domingo, 20 de outubro de 2019

Guiné 61/74 - P20261: Blogpoesia (640): "Chafariz de pedra", "Começar a manhã" e "Queimou-se o estrugido...", da autoria de J. L. Mendes Gomes, ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 728

1. Do nosso camarada Joaquim Luís Mendes Gomes (ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 728, Cachil, Catió e Bissau, 1964/66) estes belíssimos poemas, da sua autoria, enviados, entre outros, ao nosso blogue durante a semana, que continuamos a publicar com prazer:


Chafariz de pedra

Bojudo chafariz de pedra mármore, aceso frente à matriz de Évora.
Tantas memórias centenárias guardas nesse bojo dilatado, imenso.
Estive a lê-las, aí ao pé, na esplanada do café Geraldo.
Nos meus momentos de liberdade.
Anos 64.
Preparativos da guerra de África.
Rebolei perdido no teu imaginário.
Aturdido com as perspectivas todas que me esperaria a guerra.

A pior, de ir e nunca mais voltar.
Como, se minha vida real ainda estava a começar?
Deixei de ver-te, no cálido mês de Agosto, quando zarpamos para o tenebroso cais de Alcântara.

Dali partimos pelos mares adentro.
Tão sombrios.
Arriscando a vida mas – assim o acreditávamos – mas salvando a honra…
Oxalá te volte a ver, aí ao pé, ó Chafariz de pedra, no Café Geraldo…

Berlim, 13 de Outubro de 2019
16h29m
Jlmg

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Começar a manhã

Pintar um poema
Pincéis. Tintas e uma tela.
Tudo preciso.
Na mente uma ideia.
Às pinceladas solto palavras.
Vêm em cachos. Todas ligadas.
Familiares ou parentes.
Seguem a ordem que a mente lhe dá.
Revelam a mensagem que brota de cá.
Se vestem das cores, conforme lhes dá.
Usam os tons em claro e escuro.
Trazem os anseios que palpitam na alma.
Rezam e oram que a beleza as adorne.
Festejam a paz e a alegria perene.
Cantam de cor o sonho e a cor.
Regalam os olhos, irradiando beleza.
Oxalá dêem fruto.
Para isso pintei de manhã.

Berlim, 16 de Outubro de 2019
9h51m
Jlmg

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Queimou-se o estrugido...

Uma colher de pau.
É preciso mexer. Mexer.
Uma distracção de segundos dá cabo do estrugido.
Queimou…
É preciso recomeçar.
Mais azeite a ferver.
Mais um alho e uma cebola.
Bem esquartejados.
Uns pózinhos de perlimpimpim.
Quando o fundo do tacho aloirar e se sentir aquele cheirinho especial, que faz lembrar a nossa avó, temos a base do cozinhado misterioso.
De pôr a cabeça à roda de quem vai a passar na rua.
Apetece bater à porta…
Quando vem à ideia um bom tema para escrever,
É preciso ser-se rápido.
É um sol-por de pouca dura.
A memória é traiçoeira.
Nunca é de confiar.
Quem discorda?...

Berlim, 18 de Outubro de 2019
18h15m
Jlmg
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Nota do editor

Último poste da série de 13 de outubro de 2019 > Guiné 61/74 - P20236: Blogpoesia (639): "Nossa fatalidade", "Revolta das cores" e "Hoje, não vi esquilos", da autoria de J. L. Mendes Gomes, ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 728

Guiné 61/74 - P20260: Recordações e desabafos de um artilheiro (Domingos Robalo, fur mil art, BAC 1 /GAC 7, Bissau, 1969/71) - Parte VI: Eusébio, um preso que eu mandei tratar com dignidade e que me vai ficar reconhecido




Guiné > Região de Quínara > Fulacunda > 3.ª CART / BART 6520/72 (Fulacunda, 1972/74) > Cerimónia do içar a Bandeira Nacional.

Foto (e legenda): © Jorge Pinto (2014). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]





Recordações e desabafos de um artilheiro (Domingos Robalo, fur mil art, BAC 1/ CAC 7, 1969/71) > Parte VI


[ Foto à esquerda: 

Domingos Robalo, ex-fur mil art, BAC 1 / GAC 7, Bissau, 1969/71; comandante do 22º Pel Art, em Fulacunda]





[Imagem à direita, guião da   2482, "Boinas Negras", subunidade que esteve em Fulacunda,  entre 30 de junho de 1969 e 14 de dezembro de 1970, regressando nesta data a Bissau; esta subunidade foi  mobilizada pelo RC 3, pertencia ao  BCAV 2867 (Tite,1969/70); partida: 23/2/69; regresso: 23/12/70; antes de Fulacunda, esteve em Tite; comandante: cap cav  Henrique de Carvalho Mais]

Fonte:   Cortesia de © Carlos Coutinho (2007).
 



Já não sei precisar, mas uns dias depois da minha chegada a Fulacunda (*), em finais de setembro de 1969, o Comandante [, do CCAV 2482,] vai de férias à Metrópole. Entretanto, eu sou escalado para “sargento de dia”.

Efetuou-se o ritual militar para a rendição e o içar da Bandeira Nacional. Recebi a braçadeira de “sargento de dia” do furriel que tinha feito o serviço antecedente.

Terminada a cerimónia/ritual, há um soldado “Boina Negra” que me diz que havia que tratar do preso.

- Do “preso”?! - retorqui.

- Sim, meu Furriel, temos ali (, apontando para um edifício,) um preso.

Na altura fiquei lívido. O Furriel que me tinha passado o serviço não me avisara de tal situação e é um soldado que me informa que há um preso para tratar? Terá pensado que eu tivesse conhecimento?!...

- Vamos lá!... E a chave da prisão?

- Está aqui, meu Furriel.

Abre-se a porta e lá estava o prisioneiro que se encontrava deitado no chão térreo amarrado pelos pulsos. Os soldados mostraram alguma agressividade e descarregaram no coitado.

