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quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28374: In Memoriam (586): António Dâmaso (ex-srg-mor pqdt) (1940-2026): Textos publicados no blogue dos Especialistas da BA12 - Parte I: os 50 anos dos "brevetados" do 1º Curso de Paraquedismo Militar (1962-2012)

Foto nº 1 > Tancos > Escola de Tropas Paraquedistas > 25 de outubro de 2012 > Três pioneiros do 16.º Curso, eu,  a enfermeira Eugénia e o Nunes Ferreira (eu e ele viemos do RL 1 em Elvas).

Foto nº 2 >  Tancos > Escola de Tropas Paraquedistas > 25 de outubro de 2012 > As enfermeiras Eugénia Espírito Santo Sousa e Maria do Céu Pedro, irrandiando ternura.


Foto nº 3 >  Tancos > Escola de Tropas Paraquedistas > 25 de outubro de 2012 > Na Capela da Unidade na missa por alma dos que já partiram.

Foto nº 4 >  Tancos > Escola de Tropas Paraquedistas > 25 de outubro de 2012 > Porta de armas das TP, com o emblema do Exército

Fotos (e legendas): ©  António Dâmaso  (2012). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné + IA (ChatGPT / Open AI].


1. O António Dâmaso (1940-2026) (*), membro da Tabanca Grande desde 26/7/2009, tinha à data da sua morte  42 referências no nosso blogue. Publicou diversos postes aqui e no blogue dos Especialistas da Base Aérea  12 (Guiné, 1965/74). 

Vamos recuperar um ou outro poste que têm a ver com as relações, mais próximas, que manteve com os nossos camaradas da BA 12, nas suas passagens pelo CTIG (1966/68, 1969/70 e1972/74), e naturalmente com as tropas paraquedistas, a cujo batalhão pertencia, o BCP 12, como furriel e de+ppois 2º srgt

Oriundo de 1º cabo, tirou o brevet em abril de 1962 (16º Curso). Em 1966 era furriel e esteve ligado ao serviço de manuntenção auto, a "ferraugem", do BCP 12. Mas também foi operacional, como 2º sargento, na Guiné e em Moçambique. Já publicámos no nosso blogue (e estão publicadas também no blogue criado pelo Victor Barata, o nosso saudoso grão-tabanqueiro da FAP) algumas das  suas memórias da Guiné (anos de 1969 e 1973). 

O primeiro  texto que recuperamos, do blogue dos Especialistas da Base Aérea 12 (Voo nº 2552, de 14 de novembro de 2012)  é uma notícia do reencontro do pessoal do 16º Curso de Paraquedismo nº 16 (1962),  cinquenta anos depois, em Tancos (2012). 


Cinquentenário dos Brevetados em Paraquedismo Militar em 1962, Curso nº 16 


por António Dâmaso (1940-2026) 


Caros camaradas/companheiros de armas:

Alguns esqueceram-se que as Tropas Paraquedistas (TP) pertenceram por muitos e bons anos à Força Aérea Portuguesa, que o digam aqueles que,  não sendo paraquedistas, com eles prestaram serviço e viveram em harmonia com os Páras e, no que me foi dado observar nos vinte anos que lá estive, a sua colaboração foi excelente.

De início esteve o BCP (Batalhão de Caçadores Paraquedistas) com sede em Tancos Militar, posteriormente promovido a RCP (Regimento de Caçadores Paraquedistas), tudo isto debaixo da tutela do então Secretário de Estado da Aeronáutica, brigadeiro Kaúlza de Arriaga. 

Este senhor foi o impulsionador das TP em Portugal e, dentro das mesmas, do Quadro das Enfermeiras Paraquedistas. Estas jovens,  sem serem aventureiras na aceção da palavra, aventuraram-se no altruísmo e na convicção de que,  na sua qualificação de paraquedistas, poderiam alargar o seu horizonte na sua prestação de cuidados de saúde a militares.

Enfrentaram novos horizontes, tiveram de fazer ver a muita gente que podiam competir com os homens, isto na altura em que todos os que se lançavam em paraquedas eram malucos.

Depois da introdução vamos aos factos:

Desde há seis anos que tenho promovido esforços junto de diversas individualidades no sendo de saber endereços dos meus camaradas de Curso, o 16º, só recebi negas. E por último através deste blogue dos especialistas da BA 12 (Guiné, 1965/74).

Gastei algum dinheiro em chamadas que não deram em nada, mesmo assim contribuí para a localização de vários elementos não só do meu Curso como de outros.

A União Portuguesa de Paraquedistas, organizadora do evento,  convocou os que teve acesso ao endereço e que ainda estavam vivos para comparecerem na cerimónia: uns não compareceram por motivos económicos, por estado de saúde e outros porque não quiseram, estamos num país “livre”.

No dia 25 de outubro de 2012, data do termo do último Curso de 1962, lá fui a caminho de Tancos levando comigo um vizinho que é do Curso a seguir ao meu. Quando chegámos,  conheci a maior parte dos presentes, exceto aqueles que depois de terem cumprido a sua obrigação militar se foram embora.

Dos 78 finalistas do meu Curso (16º), encontrei 10, alguns que não via há 48 anos. A salientar que englobados no meu Curso estão 5 Enfermeiras que complementaram os saltos na mesma altura, em junho de 1962:

  • Maria Amélia Reis de Morais (nº 1596)

Destas apenas compareceram duas, foi com emoção que as cumprimentei por ter sido instruendo de uma e posteriormente ter tido o privilégio de ter trabalhado com elas em prol da prestação de cuidados de saúde a militares da Força Aérea Portuguesa. Para mim apesar da morfologia da idade, continuam a ser aquelas jovens que conheci e com quem privei profissionalmente.

Com elas aprendi a prestar cuidados de saúde com dedicação, entusiasmo e empatia, nos mais de trinta anos em  que exerci.

O dia estava de aguaceiros, mas com algumas pequenas abertas. Levava a minha máquina fotográfica que, apesar de estar na garantia, pifou,  julgo que devido a pilhas, e  fui obrigado a desembolsar 19 Euros pelo conjunto da reportagem.

Este "voo" é dedicado às Enfermeiras Paraquedistas e demais camaradas de 1962. Seguem algumas fotos.

António Dâmaso, srgt-mor pqdt ref
Azeitão

(Seleção, revisão / fixação de texto, links,  negritos, título: LG)
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 Nota do editor LG:

(*) Vd. poste de (*) Vd. poste de 23 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28373: In Memoriam (585): António Dâmaso, SMor Paraquedista Reformado (12/6/1940 - †22/9/2026) das CCP 121 e 123 (Guiné, 1969/70 e 1972/74)

sábado, 10 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27622: S(C)em Comentários (86): "Foi no dia 27 de maio de 1962, numa operação de ataque a um grupo inimigo, na qual eu, capelão, livremente participei. Caímos numa emboscada, na localidade de Sanda Massala, no norte de Cabinda. À minha frente, o Hélder cai atingido e logo morreu" (Bártolo Paiva Pereira, ex-alf grad capelão, BCAÇ 321, 1961/64)


Ilustração: IA generativa (ChatGPT / Open AI),
composição orientada pelo editor LG


O alferes graduado capelão Bártolo Paiva Pereira, no norte de Cabinda, 
na floresta de Maiombe, c. 1962


 1º cabo Hélder Tavares Amaral,  CCAÇ 323 / BCAÇ 321 (Angola, 1961/64). Morto em combate em 27/5/1962.  Os seus restos mortais foram inumados em Sanda Massala, norte de Cabinda, Angola, a 8 mil km da sua terra natal, Vila Cortês da Serra, Gouveia 





Fonte: Excertos de Bártolo Paiva Pereira - "O capelão militar na guerra colonial". Edição de autor, Vila do Conde, 2025, pp. 13-18.


