.

Prepara-se para partir do Senegal para a Gâmbia, e ainda mais abaixo. E explica: Tive ocasião de estar neste país do senhor Budomel alguns dias, para vender e comprar, e saber de muitas coisas: pelo que estando do dito senhor despachado, e tenho obtido uma certa quantidade de escravos, determinei ir para diante, e passar o Cabo Verde e ir descobrir países novos para experimentar a minha sorte. Não muito longe deste primeiro reino de Senega dos Negros, indo mais para diante, havia um outro reino ou país chamado Gambra (Gâmia) no qual se encontrava grande quantidade de ouro.

(continua)

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Nota do editor

Último poste da série de18 de janeiro de 2019 > Guiné 61/74 - P19414: Notas de leitura (1142): Os Cronistas Desconhecidos do Canal do Geba: O BNU da Guiné (69) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P19424: Guerra colonial - cronologia(s) - Parte III: Angola, 1962: o ano em que o Exército tem mais baixas mortais em combate (121) depois do ano de 1961 (126), naquele teatro de operações. Utilização das primeiras minas A/P e A/C.


Guiné > Região de Bafatá > Setor L1 (Bambadinca)  > Estrada Finete-Missirá > 1969 > O Fur Mil Reis (à esquerda) e o Alf Mil Carlão (à direita), do 2º Gr Comb da CCAÇ 12 vistoriando os restos da viatura (Unimog 404) em que seguia o Alf Mil Beja Santos, comandante do Pel Caç Nat 52, quando accionou uma mina anticarro, no dia 16 de Outubro de 1969, por volta das 18h00, na zona de Canturé (entre Finete e Missirá: vd. carta de Bambadinca, de 1/50.000).

A primeira mina A/C, na guerra colonial, foi utilizada em Angola, em 12 de junho de 1962.

Foto do arquivo pessoal de Humberto Reis (ex-furriel miliciano de operações especiais, CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71).

Foto (e legenda): © Humberto Reis (2006). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]




Guerra Colonial > Cronologia > Angola > 1962

1962-01-15

Portugal abandona a Assembleia-Geral da ONU, em virtude do debate sobre Angola.

1962 -01 -30


Assembleia Geral da ONU: resolução reprovando a repressão e a ação armada de Portugal contra  povo angolano; reafirmação do direito à autodeterminação e independência dos angolanos.

1962-03-03

A UPA reivindica, em Leopoldville, a prisão e a execução de um destacamento do MPLA, comandado por Ferreira (cerca de 20 hiomens), que se infiltrara em dezembro de 1962 na região de Nambuangongo. Presidente: Holden Roberto.

1962-03-23

O Governo Português recusa a visita do Comité dos Sete da ONU aos territórios sob administração portuguesa.

1962-03-27

Formação da FNLA - Frente Nacional de Libertação de Angola, a partir da UPA e do PDA - Partido Democrático de Angola.

1962-04-05

Formação do GRAE - Governo Revolucionário de Angola no Exílio, por iniciativa da FNLA.

1962-04-07
Criação da 1ª Companhia de Fuzileiros.

1962-04-27

Aprovação do Código do Trabalho Rural para o Ultramar, ou seja, a primeira lei de trabalho livre. Tentativa de resposta às acusões de colonialismo por parte da ONU. Criados também os primeiros tribunais do trabalho no Ultramar.

1962-06-01

Inauguração oficial da Base Aérea 9, em Luanda. 

1962-06-06

Primeira mina A/P [antipessoal], utilizada na guerra colonial, na estrada Zala-Vila Pimpa, norte de Angola.

1962-06-12

Primeira mina A/C[anticarro], utilizada na guerra colonial, na pista da povoação do Bembe, em Angola.


1962-06-23

Despenha-se , no Vale do Loge, Angola, um caça bombardeiro F-84, Thunderjet, da FAP.

1962-06-25

Criação do Centro de Instrução 21 (CI 21), em Zemba,  para formar as primeiras unidades de comandos.

1962-06-30

Agostinho Neto foge de Portugal, juntamente com a mulher e dois filhos, e ainda com Vasco Cabral, dirigente do PAIGC, com a ajuda do PCP - Partido Comunista Português. No final do ano, em Leopoldville, será eleito presidente do MPLA.

1962-07-01

Condenação, em Luanda, dos escritores António Jacinto, António Cardoso e José Graça (Luandino Vieira) a 14 anos de prisão por 'actividades contra a segurança exterior do Estado'.

1962-08-10

Fuga para Paris dos dirigentes da FUA - Frente de Unidade Angola, que estavam com residência fixa em Lisboa.

1962-08-13

Início da construção do mito de Spínola, com o sucesso da Op Nun'Alvares, realizada pelo BCAV 345, de que ele era o comandante.

1962-08-15

Criação dos Estudos Gerais [Universidade] de Angola e Moçambique, levando a um conflito de competências do Ministro do Ultramar, Adriano Moreira, e o general Venâncio Deslandes, governador e comandante-chefe de Angola. Em choque, duas conceções diferentes sobre o futuro do território.

1962-09-24

Demissão de Venâncio Deslandes, substituído por Silvino Silvério Marques (como governador-geral) e Holbeche Fio (como comandante-chefe).

1962-10.18

Primeiro heliassalto na guerra colonial (16 paraquedistas em 4 helis Alouette II): Op  Três Mosqueteiros, na região de Caluca, a sul de São Salvador do Congo.

1962-10-23

Primeiras notícias, não confirmadas,  sobre a possível abertura da Frente Leste, por parte da UPA, podendo afetar a atividade da Diamang e o caminho de ferro de Benguela.

1962-1-15

Carta de Viriato Cruz aos militantes do MPLA, manifestando-se contra Agostinho Neto.

1962-12-01

Início do I Congresso do MPLA em Leopoldville. Neto substitui Viriato. Mário de Andrade na vice-presidência.