Rapidamente tive de intervir e ordenei que cessassem de imediato tais atos. Eu não tinha sido militarmente preparado para aquelas situações e os negros não eram para ser tratados daquela forma. Esta era a realidade que o general Spínola nos incutia, para além de que os meus soldados eram africanos e alguns estavam presentes comigo

Estava em curso por toda a Província a “Psico”, uma ação que tinha em vista “que para se ganhar a guerra tinha de se ganhar a adesão da população”.

Os soldados tentaram reagir à ordem,gritando;

- Meu Furriel, por causa destes turras, “filhos da puta”, é que nós estamos aqui.

Eu percebi que aquela reação era do foro íntimo e pessoal, porque sabia que também eles não tinham sido preparados para terem aquela reação. Só que eu não podia permitir tais atitudes, mas compreendia perfeitamente aqueles soldados. Eram contra tudo o que o Governador da Província e Comandante-chefe pretendia. A "Psico" estava por todo o território. Havia necessidade e era imperioso que o Povo Guineense fosse recuperado para a nossa bandeira. O General Spínola estava a iniciar um trabalho de fundo.

Fui ajudado por dois ou três soldados “Boinas Negras” que colaboraram na minha posição de acalmar a situação.

No fim desta confusão toda, deparo com o “turra” que estava simplesmente de boca aberta. Alguém o tinha safo de ser pontapeado e sei lá o que mais poderia ter acontecido. Eu próprio desamarrei os pulsos e requeri a presença do enfermeiro para que o “preso” fosse tratado. Mandei providenciar o pequeno-almoço junto da cantina e o “preso” nem queria acreditar no que estava acontecendo.

Entretanto, aproximaram-se mais uns soldados juntamente com soldados do meu pelotão testemunharam os restantes factos. Perguntei ao preso o nome, o que este respondeu:

- Eusébio.

Os pulsos já tratados pelo enfermeiro, e com o pequeno-almoço tomado, davam algum conforto ao Eusébio. Aí, o Eusébio pede para fazer chichi. Apercebendo-me eu que existia uma lata onde este urinava e defecava, percebi que aquilo não eram as condições mínimas para tais necessidades. Tomo a iniciativa de o deixar ir aos urinóis ali ao lado da prisão.

- Furriel, ele vai fugir - alguém questionou.

Mentalmente apercebi-me do risco que eu estava a correr. Virei-me para o Eusébio e com voz autoritária disse-lhe:

- Tu vais aos sanitários, mas vão dois homens atrás de ti, com G3 em punho e prontos a disparar se tentares fugir.

Cabisbaixo, foi aos sanitários, regressou e permaneceu o dia fechado na prisão com banco, almoço e jantar. Tinha diariamente as refeições, não apresentando sinais que indicassem o contrário. Durante o dia e à noite não ficou com os pulsos amarrados. Os pulsos foram tratados novamente ao fim do dia e colocados dois sentinelas posicionados à porta da prisão.

Passados estes momentos de tensão, tudo se acalmou. Os soldados perceberam que não tinham agido corretamente e a situação não mais se repetiu.

- Mas, porque estava o Eusébio preso? - comecei eu a questionar-me a mim próprio.

Perguntei aos meus camaradas, que me contaram:
O Eusébio fazia parte de um grupo de milícias que colaborava com a Companhia. Antes de eu ter chegado a Fulacunda, havia na prisão uma “turra” que terá sido apanhado. Numa noite chuvosa, estando o Eusébio de sentinela ao “turra” preso, este foge. As condições meteorológicas terão ajudado a esta situação. A forma como tudo ocorreu, ao certo, nunca soube.

Porém, o Eusébio afirmava que o “turra” tinha fugido aproveitando a noite de chuva e trovoada, mas é a ele que é imputada a responsabilidade e a “facilidade” concedida para a fuga do “turra” preso.

Por algum tempo o Eusébio continua preso e periodicamente lá vou fazer o meu “Sargento de Dia”. O Eusébio estava bem, fisicamente, já que psicologicamente “sentia-se preso”. Pouco tempo depois foi enviado para Bissau, debaixo de prisão.


(Continua)

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Nota do editor:


Último poste da série > 12 de outubro de 2019 > Guiné 61/74 - P20232: Recordações e desabafos de um artilheiro (Domingos Robalo, fur mil art, BAC 1 /GAC 7, Bissau, 1969/71) - Parte V: Rumo a Fulacunda, com o 22º Pel Art, passando por Bolama, e com batismo de fogo

Guiné 61//4 - P20259: Parabéns a você (1697): Fernando Súcio, ex-Soldado CAR do Pel Mort 4275 (Guiné, 1972/74) e Rogério Cardoso, ex-Fur Mil Art da CART 643 (Guiné, 1964/66)


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Nota do editor

Último poste da série  de 19 de outubro de 2019 > Guiné 61/74 - P20256: Parabéns a você (1696): Joaquim Ascenção, ex-Fur Mil AP Inf da CCAÇ 3460 (Guiné, 1971/73)

sábado, 19 de outubro de 2019

Guiné 61/74 - P20258: Tabanca da Diáspora Lusófona (2): In Memoriam: o meu condiscípulo, amigo e camarada de armas Vieira Abreu: os nossos insólitos encontros e desencontros ao longo da vida, do seminário à guerra, de Saint Germain des Prés (Paris) a Fátima, de Queens à Portela (Lisboa)... até que a sua morte, inesperada, nos vem agora separar de vez (João Crisóstomo, Nova Iorque)


Nova Iorque > 6 de outubro de 2019 > João Crisóstomo (1) e Vilma Kracun (Crisóstomo, por casamento) (2) recebem na sua casa em Queens a embaixadora de Timor nas Nações Unidas, Milena Pires (3) e o embaixador de Portugal nas Nações Unidas, Francisco Duarte Lopes (7), bem como o nosso amigo e membro da Tabanca de Porto Dinheiro / Lourinhã, Rui Chamusco (5) e ainda Graça Dinis (4) e Rosa Henriques (6).(LG)


Nova Iorque > 6 de outubro de 2019 > Edgar João é o terceiro  a contar da esquerda, em foto com o João, a embaixadora Milena Pires e a Vilma.  O João passa a ser o nosso régulo da Tabanca da Diáspora Lusófona, mais uma tabanca da Tabanca Grande...De resto, há muito que sabíamos qe o João, para além de ser uma "força da natureza",  é também  um mestre na arte de bem receber, juntamente com a sua/nossa querida Vilma ...