1. Depoimento do capelão Bártolo Paiva Pereira:

(...) Foi no dia 27 de maio de 1962, numa operação de ataque a um grupo inimigo, na qual eu, capelã0, livremente participei.

Caímos numa emboscada, na localidade de Sanda Massala, no norte de Cabinda. À minha frente, o Hélder, cai atingido e logo morreu. (...) (pág, 17)

São talvez as duas páginas, as 17 e 18, mais pessoais, mais sentidas, do autor do livro "O capelão militar na guerra colonial" (2025): com 26 anos, minhoto, solteiro, sacerdote católico, acabado de ordenar (há ano e meio), "soldado sem instrução" (sic), oferece-se para o serviço religioso do exército em 1961, já em plena guerra de Angola,

Graduado em alferes capelão, segue com o BCAÇ 321 para Angola já no último trimestre de 1961. Descobre uma nova "família", a sua terceira (depois da família biológica e do seminário). E descobre que a sua Pátria é o Hélder...

No dia 27 de maio de 1962, sete meses depois de chegar a Angola, participava voluntariamente numa operação, em Cabinda. O Hélder, que ia à sua morreu, morreu, de um tiro do inimigo.

Como se fora um epitáfio, escreveu: "A minha Pátria é o Hélder" (pp. 17/18).


2. Comentário do editor LG:

Quem disse que os capelães militares não iam à guerra ? Isto é, não podiam "sair para o mato", integrados  ("embebbed") em grupos de combate ? 

 Não era muito frequente, não era normal, nem sequer era desejável... Na verdade, eram recursos raros, escassos, preciosos. Havia, em geral, 1 capelão e 1 médico por batalhão (=600 homens).

Mas foi ali, nesse dia, que o padre Bártolo, natural de Santo Tirso,  descobriu verdadeiramente o que era a Pátria. Não, não é uma figura de retórica, a Pátria são as pessoas, as pessoas que têm uma identidade, um rosto, uma história de vida: a Pátria são os nossos camaradas, antes de mais.

(...) "A minha Pátria andava mal definida no coração (...). O meu patriotismo nunca me levou às terras carismáticas do mundo e dos homens. Nem aos Lugares Santos. Nunca visitei o cemitério de Vimieiro. Nem me sai da cabeça a cova, onde enterrámos o Hélder" (...) (pág. 17).

(...) A cova onde enterrámos o Hélder foi logo ali, após o inimigo nos deixar. O seu corpo, mais tarde, foi recuperado por camaradas, que cumpriram um dever militar" (...) (pág. 18).

 
Foi o único morto do batalhão... Comenta o antigo capelão,citando o filósofo alemão Peter Sloterdijk: 

"A ossatura simboliza o fim que cada ser vivo traz já consigo". 

E acrescenta, agora da sua lavra: "Em teatro de operações, deixar 'essa ossatura' brada aos céus. Aconteceu, infelizmente, com muitos cadáveres, no início da guerra, onde tudo era mais precipitado que arrumado" (pág. 19).
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(**) Último poste da série > 3 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27600: S(C)em Comentários (85): O que é que o PAIGC entendia por "zonas libertadas"? (Zeca Macedo, ten DFE 21, Cacheu e Bolama, 1973/74, a viver nos EUA desde 1977)

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Guiné 16/74 - P27542: Conto de Natal (26): o "tubabo" (branco), não-crente, mas africanista" (Artur Augusto Silva, 1912-1983) e o sábio muçulmano, o Cherno Rachide (1906-1993)


Ilustração: IA generativa (ChatGPT / OpenAI), composição orientada pelo editor LG

Um conto de Natal

por Artur Augusto Silva (Ilha Brava, 
Cabo Verde, 1912 - Bissau, 1983)


Noite luarenta de Dezembro …

Na povoação de Quebo, perdida no sertão da terra dos Fulas, o Tubabo conversa com o seu velho amigo, Tcherno Rachid, enquanto as pessoas graves da morança, sentadas em volta, ouvem as sábias palavras do Homem de Deus.

Esse Homem de Deus é um Fula, nascido na região, mas cujos antepassados remotos vieram, há talvez três mil anos, das margens do Nilo.

Mestre da Lei Corânica e filósofo, Tcherno Rachid ligou-se de amizade profunda com o Tubabo, o  branco, vai para quinze anos, quando este chegou à sua povoação e se lhe dirigiu em fula.

O Tubabo é também um filósofo que veio procurar em África aquela paz de consciência que o mundo europeu lhe não podia dar.

Fora, noutros tempos, um crítico de arte e um poeta, um paladino das ideias novas, e porque proclamara em concorrida assembleia de jovens que um automóvel lançado a cem quilómetros à hora era mais belo do que a Victória de Samotrácia, firmara seus créditos de «pensador profundo».

Se alguém perguntasse ao branco porque razão se encontrava ali, no coração de África, naquela noite de Natal, talvez obtivesse como resposta um simples encolher de ombros ou, talvez, ouvisse que o seu espírito necessitava daquelas palavras simples que consolam a alma dos justos e acendem uma luz no peito dos homens .

Tcherno Rachid acabara, nesse momento, de repetir as palavras do Profeta: «Nenhum homem é superior a outro senão pela sua piedade».

— Irmão — retorquiu o Tubabo — então o crente não é superior ao infiel?

— São ambos filhos de Deus  — respondeu o Tcherno  — e aos homens não compete julgar a obra do seu Criador.

Aquele que só ama os que pensam como ele, não ama os outros, antes se ama a si próprio. Só quem ama os que pensam diversamente, venera Deus, que é pai comum de todos.

Assim como tu podes adorar Deus em diversas línguas, assim podes entrar numa igreja, numa mesquita, ou numa sinagoga.

Quando vais pelo mato e admiras o grande porte de uma árvore, as penas vistosas de um pássaro, a força do elefante ou a destreza da gazela, tu murmuras uma oração que agrada a Deus, Criador de tudo o que existe, mais do que agradam as orações que só os lábios pronunciam e o coração não sente.

  — Irmão Tcherno, e aquele que não acredita em Deus, esse merece a tua estima?

Rachid semi-cerrou os olhos, alongou a mão descarnada para a lua cheia, então nascente, e disse:

 — Ouvirás a muitos que esse não merece o olhar dos homens: mas eu penso que o descrente merece mais o nosso amor do que o crente. É um companheiro de caminho que se perdeu. Devemos procurá-lo, ajudá-lo, e até levá-lo para nossa casa, a fim de repousar. É um filho de Deus como tu, como eu … como todos nós.

A lua, antes de ter em si tanta luz como a que tem hoje, esteve sete dias obscura, sem ser vista de ninguém, se não de Deus.

Ouve, irmão: quem julga que não crê em Deus, é porque acredita em si próprio e, crendo em si, já crê em Deus, porque o homem foi iluminado com o sopro Divino e é, assim, uma sua imagem.

A lua ia subindo nos céus, lenta, majestosa, iluminando a povoação e a floresta, os rios e os mares…

Os homens graves, de autoridade e conselho, aprovavam as palavras do Tcherno, e o branco, oprimido pela ideia de que lá longe, a muitos milhares de quilómetros, reunidos em volta de uma mesa de consoada, seus avós, pais e irmãos, celebravam uma festa antiquíssima e lembravam, por certo, o «filho pródigo», deixou nascer uma lágrima que se avolumou e correu pela face tisnada pelo ardente sol dos trópicos.

Artur Augusto Silva, 1962

(Revisão / fixação de texto: LG)

Nota do editor: 

Foi uma "prenda de Natal", que o meu/nosso amigo Pepito (Bissau, 1949-Lisboa, 2012) me/nos mandou há 19 anos. Um"conto de Natal", inédito, do seu pai, que amava a Guiné como poucos. 