1962-12-04

Adriano Moreira perde a confiança pessoal e política de Salazar, que o substitui na pasta do Ultramar. Remodelação do Governo.

1962-12-17

Início da Op Roda Viva a região de Quicabo. Morre o furriel Szabo, filho de uma antiga glória do futebol húngaro e português. A notícia teve grande impacto emcoional em Angola e na Metrópole.

1962-12-31

Total dos efetivos do Exército nos 3 teatros de operações: 61 847, sendo 44 925 em Angola (dos quais 33 760, de origem metropolitana. 

No ano de 1962, morreram em combate, em Angola, 121 militares, o segundo ano com mais baixas em Angola durante toda a guerra (depois de 1961). 

Fonte: Adapt de  Carlos Matos Gomes e Aniceto Afonso - Os Anos da Guerra Colonial, vol. 3 - 1962:  optar pela guerra. Lisboa: Quidnovi, 2009.


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Guiné 61/74 - P19423: Parabéns a você (1563): Dr. João Graça, Amigo Grã-Tabanqueiro de Lisboa

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Nota do editor

Último poste da série de 20 de janeiro de 2019 > Guiné 61/74 - P19422: Parabéns a você (1562): José Horácio Dantas, ex-1.º Cabo At Art da CART 1742 (Guiné, 1967/69

domingo, 20 de janeiro de 2019

Guiné 61/74 - P19422: Parabéns a você (1562): José Horácio Dantas, ex-1.º Cabo At Art da CART 1742 (Guiné, 1967/69)

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Nota do editor

Último poste da série de 19 de Janeiro de 2019 > Guiné 61/74 - P19416: Parabéns a você (1561): José Crisóstomo Lucas, ex-Alf Mil Op Esp da CCAÇ 2617 (Guiné, 1969/71) e Manuel Mata, ex-1.º Cabo Ap Armas Pesadas do Esq Rec Fox 2640 (Guiné, 1969/71)

Guiné 61/74 - P19421: Blogpoesia (604): "Escuridão da mente", "As voltas da vida" e "Regressar a Lisboa", da autoria de J. L. Mendes Gomes, ex-Alf Mil da CCAÇ 728

1. Do nosso camarada Joaquim Luís Mendes Gomes (ex-Alf Mil da CCAÇ 728, Cachil, Catió e Bissau, 1964/66) estes belíssimos poemas, da sua autoria, enviados, entre outros, ao nosso blogue, que publicamos com prazer:


Escuridão da mente

Há momentos em que a mente se abate na escuridão.
Nem uma réstea luz.
É a noite cega e erma.
Sensação de quem se perdeu no bosque ao voltar para casa.

Desfalecimento e desânimo.
Nos prostamos no chão de qualquer jeito.
Buscando recuperar as forças.
Um pesadelo.
Só o despertar nos livra.

Estonteados.
Que diferença.
Entre a noite e o fulgor do dia.
Que alívio!
Afinal, não acabou o mundo.

Foi assim a minha noite.
Porquê?...

Berlim, 16 de Janeiro de 2019
9h50m
Jlmg

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As voltas da vida

Tantas passadas na senda dum futuro com êxito.
De casa para a escola.
O lápis e o ponteiro. A tabuada.
Tantas cópias. Linhas duplas.
E ditados com dificuldades.

Os calhamaços de história antiga.
Geografia e biologia,
Matemática até doer.

O primeiro emprego.
O aprender a viver com todos.
Para vencer na vida.

Ser alguém. Deixar bom rasto.
Sonhar. Dar boa sombra.
Saber sofrer.
Sem magoar ninguém.

Subir aos cumes.
Divisar ao longe.
Escolher caminhos,
Com boa bússola.

Desafiar a sorte.
Sem arriscar viver.
Saborear a vida.
Respeitando a morte.

Entregar-se todo.
Não olhar para trás.
Poupar as forças
Para que no fim não faltem.

Se assim for, valeu a pena.

Berlim, 17 de Janeiro de 2019
13h15m
Jlmg

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Regressar a Lisboa

Descer o Tejo e deixar Lisboa.
Atravessar o indefinido
para cumprir o dever da Pátria,
nas terras africanas.
Sentir a incerteza dum regresso como possível.
Sensações dolorosas na força da juventude.
Quando o futuro tem a dimensões para lá do horizonte.
Foram as imagens frequentes. 
Barcos abarrotados de juventude, durante uma dúzia de anos, num vaivém constante e doloroso.
Um mar de lenços cobrindo o cais de Alcântara na despedida e nas chegadas.

Jamais esqueço aquela manhã de Agosto,
deixando o mar, para subir o Tejo.
A nova ponte. A torre de Belém.
As colinas de Lisboa à nossa espera.
Aquele regresso tão desejado que se cumpriu finalmente.
Inesquecível...

Ouvindo Carlos Paredes

Berlim, 19 de Janeiro de 2019
9h35m
Jlmg
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Nota do editor

Último poste da série de de 13 de Janeiro de 2019 > Guiné 61/74 - P19400: Blogpoesia (603): "Revolução dos cravos", "Sementes de lusitanidade" e "O Arco do Triunfo", da autoria de J. L. Mendes Gomes, ex-Alf Mil da CCAÇ 728

Guiné 61/74 - P19420: In Memoriam: Os 47 oficiais oriundos da Escola do Exército e da Academia Militar mortos na guerra do ultramar (1961-75) (cor art ref António Carlos Morais da Silva) - Parte IX: alf inf Hélder Luciano Jesus Roldão (Marinha Grande, 1938 - Calengue, Angola, 1962)






1. Continuação da publicação da série respeitante à biografia
(breve) de cada um dos 47 Oficiais oriundos da Escola do Exército e da Academia Militar que morreram em combate no período 1961-1975, na guerra do ultramar ou guerra colonial (em África e na Ásia)

Trabalho de pesquisa do cor art ref António Carlos Morais da Silva, instrutor da 1ª CCmds Africanos, em Fá, adjunto do COP 6, em Mansabá, e comandante da CCAÇ 2796, em Gadamael, entre 1970 e 1972. Foi cadete-aluno nº 45/63, do corpo de alunos da Academia Militar.