O Rui Chamusco, que acaba de passar um mês na casa do João e da Vilma, e com quem estive há umas horas na Praia da Areia Branca (, com um casal de primos da Malcata, Sabugal, que vieram cá passar o fim de semana), mostrou-me fotos desta festa em que se assaram sardinhas portuguesas e se bebeu seguramente vinho português!... Ao que parece, a fumarada era tanta que a senhora embaixadora de Timor receou que os bombeiros e a polícia de Queens ainda aparecessem... para se juntarem à festa (, que aqui se diz "party"!)...

João, que Deus, Alá, Jeová e os bons irãs da Tabanca Grande, te protejam, e te deem ainda muitos e bons anos de vida com saúde e alegria. A ti,à Vilma e aos vossos amigos. Como sabes, e de acordo com o espírito da nossa Tabanca Grande e a letra do nosso proverbiário, os amigos dos nossos amigos nossos amigos são...(LG)


Fotos (e legendas): Edgar João, página pessoal do Facebook (2019), com a devida vénia...[Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Grça & Camaradas da Guiné]






1. Mensagem do nosso amigo luso-americano João Crisóstomo, e nosso camarada da diáspora (EUA, Nova Iorque), ex-alf mil, CCAÇ 1439 (Enxalé, Porto Gole e Missirá, 1965/67), casado com a eslovena Vilma, e destacado ativista social, que liderou campanhas bem sucedidas como a defesa das gravuras rupestres de Foz Coa, a reabilitação da memória de Aristides Sousa Mendes ou o apoio à autodeterminação de Timor Leste.



Data: sexta, 18/10/2019 à(s) 15:13

Assunto: Tabanca da Diáspora Lusófona (*)


Caro Luís Graça,

Porque tens manifestado interesse em saber notícias do pessoal da "Tabanca da Diáspora Lusófona", como um dos alojados nesta Tabanca Grande, creio que são horas de pôr a minha escrita em dia. 


Tenho de te enviar o que tenho em dois E mails separados, dada a sua completa divergência de assuntos. Aliás ando já há bastante tempo para o fazer, mas sempre sucede algo que me leva a adiar; e quando a idade já tem o seu parecer a dar, o tempo passa sem darmos por isso. Sucedeu assim ainda na semana passada com a partida do nosso camarada Abreu.

Não sei se te lembras bem dele, pois pelo que me parece, ele não era visita assídua   das nossas reuniões. Eu convidei-o a vir e um dia ele apareceu, no mesmo dia que o Antunes ( Francisco José Ferreira Antunes da Silva,  antigo comandante-piloto da TAP) também apareceu. [Foi formado pelo ACVT - Aeroclube de Torres Vedras, em 1962, antes de ingressar na TAP.] 


Tanto o Antunes como o Abreu, embora de cursos/anos diferentes, foram meus colegas de Seminário em Montariol e, depois dum "Ano de Noviciado" em Varatojo [, Torres Vedras], estivemos juntos outra vez em Leiria nos chamados "três anos de filosofia". Depois disso, saídos do Seminário, eu perdi o contacto deles, mas mais tarde vim a saber que ambos pertenciam aos que passaram por terras da Guiné. 

O Antunes que, soube depois, foi durante muitos anos piloto da TAP, apesar de ser meu vizinho, natural de (e com uma residência em Ponte do Rol [, Torres Vedras,] onde aparece de vez em quando, quando eu ia a Portugal e o procurava, ninguém me conseguia ajudar: no Seminário chamávamos-lhe Antunes e era por esse nome que eu procurava, mas ninguém o conhecia com esse nome. Eu, teimoso, não desistia e finalmente(, 49 anos passados)  alguém me recomendou falar com o carteiro que reconheceu o nome e nos possibilitou aquele encontro de emoção que sucede sempre em circunstâncias destas.

A história com o Abreu foi bem diferente, mas muito invulgar: estava eu um dia na Guiné, "no meio duma operação" e, cansado, estava sentado no chão de costas contra o tronco de uma árvore a comer não sei o quê, quando vejo ao meu lado uma cara conhecida que não via há muito tempo e que não esperava ali : era o Abreu, também alferes miliciano numa outra companhia que nesse dia se juntou à nossa,   nessa "operação no mato" de que não me recordo mais detalhes. 

Como eu, ele tinha saído do Seminário e, feito o curso em Mafra, ... ali estava... Mas recordo-me bem dos assuntos que o tempo e circunstâncias nos levaram a falar, pois que me surpreendeu com uma mente e visão já mais liberal e mais "arrojada" do que eu, que nessa altura ainda me regia pelo pensar conservador que me tinham encaixado no Seminário.

Depois dissemos "até à próxima" e seguimos cada um para seu lado. Quando, "acabada a tropa",  voltei a Portugal decidi ir passar uns tempos na Inglaterra, França e Alemanha para aperfeiçoar as respectivas línguas, com intenção de me dedicar ao Turismo em Portugal. 

Foi em França que "a próxima vez" se concretizou também de maneira inesperada: estava eu a sair do Metro, subindo as escadas da "entrada" em Saint Germain des Prés, e vejo o Abreu a descer as escadas … Foi outra vez "aquele abraço", ambos satisfeitos por termos sobrevivido e voltado com saúde das terras da Guiné. 

Mais uma vez, dadas as despedidas, separámo-nos já que cada um de nós tinha planos diferentes: ele tencionava ficar em França mais uns tempos e eu estava de partida para a Alemanha onde tencionava melhorar o pouco da língua alemã que  tinha aprendido no seminário. 

Mas, como todos os bons portugueses no estrangeiro, quando surgia uma oportunidade eu ia a Portugal. Uma destas férias ocorreu num mês de Maio e minha mãe, que "há muito queria ir a Fátima comigo",  pediu-me e fez questão que eu a acompanhasse para agradecer à Senhora de Fátima o meu regresso da Guiné são e salvo. E fomos. Estava eu ajoelhado ao lado da minha mãe no meio do recinto, quando olhei ao redor e... outra vez!,  ali estava o Abreu,   de joelhos mesmo a meu lado. E mais uma vez seguimos os nossos separados destinos. 