O texto nunca foi publicado em vida. Nem sei se a censura férrea mas idiota dos coronéis o deixaria passar em 1962. Sinto que é meu dever voltar a publicá-lo. Há textos de antologia no nosso blogue. Este é um deles.  E o Pepito é, de resto, um dos históricos da Tabanca Grande, ajudou-nos a construir pontes com o seu país (ele, aliás, tinha a dupla nacionalidade). O Pepito "cá mori".
_______________

1. Análise literário do conto

Artur Augusto Silva
(1912-1983)


(i) Contexto e enquadramento

“Um conto de Natal” foi escrito em plena época colonial portuguesa e publicado em 1962, numa altura  em que a Guiné Portuguesa já vivia tensões políticas profundas. E já havia "guerra": surda, suja, "subversão  e contrassubversão".   O PAI/PAIGC já havia perdido até a essa altura dois "generais", um da ala política, Rafael Barbosa (preso em 1962, e depois levado para oTarrafal) e outro da ala militar, o Vitorino Costa (morto uns meses depois, em meados de 1962, pela tropa do cap Curto).

 O Artur Augusto Silva, advogado, intelectual e opositor do regime, defensor de "presos políticos",  escreve a partir de uma posição humanista e crítica, cruzando experiência pessoal, reflexão filosófica e observação etnográfica.

O Natal surge não como episódio cristão ritualizado, mas como pretexto simbólico para, em pleno Forreá, o “sertão da terra dos Fulas”,  fazer uma meditação universal sobre fé, fraternidade,  tolerância, paz,  convivência entre os povos. Em 1962, ele já estava na Guiné há cerca de 15 anos.

(ii) Estrutura narrativa

O conto apresenta uma estrutura simples e contemplativa, quase estática:

a) abertura descritiva:  a noite luarenta, o espaço africano, a assembleia na morança;

b) diálogo filosófico: entre o Tubabo (o branco) e o Tcherno Rachid (conhecido no nosso tempo como Cherno Rachide ou Rachid);

c) culminação simbólica: a reflexão sobre o descrente e a metáfora da lua;

d) fecho emocional; a lágrima do branco, ligada à memória familiar, a noite de consoada ( na sua ilha da Brava Cabo Verde)  e ao “filho pródigo”;

e) não há propriamente ação dramática: o centro do conto é o discurso, o diálogo entre dois homens (que pertencem a mundos diferentes, apesar da amizade), o pensamento e a emoção interior.

(iii) Personagens e simbolismo

Tcherno Rachid: 

figura de sábio muçulmano, “Homem de Deus”, mestre da Lei Corânica; representa a sabedoria ancestral africana, mas também um universalismo espiritual; as suas palavras traduzem uma ética da compaixão, humildade e inclusão; apesar de muçulmano, o Tcherno transcende qualquer dogma religioso estrito, aproximando-se de um humanismo místico e ecuménico.

 Tubabo (o branco);

Intelectual europeu desencantado, mas nascido em África, Cabo Verde; antigo crítico de arte, poeta, “pensador profundo”, amigo de Fernando Pessoa, que se autoexilou na África continental profunda, símbolo da crise espiritual do Ocidente moderno, que procura nos trópicos uma paz perdida e um espaço de liberdade (que não encontrava no Portugal europeu ao tempo do Estado Novo); vive entre dois mundos: culturalmente europeu, de origem cabo-verdiana,  existencialmente desenraizado; a lágrima final revela a sua condição de exilado moral e afetivo.

(iv)  Temas centrais

a) Universalismo religioso: o conto defende a ideia de que nenhum homem é superior por crença; Deus é uno, mas os caminhos são múltiplos; a verdadeira oração nasce do sentimento, não do ritual vazio: “Assim como tu podes adorar Deus em diversas línguas, assim podes entrar numa igreja, numa mesquita, ou numa sinagoga.”

Este discurso é notavelmente antidogmático e ecuménico (o Concílio Vaticano II começaria nesse ano de 1962) e algo até particularmente ousado no contexto colonial e confessional do Estado Novo, já em plena guerra colonial (Angola, Índia, mas também guerra "surda" na Guiné, com repressão do nacionalismo emergente; o autor é defensor de presos políticos, acusados de serem militantes ou simpatizantes do PAIGC).

 b) A valorização do “outro”: Artur Augusto Silva inverte hierarquias coloniais: o africano é o sábio; o europeu é o aprendiz; a  África não é espaço de atraso, mas de revelação espiritual, e berço de civilizações e figuras sábias.

Este gesto literário funciona como uma crítica subtil, implícita,  ao colonialismo, sem ser panfletária nem entrar no confronto aberto e direto ou na rutura como fizeram outros africanistas ( Norton de Matos, Henrique Galvão, etc ).

c) O descrente como figura ética; uma das ideias mais fortes do conto é a defesa do descrente (ou não-crente): “O descrente merece mais o nosso amor do que o crente.”

Aqui, o autor propõe uma ética da solidariedade radical, onde a fé não é critério de exclusão, mas ponto de encontro.

d) O Natal como símbolo: o Natal não é celebrado com presépio,  missa do galo, consoada, mas com diálogo, luz, reconciliação interior; o  “filho pródigo” evocado no final sugere que o verdadeiro Natal acontece no retorno interior, não no espaço geográfico.

(v) Linguagem e estilo: prosa lírica, pausada, de grande serenidade; uso simbólico da lua: luz progressiva, paciência, revelação; léxico simples, mas carregado de densidade moral; diálogo com tom quase parabólico, aproximando o texto de uma narrativa sapiencial.

A oralidade africana e o pensamento filosófico europeu fundem-se num discurso híbrido, reflexo da própria identidade do autor.

(vi) Sentido ideológico e legado: “Um conto de Natal” é um manifesto humanista disfarçado de narrativa; uma defesa da dignidade humana universal; um exemplo claro da literatura luso-africana que questiona o olhar colonial sem romper com a língua e a idiossincrasia portuguesas.

O conto antecipa valores que hoje associamos ao diálogo intercultural, à convivência religiosa, à crítica do eurocentrismo, à denúncia do racismo e do supremacismo ("Aquele que só ama os que pensam como ele, não ama os outros, antes se ama a si próprio.") 

(vii) Conclusão

Este conto confirma Artur Augusto Silva  (infelizmente falecido há muito) como um escritor de consciência ética profunda, que utiliza a literatura não para impor verdades, mas para escutar, ouvir e conhecer o outro, meditar e reconciliar.

O Natal, aqui, acontece sob a lua africana, e a sua mensagem é clara: a fé verdadeira manifesta-se no respeito pelo outro e na humildade perante a diversidade (humana, cultural, espiritual) do mundo.  

 (Pesquisa: LG + IA/ ChatGPT)

(Condensação, revisão / fixação de texto: LG) 
_____________

Notas de L.G.


(**) 15 de junho de 2005 > Guiné 63/74 - P57: O Cherno Rachide, de Aldeia Formosa (aliás, Quebo) (Luís Graça)

É um apontamento do meu diário sobre esta figura "controversa", o Cherno Rachid(e), que visitou Bambadinca, já estava lá eu há menos de 6 meses...Há algumas imprecisóes minhas,., fruto da minha igniorància na época: 

(i) é  "a autoridade máxima do Islão na Guiné";

(ii) é "o chefe ideológico (e não apenas religioso e espiritual) da casta feudal que se aliou ao colonialismo português contra o movimento nacionalista de libertação. (...)

O Cherno Baldé desmente-me: afinal, o islamismo na Guiné era multricéfalo.

(...) E, ao contrário do que muitos militares portugueses da época pensavam, ele nunca foi um agente duplo, era sim um prestigiado sábio muçulmano, versado em letras corânicas, entre outros conhecimentos esotéricos.