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sábado, 19 de janeiro de 2019

Guiné 61/74 - P19419: Convívios (884): 41º convívio da Magnífica Tabanca da Linha, 9º aniversário: dia 24, 5º feira, às 13h00, em Algés, no restaurante "Caravela de Ouro"... Inscrições até terça-feira, de manhã, dia 22..Já há cerca de meia centena de inscritos (Manuel Resende)


Cascais > São Domingos de Rana > "Adega Zé Dias > 14 de janeiro de 2010 > Alguns dos históricos que fundaram a Magnífica Tabanca da Linha: da esquerda para a direita: o Zé Dias (, sono do restaurante),  António Fernandes Marques, José Manuel Matos Dinis, Manuel Domingos ( falecido logo a seguir,  nesse ano,  era  do Batalhão do Rogério Cardoso, era fadista amador com prémios), Rogério Cardoso, António Graça de Abreu, Zé Carioca,  Jorge Rosales e Zé Caetano.


Cascais > São Domingos de Rana > "Adega Zé Dias > 14 de janeiro de 2010 > > Da esquerda para a direita, os nossos grã-tabanqueiros, Zé Carioca, António Graça de Abreu José Manuel Matos Dinis, Mário Fitas, António Fernandes Marques,  Jorge Rosales e  Rogério Cardoso. [O Manuel Resende só passou a integrar a Tabanca da Linha, a partir do 4º convívio]


Fotos (e legendas): © Manuel Resende (2019).  Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]




41º CONVÍVIO DA MAGNÍFICA TABANCA DA LINHA, FUNDADA EM 2010

Caros Magníficos e convivas,

No próximo dia 14 de Janeiro vamos comemorar o 9º Aniversário do momento fundador da que veio a ser a MAGNÍFICA TABANCA DA LINHA.

Nove camaradas que combateram na Guiné, se conheciam bem, alguns mesmo antes da passagem pela Guiné, “meninos” do Estoril e Cascais, Colégio João de Deus, Futebol do Estoril…, juntaram-se para um almoço em Rana, na “Adega Zé Dias”, que também esteve na Guiné, conhecido e amigo do Jorge Rosales,  dos Salesianos, e nas conversas havidas durante o opíparo repasto que lhes foi servido, lembraram-se de formar aquela a que deram o nome de Tabanca da Linha, logo depois achada como sendo Magnífica, recebeu a designação actual, com que de norte a sul de todos é conhecida.

Para os vindouros, o grande momento fundador foi relatado, e registado, na “Mãe de Todas as Tabancas”, o blogue  Luís Graça & Camaradas da Guiné, o post “eGuiné 63/74 – P5691 (*)
Foram estes os gloriosos fundadores

ex-Alf Mil Jorge Rosales (1º CCAÇ, Porto Gole e Bolama, 1964/66),

ex-Fur Mil António Fernandes Marques (CCaç 12, do Pelotão do Luís Graça, Bambadinca, 1969/71),´
ex-Fur Mil Rogério Cardoso (CART 643, Mansoa e Bissorã, 1964/66(),

ex-Fur Mil Manuel Domingos, o Gato (Mansoa, CArt 568),

ex-Fur Mil Mário Fitas (CCAÇ 763, "Os Lassas", Cufar, 1965/67);

ex-Fur Mil José Manuel Matos Dinis (CCÇ 2679, Piche, Bajocunda, 1970/71),

ex-Fur Mil José Carioca (CCAÇ 3477, Gringos de Guileje, Guileje, 1971/72 ),

ex-Fur Mil 'Comando' José Caetano, (Mansoa, Bedanda, CCaç 4);

ex-Alf Mil António Graça de Abreu (CAOP1, Teixeira, Pinto e Cufar, 1972/74).

Com o tempo, com os contactos estabelecidos através do Facebook, nomeadamente, contamos hoje com 175 membros, não podendo muitos terem sido aceites por não satisfazerem os requisitos mínimos, quais sejam

1-ter estado na Guiné;

2-virem aos nossos convívios;

3-viver na zona da Grande Lisboa (não obrigatório),  para podermos contar com as suas presenças

O convívio de Janeiro tem como lema o “9º ANIVERSÁRIO DA MAGNÍFICA TABANCA DA LINHA”. (**)

Infelizmente, pelas razões de saúde que são conhecidas, e que muito lamentamos, não podemos contar com a presença física do nosso “EXMO. COMANDANTE” Jorge Rosales, que em espirito não deixará de estar à mesa connosco, e soprar as velas do aniversário.

24 de Janeiro, quinta-feira, com início às 13 horas

Restaurante "CARAVELA DE OURO" em Algés.

Esperamos que mais uma vez seja do vosso agrado.

EMENTA

- APERITIVOS

Bolinhos de bacalhau - Croquetes de vitela - Rissóis de camarão - Tapas de queijo e presunto.

Martini tinto e branco - Porto seco - Moscatel.

- SOPAS

Creme de legumes – Creme de Marisco

- PRATO PRINCIPAL

Arroz de Garoupa

- SOBREMESA

Salada de Fruta ou Pudim

- CAFÉ

- BOLO COMEMORATIVO, com Champanhe, (9º Aniversário)

- BEBIDAS
Vinho branco e tinto (Ladeiras de Santa Comba-vinho da casa)
Águas - Sumos - Cerveja

PREÇO POR PESSOA - - - - - 20.00€
(Crianças, caso apareçam, dos 5 aos 10 anos pagam metade)

Morada: Alameda Hermano Patrone, 1495 Algés (Jardim de Algés, junto à marginal)

INSCRIÇÕES:

- Manuel Resende 919 458 210

- magnificatabancadalinha@gmail.com

- ou dizendo "vou" ao convite no nosso grupo do Facebook [Magnífica Tabanca da Linha]

(até às 24 horas do dia 21 - segunda-feira).