Passados anos voltei a Portugal e comprei um apartamento na Portela, na mesma rua da minha irmã mais nova, Jacinta, que como eu e comigo tinha calcorreado terras em França,Inglaterra e Alemanha e que, tendo voltado a Portugal mais cedo que eu, me tinha ajudado a encontrar esse apartamento. E um belo dia diz-me ela: 

- Olha, encontrei um senhor que te conhece bem e te quer ver: chama-se Vieira Abreu e tem um apartamento nesta rua…

Voltei de novo aos Estados Unidos. E foi aqui que viemos a estar mais tempo juntos , pois o Abreu,  que tinha trabalhado para a TAP, quis visitar Nova Iorque com sua esposa e filhos e eu tive oportunidade de lhes oferecer hospitalidade em minha casa durante os dez dias que aqui estiveram. 

Sei que foi em Agosto de 2001 pois passadas duas ou três semanas de eles terem voltado a Portugal,   aconteceu o atentado às Torres Gémeas [, em 11 de setembro de 2001].

No ano passado fui a Portugal e fui visitá-lo: ele tinha tido uma grande operação que tinha corrido muito bem e estava muito contente e esperançado na sua completa recuperação.

Infelizmente,  meses depois de repente "teve uma recaída" de que não se conseguiu levantar e foi com pesar que acabo de saber da sua passagem. Junto-me à sua família e a todos os que neste momento elevam as suas preces ao Senhor: Paz à sua alma.


João Crisóstomo
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Guiné 61/74 - P20257: Os nossos seres, saberes e lazeres (360): A minha ilha é um cofre de Atlântidas (2) Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 9 de Maio de 2019:

Queridos amigos,
Chegado à ilha de São Miguel em outubro de 1967, vivendo em Ponta Delgada em quarto alugado, aquele aspirante a oficial miliciano dispunha dos fins de semana por sua conta e risco.
Começou por visitar o Museu Carlos Machado, ao tempo museográfica e museologicamente medíocre, não deixava expandir a riqueza do seu acervo. E deu-lhe para visitar num sábado a Caldeira das Sete Cidades. Largado na povoação ainda não eram oito da manhã, o motorista informou-o que a camioneta de regresso só seria ao fim da tarde, não havia problema, iria coscuvilhar o que pudesse e levava um livro debaixo do braço, para dar trégua aos pezinhos. O busílis foi descobrir que faltavam casas de pasto ou restaurantes, depois de muitas peripécias indicaram-lhe uma taberna, houve que negociar uns ovos com chouriço e batata frita, o casqueiro era um regalo, tudo culminou com rodelas de ananás e um cafezinho de saco e uma fatura económica.
Não deu para esquecer, o termo de comparação é impossível, as Sete Cidades são hoje um poiso turístico onde, mesmo ao lado do viandante que comia um belo arroz de lapas um grupo de japonesas bem maduras, à cautela, davam gritinhos com uma caldeirada de cabrito. Isto só para dizer que tudo mudou nos Açores, o local português que mais beneficiou com o 25 de Abril, e bem merecia.

Um abraço do
Mário


A minha ilha é um cofre de Atlântidas (2)

Beja Santos

Que bem jantou o viandante, arroz de lapas com abrótea, foi num self-service onde se desdobravam pratos de carne e peixe, preferiu repetir a iguaria, andava aquoso deste manjar sem rival. E apressou-se a saber a ementa do dia seguinte, arrebitou-lhe a orelha com o boca negra e o chicharro, as lentilhas, a batata-doce, o que vale é que vai palmear uns quilómetros, está em crer que a lagoa se estende por mais de quatro quilómetros, vai dividir por partes, tem o tempo do seu lado. Regalado com a vida, de estômago apaziguado, atira-se à estrada. Vai começar pelo túnel de descarga da lagoa, inaugurado em 1937, veio resolver problemas de inundação, o que interessa é que nada desfeia o meio circundante, parece que está lá instalado desde tempos imemoriais.


A lagoa é bela de alto a baixo, tanto a beijar a terra fértil como no Pico das Éguas, a maior elevação da zona, acima dos 800 metros. O viandante tem a manhã toda por sua conta, nos baixios procura o contraste entre o plaino e o frondoso, o mundo florestal em consórcio com o mundo aquático, lá em cima a caldeira ganha outras tonalidades, acresce a instabilidade do tempo, como adiante se verá.






Já se palmilhou uma boa parte da ilha, dá-se agora descanso aos pés, com esta azália tão frondosa em frente. Bisbilhota-se o que diz um folheto sobre a região da Lagoa das Sete Cidades: “Este cenário idílico situa-se na cratera vulcânica das Sete Cidades e é o maior reservatório natural de água doce da superfície dos Açores. Esta lagoa encontra-se dividida por um canal pouco profundo onde existe uma ponte que separa de um lado as águas de tom verde e do outro as de tom azul”. E sugere-se ao leitor a visita a outras lagoas, já se falou nas Empadadas, mas há também a de Pau Pique e de Santiago, do Canário e a Rasa. O viandante não quer sair daqui, se é idílico é para gozar até ao tutano, que a lembrança se embrenhe, não se volatize.


Março, por definição, não é mês da exuberância das florescências, nada de dálias, ou verónica ou begónias ou lobélia, tem esperança de encontrar um vastíssimo mundo de cor no parque Terra Nostra, noutra etapa. Eis senão quando se depara esta hortênsia branca a rebentar, para delícia dos olhos, e por estranha associação o viandante recordou uma magnífica viagem à ilha de São Jorge, em 1991, fora convidado para ali palestrar, imagine-se dentro de um festival de música, num teatro da Calheta, elegante e íntimo, ofereceram-lhe um passeio até ao antigo concelho do Topo, se já vira milhares e milhares de hortênsias ou hidrângeas, estas, todas elas eram de um azul mineral, rebrilhavam como aço, e quando se chega ao ponto ermo do Topo aquele tapete espraia-se, estava uma tarde muito clara e alguém chamou a atenção para um ponto lá ao fundo, a Ilha Terceira, tudo inesquecível, tudo guardado no coração.