 Assim como não era o chefe hierárquico de nenhuma comunidade de religiosos, como acontece em outras confissões religiosas, pois nesta religião existe uma reconhecida descentralização que faz de cada comunidade e de cada mesquita uma entidade quase autónoma, sendo que é a força da sua dinâmica em movimento em permanência, assim como é a sua grande fraqueza enquanto entidade que deveria ser unida e coesa no seu todo, o que não acontece no seu caso, dai a diversidade e pluralidade nas tomadas de decisões que muitas vezes a afetam e dividem, contrariamente a muitas outras confissões monoteístas.

Dizem que o Cherno Rachide morreu em 1973 para não assistir ao advento da independência com o PAIGC como poder dominante no país. Sorte foi a sua que teve essa visão reservada só aos sábios e visionários, também eu, se tivesse dom e essa capacidade, preferiria morrer a assistir a essa "heresia" que, na Guiné-Bissau, chamaram de libertação nacional.

Liberdade teve o grande Cherno Rachide que preferiu partir desta para melhor para não ter que aturar com a brutalidade do partido "libertador". E foi um bom amigo do General Spinola, embora a sua familia fosse originária do Futa-Djalon. (...)

 6 de junho de 2025 > Guiné 61/74 - P26891: S(C)em Comentários (71): Liberdade teve o grande Cherno Rachide que preferiu partir desta para melhor para não ter que aturar com a brutalidade do partido "libertador" (Cherno Baldé, Bissau)

sexta-feira, 26 de janeiro de 2024

Guiné 61/74 - P25111: Memórias cruzadas: pistolas Walther P38 alegamente capturadas ao nosso exército, e distribuídas ao pessoal do PAIGC, ainda antes do início oficial da guerra... (José Macedo, ex-2º ten fuzileiro especial, RN, DFE 21, Cacheu e Bolama, 1973/74, a viver agora nos EUA)



A pistola Walther, P38, de 9 mm, de origem alemã, foi adoptada pelas nossas Forças Armadas, em 1961, como pistola 9 mm Walther m/961, vindo substituir a Parabellum.
Foi desde logo utilizada na guerra colonial em África (nova versão P1).  




Declaração: 
"Nós, abaixo assinados, declaramos que da mão do nosso camarada Pascoal recebemos duas pistolas marca Walther, números 770809 e 241113, com quatro carregadores 100 balas (sic) 
com cinquenta cada um.

Koundara, 3 de novembro de 1961
aa) Braima Solô (?) | Adbul Djaló


Declaração: 
"Nós, abaixo assinados, declaramos que da mão do nosso camarada Pascoal recebemos duas pistolas marca Walther, números 220868K e 214492K, com quatro carregadores 100 balas (sic) 
com cinquenta cada um.

Koundiara, 3 de novembro de 1961
aa) Pedro Gomes Ramos | Hilário Gapar Rodrigues



Fonte: Casa Comum | Fundação Mário Soares | Pasta: 07068.099.028 | Título: Declaração de recepção de pistolas | Assunto: Declaração assinada por Pedro Ramos, Hilário Gaspar Rodrigues, Braima Sôlô e Abdul Djalo, acusando a recepção de pistolas Walther. | Data: Sexta, 3 de Novembro de 1961 | Fundo: DAC - Documentos Amílcar Cabral |Tipo Documental: Documentos | Página(s): 1

Citação:
(1961), "Declaração de recepção de pistolas", Fundação Mário Soares / DAC - Documentos Amílcar Cabral, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_41059 (2024-1-25)



Pistolas Walther, e respetivos números, alegadamente capturadas ao exército português pelo PAIGC. S/d, s/l.

Fonte: Casa Comum | Fundação Mário Soares |  Pasta: 07056.009.011 | Título: Pistolas Walther nas Zonas 4, 7 e 8 | Assunto: Números de série de pistolas Walther [capturadas ao exército português] nas Zonas 4, 7 e 8. | Data: s.d.Observações: Doc. Incluído no dossier intitulado Material militar (com manuscritos de Amílcar Cabral).Fundo: DAC - Documentos Amílcar CabralTipo Documental: Documentos-

Citação:
(s.d.), "Pistolas Walther nas Zonas 4, 7 e 8", Fundação Mário Soares / DAC - Documentos Amílcar Cabral, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_40992 (2024-1-25)




Pistolas Walther, para a Zona 11: "P38 9mm | 346 k ac 44 | 3375 d c/ 160 b(alas) | Data: 6/10/1962.


Fonte: Casa Comum | Fundação Mário Soares ! Pasta: 07056.009.021 | Título: Pistolas Walther para a Zona 11 | Assunto: Pistolas Walther para a Zona 11.| Data: Sábado, 6 de Outubro de 1962 | Fundo: DAC - Documentos Amílcar Cabrall | Tipo Documental: DocumentosPágina(s): 2


Citação:
(1962), "Pistolas Walther para a Zona 11", Fundação Mário Soares / DAC - Documentos Amílcar Cabral, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_41002 (2024-1-25)


(Com a devida cénia...)


  
1. Mensagem do nosso amigo e  camarada José Macedo  (ex-2º tenente fuzileiro especial, RN, DFE 21, Cacheu e Bolama, 1973/74; nasceu na Praia, Santiago, Cabo Verde, em 1951; vive nos Estados Unidos, onde é advogado; é membro da nossa Tabanca Grande desde 13/2/2008):

Data - quinta, 23/03/2023, 21:31
Assunto - Pistolas Walther


Boas noites, camarada. Espero que lá em casa estejam todos de saúde (parece as cartas do 'Nino' ao Aristides Pereira).

Tenho passado algum tempo a ler,  na Casa Comum, o Arquivo Amilcar Cabral,  e tenho encontrado alguma correspondência em que eram enviadas pistolas Walther para as diferentes Frentes. E como cada pistolas tinha o seu número de série, fico curioso em saber se seria possível identificar as  unidades a que  pertenciam as pistolas que foram capturadas.

Um abraço,

Zeca Macedo

2. Comentário de LG:

Vai ser muito difícil, se não impossível,  a alguém (incluindo o nosso especialista em armamento, o Luís Dias) (*) dar-te uma ajuda no esclarecimento desta questão... 

Tendo em conta o ano (1961 e 1962), mas também a quantidade (nos documentos acima repriduzidos são duas dezenas), é de todo imprável que estas pistolas Walher tenham sido capturadas pelo PAIGC ao exército português... 

De facto, não consta que tenha sido assaltado por forças do PAIGC (ainda PAI)  algum depósito de armamento em Bissau ou  esquadra de polícia e, muito menos, algum aquartelamento no mato (ainda havia poucos), no início dos anos 60...

E mesmo que fossem pistolas do exército português, só eventualmente no Arquivo Histórico-Militar, e com muita sorte, se poderia encontrar uma lista dessas armas "capturadas pelo IN", com os respetivos números de série... Enfim, seria como encontrar uma agulha num palheiro...  

O mais provável é estas pistolas Walther P38 (a nossa era já a P1) terem entrado clandestinamente na Guiné-Conacri, oriundas de Marrocos ou terem sido  compradas no "mercado negro" (lembro-me de Luís Cabral ter falado nisso, nas suas memórias)... Terão equipado os primeiros comandantes e comissários politicos como nosso conhecido Pedro Ramos, irmão do Domingos Ramos, que andavam a fazer trabalho essencialmente político (propaganda, recrutanento e organização) no interior do território) e ações de sabotagem ... 

O PAIGC oficialmente começou a guerra (dos tiros)  em 23 de janeiro de 1963, com um ataque a Tite.  No meu tempo (1969/71), eles já usavam a pistola russa Tokarev (a CCAÇ 12 apanhou uma a um guerrilheiro: vd foto a seguir)...