Aguardo as vossas inscrições a partir de agora,

Manuel Resende

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Notas do editor:

(*) Vd. poste de 23 de janeiro de  2010 > Guiné 63/74 - P5691: Os nossos seres, saberes e lazeres (16): Nascimento da fabulosa Tabanca da Linha (António Graça de Abreu / José Manuel Dinis)

(**) Último poste da série > 24 de novembro de 2018 > Guiné 61/74 - P19228: Convívios (883): "Bosque dos Avós", hoje, todo o dia, na serra do Marão, Aboadela, Amarante (José Claudino da Silva)

Guiné 61/74 - P19418: Os nossos seres, saberes e lazeres (304): Viagem à Holanda acima das águas (8) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 10 de Outubro de 2018:

Queridos amigos,
A visita ao Rijks trazia água no bico, independentemente do viandante não visitar este santuário das belas-artes há muito, a requalificação do museu foi muito badalada, circulou muita documentação na internet, impunha-se a visita; mas havia igualmente que entregar a um estudioso do surrealismo um conjunto de catálogos de um amigo comum, Raul Perez, foi encontro muito aprazível, tanto mais que o viandante tinha tido a oportunidade de ler a correspondência que lhe fora dirigida, bem como à mulher, de nome Frida, por Mário Cesariny, um genial poeta, de costela surrealista.
Aqui fica uma súmula deste extraordinário museu, sobejam razões para aqui querer voltar o mais depressa possível.

Um abraço do
Mário


Viagem à Holanda acima das águas (8)

Beja Santos


O Rijks está na lista dos museus mais importantes do mundo, a sua história confunde-se com a identidade do povo holandês, com os acidentes políticos, a presença francesa dos Países Baixos, a Holanda independente, rica e próspera. O Rijks está dentro de um edifício neogótico de belas fachadas, está permanentemente cheio para aqueles que vêm à procura de Rembrandt, Frans Hals, Vermeer, Pieter de Hooch, Jacob van Ruisdal, Jan Steen e Isaac Israels, mas também de outros génios que podem dar pelo nome de Rubens, de Goya, de Van Gogh ou de Picasso. O amante das belas-artes tem aqui de tudo, às centenas, naturezas-mortas, paisagens, retratos, pintura religiosa, histórica e mitológica, cenas de género. É a maldição dos dias contados, o Rijks merece no mínimo uns três dias de fruição, paciência, a viagem nunca acaba desde que o viajante acredite piamente no eterno retorno.




Há anos que o viandante ansiava por regressar a este soberbo templo artístico, o Rijks de Amesterdão, há aqui telas de Rembrandt ou de Vermeer que são Património Mundial, mas o viandante também não desdenha de visitar aqui coleções de doadores com peças soberbas e até arte moderna, como adiante se mostrará. A peregrinação tão ansiada inclui um encontro, como brevemente se descreve. Contada a viagem a um amigo, o pintor Raúl Pérez, ele pede-lhe encarecidamente que leve uns quilitos bem nutridos de catálogos para um outro amigo de longa data, um tal Laurens Van Krevel, um estudioso do surrealismo, poeta, editor consumado e muito mais. Troca-se correspondência e marca-se a uma hora certa um encontro no Rijks. O viandante lera deliciado a correspondência que com este intelectual holandês trocara um dos maiores poetas portugueses da segunda metade do século XX, Mário Cesariny, amigo também de Raul Pérez. Foi o encontro mais aprazível do mundo, primeiro a troca de papéis e lembranças, depois as histórias de Portugal, os projetos, o que cada um anda a escrever, o que o ausente anda a pintar, ele que é um lídimo artista surrealista, detentor de uma obra notável. E tudo aqui fica emoldurado com o Rijks rejuvenescido, nas escadarias, nos elevadores, nos arrojos postos no teto, mostra-se o livro, fala-se de uma amizade marcante e mostra-se a alegria deste encontro. E quando Laurens e Frida quiserem voltar a Portugal o viandante está pronto a dar-lhes guarida. Não podia ter começado melhor esta viagem pelo Rijks.




Rembrandt é o mais poderoso senhor desta casa, não há turista que não o saiba, mas também Rubens, em menor escala, e depois outros génios, caso de Vermeer ou dos mais modernos como Toulouse-Lautrec ou James Ensor. Não se aborrece mais quem contempla estes génios incomparáveis com informação sobre Rembrandt, ele é inconfundível no autorretrato, na configuração dos grandes grupos, na transmissão de estados de alma e de ambientes como no quadro acima referente à noiva judia, o esplendor das cores fortes entre o amarelo e o vermelho, à flor da tela e o detalhe esbatido num ecrã de fundo. Para quê mais palavras?


Vermeer saltou para o ecrã num filme com culto, “A Rapariga com Brinco de Pérola”, tem obra literária por trás, mas o grande público entusiasmou-se com estes jorros sabiamente comedidos de rastos de luz e a organização da mancha. É o caso desta leiteira, fica-se com a ideia que tudo ali tem sábio sentido, retrata-se um mister, a luz coa-se à esquerda e desenha o fundo, o resto é representação de uma mulher em pleno labor e com as cores certas. Uma obra-prima sem mais exclamativas. Um crítico escreveu: “A criada, vestida com o seu vestido de trabalho, com uma touca, está a olhar para baixo completamente concentrada na sua tarefa. A sala é de uma simplicidade acolhedora, na mesa está um pequeno pano azul que condiz com a saia da criada. Junto à tigela está um jarro de porcelana branca e azul, típico de Delft, que contrasta com a rusticidade dos restantes objetos”.