Já se almoçou, anda-se alvorotado com tão magnífico peixe, o cozido fica para as Furnas, toca de esmoer tão boa refeição, prossigamos com este renque de plátanos, daqui a uns anos estarão em esplendor, entra-se num caminho num outro ponto da lagoa, tudo beleza em redor, as águas não estão quietas, parecem dialogar com a paisagem, foi uma tarde inesquecível e quando se regressou com toda a Natureza nos bolsos, e com os olhos lavados, vieram nuvens imprevistas e houve aquele momento que pareceu tirado das imagens religiosas muito em voga nos anos 1970, a luz a sair das trevas, como a sugerir que Deus não dorme e que Nele deve estar toda a nossa esperança, transformada em desvelo pelo humano, numa palavra de amor. E com pensamentos positivos se encerra o dia, amanhã toma-se um transporte público a caminho de Ponta Delgada. Outros regalos à espera.






(continua)
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Nota do editor

Último poste da série de 12 de outubro de 2019 > Guiné 61/74 - P20233: Os nossos seres, saberes e lazeres (359): A minha ilha é um cofre de Atlântidas (1) Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P20256: Parabéns a você (1696): Joaquim Ascenção, ex-Fur Mil AP Inf da CCAÇ 3460 (Guiné, 1971/73)

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Nota do editor

Último poste da série de 18 de Outubro de 2019 > Guiné 61/74 - P20251: Parabéns a você (1695): Luís Nascimento, ex-1.º Cabo Op Cripto da CCAÇ 2533 (Guiné, 1969/71)

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Guiné 61/74 - P20255: Pequeno dicionário da Tabanca Grande, de A a Z (5): edição, revista e aumentada, Letra C


Foto nº 1



Foto nº 2

Guiné > Região de Baftá > Bafatá > Vista aérea > Foto nº 1 > Em primeiro plano, o rio Geba e a piscina de Bafatá (que tinha o nome do administrador Guerra Ribeiro e foi inaugurada em 1962). Do lado esquerdo, o cais fluvial, uma zona ajardinada, a estátua do governador Oliveira Muzanty (1906-1909)... Ao centro, a rua principal da cidade. Vê-se, ao fundo, a estrada que conduz à saída para Nova Lamego (Gabu), à direita, e Bambadinca-Xime, à esquerda. 

Do lado direito,  em baixo, pode observar-se a traseira do mercado. Do lado esquerdo, no início da rua, um belo edifício, de arquitetura tipicamente colonial, pertencente à famosa Casa Gouveia, [, assalanado a amarelo, na foto nº 2], que representava os interesses da CUF - Companhia União Fabril, e que, no nosso tempo, era o principal bazar da cidade, tendo florescido com o patacão (dinheiro) da tropa. Por aqui, pela "princesa do Geba", Bafatá,  passaram milhares e milhares de homens ao longo da guerra,. que aqui faziam as suas compras, iam aos restaurantes e se divertiam... com as meninas do Bataclã.



Fotos: © Humberto Reis (2006). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné.]


1. Continuação da publicação do Pequeno Dicionário da Tabanca Grande (*), de A a Z, em construção, com o contributo de todos os amigos e camaradas da Guiné que se sentam aqui à sombra do nosso poilão. 

Entradas da letra C:


Ca bai - Não vou (crioulo)

Ca misti - Não quero (crioulo)

Ca pudi - Não posso (crioulo)

Cabaceira - Árvore e fruto do embondeiro (não confundir com Poilão) (crioulo)

Cabaço - Hímen, virgindade (crioulo)

Cabeça Grande - Bebedeira (crioulo)

Cabo Aux Enf - 1º Cabo Auxiliar de Enfermeiro

Cabo Enf - 1º Cabo Enfermeiro



Caco / Caco Baldé - Alcunha do Gen Spínola (mas também 'Homem Grande de Bissau', 'O Velho', 'O Bispo'; origem: de caco, monóculo; mais Baldé, apelido frequente entre os fulas); o historiador Luís Nuno Rodrigues escreveu a sua biografia (Lisboa, A Esfera dos Livros, 2010; a foto ao lado é retirada da capa, com a devida vénia...) 

Cães Grandes - Oficiais superiores (gíria)

Chabéu – Dendê (fruto); prato típico da Guiné-Bissau, de peixe ou carne, feito com óleo de palma (etimologia: do crioulo "tche bém") 

Cal - Calibre 

Camarigo - Camarada e Amigo (por contracção); termo criado na Tabanca Grande 

Cambar - Atravessar um rio (crioulo) 

Candongas - Transporte colectivo privado, usado hoje no interior da Guiné Bissau 

Canhão s/r - Canhão Sem Recuo 

Canhota - A espingarda automática G3 

CAOP - Comando de Agrupamento Operacional 

CAOP1 - Comando de Agrupamento Operacional nº 1 

Cap - Capitão 


Cap Grad - Capitão graduado

Cap Art - Capitão de Artilharia

Cap Cav - Capitão de Cavalaria

Cap Eng - Capitão de Engenharia

Cap Inf - Capitão de Infantaria

Cap Mil - Capitão Miliciano 


Cap QEO - Capitão do Quadro Especial de Oficiais

Cap QP - Capitão do Quadro Permanente 


Cap SAM - Capitão do Serviço de Administração Militar

Capim - (i) Nome comum de planta gramínea, típica da savana arbustiva; (ii) sinónimo de dinheiro ou arame, bago,cacau,carcanhol, caroço, chapa, cheta,graveto, guita, grana, massa, milho, papel, pasta, pilim, prata (gíria)

Capitão-proveta - Cap Mil, oriundo do CPC (gíria) 


CAR - Condutor auto-rodas

Carecada - Castigo disciplinar, imposto pelo superior hierárquico, e que consistia no corte de cabelo à máquina zero (gíria) 

CART - Companhia de Artilharia 


Casa - Estabelecimento comercial; antes da guerra, havia "casas" por todo o território, pertencentes a metropolitanos, cabo-verdianos e sírio-libaneses; dedicava-se ao comércio por grosso (compra de produtos locais, virados para a exportação, nomeadamente oleaginosas)  e ao comércio a retalho.