De qualquer modo, obrigado pela tua questão. Pode ser que algum camarada tenha mais alguma informação adicional. (**)



Uma pistola de origem soviética, Tokarev, de 7,62, igual ou parecida à que que foi apreendida ao guerrilheiro Festa Na Lona, na Ponta do Inglês, no decurso da Op Safira Única ... Pelo que me recordo, esta pistola ficou à guarda do Alf Mil Abel Maria Rodrigues, comandante do 3º Grupo de Combate, que a tomou como "ronco"... Não sei se a conseguiu trazer para o Continente e legalizá-la... Ao que parece, esta arma teve a sua estreia na Guerra Civil de Espanha, em 1936, nas fileiras do exército republicano, estando distribuída a pilotos e tripulações de tanques, entre outros... (LG).

Fonte: © Kentaur, República Checa (2006)(com a devida vénia...)
 (link descontinuado:
 http://www.kentaurzbrane.cz/shop/images/sklady/tokarev.jpg )

_________________

Notas do editor:

(*) Vd. postes de:

(...) A pistola Walther P-38 é uma arma semi-automática, com origem na Alemanha (fábrica Carl Walther), datada originalmente de 1938 e foi a substituta da Luger, como a principal pistola alemã da IIª Guerra Mundial, com provas dadas em diversos teatros de guerra. Em meados dos anos 50, foi seleccionada para equipar o novo Exército da RFA e, com ligeiras alterações, passou a denominar-se P1 e é este modelo que veio para Portugal, passando a ser a pistola das guerras de África. (...)

(**) Último poste da série >  16 de janeiro de  2024 > Guiné 61/74 - P25076: Memórias cruzadas: o que o PAIGC sabia sobre Bubaque, em 1969... "O antigo governador Schulz ia lá de vez em quando, com outros militares e algumas mulheres. O atual governador nunca lá esteve morado. Foi só visitar."...

sexta-feira, 9 de dezembro de 2022

Guiné 61/74 - P23857: Efemérides (378): a crise académica de 1962 que, para muitos estudantes, futuros oficiais milicianos, foi o início da sua tomada de consciência cívica e política

 






Não é referido, certamente por lapso,  que, em 9 de março, se rrealiza em Coimbra o I Encontro Nacional de Estudantes (apesar de proibido), e do qual sai a criação do Secretariado Nacional dos Estudantes Portugueses (de que o Eurico Figueiredo é o líder). Em 10 e 11 de maio a polícia toma de assalto a Associação Académica de Coimbra.

Fonte: Excerto de  PCP - Crise académica 1962 - 40 anos (documento em pdf, três páginas) (com a devida vénia)


1. Há quem fale nos 100 dias que abalaram o regime do Estado Novo. O regime não caiu, nem houve nenhum golpe de Estadou e muito menos revolução....

 Foram "apenas" três meses (de março a junho de 1962) de forte contestação da população universitária (sobretudo em Lisboa e Coimbra mas também no Porto), seguida de brutal repressão. 

Para muitos estudantes foi o início da sua "politização" e militância cívica a favor da liberdade (*). Conheceram a brutalidade da polícia política, da polícia de choque, dos canhões de água com tinta azul e, muitas dezenas, as prisões políticas e os tribunais plenários do regime. Outras dezenas viram as suas carreiras académicas interrompidas... E tudo isso teve consequências, a prazo, na "contaminação pelo vírús subversivo" dos quartéis e depois nos teatros de operações de Angola, Guiné e Moçambique. 

Tudo começou com a proibição das comemorações, nesse ano, do Dia do Estudante. Em Lisboa era reitor o Marcello Caetano, que se demitirá em 5 de abril. Uma atitude de que Salazar não terá gostado...  Para Salazar, tudo não passava de agitação comunista, com o inimigo interno, o Partido Comunista Português (PCP), clandestino, a ser utilizado como "títere" por Moscovo... Diz-se que, em conselho de ministros, ele terá dito: "Temos de dar cabo deles, antes que eles que dêem cabo de nós, sentando-se nestas cadeiras daqui a dez anos"... (Talvez parodiando esta frase, algo premonitória,  vinte e tal depois irá aparecer um provedor de uma conhecida misericórdia a dizer mais ou menos o mesmo, mas em termos ainda mais deliciosos: "É preciso tomar conta dos pobres, antes que os pobres tomem conta de nós"...).

Ora a grande maioria dos estudantes universitários eram oriundos dos meios sociais que apoiavam o regime (classe média e média alta)... A universidade formava as elites e era então ainda muito elitista... O Salazar ( e depois Caetano) arranjou foi uma guerra pemanente, com o movimento estudantil que, em 1962, era constituido por gente que não tinha grande "ideais políticos" (mas outros já militivam em organizações católicas abertas ao espírito do Concílio Vaticano II), como o mosso falecido camarada José Pardete Ferreira) (*), e onde as mulheres começam também já a ter algum protagonismo... 

Outras "crises académicas" , ainda mais graves, como as de 1969 e 1973,  são a prova do divórcio irredutível e irreversível, em relação ao regime, por parte da população jovem que estudava (nos liceus, das capitais de distrito,  e nas universidade de Lisboa, Coimbra e Porto),  divórcio esse agravado pela "eternização" do problema ultramarino... (Eu tinha 14 anos no início da guerra de Angola e logo na altura, em 15 de março de 1961,  tive um estranho pressentimento, ou premonição, de que aquela guerra também ia sobrar para mim; não foi a da Angola, foi a da Guiné, oito anos depois...).

Se é verdade que a PIDE acabou, no fim,  por desmantelar a rede clandestina de estudantes universitários ligados ao PCP e prender os principais "cabecilhas" (caso, por exemplo, de militantes como Eurico Figueiredo ou José Bernardino), o regime acabou  por cavar um fosso em relação  ao movimento estudantil português, o que se vai reflectir, naturalmente, nas três frentes da guerra de África / guerra do Ultramar / guerra cololonial. 

A grande maioria dos nossos leitores não participaram nestes acontecimentos nem terão,  muito provavelmente, ainda hoje, grande informação sobre o que se passou em 1962, e as suas eventuais consequências... Até porque a censura nem sequer deixava que as coisas chegassem aos jornais, à rádio, à televisão...

À distância de 60 anos,  estamos já no domínio da História, razão por que achámos oportuno fazer referência, mesmo que sumária, a esta efeméride (**)... (LG)




Fonte: Guya Accornero - Efervescência Estudantil: Estudantes, acção contenciosa e processo político no final do Estado Novo (1956-1974). Doutoramento em Ciências Sociais. Especialidade de Sociologia Histórica, Lisboa, Universidade de Lisboa, Instituto de Ciências Sociais, 2009. Tese orientada pelo Prof. Doutor Manuel Villaverde Cabral. Tese financiada pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), fundos nacionais do Ministério da Ciência Tecnologia e o Ensino Superior (MCTES), Referência SFRH/BD/23008/2005. 

Disponível em http://hdl.handle.net/10451/321 (Com a devida vénia...)


Efervescência Estudantil - Resumo (Accornero, 2009)

O movimento estudantil, um dos mais activos contra o Estado Novo nas suas últimas décadas, intensificou-se a partir de 1956, quando os estudantes conseguiram bloquear a tentativa do Governo de pôr as associações académicas sob o seu controlo. 

Isso coincidiu com uma conjuntura internacional que provocou profundas consequências na política contenciosa. O XXº Congresso do PCUS [Partido Comunista da União Soviética] com as consequentes crises nos países satélites da União Soviética e com a eclosão do conflito com a China, e o Civil Rights Movements nos Estados Unidos, foram os elementos mais salientes. 

A nível interno, os seus efeitos foram amplificados pela campanha eleitoral do General Humberto Delgado em 1958 e pelo início da guerra colonial em 1961. 

Estes factores contribuíram para a emergência em Portugal de um amplo ciclo de protesto, que concorreu para a politização do sector estudantil e na sua fase final, caracterizada por uma forte repressão, para a radicalização da oposição política, com o aparecimento das primeiras formações maoístas. 