Este magnífico quadro de Rubens versa o tema do Novo Testamento em que São Tomé observa as chagas de Cristo. A anatomia humana era a questão central que prendia a estética de Rubens, a exploração de contraste entre o corpo jovem e o corpo velho, os fundos escuros e neutros, a perfeição da textura. O quadro faz parte de um tríptico, mas o viandante centra-se diretamente neste corpo seminu envolvido por um extraordinário manto cor de fogo.



Este autorretrato de Van Gogh foi realizado um ano após de ter estabelecido em Paris, em 1887. Sem recursos, autorretratou-se, normalmente vestido com a sua roupa de trabalho. Era exigente a revelar a introspeção, parecia um seguidor de Rembrandt. O retrato psicológico atinge o seu auge em obras como esta. E aqui se finda a visita ao Rijks, espero que o leitor se delicie com os quadros que aqui ficam de James Ensor, as suas mascaradas, e Jane Avril, uma das figuras prediletas de Toulouse-Lautrec.


(Continua)
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Nota do editor

Poste anterior de12 de janeiro de 2019 > Guiné 61/74 - P19397: Os nossos seres, saberes e lazeres (302): Viagem à Holanda acima das águas (7) (Mário Beja Santos)

Último poste da série de16 de janeiro de 2019 > Guiné 61/74 - P19409: Os nossos seres, saberes e lazeres (303): Parabéns, meu filho, Bruno Teixeira, nascido a 16 de janeiro de 1973, quando ainda se lutava e morria na guerra de África (Virgílio Teixeira)

Guiné 61/74 - P19417: O nosso livro de visitas (199): contacto do dr. Raul Nobre, médico, que chegou a pertencer ao BCAÇ 2884, era radioamador e esteve em Timor (Norberto PInto, ex-militar da FAP; passou pela BA 12, Bissalanca, e pede ingresso na Tabanca Grande)


Prato comemorativo do almoço de Ano Novo de 2017,  da tertúlia dos Especialistas da BA 12, Bissalanca, Guiné 65/74, em Monte Real, 14 de janeiro de 2017. Têm já o 42º Encontro maracado para Évora, em 25 de maio de 2019.

1. Mensagem do nosso leitor (e camarada, ex-militar da FAP), Norberto G. Pinto:


Date: sexta, 18/01/2019 à(s) 14:15
Subject: Informação
Caro professor:

Estava eu a pesquisar,  da possibilidade de poder vir a encontrar ou saber do contacto, do Dr. Raul Vilhena Nobre (*).

Há 50 anos ele morava na travessa S.Domingos em Benfica, a mãe ilustre professora de desenho, tive o privilégio de ser seu aluno, de conhecer o Dr. Raul e sua esposa, que salvo erro era enfermeira, ainda antes de terem ido para Timor, foi com a ida dele para Timor, que para se comunicarem aparece o Rádio... Enfim, pessoas distintas, que saudades que eu tenho, desse tempo, das pessoas, de tudo mas tudo mesmo.

Também acabei por ir para o ultramar, estive na Guiné (Bissalanca), Angola, Moçambique (Nacala, Beira, Tete e Lourenço Marques), pertencia à Força Aérea,  aproveito para dizer que também sou aniversariante de Janeiro.

Um bom ano de 2019.

Se me aceitarem na vossa tabanca, estarei disponível e se alguém souber do Dr. Raul, agradecia a informação. 

Obrigado a todos,

Norberto Pinto

2. Resposta do nosso editor LG:

Caro Norberto:

Como ex-combatente que foste na Guiné (, BA 12, Bissalanca), tens a porta aberta da Tabanca Grande para entrar. Só precisas de cumprir os dois requisitos mínimos: (i) fazes a tua apresentação, como  ex-militar da FAP: (ii) mandas duas fotos tuas, tipo passe, uma atual e outra do "antigamente"... Se tiveres mais fotos e histórias desse tempo, manda-nos por este endereço que utilizaste. Também temos um página no Facebook, Tabanca Grande Luís Graça.

Presumo que também tenhas comnhecimeto do blogue Especialistas da Base Aérea 12, Guiné 61/74, mas não vejo lá o teu nome.

Quanto ao dr. Raul Nobre, tivemos notícias dele em 2007. Sabemos que tem (ou tinha)  consultório de estomatologia em Lisboa e página no Facebook.

Eis o endereço do consultório:

Rua Conde Almoster 50, 2º -D
1500-195 Lisboa
Telef 217 710 643

O nosso camarad Manuel Resende é amigo dele no Facebook.  Foram colegas no mesmo batalhão, o BCaç 2884, mas o al mil médico Raul Nobre, acabou por não embarcar para a Guiné.

Tanmé há tempos apareceu aqui um radiamador a querer partilhar com ele memórias de Timor e do radioamadorismo (**). Pode ser que ele volte a entrar em contacto connosco. (***)

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Notas do editor:

(*) 27 de março de 2007 > Guiné 63/74 - P1629: Lendo os vossos depoimentos com um nó na garganta... O que é feito da CCAÇ 2585 ? (Raul Nobre, ex-Alf Mil Médico)

(...) Em 1969 fui incorporado como médico na CCAÇ 2585, comandada pelo Capitão Tomaz da Costa. Ainda fiz o IAO na Arrábida e gozei os 10 dias de licença antes do embarque. Entretanto deu-se o "atentado" ao Niassa e o embarque do Batalhão fez-se com atraso. Eu não cheguei a embarcar, pois deferiram-me o requerimento que fizera para poder terminar a especialidade de Estomatologia e em 1971 mandaram-me para Timor donde regressei em 1973 (...) 