Casa Gouveia - A principal empresa colonial da Guiné, fundada por António da Silva Gouveia em finais do Séc. XIX; republicano, Silva Gouveia será o representante da colónia na Câmara dos Deputados, na 1ª legislatura (1911-1915; em 1927, a Casa Gouveia é adquirida pela CUF.
Catota - Orgão sexual feminino; partir catota = ter relações sexuais (crioulo, calão) 

Cavalos duros - Feridas no pénis e órgãos genitais e até na boca e no ânus, sintomas de doença venérea (calão) 

Cavalos moles - Sintomas de sífilis, doença venérea (fendas no pénis) (calão)

CCAÇ - Companhia de Caçadores 

CCAÇ I - Companhia de Caçadores Indígenas 

CCAV - Companhia de Cavalaria 

CCM - Curso de Capitães Milicianos 

CCmds - Companhia de Comandos 


CCE - Companhia de Caçadores Especiais

CCP - Companhia de Caçadores Paraquedistas 

CCS - Companhia de Comando e Serviços 


CEMA - Chefe do Estado Maior da Armada


CEME - Chefe do Estado Maior do Exército 

CEMFA - Chefe do Estado Maior da Força Aérea

CEMGFA - Chefe do Estado Maior General da Forças Armadas 

Cento e vinte - Morteiro pesado, de 120 mm 

Cesca - Pistola de 7,65 mm, de origem checoslovaca (PAIGC)


CF - Companhia de Fuzileiros 

CFA - Franco da "Communauté Francophone Africaine", moeda actual da Guiné-Bissau (1 Euro = 655,597 CFA) 

CFORN - Curso de Formação de Oficiais da Reserva Naval (Marinha) 

Chão - Território étnico (vg, chão fula) 

CHASE - Em formação, atrás de (FAP) 


Checa - Militar novato, termo usado em Moçambique; equivalente a pira, periquito (Guiné), ou maçarico (Angola) 


Cheret - Chefia de Reconhecimento de Transmissões

Checklist - Livro de notas do piloto (FAP)

Chipmunk - Avião de treino, de dois lugares, monomotor, de origem canadiana (FAP)

Choro - Conjunto de rituais celebrados por ocasião do falecimento de uma pessoa, parente ou vizinho (sobretudo entre os animistas) (crioulo)

Cibe - Palmeira; utilizam-se rachas de cibe como barrotes na construção; é resistente à formiga baga-baga (crioulo)



Cilinha - Nome de guerra de Cecília Supico Pinto (1921-2011), a fundador e líder histórica do MNF – Movimento Nacional Feminino 

[Foto à esquerda: Em visita a Nhala, © António Murta, 2015]


CIM - Centro de Instrução Militar

CIM Bolama - Centro de Instrução Militar de Bolama



CIM Contuboel - Centro de Instrução Militar de Contuboel

CIOE - Centro de Instrução de Operações Especiais


Cipaio - Elemento nativo da polícia

Circuncisão - Vd. Fanado. Havia/há a circuncisão masculina e a feminina. Vd. MGF. 

CISMI - Centro de Instrução de Sargentos Milicianos de Infantaria (Tavira)

CM - Cabo de Manobra (Marinha) 

Cmd - Comando 

Cmdt - Comandante 

COE - Curso de Operações Especiais 

COM - Curso de Oficiais Milicianos 

Com-Chefe - Comando-Chefe 

Conversa giro - Fazer amor, ter relações sexuais (crioulo) 

COP - Comando Operacional 

COP7 - Comando Operacional 7 

Cor - Coronel 

Corpinho - Sutiã, soutien (crioulo) 

Corpo di bó - Como estás ? (crioulo)


Corta-capim - Aerograma, carta, bate-estrada (gíria) 

Costureirinha - Pistola metralhadora PPSH (PAIGC) (gíria)

CPC - Curso de Promoção a Capitão do Quadro Complementar 

CPLP - Comunidade dos Países de Língua Portuguesa 

CSM - Curso de Sargentos Milicianos 

CTIG - Comando Territorial Independente da Guiné 

CUF - Companhia União Fabril (representada, na Guiné,  pela Casa Gouveia) 

Cupilão - Pilão, bairro popular de Bissau, atravessado pela estrada para o aeroporto; Cupelon, Cupilom, Cupelão... 


Cussas - Coisas (crioulo)

CVP - Cruz Vermelha Portugal
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Guiné 61/74 - P20254: Notas de leitura (1227): Missão cumprida… e a que vamos cumprindo, história do BCAV 490 em verso, por Santos Andrade (28) (Mário Beja Santos)



1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 27 de Maio de 2019:

Queridos amigos,
Deixa-se para mais tarde a descrição da atividade operacional do BCAV 490. Procurou-se o recurso ao diário de Armor Pires Mota, "Tarrafo" e ao livro "A Guerra da Guiné" de Hélio Felgas, é uma tentativa de juntar um depoimento pessoal de quem faz parte da história do BCAV 490 ouvindo a exposição do Tenente-Coronel Hélio Felgas, onde se insinua que a área que esteve sob o seu comando, Bula, melhorou muito, não escondendo, nos entretantos, o alastramento da guerra.
Quanto mais se procura decifrar a lógica do pensamento estratégico que presidia a esta atividade operacional esbarra-se com a falta de documentos. E aqui se deixa uma reflexão. É inteiramente inviável escrever uma história da guerra da Guiné sem proceder ao estudo de toda a documentação de caráter estratégico do Brigadeiro Louro de Sousa e de Arnaldo Schulz, é incompreensível passar-se em silêncio todo este vasto período e cair de repente na era Spínola, com a inflação de documentos, imagens, filmes, depoimentos, livros de toda a espécie. Aliás, as obras repetem-se umas às outras, de quando em quando citam-se os boletins das Forças Armadas e os livros impressos, trabalhar sai do pelo, há muito a procurar nos arquivos dos ministérios da Defesa e do Ultramar, para já não falar no Arquivo Histórico-Militar.

Um abraço do
Mário


Missão cumprida… e a que vamos cumprindo (28)

Beja Santos

“Comemos mancarra assada,
o sofrimento começou.
Na 487 este mês
foi triste o que se passou.