Em 1967 inícia-se um segundo ciclo de protesto, cuja trajectória difusa motiva a definição de “conflitualidade permanente”, impulsionado pela “descompressão política” iniciada por Marcelo Caetano em 1968 e pela contestação estudantil que, sobretudo com o “Maio de ‘68”, estava a eclodir em toda Europa. 

As últimas fases da luta contra o regime foi dominada pelo issue da guerra colonial e por um forte movimento de resistência à incorporação militar. A mobilização e politização estudantil, por seu lado, estendeu-se através um mecanismo de difusão a variados sectores sociais, como o das Forças Armadas, e contribuiu para criar as condições para a mobilização que caracterizou a primeira fase da transição portuguesa, aberta pela Revolução de 25 de Abril 1974. Este ciclo de protesto confluirá portanto no chamado Processo Revolucionário em Curso (PREC), começando a refluir só depois das eleições de 25 de Abril 1975.

(Reproduzido com a devida vénia...)

_________

Notas do editor:

(*) Vd. poste de 7 de dezembro de 2022 > Guiné 61/74 - P23852: Notas de leitura (1529): Paparratos e João Pekoff: as criaturas e o criador, J. Pardete Ferreira - Parte IV: Os cafés de estudantes e a crise académica de 1962 em Lisboa (Luís Graça)


quarta-feira, 7 de dezembro de 2022

Guiné 61/74 - P23852: Notas de leitura (1529): Paparratos e João Pekoff: as criaturas e o criador, J. Pardete Ferreira - Parte IV: Os cafés de estudantes e a crise académica de 1962 em Lisboa (Luís Graça)

 


Capa do livro de José  Pardete  Ferreira - O paparratos : novas crónicas da Guiné : 1969-1971. Lisboa : Prefácio, D.L. 2004. 169 p., [12] p. il. : il. ; 24 cm. (História militar. Memórias de guerra). ISBN 972-8816-27-8.

1. O ex-alf mil médico José Pardete Ferreira (1941-2021), membro da nossa Tabanca Grande,  que, infelizmente,  nos deixou há quase dois anos (em janeiro de 2021),  é o autor de "O paparratos", um livro que pode ser classificado  como um misto de narrativa histórica e de autobiografia,  em que a realidade e a ficção se misturam. Já fizemos, no passado,  três notas de leitura do livro (*),

A obra, a que o autor chama "romance", tem como subtítulo "novas crónicas da Guiné, 1969/71". Mas o arco temporal da acção   é maior, abarcando, no essencial, a década de sessenta e de setenta (até ao 25 de Abril), com dois acontecimentos marcantes de que o autor foi, ele próprio, protagonista: (i)  a crise académica de 1962; e (ii)  e a sua mobilização, em fevereiro de 1969, para o teatro de operações da Guiné, como alferes mil médico.

 Uma das personagens da narrativa é o João Pekoff (um "alter ego" do autor, José Pardete), apresentado como estudante activista da crise académica de 1962, em Lisboa, ligado à JUC - Juventude Universitária Carólica,  e depois médico no CAOP, em Teixeira Pinto  (de fevereiro a junho de 1969) e no HM 241, em Bissau (até ao princípio de 1971).

Lisboeta, nascido em 1941, filho único, morava, com os pais, no Bairro das Colónias, frequentando, desde cedo, o Café Colonial (que ainda hoje existe, na Av Almirante Reis, aos Anjos; inaugurado em 1934, foi tertúlia e café de estudantes, transformado entretanto em pastelaria, em 1978, hoje Café Pastelaria Colonial).

João Peckoff / José Pardete passou pela Mocidade Portuguesa e a JEC (Juventude Estudantil Católica), enquanto estudante de liceu, e depois pela Acção Católica, a JUC e a Pax Romana - Movimento Internacional de Estudantes Católicos, enquanto estudante de medicina.  Praticou desporto de alta competição na CDUL e no Sporting (onde foi, nomeadamente, guarda-redes nas equipas de andebol)...Além de cirurgião, especializou-se mais tarde em medicina desportiva...

Participou também na organização da assembleia mundial do Movimento Internacional de Estudantes Católicos — Pax Romana, que se realizou em Lisboa, 1960 (vd. cap 16º, "A Pax Romana", pp. 111), ao lado de outros católicos portugueses, como Antero Silva Guerra / António Sousa Franco (?),   Márcia Luisa Piriquita / Maria de Lurdes Pintassilgo, Telma Santana Guera / Teresa Santa Clara Gomes... e outros/as (que não conseguimos identificar). 

2. Interessa-nos dar a conhecer, melhor, aos nossos leitores, essa época da Lisboa dos anos 60, e nomeadamente da crise académica de 1962, vista pelos olhos de João Pekoff, sobre o qual, aliás, o autor diz que  "não tinha grande formação política" (p. 47), o que não o impede ser um dos  "atores" que pisaram o "campus universitário" desse ano histórico (e sobretudo  sua testemunha privilegiada e, ao mesmo tempo,  um crítico da liderança estudantil em Lisboa)... 

Delicioso, como já o dissemos,  é o retrato que ele faz faz de alguns dos históricos dirigentes  do movimento estudantil dessa época: não é difícil descobrir por detrás do pseudónimo Ernesto Figueira, estudante de medicina, a  figura do futuro psiquiatra Eurico Figueiredo (n. 1939, em Vila Real), ou do João Santos, estudante de direito, o futuro presidente da República, Jorge Sampaio. Ambos frequentavam, tal como o João Pekoff, o Café Roma, junto à Praça de Londres, na Av de Roma (pp.  23 e ss). 

Também achámos, na altura, interessante "a ronda dos cafés" (pp. 81 e ss.), uma reconstituição do roteiro histórico dos cafés de estudantes e tertúlias da Lisboa dos anos 50, 60 e 70 (até ao 25 de Abril). Tínhamos prometido falar deste roteiro. Surge agora a oportunidade.(**)

Mal ou bem, os cafés das Avenidas Novas (Roma, Vá-Vá, Monte Carlo...) estão associados, nos anos 50/60/70, à boémia estudantil, animação cultural e sobretudo uma certa atmosfera de "contestação e conspiração" dos jovens que frequentavam a universidade naquele tempo em Lisboa (nomeadamente a Universidade Clássica de Lisboa: letras, direito, filosofia, história...;  mas  também a Universidade Técnica de Lisboa (UTL), frequentada igualmente pelos alunos da Academia Militar que cursavam as engenharias, sem esquecer, na 7ª colina, no Quelhas, o Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras (ISCEF), hoje ISEG. (Desde os anos 30 que estava integrado na UTL.) 

Ainda não havia em 1962, o ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa (criado em 1972, no Campo Grande e depois com instalações modernas (que eu fui inaugurar) na Av das Forças Armadas. A sua criação está associada ao nome de outro "católico progressista", o Adérito Sedas Nunes.

Já existia, isso, sim, o Instituto Superior de Ciências Sociais e Política Ultramarina (ISCSPU), designação criada em 1962, para o antigo Instituto Superior de Estudos Ultramarinos (ISEU), herdeiro da Escola Superior Colonial (fundada em 1906)... Mas em 1962 era rapaziada ordeira, "situacionista", que tinha emprego garantido no Utramar português, como admistradores coloniais, antropólogos, assistentes sociais, etc. O que não impediu que a contestação estudantil de 1969 lá chegasse, e forte, sobretudo entre a malta de economia... E, claro, também ainda não havia a Universidade Nova de Lisboa, criada no fim do marcelismo, em 11 de agosto de 1973...

Fiquemo-nos pela "cidade universitária", circunscrita ao Campo Grande/Saldanha, ou seja, afinal, à Universidade Clássica de Lisboa.... Dizia-se que o Salazar, provinciano e coimbrão, sempre quis, em Lisboa, os diferentes estabelecimentos de ensino superior universitário, "higienicamente" separados no espaço... Ele lá tinha as suas razões.