Guiné 61/74 - P19416: Parabéns a você (1561): José Crisóstomo Lucas, ex-Alf Mil Op Esp da CCAÇ 2617 (Guiné, 1969/71) e Manuel Mata, ex-1.º Cabo Ap Armas Pesadas do Esq Rec Fox 2640 (Guiné, 1969/71)


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Nota do editor

Último poste da série de 18 de Janeiro de 2019 > Guiné 61/74 - P19412: Parabéns a você (1560): Luís Manuel Rainha, ex-Alf Mil COM, CMDT do Grupo de Comandos Centuriões (Guiné, 1964/66)

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Guiné 61/74 - P19415: In Memoriam (333): Auá Seidi (c.1935-2018), viúva do comerciante de Bambinca (c. 1925-2011), Rodrigo Rendeiro, natural da Murtosa, já falecido em 2011 (Leopoldo Correia, amigo da família, ex-fur mil, CART 564, Nhacra,Quinhamel, Binar, Teixeira Pinto, Encheia e Mansoa, 1963/65).


Audá Seidi (c. 1935-2018), viúva de Rodrigo Rendeiro (c. 1925-2011), comerciante de Bambadinca, natural da Murtosa, foto que nos foi remetida pelo nosso camarada Leopoldo Correia, amigo da família, e que vive em Águas Santas, Maia (, foi fur mil, mil da CART 564, Nhacra,Quinhamel, Binar, Teixeira PintoEncheia e Mansoa, 1963/65).

O nome completo do marido era Rodrigo José Fernandes Rendeiro, e terá ido para a Guiné em plena II Guerra Mundial, com 17 anos, pelo que terá nascido por volta de 1925/26. A Auá Seidi era mais nova do que ele cerca de 10 anos. E era muito bonita,  dizia-se. O casal teve 9 filhos.

Já aqui contámos a "odisseia" do Rendeiro, às mãos do PAIGC, quando era comerciante no Enxalé, em 1963 (**). Levado para o  Senegal, conseguiu chegar à Gâmbia e, com apoio do consulado da Suiça, teve a sorte de regressar a Bissau.

A seguir, talvez no fim desse ano ou princípios de 1964,  deve ter ido para Moçambique, onde tinha parentes,m  para fugir à guerra e às represálias do PAIGC. Presumimos que tenha voltado e regressado à Guiné, fixando-se então em Bambadinca  por volta de1965(66. Terá regressado à sua terra natal,  em 1974, amargurado. Receio bem que tinha tido problemas logo a seguir ao 25 de Abril, pela sua colaboração com as NT e, eventualmete, com a PIDE/DGS.

1. Mensagem de hoje do nosso editor Carlos Vinhal, às 10h59:

Luís,

O Leopoldo Correia acaba de me comunicar o falecimento da esposa do senhor Rendeiro, Auá Seidi,  pessoas que parece teres conhecido em Bambadinca, onde ela era conerciante. Faleceu ontem e é sepultada hoje na Murtosa. Queres publicar a notícia no blogue ? Junto foto da senhora.

Abraço,
Carlos Vinhal




Notícia necrológica (Cortesia da funerária ToniFuner, da Murtosa)

2. Nota do editor Luís Graça:

Obrigado ao Leopoldo Correia e ao Carlos Vinhal.  Sim, conheci e estive, algumas vezes,  na casa da família Rendeiro, em Bambadinca, entre julho de 1969 e março de 1971.  E provei, nessas ocasiões,  o famoso chabéu da nhá Auá Seidi (ou Seide). Mas nunca tive o prazer de a conhecer pessoalmente. Nem sequer alguma vez a vi. E ao Rendeiro também nunca mais o vi, depois do nosso regresso a casa.

No meu tempo, ele convivia não só com a malta da CCAÇ 12 bem como com alguns camaradas nossos das CCS (BCAÇ 2852, 1968/70; e depois BART 2917, 1970/72)... Era nosso "vizinho", a sua casa e a sua loja situavam-se períssimo do quartel, na tabanca de Bambadinca. Além disso, fazíamos colunas logísticas juntos, ele tinha uma ou mais camionetas que alugava à tropa...Fica esta nota de saudade (*). E o apreço da Tabanca Grande a esta grande família. Infelizmente, o Rodrigo Rendeiro  (**) já nos tinha deixado há cerca de oito anos, conforme notícia dada também pelo Leopoldo Correia:

(...) Infelizmente já não está entre nós, [, o Rendeiro,] pois foi sepultado na sua terra natal [, Murtosa,] em 10/09/2011, tendo eu assistido ao funeral e tido contacto com toda a "ínclita geração", os filhos de Fernandes Rendeiro / Auá Seide, da qual só tenho a dizer bem. A que estudava em Coimbra, era licenciada em direito e era magistrada: faleceu também há cerca de 5 anos. Era juíza do Ministério Público em Lisboa. (...). 

Diz-nos o Paulo Santiago, em comentário do dia 19, às 00h17: "Não sabia que a filha do Rendeiro, Ana Maria, julgo ser este o nome,tinha morrido. Entrou para Direito juntamente com a minha irmã, infelizmente também falecida há quinze anos,aos 53 anos de idade."

O nosso editor comentou: "Nome completo: Ana Maria Fernandes Rendeiro Bernard (, este último apelido deve ser do casamento).  Nasceu em 1953 e terá morrido em 2006 ou 2007, com 53 anos. (Em 1 de setembro de 2006 ainda era viva, constando da listagem dos Magistrados do Ministério Público no Distrito Judicial de Lisboa.) 

A fotografia que se vê ao fundo, na mesa de cabeceira da cama da Auá Seidi, deve ser dessa filha, prematuramente desaparecida. E que era a 'menina dos olhos' do nosso amigo Rendeiro, por andar a estudar na Metrópole. De facto, cursou direito e entrou para o ministério público. A Auá, por sua vez, deve-se ter convertido ao cristianismo ao casar-se com o Rodrigo Rendeiro.
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Notas do editor:


(**) Vd. postes de:


2 de novembro de 2017 > Guiné 61/74 - P17926: (D)o outro lado do combate (15): continuação da odisseia do Rodrigo Rendeiro que acabou por regressar a Bissau, com um salvo-conduto do consulado da Suíça em Dacar, que o levou até à Gâmbia...