Em Jumbembem se encontrava
o Geraldes e o Ananias,
trabalhando, todos os dias,
Abílio também lá estava.
O Almorindo passava
muitos dias sem comer nada.
A comida não era carregada
por não se poder transportar
e para que a fome melhor se aguentar,
comemos mancarra assada.

Em Cuntima a alinhar
o amigo António José,
de viatura ou a pé
para a estrada patrulhar.
Os bandidos os iam esperar
e, às vezes, até se lutou.
Muitas árvores se tirou,
pelos malvados derrubadas
e andando grandes caminhadas
o sofrimento começou.

A 31 de Maio abalámos
para a Farim regressar
mas houve grande azar:
3 emboscadas apanhámos
algumas vezes nos levantámos,
mas atacaram muita vez.
Muito fogo aqui se fez
esgotando quase as munições
e sofreram-se muitas aflições
durante este mês.

O Aníbal Joaquim foi ferido
com estilhaços de granada.
O 26, bom camarada,
numa mão foi atingido;
o 320 ficou estendido,
porque um tiro na cabeça levou;
o Sarg. Revez na viatura o levou
com o 33 a socorrer,
mas depois de tanto sofrer
foi triste o que se passou.”

********************

Para esta evocação do bardo faz-se recurso ao que anda a fazer Armor Pires Mota, em bandas próximas, mas nem sempre coincidentes. No tal dia 31 de maio, depois de ter estado em Sitató, a 27, passou por Cuntima e escreve: “Um dia igual a tantos outros dias iguais. Deixada Cuntima, só os macacos, gritando de ramo em ramo, bordejavam a estrada. Às três horas da tarde, chegámos a Jumbembem, à serração”.

Sem neste momento se fazer recurso à cronologia das operações, consulta vantajosa para em certos momentos entender as dores de alma do nosso bardo, importa dizer que o diário intitulado “Tarrafo”, de Armor Pires Mota, ajuda-nos a entender o que ele experienciou fundamentalmente em Jumbembem, desde maio de 1964 até junho de 1965. Nesta povoação observa as lides, vê chegar muita gente que tinha sido profundamente atingida pela subversão, aldeias queimadas, fugas, ameaças, divisões familiares na escolha do lado em que se fica. Armor vai estando atento à vida em Jumbembem, chegou a época das chuvas, há gente que vai à caça e de repente chega-se a um local altamente problemático na época, Canjambari.

Estamos em 9 de outubro, e ele escreve:
“A estrada está atravancada de árvores e bissilões de grande porte que chegam a cruzar-se uns sobre os outros.
A nossa missão era: levantamento de abatises.
Antes de chegarmos às árvores, apeámos, prevendo já a táctica e as manhas do inimigo.
Ele deixou-nos entrar na zona de morte.
Um estrondo ecoou, seguido de rajadas e estrondos sucessivos.
6.50.
Uma chuva de granadas começou a rebentar rente a nós, lançadas por autênticos suicidas, atordoando-nos. E os estilhaços voavam. Uma chuva densa de balas feria o espaço, partia ramos, furava o capim verde, tilintava ao bater nas viaturas. E nós, uns deitados, outros de joelhos, varríamos tudo à nossa frente. Corria sangue.
O sol tinha encorado por detrás do arvoredo na distância, agarrado a um céu azul. (…) E começamos a atacar as árvores. Uns fendiam-nas com serrões. Outros cravavam-lhes os machados e as catanas.
Volteavam os ferros no ar, curvavam-se e rasgavam os troncos arrogantes. E, cortados, o Unimog arrastava-os com o guincho para dentro do mato.
Os terroristas continuaram a açoitar-nos com rajadas espaçadas e uma estrangalhou um carregador da Madsen. O apontador deu um salto para trás. A morte rondou-lhe a escassos centímetros.
E nova emboscada nos lançou por terra. A gente, ao lançar-se por terra, não vê onde cai, se é dura ou mole, ou está armadilhada. E caí todo no meio de um formigueiro enorme. Quando dei por tal, já as formigas me tinham feito o cerco cerrado e entravam a ferrar-me, sem dó nem piedade, subiam-me as costas, os pés e as mãos. Elas quase me iam comendo. E o meu jogo era este: coçava-me, rebolava-me, matava às mãos cheias, esmagando-as entre o corpo e a farda, esmagando-as entre os dedos, fazia fogo. Coçava-me, rebolava-me…
O sol tinha subido no azul. Quase a pique, faiscava, estilhaçava-se todo no cano da arma, enviava-me lâminas de fogo para a fronte, para os olhos”.

Copa de Bissilão 
Imagem retirada do blogue Intelectuais Balantas na Diáspora, com a devida vénia

Mas Armor também nos fala dos dias de festa, da praga dos mosquitos, de incêndios, das operações a Canjambari, Fanbantã, e não perde oportunidade de nos falar do apoio dado em Cuntima aos doentes, vinham em grande número do Senegal:
“Cuntima é sentinela avançada, junto à fronteira norte.
Nos princípios de 1964 estava quase abandonada, porque as populações, que viviam à volta, intimidadas, passaram para o Senegal. Mas hoje estão a regressar, sem entraves da parte dos gendarmes, aldeias inteiras, já de olhos postos na próxima sementeira da mancarra e preparando os arados para o amanho das bolanhas.
Confiam na tropa. E esta confiança foi-se consolidando à medida que a zona ia sendo limpa. E um factor decisivo que concorreu extraordinariamente para o regresso das populações ao seu chão, ao ‘chão de Português’, foi a psicossocial desenvolvida pelo Dr. José Lourenço, espírito dinâmico, aberto e comunicativo. A princípio, todos os dias, apareciam no posto de socorros dezenas e dezenas de refugiados, cheios de mazelas. Hoje, formando bicha, não faltam doentes do Senegal, sobretudo da cidade de Koldá, e até alguns da Gâmbia. (…) Muitas mulheres, sobretudo mulheres de gendarmes e padres mouros, uns dias antes do dia previsto, vêm esperar a sua hora em casa de alguma pessoa amiga, ali em Cuntima, onde, depois, é chamado o médico para assistir ao parto sem que regateie um minuto sequer, seja a que hora for. E, então, as mães, contentes e, numa prova de gratidão, põem aos filhos o nome do médico, que cedo começam a deturpar. Há alguns que ficam a chamar-se José Doutor. Há mesmo uma miúda que tem o nome de Maria Lissa, deturpação de Maria Luísa, filha do Dr. José Lourenço. (…) Ainda não há muito tempo que o comandante dos guardas da fronteira, no fim da visita de inspecção ao posto de Sare Wale, enviou um recado ao capitão a pedir-lhe que fosse à fronteira. Este não se fez rogado e lá partiu com o médico e mais alguns homens, mas todos desarmados. Convidaram-no a vir sentar-se à sombra de um mangueiro do ‘Chão Português’ e ali trocaram longos minutos de conversa. Que estava imensamente reconhecido, assim como o seu governo, pela assistência médica que a tropa prestava a muitos senegaleses”.