O maior destaque é dado ao Café Roma... Mas havia outros cafés frequentados por estudantes, escritores, intelectuais, jornalistas, homens e mulheres do cinema e do teatro,  e demais figuras da vida cultural da cidade no início dos anos 60:

(...) Continuando a ronda alargada dos cafés lisboetas que acolhiam estudantes, é de lembrar o Café Minabela, na Amadora,  não esquecer o Café Monte Carlo, onde pontuava o imponente Pena Peres  [não descortinamos quem fosse o personagem por detrás deste pseudónimo]. , nem a Leitaria próxima, na Duque d'Ávila, que tinha sofrido uma carga a cavalo da GNR (...). 

Não se olvida , do mesmo modo, o Monumental, nem o D. Rodrigo, na Avenida D. Rodrigo da Cunha, aquela via larga que liga a Avenida Gago Coutinho às traseiras da Igreja de São João de Brito, em Alvalade. No D. Rodrigo um castiço trauteava, quase em permanência, as canções de Jacques Brel, muito em voga naquele período, tais como "Le Diable"  e "Les Flamandes" (...).

Provavelmente o mais famoso e icónicos dos cafés desta época é o Monte Carlo, a par do Vá-Vá, duas referências obrigatórias dos roteiros históricos dos cafés lisboetas da época ... Mas, ainda de acordo com o autor que temos vindo a citar:

(...) A Pastelaria Biarritz e a Casa dos Caracóis (...) mantêm-se de pedra e cal. Já o mesmo não se pode dizer do celebérrimo Monte Carlo que deu lugar a uma loja de uma cadeia espanhola de venda de vestuário  [Zara].  Tão pouco o Monumental cumpriu as promessas de antanho. (...). (pág,  81).

(...) É um risco calculado não se citar  com deferência o Vává, o Londres, a Mexicana, e tantos, tantos, tantos mais que, embora omissos, bem por sombras estão esquecidos. Neles, não eram só os estudantes que faziam pulsar a cidade e que viviam 'nessa Lisboa que eu amo', como diz a marcha (...).

Como em Lisboa não havia a típica república da Academia de Coimbra, cada estudante  vvivia com uma família, que por vezes coincidia com a sua, em quarto alugado, ou em algunas das poucas casas próprias para estudantes (...) (pág. 82).

Pardete Ferreira descreve muito bem o que era "o Café, naquete tempo",  enquanto local de sociabilidade (pág. 85):

(...) Era um local onde nasciam e eram alimentadas amizades que perduaravam ao longo de uma vida inteira. Tal como no mato.  Aquela instituição substituia, com naturalidade, aquela grande árvore do largo da igreja lá da aldeia, em torno da qual as gentes se sentavam para cavaquear, cultivando assim a camaradagem e a amizade. (...) Hoje,  o Café está ultrapassado e a maioria das pessoas já não o usa como tertúlia, nem os estidantes o utilizam  como local de estudo institucionalizado".

Estamos de resto a falar de uma época, os primeiros anos da década de 60, em que a população universitária lisboeta seria ainda da ordem dos  escassos milhares (c. 12 mil - 15 mil), oriundos da classe média e classe média alta, com apenas uma irrisória representação (da ordem dos 6-7%) das classes trabalhadoras, segundo um estudo do sociólogo Sedas Nunes.

E conclui o autor de "O Paparratos":

(...) Poderá parecer que se tenta dizer que o Portugal de hoje nasceu à volta da mesa de um Café, algures em Lisboa, provavelmente no Roma, saboreando um bica que ia arrefecendo, fumando um cigarro (...). Pensa-se não ser questionável que muitos dos estudantes de 1962 e seguintes, tornados oficiais milicianos, nados e criados tal e qual como o Paparratos, em qualquer aldeia anónima deste país ou em urbe mais ampla, também tenham sido o fermento de um modo de pensar (...) que, uma vez consolidado, permitiu que a sociedade portuguesa acolhesse com tanto entusiasmo os acontecimentos de 1974 (...) (pág. 84.)


3. O Pardete Ferreira dedica o capítulo II, de "O Paparratos",  ao café Roma (pp. 23-28), que descreve nestes termos:

(...) Em Lisboa, junto à Praça de Londres, na Avenida de Roma,  havia um café com cerca de duzentos metros quadrados que dava pelo nome de Roma.  Era um lugar preferencialmente frequentado por estudantes que, a troco de uma simples bica e de um copo de água, nele faziam biblioteca, com livros, sebentas,  cadernos, papéis e outros objectos  ligados à vida escolar pejando as mesas e cadeiras" (pág. 23).

Dois dos conhecidos líderes da crise estudantil de 1962 frequentavam o Roma: o José Santos (pseudónimo de Jorge Sampaio), já licenciado  em direito (em 1961), e Ernesto Figueira (pseudónimo de Eurico Figueiredo, n. 1939, em Vila Real), estudante de medicina, futuro pisquiatra.

Jorge Sampaio (1939-2021) foi presidente da Associação Académica da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, em 1959-1960 e em 1960-1961, e secretário-geral da Reunião Inter-Associações Académicas (RIA), em 1961-1962.

O João Santos /Jorge Sampaio é descrito, em "O Paparratos", nestes termos, de fino recorte literário:

(...) Numa das mesas do fundo, no lado essquerdo de quem entrava,  não muito longe do balcão, tinha foral um rapaz de vinte e tal anos, discretamente sobre o ruivo, testa alta, olhos não muito exressivos, por vezes parecendo duros, metálicos, de tom azulado, transportando óculos grossos. Possuía tez clara, era algo magro e tinha uma estatura ligeiramente superior à média. Vestia preferencialmente fato  azul, não muito escuro, sendo a gravata quase sempre a condizer com este último, repousando sobre leito de camisa branca. Interrompia frequentemente o estudo  e passava grande parte das suas tardes a ler Camus ou o último Libération que comprara nas bancas" (...) (pág. 23).

(...) Filho de boas famílias, educado no estrangeiro (...), o José Santos tinha sobretudo a estrutura de um ideólogo. Paradoxalmente, não tinha ainda ideais muito claras e, mesmo desprovido de um carisma marcado de líder, impunha-se pela cordialidade de um discurso escorreito e pela conversa erudita, apoiada em citações de Camus, não descurando Nietzsche, Kant, Engels, Marx e Lenine, à mistura de Baudelaire e Jean-Jacques Rousseau ou, ocasionalmente Voltaire" (pág. 25).

Além disso, "confessava-se agnóstico. Com frequência, era o centro de atenções, juntando à sua volta uma meia dúzia de interlocutores, a  quem por vezes se via obrigado a pagar a despesa (...). Cursava direito e não  escondia uma certa ambição" (...).

João Santos e Ernesto Figueira encontravam-se com frequência no Café Roma, mesmo pejado de informadores da "Pevide" (PIDE), a começar pelos empregados de mesa.  Enquanto o primeiro era "uma  espécie de ideólogo" , o segundo era o "comandante operacional do movimento estudantil" (pág. 35).  

Também se encontravam na Cantina Universitária. Os estudantes também frequentavam o bar do Estádio Universitário onde "por mais cinco ou dez tostões", se comia "francamente melhor" do que na Cantina. "O bitoque, o pão, a imperial e a bica, por doze escudos e cinquenta centavos  [equivalente, a preços de hoje, a 6 euros].

A crise académica de 1962, em Lisboa, é desencadeada quando, a 24 de março,  o Governo de Salazar proíbe, estupidamente,  as comemorações tradicionais do Dia do Estudante, tendo a  Polícia de Choque invadido a Cidade Universitária, e carregado sobre centenas de jovens, rapazes e raparigas.  