3 de novembro de 2017 > Guiné 61/74 - P17929: (D)o outro lado do combate (16): O Rodrigo Rendeiro, depois de regressar a Bissau, terá fornecido preciosas informações à FAP , permitindo a localização (e bombardeamento) das bases do PAIGC em Morés e Dandum, segundo Maria José Tístar, autora de "A PIDE no Xadrez Africano: conversas com o inspetor Fragoso Allas", Lisboa, Colibri, 2017 (pp. 191/192)

Guiné 61/74 - P19414: Notas de leitura (1142): Os Cronistas Desconhecidos do Canal do Geba: O BNU da Guiné (69) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 8 de Maio de 2018:

Queridos amigos,

Se há imagens que valem por mil palavras há também palavras que ganham eloquência e permitem refletir uma dada situação histórica, com um grau apreciável de fidedignidade. Será o caso deste documento em que o responsável em Bissau pela Sociedade Comercial Ultramarina descreve o que está a acontecer no Sul, um quase desmantelamento geral de postos de abastecimento.

O gerente do BNU em Bissau irá enviar para Lisboa até ao primeiro trimestre de 1964 informações preciosas, como ele próprio observa o Comando Militar é lacónico, não dá informação sobre o evoluir da situação, o gerente tem fontes que o habilitam a enviar informações preciosas, de tal modo que percebemos que para março/abril de 1964, mesmo com um número crescente de unidades militares a chegar à Guiné, a subversão foi bem sucedida no Sul, estendeu-se para o Corubal e começa a inquietar o chamado setor de Bafatá e posicionou-se de pedra e cal no Oio, cortando estradas e desinquietando toda a região circundante.

Um abraço do
Mário


Os Cronistas Desconhecidos do Canal do Geba: O BNU da Guiné (69)

Beja Santos

Em julho de 1963, está instalado o alarme. O “Diário Popular”, na sua edição de dia 17 dera relevo a uma entrevista com o Ministro da Defesa, a Administração do BNU entendeu pôr-se imediatamente em contacto com o gerente de Bissau, agradecendo tudo quanto tinha vindo a ser exposto sobre a escalada da luta armada. O que viera no “Diário Popular” fora silenciado pela maior parte da imprensa nacional, e como escreve a Administração do BNU, o ministro dissera textualmente que no Sul da Província “grupos numerosos e bem armados de terroristas penetraram em território nacional numa zona correspondente a 15% da superfície da Província” e a Administração em Lisboa previne a gerência de Bissau:

“Achamos prudente que estejamos atentos ao desenvolvimento da situação, para o caso de ela vir a agravar-se. E assim devem V. Sas. ter bem presente o que dispõe a circular reservada n.º 760, de 7/5/1931, para o que confiamos plenamente em V. Sas., no sentido de, se necessário, dar-lhe execução.

Agirão, em primeiro lugar, sem nervosismos nem precipitações, pois mesmo com a violação verificada das fronteiras, as nossas tropas cumprirão o seu dever, como o estão fazendo.
Só se procederá à inutilização das nossas notas em última extremidade, quando as autoridades militares o julguem conveniente.

A inutilização poderá ser por perfuração ou por queima, conforme a rapidez que a gravidade dos acontecimentos posteriores porventura imponha.

Como medida de providência, é conveniente mandar relacionar as notas existentes na Casa Forte ou Cofres, reduzindo ao mínimo indispensável as existências na Tesouraria.

O relacionamento será feito por maços, correspondendo a cada maço uma relação, a fim de que, quando os maços transitem para a Tesouraria, as respectivas relações individuais possam ser inutilizadas.” 

Em 20 de agosto, Luiz Vianna, da Sociedade Comercial Ultramarina em Lisboa envia ao administrador do BNU, Castro Fernandes, uma fotocópia da carta confidencial, datada de 6 desse mês remetida pela gerência de Bissau à sede da Sociedade Comercial Ultramarina, cujo teor é o seguinte:

“Situação política:

1 – No dia 4 do corrente veio a Bissau de avião o nosso empregado Manuel da C. Cunha Viana para nos avisar de que o Pelotão que estava no Xugué ia ser retirado para Bedanda, o aviso partiu de um capitão amigo do nosso empregado que o fez em atenção a favores recebidos, mas debaixo de grande sigilo.

2 – Como devem calcular, ficámos indignados com tal procedimento, pois a nossa Sociedade tem sido para o Comando Militar um manancial de facilidades e não está certo uma atitude destas, pois a economia da Província, a manter-se tal disposição, sofreria um prejuízo na ordem dos 1.500 contos, sem contar os imóveis.

3 – No que diz respeito à nossa Sociedade e pelas informações agora chegadas, temos naquela localidade os seguintes valores: 200 toneladas de arroz em casca, 70 contos de mercadorias, imóveis e utensílios diversos. Deslocámo-nos imediatamente ao Comando Militar para ver das possibilidades de suster, pelo menos por 10/15 dias, esta medida que prejudicava não só a nossa Sociedade como a economia da Província. 

4 – Depois de várias tentativas e intermediários militares, era domingo, conseguimos falar com o Sr. Major, que nos disse para esperar, pois ia pôr o assunto ao Sr. Brigadeiro Louro de Sousa, que disse textualmente o seguinte: nada podia fazer, pois havia um mês que o assunto do abandono do Xugué tinha sido posto ao Sr. Governador e por conseguinte nada tinha com tais problemas, o movimento tinha que se fazer como estava previsto. Avistámo-nos com o Chefe do Estado-Maior que nos ouviu e depois de várias hipóteses, mandou-nos regressar ali no outro dia para nos dar uma resposta definitiva. 

5 – Fomos lá à hora marcada na companhia do gerente da Casa Gou   veia que também tem no Xugué vários valores e depois de estarmos ali à espera quase duas horas, resolveram dar-nos os 15 dias pedidos para retirar todos os valores existentes no Xugué, antes de a povoação ser abandonada. 

6 – Já tomámos as providências necessárias e contamos ter tudo recolhido até ao princípio da próxima semana. 