Há páginas deste diário em Sulucó, Fanbantã, mas Jumbembem é verdadeiramente o ponto de irradiação, ele despede-se de nós a 6 de junho, é o seu penúltimo depoimento, fala do renascimento da tabanca de Lamel. Há crianças que cantam canções portuguesas com “A Tia Anica do Loulé” ou “O Tiroliro”, Armor está feliz, pois a aldeia nova é uma realidade.

Voltemos a Hélio Felgas, estamos agora no segundo semestre de 1964, ele considera que as forças portuguesas começaram a assenhorear-se da situação na Guiné, condições que, a partir do princípio de 1965, estavam a permitir encarar o aspeto militar com justificado otimismo. Enquanto tal afirma não se esquece de dizer que tinha alastrado a presença terrorista em Badora e Cossé, entre Bambadinca e Bafatá, era clara intenção do PAIGC intervir na área dos Fulas. No seu livro, Felgas procura desmontar os alardes propagandísticos do PAIGC, as fantasiosas centenas e dezenas de mortos, por exemplo.

Entretanto, enquanto afirma ter havido uma diminuição da atividade do PAIGC, este apresenta-se em Canquelifá, mostrava atividade nas zonas do Oio, em Farim e Canhamina.
E escreve:
“A norte de Cacheu havia indícios de que o PAIGC procurava controlar a região de Canjambari, a leste de Farim, aproveitando a época das chuvas que impedia ou dificultava o trânsito local das viaturas militares.
Nas estradas do Oio, as emboscadas dos bandoleiros tinham locais quase certos. Entre Bissorã e Olossato, ocorriam em geral por alturas da ponte de Maqué, quase a meia distância das duas povoações.
Entre Mansoa e Bissorã uma grande parte tinha sido na área de Namedão, considerada ponto de passagem dos reabastecimentos vindos da ilha de Bissau para os acampamentos do PAIGC nas matas de Dando, Cambajo e Morés. Entre Binar e Bissorã, os bandoleiros tinham três troços preferidos, todos eles em zonas onde a luxuriante vegetação marginal quase invadia a estrada. Aliás, o perigo subsistia mesmo nos trechos sem vegetação, devido às minas que continuavam a ser largamente empregues. Por vezes, contando com o natural afrouxamento da atenção dos nossos soldados nestes trechos mais descobertos, os terroristas montavam neles emboscadas, chegando-lhes, para se esconderem, o capim, as árvores e os morros de bagabaga que bordam as estradas”.

Uma bem estranha acalmia… E mais adiante, na sua exposição, o Tenente-Coronel Hélio Felgas dá outras informações bem úteis para se entender o estado daquela região:
“Os documentos apreendidos nos acampamentos terroristas continuavam a fornecer indicações de certo modo úteis. Soube-se, por exemplo, que a ‘base’ principal da região 3, estava situada nas proximidades da tabanca de Morés e tinha como responsável-geral Osvaldo Máximo Vieira. Desta base principal dependiam mais de uma dúzia de outras bases das quais as mais importantes e conhecidas eram as de Cambajo, Biambi, Nafa, Iador, Bancolene, Maqué, Fajonquito, Bissancaja, Sarauol, Cabadjal, Sambuiá, Bricama, Sulucó. Em todas elas havia um responsável militar e um responsável político”.

(continua)
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Notas do editor

Poste anterior de 11 de outubro de 2019 > Guiné 61/74 - P20229: Notas de leitura (1225): Missão cumprida… e a que vamos cumprindo, história do BCAV 490 em verso, por Santos Andrade (27) (Mário Beja Santos)

Último poste da série de 14 de outubro de 2019 > Guiné 61/74 - P20238: Notas de leitura (1226): "O Alferes Eduardo", por Fernando Fradinho Lopes; Círculo-Leitores, 2000 (1) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P20253: Consultório militar do José Martins (49): Das leis do Reino e da República, às leis da Igreja, com influência nas Forças Armadas (5)

 
Conclusão da série de cinco postes com o trabalho do José Martins (ex-Fur Mil TRMS, CCAÇ 5, Gatos Pretos, Canjadude, 1968/70), dedicado aos Capelães Militares, com um enquadramento histórico, como só ele sabe fazer, fruto de muita pesquisa e paciência.

Desde já o nosso obrigado ao Zé Martins por mais esta preciosa colaboração que vem enriquecer o espólio deste Blogue.



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Nota do editor

Vd. postes de:

14 de outubro de 2019 > Guiné 61/74 - P20239: Consultório militar do José Martins (45): Das leis do Reino e da República, às leis da Igreja, com influência nas Forças Armadas (1)

15 de Outubro de 2019 > Guiné 61/74 - P20242: Consultório militar do José Martins (46): Das leis do Reino e da República, às leis da Igreja, com influência nas Forças Armadas (2)

16 de Outubro de 2019 > Guiné 61/74 - P20244: Consultório militar do José Martins (47): Das leis do Reino e da República, às leis da Igreja, com influência nas Forças Armadas (3)
e
17 de outubro de 2019 > Guiné 61/74 - P20247: Consultório militar do José Martins (48): Das leis do Reino e da República, às leis da Igreja, com influência nas Forças Armadas (4)