Passados dois dias, os estudantes de  todas as escolas superiores de Lisboa declaram "luto académico" (na prática, greve geral às aulas, usando uma forma de luta que era proibida pelo regime). Mês e meio depois, a 9 de maio, há uma escalada do conflito, com a adoção, num plenário de estudantes,  de uma nova forma de protesto: uma greve de fome coletiva, na cantina. 

A medida, arriscada,  for proposta por Eurico Figueiredo e seguida por centenas de estudantes como António Correia de Campos, que eu vou encontrar mais tarde como colega na Escola Nacional de Saúde Pública.

A 11 de maio, a cantina foi cercada pela polícia de choque e os estudantes foram detidos (cerca de 800, segundo a versão da PSP ou cerca de 1200 segundo as associações de estudantes). Terá sido a maior operação policial realizada pelo Estado Novo.

Seguiu-se uma enorme onda de indignação, tendo todos os estudantes detidos sido libertados  libertados a 14 de maio. Entretanto, um mês depois, em 14 de junho, um plenário realizado no Instituto Superior Técnico ditou o levantamento da greve.

Um despacho ministerial em final de junho  veio punir 21 grevistas com uma pena de expulsão, durante 30 meses, de todas as escolas de Lisboa.

Mas "poucos foram efetivamente convocados para a primeira incorporação militar que se seguiu ao Luto Académico" (...) "A grande maioria voltou progreessivamente  à sua vida habitual" (...) (pág. 39). Afinal, ninguém queria perder o ano, e isso explica que o fim do "Luto Académico" (eufemismo para não se dizer greve...) foi recebido com alívio... Mas a verddae é que nada ficou como dantes...

Jorge Sampaio, Eurico Figueiredo, Medeiros Ferreira e outros dirigentes estiveram detidos.

A crise académica de 1962 foi um acontecimento de grande significado político e sociológico. Hoje, passados 60 anos, alguns dos seus protagonistas recordam a resposta do movimento estudantil à repressão salazarista.  Caso de António Correia de Campos, antigo ministro da saúde, e conhecido dirigente socialista, em entrevista à Lusa, em 22/3/2022, e citado pelo "Observador":  (..) " enumera três 'dirigentes de grande envergadura', cujo papel foi determinante na gestão da crise: Jorge Sampaio, no centro ideológico — sociais democratas, mais socialistas, Eurico Figueiredo, então militante do PCP, e Vítor Wengorovius, o católico progressista." 

Mais houve mais dirigentes estudantis, a merecer destaque: Alberto Torres da Silva, Afonso de Barros, Manuel Lucena e José Medeiros Ferreira (que viria a suceder a Jorge Sampaio como secretário-geral da Reunião Inter-Associações,  a RIA). Poucos mas corajosos foram os professores que se solidariezra,m com os estudantes, como Lindley Cintra ou Pereira de Moura, por exemplo.

Octávio Quintela, em "Algumas considerações a propósito da crise académica de 1962" (Ler História, 62, 2012, pp. 187/192) escreveu:

(...) A greve de 1962, na sequência da proibição do Dia do Estudante, foi o resultado da luta de milhares de jovens católicos, sem partido, mas muito também da ação dos comunistas. Em cada Faculdade de Lisboa é possível destacar três ou quatro ativistas de um vasto conjunto:

(i) Em Direito, Jorge Sampaio, Vítor Wengorvius, Correia de Campos, J. Felismino, Macaísta Malheiros, Pedro Ramos de Almeida. 

(ii) Em Letras, Medeiros Ferreira, Mário S. M. Cardia, João Paulo Monteiro, Alberto Teixeira Ribeiro, Maria Assunção Franco, Maria João Gerardo e eu próprio;

(iii) Em Ciências, António Ribeiro e Ernani Pinto Basto;

(iv) Em Medicina, Isabel do Carmo, Rui de Oliveira, Eurico Figueiredo, Alexandre Ribeiro, Dante Marques;

(v) No Técnico, João Cravinho, Crisóstomo Teixeira e José Bernardino." (...)

Curiosamente não sabemos em que ponto ficou a situação militar destes jovens. Relatuvamente a Jorge Samapio, sabemos que ficou isento do serviço militar, pro razões de saúde.

Alguns terão ido parar á Guiné. É o caso de José Augusto Rocha (1938-2018), que foi alf mil, CCAÇ 557, (Cachil, Bissau e Bafatá, 1963/65): director da Associação Académica de Coimbra, em 1962, foi expulso de todas as Escolas Nacionais, por dois anos, na sequência da crise académica de 62, esteve preso no Forte de Caxias; liberto sem culpa formada, ao fim de 4 meses, acabando por ser chamado para a tropa e mobilizado para o CTIG. (Só terminaria a licenciatura em direito, na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, depois de ter regressado do TO da Guiné, em novembro de 1965.)

Um outro caso, mais conhecido dos leitores do nosso blogue, é o do açoriano José Medeiros Ferreira (1942-2014) (tem 7 referências): depois de se destacar na crise estudantil de 1962, foi chamado em 1967 a cunprir o serviço militar; mobilizado para a Guiné, não comparaceu ao embarque da sua companhia, a CCAÇ 2402 (Có, Mansabá e Olossato)/ BCAÇ 2851 (Mansabá e Galomaro) (1968/70), no T/T/ Uíge, em 24 de julho de 1968.

È provavelmente o mais conhecido dos desertores da guerra colonial: viveu na Suiça, onde se licenciou em História, pela Universidade de Genebra (1972). Depois do 25 de abril, foi eleito deputado à Assembleia Constituinte (1975), pelo Partido Socialista, e exerceu o cargo de Ministro dos Negócios Estrangeiros do I Governo Constitucional (1976–1978), chefido por Mário Soares. Foi professor universitário (Faculdade de Ciências Sociais, Universidade NOVA de Lisboa).



Amadora > RI 1 > 1968 > CCAÇ 2402, em formação > De pé e da esquerda para a direita, o Raul Albino, o Francisco Silva e o Medeiros Ferreira, aspirantes milicianos.  [Os dois primeiros são membros da nossa Tabanca Grande, e o Raul, infelizmente já falecido.]

O João Bonifácio, ex-furriel mil SAM, CCAÇ 2402 (Có, Mansabá e Olossato, 1968/70) e que vive no Canadá, evocou aqui no poste P1592, o exemplo do Medeiros Ferreira que, como é publicamente sabido, não compareceu ao embarque, para a Guiné . Ele é, das nossas figuras públicas, talvez o mais conhecido dos desertores da guerra colonial.

Na foto acima, o antigo Ministro dos Negócios Estrangeiros de Mário Soares (I Governo Constitucional, 1976/78), historiador e professor universitário (FSCH/NOVA), já falecido, José Medeiros Ferreira (Ponta Delgada, 1942 - Lisboa, 2014), aparece assinalado com um círculo a vermelho.  

Foto (e legenda) : © Raul Albino (2006). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

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Notas do editor:

(*) Vd. postes de:

15 de março de 2021 > Guiné 61/74 - P22008: Notas de leitura (1346): Paparratos e João Pekoff: as criaturas e o criador, J. Pardete Ferreira - Parte III: Rui Angel, aliás, Pedro Rodriguez Peralta, capitão do exército cubano, o mais famoso prisioneiro da guerra colonial... Aqui tratado com humor desconcertante (e humanidade) (Luís Graça)

23 de fevereiro de 2021 > Guiné 61/74 - P21939: Notas de leitura (1343): Paparratos e João Pekoff: as criaturas e o criador, J. Pardete Ferreira - Parte II: os "mentideros' de Bissau (Biafra, 5ª Rep) e ainda e sempre a retirada de Madina do Boé (Luís Graça)

 
(**) Último poste da série > 5 de dezembro de 2022 > Guiné 61/74 - P23848: Notas de leitura (1528): Guevara versus Amílcar Cabral: Divergências estratégicas na guerrilha (1) (Mário Beja Santos)