7 – Sabemos que na realidade tem havido diversos problemas naquela área e tal situação é insustentável. 

8 – Em Catió, quase todos os dias tem havido tiroteio sem consequências de maior. 

9 – Em Salancaur soube-se que os terroristas estavam a negociar na nossa Casa Gouveia, vendendo não se sabe o quê, possivelmente coisas roubadas, a aviação foi lá e bombardeou aquilo tudo, e é de prever que as Casas tenham ficado bastante danificadas. 

10 – Sabe-se também que os terroristas estão instalados nas nossas Casas de Caboxanque, qualquer dia a aviação vai lá e dá cabo de tudo.

É esta a situação, quanto mais tropa vem, menos faz, por este andar os nossos imóveis vão desaparecendo e qualquer dia todas as Casas abandonadas estão desfeitas pela aviação.
A Casa de Cafine já quase não tem telhado e as 40 toneladas de arroz e mercadorias que lá ficaram já não existem com toda a certeza.”

Em 31 de agosto, o gerente de Bissau informa o BNU em Lisboa:

“A entrevista concedida pelo Senhor Ministro da Defesa e publicado no “Diário Popular” na tarde de 17 de Julho foi nesta Província transcrita no jornal “O Arauto” do dia 25.

As declarações do Senhor Ministro não tiveram aqui a repercussão inquietante de que se revestiram na Metrópole, de tal modo que choveram em grande número para a Guiné, quer por correspondência, telefone ou telegrama, os mais desencontrados e por vezes horripilantes boatos das lutas travadas pela posse desta cidade, com umas dezenas de mortes e de feridos à mistura.

Aliás, as palavras proferidas por aquele membro do Governo confirmam apenas as informações que há meses vimos prestando a V. Exas.

A população citadina, diga-se em abono da verdade, não isenta de preocupações, continua a fazer a sua vida normal, confia que com os reforços há semanas desembarcados, as forças militares operem o tão desejado volte-face da situação passando, finalmente, à contraofensiva nas zonas infestadas pelo terrorismo.

É convicção geral que só desta forma, lutando com as mesmas armas e no campo do inimigo, será possível senão eliminar pelo menos abrandar a violência dos últimos ataques.

Depois de previamente instaladas como as actuais condições permitem, as nossas tropas desenvolveram ultimamente grande actividade no sector compreendido entre Mansoa, Mansabá, Bissorã e Olossato, relativamente perto de Bissau.

Precedidos de intensos e arrasadores bombardeamentos aéreos nos refúgios do inimigo no mato, as tropas de terra, apertando o cerco, lançam ataques contra os terroristas em fuga, infligindo-lhes, segundo consta, severas baixas que uma emissora de um território vizinho aqui captada cifrou no número 200 só numa operação.

Não podemos confirmar estes números, visto que o Quartel-General do Exército é avaro de informações e nem sequer fornece comunicados das operações realizadas.

Assim, limitamo-nos a transmitir as informações de fontes não oficiais e que, possivelmente, nalguns casos, não correspondem inteiramente à verdade.

Contudo, não obstante as acções militares, não deixam os terroristas assinalar a sua presença e, como prova da sua actividade, na estrada Mansabá-Bissau, num troço das proximidades daquela povoação, esteve esta semana obstruída com troncos de árvores.

Anteriormente à vinda dos reforços militares, num ataque levado a cabo em 20 de Julho por um numeroso grupo constituído por argelinos distintamente identificados pelo vestuário e tez mais clara, negros e cabo-verdianos a uma coluna militar à distância de dois quilómetros de Mansabá, resultaram sete feridos do nosso lado.

No Sul, autenticamente abandonado, à excepção de alguns pontos ainda guarnecidos pela tropa, os terroristas continuam livremente senhores da maior parcela do terreno e controlam as vias de comunicação.

Nesta área, os nossos soldados limitam-se à defensiva dentro de redutos de arame farpado, visto que, segundo dizem, os efectivos de que dispõem são em número reduzido em relação ao território a cobrir.”

O gerente do BNU irá manter esta correspondência confidencial muito intensa, ao longo de todo o ano de 1963. Iremos verificar que o Leste entra em cena no final do ano, ataques a Amedalai e na região do Xime, em frente, na outra margem do Geba, resistiu-se em S. Belchior, os terroristas foram postos em fuga.

Quando se fizer o balanço de 1963, verificar-se-á que a situação no Sul vive em crescente turbulência, e daí a tentativa de sustar a subversão através de uma formidável operação, a Tridente, para reocupar a ilha do Como; a subversão chegara ao Corubal, grupos do PAIGC instalavam-se nas matas densas de Tabacutá, Galo Corubal, Mina, Poidon, Ponta Luís Dias, e muito mais, a Frente de Leste, ainda que timidamente, passara a ser uma realidade; e em território que o PAIGC classificará como Frente Norte, são constantes os ataques provenientes das matas do Oio, designadamente do Morés.

(Continua)


Mapa da Guiné constante no “Novo Atlas Escolar Português”, de João Soares, 4.ª edição, Sá da Costa, 1951. O que surpreende é a flagrante desatualização das localidades, noutro mapa que em breve publicaremos, referente a 1948, haverá muito mais rigor. Quem olhar para este mapa, ficará com a ideia que quase metade da Guiné era maioritariamente constituída por Fulas Pretos e depois por Biafadas, Balantas e Manjacos. Define-se a região do Gabu, mas não se precisam os limites, aquilo que é o Forreá e o Tombali também não tem nenhuma precisão, escreve-se que há Beafadas e Nalus. Foi por este mapa que a minha geração teve notícia do que era a Guiné…


A Imagem retirada do álbum “Guiné – Alvorada do Império”, 1953, trata-se de uma homenagem ao governador Raimundo Serrão.


Travessia do Corubal
Imagem publicado no Jornal “O Comércio da Guiné”, na sua edição de abril de 1931.
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Nota do editor

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